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a idade mĂŠdia


jacques le goff

com a colaboração de jean-louis schlegel

A Idade Média 2a edição

tradução de

Hortencia Santos Lencastre


Título original Le Moyen Âge expliqué aux enfants Copyright © Éditions du Seuil, 2006 projeto gráfico e capa

Mariana Newlands assistente de design

Amanda Newlands revisão

Maryanne B. Linz Taís Facina produção editorial

Juliana Romeiro

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. L528i

Le Goff, Jacques, 1924A Idade Média / Jacques Le Goff ; colaboração de Jean-Louis Schlegel ; tradução de Hortencia Lencastre. 2a ed. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. Tradução de: Le moyen âge expliqué aux enfants ISBN 978-85-209-3087-8 1. Idade Média — História — Literatura infantojuvenil. 2. Europa — História — 476-1492 — Literatura infantojuvenil. I. Schlegel, Jean-Louis, 1946-. II. Título.

09-2331

CDD: 940.1083 CDU: 94(4)”476/1492”

Texto estabelecido segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009. Todos os direitos reservados à Editora Nova Fronteira Participações S.A Rua Nova Jerusalém, 345 — CEP 21042-235 — Bonsucesso — Rio de Janeiro — RJ Tel.: (21) 3882-8200 fax: (21) 3882-8212/8313


Para meus pais Para Hanka Para Bรกrbara e Thomas


Sumário Para entrar neste livro quando se é jovem... e mais tarde, 9 1. A Idade Média, 11 2. Os cavaleiros, a dama

e

Nossa Senhora, 23

3. Castelos fortificados e catedrais, 37 4. As pessoas da Idade Média, 51 5. Os poderosos, 65 6. A religião e a unidade da Europa, 75 7. O

imaginário religioso da I dade

Média, 89

8. A cultura, 99 Conclusão O nascimento da Europa, 109 Pequena cronologia, 115


Pa r a e n t r a r n e s t e l i v r o quando se é jovem... e mais tarde É importante conhecer o passado para compreender melhor o presente, para saber em que estamos dando continuidade a ele, em que estamos nos separando dele. Os historiadores perceberam que compreendiam melhor o passado e podiam explicá-lo melhor, particularmente para as crianças e os jovens, quando o dividiam em sucessivas épocas, cada uma delas com suas características. Em relação à época que chamamos de “Idade Média”, temos dois problemas: sua duração e seu significado, pois existe uma interpretação favorável e outra desfavorável desse período. A Idade Média inspirou romances históricos aos escritores, entre os quais alguns tiveram grande sucesso, e filmes aos cineastas, desde que existe o cinema, fascinando os espectadores, particularmente as crianças. Mais uma razão para tentar explicar a vocês o que foi a Idade Média e o que ela deve representar para nós.


Capítulo 1

A Idade Média


A Idade Média

Quanto tempo durou?

A Idade Média “boa” e a “má” Aprendemos na escola que o século XVI é o século do Renascimento. Chamamos o século XVII de “classicismo”. O século XVIII é o “século das Luzes”. E a Idade Média: quando começa e quando termina? A Idade Média durou muito tempo: pelo menos mil anos! É verdade que quando falamos de Idade Média pensamos quase sempre no período que vai de 1000 a 1500. Mas ela começou pelo menos cinco séculos antes, por volta do ano 500, portanto, durante o século V depois de Cristo. O último imperador romano foi expulso de Roma e substituído por um rei bárbaro, Odoacro, em 476. É o fim do Império Romano, porém, muito mais do que esse grande acontecimento político, é também o fim da Antiguidade.


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Mas nem sempre há mudança de época toda vez que um rei desaparece, ou toda vez que uma linhagem (uma dinastia) de reis ou imperadores é extinta. É verdade: no século V depois de Cristo, houve outras mudanças muito importantes. Já no século IV, haviam começado as “grandes invasões” por povos que os romanos chamavam de “bárbaros”. Eles vieram, primeiramente, do norte (germânicos e outros povos do norte da Europa) e do oeste (celtas), mais tarde, do leste (húngaros e eslavos). A palavra “invasão” nos faz pensar em bandos de bárbaros passando como uma onda e devastando tudo. Na realidade, eram apenas pessoas que se deslocavam, pacificamente, para irem se instalar mais ao sul. Vejam os vikings: talvez vocês já tenham visto imagens onde eles são mostrados desembarcando nas costas da Normandia, no norte da França, para saquear e destruir o interior. Na verdade, é provável que fossem apenas mercadores vindos dos países do norte para comerciar — e alguns deles acabaram se instalando na França. Então, houve também mudança de religião? Sim, mas não por essa razão. A partir dos séculos IV e V, o Império Romano tinha se tornado cristão, depois que os imperadores romanos se converteram, o que significou o fim do paganismo — essa era a palavra usada pelos cristãos para designar a religião romana, com seus inúmeros deuses e deusas. Então, o paganismo desaparece — mais ou menos rapidamente, sem dúvida nunca por completo — e, pouco a pouco, vai deixando lugar para o cristianismo. Os múltiplos deuses pagãos são substituídos por um único deus, o da Bíblia (Antigo e Novo Testamento), em-


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bora o Deus dos cristãos compreenda três pessoas (o Pai, o Filho e o Espírito Santo). E os próprios bárbaros se batizam para se tornarem cristãos: na França, o mais famoso convertido é um rei franco, do qual vocês talvez já tenham ouvido falar, Clóvis (por volta do ano 500 depois de Cristo). Diz a lenda que ele se tornou cristão por insistência de sua mulher, Clotilde. Por que é uma lenda? É, eu disse de propósito: “Diz a lenda...”. Queria que vocês prestassem atenção ao fato de que, no começo da Idade Média, principalmente, os historiadores possuem poucos documentos — a narrativa da conversão de Clóvis, por exemplo — e eles não contam, necessariamente, as coisas exatamente como elas se passaram. É preciso, portanto, vê-las com um olhar crítico, comparar com outros documentos — ou outras “fontes”, como nós, os historiadores, dizemos. Aqueles que escreveram sobre esses acontecimentos tinham intenções diversas na cabeça. Nesse caso, por exemplo, tratava-se de mostrar que, desde as origens, o país que mais tarde iria se tornar a França tinha sido batizado, era cristão desde o começo. A realidade é muito mais complicada. Nossos professores também nos falam de uma “longa” Idade Média. Há uma razão para isso, pois se discute bastante para saber quando ela termina. Eu disse a vocês “por volta de 1500”, porque é assim que está nos livros escolares, é assim que ela é apresentada: segundo eles, por volta do final do século XV, primeiro na Itália e depois no resto da Europa, começa um novo período, o


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“Renascimento”; em alguns programas escolares, é o começo dos chamados tempos “modernos”. Mas, para certos historiadores, entre os quais me incluo, a Idade Média durou, na verdade, até o final do século XVIII. Por quê? Porque, resumindo, só nessa época é que três acontecimentos vão mudar tudo, completamente, na vida da sociedade (entenda-se: da sociedade ocidental europeia, e na verdade, em alguns países mais desenvolvidos como a Inglaterra, a França, a Europa do Norte). Primeiro, a ciência faz extraordinários progressos, surgem instrumentos e métodos de pesquisa cada vez mais precisos. Depois — e isso é uma consequência dos progressos realizados nas diversas ciências —, por volta do final do século XVII, começam a ser construídas e utilizadas máquinas cada vez mais eficientes, e são inventadas técnicas de produção cada vez mais rápidas. A primeira máquina a vapor surge na Inglaterra, em 1698 (graças ao francês Denis Papin e ao inglês Thomas Savery). Ou seja, é o começo daquilo que iremos chamar de “Revolução Industrial”. Finalmente, há as revoluções políticas, particularmente a Revolução Francesa, que é considerada um verdadeiro divisor de águas na história da França, da Europa, e até mesmo do mundo: ela acaba com o antigo sistema político, o “Antigo Regime”, e com o sistema chamado “feudal”, que é o próprio símbolo da Idade Média “má”. Mas de onde vem a expressão “Idade Média”? Por que “média”? Essa ideia surgiu no decorrer da própria Idade Média, principalmente perto do fim, primeiro entre estudiosos e artistas que


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sentem que os séculos transcorridos antes deles — que para nós são o coração da Idade Média — foram um intermédio, uma transição, e também um período obscuro, um tempo de declínio, em relação à Antiguidade, da qual eles têm uma imagem idealizada. Eles sentem saudades dessa civilização antiga, mais refinada (segundo eles). São principalmente os poetas italianos, chamados de “humanistas”, que tiveram esse sentimento, por volta do final do século XV e começo do século XVI. Eles achavam que os seres humanos tinham mais qualidades do que as que lhes eram atribuídas pela fé cristã medieval, que insistia no peso dos pecados do homem diante de Deus. Existe uma segunda razão. O século XVIII, principalmente — o século das Luzes, como vocês bem lembraram ainda há pouco —, conheceu uma onda de desprezo pelos homens e pela civilização da Idade Média. A imagem dominante era a de um período de obscurantismo, no qual a fé em Deus esmagava a razão dos homens. Os humanistas e os iluministas, filósofos do século das Luzes, não compreendiam a beleza e a grandeza daqueles séculos. Resumindo, a Idade “Média” é aquela que se estende entre dois períodos que são tidos como superiores: a Antiguidade e os Tempos Modernos, que começam com o Renascimento — uma palavra também muito particular, a Antiguidade “renasce”, a partir dos séculos XV e XVI, como se a Idade Média fosse um parêntese! Temos então a imagem de uma Idade Média “má”. Mas não foi essa a imagem que predominou, não é? Isso mesmo. Quem reencontrou a dimensão da bela e grandiosa Idade Média foram os escritores chamados “românticos”,


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no século XIX. Por quê? Ainda não pronunciamos a palavra “gótico”, que está colada às catedrais medievais. Mas “gótico”, que foi utilizado apenas a partir do Renascimento, queria dizer “bárbaro”. Aqueles que insistem na Idade Média “má” acham que sua arte é “bárbara”. Os românticos, pelo contrário, admiram essa arte refinada e maravilhosa que é o estilo gótico, em particular o das catedrais. Um exemplo dessa admiração, que vocês talvez conheçam, é o romance O Corcunda de Notre Dame, no qual Victor Hugo imortalizou a catedral que tem esse nome, e que acolhe sempre milhares de visitantes, no coração de Paris. Mas é preciso reconhecer: hoje em dia, as duas visões — a de uma Idade Média obscura e a de uma Idade Média dourada — sobreviveram. Ouvimos com frequência esta expressão, inclusive de pessoas instruídas: “Não estamos mais na Idade Média!” Tratar alguém ou alguma coisa de “medieval” não é propriamente um elogio... Embora não seja totalmente falso! Eu diria que a Idade Média não é o período dourado que certos românticos quiseram imaginar, mas também não é, apesar das fraquezas e aspectos dos quais não gostamos, uma época obscurantista e triste, imagem que os humanistas e os iluministas quiseram propagar. É preciso considerá-la no seu conjunto. Em relação à Antiguidade, é um período de progresso e desenvolvimento em diversos pontos, e vou mostrar isso. Existe, é verdade, uma Idade Média “má”: os senhores oprimiam os camponeses, a Igreja era intolerante e submetia os espíritos independentes (que eram chamados de “hereges”) à Inquisição, que praticava


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a tortura e matava os revoltosos nas fogueiras... Havia muita fome e muitos pobres; todos tinham medo, um medo exagerado, por exemplo, do mar e das florestas... e do diabo. Mas hoje temos outros medos que são ainda mais numerosos, e alguns mais assustadores (medo dos extraterrestres, por exemplo, ou aquele, bem real, da bomba atômica). No entanto, existe também a “bela” Idade Média, presente, principalmente, na admiração das crianças: diante dos cavaleiros, dos castelos fortificados, das catedrais, da arte românica e da arte gótica, da cor (dos vitrais, por exemplo) e da festa. Também esquecemos quase sempre que, na Idade Média, embora as mulheres ainda tivessem um lugar inferior ao dos homens, adquiriram ou conquistaram uma posição mais justa, mais igual, de mais prestígio na sociedade — posição que nunca tinham tido antes, nem mesmo em Atenas, na Antiguidade. E depois, voltaremos a falar disso com certeza, a Idade Média é o momento do nascimento da Europa! O senhor disse “Europa”... Sim, isso é muito importante: a Europa começa e se constitui com a Idade Média. A civilização da Antiguidade romana só compreendia uma parte da Europa: os territórios do sul, situados na sua maioria em torno do Mediterrâneo. A partir do século V, os países do norte (Alemanha, e depois a Escandinávia), do oeste (Bretanha, Inglaterra e Irlanda) e do leste (Hungria, países da Europa Central) foram pouco a pouco entrando num espaço político e religioso comum — que irá constituir a futura Europa.


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Podemos então dizer que a grande unidade do Império Romano terminou por volta do ano 500 depois de Cristo? Isso mesmo. Daí por diante, os novos habitantes da futura Europa vão formando grupos e se fixando em territórios de onde sairão as nações, à frente das quais haverá quase sempre um novo personagem, muito importante, do qual voltaremos a falar: o rei. E é também o fim do latim, a língua falada no Império Romano. Quanto mais ao norte ficam os que vão chegando, mais conservam sua língua de origem, com vários empréstimos de todos os tipos ao latim, é claro. Este último torna-se a língua erudita escrita, e assim será até o século XV. Nos países do sul, o latim que era falado no Império Romano evolui muito, ao longo dos séculos. Dele nasceu o grupo das “línguas latinas”: o francês, o italiano, o espanhol, o português e também, não nos esqueçamos, o romeno. O senhor acha que o estudo do latim na escola seria útil? Acho importante ter acesso à herança do passado através do latim. Para aqueles que pretendem escolher profissões ligadas às “letras” seria ótimo se pudessem estudar bastante latim. Mas os que querem se dedicar a uma profissão científica poderiam aprender menos, sem contudo deixá-lo completamente de lado. A meu ver, um mínimo de latim iria ajudá-los mais tarde. O grego, língua da parte oriental do Império Romano, foi completamente deixado de lado, no Ocidente? Sim, a parte oriental grega do Império Romano formou um mundo à parte: o Império Bizantino, pois este havia conservado à


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sua frente um imperador estabelecido em Bizâncio (ou Constantinopla). Essa cidade era também a sede da Igreja grega, chamada de ortodoxa, cujo chefe se considerava superior ao papa. O mundo cristão ocidental logo se separou politicamente (a partir do século VII) do Império Bizantino. O papa conquistou mais lentamente sua independência, que só foi alcançada definitivamente no século XI. As relações entre o cristianismo ocidental romano e o cristianismo oriental bizantino esfriaram muito e tornaram-se conflituosas. Em 1204, os cristãos romanos, a caminho da cruzada contra os muçulmanos no Oriente, tomaram e saquearam Constantinopla.



A Idade Media explicada aos meus filhos