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Edilberto Campos


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Permutação


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Permutação Edilberto Campos


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Névoa. Era a única coisa visível em Helsinque, Finlândia. O clima frio formava pequenas gotículas de água na janela da casa da família Lancaster. Caixas de papelão e caixotes de madeira substituíam os móveis da sala de estar. Com a recente mudança, a família ainda não havia arranjado tempo para organizar tudo. Charlie estava sozinha, seus pais haviam saído para resolver alguns problemas relacionados à compra do imóvel e deixaram–na tomando conta da casa. Ela estava sentada no balcão da cozinha comendo biscoitos com café, os cabelos negros estavam presos, deixando apenas sua franja exposta. Ao lado dela, Bob, seu cãozinho da raça Pomsky, latia, tentando chamar a atenção da menina. A empresa onde John, o pai de Charlie trabalhava, havia mudado de local, o que os obrigou a fazer o mesmo. Ela não conhecia ninguém da cidade, até então, a não ser Diana, a mulher da imobiliária que lhes mostrou a casa. Era uma vizinhança bem agradável. Não havia transito, barulhos altos e nem assaltos, o lugar ideal para alguém morar. No fim da rua havia uma floresta, mas pouca gente se arriscava entrar lá, com medo de se perderem, ou serem atacados por algum animal silvestre. A área era protegida por um muro, que impedia os animais de entrar. Alguns dias antes, Charlie subiu no sótão para ver o que tinha lá. Além de poeira e muita tralha, havia uma janela, que dava para ver uma boa parte do bosque. Batidas na porta cessaram o silêncio da cozinha. Bob saiu em disparada na direção do barulho, latindo. Charlie calçou suas sapatilhas e correu até a porta, colocou a chave na fechadura, e abriu. Seus pais entraram, carregando algumas caixas etiquetadas. – O que é tudo isso? – Perguntou a garota, confusa. – São algumas caixas que ficaram no carro – disse John enquanto movimentava–se em direção da cozinha. Helena, a mãe de Charlie sentou-se no sofá para procurar algo em sua bolsa. Bob correu até ela e saltou em seu colo. Ele balançava o rabo freneticamente e lambia o rosto dela. O pelo branco do animal se destacava nos fios negros do cabelo de sua dona. – Já está quase anoitecendo, – falou – acho que vou ligar para a pizzaria.


Edilberto Campos – Ótima ideia! Quero de mussarela – pediu Charlie. – Também quero de mussarela! – Gritou seu pai da cozinha. – Tudo bem. – Helena puxou o telefone no gancho – Filha, quando fomos à imobiliária, aproveitamos e passamos na sua nova escola. – E então? – Indagou Charlie. – Bem, as aulas começarão semana que vem... – Explicou. – Mas já? – Resmungou a menina – O mês ainda nem terminou. – Eu sei – continuou sua mãe –. Mas vai ser bom para você, conhecer pessoas novas, fazer novos amigos... É melhor do que ficar mexendo no jardim o dia inteiro. Você precisa ser mais sociável. Um dos hobbies preferidos de Charlie era pesquisar e mexer com plantas. Em seu quarto havia uma mesa perto da janela, onde ficava um bonsai. Na parte de trás da casa havia diversos vasos com plantas e uma enorme figueira, cuja copa servia de apoio para uma casa na árvore, que provavelmente fora construída pelos antigos donos. – Ah, querida, trouxemos uma coisa para você – anunciou Helena. – O que? – perguntou sua filha. – É um globo de neve, compramos em uma loja de suvenires que vimos no caminho – disse ela, colocando o presente nas mãos de sua filha. Queria lhe dar no seu aniversário de 16 anos, mas não consegui esperar dois meses... – Que legal, mãe. Valeu! Charlie manuseava o vidro do globo. As bolinhas de isopor que estavam paradas, agora se moviam sobre a água que cobria quase todo o objeto. A superfície transparente estava gelada, em seu centro havia uma árvore seca, e em um dos galhos uma coruja branca. – Vou subir para tomar um banho e depois ligarei para a pizzaria – disse Helena enquanto levantava-se do sofá. Charlie assentiu com a cabeça. Ela encarou o objeto por alguns segundos, pensativa, refletindo às palavras da mãe. Agora era fácil entender que era apenas uma forma de buscar algo... Dali para frente, ela se perdeu em seus pensamentos, se preocupando em como seria sua vida nos próximos meses.


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Charlie e seu cão moviam–se por entre as pilhas de caixas e móveis antigos do sótão, já bastante escuro, tomando cuidado para não derrubá-las. Ela usava a lanterna de seu celular para se guiar. Como não havia energia naquela parte da casa, e já era noite, a luz da janela que iluminava o local não estava disponível. Dispostos sobre uma prateleira de madeira estavam os livros de botânica que Charlie separou na primeira vez que foi ao lugar, e voltou para pegá-los. Já era quase meia-noite e seus pais dormiam; as aulas começariam no dia seguinte, e a menina deveria ir para a cama cedo. Ela apanhou os livros, colocou os três em uma sacola e correu na direção da escada. Bob ficou em pé arranhando um bordado antigo, preso sobre alguns arames. – Bob, vamos logo – sussurrou. Ele latiu e correu na direção da menina, que o pegou no colo e desceu as escadas. Sem fazer muito barulho, ela fechou a portinha da entrada do sótão e caminhou sorrateiramente até seu quarto. A janela próxima à escrivaninha estava aberta, Charlie resolveu fechá-la para evitar que o ambiente esfriasse mais. Enquanto girava o trinco, reparou que havia um movimento estranho na casa vizinha. Barulhos de objetos se quebrando eram ouvidos três ou quatro vezes por ela. Pela janela da outra casa, ela via um homem tentando pegar algum animal que voava. Não era um pássaro, pois possuía uma cauda, talvez fosse um morcego ou algo do tipo. Dava para ouvir os grunhidos de indignação do homem. Ele saiu da casa olhando para os lados, provavelmente o animal fugira. Apanhou uma vassoura que estava perto, e cutucou os vasos de samambaias dispostos sobre uma madeira acima de sua cabeça, mas o local permaneceu em silêncio. Este desceu as escadas da varanda, pegou uma chave extra, escondida sob a grama e voltou a observar a frente da casa. Charlie pode vê-lo melhor, era um homem de idade, moreno, alto, e estava vestindo um sobretudo preto. Depois de um tempo, ele retornou a casa, bateu a porta e apagou a luz. A menina observou o local por mais alguns minutos para ver se o animal voltava, pois estava curiosa em saber o que era aquilo. Mas nada aconteceu.


Edilberto Campos Aquela noite em especial estava um tanto fria, o que a fez ligar o aquecedor de seu quarto. Ela colocou os livros dentro de uma gaveta, desligou as luzes e se deitou. Agora desfrutava de um ambiente perfeito para um bom sono.


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Charlie passara a manhã pensando no que tinha acontecido na noite anterior. Ela havia acordado cedo para observar pela janela de seu quarto, a varanda da casa vizinha. – Charlie, vamos logo! – Gritou seu pai da sala de estar. – Já vou, só vim pegar uma coisa que eu tinha esquecido! – Vou te esperar no carro, não demore! – Ok! – Respondeu enquanto descia as escadas – Estou indo! Quando a garota chegou ao jardim, seu pai já estava com o carro fora da garagem, esperando-a. O ambiente lá fora estava mais frio do que de costume, o que fez com que ela colocasse o capuz do casaco sobre sua cabeça. O trânsito não estava tão ruim, mas a densa neblina que cobria toda a estrada, fez com que eles demorassem mais do que o esperado para chegar ao seu destino. Para evitar acidentes, a polícia orientou os motoristas a dirigirem devagar e prestar bastante atenção para não atropelarem algum animal durante o caminho. John estava atrasado para o trabalho. Ao seu lado, outros veículos estacionavam ao longo do acostamento. As pessoas que estavam dentro deles saiam e seguiam andando. – Charlie, precisamos ir andando – disse ele, apressado. – Não pai, nem pensar – a garota cruzou os braços. – Eu já estou atrasado, não vamos chegar a tempo nesse ritmo! – lamentou John. – Argh! – Resmungou – Odeio o clima nessa maldita cidade. – Para uma adolescente de 16 anos até que você se estressa bem rápido. Agora vamos. – Eu tenho 15, pai... – Disse Charlie, insatisfeita. Ele deu de ombros. Virou o carro e estacionou ao lado do meio fio. Os dois desceram.


Edilberto Campos Charlie apanhou a mochila enquanto John trancava o veículo. Na frente deles, em cima de uma caminhonete, um garoto e um homem barbudo e ruivo discutiam. – Pai, isso não vai dar certo! – falou o mais novo. – Mas é claro que vai! É só amarrar uma em cada, com uma corrente. Ou você tem uma ideia melhor? – Sugeriu o homem ruivo. – Faça o que você quiser! Depois não diga que eu não avisei – retrucou o garoto. John e sua filha passaram ao lado deles. Charlie observava a briga dos dois enquanto caminhava na direção oposta. – Ei, vocês! – Chamou o garoto. – Pai, eu acho que ele está falando com a gente – Charlie se aproximou da caminhonete. – Ahn? – John virou-se em sua direção, ajeitando os óculos – O que foi? – Vocês vão para o centro? – Perguntou o garoto. – Sim, vamos. – Charlie respondeu – Por quê? – Estávamos indo para lá também. Temos quatro bicicletas aqui, e não tem como levar todas. – Estamos ouvindo – disse a garota. – Bem... Então achei que podíamos ir todos juntos. É melhor do que ir andando, e vocês poderão chegar mais rápido. O que acham? – Sugeriu o rapaz. John hesitou. – Nós não vamos incomodar? – Por mim tudo bem – disse o homem mais velho de cima da caminhonete. – Para que parte da cidade vocês vão? – Eu vou para o escritório da Rua 22, e Charlie vai seguir para a escola Eastwood. – Minha loja fica lá perto. Vocês podem deixar as bicicletas lá e depois seguirem para seus destinos. Charlie se alegrou. O homem ruivo desceu do veículo.


Edilberto Campos – Eu sou Thomas – disse ele enquanto apertava a mão de John – esse é meu filho Peter. – John. Prazer em conhecê-los. Essa é minha filha Charlotte. – Mas pode me chamar de Charlie – ela interrompeu. – Aqui estão as bicicletas. Nós esquecemos o capacete em casa, mas se vocês não caírem nada acontecerá – Brincou Peter. Charlie deu de ombros e se voltou na direção da floresta. – A ciclovia fica do outro lado. Melhor irmos para lá antes que o movimento aqui piore – aconselhou o garoto. Como o ambiente ainda estava fosco, Charlie ainda não havia visto seu rosto. No entanto, agora que ele estava perto, ela pode enxerga-lo com mais clareza. Os cabelos amarronzados cintilavam diante de sua pele branca e de seus olhos azuis escuros. Era um rapaz forte, provavelmente fazia bastante esforço físico. Ela o observou por alguns segundos, tentando desvendar seu olhar misterioso. Peter parecia desanimado, mas ao mesmo tempo normal. Talvez fosse seu jeito. Enquanto a névoa cruzava a floresta, Charlie se afastou do meio fio. Ela resolveu seguir Peter na direção da ciclovia, junto de seu pai e Thomas. O clima estava ruim, e tendia a piorar mais a cada minuto que se passava.


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– Peter, você podia ter me dito que estudava aqui! – disse Charlie enquanto fechava a porta do armário da escola. – Você não me perguntou! – O garoto deu de ombros. – Como vamos saber em qual sala nós ficamos? – A menina apoiou a mochila nas pernas e prendeu seu cabelo. – Temos que ir até o quadro de avisos. Se eu não me engano, fica naquela direção, ao lado do refeitório – disse Peter apontando para a sua frente. Eles caminharam até o fim do corredor e dobraram na direita. Quando chegaram lá, notaram que quase metade da escola se amontoava no local. Pessoas se empurravam, outras se xingavam e algumas tentavam se esticar para ver se enxergavam alguma coisa. – Espero que você tenha um plano B – Charlie estava confusa com tudo aquilo, ela se encostou à parede, colocou sua mochila no chão e olhou para Peter esperando uma resposta de sua parte. – Pelo que eu sei, nós só podemos verificar nossos nomes naquela lista. É por isso que eu só venho no segundo dia de aula. – o jeito é esperar. Uma menina se aproximou ao lado de Charlie e abriu o armário. Ela pegou uma caixa de cigarros e colocou em seu bolso, depois bateu a portinha com força. A garota usava uma calça rasgada nos joelhos e uma camisa curta, que deixava seu piercing no umbigo à mostra. A touca branca que cobria seus cabelos roxos estava pichada com desenhos de caveiras e nomes de algumas pessoas. Peter a encarou por alguns segundos. – Perdeu algo aqui, Peter? – Ela puxou um cigarro e o acendeu, seus lábios tocaram o final do papel. A garota expeliu a fumaça de sua boca com satisfação. – Você ainda não parou com isso, Chloe? Se te pegam fazendo esse tipo de coisa, você pode até ser expulsa – disse ele enquanto se desviava de alguns alunos ao seu lado.


Edilberto Campos Charlie tossiu e abanou com as mãos a fumaça que pairava perto de sua cabeça. Chloe a observou pelo canto dos olhos por alguns segundos e voltou a fumar. Ela deu de ombros e olhou para o amontoado de pessoas que se espremiam para verificar o quadro de avisos. – Já viram em qual sala vocês ficaram? – perguntou. – Ainda não, e você? – Perguntou Charlie. – Não. Tem quase metade da cidade naquele troço. Outra onda de fumaça invadia o ar. – Estamos esperando eles saírem de lá – Comentou Peter. – Querido, você e sua amiga esquisita vão morrer esperando. Eles não vão sair de lá. – Disse Chloe enquanto se espreguiçava – A administração dessa escola é uma droga, eles sabem que todo ano isso acontece, mas tornam a colocar a porcaria das listas em um só lugar. – Eu não sou esquisita. E se você tem uma ideia melhor, pode falar. Sou toda ouvidos. – Disse Charlie, irritada. – Sigam-me – Chamou a garota. Chloe jogou o cigarro no lixo e correu até o inicio do corredor. Chegando lá, ela abriu a porta do almoxarifado com cautela. Em cima, na parede, uma plaquinha escrita “Não entre” com letras em negrito, se balançava de um lado para o outro. A garota desceu alguns degraus e se abaixou na frente de uma grade que estava trancada com um cadeado; tirou de seus bolsos um grampo e enfiou na fechadura, tentando abrir. – Que droga! Está emperrada. Peter e Charlie chegaram logo depois. – Com licença – o garoto apertou a maçaneta e empurrou a superfície com força, que se abriu com um rangido. Peter voltou-se na direção de Charlie enquanto Chloe entrava na pequena sala. – O que será que ela quer Peter? – Sussurrou Charlie – Não fui com a cara dela. – Eu ouvi, garota! Também não gostei de você. Charlie deu de ombros e entrou na sala seguida de Peter. O local cheirava a mofo e estava coberto de poeira. No canto do cômodo, perto de uma prateleira cheia de produtos de limpeza, estava uma escada. Chloe se abaixou e puxou o objeto com força.


Edilberto Campos – Peter, para de me olhar e venha aqui me ajudar! Você também, diferente. – Diferente? – Perguntou Charlie, irritada – E scuta aqui, você acha que pode chegar assim e falar comigo desse jeito e vai ficar tudo bem? É melhor parar se não... – Se não o que? – Interrompeu Chloe – Quem você pensa que é garota? – Argh! – Charlie socou a estante que estava perto da escada. Um pote transparente caiu no chão e o vidro se quebrou. Metade do conteúdo foi despejado em cima da camisa de Chloe, no instante em que ela puxou a escada. – Você está ficando louca, garota? – Gritou, irritada – Meu Deus, me desculpe, eu juro que foi sem querer – Charlie se abaixou e tentou enxugar a pele dela com um pano de chão que estava próximo dos cacos de vidro. – Saia daqui! – Chloe empurrou a menina que caiu sentada perto da porta. – Eu juro que foi sem querer. Você pode usar minha jaqueta, se quiser – ofereceu Charlie, enquanto tirava a manga de seus braços. – Passa logo isso para cá! – Ordenou – Peter vire de costas para eu me trocar. – Seu desejo é uma ordem, primeira dama – ironizou Peter ao fazer uma reverência.

Chloe estava de pé no ultimo degrau da escada. Suas mãos se apoiavam no teto ao lado do corredor o qual se localizava o quadro de avisos. Ela retirou de seu bolso um isqueiro e o acendeu perto do sensor de incêndio. Resultado: Todos os alunos que estavam perto do local, correram na direção da saída de emergência, gritando por socorro. – Peter, me ajude a descer daqui! Charlie vá ver em qual sala ficamos! A garota correu na direção da lista e checou os papeis. – Não acredito! – Ela chutou o lixeiro que estava próximo dela. Charlie virou de costas para o quadro e olhou para Peter, chateada. Enquanto caminhava até o inicio do corredor, alunos e mais alunos esbarravam nela e corriam até o local checar novamente os papeis.


Edilberto Campos Ela se aproximou de Peter. – Você ficou no mesmo andar que a gente, mas em outra sala – disse Charlie ao garoto. – Como assim “mesmo andar que a gente”? Quer dizer que vou ter que aguentar você me jogando detergente até o fim do ano? – Reclamou Chloe. – Já pedi desculpas! Pode ficar com a jaqueta se quiser. – Obrigada, era isso que eu queria ouvir. O alarme soava, interrompendo a conversa dos três. – Vamos logo, antes que a gente se atrase – Disse Chloe movendo-se na frente. – Tchau Peter, nos vemos no intervalo! – Charlie o abraçou e deu tapinhas em sua costa. O garoto observou ela caminhar na direção das escadas. Ele ficara pensando no abraço que a menina havia lhe dado. Peter sorriu. Apanhou sua mochila, colocou a alça em seu ombro e partiu para sua sala.


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Charlie estava com o livro de botânica em mãos, esperando a entrada do próximo professor. Essa já era a última aula antes do intervalo e ela procurou se distrair, lendo algumas páginas da antiga enciclopédia de plantas que encontrara no sótão. Ao lado dela, Chloe desenhava alguns cisnes na contracapa de seu caderno. Com o polegar direito, ela sombreva a figura, esfregando o dedo na superfície do papel, dando profundidade às asas dos animais. Um grupo de meninas se aproximou entre a fileira de Charlie e Chloe. Uma garota ruiva que estava na frente, vestia um uniforme de líder de torcida, igualmente ás outras. Além dela, mais três seguiam-na. – O que é isso na sua camisa, gambá? Acabou o papel higiênico? – Disse a ruiva em um tom sarcástico. Chloe fechou o caderno o qual estava desenhando. – Carly, você poderia, por favor, latir mais alto? Não consigo te escutar daqui. – Você anda fumando demais. Está ficando agressiva – disse uma das meninas do grupo. – Saiam daqui, agora! Ou vocês verão o que é ser agressiva – protestou Chloe. – Não quero ser retirada por alguém suja e vestindo esse trapo ridículo e velho – Disse Carly rindo junto com as outras. – Ah, então você gostou disso? Porque não fica para você, sua retardada – falou Chloe enquanto retirava o casaco. Ela amassou a vestimenta e jogou na rosto de Carly, que se contorceu com nojo. A jaqueta caiu no chão. – Chloe, o que você está... – Charlie foi interrompida. – Ei, vocês, retirem-se da minha aula, agora! – Disse um homem que acabara de entrar na sala. – Mas... – Carly tentou explicar.


Edilberto Campos – Mas nada, saiam as cinco, agora! – Ele caminhou até o quadro e colocou sua pasta sobre a mesa. Charlie observava Carly e Chloe saírem pela porta, acompanhadas às outras meninas. O homem virou de costas e fez algumas anotações no quadro. – Meu nome é Heric, sou o professor de biologia. Depois de alguns minutos, ele ficou de frente e explicou algumas coisas que não gostaria que acontecesse na sala de aula, citou diversos itens, mas Charlie não prestava atenção, pois estava pensativa, observando cada gesto do professor. Ela reparou que ele possuía uma marca de mordida no braço, em estado de recuperação. E uma cicatriz no olho esquerdo. – Então é isso... – Continuou – Espero que tenhamos um ano letivo bastante produtivo. Qualquer dúvida sobre a matéria, não hesitem em me perguntar. Estou aqui para responder toda e qualquer pergunta relacionada ao assunto em questão – ele puxou um livro de dentro da pasta – Abram todos na página 109, por gentileza. Charlie o reconhecia de algum lugar, mas não estava se lembrando de onde. Ele retirou uma jaqueta preta que estava cobrindo mais da metade de seu corpo e o colocou sobre a costa da cadeira. – Isso! – Exclamou Charlie. Alguns alunos que estavam próximos olharam para ela, confusos. A garota abaixou a cabeça para tentar disfarçar. Ela voltou-se na direção do homem. O vizinho da noite anterior era seu professor.

– Você vai comer essas batatas fritas? – perguntou Peter. – Ahn, não. Pode ficar – Charlie estava pensativa. No intervalo, ela não havia comido nada. Estava sentada na mesa do refeitório ao lado de Peter, pensando na coincidência que era morar ao lado de seu professor de Biologia.


Edilberto Campos – Aconteceu alguma coisa? – Peter retirava as batatas do saco e colocava algumas em sua boca. – Não, só estava pensativa. – Explicou Charlie – Como foi a aula? – Normal... Que pena que não ficamos na mesma sala. – Ele lamentou. A mochila de Charlie estava sobre o banco a sua esquerda, guardando o lugar de Chloe. Ela não havia a visto a garota desde o momento em que saiu da sala e estava espero-a para entregar de volta a jaqueta que deixou cair no chão. – O que será que aconteceu? Chloe está demorando... Peter deu de ombros. – Pelo que você me contou, é bem capaz de o diretor ter chamado o pai dela, ou algo do tipo. – E quem era a menina ruiva? – Perguntou Charlie. – Carly Mason... É a organizadora do clube de teatro e chefe das lideres torcida. Como se não bastasse, também é filha do vice-diretor. Charlie tomou um gole do suco de limão. – Descobri que o professor de Biologia é meu vizinho... Você precisa ver a mordida que ele tem no braço, parece de tubarão, ou algo do tipo. Ele nem coloca nada em cima, o ferimento fica exposto, é nojento. – Ainda não tive aula com ele – disse Peter sorrindo. – Ele é um pouco estranho. Chloe ajeitava seus cabelos enquanto adentrava o refeitório. Peter e Charlie acenaram. Ela deu a volta, comprou um energético na cantina e caminhou na direção dos dois. – Peter, peça para sua namoradinha parar de implicar comigo senão vou jogar ela no esgoto – disse Chloe irritada. – Namoradinha? – Perguntou Charlie. – Você ainda não contou para ela? – Melhor deixar quieto... – Peter abaixou a cabeça. – Ano passado, quando ele era o líder do time de futebol, eles namoravam. Mas ai ela meio que... – Chloe elevou os dedos indicativos das duas mãos e colocou sobre suas orelhas – Você sabe... Daí ele largou o time e virou nerd.


Edilberto Campos Charlie deu uma gargalhada. – Me desculpe, Peter, mas foi engraçado. O garoto ficou em silêncio e voltou a comer. Charlie entregou a jaqueta nas mãos de Chloe – Porque você demorou tanto? – Perguntou. – Fui encaminhada até a diretoria. – Admitiu Chloe – O diretor havia saído, para o meu azar... Charlie ajeitou a franja que estava sobre seu olho direito. – Azar? Isso não é uma coisa boa? – Se você é encaminhado para a diretoria, e o diretor não está, quem fica responsável é o vice-diretor – interrompeu Peter. – O pai da macaca ruiva, não é? – Completou Charlie. Chloe riu alto. Ela bateu com a mão na lata do energético, que saiu rolando pelo chão. – Curti o apelido. A campainha tocou, anunciando que os alunos deveriam voltar para suas salas para assistirem as ultimas aulas. Charlie puxou a mochila e se levantou, junto de Chloe e Peter. – Espera aí – chamou Chloe. – O que foi? – Charlie se virou. Peter foi caminhando na frente. Ele comentou algo, então se virou e percebeu que as meninas não estavam ao seu lado. O rapaz moveu-se de volta à mesa do refeitório para ver o que havia acontecido. – É aula de educação física. O que acha de faltarmos? – Perguntou Chloe a Charlie. – Eu não sei... Minha família vai estranhar se eu chegar cedo no primeiro dia de aula. – Eu vou ter aula normal, então preciso voltar para minha sala – comentou Peter. O garoto se despediu e correu até sua sala. – Tchau – disse Charlie enquanto acenava.


Edilberto Campos Chloe olhou para o relógio. – Ainda temos 2 horas. A aula de educação física não é importante, podemos faltar. – Tudo bem, então. O que faremos até lá? – Engordar! – O que? – Perguntou Charlie, confusa. – Vamos no “Strike & Burton” comer alguma coisa gordurosa, depois voltamos para pegar o ônibus escolar. Charlie hesitou. – Tudo bem, vamos, mas lembre-se de que eu não posso demorar...


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Quando Charlie e Chloe correram na direção do corredor de entrada da escola, perceberam que o vice-diretor Grimes saia da sala dos professores. Se ele visse que as garotas estavam fugindo da aula de Educação Física, com certeza teriam problemas. Então se esconderam atrás do bebedouro, esperando o homem sair do local. Ele gritava com alguém que vinha atrás dele, irritado. – Eu não quero saber, seu incompetente! – Gritou à outra pessoa – Se a polícia descobrir, eu não vou me responsabilizar por nada. Trate de achá-los antes que algo pior aconteça! O vice-diretor carregava uma maleta de couro enquanto caminhava em direção à diretoria. Ele abriu a porta e entrou. Charlie pôde ouvir o barulho da maçaneta girando, provavelmente agora a porta estava trancada. Caso ele saísse, haveria tempo de elas se esconderem novamente. Chloe parou um instante para amarrar os cadarços. No mesmo momento, ela ouviu passos vindos em sua direção. A garota correu novamente para trás do bebedouro e apoiou suas costas em um dos armários. – O que houve? – perguntou Charlie. – Está vindo mais alguém. Charlie se levantou e olhou pelo canto do armário no momento em que Heric passava ao seu lado. – Ei! – Protestou o homem – Você estava bisbilhotando? – Não, professor! – Explicou Charlie – Eu só parei para beber água. Ele olhou desconfiado para a menina e continuou caminhando. – É melhor você voltar para a sua sala. – Tudo bem – respondeu. Charlie deu um suspiro de alívio. – Ele já se foi.


Edilberto Campos Chloe se levantou, puxou a mochila do chão e olhou para os lados para ver se alguém vinha. – É melhor a gente ir. Já perdemos muito tempo aqui. Estou morrendo de fome. Ao seguir Chloe, Charlie acabou chutando um objeto cilíndrico que se arrastou até um dos armários. Ela moveu-se até ele e o pegou em suas mãos. – O que foi agora? – Perguntou a garota, irritada – O que é isso? – Não sei. Eu chutei sem querer, deve ter caído de alguém. Chloe puxou o objeto das mãos da menina e o estudou por alguns segundos. – É um canivete.

A névoa que cobria quase toda a cidade de Helsinque, havia se dispersado depois algumas horas. As pessoas agora continuavam os seus afazeres diários, como de costume. Na rodovia, o fluxo de carros seguia normal, e já não era mais preciso a guarda de transito para orientar os motoristas. – Charlie, você já pode parar de olhar para isso – comentou Chloe enquanto mastigava o suculento pedaço de frango em sua boca. – Queria saber o que significa H. Stalks... – Charlie deslizava seu dedo indicador sobre a superfície do canivete que tinha encontrado. No momento em que elas caminhavam até a lanchonete, Chloe havia percebido uma escritura sobre o ouro do qual o cabo do objeto era feito – nós temos que devolver, é de ouro. – Não tinha ninguém no corredor, apenas o diretor e o... – HERIC! – Interrompeu Charlie, gritando em alto e bom som. Algumas pessoas que estavam em mesas ao redor se espantaram com o grito da pgarota. – Não reparem nela, pessoal. A pobrezinha sofre de um problema nos neurônios – indagou Chloe enquanto abaixava as mãos na direção das pessoas que olhavam pelo canto dos olhos para as garotas.


Edilberto Campos Charlie abaixou a cabeça colocou o braço sobre a mesa. – Sério Chloe? – Sussurrou Charlie, envergonhada. A garota riu em resposta. – Por que será que ele estavam discutindo? Questionou Charlie Chloe puxou uma garrafa de molho apimentado e espirrou algumas gotas dentro do balde de frango frito. – Isso está tão bom... Tem certeza que não quer? Eu pago. – Não, obrigada... Eu sou alérgica... – Charlie abaixou a voz para um volume quase inaudível. – Você o que? – Perguntou Chloe – Não entendi. – Eu sou alérgica... – Charlie virou a cabeça na direção da janela. – Você pode escrever? Ainda não entendi. – EU SOU ALERGICA A FRANGO! – Gritou Charlie novamente. No mesmo instante a cena tornou a se repetir. Chloe puxou uma cédula e deixou em cima da mesa, irritada. Ela colocou uma das mãos cobrindo seu rosto envergonhado e puxou Charlie com a outra. As duas moveram-se em direção à porta de entrada e saíram para a rua. – Desculpe, Chloe, mas às vezes sai sem eu notar. A garota fez que não com a cabeça e olhou para o relógio. – Já passamos da hora! Vamos perder o ônibus! As garotas correram em direção à Eastwood, acelerando os passos à medida que chegavam ao local. – Que droga! – Chloe exclamou – Ele já se foi! – Meu Deus! A minha tia chega de Boston hoje e a mamãe queria que eu estivesse em casa antes para lhe dar as boas vindas. Charlie se sentou na escada que ficava na entrada da escola e virou a cabeça para trás. – Eu não acredito, não acredito!


Edilberto Campos – Podemos dar um jeito nisso. Se eu chegar tarde em casa ninguém vai reparar. Meu pai só se importa com aquela maldita empresa mesmo. – Mas e a sua mãe? – Minha mãe faleceu quando eu tinha oito anos – a garota olhou para seu lado esquerdo. – Me desculpe, Chloe, eu... Eu não sabia... – – Não tem problema. Agora vamos, é logo ali. – Logo ali o que? – Perguntou Charlie. – O lugar onde vamos conseguir a sua carona para casa.


Edilberto Campos

As paredes que rodeavam o local estavam sujas e pichadas. Algumas motos mantinham-se em inércia ao lado de empoeiradas caixas de papelão. Barulhos de carro em movimento eram ouvidos por Charlie. Na parte direita, barcos e veleiros moviamse para o outro lado do rio. Um cheiro de fumaça infestava o ambiente. Chloe retirou os fones que lhe cobriam os ouvidos. – Chegamos. – disse ela em tom alto. – Quem está ai? – Gritou alguém de trás do beco perto do local onde as garotas se encontravam. – É a sua mãe! – Chloe respondeu com ironia. Charlie observou estranhamente a curta conversa dos dois. A garota olhou por uma parede de tijolos quebrada e pôde ver o viaduto que atravessava a extensão do rio. Alguém se aproximou por trás de Charlie. – E aí, Chloe? – Perguntou o rapaz moreno. A garota se espantou. – Charlie, esse é o JP. – E aí, gata, tudo certo? Ele abraçou Charlie, que se encolheu no mesmo momento. – Oi – respondeu ela. A boca do garoto cheirava a álcool. Era nítido que ele não era maior de 18 anos, parecia ter a mesma idade de Charlie, e fazia aquilo escondido, mas a garota não comentou nada sobre. Uma segunda sombra se aproximou dos três. Era o rapaz com o qual Chloe estava dialogando da primeira vez que elas chegaram lá. – Minha mãe viajou, Chloe – respondeu. – Dylan, preciso de um favor seu... – pediu Chloe.


Edilberto Campos – O que é? Posso fazê-lo por uma boa noite com você em um hotel – disse ele com sarcasmo. Chloe aproximou seu rosto perto dos lábios do garoto. – Continue sonhando. Ele riu e deu de ombros. – O que você quer, bela garota de cabelos roxos que me seduz com seu olhar de princesa? – Primeiramente quero que treine suas cantadas. Depois leve minha amiga Charlie até... Onde você mora mesmo, Charlie? – Na Rua Stone, perto do bosque – respondeu a garota. – Você ouviu. Agora vá logo que ela está com pressa – ordenou Chloe. – Eu moro lá perto, gata. Já estava indo embora mesmo. Posso te levar lá – interrompeu JP enquanto se sentava no banco da moto. – Ótimo então. – Chloe retirou a touca de sua cabeça e colocou na bolsa – Onde estão os outros? – Sebastian e Karina est��o perto dos destroços do avião... – disse Dylan. Charlie se espantou com o que o rapaz acabara de dizer. – Avião? – Perguntou. – É, gata. Alguns anos atrás um avião caiu naquela área. Retiraram os corpos das pessoas mortas e deixaram o restante dos destroços lá. Até hoje a prefeitura ainda não mandou ninguém para arrumar aquilo tudo. Então Dylan e eu usamos para fazer nossas pinturas. – Explicou JP – algum dia eu te levo lá para você ver. Charlie assentiu com a cabeça. Aqui está seu capacete – o garoto entregou o objeto nas mãos da menina. – Obrigada. Qual seu nome mesmo? – Perguntou Charlie. – JP – respondeu a ela. – João Paulo? – Indagou a garota. – Jorhed Penclow – Interrompeu Chloe rindo. – JP é melhor mesmo – Charlie sorriu e atracou a cinta do capacete sob seu queixo.


Edilberto Campos – Bem, gente, vou indo, tenho que terminar uma coisa – disse Dylan, apressado. – Vou com você – Chloe juntou-se ao rapaz enquanto caminhavam por trás da parede de tijolos – JP, não apronte nada. – Relaxe. – Respondeu o garoto – Vamos, Charlie?

Jorhed deu a volta e seguiu até sua casa, que ficava a três quarteirões antes dali. Charlie estava bastante agradecida pelo fato do rapaz tê-la deixado em sua residência, mesmo ela ficando a alguns metros depois da dele. A garota virou de costas e caminhou até a porta da casa. Já eram quase duas horas da tarde e ela já estava bastante atrasada. Quando girou a maçaneta, notou que um carro vermelho que passava pela rua perto da casa estava reduzindo a velocidade. Seus olhos fitaram o veículo que estacionava na frente da casa de seu professor. Heric saiu de dentro do carro no momento em que ela pôs os pés no carpete de sua sala. Charlie colocou a mochila sobre o sofá e se sentou. O cheiro de comida saída do forno inundava o local com seu aroma doce e singelo. A garota estava com agua na boca. O primeiro som de presença na casa foi de Bob, que estava latindo no quintal da parte de trás da casa, provavelmente estava brincando na fonte sujando-a de terra. – Mãe, já cheguei! – Charlie retirava as botas dos pés e as punha em cima do carpete branco, deixando o tecido com uma sombra escura sobre sua superfície. Ao ouvir a voz da garota, Bob largou tudo que estava fazendo e partiu na direção da sala, latindo. Ele passou pela brecha da porta da cozinha e se aproximou da menina. – Qual é Bob? Eu nem fiquei tanto tempo longe – Charlie o apanhava no colo e acariciava seus pelos brancos. – Estou na cozinha querida, – gritou Helena. O cachorro latia em resposta. Helena saiu da cozinha carregando uma enorme bandeja de vidro em suas mãos. – Mãe, você é deusa! – Exclamou Charlie.


Edilberto Campos – Eu sei, filha... Eu sei... – E muito modesta. – Charlie riu e se levantou para olhar melhor a lasanha. O queijo de cima estava quente. Pedaços de champignon rodeavam o macio macarrão que cobria o presunto vermelho que ficava sobre duas camadas de molho branco. Os olhos de Charlie brilhavam diante daquele magnifico prato. – Mas é só quando sua tia chegar – comentou Helena. – Lembra-se do “deusa”? Pode esquecer – respondeu Charlie. – Estou brincando – Helena riu – Vá lavar as mãos, trocar de roupa e venha para almoçarmos. Sua tia me ligou avisando que só chegará à noite, então vou preparar uma torta de chocolate para recebê-la. – Vou morrer obesa. Quando Charlie ia subir para seu quarto, Bob latiu e mordeu a bainha de sua calça. Com as pernas, ele fazia força no chão, como se quisesse arrastar a menina para algum lugar. – O que foi, Bob? O cachorro latiu e correu até a cozinha. Charlie o seguiu até o cômodo e depois ambos passaram para o quintal. Bob pulou em cima de alguma coisa que estava atrás da fonte, mas a menina não pôde ver com nitidez o que era. Ela atravessou seus vasos de plantas perto da cerca e viu que o cachorro estava sobre uma coisa rochosa e simétrica, com desenhos retangulares e traços amarelados sobre a parte escura daquilo. Charlie se agachou e puxou Bob. Ela aproximou as mãos e notou que era uma tartaruga. A garota ficara confusa. O que aquele animal estava fazendo ali, afinal? Ela se levantou enquanto o cão latia para o réptil que se mantinha imóvel. – Bob, já chega! O cão cessou os latidos e se escondeu atrás da perna de Charlie. – Mãe, venha aqui, – ela gritou – olhe o que Bob encontrou! Helena estava perto, então não demorou muito a chegar até o local. Ela limpou as mãos no guardanapo que prendia no avental e se agachou perto da tartaruga.


Edilberto Campos – Como isso veio parar aqui? Esse era o motivo pelo qual Bob ficou latindo a manhã toda. – Eu não sei... Não faço ideia. – Deve ser de algum dos vizinhos... Veja, – Helena apontou para uma etiqueta de papel grudada sobre o casco do animal. Charlie fitou o adesivo. – “19 – Galápagos”. – Ela leu em voz alta – Será que é algum tipo de registro? – Parece que sim – admitiu Helena. Finalmente, depois de o cachorro parar de latir, a tartaruga deu as caras. Quando colocou suas patas para fora do casco, Helena notou que ela estava bastante machucada parte exterior do casco estava bastante arranhada e na superfície da cabeça, escorriam algumas gotas de sangue. – Filha, abra o armário do banheiro e pegue algumas gazes e ataduras, ela está ferida, precisamos cobrir isso. Charlie se levantou e correu até o armário. Ela retirou uma pequena caixa com uma cruz vermelha de dentro. Era um kit de primeiros socorros. Quando fechou a porta do banheiro, um grito de de horror atravessou o ar, de repente. O sangue de Charlie gelou. Ela achou que fosse sua mãe moveu-se o mais rápido que conseguia até a cozinha, esbarrando em portas e alguns moveis até chegar lá. – Mãe o que foi? – Perguntou Charlie desesperada. Helena estava de pé olhando para o outro lado da cerca. O som arrepiante quebrou o silêncio tenebroso do local novamente. – É na casa ao lado. Quando sua mãe disse isso, Charlie achou que ela estivesse falando da residência de Heric, mas ela apontava para o outro lado. – Não dá para ver, mãe? – Fique aqui e cuide da tartaruga, quando eu sair, trancarei a casa, vou lá ver o que é. Se eu demorar, ligue para policia, para os bombeiros, o que for... Apenas peça ajuda. – Mãe, não, é perigoso – quando Charlie disse isso, já era tarde demais. Helena havia largado o avental e corrido na direção da casa.


Edilberto Campos Charlie estava tremula. Com suas mãos, ela envolvia um pequeno pedaço que cortara da atadura, na pequena pata da tartaruga. Ela retirou um pedaço de algodão e colocou na cabeça do animal no momento em que ele a pôs para fora do casco. A menina notou que os gritos haviam cessado. De repente, Helena a chamou do outro lado da cerca que separava as duas casas. – Charlie! Está tudo bem, eu acho. Encontraram uma cobra enorme na casa da Senhorita Forbes. Estou começando a abominar a ideia de morarmos perto da floresta. – Já retiraram ela de lá? – Perguntou Charlie? – Sim, por sorte, o homem que mora ao lado de casa é ambientalista hora logia, portanto ele entende de animais. – Eu sei... Ele é meu professor. – Sério? Vou dar a volta e já chego aí. Coloque a tartaruga na cama de Bob para que ela descanse. Helena suspirou, aliviada. – Graças a Deus que nada aconteceu – disse ela. – Pois é. Eu achei fosse algo pior. – Comentou Charlie – Então, o que fizeram com o animal? – Seu professor o levou dentro de uma gaiola e disse que iria mandar para a instituição que cuida desse tipo de coisa – respondeu Helena. – Entendi... Vou subir para tomar banho e deixar a tartaruga descansar. – Tudo bem, darei mais uma olhada na Senhorita Forbes para me certificar de que está tudo certo, e já chego em casa. Charlie assentiu com a cabeça e seguiu para dentro da casa, enquanto se recuperava do repentino susto que tomara naquele momento.


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Charlie teve uma tarde um pouco tediosa. Ela passara grande parte do tempo deitada, ouvindo música e lendo os livros que pegara no sótão. Em baixo da cama, a tartaruga descansava sobre um dos travesseiros que a menina havia pegado do sofá da sala. Ao lado dela, no chão, estava uma tigela com repolho e cenoura, para o caso de a tartaruga ficar com fome. Bob deitava junto ao casco do réptil, protegendo-o do frio. Charlie retirou os fones do ouvido e sentou-se na cama. Pensativa, fitava o canivete iluminado pela luz do abajur sobre o criado mudo. Ela caminhou até o parapeito da janela; nuvens negras e carregadas de água brigavam por um espaço no céu, como abutres em por um pedaço de carne. Charlie sentia saudade de Boston, de seus antigos amigos, até mesmo do clima da cidade. Lá ela podia sair para visitar museus, praças, etc. Em Helsinque tudo ficava longe de sua casa. Um taxi vermelho parou em frente à sua casa. Charlie correu até a outra janela e abriu as cortinas. A garota passou as mãos sobre o vidro embaçado e úmido e pôde ver com mais nitidez quem saía do veículo. Uma sombrinha se abriu. Depois, uma mulher alta de cabelos loiros, caminhava até a porta da frente, carregando uma mala. Era Ellen, a tia de Charlie. A campainha tocou. Helena levantou-se do sofá para atender, enquanto calçava as sandálias. Ela desligou a televisão, e abriu a porta. – Demorei? – Disse Ellen, sorrindo. Helena esticou os braços para receber a irmã mais velha. As duas se abraçaram, contentes. – Nossa, Ellen, que saudades! Entre, entre – disse ela enquanto pegava suas malas. – Uau! Que casarão, hein? Deixe-me adivinhar... Você terminou com o John e se casou com um fazendeiro.


Edilberto Campos – Estava sentindo falta desse seu senso de humor – comentou Helena sorridente. – Tia! – Gritou Charlie no momento em que descia as escadas – Quanto tempo! A garota correu para dar um abraço em Ellen. Ela deu tapinhas na costa da tia e se virou para ajudar sua mãe a carregar suas coisas. – Olha só o quanto você cresceu! – comentou Ellen – Anda se alimentando direito? Está só pele e osso. – Ela come mais que o nosso cão – interrompeu Helena. Charlie deu de ombros e a ignorou, irritada. – Venha, tia, vou lhe mostrar seu quarto.

Charlie estava sentada sobre a cama do quarto de hospedes. Em pé, ao lado do guarda-roupa, sua tia dobrava algumas calças e colocava-as na gaveta. O quarto era muito parecido com o de Charlie, a única diferença era a cor da parede e a posição de alguns móveis. – Então... Está gostando da vida nova, querida? – Perguntou ela enquanto retirava uma garrafa de vinho de sua mala e abria a tampa. – Nem um pouco. – Lamentou Charlie – Aqui é frio, vive chovendo, nossa casa é longe da cidade e toda hora aparece algum animal. Daqui a pouco veremos jacarés atravessando a rua – ironizou. – Como assim: “Toda hora aparece algum animal”? – Perguntou Ellen, confusa. – Hoje de manhã, Bob estava latindo no jardim. Quando eu cheguei lá, ele havia encontrado uma tartaruga toda ferida. Então, minutos depois, a vizinha gritou. Tinha uma cobra lá, tia. Uma cobra. – Charlie elevava o tom da voz – E o papai ainda nem sabe que isso aconteceu. Quando ele souber, vai querer isolar a casa e colocar cerca elétrica em todos os lados. – Meu Deus – Ellen estranhou o que acabara de ouvir. Ela tomou um gole do seu vinho e se sentou ao lado de Charlie – E o que fizeram com os animais? – A tartaruga está no meu quarto, descansando. Quanto à cobra, meu professor entrou na casa da senhorita Forbes e colocou o réptil dentro de uma gaiola.


Edilberto Campos – Seu professor? – Perguntou. Charlie assentiu com a cabeça. – Pois é, descobri que ele é meu vizinho, também. – Nossa... Isso é muito estranho. – O que? O fato de o meu professor de biologia ser meu vizinho ou os animais na vizinhança? – Os animais... Vocês já perguntaram para alguém das redondezas se o aparecimento desses bichos era frequente por aqui? – perguntou a loira. – Isso nem me passou pela cabeça. Charlie deslizou sua mão direita sobre o bolso de sua calça, retirando um pequeno papel de dentro. – Veja só isso. – Ela entregou o papel nas mãos da tia – É uma espécie de etiqueta. Encontramos grudada sobre o casco da tartaruga. – Acho que era para ser vendida. Ela deve ter caído durante o transporte, por isso os machucados. – Talvez... – Agora, mudando de assunto: Já fez alguma amizade? – Ellen entregou o papel de volta. – Sim, sim. Apenas três pessoas. A garota olhou para o lado. – Tia, eu preciso ir. Tenho que devolver uma coisa para uma pessoa. – Tudo bem querida. Obrigado por me mostrar tudo. – Agradeceu a tia. Charlie acenou e fechou a porta. Ela caminhou até seu quarto, apressada. Já era a noite; não havia se tocado que passara horas e horas conversando com a tia. A garota subiu as escadas, acelerando os passos à medida que chegava em seu quarto. Ela vestiu seu casaco e puxou o canivete de cima do criado mudo. A tartaruga estava com um lenço sobre o casco, que provavelmente fora colocado por Bob, para protegê-la do frio. O réptil comia alguns pedaços de repolho sobre o prato. O cachorro latiu quando percebeu a presença da menina a seguiu até a porta do quarto. Ela descia os degraus e Bob continuava a segui-la. Charlie parou em cima carpete da sala.


Edilberto Campos – Bob, fique aqui. Eu já volto. Ela pedia para que o cachorro permanecesse na casa, mas ele latia cada vez mais alto. A menina o pegou no colo e tornou a subir as escadas. Ela correu na direção de seu quarto novamente. Charlie teve que pegar um pedaço de chocolate que estava dentro de sua mochila e dar para Bob. – Não me siga, por favor! – Suplicou a garota para o cão. Enquanto ele estava distraído, Charlie aproveitou para escapar. Ela correu até a porta da frente, girou a maçaneta e saiu.


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A chuva havia passado. Charlie caminhava sobre o gramado de frente de sua casa, apressada. Ela chegou até a calçada e diminuiu a velocidade dos passos, tomando cuidado para não escorregar no piso molhado. Quando se aproximava da residência de Heric, ela notou que alguma coisa subia sobre as telhas da varanda de frente da casa. A menina tinha a impressão de que era um iguana, mas o bicho era muito menor. Devido à parte da frente do animal estar enfiada nas telhas, ela só pode ver as duas perninhas pequenas e o longo rabo. Charlie correu na direção da varanda. As luzes da frente ainda estavam acesas. O carro de Heric mantinha-se estacionado na garagem ao lado da casa. Provavelmente ele estava lá. A garota apertou o botão da campainha, com os olhos focados no teto. O que quer que fosse aquilo, estava se mexendo sobre algumas plantas que pendiam no pilar transversal da varanda. Charlie batia os pés, dividindo sua atenção para a porta e para o movimento das plantas. Até que parou. O barulho do rangido da porta foi ouvido pela garota no momento em que ela estava saindo do local. – Ei! – Chamou Heric. – Ahn – Charlie virou-se em sua direção – Oi professor – Ela acenou e em seguida colocou suas mãos dentro dos bolsos do casaco. De dentro do bolso esquerdo ela retirou o canivete de trouxera consigo da casa. – Não sei se você se lembra de mim, mas nos encontramos depois da sua discussão com o vice-diretor Grimes. Charlie arregalou os olhos quando percebeu o que acabara de falar. – Eu não estava discutindo com ele, mas vá direto ao assunto. – Então... Acho que o senhor deixou cair isso – ela estendeu a palma das mãos na direção do homem. – Meu canivete! – Ele exclamou – Achei que tinha esquecido na sala dos professores.


Edilberto Campos Charlie entregou o objeto nas mãos do homem, que lhe agradeceu com um aperto de mãos. – Eu moro aqui no lado, estava esperando a chuva passar para trazê-lo – explicou Charlie. – Muito obrigado... Ah... Qual seu nome? – Charlotte – respondeu a menina. – Bem, Charlotte, eu estou meio ocupado aqui. Se não se importar, tenho que ir. Obrigado mais uma vez pelo gesto. – Disponha – respondeu Charlie sorrindo. Ela acenou e caminhou de volta para sua casa. O céu estava estrelado. Um vento forte movia-se da esquerda, levando seus cabelos negros para a direção oposta. Charlie estava com a sensação de dever cumprido. Ela bateu as sandálias no tapete e entrou em sua casa.

Quando a garota colocou o casaco no cabide, alguma coisa planou em direção à cortina. Charlie gritou, espantada. Puxou o caderno da mochila e subiu em cima de sua cama. Bob, que estava perto, avançou em cima do animal. Era um lagarto. O animal planou na direção do chão, bem na frente de Bob. Ele estendeu duas membranas, que pareciam asas e uma espécie de crista amarela sob seu pescoço movia-se para e frente para trás. O bicho abriu a boca, produzindo um som baixinho e rouco. Bob se assustou e correu para baixo da cama. A tartaruga, espantada com os gritos da menina, se escondeu dentro do casco. Charlie arrancava folhas do caderno e jogava na direção do réptil que mantinha-se em posição de ataque. De repente ele olhou para o vaso do bonsai que estava perto da estante e correu até a parede de perto. O bicho se enfurnou em um dos galhos da planta e mantinha-se inerte, mastigando alguma coisa que encontrara lá atrás. Quando a garota se acalmou, chegou mais perto do vaso e avistou o lagarto. Ele estava comendo uma pequena aranha que provavelmente rondava o quarto naquela


Edilberto Campos noite. O réptil era pequeno. Bem menor que a tartaruga, mas não se assustava fácil. Ele observou Charlie por alguns segundos. Em baixo da cama, Bob latia na direção da garota. – Calma, Bob. Ele não vai te machucar, ele só está com fome, não é? O bicho fechou as asas. A porta se abriu com força, espantando a menina. Fora do quarto, John segurava um revólver. Atrás dele Ellen se esticava para tentar ver o que estava acontecendo no cômodo. – Charlie, o que houve? – Gritou John, preocupado. – Era um rato enorme! – Foi a única desculpa que passou pela sua cabeça naquele momento – Eu tentei mata-lo, mas ele fugiu pela janela. Ellen observou as bolinhas de papel que estavam espalhadas pelo chão do quarto. – Você tentou mata-lo com bolinhas de papel? O pobre coitado deve estar sangrando até agora – ironizou a tia. Charlie riu, tentando aliviar a tensão do momento. – Sua mãe estava me contando o que aconteceu, eu fiquei preocupado e achei que fosse outra cobra – comentou John. Ele colocou a arma no bolso. – Helena, está tudo bem. Era só um rato! – Gritou John na direção da escada. A garota estava na frente do bonsai, tentando esconder o lagarto dos recémchegados. – Está tudo bem, pai. Podem ir! – Qualquer coisa, estaremos lá na sala – alertou John. Ellen fechou a porta do quarto e voltou para baixo. Charlie suspirou de alívio. Ela olhou para a planta e o lagarto não estava mais lá. Depois alguns segundos olhando para os lados, ela notou que o réptil encontrava-se na frente da janela, fitando a casa de Heric. A menina se aproximou por trás, pensativa. “O que será que ele estava observando?” O que quer que seja, fez com que o animal se mantivesse quieto por um bom período de tempo.


Edilberto Campos Finalmente Bob saiu de baixo da cama. Ele estava espantado com o lagarto. Por ser um cachorro filhote; era bem pequeno, e quando o lagarto abria as “asas”, ele parecia assustador. Charlie o pegou no colo para mostrar que o bichinho não fazia mal algum. – Está tudo bem, Bob. É só um lagarto. O cachorro se encolheu, com medo. – É melhor a gente descansar. Amanhã temos um dia longo pela frente, não é? – Disse a garota, carinhosamente, tentando acalmar seu cão. Charlie colocou Bob no chão e caminhou até a estante onde estava o bonsai. Ela carregou o vaso e colocou-o sobre o parapeito, perto do lagarto. O réptil mantinha-se imóvel até o momento em que ela colocou a planta perto dele. A garota puxou uma cadeira e apoiou os braços sobre a janela, bem ao lado do lagarto. Ela o observou por horas e horas. Chuva veio, chuva se foi e a menina mantinha-se ali, estudando o animal que permanecia atento à qualquer movimento na casa ao lado. Sob a luz do luar, a garota fechou os olhos e esperou o sono vir.


Permutação