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Edilberto Campos

– Peter, você podia ter me dito que estudava aqui – disse Charlie enquanto fechava a porta do armário da escola. – Você não me perguntou – O garoto deu de ombros. – Onde podemos verificar em qual sala ficamos? – A menina apoiou a mochila nas pernas e prendeu seu cabelo. – No quadro de avisos. Se eu não me engano, fica naquela direção, ao lado do refeitório – disse Peter apontando para a sua frente. Eles caminharam até o fim do corredor e dobraram na direita. Quando chegaram lá, notaram que quase metade da escola se amontoava no local. Pessoas se empurravam, outras se xingavam e algumas tentavam se esticar para ver se enxergavam alguma coisa. – E agora, fazemos o que? – Charlie estava confusa com tudo aquilo, ela se encostou à parede, colocou sua mochila no chão e olhou para Peter esperando uma resposta de sua parte. – O pior de tudo é que nós só podemos verificar nossos nomes lá naquela lista – comentou o garoto – vamos esperar, é o único jeito. Uma menina se aproximou ao lado de Charlie e abriu o armário. Ela pegou uma caixa de cigarros e colocou em seu bolso, depois bateu a portinha com força. A garota usava uma calça rasgada nos joelhos e uma camisa curta, que deixava seu piercing no umbigo à mostra. A touca branca que cobria seus cabelos roxos estava pichada com desenhos de caveiras e nomes de algumas pessoas. Peter a encarou por alguns segundos. – Perdeu algo aqui, Peter? – Ela puxou um cigarro e o acendeu, seus lábios tocaram o final do papel. A garota expeliu a fumaça de sua boca com satisfação. – Chloe, é proibido fumar aqui, você sabe disso. E além do mais você não tem idade para fazer esse tipo de coisa – disse ele enquanto se desviava de alguns alunos que passavam correndo ao seu lado.


Edilberto Campos Charlie tossiu e abanou com as mãos a fumaça que pairava perto de sua cabeça. Chloe a observou pelo canto dos olhos por alguns segundos e voltou a fumar. Ela deu de ombros olhou para o amontoado de pessoas que se espremiam para verificar o quadro de avisos. – Já viram em qual sala vocês ficaram? – Ainda não, e você? – Perguntou Charlie. – Não consegui. Tem quase metade da cidade naquele troço. Outra onda de fumaça invadia o ar. – Estamos esperando eles saírem de lá para podermos verificar nossos nomes. – Comentou Peter. – Querido, você e sua amiga esquisita vão morrer esperando. Eles não vão sair de lá. – Disse Chloe enquanto se espreguiçava – A administração dessa escola é uma droga, eles sabem que todo ano isso acontece, mas tornam a colocar a porcaria das listas em um só lugar. – Eu não sou esquisita. E se você tem uma ideia melhor, pode falar. Sou toda ouvidos. – Disse Charlie, irritada. – Sigam-me – Chamou a garota. Chloe jogou o cigarro no lixo e correu até o inicio do corredor. Chegando lá, ela abriu a porta do almoxarifado com cautela. Em cima, na parede, uma plaquinha escrita “Não entre” com letras em negrito, se balançava de um lado para o outro. A garota desceu alguns degraus e se abaixou na frente de uma portinha. Tirou de seus bolsos um grampo e enfiou na fechadura, tentando abrir. – Que droga! Está emperrada. Peter e Charlie chegaram logo depois. – Com licença – o garoto apertou a maçaneta e empurrou a porta com força, que se abriu com um rangido. Peter voltou-se na direção de Charlie enquanto Chloe entrava na pequena sala. – O que será que ela quer Peter? – Sussurrou Charlie – Não gostei dela. – Eu ouvi, garota! Também não gostei de você. Charlie deu de ombros e entrou na sala seguida de Peter. O local cheirava a mofo e estava coberto de poeira. No canto do cômodo, perto de uma prateleira cheia de


Edilberto Campos produtos de limpeza, estava uma escada. Chloe se abaixou e puxou o objeto com força. – Peter, para de me olhar e venha aqui me ajudar! Você também, diferente. – Diferente? – Perguntou Charlie, irritada – Escuta aqui, você acha que pode chegar assim e falar comigo desse jeito e vai ficar tudo bem? É melhor parar se não... – Se não o que? – Interrompeu Chloe – Quem você pensa que é garota? – Argh! – Charlie socou a estante que estava perto da escada. Um pote transparente caiu no chão e o vidro se quebrou. Metade do conteúdo foi despejado em cima da camisa de Chloe, no instante em que ela puxou a escada. – Você está ficando louca, garota? – Meu Deus, me desculpe, eu juro que foi sem querer – Charlie se abaixou e tentou enxugar a pele dela com um pano de chão que estava próximo dos cacos de vidro. – Saia daqui! – Chloe empurrou a menina que caiu sentada perto da porta. – Eu juro que foi sem querer. Você pode usar minha jaqueta, se quiser – ofereceu Charlie, enquanto tirava a manga de seus braços. – Passa logo isso pra cá! – Ordenou – Peter vire de costas pra eu me trocar. – Seu desejo é uma ordem, primeira dama – ironizou Peter ao fazer uma reverência.

Chloe estava de pé no ultimo degrau da escada. Suas mãos se apoiavam no teto ao lado do corredor o qual se localizava o quadro de avisos. Ela retirou de seu bolso um isqueiro e o acendeu perto do sensor de incêndio. Resultado: Todos que estavam perto do local correram na direção da saída de emergência, gritando por socorro. – Peter, me ajude a descer daqui! Charlie vá ver em qual sala ficamos! A garota correu na direção da lista e checou os papeis. – Não acredito! – Ela chutou o lixeiro que estava próximo dela. Charlie virou de costas para o quadro e olhou para Peter, chateada.


Edilberto Campos Enquanto caminhava até o inicio do corredor, alunos e mais alunos esbarravam nela e corriam até o local para verificar seus nomes. Ela se aproximou de Peter. – Você ficou no mesmo andar que a gente, mas em outra sala – disse Charlie ao garoto. – Como assim “mesmo andar que a gente”? Quer dizer que vou ter que aguentar você me jogando detergente até o fim do ano? – Reclamou Chloe. – Já pedi desculpas! Pode ficar com a jaqueta se quiser. – Obrigada, era isso que eu queria ouvir. O alarme soava, interrompendo a conversa dos três. – Vamos logo, antes que a gente se atrase – Disse Chloe movendo-se na frente. – Tchau Peter, nos vemos no intervalo! – Charlie o abraçou e deu tapinhas em sua costa. O garoto observou ela caminhar na direção das escadas. Ele ficara pensando no abraço que a menina havia lhe dado. Peter sorriu. Apanhou sua mochila, colocou em suas costas e partiu para sua sala.


Permutação