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Projeto B A Viagem de Villa-Lobos


Projeto B A Viagem de Villa-Lobos Obras de Heitor Villa-Lobos adaptadas para sexteto instrumental. Desenhos de Manu Maltez.


apresentação

Cinqüenta anos após sua morte, é grande o número de críticas, revisões e homenagens já dedicadas a Heitor Villa-Lobos. Das opiniões de seus mais ferrenhos opositores às de seus maiores entusiastas, emerge o fato de que muitos foram os territórios percorridos por sua criação musical, a qual nos aponta, acima de qualquer outra coisa, para um destemor ante o desafio de transitar por universos populares, eruditos, nacionalistas, barrocos e de vanguarda sem se tornar refém de nenhum deles. Dono de uma obra que pode ser chamada de oceânica tanto em termos de volume quanto de diversidade, Villa-Lobos pareceu estar sempre atento a seu tempo e a seu espaço, como forma de produzir música que se mantivesse viva e relevante no contato com outras gerações. Prova dessa vitalidade, é que haja jovens músicos que encontrem na produção de Villa-Lobos terreno fértil para o cultivo de um vocabulário musical próprio, que ambiciona ser novo em sua relação com o passado. Como seria uma passagem do compositor pela São Paulo de hoje? Qual seria a sonoridade a ser construída nessa metrópole repleta de contrastes, de caóticas referências? Ao se colocar estas questões, o grupo Projeto B termina por convidar Villa-Lobos para uma viagem a seu território urbano, jazzístico,


em que não deixam de estar presentes alusões à música popular brasileira, ao rock, às trilhas sonoras. E este percurso tem ainda sua representação visual, em que a plasticidade do traço de Manu Maltez empresta de cineastas e cartunistas a expressividade narrativa do encadeamento de imagens para traduzir visualmente o que foi proposto pela música. A ousadia criativa, seja qual for a linguagem artística envolvida, sempre encontrou no SESC São Paulo o abrigo necessário para sua manifestação e para o seu desenvolvimento. Ao reverenciar Heitor Villa-Lobos por meio de um lançamento que aborda sua música de maneira inusitada, o Selo SESC reafirma seu compromisso em estabelecer diálogos entre o histórico e o contemporâneo, instigando outros olhares sobre nossa memória cultural.

Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do SESC São Paulo


A técnica do inacabado: ouvir Villa-Lobos de uma outra maneira Mário de Andrade, em uma série de reflexões estéticas publicadas sob forma de crônicas na Folha da Manhã, entre 1943 e 1945 e reunidas, décadas depois em livro com o título de O Banquete, faz uma distinção entre as técnicas do “acabado” e as do “inacabado”. As primeiras, por serem dogmáticas, afirmativas e impermeáveis às discussões, não o interessam, ao passo que o inacabado, com sua proposta insinuante, dinâmica, é, para ele, um convite ao exercício do pensamento sensível e do olhar artístico. Excitar, desestabilizar e tirar o ouvinte de um estado letárgico são características de uma “arte inacabada” e, neste sentido, talvez tenha sido esse o ponto central da busca dos jovens músicos do Projeto B na obra de Villa-Lobos. A proposta intrigante deste trabalho – “A Viagem de Villa-Lobos” – aprofunda uma questão que não quer calar: que aspectos e elementos da música de Villa-Lobos permanecem (e permanecerão) contemporâneos a ponto de atraírem os ouvidos das novas gerações? O trabalho criativo do Projeto B, neste CD, propõe ao ouvinte a escuta de um VillaLobos “inacabado”, permeável e convidativo a novas interpretações e leituras. Principalmente, pode-se dizer que o grupo intensifica uma característica presente, mas ainda não


muito valorizada na obra do compositor: a oscilação entre o conforto e o estranhamento auditivos. Melodias populares brasileiras, harmonizadas de uma maneira tradicional trazem aos ouvidos uma familiaridade que é frequentemente destruída pela intervenção de idéias que agem em prol da disrupção, da esgarçadura do pensamento musical teleológico. Muito se fala sobre a “inabilidade” de Villa-Lobos em lidar com as estruturas formais tradicionais, pautadas por um pensamento que considera o desenvolvimento musical de forma causal e direcional. Pois bem, nas mãos do Projeto B, os contrastes bruscos, os cortes formais imprevisíveis, a presença de linhas melódicas inesperadas e o uso de timbres de uma forma rude, características da poética de Villa, foram explorados de forma a provocar no ouvinte um novo e intrigante jogo perceptivo. O Choros nº 5 – Alma Brasileira, por exemplo, começa fiel à partitura: tonalidade, andamento, melodia e harmonias intactas, apenas a presença de outros instrumentos nos indicam que não se trata da obra original para piano solo. Subitamente, na seção central, a mais rítmica da peça, explodem diferentes timbres com uma impetuosidade já conhecida quando se trata de Villa e, no retorno à seção melódica, procedimentos de improvisação bastante livres são possíveis graças à manutenção de fragmentos rítmicos e melódicos do ostinato já assimilado pela memória do ouvinte.


Em A Bruxa – a última peça de A Prole do Bebê nº 1 – o caráter impressionista, delicado é desconstruído logo no início em proveito da exploração das dissonâncias que, tratadas no original com a delicadeza do pianismo francês, aqui são colocadas em primeiro plano como elemento estrutural e não como mero efeito. A sonoridade fluida e “líquida” de desenhos em intensidades pianíssimo se justapõe a momentos percussivos de muita energia e desenhos que se repetem em progressões são realizadas por diferentes timbres, tornando o elemento redundante em fragmentos espacializados e lançando o ouvido em um caminho de surpresas. A ingenuidade e a singeleza melódica tipicamente brasileira são mantidas na Cirandas nº2 – A Condessa, pairando sobre planos de acompanhamentos que exploram dissonâncias. O brusco contraste com a seção mais rítmica, que aparece com a força de uma dança popular, nos arremessam a um tempo e a um espaço opostos mas complementares ao espírito de brasilidade presentes na peça. Processos de expansão e afastamento cada vez maiores e de (de)formação rítmico e melódicoharmônica (Estudos para Violão nºs 12 e 8), uso de faixas de texturas superpostas e de improvisações realizadas por instrumentos raros no âmbito da música erudita, tais como guitarra e bateria, (Saudades da Selva Brasileira) e diálogos entre música experimental, jazz e música brasileira permeiam o trabalho do Projeto B e


confirmam sua opção estética diferenciada dentro do universo na música instrumental brasileira. Trazer à tona sonoridades, idéias e desenvolvimentos latentes na obra de Villa-Lobos, renovando e atualizando suas possibilidades de escuta, constitui-se em uma forma especial de homenagem aos 50 anos de sua morte. Deixemo-nos sensibilizar por esta proposta e embarquemos nesta viagem ao “inacabado”...

Yara Caznok


Nossa viagem

Presença é aquilo que fica da pessoa depois que ela já foi embora. Queria eu desenhar essa atmosfera. Tirar foto de música. Esculpir fumaça. Uma das coisas que mais gosto nessa coisa de arte é que a gente pode sugerir tanto sem precisar confirmar nada. Esse Villa-Lobos que me apareceu nesses traços depois de mergulhar nas adaptações do Projeto B, foi um acerto de contas. Levei o cara pra passear pela minha cidade só pra ver o que sobrava. De nós. No começo do ano quando o Yvo me contou sobre a série de shows que o Projeto B faria com adaptações do Villa, disse pra ele – pô! quero desenhar essa bela história. Daí para o projeto virar um disco/livro foi um pulo. “A viagem” a princípio remetia ao período em que o compositor esteve na França fazendo novas amizades, assimilando influências, compondo coisas novas. Depois quando comecei a pensar no roteiro escutando as adaptações do grupo, acabei estendendo “um pouco” essa viagem, trazendo o compositor para essas nossas ruas, avenidas, viadutos, shopping centers... Manu Maltez


A viagem do projeto B São Paulo, janeiro de 2009. João Marcos Coelho, jornalista e crítico musical, nos telefona e dispara: “O que vocês acham de fazer um show com arranjos inusitados para a música de Villa-Lobos? Conversa com o pessoal e me liga.” Assim o Projeto B partia nesta viagem por Villa-Lobos. A adaptação de obras de mestres da música erudita do começo do século XX é um trabalho que o grupo desenvolve desde 2004. Está registrado no primeiro CD, Andarilho, com a adaptação e desenvolvimento de “St. Gaudens in the Boston Common”, de Charles Ives; e, no segundo CD, A Noite, com “Rondes Printanières”, trecho de “Le Sacre du Primtemps” de Stravinsky. O Projeto B é influenciado diretamente pelos experimentos realizados por esses compositores do começo do século XX. Os trabalhos com textura polifônica, polirritmia, harmonia e orquestração são um prato cheio para o grupo preparar adaptações inusitadas que por meio da instrumentação, releitura de dinâmicas, elaboração de improvisos e mescla de diferentes idiomas musicais, nos permitem digerir e transformar a música ao nosso gosto. Por quê? Simples: Ao longo do século XX, diversas vezes a música erudita e a popular se cruzaram através de seus autores; entretanto, insiste-se em separar as duas como universos diferentes, compartilhando a idéia de que a música é uma arte estática, desagregadora e conservadora. É justamente contra essas idéias que o Projeto B viaja desde a virada do século; e chega


a uma conclusão óbvia – mas, que não se solidificou ao longo de gerações - de que a música é uma só. Depois desse telefonema, o grupo se reuniu e decidiu embarcar nessa viagem. Escolhemos peças de Villa-Lobos que fizessem parte do período em que ele esteve em Paris pela primeira vez ou que tivessem claramente influência dos compositores do começo do século XX, deixando de lado o repertório mais executado de Villa-Lobos (Trenzinho Caipira, Bachianas e outras). Para os arranjos, o grupo buscou o processo inverso ao das orquestrações das adaptações feitas nos outros dois discos e, ao invés da redução (orquestra para combo), realizamos a expansão da orquestração (piano ou instrumentos solo para combo). Depois de entrar em contato com este projeto, o artista Manu Maltez desenvolveu os desenhos que trouxeram o que faltava e sempre permeou a trajetória do grupo: a nossa cidade. Por fim, nos perguntamos: por quais processos passou a música do século XX? Quais foram nossas influências ao longo desse século? O que escutamos e o que tocamos ao longo da caminhada do Projeto B? As respostas dos integrantes do grupo a essas perguntas estão na abordagem dos arranjos, na execução e na livre improvisação; redescobrindo “A Viagem de Villa-Lobos”.

Projeto B


1. Prole do Bebê nº1 - Bruxa (A Boneca de Pano) 4:16 Heitor Villa-Lobos (adaptação/arranjo Leonardo Muniz Corrêa) 2. Choros Nº5 “Alma Brasileira” 6:41 Heitor Villa-Lobos (adaptação/arranjo Yvo Ursini) 3. Choros Nº2 4:43 Heitor Villa-Lobos (adaptação/arranjo Yvo Ursini) 4. Cirandas Nº2 - A Condessa 3:25 Heitor Villa-Lobos (adaptação/arranjo Vicente Falek) 5. Saudades das Selvas Brasileiras Nº1 6:12 Heitor Villa-Lobos (adaptação/arranjo Leonardo Muniz Corrêa) 6. Estudos para violão Nº12 e Nº8 6:42 Heitor Villa-Lobos (adaptação/arranjo Vicente Falek) 7. Ouvido 8:38 Yvo Ursini 8. Choro Esquecido 4:32 Leonardo Muniz Corrêa 9. Vento 6:40 Vicente Falek

Yvo Ursini guitarra,ruídos, arranjos e composição Leonardo Muniz Corrêa sax alto, clarinete, arranjos e composição Vicente Falek piano, arranjos e composição Amilcar Rodrigues trompete, cornet e flugelhorn Henrique Alves baixo Mauricio Caetano bateria Para mais informações e músicas: www.projetob.net www.myspace.com/projetobgroup


Produzido por Yvo Ursini Gravado por João Zílio (Big John) em agosto e setembro de 2009 no estúdio do SESC Vila Mariana, São Paulo. Mixado por João Zílio (Big John) e Yvo Ursini em setembro de 2009 no estúdio do SESC Vila Mariana, São Paulo. Masterizado no Classic Master por Carlos Freitas Roteiro e desenhos Manu Maltez Projeto Gráfico Thereza Almeida Foto Isabel D’Elia Agradecimentos especiais

João Marcos Coelho por fomentar Villa-Lobos no Projeto B Gerência de audiovisual - Equipe Selo SESC por acreditarem no projeto Agradecimentos

Felipe Julian, Escola de Musica Companhia das Cordas, Zita Ursini, Angela Pilotto, Claudia Vieira Garcia, Lisandra Saltini, Diego Saltini Alves, Tatiana Sugui SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO

Administração Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional Abram Szajman Diretor Regional Danilo Santos de Miranda Superintendente de Comunicação Social Ivan Giannini SELO SESC

Gerente de Audiovisual Silvana Morales Nunes Gerente Adjunto Ana Paula Malteze Coordenador Gilberto Paschoal Assistentes de Produção Ricardo Tifona                                 Rafael Martese Assistente Administrativa Yumi Fujihira Sakamoto Gerente de Artes Gráficas Hélcio Magalhães



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