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Estes dois personagens nasceram, aparentemente, em lados opostos da História da Austrália, herdeiros dos acontecimentos passados, não são mais do que suas vítimas: os pais de Ralph e ele próprio (arborigenes) sofreram a violência do colonialismo. A avó e a mãe de Liz trabalharam no orfanato para onde Ralph foi levado. Mas, do ponto de vista dos arborigenes – e de Ralph –, elas pactuaram com a ideologia colonialista dominante. E os dois possuem identidades de dupla referência: Ralph identifica-se com a sua família adoptiva ocidental e não esquece a sua família de origem arborigene; Liz com a Austrália onde nasceu e com o local da sua família de origem, francesa. Na vila provençal na qual a sua mãe viveu, Liz encontra uma comunidade de acolhimento, simultaneamente atractiva e repulsiva. Marguerithe, Joseph e até o investigador da polícia, representam a atractividade e receptividade à nova habitante, favorecendo a sua noção de pertença à região. Martha, por seu lado, simboliza o elo de amizade com a avó e a mãe de Liz. Ela possui cartas reveladoras da trajectória da sua família de origem que são, ao mesmo tempo, de denúncia de dois temas contemporâneos: os processos de emigração (segregação, exploração, trabalhos forçados...) e o pesadelo da violência doméstica (sobre a avó). Por seu lado, a repulsão é ilustrada pelo tráfico de droga, que passa pela quinta onde Liz vive e que a coloca em risco de vida. E é ainda o passado colonial que determina a morte, só aparentemente acidental, da mãe de Liz e marca profundamente a relação desta com Ralph que, por sua vez, ao apaixonar-se acaba por impedir a sua morte às mãos do traficante de droga, decidindo depois afastar-se. Esta história de amor (interrompida) pode ler-se como uma janela de esperança no futuro, pois qualquer que seja a nossa origem são as relações de confiança e o amor que nos movem em direcção a um mundo melhor e mais igualitário. Um livro inteligente e corajoso! É pena não haver tradução portuguesa. Alda Gonçalves

20 www.edicoeshorus.com / Agosto 2018 Proof Copy: Not optimized for high quality printing or digital distribution

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HÓRUS CULTULITERARTE  

HÓRUS CULTULITERARTE Published onAug 2, 2018 Horus Cultuliterarte 12ª a 21ª edição - novembro de 2017 a agosto 2018

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