Page 11

Catarina e Carolina viviam numa vila bem a norte do Mundo. Era feita de pinheiros, casas de pedra e cheiro a bolinhos de noz. Às vezes era feita de neve. Catarina tinha braços fortes e uma personalidade de ferro. Carolina era uma maria-vai-com-as-outras, o que fazia dela, quase sempre, uma Carolina vai com Catarina. Não foi de admirar que quando Catarina decidiu escalar a montanha, Carolina foi também. Levavam mochilas de sonhos, sacos-cama e tendas de pano. Subiam as primeiras colinas, Catarina pela força das pernas, Carolina de asa-delta imaginária, planando na torrente de vento que mais tarde chamou de amizade. Catarina cingia-se à bússola cor de prata. Carolina ia atrás do cantar dos melros. Curiosamente, a direção quase sempre coincidia. Por isso nunca se perderam. A meio-montanha, perdido, errava por ali um lobo solitário. Lá ao longe mostrava os dentes, como quem ameaça. Catarina, apreensiva, recuou cerca de passo e meio. Já Carolina, serena, cantava serenatas em clave de lua. O lobo deitou-se tal esfinge, apontando as patas frontais para tão graciosa voz. As mãos de Carolina afagavam-lhe o pelo, e o lobo semicerrava os olhos de satisfação, ronronando como um gira-discos estragado. Que é como quem diz, ronronando como um gato. Coisa estranha essa, lobo fazer som de felino. As duas seguiram o seu caminho, olhando o bicho lá ao longe, já só era um pontinho. O lobo dormitava sob a cama de melodias preparada por Carolina. Era tarde, quase noite, por isso a tenda fora erguida. Lá dentro era mais quente que parecia. Como as rochas das montanhas não eram boas para dormir, Carolina montou a tenda em cima de um tapete voador. Movia-se pela luz das auroras, como um caminho-de-ferro. Catarina não dormia, uma luz forte encandeava. Como Catarina não dormia, Carolina também não. Céu ainda escuro, a luz forte era a Lua Cheia. A tenda pousara bem no pico da montanha. Carolina contemplava um malmequer, que pousava ali, em jeito inesperado; a plantinha mais a cume. Catarina não queria saber de flores. Olhava além do horizonte, buscava novos destinos. Viu ao longe outra montanha, que por ser tão alta, enamorava as constelações. Como se as montanhas fossem astros, e os astros as montanhas. Não foi de admirar que quando Catarina decidiu escalar as estrelas, Carolina foi também. Juntas viveram os seus anos, subindo montanhas, às vezes, maiores que a vida. Catarina procurava ir cada vez mais alto. Carolina simplesmente, ia junto de Catarina.

Cá em baixo, o lobo uivava à Lua, apontando a garganta para a montanha de estrelas. Soava a serenatas em clave de Sol. A Lua miava de volta, como um gato. por João Freitas, em A Incrível Máquina de Gutenberg

11 www.edicoeshorus.com / Agosto 2018 bution Proof Copy: Not optimized for high quality printing or digital distribution Proof Copy: Not optimized for high quality printing or digital distri

Profile for Edições Hórus

HÓRUS CULTULITERARTE  

HÓRUS CULTULITERARTE Published onAug 2, 2018 Horus Cultuliterarte 12ª a 21ª edição - novembro de 2017 a agosto 2018

HÓRUS CULTULITERARTE  

HÓRUS CULTULITERARTE Published onAug 2, 2018 Horus Cultuliterarte 12ª a 21ª edição - novembro de 2017 a agosto 2018

Advertisement