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ATRO CORAÇÃO

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A presente edição é inspirada nos trabalhos desenvolvidos na América Latina através de Sereia Ca(n)tadora (São Vicente, Santos – Brasil), Dulcinéia Catadora (São Paulo – Brasil), Eloisa Cartonera (Argentina), Sarita Cartonera (Peru), YiYi-Jambo (Paraguai), Yerba Mala (Bolívia), Animita (Chile) e La Cartonera (México). Edições Caiçaras é uma realização do Instituto Ocanoa e Projeto Canoa. Capa feita a mão com material reciclado.

Contato: mb-4@ig.com.br 13-91746212 13-34674387

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ATRO CORAÇÃO Uma livre adaptação intertextual sobre os limites do Amor.

Edições Caiçaras - São Vicente /SP Fevereiro de 2011

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© Márcio Barreto

Capa, projeto gráfico, diagramação e editoração: Márcio Barreto Conselho Editorial: Flávio Viegas Amoreira Marcelo Ariel

Barreto, Márcio Atro Coração / Márcio Barreto – São Vicente: Edições Caiçaras, 2011. 52p. 1.Dramaturgia brasileira I. Título Impresso no Brasil

2012 Edições Caiçaras Rua Benedito Calixto, 139 / 71 – Centro São Vicente - SP - 11320-070 www.edicoescaicaras.blogspot.com mb-4@ig.com.br 13-34674387 / 13-91746212

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À Christine Amici – atriz e amiga que durante 17 anos guardou o texto original.

Aos loucos de amor, insanos por sua avidez de sentimentos.

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Sonhei que estava ensaiando a peça como se fosse música. Lembrome do momento em que explicava aos atores que em breve os sons estariam harmonizados, que aquela aparente desordem era apenas uma introdução necessária para mostrar que os mais variados e desencontrados sons tinham entre si uma harmonia profunda. “Totem” – Márcio Barreto

O amor é um laço semente colheita de vendavais o abandono da despedida o contentamento do reencontro em grandes goles Traga a alma imensa sonhando céus e oceanos sem fim

“Ensaio” – Márcio Barreto

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ATRO CORAÇÃO

CENA I O vídeo Cena I é projetado na tela. Gabriel levanta-se da cama e caminha em direção ao proscênio. Lilith observa Gabriel se afastando. Som de queixada (músicos). Silêncio.

LILITH (gritando): O que há? (levanta-se num sobressalto e chora) Gabriel! (soluçando) Eu tinha treze anos... E estava num lugar como esse... Minha amiga estava mal e vomitava muito... Parecia uma grande idiota feliz... Ela tentou se levantar e aí... Breve pausa. GABRIEL: E aí? LILITH: Eu não sei, mas naquele momento eu me sentia irremediavelmente presa... E o pior, ao ver aquilo eu não desejava ir embora... Eu queria ficar (desata a rir). GABRIEL (sério): Pare de rir, me conte a história. LILITH (parando de rir e gritando): Estou ficando idiota (levantase e caminha para a esquerda)... Minha cabeça vai explodir... Não, minha história... Minha amiga... Ela se levantou e foi... Foi deitar no sofá e caiu... Bateu a cabeça e o sangue sujou o tapete... Ela estava

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tão feliz que gargalhava sem parar... Antes nem se notava que ela pudesse sequer compreender a felicidade. GABRIEL: Gostaria de cair como ela diante de você. LILITH: Vai vomitar? GABRIEL: Talvez (despenca no chão). Blecaute.

CENA II Os dois conversam no escuro.

GABRIEL: Você acha que eu sou louco? LILITH: Louco? GABRIEL: É melhor voltar. LILITH: Você está muito cansado, seu olhar está perdido, tão distante. GABRIEL: É. LILITH: Está acontecendo algo que eu não possa saber? GABRIEL: Não sei direito. LILITH: Por quê?

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GABRIEL: Porque não sei. LILITH: E o que você pretende fazer? GABRIEL: Nada. Não tem como não acontecer. LILITH: Pode ser mais claro? GABRIEL: Você consegue? LILITH: Não sei. GABRIEL: É como se você tivesse arrancado minha pele e eu me visse por dentro... Por dentro de mim vendo você. LILITH: Parece que está chovendo, mas aqui é tão difícil escutar. GABRIEL: Se eu pedisse você me mataria? LILITH: Só se fosse aos poucos... Para aumentar o prazer da minha tristeza... Você não percebe que lhe matei há muito tempo? GABRIEL: Pode ser. Talvez você tenha me seduzido até a exaustão, até não sobrar mais nada além da morte. Que maneira de morrer, não? LILITH: Eu vi um filme sobre isso. Um americano no Marrocos, em uma cidade que não lembro o nome. ele assiste uma performance na rua e não entende nada; uma mulher linda, aquela atriz com a boca grande, chega ao seu lado e traduz a história... GABRIEL: Sei, eu assisti também. Não gostei. Achei muito sem sentido, fácil, óbvio. LILITH: E aí? Qual o problema? O óbvio não é bom?

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GABRIEL: Como matar quem se ama? LILITH: Deve ser difícil... Matar quem você ama. GABREIL: O problema é quando você mata aos poucos e nem percebe. LILITH: Aí é mais fácil, é só não dar atenção, não dizer o que sente, agredir, não valorizar... Isso basta para matar aos poucos. GABRIEL: Eu acho que você é louca. LILITH: A gente não ia voltar?

CENA III Música “Babel”. Vídeo em primeira pessoa de Gabriel dirigindo um carro, passando por ruas e avenidas até avistar Lilith na calçada. Cessa a projeção do vídeo. Um corredor de luz se acende no palco, Lilith caminha em direção à rotunda. Acende-se um foco sobre Gabriel (de costas para o público) que está dentro do carro (apenas as cadeiras).

GABRIEL: Por favor. Você sabe onde fica a rua Guaibe? LILITH: Sei, fica um pouco longe, mas é fácil de chegar. Na terceira à direita você vira e segue até a quarta rua, depois do segundo semáforo você pega a rua da padaria, tem uma padaria bem na esquina... GABRIEL: Nossa! Já me perdi... Você vai para aquele lado?

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LILITH: Mais ou menos. GABRIEL: Ótimo. Quer uma carona? Assim você me ajuda. Lilith demonstra dúvida, olha para seu relógio e entra no carro. Apaga-se o corredor de luz em Lilith. Inicia-se a projeção de vídeo (sem música, apenas com os sons do carro e da rua) em primeira pessoa do trajeto do carro. GABRIEL: Para onde você vai? LILITH: Em direção a praia... É melhor virar nessa rua... (tosse e sente-se tonta) Eu não sei direito, talvez seja melhor na próxima... Você não pode abrir a janela? GABRIEL: Lógico (abre a janela do carro). Acho que você não está bem. Seu rosto está pálido... Bebe, é refrigerante, vai lhe fazer bem. Ajuda por causa da glicose. Está melhorando? LILITH: Acho que sim, não precisa se incomodar. GABRIEL: O que lhe aconteceu? LILITH: Nada, eu estava numa festa com pessoas que falavam e riam alto demais, escutavam música chata, era tudo tão sufocante. Acho que bebi demais. Nossa! Era um saco. Ah! Vire a direita. GABRIEL: Cicuta e hipocrisia! É bem natural que você esteja assim. Mas nem tudo está perdido. O vento está lhe fazendo bem, seu rosto está mais vivo... É verdade, seus olhos são muito bonitos.

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LILITH: Você é muito gentil ou um ótimo mentiroso... Pode virar nessa rua, olha a padaria. O que você costuma fazer em noites como esta? GABRIEL: Raptar lindas donzelas. LILITH (sorrindo): E o que você faz com elas? GABRIEL: Arranco seus corações. LILITH: Ótimo, já estou farta do meu. Não, não, vire a esquerda. Onde você pretende me levar? GABRIEL: Talvez a lua? LILITH: Exatamente para onde eu queria ir. Blecaute.

CENA IV A um canto do palco os músicos executam “Chuva Oblíqua”, ao término, um dos músicos produz som de batidas na porta. A luz sobre os músicos se apaga e, simultaneamente, acende-se um foco sobre Gabriel que abre a porta e entra no quarto. Deixa uma bandeja com o café da manhã e arruma alguns objetos. Lilith acorda. Projeção Vídeo do cativeiro (vídeo cena IV).

GABRIEL: Bom dia. Melhorou? LILITH: Minha cabeça está doendo... Onde estamos?

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GABRIEL: Onde estamos? Na minha casa. LILITH: É perto? GABRIEL: É. É perto. LILITH: Nossa! Acho que bebi demais. Eu vi que você trouxe café, mas eu não tenho fome quando acordo e eu preciso ir embora. GABRIEL: Ir embora? É muito cedo, fica mais. LILITH: Que horas são? GABRIEL: Oito horas. LILITH: Eu realmente preciso ir embora. Onde está minha bolsa? GABRIEL: Não sei, acho que atrás da cama. Lilith levanta-se (tonta) e começa a procurar suas coisas. GABRIEL: Você ainda está fraca, descanse mais um pouco, depois eu levo você (conduz Lilith até a cama). Você ainda não está bem... Acho que está com febre; ontem quando estávamos no carro você passou muito mal e desmaiou, sua pressão estava baixa... É melhor descansar. Assim que você melhorar vamos embora. Qualquer coisa é só me chamar que estarei ao lado. Aqui tem tudo o que você precisa no momento. Descanse. Blecaute.

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CENA V Projeção de Vídeo (vídeo cena V). Lilith e Gabriel estão no chão, amarrados um ao outro tentam se desvencilhar de uma corda imaginária.

LILITH: Quem é você que protegido pela escuridão vem descobrir meus segredos? GABRIEL: Como poderia dizer quem sou, se o que sou poderia me tirar de você? LILITH: Gabriel? É você, eu sei... Mesmo que eu escutasse uma única vez a sua voz eu jamais a esqueceria. Como chegou até aqui, no meio de tantas pessoas e de muros tão altos? Se alguém lhe vir será a morte. GABRIEL: Não haveria como não lhe encontrar e não será a morte motivo para me impedir de lhe ver. LILITH: Você morrerá. GABRIEL: Temo menos a morte do que a falta do seu amor. LILITH: Como você descobriu onde estou? GABRIEL: Um coração apaixonado descobre qualquer coisa. LILITH: Você me ama, Gabriel? Mas quanto você me ama? Será que me julga tola? A verdade é que estou apaixonada também, mas não quero que me julgue fácil, caso contrário lhe direi “não” até que me convença da necessidade brutal do seu amor.

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GABRIEL: Lilith, eu esperei por esse... LILITH: Não, não fale nada. É muito repentino. Não deve ser assim, pelo menos nesse momento (desatam os nós e levantam-se do chão). Boa noite! Que você possa escutar o que meu coração diz.

GABRIEL: Vai me deixar assim? LILITH: Assim como? GABRIEL: Sem a esperança de sentir que você me ama? LILITH: Eu lhe amo muito antes de lhe conhecer, Gabriel. Correm em direções opostas e de repente param como se uma outra corda imaginária os prendesse. O foco de luz sobre Lilith se apaga, ficando apenas o de Gabriel que tenta se libertar. Apaga-se o foco sobre Gabriel que sai de cena.

CENA VI Projeção do Cativeiro (vídeo cena VI). Um foco acende-se sobre Lilith que está sentada. Impaciente, espera a chegada de Gabriel. Gabriel entra no quarto. GABRIEL: Já acordou? LILITH: Não! Estou dormindo! O que está acontecendo? Por que você trancou a porta? Você não sabe que a droga dessa maçaneta está

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emperrada? (fala isto enquanto procura um dos sapatos entre os lençóis). Gabriel: Calma! Você está muito nervosa. LILITH: No que você estava pensando para sair e me deixar trancada aqui? Quem você pensa que é, hein? (Colocando os sapatos) Cadê a merda da minha bolsa? GABRIEL: Eu não vou conversar com você desse jeito. LILITH: Quem não quer conversa sou eu! A minha bolsa ficou no seu carro! Chega! Cansei. Eu quero sair daqui. Vai, sai da minha frente! (avança em direção à porta, Gabriel a impede). GABRIEL: Calma! Eu não posso deixá-la sair. Não me obrigue a usar a força. LILITH: O que é isso? Um seqüestro? (Ri). Quem você pensa que eu sou? A filha de algum milionário, algum político importante, uma espécie de celebridade milionária? Você se enganou. Eu sou uma BAI-LA-RI-NA! E nesse país ninguém fica rico dançando ballet! Nem eu nem minha família temos dinheiro pra lhe pagar resgate! GABRIEL: Eu sei quem você é. Não se trata de dinheiro. LILITH: De onde eu lhe conheço? Já nos vimos outras vezes? GABRIEL: Eu estou apenas obedecendo ordens. Não posso lhe dizer mais nada.

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LILITH: Ordens de quem? GABRIEL: Já disse que não posso falar. LILITH (irritando-se): De quem? Vamos, diga! GABRIEL (energicamente): Entenda uma coisa, você não tem muitas opções. Por hora acalme-se! Você não conseguirá arrancar nada de mim. Gabriel se afasta. Pequena pausa. LILITH: Você tem um cigarro? Gabriel dá um cigarro a Lilith. GABRIEL: Digamos que você será minha hóspede por um tempo. LILITH (em um crescente de raiva): Hóspede? Você é louco? Você me prende em um lugar que nem imagino onde seja e vem com essa conversa de hóspede? Eu exijo que você diga por que está me prendendo aqui. Responda! Por quê? (Começa a agredi-lo). Seu imundo, imbecil, tire suas mãos de mim! Gabriel desfere um tapa em Lilith. GABRIEL: Não, não era assim... Eu... Eu estou apaixonado por você. LILITH: Ah! É isso?

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Blecaute.

CENA VII No escuro os músicos produzem sons metálicos. Acende-se um foco sobre Gabriel que está sentado no palco limpando um instrumento. Projeção (vídeo cena VII)

VOZ I (gravação): Acalme-se homem. O que aconteceu? Por que está tão nervoso? VOZ II (gravação): Uma tragédia! Minha filha foi raptada. GABRIEL: Não! Ela não foi raptada. Lilith é minha esposa. VOZ II (gravação): Como? GABRIEL: Sabíamos que o senhor não permitiria nosso casamento. Por isso casamo-nos às escondidas enquanto o senhor viajava a trabalho. Lilith me ama! Sons metálicos. Gabriel volta a limpar o instrumento. VOZ III (gravação): Prontos? Então vamos começar a gravar. O que torna um casamento feliz? GABRIEL: Nós acreditamos que são muitos os fatores fundamentais para um bom relacionamento. O amor e o equilíbrio, o respeito, a cumplicidade, a simplicidade.

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LILITH (gravação): A verdade é que não sabemos explicar. Nós simplesmente nos damos muito bem. VOZ III (gravação): E vocês não brigam? Às vezes não pensam em como seriam suas vidas se não estivessem casados? GABRIEL: Brigamos. É inevitável, mas aprendemos com nossos erros. Além do mais não temos problemas financeiros, respeitamos nossas individualidades e apoiamos uma ao outro. LILITH (gravação): Temos nossos amigos, nossos empregos, viajamos. Não estamos dizendo que não temos nossas divergências e discussões, mas no geral nos entendemos. Gabriel é muito calmo e amável. Enfim, nós nos completamos. VOZ III (gravação): Muito bem! Agora quietos, mantenham a expressão. Isso mesmo (som de máquina fotográfica). Obrigado pela entrevista. Gabriel volta ao instrumento. Sons metálicos. VOZ II (gravação): Como? Quer dizer que você a rapta e a obriga casar em uma capela qualquer? GABRIEL: Para o senhor minha palavra não vale nada. Creio que será melhor escutar sua filha. Peço licença para trazê-la aqui. VOZ I (gravação): Pois bem, traga-a. GABRIEL: Aqui está minha esposa. Perguntem-lhe por que se casou comigo. VOZ I (gravação): Senhora, seu pai acusa Gabriel de tê-la raptado. É verdade?

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LILITH (gravação): Que meu pai me perdoe, mas casei-me com Gabriel. Blecaute. CENA VIII Um foco se acende sobre Lilith que está em pé atrás da porta. Projeção do Cativeiro (vídeo cena VIII)

LILITH: Escute, você não pode fazer isso. Você disse que me ama e se me ama verdadeiramente, não pode me deixar presa aqui. Este quarto é muito abafado, não tem janelas. Eu preciso ver o céu, respirar ar puro. Aqui eu mal consigo respirar. Estou sofrendo muito, acordei com náusea e dor de cabeça. Seu eu ficar muito tempo aqui, eu morrerei. Quanto tempo você pretende me deixar presa? Já não é o suficiente? Do outro lado da porta um foco se acende sobre Gabriel que entra no quarto. Som da porta abrindo. GABRIEL: Depende. LILITH: Do quê? De um dia eu amar você? Prefiro morrer. GABRIEL: Procure encarar os fatos de frente, Lilith. Eu lhe amo, não faria nada para lhe magoar, mas não posso deixá-la ir embora. LILITH: Você é hediondo.

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GABRIEL: No momento certo você poderá ir. LILITH: Aqui é insuportável. Eu preciso respirar. Escute, eu tenho claustrofobia e mesmo que não me ocorra uma crise, meu corpo reage, meus pulmões ficam fracos e adoecem rápido. Preciso de luz, me movimentar com mais liberdade, respirar. Respirar. Eu preciso respirar. Você está me sufocando. GABRIEL: Você tentará fugir. LILITH: Não. Eu prometo, não fugirei, não gritarei, não farei nada, pode me amarrar. Esta casa é muito afastada, ninguém nos verá. GABRIEL: Com certeza. A pessoa mais próxima deve estar a quilômetros daqui. Eu darei tudo o que você precisar e quiser, qualquer coisa, mas ainda é cedo para deixá-la sair. LILITH: Eu estou apenas pedindo ar puro! GABRIEL: É muito perigoso. Não sei se posso confiar em você. LILITH: E eu não sei se posso respirar por mais tempo aqui. GABRIEL: Se eu a levar terei que amarrar suas mãos. LILITH: Quando? GABRIEL: Talvez à noite. Vou pensar. Lilith em estado de felicidade abraça e beija Gabriel. Blecaute.

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CENA IX O palco escuro, música “Pó de Estrelas”, acende-se um foco sobre os músicos. No centro do palco, Gabriel acende e apaga velas em um movimento contínuo.

GABRIEL (repetidas vezes): Hoje é domingo, pé de cachimbo, cachimbo é de ouro, bate no touro, o touro é valente, bate na gente, a gente é fraco, cai no buraco, o buraco é fundo, acabou-se o mundo. A cena acaba com a última vela sendo apagada. CENA X Lilith está ajoelhada no chão rezando compulsivamente. Projeção do Cativeiro (vídeo cena X). LILITH: Meu Deus, não sei mais há quanto tempo estou presa. Sei que meu pulmão está uma merda. Será que vou morrer? Sempre penso o mesmo. Meus nervos estão à flor da pele, mas no fundo as coisas são de outro modo. Seu olhar é perdido e penetrante. Nada de horrível, nada de manias sexuais. Ele respeita meu corpo. No começo tomei todos os cuidados possíveis, ficava atenta a qualquer movimento, procurava sempre encará-lo de frente. Imaginei que fosse fácil fugir, mas todas as vezes que tentei, ele se mostrou de uma agilidade surpreendente. Perdi sua confiança. Ele não me puniu, mas agora não confia mais em mim. Estou a espera dele. Uma coisa estranha, ele me fascina ao mesmo tempo que sinto desprezo e ódio. Todos meus parentes devem estar loucos de preocupação, imaginando que estou morta. Como é possível que ele me ame? Como é possível amar uma pessoa que não se conhece? Procura

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desesperadamente me agradar, mas ele é louco. Todos os loucos agem assim. (modificando seus gestos e tom de voz) Todos os loucos incendeiam-se. Romas e liras. Música. De onde vem essa música que não escuto e entretanto me fustiga o ventre? Febre, tenho febre e me perco em fogo. Mas tenho que ter calma mesmo dentro de todo desespero. Vou matá-lo. Eu o seduzirei e depois quebrarei seu pescoço. Ele ficará jogado no chão tentando respirar e parar de gozar. (sons de mulheres rezando). Vamos nos apressar (anda de um lado para outro). Precisamos ir para a cama o mais depressa possível, não quero mais esperar, não sinto mais dor, estou doente e seremos felizes. Num instante levarei você nos braços. Começa a dançar, sente náuseas e desmaia. correndo. Cessa a música.

Gabriel entra

GABRIEL: Linda senhora desfalecida! Quero o resto dos sonhos que lhe cobriram a noite. Levanta que vou lhe mostrar o inferno, enquanto faço da sua saliva um manto para meu corpo sujo. Blecaute. CENA XI Acende-se uma luz sobre Lilith que sobe para o tecido (equipamento de circo). Outro foco se acende sobre Gabriel (com asas de anjo) que está embaixo do trapézio (equipamento de circo) olhando Lilith.

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GABRIEL: Só critica o amor desesperado quem nunca se desesperou de amor... Aqui está quem amo e não deveria amar, Lilith... Que me importa se goza sobre mim, e sorve aquilo que poderia ser meu filho? O que importa é que goza comigo e aqueles que não se tornaram meus filhos vivem dentro dela, ainda que por alguns instantes em ambos os lábios... LILITH (no tecido): Ai de mim! GABRILEL: Lamenta! Mas se quer o que também eu quero não deveríamos estar assim... LILITH: Gabriel, Gabriel! Ah! Por que você, Gabriel? Não poderia ser outro e deixar apossá-lo até que viesse o esquecimento e restasse apenas o gozo? GABRIEL (à parte, sussurrando): Continuo ouvindo mais um pouco, ou lhe respondo? O homem padece da aquilo que lhe acomoda!

LILITH: Anda Gabriel! Porque nem eu nem você queremos saber quem somos, mas o que podemos fazer com nossas mãos, pés, braços. Suas asas só têm serventia se voarem até mim, agora... GABRIEL (no trapézio): Sim, aceito sua verdade como ela é. LILITH (de costas para Gabriel): Quem é você, que encoberto pela noite, procura descobrir meus segredos? GABRIEL: Aquele que deveria convencer, mas foi por você convencido.

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LILITH: Meus ouvidos ainda não beberam cem palavras sequer de sua boca e já reconheço o tom do meu anjo-não-caído... GABRIEL: Estou caído e você não vê? Olha o quanto me expus! LILITH: Não lhe vejo, pois meus olhos não alcançam sua distância, e mesmo perto, não lhe fitariam através de sua luz. Perdeu o medo da punição? Se alguém lhe surpreender aqui será o fim. GRABRIEL: Ai! Há mais perigo em seus olhos do que em toda loucura e solidão. LILITH: Por nada neste mundo desejaria a sua solidão. GRABRIEL: Preferiria nunca ter lhe visto a perder seu amor. LILITH: Não chame o que sinto de amor, caso contrário não sorveria, faminta, o que vem de você... GABRIEL: Os que não podem amar também sentem amor... LILITH: Estremece dentro de mim, ao lhe ouvir, há algo que acelera e palpita e chego a agoniar. Você me ama? GRABIEL: Juro pela luz do outro lado desta lua, que clareia de prata as minhas asas. LILITH: Jura pela lua inconstante. Mas se quer saciar sua curiosidade, eu lhe prefiro alado e puro, condição que me embebeda da mesma inconstância lunar: desejar e depois não e novamente desejar a quem tenho ao lado e ao mesmo tempo, distante...

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GABRIEL: Nunca me amará pura e constantemente?... LILITH: Prometo! Vai agora junto com a noite, sabendo que é meu eleito (faz menção de descer do tecido). GRABRIEL: Vai deixar-me sair assim insatisfeito?

LILITH: Você ficou satisfeito antes? Pois então voltará a acordar lembrando do meu cheiro e coberto pelos restos do nosso amor.

GABRIEL: Fuja comigo! LILITH: Não posso. O que tinha já lhe dei. Alguém se aproxima. Vá embora que logo estarei em seus sonhos (começa a descer).

Gabriel desce do trapézio.

Blecaute.

CENA XII No escuro os dois atores correm pelo palco afoitamente, param e começam a rir alto. Correm novamente. Som de queda. As luzes se acendem, Gabriel está caído no chão.

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LILITH: Gabriel! Lilith o olha dos pés à cabeça. Aproxima-se de seu rosto e sente sua respiração. Levanta-se e coloca o pé no pescoço de Gabriel. Arrepende-se, Coloca a mão em sua nuca e aproxima seu rosto para beijá-lo. Apaga-se a luz. Sons de respiração ofegante.

CENA XIII Projeção do Vídeo Cena XIII. Acende-se um foco sobre Lilith que está deitada na cama tendo uma crise de falta de ar. Gabriel entra no quarto.

GABRIEL: Se você julga que me comovo com esse truque de ficar deitada está enganada. LILITH: Não se aproxime de mim. Você é um idiota! Não passa de um verme que rasteja na própria loucura. GABRIEL: (gentilmente): Cale-se! Sou eu quem manda. Posso fazer o que “eu” desejar. LILITH: Eu sinto uma enorme vontade de lhe matar, seu eu pudesse faria agora. Não se preocupe! Eu jamais daria queixa de você. A cadeia é pouco para o que você merece.

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GABRIEL: Ótimo! Eu posso esquecê-la por completo. Que tal apodrecer sozinha?

Gabriel começa a se afastar em direção à porta. Lilith agarra as pernas de Gabriel.

LILITH: Estou muito doente. Tenho pneumonia ou algo pior. Você precisa chamar um médico. GABRIEL: Deite-se. Você sabe muito bem que não está doente. Se tivesse com pneumonia você não conseguiria nem se levantar. LILITH: Mas meu pulmão dói muito, não consigo respirar direito, à noite não durmo e mal consigo comer.Veja como estou quente. Esse quarto é muito abafado. GABRIEL: Tem ar de sobra. LILITH: Se eu não estivesse doente, você acha que eu me sujeitaria a pedir alguma coisa a você, depois de tudo? Eu estou doente de verdade. GABRIEL: É só uma gripe, passa logo. LILITH: Se você não chamar um médico eu morrerei. Você vai me matar. Estou com muito frio. Por favor, estou com medo.

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Gabriel aproxima-se e abraça Lilith. Tira sua camisa e meias e veste-as em Lilith

GABRIEL: Você está indisposta, é apenas isso. Vou trazer uma bebida para esquentar e num instante você ficará boa.

Gabriel pega uma bebida e serve Lilith.

GABRIEL: Você vai gostar. Mas não beba depressa porque é forte. Sem dúvida você imagina que eu já tenha bebido hoje. LILITH: Não. Por quê? Você bebe sempre? GABRIEL: Não posso explicar tudo, mas sempre me comportei como um covarde quando amei. LILITH: Isso não importa, não nesse momento. Você está me assassinando e finge que não acredita. Eu sei, morrerei em condições desonrosas. Tenho-lhe tanto horror que chego a confundir com paixão. E isso me enoja a tal ponto que tenho medo (bebe cada vez mais, pequena pausa). Estou pensando: se eu continuar bebendo, você me dirá “deite-se” e eu deitarei, “lamba o chão” e eu lamberei... Eu ia ter uma bela morte... Não há nada que me seja mais odioso, fazer prazerosamente tudo que você gostaria que eu fizesse. GABRIEL: Dançar? Você dançaria para mim? LILITH: Por quê?

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GABRIEL: Porque quando você dança esqueço quem sou... Eu a invejo por beber nessa situação. Quer mais? Você dançaria para mim? LILITH: Depende. Se você tocar a música que eu gosto.

Gabriel toca “Canção do Mar” na escaleta. Lilith levanta-se, toma mais uns goles da bebida e inicia uma improvisação. Em determinado momento perde o equilíbrio e Gabriel a ampara e a abraça. Lilith começa a chorar. Leva-a de volta para a cama.

GABRIEL: Não fique brava. Talvez você não entenda, mas preciso que você fique louca. Preciso disso para não morrer antes de você. LILITH: Você morrerá? Está dizendo a verdade? GABRIEL: Não quero morrer... Quero viver com você, tenho medo da morte... Penso nisso vazio... Tenho um medo terrível... Você... E depois eu... Dois mortos... O quarto vazio. LILITH: Não, é inútil. Fica ao meu lado, mais perto, me abraça...

GABRIEL: Não.

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O vídeo Cena I é projetado na tela. Gabriel levanta-se da cama e caminha em direção ao proscênio. Lilith observa Gabriel se afastando. Som de queixada (músicos). Silêncio.

LILITH (gritando): O que há? (levanta-se num sobressalto e chora) Gabriel! (soluçando) Eu tinha treze anos... E estava num lugar como esse... Minha amiga estava mal e vomitava muito... Parecia uma grande idiota feliz... Ela tentou se levantar e aí... Breve pausa. GABRIEL: E aí? LILITH: Eu não sei, mas naquele momento eu me sentia irremediavelmente presa... E o pior, ao ver aquilo eu não desejava ir embora... Eu queria ficar (desata a rir). Blecaute.

CENA XIV Lilith está sentada no chão envolvida por um lençol branco. Projeção simultânea de fotos das cenas que não ocorreram na peça. Pausa na foto de Gabriel entregando flores à Lilith.

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LILITH: Quem será o filho da puta que pagará as flores e o enterro se eu morrer de amores? Morrerei sem esperança nos braços do inimigo que me amará e em cólera queimará meu corpo e o jogará ao vento. Sons de vento e relógios. A luz se apaga em resistência.

CENA XV Gabriel está em pé, ao lado de um lençol branco estendido no chão.

GABRIEL: Eu sei que você está dormindo e não acordará, passei horas inteiras olhando seus olhos fechados. Você não acordará, mesmo que o impossível fosse o último cigarro que fumássemos ainda insones. Ilhas de insônia, partes imaginárias do que não conheço, exílios da minha loucura, mundos infinitos, pequenos. Não, você não está dormindo, nem sonhando, nem fingindo. Você não está sonhando e eu não posso mais sonhar. Meu corpo ainda clama o seu, minha boca se contorce. Imagino coisas, coisas que você talvez pudesse gostar. Mas agora a tarde cai e sua morte me apavora, me faz tremer. Perto de mim a frieza dos seus lábios me traz um sorriso tão triste e horrendo que me condena a uma solidão que recusarei, que não terei estômago para suportar. E mesmo assim eu repetiria o mesmo convite: Quer uma carona? Gabriel pega um revólver e o coloca na boca. Apaga-se a luz. Som de disparo.

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CENA XVI Um foco de luz se ascende sobre uma cantora e os músicos que a acompanham, interpretando “A Reza” de Andréia Passos. A cantora chama o elenco ao palco.

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Sinestesias e reflexões– Márcio Bareto

“Atro Coração” foi escrito há dezoito anos, época que se pensou em sua primeira montagem. Tempos depois o texto se perdeu, sendo reencontrado apenas em 2009, oportunidade em que foi reescrito. Sua dramaturgia foi criada através de uma livre adaptação intertextual, tendo como referências “O Colecionador” – John Fowles, “Romeu e Julieta” e “Otelo” – Shakespeare, “A Lua na Sargeta” – David Goods e “Cenas de um casamento” – Ingmar Bergman, além de ser inspirada em outras obras que, de uma maneira ou outra, se relacionam com o tema da peça, o amor. Refletir sobre o amor é uma tarefa tão necessária quanto difícil. Necessária, pois nos parece que cada átomo de nossas vidas anseia pelo amor, pelo encontro de almas e corpos, sonhos. Difícil porque amar é algo que nos revira o âmago e mostra-nos quem verdadeiramente somos. Mas o que é o amor? Um ideal, um instinto, uma ligação, um karma, uma reação química? Companheirismo, desejo, cumplicidade? Solidão? Não importa o que é o amor, o importante é o que fazemos com ele, quais caminhos seguimos e onde eles nos levam. Partindo dessa reflexão “Atro Coração” coloca dois personagens em uma situação limite: o rapto. Por um lado, o amor que leva à loucura, por outro, o amor que nasce do medo da morte, explorando um universo dividido entre sonho e realidade, onde se é levado para dentro de pensamentos e emoções conflitantes. O objetivo dessa montagem é estimular a reflexão sobre os limites do amor, de como nos relacionamos e como interagimos pelas ficções emocionais.

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Muito se tem feito em teatro, montagens, pesquisas, festivais. Mas até que ponto esse trabalho todo expressa nossa identidade? Sabemos, ao menos, qual é nossa identidade teatral e por que é tão importante expressá-la? E por que é tão enraizada em nós a crença de que o que vem de fora é melhor? Assim, o teatro nacional, quase quinhentos anos depois de seu nascimento, ainda caminha para a construção de sua identidade. Procuramos formar um teatro de base que expresse nossa ancestralidade e a misture à nossa contemporaneidade, que reflita o caráter universal de nossas regionalidades e miscigenações. Nosso intuito é formar as bases para um fazer teatral que veja o mundo não apenas pelo que aparenta, mas que o mostre por dentro de seus pensamentos e emoções, interligado à tecnologia de ponta e continuado a partir de um eu primitivo. Estamos empenhados em um teatro que valorize mais as perguntas do que as respostas. Um teatro que una a filosofia à música, a fotografia à literatura, a emoção do ator ao questionamento da platéia. Um teatro que possibilite o cinema pular das telas e descer ao palco. Assim, entrelaçando diferentes linguagens artísticas, a montagem possibilita com que os limites entre palco e platéia ganhem novas dimensões, onde o público passa a perceber a peça pelo interior das personagens. Cada elemento do presente trabalho tem uma ou mais linhas de interpretação. A dramaturgia está divida em dois planos distintos: o real e o mítico. O plano real é o texto em si, onde as ações acontecem e as personagens interagem. O plano mítico pode ser observado nos momentos que refletem as alucinações e os sonhos, alguns deles representados nas cenas do balcão de Romeu e Julieta. Eles aludem ao plano mítico da história onde Lilith, após ser expulsa do paraíso, apaixona-se pelo anjo Gabriel e começa a seduzi-lo em sonhos. Como punição, Deus os lança à terra em forma humana. Sem a memória de suas vidas passadas, vagueiam pelos dias atuais até se

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encontrarem; enquanto Lilith permanece no mais completo desprezo, Gabriel se apaixona imediata e perdidamente. O amor o enlouquece até que leva adiante seu derradeiro plano: seqüestrar o objeto de seu amor. Assim, temos o texto em si e uma espécie de ante-texto. O primeiro liga-nos ao real, ao consciente, e o segundo nos remete ao mítico, ao inconsciente. Na interpretação procuramos criar uma divisão entre o plano real da peça e seu plano mítico através de linhas diferenciadas de atuação. No plano real atuamos numa linha de naturalidade, com gestos pequenos, próxima à linha de interpretação do cinema. Através de câmeras ao vivo capturamos as expressões faciais dos atores e as projetamos em uma tela no fundo do palco, possibilitando ao público a análise detalhada das emoções e intenções dos atores. Nas cenas que representam o plano mítico optamos por uma linha exageradamente teatral, com gestos amplos e profundos, carregados de dramaticidade. Acreditamos que o trabalho do ator é expressar através do que ele é o que suas personagens são, como um instrumento que o músico utiliza para se expressar. Dessa maneira, o distanciamento ganha nova interpretação, pois o ator não é a personagem que representa, porém deve trazer de sua memória, inteligência e sensibilidade os dados para lhe conferir verdade suficiente para que o público também a sinta. A fotografia e o vídeo serão utilizados para mostrar as cenas que ocorreram e não constam na peça, bem como o cenário de cenas contextualizadas no presente e os pensamentos, as memórias e as emoções das personagens. Procura-se provocar uma imersão nas imagens que ora pulam da tela ao palco através dos atores, ora levam ao público as imagens mais profundas do “eu” das personagens. Do circo trazemos o trapézio e o tecido para ilustrar o mundo dos sonhos que remetem à vida passada das personagens.

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A música é responsável pela ambiência da peça, ora sendo executada ao vivo por músicos, ora pelas mãos do personagem Gabriel e ora em gravações. Nossa intenção ao misturar diferentes linguagens artísticas é provocar um fazer teatral sinestésico e reflexivo.

Referências bibliográficas “O colecionador” – John Fowles “A Bela e a Fera” - Marie le Prince de Beaumont “Romeu e Julieta”, “Otelo” - William Shakespeare “Cenas de um casamento” – Ingmar Bergman “A lua na sargeta” – David Goodis “Segunda Cena do Balcão inspirada em Romeu e Julieta” – Christiane Amici

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Sobre Atro Coração – Christiane Amici O que posso dizer de Atro Coração? E de suas personagens? Vou começar falando sobre mim e minha relação com esta peça. Eu comecei a ensaiá-la em 1992, acho, mas em meados de 1993 eu e meu colega de atuação, no caso, autor e diretor da peça, tivemos, cada qual, mudanças em nossas vidas que requereram nosso tempo integral para ajustes e conseqüentemente deu-se o fim dos ensaios. Nunca mais pude voltar a atuar. A faculdade bem sucedida, prometendo uma boa profissão, os estágios profissionalizantes, o primeiro emprego, o primeiro filho, o primeiro ninho, tudo colocou o teatro no status de coisa de juventude. Nunca mais vi Marcio até que um dia quando o Orkut já tinha cansado a beleza de muitos internautas, nos encontramos através de amigos. Falamos sobre a peça. Ele tinha perdido o texto. Eu tinha a primeira cópia. Entreguei-a a ele com a condição de que se ele um dia a remontasse eu faria parte dela. O trato foi selado, embora eu tivesse feito na verdade uma brincadeira irônica e não um acordo. Mas eis que um dia Marcio me liga, dizendo que tinha reescrito a peça e que sua parte no trato estava cumprida: podíamos começar a ensaiar. Curioso é que eu que até alguns meses não tinha tempo pra nada, agora tinha tempo de sobra: home-work. Começamos a ensaiar e a “viajar” em todos os sentidos e significados, quase dezoito anos depois da primeira montagem. Eu diria que a peça é toda ela cheia de símbolos e alguns, nós mesmos vamos decifrando aos poucos. Por exemplo: as cores dos figurinos. Branco, preto, vermelho, e um pouco de jeans. E aí está: o bem, o mal, o amor, são facilmente identificáveis, mas o indigus brim... É aquilo que resiste ao tempo e às situações mais difíceis, o que é atemporal - e mais do que isto o que não diferencia classe

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social, credo, ou etnia, nem carrega preconceitos, o jeans é apolítico, afilosófico, acultural. Voltando à Terra... Só sei que quando faltava apenas a limpeza dos gestos, o aprimoramento das coreografias, algumas filmagens externas, eis que nossas vidas, a minha e de Márcio foram arrebatadas com mudanças que chacoalharam nossas vidas de tal forma que levaria, como de fato levou, muito tempo para nos recuperarmos. Foi quase um ano de recesso. Insistimos. Voltamos. E alguns meses depois eu adoeci, logo após interpretar uma cena de Lilith na pinacoteca. Mais de um mês da minha vida foi dedicada à cama e à tosse... Curioso que a personagem passa por isto, mil vezes pior, mas eu me senti em laboratório (que no teatro quer dizer passar por experiências que aflorem sensações que levem a entender/perceber os sentimentos e atitudes da personagem). Neste tempo acamada pensei se tudo isto que relatei até agora não tinha uma explicação mística - já que a peça fala do mítico/religioso. Afinal a peça coloca frente a frente o anjo que provavelmente é o mais conhecido entre os fiéis, por ser o mais atuante nas passagens bíblicas e a mulher banida por Deus, propositadamente esquecida por todos, com apenas uma coisa em comum: o amor romântico. Então Deus e o Diabo estão na pele de Capuleto e Montéquio, mas não impedem a aproximação do casal, forçam-na no campo fértil para as experimentações: a Terra, provavelmente cada qual apostando suas fichas no resultado final deste amor: a transformação, a destruição.

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Estaria presente aqui o xivaísmo, onde a destruição serve ao campo da construção de algo novo. Lógico que só a renovação seria possível, principalmente a Gabriel, que saindo ou ficando neste estado de amor, provavelmente nunca mais teria sua condição bíblica de outrora. Na estória da peça Lilith apenas experimenta o que detesta: a submissão, e embora já a tenha experimentado, desta vez não possui a condição de fugir desta situação, vai ter que vivê-la até o fim. Lilith com certeza está revoltada com tudo isto, mas ainda se lisonjeia por ser admirada/amada como poucas e sua essência não fora afetada a tal forma que não haja regresso, ela provavelmente voltaria a seu estado de antes, se quisesse, quando saísse de sua condição humana. Talvez apenas teria aprendido a lição de Che Guevara: teria mais ternura. É. Talvez os mitos não tenham gostado da situação em que a peça os coloca e talvez briguem conosco tentando nos fazer não encená-la... Mas voltamos a ensaiar. E a data de estréia está marcada. A diferença agora é que entendemos muito melhor a estória por de trás da estória a tal forma que chega a ser um crime não dividir o que aprendemos com o público. Por isto eu escrevo. Estava presente até aqui a Roda de Sansara, que eu entendo como um ciclo vicioso no qual as pessoas por suas essências tendem a girar, ou provocam reações por suas ações que fazem girar a tal roda, sempre de forma semelhante, em intensidade, sentido e resultado. Nós os atores ensaiamos a peça e quando ela fica quase pronta, algo

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nos suga e aceitamos a adversidade como atriz principal no palco de nossas vidas e a peça fica como elenco de apoio. Basta! Agora pedimos licença aos mitos, mas vamos representá-la. Só assim quebraremos este ciclo vicioso em que nos envolvemos, eu e Marcio, ao decidirmos interpretar Gabrile e Lilith apaixonados. E não há nada de errado em amar, ou encenar uma estória, ainda que herege (certamente é assim que alguns dirão). O que importa é o que se faz com isto. Se o amor, por mais impuro que pareça aos olhos dos outros, servir à evolução pessoal ou até social, haverá redenção. Se uma estória fantasiosa servir a apontar nossos defeitos e qualidades reais e colocar nossas atitudes viciadas em xeque-mate e assim darmos por encerrada esta fase da vida, para começar outra nova, sem o mesmo hábito, haverá transformação. Mas por que Gabriel? Por que Lilith? Por que mexer com eles? O amor romântico, eu acho, sempre tende a ser mais insuportável para quem tinha a vida equilibrada e feliz. Porque ele vem feito ciclone varrendo as certezas, jogando todas as conquistas, colocando como local suportável o centro: o fator central: o próprio amor. Como mostrar isto senão fazendo sentir amor romântico, um ser inocente/ puro? Em paz no seu mundinho... Mostrar como este tipo de amor pode abalar o mais firme dos pilares. E como a condição de bondade em nós, não deveria estar ligada à concepção que temos de nós mesmos e nem à noção do que é certo ou errado, pois se estas idéias sofrerem oposição, enfrentarem adversidades, então decidiremos agir sem altruísmo. É mais ou menos como um fiel que ao ler ou ver a peça nos programe o inferno como fim de nossos dias. Onde está sua bondade agora?

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Não pode simplesmente ser bom e desejar-nos o céu, só porque suas bases religiosas saíram de órbita na estória contada? É, como dizem, é fácil ser bom, quando está tudo bem, o difícil é manter-se bom na adversidade. Eis aí o primeiro teste. Fiel, mantenha-se desejando o bem até mesmo a nós pobres mortais que não sabemos o que fazemos... (mas estamos tentando...). Lilith com certeza foi escolhida a dedo para estrelar a peça. Primeiro porque ao que dizem, o Concílio de Tentro (que ficou famoso no Filme O Código Da Vinci) varreu-a da Bíblia como forma de acabar com a sua força. Oras se se julga e condena um criminoso, ele está lá na estória lembrando o crime e sua punição. Se você dá cabo do criminoso sem alarde, seria como se ele nunca tivesse existido, tampouco seu crime. A maior das punições é ser ignorado /esquecido. Então os seres humanos do clero acharam que a parte escura da lua era muito pouco para o que Lilith merece. Ela merece não existir, jamais. O mais curioso é seu crime original: Feita do mesmo barro que Adão, queria a igualdade, inclusive sexual. Chega a ser engraçado um Livro Sagrado se preocupar com a posição sexual dos amantes, mas a briga entre o primeiro casal do mundo foi porque ela queria ficar por cima de vez em quando e Adão achava aquilo humilhante... Em outras palavras ela queria gozar à maneira dela, conduzindo a relação sexual e ele deveria achar que isto era uma crítica “Amorzinho, eu gosto assim e não como você faz.”. Os religiosos que ainda contam sua estória fazem-na parecer vingativa. Ela foi “dar mais que xuxu-na-serra” abandonando Adão. Transou com tantos quanto pode, aperfeiçoou-se e tornou-se não só a

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primeira

mulher,

como

também

primeira

mulher

fatal!

Ou talvez ela só foi tentar gozar, já que Adão não a satisfazia. Mas uma mulher querer sentir prazer é um perigo, sempre foi visto assim, em quase todas as religiões. Pelo simples fato que a sensualidade e a perfeição sexual, somadas, é o domínio sem armas e sem força bruta, mas é forte exatamente como o amor romântico. È o ciclone jogando suas certezas e colocando o objeto de sua adoração no centro calmo, onde o céu é limpo, no momento seguinte a isto, você já pode chamar de amor romântico, dá no mesmo. Como punição por ser tão ousada Deus a castiga, varrendo-a para debaixo do tapete lunar, pro lado de baixo, que ninguém vê. Aí sim, vingativa por falta de compreensão, passa a seduzir homens nos sonhos entre outras tantas maldades que lhe atribuem, pois a mulher que não quer ser sub-julgada ao homem merece receber os créditos pelos feitos e por aqueles maus-feitos que ninguém sabe quem foi, mas bem que podia ser ela... Não estou aqui para defender Lilith não. Eu sei bem qual a força de uma mulher na vingança, ela é capaz de se destruir desde que leve consigo seu alvo e se sentirá feliz mesmo sucumbindo por isto. E faria tudo de novo, sorrindo... Mas bem se sabe que a religião para dominar a mulher deixou um rol bem fechado de atitudes permitidas a ela, e qualquer coisa fora ao permitido: era punível com rigor. Certa vez eu li que a inquisição matou milhões a mais do que o nazismo... Dá para imaginar tamanha perversão? E que a igreja veio a público pedir perdão. De minha parte, só me vem à mente é um trecho da música de Gilberto Gil “Não há o que se perdoar, Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”. Então a peça é assim, através do amor, mistura tudo. Espalha as qualidades e defeitos das personagens e os distribui de maneira,

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lógica, ou seja, pela probabilidade do que aconteceria à pessoa, se exposta àqueles acontecimentos. Gabriel está apaixonado, mas também revoltado - perdeu sua condição de anjo e certamente não voltará a tê-la. Provavelmente valeria à pena, se vivesse em plenitude seu amor romântico. Lilith está sob domínio de um homem e deve obedecê-lo, pois como mulher não tem testosterona para forçar uma mudança através da luta, nem palavras que a façam voar. Está na sua forma mais desconfortável: a da submissão, onde a ternura e a compreensão que ela nunca teve é a chance para a reviravolta. Só que como qualquer humano, eles não sabem de sua vida passada. E a vida que tiveram na Terra até se encontrarem foi a que realizaram através de seus sentimentos e atos. E o amor que sentem embora esteja ali neles, é vivido de outra forma, não são mais dois mitos recém apaixonados se escondendo dos Capuletos e Montéquios. São dois apaixonados errando e aprendendo o que fazer com o amor que sentem. A peça repete cenas, falas e atos, como na Roda de Sansara. É uma clara referência ao fato de que sempre vamos encontrar parceiros de atitudes iguais aos anteriores e viveremos fatos repetitivos enquanto agirmos da mesma forma que os provoque. No caso de Lilith e Gabriel, a peça é uma das enumeras encarnações deles, sempre trilhando, por suas essências, semelhantes caminhadas. O fascínio que ela exerce sobre ele através da sedução, a honraria que ela sente pela devoção dele, ainda que exagerada, o fazem girar pelos erros do amor (posse, domínio, desespero, insegurança) e isto só cessará o dia que um deles, ou ambos, tomar atitude completamente nova, quebrando o ciclo vicioso que permitirá o novo.

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O ensinamento aqui é a grande chave da peça: “Não importa o que é o amor, mas o que você faz com ele.” de Márcio Barreto. E o que vale pro amor, vale pra tudo em você, para o mundo, para a vida. “Não importa o que é o mundo, ou sua vida, mas o que você faz com eles”. “Não importa o que você é, mas o que você faz com o que você é.” C. Amici

Sumário

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Atro Coração......................................................................................09

Sinestesias e Reflexões......................................................................36

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Referências Bibliográficas.................................................................39 Sobre Atro Coração – Christiane Amici

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Márcio Barreto nasceu em Santos-SP em 1970, publicou na Internet os livros “Totem” (romance), “O Ser e o Pensamento” (filosofia). Publicou pela “Edições Caiçaras” “O Novo em Folha” (poesia). Pesquisador, músico multi-instrumentista e compositor é o fundador do grupo de música contemporânea caiçara “Percutindo Mundos”. É responsável pela realização do Sarau Caiçara – Pinacoteca Benedito Calixto – Santos /SP, Sarau Filosófico – SESC Santos /SP, Mostra De Arte Contemporânea Caiçara – Casa da Frontaria Azulejada – Santos /SP, Itinerâncias – Encontros Caiçaras – Paraty /RJ e Virada Caiçara – São Vicente /SP. Contato:

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mb-4@ig.com.br 13-91746212 www.percutindomundos.blogspot.com EDIÇÕES CAIÇARAS São Vicente Brasil

A Edições Caiçaras é uma pequena editora independente artesanal inspirada nas cartoneras da América Latina, principalmente na Sereia Cantadora de Santos e na Dulcinéia Catadora de São Paulo. Nasceu pela dificuldade homérica e labiríntica em publicar meus livros em uma editora convencional. É uma forma de reavivar o ideal punk do “faça você mesmo”, incentivando a auto-gestão e o uso da habilidade manual, algo que está se perdendo em nossa sociedade tecnocrata. Assim, de fato, começa a tomar forma a filosofia da Edições Caiçaras, mais do que um caráter social, nos interessa, ousar na forma e no conteúdo. Na forma é um aprimoramento das técnicas das cartoneras - os livros são feitos com capa dura, costurados com sisal e presos com detalhes em bambu, e no

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conteúdo, priorizamos um diálogo profundo com a Internet e com as literaturas locais do Brasil. Márcio Barreto O IMAGINÁRIO COLETIVO O Imaginário Coletivo de Arte agrega artistas do litoral paulista em suas diferentes linguagens e tem como proposta fortalecer e propagar a “Arte Contemporânea Caiçara”, valorizando nossas raízes e misturando-as à contemporaneidade. Formado em fevereiro de 2011, é resultado de anos de pesquisas desenvolvidas em diferentes áreas que culminaram na busca de uma nova sintaxe através da reflexão sobre os processos criativos na Arte Contemporânea Caiçara. Seus integrantes convergem da dança, eutonia, teatro, circo, música, literatura, história, jornalismo, filosofia e artes visuais. Estão diretamente ligados à experimentação através de núcleos de pesquisas desenvolvidos no grupo Percutindo Mundos – música contemporânea caiçara (2008), Núcleo de Pesquisa do Movimento dança contemporânea (2011), no Espaço de Consciência Corporal Célia Faustino - eutonia (2003), no Projeto Canoa e Instituto Ocanoa – pesquisa da Cultura Caiçara (2007). Em seu repertório constam “Ácidos Trópicos – uma livre criação sobre a obra de Gilberto Mendes” (teatro), “Atro Coração – uma livre adaptação sobre o amor” (teatro), “Homo Ludens – fluxos, lugares e imprevisibilidades” (dança contemporânea), “Percutindo Mundos – universo em Gentileza” (música) e “Percutindo o samba – história e poesia” (música). Ao longo do tempo realizou encontros, oficinas e palestras, tais como o "Sarau Caiçara" - Pinacoteca Benedito Calixto - Santos /SP, "Mostra de Arte Contemporânea Caiçara" - Casa da Frontaria Azulejada - Santos/SP, "Itinerâncias Encontros Caiçaras" - Casa da Cultura de Paraty - Paraty /RJ, "Sarau

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Filosófico" - SESC Santos - Santos /SP, "Virada Caiçara" - São Vicente /SP e “Vitrine Literária” – SESC Santos – Santos /SP. Seu trabalho está presente em universidades, escolas públicas e instituições de cultura através de cursos, apresentações e palestras, além de inserir sua proposta artística em espaços públicos. Atro Coração foi impresso sobre papel reciclado 75g/m² (miolo). A capa foi composta a partir de papelão e sacolas de papel doados pelo Espaço de Consciência Corporal Célia Faustino. www.espacodeconscienciacorporalceliafaustino.blogspot.com

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www.edicoescaicaras.blogspot.com www.youtube.com/projetocanoa www.percutindomundos.blogspot.com www.myspace.com/percutindomundos

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Atro Coração - Márcio Barreto  

Uma peça que mistura Romeu e Julieta e Otelo (Shakespeare), Lua na Sargeta (David Goodis) e os filmes O Colecionador (John Fowles) e Cenas d...

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