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In & Out Passarelas, blogs, festas, temporadas, vitrines, revistas. Serão esses os únicos lugares da moda? Na Edição de Luxo, buscamos a dimensão simbólica entre a moda e tudo o que a envolve, construindo um campo mais rico que nos leve a pensar em outras questões. Glamour, tendência, atitude, bas-fond formam uma parte muito pequena de tudo o que a roupa pode inspirar. Assim como a indumentária é mais do que o tecido que protege o corpo, escrever sobre “moda” pode ir além do puro deslumbramento com um belo vestido ou com um novo batom. Quando nos preocupamos excessivamente com o que está in, tendemos a nos esquecer de tudo o que está out. É para discutir essa relação que a Edição de Luxo agora abre o armário, seja com aquele jeans amigo de todo dia ou com o sapato que é quase um souvenir do nosso sonho mais precioso. São esses mundos que a roupa inventa que precisamos explorar, já que todos nós, de forma consciente ou não, pertencemos a eles. É por isso que a moda não deve ser pensada apenas de dentro pra fora. Através de uma visão mais ampla, procurando livrar-se de lugares-comuns, é possível captar outras facetas do fenômeno. A moda são os outros!

Aline Botelho & Thiago Felix Editores

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UUUUUUUUUUUUU O Futuro dos Desfiles de Moda Por Aline Botelho O primeiro desfile de moda, realizado pelo costureiro britânico Charles Frederick Worth, data do final do século 19. Até meados do século 20, as coleções costumavam ser apresentadas nas maisons ou nas residências dos estilistas para um público seleto composto por revendedores, amigos e jornalistas convidados. Com a emergência do prêt-à-porter e da comunicação de massa, os desfiles passaram a acontecer em locais públicos, acompanhados por uma quantidade maior de pessoas.

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O modo como as coleções são mostradas não mudou muito: modelos caminham uma a uma pela passarela reta as criações dos estilistas. Como bem aponta Alcino Leite Neto, ex-editor de moda da Folha de S. Paulo e atual editor da PubliFolha, os eventos de moda ainda seguem práticas que remontam ao tempo em que os desfiles eram acontecimentos privados: “o hábito de a modelo desfilar na frente de pessoas sentadas em cadeiras, a ideia do convite em papel (e o RSVP – Repondez s’il Vous Plaît, ou seja, a confirmação da presença), a mitologia da ‘primeira fila’ (onde estão os principais convidados), a sensação de privilégio que reina na plateia das salas e mesmo o comparecimento final do estilista na passarela, para agradecimentos”.

No entanto, nos últimos anos, alguns experimentos como os do Showstudio, comandado pelo fotógrafo e diretor artístico Nick Knight, e as recentes transmissões ao vivo dos desfiles pela internet têm apontado uma possível mudança nesse formato. Bons exemplos são Alexander McQueen, cuja coleção masculina primavera/verão 2010 foi lançada em formato de vídeo, em lugar do desfile tradicional; e a Burberry, que, além de ter transmitido seu desfile ao vivo pelo site oficial, deu oportunidade às pessoas de o comentarem em tempo real através do twitter (experiência que também está sendo colocada em prática no Brasil pelo site Oi Moda). Daqui a um tempo, talvez não seja mais tão comum a presença física do público no evento.

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Com a larga difusão da informação na internet por meio de sites e blogs, a consciência de moda passou a ter maior importância na vida das pessoas, que se apropriam dela e a entendem de maneira mais sofisticada. Em uma sociedade que se pretende democrática, a exclusividade e a mitologização dos fashion shows tornam-se uma realidade anacrônica. Formas mais livres de apresentação de coleções podem oferecer mais possibilidades artísticas para os criadores, bem como minimizar o descompasso entre a importância que a indústria dá às semanas de moda e a importância que elas realmente têm para o público.

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Quem ainda quer novidade?

Por Thiago Felix Existe uma piada manjada em histórias em quadrinhos e desenhos animados: mostrar o guarda-roupa do protagonista repleto de roupas iguais. Me lembro de ter visto pelo menos o da Mônica e o de Doug Funny. Ainda no território das referências infantis, me lembro de uma fala de um filme desses da sessão da tarde em que a mãe reclama com a filha, dizendo que ela leva sempre o mesmo sanduíche pro lanche. Guardei a garota pra sempre quando ela respondeu que não tinha culpa de saber do que gostava.

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Não sei vocês, amiguinhos, mas eu cresci assim, com esse amor pela repetição. Na moda, no entanto, esse valor se articula de formas mais sofisticadas do que a Mônica pôde nos ensinar, afinal, estamos falando de um mundo que se reinventa através das novidades. Mesmo assim, em mais uma dessa manobras deliciosas, a moda se faz e refaz, e se perpetua também através da redundância. Me perdoem, talvez eu esteja confundindo as coisas. Acho que preferia estar falando de “estilo”. Esse sim, mais do que qualquer outra coisa, só existe se reafirmando. No entanto, além de se cobrar estilo das pessoas, também se espera um mínimo de variedade. E é justamente contra essa expectativa que eu queria depor.

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Outro dia, vendo um desses programas femininos, vi uma apresentadora preocupadíssima em dar dicas para ajudar as mulheres a não repetir roupa. De repente, me senti atirado ao século XVIII, pensando

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em como seria plausível pensar nisso como um daqueles infinitos maneirismos da corte francesa. Acho que eles também não repetiam roupa por lá. Mas acho oportuno que, em um mundo cada vez mais preocupado com reservas de matéria prima e sustentabilidade, as pessoas passem a usar mais as mesmas roupas. Até porque, eu sei quanto tempo se leva pra uma garrafa pet ser decomposta, mas e uma calça jeans? E uma jaqueta de couro? E um vestido Alexander McQueen?

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Seria mais interessante pensar o nosso guarda roupa mais ou menos como um estilista pensa uma coleção, como se aquele conjunto construísse um personagem (que, nesse caso, seria bom que correspondesse a quem somos, ou pelo menos a como gostaríamos de ser vistos). Ter mais dessa “substância” pode ser uma característica muito mais interessante do que uma infindável sucessão de novidades no shuffle – que é mais ou menos o que acontece com quem segue tendências aí, a torto e a direito. 

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Meu voto é pra que todos encontrem a secção áurea do seu estilo, independente do clima, povo ou da época em que precise encontrar suas referências, e passem a se vestir rigorosamente da mesma forma, com pequenas variações de cor e combinações, em um eterno cosplay do próprio espírito e essência, transformando a paisagem num imenso carnaval-fora-das-épocas, até que todos sejamos mortalmente feridos pelo tédio de ser tão a gente mesmo. E, mesmo assim, seremos todos inocentes, já que, afinal, ninguém tem culpa de saber do que gosta, né mesmo?


Edição de Luxo entrevista: Camila Yahn INSPIRADOS na série The Future Of Fashion, do site Style.com, a cada número do Edição de Luxo chamaremos um nome importante da moda no Brasil para discutir algumas questões referentes ao meio. Para essa primeira edição, nossa convidada é a jornalista Camila Yahn, uma das idealizadoras e sócias do Pense Moda, um dos mais importantes eventos de reflexão sobre o mercado de moda brasileiro. Em seu extenso currículo constam trabalhos com a Erika Palomino, matérias no caderno de moda da Folha de S. Paulo, colaborações em revistas como Vogue e Joyce Pascowitch, uma coluna no site Glamurama, entre muitas outras coisas. Por email, ela respondeu nossas perguntas sobre as semanas de moda no Brasil, confessou seu amor pelo trabalho do Alexandre Herchcovitch e indicou alguns estilistas para ficarmos de olho.

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Qual a importância das semanas de moda no Brasil? Elas cumprem a mesma função que as semanas de moda lá fora? É muito importante um calendário de moda que organize os lançamentos, as datas de entrega de tecidos, por exemplo, e tudo o que é necessário para colocar as roupas nas araras no país inteiro. Sem essa organização, o mercado não cresce, não profissionaliza, perde seu potencial. Sim, elas cumprem a mesma função que as de fora. Quais as deficiências das nossas semanas de moda (Fashion Rio e SPFW) e o que melhorou nos últimos anos?

Elas melhoraram muito, especialmente o Fashion Rio, que deu um pulo desde que a Luminosidade assumiu a dianteira do evento. Acho que a única deficiência é que os eventos são muito festivos, tem uma parte muito grande focada no social, nas celebridades, etc. Isso acaba chamando mais atenção que a moda em si, que o trabalho dos estilistas. Algumas marcas nem são relevantes, mas colocam uma super modelo ou uma celebridade no desfile e ganham muito mais mídia do que marcas que mereceriam mais atenção.

“Os estilistas novos poderiam resolver suas apresentações de uma maneira mais criativa, mas as pessoas ainda têm medo” Hoje em dia já se discute novas formas de apresentação de coleções em lugar do formato tradicional dos desfiles. Experimentos como os do site Showstudio, do fotógrafo Nick Knight, já exploram essa possibilidade. Considerando que nossas semanas de moda ainda estão em processo de amadurecimento, como você vê o futuro dos desfiles no Brasil? Acho incrível quando alguém tem coragem de fazer uma apresentação diferente e tem retorno. É corajoso, mas ao mesmo tempo move a moda para frente. O Estúdio fez uma apresentação emocionante em vídeo na temporada passada. Acho que os estilistas novos, que não tem dinheiro para fazer desfiles grandes e para ter um bom casting,


poderiam resolver suas apresentações de uma maneira mais criativa e menos tradicional. Mas as pessoas ainda têm medo. No futuro isso será uma coisa mais comum e a imprensa e os convidados terão maturidade para aceitar e avaliar as coleções, mesmo vendo apresentações em outros formatos.

“O Brasil não tem cultura de moda, mas tem cultura popular, e é muito influenciado pela televisão, em especial pelas novelas” Se você tivesse que escolher duas marcas que representem a identidade da moda brasileira, quais marcas seriam e por quê? Alexandre Herchcovitch: ele inclui o Brasil nas suas coleções de maneira única e global. Mesmo quando se inspira em festa junina ou nos trabalhadores rurais, suas roupas tem o seu estilo próprio e são vendidas e admiradas em vários pontos do mundo. Osklen: faz o que os estrangeiros esperam ver na moda brasileira. pegou o estilo despojado do Rio, invejado no mundo inteiro, e transformou em peças usáveis, bonitas e confortáveis.   Em relação ao impacto da moda brasileira no público consumidor, percebemos que a cultura popular e a televisão exercem muito mais influência que as semanas de moda. Você concorda com isso? Se sim, por que você acha que isso acontece?

Sim. O Brasil não tem cultura de moda, mas tem cultura popular, e é muito influenciado pela televisão, em especial pelas novelas. A cultura da celebridade também colabora muito com isso. As pessoas criam uma relação mais longa com as personagens da novela, que estão “em sua casa” todas as noites por muitos meses. E não tem como deixar de notar no figurino. Os comerciantes são muito espertos e rápidos em logo colocar as peças hits de cada personagem nas ruas. Diferentemente das revistas de moda, que são muito elitistas e caras para o consumo popular. Fora do circuito das semanas de moda, que estilistas brasileiros você acompanha e acha que merecem maior atenção? Raia de Goeye, Fabia Bercsek, Adriana Barra, Carina Duek. Por fim, de todos os desfiles que você já presenciou, qual foi o que mais te emocionou? Ai, alguns já me emocionaram. Os do Herchcovitch sempre me emocionam. Eu sempre choro no final. Mas um que me emocionou muito foi um do Ronaldo Fraga, em que apenas idosos desfilaram. Achei muito humano, muito corajoso, autoral e extremamente emocionante. Ver aqueles senhores e senhoras entrando na passarela, com os olhos brilhando, com orgulho, presença e dignidade, como se fosse a momento mais importante da vida deles. Foi especial.

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Reflexões sobre a Por Aline Botelho Os contundentes apontamentos do sociólogo Gilberto Freyre são sempre esclarecedoras mudanças de perspectiva. Seu livro Modos de Homem & Modas de Mulher, lançado em 1987, ainda hoje serve para refletirmos mais a fundo sobre nossa cultura e nossa moda. É dele que gostaria de tirar algumas proposições que talvez sirvam para repensarmos o papel das semanas de moda brasileiras e sua relação com o país.

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- Moda ecológica: apesar de o nome nos levar a pensar em novas questões ligadas à sustentabilidade, Freyre usa o termo para definir o que seria uma verdadeira moda brasileira. Uma moda ecológica e antropológica seria a expressão de uma tropicalidade, “pois o Brasil é em grande parte tropical, numas áreas, e paratropical, nas outras – essas outras, sob influência sociocultural das tropicais”. - Superação do arianismo: “a moda brasileira para a mulher brasileira é uma moda que precisa vencer de todo este complexo que envolve uma crença numa superioridade tal do tipo fisicamente ariano de mulher, que só se considerasse ortodoxa a moda de cabelo, de vestido e de adorno feminino derivada deste tipo”. - Freyre recomenda que se encontre um meio termo entre “a moda francesa, o padrão de elegância, simbolizado pela palavra ‘chic’, e o Brasil, ecológico, natureza, clima, ambiente.”

- Evoca uma “mulher brasileira que fosse moderna, sem lhe faltar o background da sinhazinha da época patriarcal.”

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O jornalista Vitor Ângelo fez em seu blog (http://dusinfernus.wordpress.com) uma analogia bastante interessante tendo como base a obra Casa-Grande & Senzala, também de Freyre. O exercício consiste (com a ressalva da generalização) em identificar quais marcas brasileiras fazem moda de Casa-Grande, quais se encaixam mais na Senzala e quais estão no Mucambo (intermediário entre a Casa-Grande e a Senzala). Assim, Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho são Casa-Grande. Neon e Amapô são Senzala. E no terceiro grupo estão Lino Villaventura, Samuel Cirnansck e Alexandre Herchcovitch, realizando o trânsito entre esses dois espaços.


Moda Brasileira Essa relação pode ser extendida para a classificação sócio-mitológica entre culturas apolíneas e dionísicas. Manifestações apolíneas (Casa-Grande) são aquelas que expressam exatidão, harmonia, prudência, ilusão. Já as dionísicas (Senzala) são aquelas que expressam desmedida, vibração, autenticidade.

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p Fotos © Agência Fotosite

Apesar de muitos acharem ultrapassada a discussão sobre a identidade da moda brasileira, acredito que ela ainda faz muito sentido nos dias de hoje. Mesmo considerando que a moda está globalizada, ou seja, que é usada tanto no Brasil, quanto no Japão ou nos Estados Unidos, há sempre uma busca por algo que nos identifique regionalmente. Como costuma apontar o professor João Braga, talvez o maior estudioso da história da moda no Brasil: moda global, tradição local.

Não se fala aqui de roupa folclórica, de se buscar uma caricatura, mas de assumir suas raízes e costumes, colocá-las em evidência e mesmo assim ser novo e moderno. O Brasil possui uma tradição cultural antropofágica, de abocanhar aquilo que vem de fora e nos enriquece para ser reinventado a partir de nossas idiossincrasias. A moda precisa, então, saber absorver o que é de fora, mas não ter vergonha de assumir as peculiaridades locais, consideradas muitas vezes feias, cafonas, inadequadas sob um olhar carregado de preconceito. Os caminhos são vários, assim como são múltiplas as nossas identidades.

Glória Coelho

Samuel Cirnansck

Neon


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não-vestido

Lu Glaeser

aquele vestido que comprei e nunca usei é corpo-fantasma da vida que não tive. fantasia da festa para a qual não fui nem convidada. é vestígio do que não disse, parte da história que não veio, saudade de encontro que não soube acontecer. aquele vestido que comprei e nunca usei fala de um eu sem ocasião. avisa falta que espera. traz lembrança de invenção. aquele vestido que comprei e nunca usei é memória de ilusão. marca do desvio envelhecido. promessa não cumprida de outra-versão. aquele vestido que comprei e nunca usei é pele que não troquei, pretensão que esqueci, imagem de mim perdida, como um futuro-do-pretérito. como simples vontade, sem ânimo de companhia. aquele vestido que comprei e nunca usei foi, comigo, um não-vestido. persona aprisionada, máscara vazia de carnaval. aquele vestido nunca... foi comigo tecido sem narrativa.

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“The truly fashionable are beyond fashion.”

Cecil Beaton

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Sobre os autores Aline Botelho e Thiago Felix se conheceram na faculdade de jornalismo, onde descobriram um interesse comum por moda e cultura pop. Separadamente, trabalharam em editorias de moda e cultura; juntos, cobriram a temporada Verão 2010 para o site Erika Palomino. Desde 2008, publicam seus escritos no blog Duo de Luxo (http://duodeluxo.wordpress.com), dedicado a explorar a moda enquanto fenômeno cultural. Cansados da mesmice da blogosfera, resolveram lançar uma publicação impressa, a Edição de Luxo. Editoria e Redação Aline Botelho e Thiago Felix Projeto gráfico, Revisão e Suco de Moda Diego Almeida (digiego@gmail.com) Colaboração de texto Lu Glaeser (http://pensandoemmoda.posterous.com) Sugestões, críticas, dúvidas, escreva para: duodeluxo@gmail.com Siga-nos no twitter: @edicoesdeluxo Acesse: http://edicaodeluxo.tumblr.com Estamos procurando patrocínio para as próximas Edições!

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Dudu Bertholini por Thiago Felix


Edição de Luxo nº 1