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é verdadeiro. As operações do corpo grosseiro, portanto, dependem do invólucro prânico ou vital, que, por sua vez, opera em conjunção com o manásico ou mental. Esse − que pode ser chamado “lunar” ou reflexivo, em relação ao invólucro intelectual −, por sua vez, depende da “luz do intelecto” para realizar suas funções. Essa “luz”, ademais, advém de uma fonte superior: do Intelecto universal ou primário, denominado Mahat ou Buddhi, que participa no indivíduo humano por meio do ānandamaya-kośa. Trata-se, com efeito, da “verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem”.[ 128 ] Remova-se essa Luz e instantaneamente todas as funções do indivíduo humano − vegetativa, sensitiva e intelectiva − cessarão. Por conseguinte, os kośas sucessivos, em sua concatenação, constituem uma espécie de “cadeia áurea” por meio da qual os dons da vida e da inteligência são transportados até os domínios inferiores, chegando mesmo ao invólucro corpóreo, o “corpo feito de comida”, onde a transmissão termina. ***

Até agora, viemos considerando o corpo sutil ou sūkshma-śarīra em função de sua divisão triádica em invólucros, sem reconhecer o fato de que ele apresenta uma unidade organísmica e um tipo de anatomia sutil próprias. Por certo, essa questão não pode ser abordada em termos de concepções espaciais, as quais, estritamente falando, não se aplicam ao plano sutil; contudo, podemos pensar e falar nessa anatomia com base em analogias com estruturas corpóreas que, de algum modo, exteriorizam ou exemplificam o corpo sutil. Ora, um aspecto principal dessa “anatomia sutil” nos é dado pelo sistema de nādīs − que Guénon traduz por “artérias luminosas”, as quais se podem conceber como “canais” pelos quais a força prânica pode fluir −, uma rede em que o nādī principal ou central, chamado suṣhumnā, desempenha um papel definitivo. Esse último representa, segundo podemos imaginar, o tronco da “imperecível Árvore Ashvattha, com sua raiz no topo e seus galhos se esticando para baixo”, referida na Bhagavad-Gita,[ 129 ] cuja exemplificação mais externa são a coluna vertebral mais o cérebro.[ 130 ] O fato é que, ao passo que os kośas correspondem, simbolicamente falando, a regiões anulares concêntricas, os nādīs representam elementos radiais que emanam de um centro e tendem na direção da circunferência. Devemos compreender, no entanto, que o centro em questão não é o Centro transcendente ou verdadeiro do organismo humano, mas constitui um ponto de origem secundário, algumas vezes chamado de “coração”, que representa, conforme podemos considerar, o Centro no nível do sūkshma-śarīra. Como se poderia esperar, a rede de nādīs é de fato relacionada ao sistema circulatório corpóreo e, outrossim, ao respiratório, ambos os quais, de certa maneira, “exteriorizam” esse sistema nádico. Contudo, sua ligação mais íntima, decerto, é com o sistema nervoso, em virtude da natureza “ígnea” da transmissão neural. Lembremonos de que o prāṇa é inerentemente ígneo ou tejásico; afinal, o prāṇamaya-kośa constitui, de certa forma, a mítica “carruagem de fogo” que se diz carregar ou veicular a alma. Conseqüentemente, a relação do prāṇamaya-kośa e de seus nādīs com o sistema nervoso é extremamente íntima. Afirmamos, em verdade, que há um tipo especial de transmissão entre um e outro e que a consciência humana, em todos os seus modos, advém precisamente de um intercâmbio entre os sistemas nádico e nervoso. O prāṇamaya-kośa perpassa todo o corpo corpóreo e lhe dá a vida. Enquanto alma vegetativa, ele alimenta, desde dentro, todas as funções metabólicas e fisiológicas: cada célula viva do corpo obtém sua vida desse invólucro prânico. Devemos ter em mente que o corpo corpóreo, em si, não é vivente, não está vivo: é sua ligação com o prāṇamaya-kośa que lhe garante a vida. Mas e a “consciência”?

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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