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críticos irracionalistas da ciência, tampouco é um mundo fechado em si mesmo, pois ele passa a fazer sentido apenas em relação com o mundo concreto: “a função das partículas quânticas não é conferir o ser, mas recebê-lo”. Agora, se tomamos o estrato físico da realidade como o único que existe (o “átomos e o vazio” de Demócrito), reduzindo a meros agregados de partículas descritas quanticamente, os aparelhos de medida concretos, e também gatos, cientistas, e até pessoas (se aqueles, por que não estas?), “a Física se torna”, afirma Smith, “não uma teoria de tudo, como gostam de pensar os físicos, e sim uma teoria de coisa nenhuma”. Assim, “a história da Física, desde seus inícios galileanos, até as últimas teorias do multiverso, exibe os vários estágios desse fechamento progressivo, que se manifesta como uma recessão concomitante dos objetos correspondentes da experiência humana real, culminando em uma concepção de entidades pertencentes a universos outros que o nosso”. Claro, uma vez que as partículas são tidas o tempo todo como possuindo existências atuais (no sentido escolástico), podemos prescindir da necessidade delas darem sinais em detectores concretos. Afinal de contas, quem precisa ir ao laboratório se já temos todas as equações? E, caso estas não sejam capazes de dar conta dos aconteceres atuais em nosso universo, quanto custa criar infinitos outros numa simples canetada? “Todo o possível acontece”, é o lema. Ainda que pareça cômico, a interpretação de “múltiplos universos” ou “muitos mundos” é a que, nas últimas décadas, vem ganhando o maior número de adeptos na comunidade da Física Teórica. Um pequeno banho de aristotelismo mostraria a esse pessoal a confusão primária entre potência e ato na qual incorrem – mas Aristóteles viveu antes de Galileu, não é mesmo? Neste livro, o professor Smith também destrói totalmente as pretensões filosóficas de Stephen Hawking em O Grande Projeto, de falar algo inteligente – as quais não eram mesmo grande coisa, afinal é o próprio Hawking quem afirma que “a filosofia está morta”. Em sua pessoa, totalmente! Ou, como encarar a tentativa, dele e de outros, de responder à pergunta “por que existe algo e não, antes, o nada?”, com teorias do tipo big bang, universo inflacionário ou universos pulsantes? Eles não percebem que estão buscando uma origem física para o universo físico, uma causa material para o universo material? Não vai dar, pode começar tudo de novo, porque assim não vai dar. Mas, o respeito aos dados da Ciência, hoje, virou isso: uma paródia, evidentemente. Por último, nada disso seria possível se, na entrada da modernidade, não se tivesse descurado tanto do problema da percepção animal e da intelecção humana, ambos analisados pelo professor Smith, tanto nesta obra, quanto em outras. Em paralelo com elas, fundamentais também são a obra do professor Carlos A. Casanova, Física e Realidade: Reflexões metafísicas sobre a ciência natural,[ 6 ] as obras dos dominicanos americanos, William A. Wallace (The Modeling of Nature e From a Realist Point of View) e Benedict Ashley (The Way Toward Wisdom e Theologies of the Body), e grande parte da obra de John Deely, a começar por Four Ages of Understanding. Aí se demonstra a grande confusão que Hobbes, Descartes, Galileu, Locke, Newton, Hume e Kant fizeram ao trocarem o que conhecemos por aquilo pelo que conhecemos. No caso da percepção, quando vemos um cavalo e “recebemos” a imagem “cavalo”, seja na retina, no cérebro, ou no raio que o parta, o que percebemos não é a imagem, mas o próprio cavalo – apesar de ser por meio da imagem, sem dúvida. A imagem é um signo, um sinal de algo que não é ela, disparando um movimento da alma em direção a algo que está fora. No caso da intelecção, a mesma coisa: o que inteligimos não é a espécie cavalo, mas o próprio cavalo – apesar de ser por meio da espécie, claro. Daí, a partir deste ponto privilegiado, podemos apreciar o “espanto” com o qual

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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