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regulam a habilidade de um neurônio em estimular outro ainda não sejam completamente compreendidos, sabe-se que eles incluem processos de crescimento (como no caso das espinhas dendríticas), bem como mudanças químicas que afetam a vizinhança de uma vesícula sináptica. Suponhamos que um grande grupo de neurônios tenham se ligado de maneira hebbiana; talvez seja possível, então, ativar um extensivo padrão de disparos, que representa o conteúdo de uma memória, por meio de um padrão de disparos muito menor, que representa o que se chama de pista. Essa conjectura, em verdade, foi verificada com o auxílio de uma rede neural proposta em 1982 por um cientista cerebral chamado John Hopfield.[ 112 ] Essa rede consiste de unidades que representam neurônios e ligações que representam sinapses, unidades essas que são dotadas de “pesos” que representam as forças relativas dessas ligações sinápticas. Cada unidade tem um canal de output e diversos canais de input, e a rede está ligada de modo a se retroalimentar, de modo que o output de um ciclo se torna o input do ciclo seguinte. Recebendo um input inicial arbitrário, o sistema irá confluir, ultimamente, para um output estável. Ademais, se mesmo uma pequena parte do padrão resultante (que corresponde a uma pista) for proporcionada de começo, o sistema confluirá para o padrão fornecido em apenas alguns ciclos. “Como resultado”, observa Crick, “o sistema terá efetivamente produzido ‘memória’ a partir de algo que resvalou sobre sua memória”. Segundo Crick explica em seguida: Note que a “memória” não precisa ser armazenada em estado ativo, mas pode ser inteiramente passiva, já que está embutida no padrão de pesos. [...] A rede pode estar completamente inativa (com todos os outputs em zero); porém, quando se lhe oferece um sinal, a rede irá voltar à ativa e, em um espaço muito curto de tempo, acomodar-se-á em um estado de atividade constante que corresponda ao padrão que tinha de ser relembrado. Presume-se, com boas razões, que a revocação da memória humana de longo prazo tem esse caráter geral.[ 113 ]

Para completar: uma rede de Hopfield pode “recordar” muitos padrões diferentes, não apenas um de cada, do qual pode ser “relembrado” por meio de uma pista correspondente, como no caso da memória humana de longo prazo. Em suma, a memória se distribui ao longo de muitas ligações, as memórias são superpostas (porque uma única ligação pode participar de muitas memórias) e − o que é mais importante − de um ponto de vista biológico, a memória é forte, uma vez que é realizada por intermédio de uma ação em larga escala que não é sensível ao comportamento de um número relativamente pequeno de neurônios (podemos perder centenas de neurônios por dia sem qualquer efeito notável sobre nossa memória). Ninguém alega − nem deve alegar − que levamos uma rede de Hopfield em nossos cérebros. O que as investigações de Hopfield mostram é que uma memória de longo prazo e de “conteúdo acessível” pode ser explicada com base em razões hebbianas, seja por meio de uma rede neural de tipo Hopfield ou em função de alguma outra rede que apresente as mesmas características gerais. Qualquer que seja o caso, parece que a neurociência começou a desvendar o enigma da memória de longo prazo. ***

Nenhum sistema funcional do cérebro foi objeto de escrutínio maior do que o sistema visual. Muito dessa pesquisa foi feita em animais, especialmente em símios do gênero Macaca, cujo sistema visual aparenta ser muito similar ao dos humanos. A necessidade de cobaias animais surge primariamente do fato de que as ligações neurais longas se estudam injetando químicos no cérebro e rastreando seu trajeto; é necessário, portanto, dentro em horas ou dias da injeção, que a cobaia seja sacrificada, de modo que se possa examinar o tecido cerebral microscopicamente, antes que os químicos se

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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