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transmissão é realizada e regulada, por meios químicos, pela secreção de substâncias, conhecidas por neurotransmissores, na fenda sináptica. As vesículas sinápticas e os seus neurotransmissores podem ser excitatórias ou inibitórias, e um neurônio recipiente reage a uma espécie de soma algébrica de sinais eletroquímicos excitatórios e inibitórios gerados pelas células nervosas próximas. Esse processo é extremamente complicado e constitui um dos muitos prodígios do design molecular que vieram à luz nas décadas recentes. Basta dizer que uma compreensão do funcionamento cerebral se escora em um conhecimento detalhado desse mecanismo molecular, um domínio da neurociência que hoje vem encontrando aplicações em farmacologia e medicina. Tendo observado que uma célula nervosa responde a “uma espécie de soma algébrica” dos sinais que lhe chegam, direi agora algumas palavras a respeito da geração e transmissão dessa resposta elétrica no interior de um dado neurônio. Podemos conceber uma fibra nervosa como um tubo cilíndrico que contém uma solução ionizada de sódio e cloreto de potássio, separada por uma membrana de um fluido ambiente constituído similarmente. Um estímulo excitatório produz um potencial positivo de ação próximo à base do axônio; quando alcança um certo limiar, esse potencial positivo ativa um mecanismo molecular na membrana que consiste de canais: há canais de potássio, que fazem com que os íons de potássio se movam − a partir de dentro do axônio − para o fluido ambiente, o que reduz a zero o potencial de ação (lembre-se, os íons de potássio têm carga positiva), e há canais de sódio, os quais bombeiam os íons de sódio na direção inversa e tem um efeito oposto (os íons de sódio têm, igualmente, uma carga positiva). Essas ações respectivas são coordenadas de modo a mover o potencial de ação para fora, junto com o axônio, e podem fazer isso com uma velocidade de até 90 metros por segundo. É digno de nota que não há movimento de cargas elétricas na direção da transmissão e nem há diferença de potencial motriz entre os terminais, como haveria no caso dos dispositivos elétricos feitos por homens. Parece que essa maravilha da nanotecnologia pode ser encontrada em neurônios ao longo de boa parte do reino animal, até mesmo nos invertebrados. Devo apontar que, dado que os potenciais de ação produzidos por um neurônio têm todos o mesmo “sinal algébrico” e a mesma amplitude, o único parâmetro que é variável e, portanto, carrega informações é sua freqüência ou distribuição temporal. Na ausência de estímulos consideráveis, um neurônio tende a disparar esporadicamente em uma baixa freqüência de base, que varia em torno de 1 e 5 Hz; por outro lado, quando estimulado ao nível limite, sua freqüência aumenta agudamente (as freqüências típicas de disparo em neurônios excitados variam entre 50 e 100 Hz e, às vezes, podem chegar quase a 500 Hz). Por fim, devemos mencionar que há muitos tipos diferentes de neurônios no cérebro, e cada qual exibe suas próprias características especiais, em conformidade com suas funções. Em seqüência a essa declaração introdutória acerca da natureza dos neurônios, proponho considerarmos agora a divisão do cérebro humano em regiões associadas às várias funções reconhecíveis. Não nos preocupemos, por hora, com o modo pelo qual essas funções podem ser explicadas no tocante às interações neuronais; o que nos ocupará, na próxima seção, será simplesmente a geografia funcional do cérebro humano. ***

As principais divisões anatômicas do cérebro podem se discernir pela dissecação e já são conhecidas há muito tempo. Sua porção superior e maior, como todos sabem, é o telencéfalo, que é dividido, no meio, em hemisférios cerebrais esquerdo e direito e, transversalmente, em quatro

Ciencia e mito wolfgang smith  

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