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percepções, nem pensamento e, com efeito, nem consciência: sem uma alma, pode haver somente moléculas de proteína e íons de potássio, estruturados habilidosamente, de maneiras que os cientistas do cérebro ainda começam a entender. Mas conquanto a consciência não advenha das moléculas e dos íons que compõem o cérebro físico, ela certamente não é alheia ao organismo vivo: não existe nenhum homunculus para “ler o cérebro”! E não precisa existir. A consciência em questão não pertence nem ao corpo material e nem à alma enquanto tal, mas ao organismo vivo que resulta de sua união: trata-se de um modo psicossomático de consciência, podemos dizer (mas decerto há outros tipos). ***

É fácil entender que as sensações dizem respeito ao nível de consciência psicossomático; o que é difícil notar é que a percepção não o faz. Alego que o ato perceptual não ocorre − e, com efeito, não poderia ocorrer − no plano psicossomático. E por que não? Uma maneira de defender essa afirmação é apontar que ele está implicado em um aspecto singular da percepção visual que Gibson foi, provavelmente, o primeiro a discernir: a saber, o fato de que a percepção não ocorre em um presente temporal, como se havia suposto, mas abarca uma certa duração, um punhado de tempo. O fator do movimento, em particular, entra em cena aí, não em posição secundária, mas como um elemento essencial, um sine qua non da percepção. Portanto, temos de refletir sobre a significância metafísica desse fato. Para começar, deixe-me lembrar que a metafísica tradicional rejeita a idéia de um momento temporal, a noção de um presente temporal instantâneo. Entretanto, após banir o presente do fluxo do tempo, a doutrina tradicional restaura essa concepção em um plano ontológico superior. Sim, existe um “presente”; mas esse presente não é um instante temporal ou um presente que “flui”, mas um nunc stans, como dizem os escolásticos: um “agora que subsiste”. O que precisa ser compreendido é que o ato de percepção − e, em verdade, todo ato cognitivo em si − ocorre em um nunc stans, pela simples razão de que a dispersão temporal é contrária à própria essência do conhecimento. Conhecer é necessariamente conhecer uma coisa, e isso implica que não se pode conhecer “em sucessão”, pedaço por pedaço, por assim dizer. Logo, estamos certos ao assentir à crença comum de que a percepção tem lugar em um presente, um “agora” indecomponível; o errôneo, por outro lado, é conceber esse presente em termos temporais, como um “agora” que se move. Não há realmente um presente temporal: como reconheciam os escolásticos, o presente não é parte do tempo.[ 103 ] Ora, o fato de que o presente real não está em fluxo − não é de fato o presente temporal da psicologia da imagem visual − é precisamente o que torna possível a percepção da estase e da mudança, de invariantes e acontecimentos. Gibson estava certo: realmente percebemos tanto a continuidade quanto a alteração e fazemos isso sem a intervenção da memória. Esse fato, contudo, carrega uma implicação profunda que o cientista tende a negligenciar. A mente empirista decerto é capaz de imaginar um domínio psicossomático; e Gibson, pelo menos, defendia que a percepção não constitui nem um ato físico e nem um mental, mas, com efeito, diz respeito ao organismo psicofísico. Precisamos entender, no entanto, que o plano psicossomático, em virtude de sua base somática e, portanto, material, está sujeito à condição temporal; nesse plano, “tudo flui”, como notou Heráclito. Mas isso implica que o nunc stans − e, assim, o ato de percepção − não se encontra em tal plano. Não importa o quão “supratemporal” a alma desencarnada possa ser, persiste o fato de que, em união com o corpo, a alma se torna sujeita ao tempo. E isso nos traz, finalmente, ao ponto essencial dessas

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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