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idéias essas que se mostram, talvez, até mais opostas ao status quo científico. Logo, foi por meio de pesquisas relacionadas a problemas concretos como a percepção de pontos focais que ele veio a reconhecer a natureza quimérica das teorias baseadas nas sensações e chegou à compreensão surpreendente de que nós não percebemos imagens planas “processadas”, e sim um ambiente tridimensional. Assim como Heisenberg havia descoberto que não existem as partículas clássicas, Gibson também percebeu que, com efeito, não há imagens visuais na percepção. Os cientistas cognitivos tinham aceitado essa noção de maneira acrítica e vêm trabalhando desde então para se livrar do embaraço resultante. Por certo, a psicologia da imagem visual tivera seus triunfos, sua área de sucesso, que diz respeito a coisas como a percepção de exibições pictóricas e a criação de lentes; e embora esses feitos dificilmente se possam comprar às enormes realizações da física pré-quântica, o fato é que tinham servido, igualmente, para conferir uma aura de legitimidade científica às teorias em questão. Assim como o jovem Heisenberg, Gibson também foi obrigado a confrontar um status quo amparado por evidências aparentemente acachapantes. Acho notável, ademais, que ambos foram obrigados, no fim − cada qual à sua própria maneira −, a abandonar a norma da explicação causal, o que é um ato incrível para um cientista! A teoria quântica, como sabemos, torna-se “acausal” quando trata de coisas como a deflexão de um elétron que passa por uma fenda; em verdade, ela insiste que não pode haver um mecanismo que explique os fenômenos em questão. O que torna a teoria gibsoniana “acausal”, por outro lado, é o fato de que a apreensão de informações − à qual se reduz, enfim, a percepção visual − não pode ser explicada no nível da neurofisiologia (que evidentemente constitui a única base na qual se pode conceber uma causalidade física, nesse caso). Contudo, talvez o paralelo mais impressionante entre as contribuições de Heisenberg e Gibson advenha do fato de que a indeterminação quântica, vista à luz da abordagem de David Bohm, associa-se igualmente à apreensão de informações: isto é, a apreensão do que Bohm denomina “informação ativa”, a qual é realizada por uma misteriosa “onda piloto”. É verdade que, por meio dessa concepção, Bohm foi capaz de restaurar uma causalidade estrita, mas somente no nível formal − que, propriamente falando, não é empírico. Logo, pode-se dizer que tanto a mecânica quântica quanto a teoria gibsoniana da percepção acarretam uma apreensão de informações que escapa à explanação em termos causais. As duas “revoluções”, com efeito, podem ser vistas como aspectos complementários de um único evento decisivo: a intrusão, a saber, da informação como elemento essencial e efetivamente irredutível de nossa compreensão científica da realidade. Isso nos traz a um fato curioso que pode ser digno de menção: como a maioria dos cientistas do século XX, Gibson era um darwinista convicto. O que acho surpreendente, por outro lado, é que as suas convicções darwinistas aparentemente se revelaram benéficas em sua busca pela verdade: parece que sua distinção fundamental entre o ambiente e o mundo físico não foi motivada por preocupações ontológicas, mas por pressupostos darwinistas. Como explica o próprio Gibson: Quando se estuda a evolução dos “sentidos” nos animais, surge um enigma, na medida em que eles não parecem ter evoluído para produzir sensações, e sim percepções. Por exemplo, não há valor de sobrevivência em ser capaz de distinguir um comprimento de onda de outro (cor pura), mas há enorme valor em ser capaz de distinguir uma superfície pigmentada de outra sob iluminação variável. Em suma, encontramos o valor de sobrevivência dos “sentidos” na capacidade dos animais de notar objetos, lugares, acontecimentos e outros animais: isto é, de perceber.[ 100 ]

A força da observação de Gibson certamente não se apoia em premissas darwinistas: “a capacidade dos animais de notar objetos, lugares, acontecimentos e outros animais” obviamente é essencial a despeito da evolução, o que significa que não poderia haver vida animal baseada em

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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