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compelido a trazê-lo de volta, a reinstalá-lo, de algum modo, em seu universo. É claro que é possível obviar a reificação do físico, segundo já observamos: mas somente ao preço de localizar o ser em alguma outra área. É seguro dizer que, para todos, exceto os mais sábios ou ultrassofisticados, a reificação se dará no universo físico de “conceitos-objeto” e que os poucos que conseguirem escapar dessa armadilha provavelmente tombarão diante de algum modo alternativo de cientificismo. Há, com efeito, apenas um meio de remediar a ilusão cientificista: a filosofia autêntica. É necessário enxergar toda a cena − o círculo epistêmico mais o campo especulativo ilimitado dentro do qual esse círculo se traça − a fim de não ser enganado. Portanto, no momento em que uma ciência perde contato com “a ciência geral chamada filosofia”, como a denomina Borella, nesse mesmo instante o nascimento de uma ilusão está fadado a acontecer. Algo estranho e, com efeito, contraditório à ciência é introduzido inadvertida e clandestinamente e, daí em diante, oculta-se sob vestes científicas: é assim que as ciências de tipo pós-galileano produzem o cientificismo. A sorte está lançada, com um ato radical de fechamento epistêmico que isola o indivíduo humano do ser verdadeiro ou, subjetivamente falando, do seu solo próprio e verdadeiro e do seu subconsciente “superior”.[ 76 ] Ora, afirmo que é esse cisma profundo e não constatado que subjaz à esquizofrenia coletiva à qual nos referimos previamente e que, de certo modo, “manifesta” o cisma supracitado. Separado de seu solo autêntico, o homem contemporâneo se tornou profundamente desorientado, alienado das normas perenes. Assim, ele se tornou vulnerável ao encanto das pseudonormas e dos valores enganosos dos quais − como por compensação − a sociedade contemporânea dispõe em abundância. Seria um erro fatal supor que a ciência é neutra com relação a “valores” ou que seja isenta de ideologia, como declara a sabedoria dos livros-texto: nada poderia estar mais longe da verdade. O fato é que o próprio cientificismo constitui a ideologia da ciência, o seu lado cultural, que é, em alguma medida, uma religião − ou, mais precisamente, uma contra-religião. Mas essas questões estão fora do escopo de nossas preocupações imediatas e, ademais, já tratei delas em outra parte.[ 77 ] ***

Após essas reflexões bastante gerais, convém examinar mais de perto o universo de “conceitosobjeto” da física contemporânea. Sabemos que esse universo − o universo físico, propriamente dito − supostamente se compõe de partículas quânticas; o que, então, pode-se dizer acerca da natureza dessas partículas? Será que de fato não passam de “conceitos-objeto”? Ou será talvez possível concebê-las como entidades reais de alguma espécie? Deve-se notar, em primeiro lugar, que essas partículas quânticas e seus agregados se representam em função de um formalismo matemático: por exemplo, por um vetor de estado em um espaço de Hilbert. Bem, a interpretação costumeira ou oficial dessas representações formais é operacional, o que significa que a matemática é interpretada, em última instância, com base em um procedimento empírico. O significado de uma fórmula matemática, portanto, reduz-se enfim a uma afirmação operacional, ou seja, a uma afirmação da forma: “Se fizeres A, B será o resultado”, onde B é basicamente o resultado de uma mensuração. Essa é a tarefa que o físico experimental está encarregado de cumprir: sua função é traduzir as “afirmações” matemáticas do teórico em termos operacionais e colocá-las à prova. Mas ainda resta a dúvida: a definição operacional dá conta de todo o assunto? Pressentimos que uma partícula quântica, em verdade, deve ser mais do que um merco conceito ou ens rationis ou

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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