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Ora, venho argumentando há muito tempo que os efeitos dessa concepção errônea fundamental não se manifestam apenas na psique individual do cientista, mas, igualmente, no que se pode chamar de psique coletiva da sociedade ocidental contemporânea. Como membros dessa sociedade, encontramo-nos em um estranho impasse: por um lado, fomos condicionados a reificar o universo físico e, por outro, continuamos a crer, como críamos anteriormente, no mundo “habitual”, esse universo familiar que acessamos por meio das percepções sensíveis. E, conquanto esses dois universos ou mundos sejam, evidentemente, tão diferentes quanto o dia e a noite, somos impelidos a oscilar entre os dois e, estranhamente, fazemos isso sem o menor escrúpulo ou senso de contradição. Como já afirmei mais de uma vez, a hegemonia da ciência nos precipitou em um estado de esquizofrenia coletiva, do qual praticamente ninguém consegue se livrar: em um momento, a grama é verde e, no momento seguinte, não mais é; em uma hora, os corpos são sólidos e, na seguinte − quando mudamos nossos cérebros para o “modo científico” −, são “agregados de átomos”. Aparentamos estar comprometidos com duas cosmovisões contraditórias: com a primeira, em função de nossa adesão cultural ao ocidente contemporâneo e, com a outra, em virtude do fato de que somos humanos. É seguro supor que quase todo mundo está afetado por isso em algum grau, geralmente em proporção direta à quantidade de educação que recebeu. Que é, então, o “cientificismo”? − será que ele se reduz, simplesmente, à “falácia de concretude deslocada” de Whitehead? Pode-se, é claro, definir “cientificismo” em função desse critério; devese notar, contudo, que o termo tem também outras conotações legítimas. Por exemplo, ele pode designar, com razoabilidade, uma cosmovisão que se baseie na bifurcação cartesiana, a qual não acarreta necessariamente a reificação do universo físico. O próprio Eddington, com efeito, tinha uma Weltanschauung bifurcada.[ 75 ] Eu diria, ademais, que a cosmovisão darwinista ou evolucionista em si é cientificista, não importando se um evolucionista reifica o universo físico ou adota uma epistemologia bifurcada. Refiro-me especialmente a Whitehead, filósofo que invectivou contra “a falácia de concretude deslocada” e foi um pioneiro na crítica da bifurcação, mas cujo ensinamento, não obstante, era evolucionista até a medula, chegando mesmo a fornecer a inspiração que anima a “teologia do processo”, doutrina que estende o conceito de “evolução” ao próprio Deus! Há também o “naturalismo” − uma forma etiológica de cientificismo − e sua versão epistemológica, cuja epítome é a ostentação de Bertrand Russell: “O que a ciência não pode nos dizer, a humanidade não pode conhecer”. Sim, todas essas doutrinas cientificistas estão intimamente relacionadas e constituem uma parte da Weltanschauung contemporânea; ainda assim, são logicamente distintas e precisam ser distinguidas: é isso o que desejo enfatizar. Voltando ao primeiro sentido de “cientificismo” − a saber, a reificação do universo físico −, perguntemo-nos agora como essa cosmovisão autocontraditória pode se impor sobre uma grande porção da humanidade. Pode-se imaginar que a validade operacional da física − o fato de que “ela funciona” e dá lugar a uma tecnologia milagrosa − não nos deixa margem de escolha; porém, embora isso possa ser parcialmente verdadeiro para os desinformados, a coisa dificilmente é assim para os cientistas de primeiro escalão. A fim de reconhecer o que está em questão, em última instância, temos de nos lembrar de que o homem não foi feito para brincar de jogos positivistas, mas para conhecer a verdade, para conhecer o ser. Para ele, é tão impossível renunciar o ser das coisas quanto parar de respirar; sua ânsia por ser − e, com efeito, pelo próprio Ser, que é Deus! − é implacável e não pode ser definitivamente aplacada por nada que seja inferior. Assim, ocorre que, quando o ser é excluído de sua mentalidade por um ato de fechamento epistêmico, o próprio cientista se sente

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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