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dizem se dobrar, de algum modo, no espaço-tempo quadridimensional da ciência empírica). Isso ainda é ciência, ou ela se tornou, inadvertidamente, em ficção científica? Um observador imparcial dificilmente evitará a impressão de que, em um certo momento, o limite entre uma coisa e outra foi efetivamente ultrapassado, como supôs Richard Feynman, por exemplo. Parece que, à medida que nos aproximamos do limite de um fechamento epistêmico completo, a física se torna, não uma “teoria de tudo” − como gostam de pensar os físicos −, e sim uma “teoria de coisa nenhuma”. O fechamento epistêmico, como Borella deixa claro, acarreta a eliminação das essências e, portanto, das substâncias para fora do universo resultante. Entretanto, só em um estágio comparativamente tardio na evolução da ciência moderna é que os físicos começaram a reconhecer o fato de que as substâncias haviam desparecido misteriosamente do mundo. Eddington foi, quiçá, o primeiro a notar essa “desessencialização”, quando declarou (em seu Tarner Lectures, de 1938)[ 71 ] que “o conceito de substância desapareceu da física fundamental” − uma alegação que nem Galileu, nem Newton e nem qualquer outro físico anterior a 1925 fizeram ou poderiam ter feito. Para Eddington, a ruína da substância está implicada em uma noção singular, a qual, aparentemente, ele foi o primeiro a conceber, ao defender que, em verdade, o universo físico não se descobre, mas, em vez disso, constrói-se pelo modus operandi da física: “A matemática”, ele nos diz, “não está lá até que lá nós a coloquemos”. Assim, o que distingue o universo de conceitos-objeto de Eddington dos universos galileano e newtoniano é que ele abole, em princípio, a separação categórica entre o modelo matemático e sua interpretação operacional: quando pensa na matemática, Eddington também pensa, de maneira formal, os procedimentos que “lá a colocaram”. O universo de “conceitos-objeto” original, portanto, passa a ser visto não como um modelo ou uma descrição do universo real, mas simplesmente como uma estrutura matemática definida em termos operacionais. Observemos também que, em um universo físico assim concebido, a idéia de “substância” de fato desaparece: essa física não resulta em um conhecimento putativo de objetos − de coisas ou substâncias −, mas em atos controlados de mensuração e, logo, por meio de sua aplicação, em uma tecnologia. Eddington, por conseguinte, afirma ter levado a formalização da física ao limite; em outras palavras, ele afirma ter envolvido todo o corpo teórico em um círculo epistêmico pelo qual se define a física em si. Contudo, talvez Eddington tenha exagerado: nem tudo está bem. De acordo com sua análise “epistemológica”, a construção em si − os procedimentos mesmos pelos quais a matemática é “colocada lá” − não determina apenas as leis fundamentais da física, mas também as suas constantes não dimensionais. Por exemplo, Eddington − sem referência a dados empíricos − alega provar que a constante de estrutura fina é precisamente 1/137; mas, conforme as medições mais recentes, essa constante se revela ser aproximadamente 0.0072973531, número que difere do valor previsto por Eddington em cerca de três centésimos de um por cento. Embora pequena, essa discrepância − se não solucionada −, não obstante, é fatal para a teoria de Eddington: parece que, em sua formalização da física, algo deve ter sido deixado de fora. É força concluir que, após mais de quatro séculos de esforços científicos, o fechamento epistêmico completo da física ainda não foi realizado.[ 72 ] Isso nos traz a um importante reconhecimento: a ciência, em sua realidade concreta, não é − e não pode ser − estritamente “científica”. Se o fechamento epistêmico é de fato o critério de “scientificité” e se, com efeito, esse fechamento não pode ser consumado sem que se emascule a empreitada científica, então segue-se disso que não pode haver, na prática, uma cientificidade total ou absoluta. E, por conseqüência, se a face externa da ciência − por definição, digamos assim − realmente se conforma aos critérios de rigor científico, também deve haver uma face oculta, que não

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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