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Embora o próprio Borella não formule “une theorie de la science”, sua doutrina de fechamento epistêmico fornece a base ideal para tal teoria. Proponho seguirmos agora esse curso, ao menos ao ponto de tocarmos em questões pertinentes aos fundamentos da teoria quântica. Começarei pela seguinte observação: no que diz respeito às ciências naturais, o fechamento epistêmico, necessariamente, sempre permanece incompleto, o que significa que uma discrepância entre o conceito e sua expressão técnica está fadada a persistir. É somente no caso da matemática pura[ 66 ] que a formalização do conceito − ou seja, seu fechamento epistêmico − pode realmente ser efetuada, razão pela qual, no caso dessa ciência, “nunca sabemos do que estamos falando, nem se o que falamos é verdadeiro”, nas famosas palavras de Bertrand Russell. Já com relação a uma ciência como a física, precisamos evidentemente de saber “do que estamos falando”, ao menos em algum grau, o que acarreta a incompletude do fechamento epistêmico. Talvez seja assim no que tange aos próprios universos de conceitos-objeto; porém, em si mesmo, tal modelo não constitui ainda uma ciência física. Obviamente, requer-se um corpo teórico auxiliar para conectar o modelo matemático ao campo empírico no qual a empreitada científica recebe sua validação e na direção do qual ela se orienta; e nesse domínio técnico auxiliar certamente não pode haver um fechamento epistêmico completo. A física de Galileu, por exemplo, tomada em seu conjunto, estava longe de ser fechada epistemicamente; em verdade, a ligação entre o universo galileano de conceitos-objeto e o modus operandi empírico correspondente foi mal compreendida por longo tempo. Hoje está claro, à luz da relatividade einsteiniana, que a célebre afirmação “Eppur si muove”[ 67 ] não pode realmente ser validada com razões estritamente científicas, ao contrário do que Galileu havia imaginado, erroneamente.[ 68 ] Como aponta Eddington: “A teoria da relatividade fez a primeira tentativa séria de insistir em lidar com os próprios fatos. Anteriormente, os cientistas professavam um profundo respeito pelos ‘fatos exatos da observação’; entretanto, não lhes havia ocorrido verificar quais são esses fatos”.[ 69 ] Por certo, devemos depreender daí que esses ‘fatos exatos da observação’ não são independentes, mas se concebem em relação à teoria física; além do mais, o que é verdadeiramente “exato” ou “rigoroso”, cientificamente falando, não são os próprios “fatos da observação”, mas o modus operandi pelo qual se conectam esses fatos ao universo de conceitos-objeto. Meu argumento, todavia, é que essa “exatidão” ou esse rigor jamais são absolutos, o que significa (novamente) que, nesse domínio técnico auxiliar, o fechamento epistêmico não pode ser completo. No tocante à física enquanto teoria total, o que percebemos são graus de fechamento epistêmico; e parece que a história da ciência, de Galileu a Einstein e além, é marcada por etapas sucessivas que correspondem a níveis progressivamente mais altos de fechamento. Em sentido estrito, não existe uma “física matemática”; o que existe, em vez disso, é uma física que está sempre em vias de se tornar cada vez mais matematizada. Para onde isso leva? Como sugeri em outra parte, parece que agora essa evolução está entrando em uma nova fase, que é caracterizada por um grau excessivo de formalização e uma perda correlata de conteúdo empírico.[ 70 ] Uma amostragem da literatura contemporânea presente nos periódicos de física teórica revela uma abundância de “construções de universos”, em uma escala até então nunca alcançada. Já argumentei que a física, um dia, talvez deixe de ser uma ciência natural e se torne o que denominei de “hiperfísica”, uma ciência (ou pseudociência, pode-se dizer) que terá perdido o contato com a realidade empírica. Ao dizer isso, tenho em mente sobretudo as diversas teorias de “múltiplos universos” que hoje em dia parecem estar brotando qual cogumelos, ou coisas como a teoria das supercordas, com seu universo de “conceitos-objeto” de dez ou mais dimensões (que

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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