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se obter uma doutrina filosófica desse porte, é necessário algo mais do que a simples noção de fechamento epistêmico, a qual, conforme ele aponta, é descritiva e não explicativa: “Não basta fechar um conceito para produzir ciência”. Deve-se notar também que Borella seria o último a negar a engenhosidade dos grandes fundadores − de Galileu a Einstein −, os quais, cada qual à sua própria maneira e por meio de um lance de criatividade, construíram um universo de conceitos-objeto de enorme valor científico. Eu poderia mencionar que Albert Einstein, por exemplo, tinha consciência do fato de que essas concepções primárias constituem o que ele denominou “uma livre criação do espírito humano”,[ 65 ] conquanto não tenha reconhecido de todo as implicações filosóficas dessas “incursões” fundamentais no processo científico. A esse respeito, Borella fala de um “viés legítimo” e de um “ponto de vista” que determina o universo de conceitos-objeto em questão; porém, ele não entra em uma discussão detalhada acerca desses assuntos. Mas ele não o precisa fazer: de um ponto de vista estritamente filosófico, ele exprimiu o que de fato era essencial. Parece que o interesse primeiro de Borella não era a ciência em si, e sim a ciência em sua relação com a filosofia. Ele se preocupa, sobretudo, em refutar um erro fatal: “Hoje supõe-se que a ciência seja a única forma de conhecimento autêntico e que o papel da filosofia deva se limitar à determinação e descrição, tão precisas quanto possível, dos diferentes procedimentos que a ciência coloca em prática”. Assim, sua tarefa primeira é restaurar a própria idéia de filosofia e demonstrar que há realmente uma “connaissance philosophique”. Feito isso, seu próximo passo é apontar − com embasamento autenticamente filosófico − que a ciência, em princípio, é incapaz de compreender a natureza de suas próprias descobertas, pela simples razão de que, do seu ponto de vista, o fechamento epistêmico sobre o qual se baseia permanece invisível: “É somente de um ponto de vista filosófico que esse círculo se mostra um círculo, que o fechamento epistêmico se mostra um fechamento”. É verdade, certamente, que todo conhecimento conceitual acarreta um certo fechamento especulativo; a questão, todavia, é que o filósofo tem muita consciência desse fato: “O filósofo sabe que apenas se pode traçar um círculo epistêmico dentro de um campo especulativo mais amplo: pode-se limitar apenas com referência a algo que seja ilimitado”. Conclui-se que o posto mais alto na hierarquia do conhecimento pertence necessariamente à metafísica, “dado que ela define o campo especulativo mais geral possível”. O que interessa a Borella, em primeiro lugar, são as implicações dessa verdade decisiva principal. Segue-se disso, antes de mais nada, que a autonomia alardeada das ciências contemporâneas só pode ser espúria. Ensinaram-nos a crer que as ciências individuais, no curso de suas evoluções, separaram-se progressivamente da filosofia e obtiveram autonomia; e isso é parcialmente verdadeiro: uma emancipação com relação à filosofia − um rompimento de antigos laços − de fato ocorreu. O problema, contudo, é que houve uma perda concomitante de conteúdo cognitivo e uma confusão subseqüente. Como um modo de conhecer, em sentido estrito, a ciência não pode ser autônoma; conforme observa Borella, a única autonomia que ela pode alcançar concerne ao domínio pragmático. Conquanto isso possa parecer estranho, são as ciências tradicionais − as quais fomos ensinados a enxergar como “superstições primitivas” − que realmente têm acesso ao conhecimento autêntico, em virtude de sua ligação com a filosofia. “A diferença entre a ciência prégalileana e pós-galileana”, explica Borella, “é que, sob o antigo regime, as fronteiras dos diferentes domínios científicos, dentro do campo especulativo geral, não estavam inteiramente fechadas: as ciências particulares permanecem abertas àquela ciência geral chamada filosofia, a qual é normativa no que tange a elas”. ***

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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