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Eis como ele delineia aquela norma: Eu digo em verdade, enquanto algo tome forma dentro de você que não seja o Verbo eterno e que não derive do Verbo eterno, não importa o quão bom possa ser, de fato não será correto. Portanto, o homem justo é somente aquele que tenha aniquilado todas as coisas criadas e fique sem distrações mirando diretamente o Verbo eterno, e que seja formado nisto e reformado em justiça.[ 240 ]

Nós somos informados que o “homem justo” é aquele em quem “nada toma forma senão o Verbo eterno”: o que isto significa? À luz das considerações precedentes, isso só pode significar que nossa visão não esteja mais prejudicada, não mais distorcida pelos meios. E esta é a razão pela qual o homem justo “tenha aniquilado todas as coisas criadas”: tendo “desarraigado as modificações”, ele não mais contempla “criaturas”, mas agora vê em todas as coisas o próprio “Verbo eterno”. Tendo “aniquilado todas as coisas criadas”, ele literalmente “fica sem distrações mirando diretamente o Verbo eterno”. A grande questão, agora, é saber como essa proeza hercúlea pode ser alcançada: como um homem “aniquila todas as coisas criadas”? E quem pode efetivamente alcançar aquilo? Eckhart responde a estas questões no seu sermão acerca do texto do “modicum”, o qual (conforme notamos) ele provê nas palavras: “Um pouco, e não mais me vereis; outra vez um pouco, e ver-me-eis”. E sua resposta é simples: é o segundo “modicum”, ele declara, que destrói o primeiro. Mas o que é aquele segundo modicum, aquele segundo “um pouco”? Não é senão aquilo que ele alhures nomeia de “vünkelin”, a “pequena centelha” na alma que é considerada increatus et increabile. Isto também é um modicum – “um pouco” –, mas de uma espécie bastante diferente. Aquele segundo “um pouco” Eckhart identifica com o Verbo ou a Imagem na alma; e aquela Imagem, ele prossegue, é a fonte do poder pelo qual as “modificações mentais” – as impurezas da alma – devem ser subjugadas. E vamos entender isto bem: este poder não é humano, não é próprio das criaturas, mas é – e forçosamente deve sê-lo – divino. De fato, não é senão o Espírito Santo que “vos guiará a toda a verdade”, conforme o Salvador afirma.[ 241 ] De acordo com a análise de Eckhart, Ele o faz mediante o desarraigamento das “modificações” – o que a teologia conhece como “pecado”, ou como os efeitos deste – que nos impedem de ver o Verbo. O Espírito Santo, contudo, é “enviado” por Cristo; ou como Eckhart concebe: surge a partir da vünkelin, a Imagem que é “o Cristo em nós”. Deixem isto bastar; talvez tenha sido dito o bastante para nos prover ao menos com um vislumbre inicial para dentro do coração do ensinamento eckhartiano, o suficiente para indicar que “é tudo sobre a visão”: quer nós vejamos “como em espelho, obscuramente”, ou “face a face”, nas palavras de São Paulo. É aqui, nesta intelecção central, que religião e metafísica finalmente se encontram: cada uma se reconhece a si mesma na outra. E não deixemos de notar que elas se encontram, pois, em Cristo, n’Ele que é “o caminho, e a verdade, e a vida”:[ 242 ] o “caminho” porque Ele limpa e dá poder a nossos “olhos”; a “verdade”, porque Ele é a quem “os limpos de coração” verão; e a “vida”, porque assim ver a Deus é de fato a “vida eterna”. ***

Deve ser notado também que as “modificações” que obstruem nossa visão – que nos impedem de “ver a Deus“ – são divididas naquilo que o Vedanta chama de “kośas” ou “bainhas”, as quais podemos conceber como várias “camadas” ou “conchas”, uma dentro da outra; e isto significa que há, em princípio, duas maneiras de eliminar essas obstruções: todas de uma vez só – como aconteceu, presumivelmente, a São Paulo no caminho a Damasco – ou “uma por uma”, começando pela kośa mais externa e prosseguindo, passo a passo, para a mais interna. É escusado dizer que é a segunda

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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