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que de fato ele é posterior à “visão”, a qual pode ser desdobrada em objeto percebido e sujeito percebedor. Os dois constituem assim uma complementaridade: o objeto percebido e o sujeito percebedor estão interligados, como os lados de uma moeda. O que “precede” essa complementaridade – o que é primário – é o próprio ato intencional, quer dizer, é em realidade a “visão”. O ato vem primeiro, e “ao tempo” em que o sujeito separado e seu objeto “externo” se mostram, a “visão” efetiva já se esgotou; como Henri Bortoft[ 214 ] argutamente afirmou: “Estamos sempre atrasados!”. Pois decerto que, na efetiva “visão”, sujeito e objeto não estão separados: conforme Aristóteles já observara, “de certa maneira” os dois são “um”. Husserl entende, à sua própria maneira, que “vendo, não vêem”, tal como Cristo declarou à multidão:[ 215 ] para ele, o “não ver” resulta da ruptura do ato intencional, do fato de “estarmos sempre atrasados”. A fim de superar esta deficiência, esta cegueira congênita, precisamos evidentemente capturar o ato intencional em um momento “mais cedo” por assim dizer, “antes” que ele se desdobre no famoso sujeito e em seu concomitante objeto. Aquele “antes”, contudo, mostra-se não temporal, mas “ontológico”, se é lícito assim dizer; ele tem a ver não com seqüência temporal, mas com níveis de consciência. Em outras palavras, “antes” quer dizer “mais profundo” ou, como se pode dizer também, “mais primário”. Não precisamos nos preocupar com o vocabulário técnico que Husserl elaborou como meio de comunicar à comunidade filosófica em geral o que ele havia descoberto ou trazido à luz; basta dizer que seu método implica um “distanciamento” do familiar ato de percepção, como para se observar aquele ato de um lugar mais profundo. O modus operandi de Husserl era, de certo modo, o oposto do que os filósofos costumam fazer: ao invés de conceptualizar, ele “desconceptualizou” a fim de “ver”. Pode-se tomá-lo por um “arqueólogo filosófico”, buscando desvelar níveis mais profundos de consciência ao apartar camada por camada de constructos mentais, sob os quais aqueles estratos “mais precoces” estavam soterrados. Cabe notar que neste ponto, ao menos, a abordagem de Husserl é afim àquelas das grandes tradições sapienciais, que igualmente reconheciam níveis “mais profundos” de percepção e implicavam uma concepção hierárquica do percebedor. Brevemente descrito, o genuíno anthropos é tido por possuir não somente uma periferia (onde nossos atos conscientes “normalmente” ocorrem), mas também um centro absoluto, e por ser composto, ademais, por uma hierarquia de centros “intermediários”, cada um dos quais definindo um “nível de visão” e um estado correspondente.[ 216 ] O que, pois, “ver” significa? Em última análise, significa perceber a partir do centro mais profundo de todos, algumas vezes denominado de “coração”; e essa é de fato a primária e autêntica “visão”, da qual o homem foi ficando progressivamente afastado, começando pela Queda. ***

Começando por onde atualmente estamos, vamos agora indagar o que é aquilo que “precede” o objeto “externo”: o que ele vê que não está “atrasado”? Em termos da análise de Husserl, está-se obrigado a responder que é precisamente o fenômeno, concebido como “aquilo que mostra a si mesmo em si mesmo”. Mas então, o que é aquilo que assim “mostra a si mesmo”? Claro que se pode responder que isso é algo que todos deverão descobrir por si próprios aplicando os meios apropriados, necessidade a qual não pode ser negada nem contornada. Contudo, mesmo assim, existe algo a ser aprendido do testemunho daqueles que tenham trilhado aquele caminho, sejam eles filósofos, poetas, artistas ou místicos de algum tipo. O campo claramente é vasto. O que agora proponho a fazer, por via de seleção, é destacar as idéias científicas de um homem conhecido

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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