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Ficamos do lado da ciência a despeito da absurdidade patente de alguns de seus construtos, a despeito de seu fracasso em cumprir algumas de suas promessas extravagantes quanto à saúde e a vida e a despeito da tolerância da comunidade científica com relação a contos não provados, tudo isso porque temos um comprometimento prévio com o materialismo. Não é que os métodos e as instituições da ciência nos compelem a aceitar uma explicação material acerca do mundo fenomênico, e sim que, ao contrário, somos forçados, por nossa adesão a priori às causas materiais, a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzem explicações materiais, não importa o quanto essas explicações sejam contra intuitivas, o quanto sejam intrigantes para os não-iniciados. Ademais, esse materialismo é absoluto, porque não podemos aceitar um Pé Divino na porta.[ 206 ]

Resta-nos levantar apenas mais um argumento: o caso da ciência, propriamente dita, é diferente. No que toca à física fundamental, em particular − que não é e não pode ser nada mais que a teoria quântica −, o que nos depara é, com efeito, a autêntica “ciência da mensuração”. Sim, sem dúvida uma ideologia motivou os seus fundadores − de Bohr a Heisenberg, Schrödinger e Feynman − e direcionou seu foco para o polo quantitativo da manifestação cósmica;[ 207 ] e, no entanto, isso não interferiu no modus operandi legítimo de uma física matemática − não forçou o resultado. Efetivamente, o exato oposto é verdadeiro: na medida em que a mecânica quântica contradiz o duradouro cânone do determinismo laplaciano, sua descoberta foi profundamente desagradável para a comunidade da física como um todo, segundo aponta o próprio Hawking. Deve-se notar, por conseguinte, que a física quântica certamente não se aprovou por razões ideológicas, mas se impôs, em vez disso, com base em evidências empíricas irrefutáveis. Além disso, por mais de oito décadas, ela continuou a se distinguir pelo escopo sem precedentes e a precisão incrível de suas previsões: em milhares de experimentos, até hoje ela não foi refutada. Não há necessidade, nesse domínio, de hipóteses ad hoc: a lógica interna da própria teoria quântica, interagindo com as descobertas experimentais, guia o desenvolvimento. Deixando de lado a penumbra de noções cientificistas que cercam a disciplina sem corrompê-la, o que nos depara aqui constitui, evidentemente, a realização mais brilhante e mais notavelmente bem-sucedida da ciência física enquanto tal. Que pena que Hawking estragou a bela física com especulações infundadas e amadoras de tipo pseudo-filosófico! [ 166 ] The Grand Design, publicado pela editora Random House em 2010, em coautoria com Leonard Mlodinow. Editado no Brasil como O Grande Projeto, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2011, p. 192. [ 167 ] Ao nos referirmos apenas a Hawking, não almejamos fazer pouco caso do co-autor, Leonard Mlodinow. [ 168 ] Isso indica que a citação foi extraída à página 5 de The Grand Design. [ 169 ] Sempre que uma citação não for seguida de seu número de página, esteja subentendido o número de página anterior. [ 170 ] O primeiro experimento desse tipo foi realizado, em 1927, por dois físicos do Bell Labs, usando elétrons. [ 171 ] Como relata Hawking, as maiores partículas já usadas até hoje (em um experimento conduzido na Áustria, em 1999) foram certas moléculas chamadas “bolas de fulereno”, compostas de 60 átomos de carbono. [ 172 ] Não obstante, no que diz respeito aos processos macroscópicos aos quais a física clássica se aplica, a distribuição de probabilidade resultante para o produto de uma mensuração se concentra tão intensamente em torno de seu valor médio que determina um valor único na precisão da mensuração. Em outras palavras, no domínio macrocósmico, a física quântica, com efeito, se reduz à física clássica. [ 173 ] Ênfase minha. [ 174 ] Falar com base em “fase” e “cancelamento”, certamente, é falar com base na representação de ondas. Lembremo-nos de que, na teoria quântica, as partículas também são tratadas como ondas. [ 175 ] Hawking pára antes de apontar o que isso significa: isso implica (com base na física newtoniana) que v = o, o que significa que, de forma contrária ao dogma galileano, a Terra não se move. Retornaremos a esse ponto na parte III. [ 176 ] O termo “teoria da inflação” se refere a um modelo quântico que, segundo dizem, descreve o primeiro universo tal qual era cerca de 10-35 segundos após a singularidade inicial − ou “big bang”. [ 177 ] Cf. capítulo 3. [ 178 ] Deve-se notar que esse termo inerentemente grego adquiriu significado virtualmente oposto ao seu significado original e etimológico de “algo que se mostra a si mesmo por si mesmo”. Assim, é realmente o filósofo, e não o cientista contemporâneo, quem, em verdade, tem o olhar voltado para o fenômeno! Cf. capítulo 8. [ 179 ] Jean Borella, Histoire et théorie du symbole, L’Age d’Homme, 2004, cap. 4, art. 1.

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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