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Em termos simples, diz-nos que a negação a priori do design inteligente em escala cósmica constitui o pressuposto ideológico sobre o qual se baseia a cosmologia do big bang. Ao que poderíamos acrescentar que o argumento de Hawking contra “o Grande Designer” se revela circular, portanto, e que a física propriamente dita não pode concluir tal coisa. Perdura a questão de uma base de evidências, de uma verificação. Deve-se observar, em primeiro lugar, que, na ausência de experimentos controlados, a verificação, em sentido científico pleno, é descartada de antemão: o melhor que podemos esperar é que os sinais vindos do espaço externo, quando interpretado segundo a física terrestre, não entrem em conflito com a teoria. Ocorre, no entanto, que o fazem, o que significa que vem sendo necessário introduzir inúmeras hipóteses ad hoc, isto é, suposições formuladas especificamente com o propósito de adequar a teoria aos achados observacionais conflitantes.[ 203 ] Ademais, o processo de acrescentar suposições adicionais em resposta a dados adversos parece continuar; como Brent Tully (conhecido por sua descoberta das supergaláxias) observou: “É perturbador o fato de que surge uma nova teoria cada vez que há uma nova observação”. Ao que podemos acrescer o fato de que Tully tem toda a razão em se sentir perturbado: pois um tal modus operandi, com efeito, elimina a verificação empírica enquanto critério de verdade. Sob tais auspícios, torna-se difícil confirmar se há ao menos um vestígio de evidência real que ampare a teoria. Todavia, Hawking não diz uma só palavra quanto a esse assunto: somos levados a crer que a cosmologia do big bang não passa de física e que, assim, foi rigorosamente provada, de uma vez por todas, com base em fundamentos científicos incensuráveis. A necessidade de “uma mistura de ideologia”, em especial, não é mencionada em parte alguma de O Grande Projeto: pelo contrário, Hawking faz questão de veicular a impressão de que a “teoria M” − a ciência última! −, por si só, assegura a veracidade de tudo o que ele tem a dizer. Certa similaridade entre a cosmologia do big bang e o darwinismo, assim, veio à tona, analogia sobre a qual pode ser esclarecedor refletir. Tal como a cosmologia astrofísica, a biologia darwinista é reputada uma teoria científica defendida sem razões insuficientes, o que significa que ambas, em verdade, são defendidas por razões ideológicas. Devemos reconhecer, além disso, que as respectivas teorias se originam, em verdade, exatamente do mesmo postulado ideológico: seja com relação às espécies ou ao universo como um todo, a evolução − a negação do design inteligente! − se revela ser o dogma fundador tanto de uma quanto de outra. Em suma, a cosmologia do big bang é darwinismo em escala cósmica. E, o que é desnecessário dizer, esse fato realmente se mostra revelador, tanto mais porque, no momento, o darwinismo biológico é compreendido muito melhor do que o astrofísico.[ 204 ] O fato saliente que aparece com especial clareza no domínio biológico é que o darwinismo nunca é uma ciência; não importa de que revestimento cubra, ele permanece, em essência, aquilo que era no começo: uma ideologia. E isso quer dizer que a “evidência” perde a sua primazia: ela ainda é desejável, ainda é buscada, mas deixa de ser necessária, na medida em que a teoria se ergue sobre bases ideológicas. Lembramo-nos da resposta dada pelo darwinista Ernest Mayr quando confrontado com cálculos que demonstravam a improbabilidade astronômica da hipótese evolucionista respeitante ao olho humano: “De um modo ou de outro, ajustando esses números”, disse ele, “ajustando esses números, acharemos uma solução. Estamos tranqüilos, pelo fato de que a evolução ocorreu”.[ 205 ] Nesse entremeio, a questão foi expressa com clareza extrema por Richard Lewontin, ele próprio um biólogo evolucionista preeminente; comentando sobre a ciência em geral, ele escreve:

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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