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se podemos chamá-la assim, revela-se “vertical”, já que certamente não é mediada por uma seqüência temporal de eventos. Além disso, o Ato criativo constitui, com efeito, o protótipo e princípio de toda a causalidade vertical, o que significa que a causalidade vertical, propriamente dita, constitui um modo secundário de criação, um tipo mediado pelos agentes criados. O que está em questão, aqui, é o milagre da inteligência, o que é precisamente aquilo que distingue a causalidade vertical da horizontal. Decerto, há tipos diferentes de mediação inteligente, desde a mediação angélica − que, enfim, não é uma criação da imaginação primitiva! − até a humana, a qual dá lugar aos modos correspondentes de causalidade vertical.[ 196 ] O fato, mais uma vez, é que um agente inteligente, assim como o chamado observador, não se reduz simplesmente a uma entidade cósmica. Finalmente, precisamos reconhecer que a inteligência se escora sobre uma realidade transcendente, algo que é efetivamente divino: “a verdadeira Luz”, nomeadamente, “que ilumina cada homem que vem ao mundo”. Porém, resta a questão: pode haver uma ciência baseada na causalidade vertical, assim como há ciências baseadas na causalidade física? Ora, acontece que sim e que tais ciências, com efeito, existem desde os tempos antigos:[ 197 ] as ciências tradicionais ou “sagradas”, podemos chamá-las; o fato é simplesmente que as nossas ciências, atreladas como estão à causalidade física, são incapazes, em princípio, de compreender uma ciência baseada na causalidade vertical. As ciências tradicionais, por certo, têm o seu próprio modus operandi, o qual, não é preciso dizer, difere radicalmente do empiriométrico. Assim, elas também têm um “valor explicativo” e uma utilidade própria, utilidade e valor esses que, para dizer o mínimo, não se comparam de maneira desfavorável aos benefícios que se podem extrair das ciências físicas de nossos dias.[ 198 ] Sim, este não é o momento de nos demorarmos mais profundamente sobre as ciências tradicionais e sua relação com as ciências físicas; desejo apenas colocar mais um argumento: a saber, que esses dois tipos de ciência não têm relação de conflito ou de contradição, que não se trata de “esta ou aquela”. Conforme já demonstrei em outra parte,[ 199 ] os modos horizontal e vertical de causalidade podem coexistir, e de fato o fazem, sem interferência mútua, o que significa que cada qual tem seu próprio efeito. Tomemos um exemplo simples: um atirador dispara contra um alvo. Ora, do ponto de vista da causalidade horizontal, o impacto subseqüente se explica em função de uma seqüência temporal de eventos que se inicia com o pressionar do gatilho, ao passo que o mesmo efeito é igualmente o resultado de um ato intencional: nenhuma das explicações desqualifica a outra e, por certo, não se pode dizer qual é «mais verdadeira». Hawking, porém, certamente não tem a menor pista de que há ciências além da contemporânea e menos ainda de que os dois tipos não são opostos, mas complementares: sua inabilidade em reconhecer a existência da causalidade vertical o predispõe a julgar o valor de toda doutrina em função de sua capacidade de explicar os fenômenos por meio da única causalidade que ele conhece: o modo horizontal, segundo concebido pelo físico. Voltando ao argumento de Hawking: parece, agora, que Deus − o Criador “dos céus e da terra” − efetivamente sobreviveu ao ataque; uma vez dissipada a fumaça, vemos que o espantalho de Hawking não tem a menor importância. Mas isso é apenas metade da história: afinal, não somente o seu argumento contra a doutrina de um Criador divino como também a sua própria versão da cosmogênese − que, supostamente, deveria substituir os ensinamentos judaico-cristãos − é fatalmente imperfeita. Consideremos o fato observado anteriormente, de que o universo físico se revela não ser, enfim, um sistema fechado, o que significa, outra vez, que a causalidade vertical entra

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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