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que ela não pode, em princípio, ser afirmada com base em razões científicas. Como, então, sabemos se é verdadeira? Podemos lembrar que o próprio Descartes enfrentou grande dificuldade para se convencer de que esse mundo “externo” de res extensae − que nenhum olho humano jamais pode contemplar − existe de fato e que ele buscou justificar sua crença em um tal mundo por meio de um argumento filosófico que recorre, enfim, à “veracidade de Deus”: esse mesmo Deus que, desde então, foi rejeitado por cientistas cripto-cartesianos, de Laplace a Hawking, como uma “hipótese desnecessária”. O que nos preocupa primeiramente, contudo, é o fato de que, no século XX − quando, segundo Hawking, a filosofia estava à beira da morte! −, a “bifurcação” sofreu ataque rigoroso pelas mãos de filósofos notáveis, começando com Edmund Husserl e Alfred Whitehead, cujas pesquisas demonstraram que a premissa cartesiana não somente era infundada, mas também verdadeiramente insustentável. A despeito do que mais possamos dizer acerca da filosofia do século X, ela certamente rompeu o duradouro garrote da ontologia da bifurcação − mas apenas, é claro, para aqueles dispostos e capazes de ouvir. Agora, surge a questão: a física tem necessidade da premissa cartesiana? Suas descobertas não poderiam ser interpretadas igualmente bem, quiçá, em função de uma ontologia realista que seja rica o bastante para incluir aquilo que Gibson chama de “ambiente”: o universo perceptivo, nomeadamente, o qual, segundo ele observa, “não é o mundo da física”? Revela-se que esse é de fato o caso;[ 186 ] e observemos, sem delongas, o que isso implica: se é verdade que as descobertas da física podem ser interpretadas consistentemente de forma não bifurcada, esse mesmo fato implica que, em princípio, é impossível basear uma cosmovisão bifurcada nessas descobertas, como Hawking afirma fazer. No cômputo final, a coisa é assim tão simples. Mas há mais: como mostrei, semelhantemente, em O enigma quântico, a física em si não somente pode ser interpretada perfeitamente bem de forma não bifurcada, como também, com efeito, só pode ser “bem interpretada” desse modo: pois ocorre que o postulado cartesiano constitui uma fonte de confusão e, em última instância, um paradoxo. Refiro-me primeiramente ao chamado “problema da mensuração” − a saber, o fato de que o ato de mensuração interrompe a trajetória de Schrödinger, causando o “colapso de vetor de estado” −, fenômeno que vem intrigando os cientistas desde o advento da teoria quântica. Então, não somente Feynman estava certo ao observar que “ninguém entende a teoria quântica”, como também ocorre que a física quântica não pode, de fato, ser compreendida filosoficamente de forma bifurcada. Não tentarei resumir aqui a interpretação ontológica da física enunciada em O enigma quântico. Basta notar que ela se baseia em uma distinção categórica entre dois tipos de entidades cósmicas: as coisas que, em princípio, são perceptíveis (os objetos corpóreos) e aquelas que, em última instância, reduzem-se a partículas quânticas (objetos físicos). E isso significa, é claro, que um objeto corpóreo não se reduz a um mero agregado de partículas quânticas, ao contrário do que quase todos hoje creem. Um objeto corpóreo se revela algo mais do que um tal agregado; e esse “mais” advém de algo chamado forma substancial, para expressá-lo em termos escolásticos.[ 187 ] A ontologia daí resultante − uma ontologia rica o bastante para incluir tanto o “ambiente” quanto “o mundo da física” − difere do pré-científico, por conseguinte, em virtude da inclusão de um estrato adicional que a empreitada empiriométrica dos séculos passados trouxe à luz (ou “construiu”, como creem alguns):[ 188 ] o físico, isto é, enquanto distinto do corpóreo. Os dois estratos, ademais, estão intimamente ligados (e, sem essa ligação, a física seria impossível), e ocorre que, filosoficamente falando, o físico está para o corpóreo assim como a potência está para o ato. Logo, o físico se revela um

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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