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aparente: “É possível transformar essa última afirmação em um princípio científico: nossa própria existência impõe regras que determinam a partir de onde e em qual tempo nos é possível observar o universo”. O que Hawking acaba de enunciar é o chamado princípio antrópico, ou “princípio antrópico fraco”, para ser exato, a respeito do qual muito se tem escrito nas décadas recentes. Ele aponta que o princípio se revela científico na medida em que leva a previsões que são testáveis e as quais, com efeito, prova serem verdadeiras; por exemplo, ele implica, como primeiro demonstrou Robert Dicke, que “o universo deve ter cerca de 10 bilhões de anos de idade”, o que está muito de acordo com o número de 13.7 bilhões de anos apresentado pela teoria do big bang. O mistério, porém, ainda não foi solucionado; pois acontece que nossa existência não requer apenas o tipo correto de sol e um sistema planetário favorável ao homem, mas também, em um nível mais fundamental, as leis físicas e as constantes da natureza corretas, fato que um mero “princípio de seleção” não parece explicar. Uma coisa é “selecionar” um sistema planetário favorável, obviamente; mas trata-se de algo muito diferente o selecionar um valor da sutil constante estrutural que permite a ocorrência da química orgânica. Ora, é precisamente nesse momento que Hawking traz algo novo à cena: a saber, a noção de que o nosso universo é apenas um entre 10500 universos, cada qual possuindo as suas próprias leis; pois, com efeito, tendo isso por base, nossa existência serve para “selecionar” as leis físicas da natureza, assim como seleciona nossa posição dentro do espaçotempo do universo em que nos encontramos. Assim, por meio da teoria M, Hawking aparentemente justificou o que fora conhecido como o princípio antrópico forte, o qual afirma que “o fato de que existimos impõe limitações não apenas ao nosso ambiente, mas também nos conteúdos e formas possíveis das próprias leis da natureza” (155). Não precisamos seguir Hawking enquanto ele relata “a narrativa de como o universo primordial feito de hidrogênio, hélio e um pouco de lítio evoluiu para um universo que abriga ao menos um mundo de vida inteligente”: trata-se, essencialmente, do relato familiar que começa com a astrofísica do big bang e culmina no panorama darwinista da evolução. O que é interessante, presentemente, é que as leis e constantes universais da natureza precisam passar por uma “afinação sutil” para permitir que as fases astrofísica e darwinista desse processo ocorram. Consideremos, por exemplo, o fato de que a vida na terra se baseia no carbono e que a formação de núcleos de carbono resulta do processo chamado triplo alfa, que envolve uma colisão de três partículas, cuja probabilidade seria excessivamente pequena a menos que a força nuclear forte se encontrasse no âmbito de 0.5 por cento de seu valor observável, a força elétrica no de 4 por certo e assim por diante. Ou, para dar um outro exemplo: a existência de vida em um planeta requer uma estabilidade extrema de sua órbita; no entanto, “é somente em três dimensões que as órbitas elípticas estáveis são possíveis” (160). Eis, então, a razão − argumenta Hawking, com efeito − pela qual, em nosso universo, o espaço tem três dimensões, e não cinco ou nove. A lógica do argumento de Hawking é clara como um cristal: uma vez substituído o universo único de tempos idos por um verdadeiro “multiverso”, a afinação sutil das leis e constantes naturais pode ser explicada pelo princípio antrópico fraco, o que significa que o “milagre aparente” desapareceu: “o conceito de multiverso pode explicar a afinação sutil das leis físicas sem a necessidade de um criador benevolente que fez o universo em nosso benefício” (165). Mesmo essa “suplantação da hipótese de Deus”, todavia, ainda não é a palavra final: no último

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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