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crista ou um ventre em A), e o que faz com que isso seja calculável é o fato de que, exceto para as trajetórias especiais, as contribuições das trajetórias próximas se cancelam.[ 174 ] Essas idéias, porém, podem ser extrapoladas do caso do experimento da dupla fenda para o caso geral de uma partícula que se move de um ponto a outro: “A prescrição matemática de Feynman [...] mostrou que, quando somamos as ondas de todas as trajetórias, obtemos a ‘amplitude de probabilidade’ de que uma partícula, começando em A, alcance B”. O mesmo é verdade, ademais, para um sistema físico arbitrário que se componha de um dado número de partículas: “Feynman mostrou que, para um sistema geral, a probabilidade de qualquer observação se constrói a partir de todas as histórias possíveis que poderiam ter levado àquela observação. Por causa disso, seu método é chamado de formulação de ‘soma de histórias’ ou ‘histórias alternativas’ da física quântica” (82). Após introduzir o leitor, desse modo, à versão de Feynman da teoria quântica, baseada na noção de “histórias alternativas”, Hawking toca em um outro aspecto “estranho” da nova física: o fato de que “o passado (não observado), assim como o futuro, é indefinido e existe apenas como um espectro de possibilidades. O universo, de acordo com a física quântica, não tem um só passado, uma só história”. E isso implica (o que talvez seja o fato mais estranho de todos!) “que as observações que fazemos em um sistema no presente afetam o seu passado”. Esses chamados experimentos de “escolha postergada” podem ser executados, por exemplo, no caso do contexto da dupla fenda. Mas Hawking se ocupa, sobretudo, em levar a noção de “escolha postergada” à sua conclusão última: “Veremos que, como uma partícula, o universo não tem uma única história apenas, mas todas as histórias possíveis, cada qual com sua própria probabilidade; e nossas observações de seu estado atual afetam o seu passado e determinam as diferentes histórias do universo, assim como as observações das partículas no experimento da dupla fenda afetam o passado dessas partículas” (83). O capítulo 5 (“A Teoria de Tudo”) se inicia com um panorama da física clássica pós-newtoniana, começando pela descoberta do campo eletromagnético, que culmina nas equações de campo de James Clerk Maxwell. Todo tipo de ondas eletromagnéticas, de raios-x à luz visível e às ondas de rádio, poderiam agora ser descritas com uma precisão sem precedentes. Contudo, uma dificuldade fundamental se apresentava: presumia-se que o campo eletromagnético pressupunha um meio que permeasse todo o espaço: o suposto éter; e essa doutrina tinha certas implicações científicas: “Se o éter existisse, haveria um critério absoluto de repouso [...] e, por conseguinte, também uma maneira absoluta de definir o movimento. O éter forneceria um quadro de referências preferível ao longo de todo o universo, diante do qual se poderia medir a velocidade de qualquer objeto” (93). Em conjunção com a hipótese galileana de um sol estático, ao redor do qual a Terra revolve com uma velocidade orbital v (relativa ao éter), isso levava os cientistas a perguntar se podia ser possível medir v. Em 1887, ademais, Albert Michelson e Edward Morley, com efeito, conduziram um tal experimento, com base na seguinte idéia: se c designa a velocidade da luz (relativa ao éter), então sua velocidade relativa à Terra deveria ser c − v, para um feixe de luz que se move na mesma direção da Terra, e c + v, para um feixe que se move na direção oposta. Entretanto, o experimento revelou − para a consternação da comunidade científica! − que as duas velocidades relativas, em verdade, são iguais.[ 175 ] Nesse momento crítico, Hawking opta por delinear as concepções básicas da relatividade einsteiniana, começando pela teoria especial da relatividade (publicada em 1905), que resolve o impasse supracitado estipulando que a velocidade da luz é exatamente a mesma em qualquer quadro de referência inercial. Matematicamente, isso leva à noção de um contínuo espaço-tempo

Ciencia e mito wolfgang smith  

Ciencia

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