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Significados psicológicos e culturais do comportamento alimentar de adoecidos crônicos por Síndrome Metabólica: um estudo clínicoqualitativo

Carla Maria VIEIRA Doutora Pesquisadora no Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria Universidade Estadual de Campinas Docente do Curso de Nutrição Universidade Metodista de Piracicaba São Paulo/Brasil cmvieira@unimep.br ; carlmari@fcm.unicamp.br Egberto Ribeiro TURATO Livre Docente Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria Universidade Estadual de Campinas São Paulo/Brasil erturato@uol.com.br

Resumo É imediata a associação da alimentação à obesidade, às dislipidemias, hipertensão, diabetes tipo II, com altas taxas de prevalência nas sociedades ocidentais, fortemente industrializadas e urbanizadas. Três destes problemas de saúde manifestados em conjunto vem sendo reconhecidos na literatura médica como sintomas da Síndrome Metabólica ou fatores de risco para eventos cardíacos graves. Conhecer significados psicológicos e culturais do comportamento alimentar vinculados ao processo de adoecimento crônico de pessoas em situação de cuidado para essas enfermidades foi o objetivo de tese de doutorado. Entrevistas individuais em profundidade com nove pacientes, região sudeste, Brasil, compuseram amostra, fechada por saturação. Referencial de base analítico e contribuições antropológicas apoiaram análises. Propomos discussão de categorias extraídas da tese: Significados da dieta; Conquistas no manejo do tratamento; Autonomia versus prescrição. Salientamos os significados de perda de prazer e cerceamento da liberdade de comer atribuídos à dieta, colaboraram negativamente para o manejo do processo de adoecimento. Por outro lado, o saber culinário, a valorização da identidade da cultura alimentar e a comensalidade em família demonstraram potencialidades na reorganização do cuidado. Palavras-chave: Comportamento alimentar, Dieta, Cultura, Psicologia em Saúde, Adoecimento Crônico.


Abstract The association between feeding habits and obesity, dyslipidemia, hypertension, and type II diabetes is immediate, with high prevalence in western, highly industrialized, and urbanized societies. Three of these health problems have been recognized in the medical literature as symptoms of Metabolic Syndrome or risk factors for myocardial infarction. The goal of this doctoral thesis was to discover the psychological and cultural meanings behind feeding behavior linked with the chronic sickening process of people who need care due to these health problems. The sample was composed of in-depth, individual interviews with nine patients in the Brazilian Southeast, which closed due to saturation. The analyses were supported by references selected from an analytical base with anthropological contributions. We propose a discussion of categories extracted from the thesis: meanings of diet; accomplishments in treatment management; and autonomy versus prescription. We highlight the meanings of loss of pleasure and curtailment of the freedom to eat attributed to dieting, which contribute negatively to the management of the sickening process. On the other hand, culinary know-how, empowerment of food culture identity, and commensalism in the family demonstrated potential in the reorganization of care. Keywords: Feeding behavior, Diet, Culture, Health Psychology, Chronic Disease.

Introdução

E

studos qualitativos sobre o fenômeno alimentar sugerem a compreensão da dimensão simbólica da alimentação. Simbolismo marcado pelo contexto social e histórico, observado nas manifestações culturais e na relação que o homem estabelece com sua comida, manifestada por meio de seu comportamento alimentar ou práticas alimentares. Práticas alimentares e comportamento alimentar apresentam conceitos distintos, porém, confluentes sob a ótica das abordagens teóricas aqui adotadas (Canesqui, 2005; Garcia,1994). As práticas alimentares ou o comportamento alimentar podem ser entendidos como um entrecruzamento dinâmico de subjetividades individuais e, determinações socioculturais. Ao assumir essa confluência conceitual, admite-se uma visão do comportamento alimentar, percebido enquanto um fenômeno individual que sofre interferências constantes do contexto (Garcia, 1997; Guattari e Rolnik,1996). As práticas alimentares, entendidas como um fenômeno sociocultural historicamente derivado e subjetivado se estabelece em redes de significados psicológicos e de manifestações socioculturais (Gonzalvez, 2002; Spink e Frezza, 1999). O termo práticas alimentares, oriundo da antropologia e da sociologia, comporta questões do contexto cultural (Canesqui, 2005), não deixando, porém, de expressar conteúdos do campo psíquico dos indivíduos.


Sistematizado no campo da psicologia, o comportamento alimentar, por sua vez, expressa de forma predominante dimensões subjetivas de como as pessoas elaboram mentalmente seus atos de comer no cotidiano e fazem suas escolhas alimentares. Na esfera intrapsíquica, o comportamento alimentar é uma manifestação de construções do aparelho psíquico dos indivíduos. No entanto, é também concebido como um todo social e histórico, derivado culturalmente. Para Poulain e Proença (2003), em estudo dedicado aos métodos de investigação do comportamento alimentar, as representações simbólicas da alimentação constituem um conjunto de núcleos de sentido, em maior ou menor grau de consciência. As pessoas expressam em suas ações os sistemas de representações sobre o comer e a comida, que se estruturam e se organizam em sua mente, dinamicamente, a partir da vivência cotidiana e coletiva (Polain e Proença, 2003). Pode-se observar uma confluência conceitual nessas abordagens teóricas (Canesqui, 2005; Garcia,1994; Polain e Proença, 2003). Essa premissa, compreendida como uma via de acesso ao tema alimentação possibilita aproximações das ciências nutricionais às ciências humanas. Além de contribuir para melhorar as perspectivas sanitárias vinculadas às relações homemalimento, que são historicamente constituídas pelos grupos sociais em suas localidades de origem (Messer, 1995). Nessa aproximação é percebido que o processo de cuidado nutricional, enquanto disciplina pertinente ao campo da saúde, demanda a incorporação de análises da alimentação como forma de expressão e de comunicação. Demanda também uma prática que não descarta os inúmeros significados que foram construídos sobre a comida, considerando o processo histórico de cada sociedade (Canesqui e Garcia, 2005). O referido refinamento da práxis em nutrição se identifica com a proposta de não falar somente em nutrientes e dietas para se obter saúde, evitar a doença e alcançar um corpo delgado. Ao contrário, é uma prática de cuidado em que a culinária, o consumo de alimentos e os próprios alimentos são também fontes de prazer, identidade, inclusão social, entre outros elementos que permeiam a relação “homem alimento”, a serem considerados no processo terapêutico (Gracia, 2005). Pesquisas com sujeitos em tratamento para doenças metabólicas crônicas revelam maior dificuldade no manejo das dietas quando estas são desconectadas de seu contexto cultural e quando suas demandas emocionais são desconsideradas. No entanto, a baixa adesão às mudanças de comportamento alimentar, indicadas pelos profissionais da área da saúde que se ocupam com o cuidado nutricional, tende a ser justificada pela falta de capacidade dos pacientes de estabelecerem estilos de vida saudáveis (Folta, 2008; Meetoo, 2004; Organização Pan-Americana da Saúde, 2003; Balcou-Debussche M, Debussche, 2009). Estudos que se dedicam a apoiar a proposta de ampliar a visão da nutrição no campo da saúde, a partir de investigações interdisciplinares, salientam que a atual tendência é de colocar sobre o indivíduo toda a responsabilidade dos atuais problemas alimentares, que envolvem toda a sociedade (Gracia, 2001). Ampliar as perspectivas sobre o fenômeno alimentar é um desafio a ser enfrentado na própria área da saúde, tendo em vista o elevado


número de problemas de saúde que se relacionam diretamente com a alimentação, no atual contexto de transição epidemiológica e nutricional, das sociedades fortemente industrializadas. Essas questões exigem olhares múltiplos quando se busca a compreensão sobre o processo de mudanças do comportamento alimentar. Pesquisas que se utilizam do referencial das ciências humanas para conhecer a forma com que os pacientes estruturam o manejo de sua alimentação e de sua culinária, no contexto de adoecimento crônico por distúrbios vinculados à alimentação, poderão contribuir para a prática em nutrição. Nesta perspectiva está inserido este artigo, cujo objetivo é analisar e debater os aspectos subjetivos da alimentação a partir das experiências relatadas por sujeitos em situação de adoecimento crônico por Síndrome Metabólica.

Percurso Metodológico O conjunto de resultados aqui discutidos é um segmento de uma tese de doutorado. O trabalho de tese foi desenvolvido junto a um grupo de pesquisa que se ocupa com o desenvolvimento do método de pesquisa clínico-qualitativa, em unidade acadêmica de psicologia médica e psiquiatria. O método de pesquisa clínico-qualitativa é considerado uma modalidade de pesquisa qualitativa oriunda das ciências humanas e sociais, aplicada à área da saúde. O referido método se caracteriza por incorporar ao pesquisador, em sua prática investigativa, a atitude clínica como força motriz para a pesquisa. A atitude clínica referida é entendida como a postura profissional promovida pelo hábito da ajuda terapêutica e pela escuta qualificada sobre o sofrimento da pessoa em situação de cuidado (Turato, 2010).

O contexto e os sujeitos entrevistados Um conjunto de sintomas metabólicos crônicos, reconhecidos em consensos internacionais da área médica, é caracterizado como Síndrome Metabólica pela presença de fatores de risco para eventos cardiovasculares graves. O acúmulo de gordura abdominal, a resistência à insulina ou hiperglicemia, o aumento dos níveis de frações lipídicas no sangue e elevados níveis pressóricos são as principais características presentes no quadro clínico (Opie, 2007). O padrão alimentar é apontado como um forte componente que poderá tanto contribuir como proteção quanto para agravar os sintomas (Opie, 2007). É bastante plausível reduzir riscos de eventos cardiovasculares graves e até mesmo a suspensão do uso contínuo de alguns medicamentos com a diminuição do peso corporal. A diminuição de pelo menos dez por cento do peso total dos pacientes com excesso ponderal, complementada por mudanças na alimentação, auxilia na melhora dos fatores de risco, principalmente na hipertensão arterial (Opie, 2007). Diante dessas perspectivas foi delineado um estudo sobre comportamento alimentar de pessoas com esse tipo de enfermidade. A principal motivação se deu, pela forte


incongruência entre a importância atribuída aos hábitos alimentares no tratamento e prevenção da Síndrome Metabólica, por um lado e por outro as dificuldades e fracassos relatados em relação à adesão às propostas de mudanças na alimentação e para perda de peso (Folta, 2008; Meetoo, 2004; Organização Pan-Americana da Saúde, 2003; BalcouDebussche M, Debussche, 2009). Nove sujeitos com excesso de peso e diagnóstico clínico de SM participaram deste estudo. Foram selecionados em ambulatório de Síndrome Metabólica, inserido em um complexo hospitalar universitário, na região sudeste do Brasil, no período de setembro de 2006 a fevereiro de 2008. O número de sujeitos/entrevistados não foi definido previamente, sendo aplicado o critério de saturação para encerrar a etapa das entrevistas. Dentre os nove participantes dois eram homens e sete mulheres. Todos eram moradores da região metropolitana em que foi desenvolvida a pesquisa e usuários do sistema público de saúde. A média de idade era de 50.2 anos, com um intervalo de 37 a 63 anos. Sete participantes eram casados e dois divorciados; apenas uma participante vivia apenas com seu marido e todos os outros com diferentes membros da família, adultos e crianças. Apenas um dos participantes morava em área rural. Quatro sujeitos tinham como ocupação o trabalho doméstico; uma delas trabalhava com limpeza domiciliar; dois participantes eram pensionistas; um estava desempregado e outra trabalhava em atividades gerais em haras. Todos apresentavam nível econômico de baixo poder aquisitivo. Em relação aos aspectos clínicos os sujeitos apresentaram: média de 8,2 anos de tratamento para distúrbios metabólicos crônicos, associados à SM e registrados em prontuário. O intervalo entre o menor e o maior número de anos de tratamento foi de 2 a 17 anos. Como critérios de homogeneidade, temos o diagnóstico clínico para SM, associado ao peso corporal elevado. O projeto de pesquisa foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa de Universidade Estadual de Campinas. Obteve o parecer favorável e homologação em 20 de dezembro de 2005, sob o protocolo número 809/2005 CAAE 1738.0.146.000-05. Os pacientes participaram da pesquisa mediante a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. Coleta de dados A pesquisa de campo foi iniciada com observações das atividades do ambulatório, uma vez por semana. Com o decorrer de duas semanas de observação, alguns pacientes foram escolhidos para participar. Nesta fase, quatro sujeitos foram entrevistados, sem roteiro prévio e sem gravação, seguido de registros em diário de campo, imediatamente após cada encontro. O processo de aculturação proporcionou um refinamento do olhar e da escuta, possibilitando uma aproximação com os pacientes e com o contexto ambulatorial/hospitalar. A partir daí foi dado início à elaboração do roteiro de questões que auxiliaram o desenvolvimento das entrevistas gravadas


As entrevistas semidirigidas de questões abertas tiveram duração média de uma hora. Para o desenvolvimento das entrevistas foi aplicada a técnica de livre associação de idéias (Turatao, 2010), tomada como seu fio condutor. Segundo Turato (2010), a livre associação de idéias é um modo de desenvolver a entrevista que consiste em exprimir os pensamentos de forma indiscriminada e flexível, quer a partir de um elemento dado, tais como as palavras ou questões postas pelo entrevistador, quer de forma espontânea pelo entrevistado. Esse modo de conduzir a pesquisa permite um transcurso diferente da programação inicial, podendo ser seguida uma ordem de questões diversa daquela imaginada pelo entrevistador. Além de permitir o surgimento de tópicos novos que poderão ser verbalizados pelo informante, considerado de grande valor no conjunto do estudo (Turato, 2010). Com esse modo de manejar a condução do diálogo o informante pode não responder linearmente as perguntas que lhe são feitas. No contexto da entrevista, a pergunta representa apenas um dos elementos de sentido sobre os quais se constitui sua expressão. O potencial de uma pergunta não termina em seus limites, mas se desenvolve durante os diálogos que se sucedem no decorrer da própria entrevista, advindos da qualidade de comunicação entre pesquisador e informante (Gonzalvez, 2002). Nesse sentido os processos interativos-construtivos de comunicação que se constituem dinamicamente no curso da entrevista devem ser o centro de atenção dos pesquisadores e não os instrumentos usados. Desta forma “a informação que aparece nos momentos informais da pesquisa é tão legítima como a procedente dos instrumentos usados”(Gonzalvez, 2002). De acordo com o referencial metodológico proposto, as observações globais, sentimentos e especulações do pesquisador foram registrados em diário de campo. Esses registros complementaram as narrativas e contribuíram na análise e na elucidação das questões investigadas. Análise de dados Para a análise das entrevistas, foi seguida a seguinte seqüência de passos: pré-análise; categorização e subcategorização do material; revisão externa pelos pares; apresentação dos resultados. No primeiro passo foram feitas intensas "leituras e releituras flutuantes" do material, num contato exaustivo com os dados. A imersão nos discursos dos sujeitos entrevistados foi realizada de forma a ocorrer uma "impregnação" por seu conteúdo e a busca pelo não dito e pelas significações latentes e dissimuladas (Turato, 2010). A expressão leituras “flutuantes” é utilizada no método proposto em analogia ao conceito psicanalítico de atenção flutuante, ou seja, ao modo psicanalítico de escutar. Turato (2010) salienta que a leitura do material obtido na pesquisa não deve ficar apenas no explicitado. Deve ser capaz de desvelar “mensagens implícitas, dimensões contraditórias e temas silenciados”.


Na categorização e subcategorização do material foram destacados os assuntos por relevância e/ou por repetição e eventuais reagrupamentos. Desta maneira os dados brutos passaram a ser organizados e lapidados. A revisão externa foi realizada nas supervisões com o orientador, em encontros com uma pesquisadora sênior e em apresentações dos dados organizados para os pares do grupo de pesquisadores do Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa/Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. A apresentação dos resultados ocorreu, inicialmente, de forma descritiva e com citações ilustrativas das falas. Posteriormente, a interpretação do material levou à discussão dos resultados, quando se procurou manter a perspectiva êmica, isto é, gerar novos conhecimentos a partir do material analisado (Turato, 2010). Os núcleos de sentido que foram identificados a partir da análise dos dados, organizados em categorias. Três categorias são apresentadas neste artigo para discussão e interpretação dos significados atribuídos à alimentação, à luz dos referenciais da psicologia da saúde de base psicanalítica, complementados com produções teóricas da antropologia da alimentação na vertente sociocultural. A confluência desses dois campos teóricos distintos exigiu um esforço para identificar o território comum entre eles, buscando complementaridade. Procuramos evitar, ao máximo possível, as sobreposições e reducionismos das abordagens teóricas nas discussões. Foram selecionadas falas significativas dos sujeitos, extraídas do conjunto dos dados analisados, a partir da avaliação do seu potencial ilustrativo, para expressar os nexos de sentido eleitos para a discussão. As categorias de análise foram nomeadas da seguinte maneira: Significados da dieta; Conquistas no manejo do tratamento; Autonomia versus prescrição.

Resultados e discussão Significados da dieta Dentre as dificuldades para estabelecer mudanças no comportamento alimentar, a perda da liberdade de comer foi interpretada como um dos núcleos de sentido nas vivências relatadas pelos sujeitos deste estudo. O lamento em relação à perda da liberdade de comer e de desfrutar do prazer de consumir alimentos identificados como proibidos se associou às dificuldades em seguir as prescrições dietéticas: Você acostuma[....] não comer aquilo, aquele outro[...] tem que cortar tudo[...] eu fico mais triste é que eu não consigo perder o peso. Mesmo fazendo a dieta (♀, 37anos, 13anos de tratamento, Obesidade III). Eu praticamente vivo pela água que eu tomo[...] gostava de ler receita, de experimentar. Agora perdi o gosto (♀, 48anos, 2 anos de tratamento, Obesidade III).


No começo eu senti bastante dificuldade [...] eu gostava de comer[...]doce [...] Comer é muito bom! Mas depois com o tempo eu fui vendo que eu não podia (♀, 63anos, 10 anos de tratamento, Sobrepeso).

Não se sentindo livres para desfrutar do prazer de comer, os sujeitos relatam atitudes de isolamento para comer algo que é proibido. Situações que são relatadas deixam transparecer sentimentos de tristeza e culpa pelo descumprimento das regras dietéticas. O exame já me deixou triste[...] (silêncio e cabeça baixa) daí eu vou pro fim da lanchonete[...] Comi dois salgados, tomei refrigerante[...] Eu fico muito nervosa. Porque melhora uma coisa, piora outra[...] eu não emagreci! ( ♀, 49anos, 11 anos de tratamento, Obesidade III).

Significados de perda do prazer e da liberdade, atribuídos à dieta, são frequentemente relatados em especial quando se trata de alimentos doces, identificados como os mais atraentes. Ao adquirirem o sentido de proibição e cerceamento de uma fonte de prazer podem transformar-se em atração. Atração de comer como uma transgressão para obter o prazer que lhe foi proibido (‘o gosto do doce proibido’) e o efeito paradoxal da prescrição dietética (Peres et al., 2006). Em sentido oposto, identificamos a percepção da dieta como uma necessidade de ressignificar a alimentação. No entanto, essa manifestação apresenta-se com uma dinamicidade que acompanhada o ritmo cotidiano da alimentação. Em outros estudos foi identificado que o manejo e a transformações da culinária e da forma de se relacionar com a comida são processuais, com dinâmicas próprias e variações conforme origem étnica, contexto social e cultural e experiências individuais na convivência com a doença (Meetoo, 2004; Condon e Carthy, 2006). O manejo das prescrições dietéticas e a convivência com a cronicidade levam os sujeitos a se engajarem em ciclos de decisões dinâmicos, equilíbrios potenciais. Trata-se, portanto, de um processo contínuo de avaliação do risco e dos benefícios, de acordo com as expectativas pessoais (Condon e Carthy, 2006; Frich et al., 2007). Os significados e as dificuldades no manejo das dietas são reveladores de uma racionalidade biomédia-nutricional. Uma racionalidade que pode significar um obstáculo a mais para ressignificar a comida e a cozinha. Na busca por compreender o significado de perda de liberdade e prazer de comer atribuídos à dieta para além do contexto da saúde se amplia com as contribuições no âmbito da antropologia. Trata-se de um debate que pode contribuir para compreender a singularidade do setor saúde e da alimentação de adoecidos crônicos. No referido campo de estudos antropológicos, a liberdade de comer conferida pela sociedade de consumo e a abundância de alimentos, características desse contexto, marcam o atual modelo alimentar. Entre outros efeitos, a abundância de produtos promove a busca constante e imediata do prazer. E os limites fisiológicos nem sempre são levados em conta nessa busca imediata do prazer manifestada nas práticas alimentares.


Em outras palavras, é como se o homem tivesse modificado o princípio de realidade biológica, ao longo da historia da humanidade, dificultando a percepção dos sinais de saciedade (Fischler,1995, p.359). Ou seja, trata-se de um modelo de sociedade que contribui para uma desordem no sistema biológico do homem contemporâneo, uma desordem que ocorre para modificar a relação do homem com a sua comida (Fischler, 1995). Em nossas sociedades de consumo, a relação do homem com a alimentação encontra-se influenciada pela proliferação de sinais externos que interpelam sem cessar o nosso apetite. Apelos publicitários constantes interferem de tal maneira na nossa subjetividade que os sinais internos de saciedade e de limite no consumo de alimentos são pouco percebidos (Fischler, 1995; Contreras, 2003). Com o processo de industrialização e urbanização das sociedades atuais ocorreu uma relativa acessibilidade alimentar. Esse processo, porém, não trouxe tudo o que se esperava para a saúde. A garantia de melhor acesso à alimentação vem acompanhada pelo temor e preocupação com a moderação, variedade e equilíbrio. Somos constantemente alertados pela mídia, em nome das autoridades sanitárias, a estarmos sempre atentos aos perigos e inimigos da saúde presentes em nossa alimentação, tais como a contaminação, as gorduras, o açúcar, os alimentos geneticamente modificados, entre outros obstáculos que cerceiam a liberdade de comer, com prazer e abundância, os alimentos apresentados pela mesma mídia de forma tão sedutora (Gracia, 2008). Para Gracia (2008), encontramo-nos em um triângulo paradoxal – hedonismo, saúde e estética - de difícil resolução diante da necessidade diária de comer e selecionar alimentos. Diante dessas mudanças nas práticas alimentares, novas dinâmicas vem sendo identificadas nos estudos sobre o tema. Turmo (2002) ressalta que os grupos (tribos) de comedores individuais prevalecem entre os jovens, identificados com o estilo de comportamento alimentar, em que prevalece o comer em qualquer lugar, a qualquer hora, de qualquer maneira, sem se importar com o que se come (Turmo, 2002). Estamos diante de um estilo de comportamento alimentar que vem sendo conhecido como vagabond feeding·. Essa forma de se alimentar, estabelecida nas ruas, mais do que na família, marca a identidade do jovem (Turmo, 2002). Em contrapartida, outros grupos se diferenciam, por meio da sua relação com a comida, ao integrar, por exemplo, o movimento slow-food, congregando-se em eventos gastronômicos, festas típicas ou adotando modelos alimentares vegetarianos, macrobióticos, entre outras maneiras de diferenciação por meio do estilo de comer. Fischler (1995) já questionava, em meados dos anos 1990, o rumo dessas manifestações: “...como saber se as novas tendências poderão chegar a reconciliar o bom com o são, a arte culinária e a nutrição? O prazer e a necessidade?” (Fischler, 1995). Diante dessa reflexão, identificamos que a elaboração das propostas de mudanças nas práticas alimentares, transformadas em dietas para pessoas em situação de adoecimento crônico por Síndrome Metabólica demanda uma compreensão de seus aspectos subjetivos e sua vinculação com a determinação sociocultural. Exige dos profissionais a escuta desses aspectos que os sujeitos em situação cuidado tem a nos revelar.


Conquistas no manejo do tratamento: autonomia versus prescrição A capacidade de estabelecer adaptações nas práticas alimentares pode ser uma fonte de alegria e elevada autoestima. A diminuição do uso de medicação e o controle dos sintomas encontram-se vinculados ao manejo positivo do comportamento alimentar e a uma postura ativa para operar adaptações no cotidiano. Revelam ainda a capacidade de buscar mecanismos de autoconhecimento e de autocuidado. Tenho bom aproveitamento do tratamento[...] Faço caminhada[...] minha alimentação eu procuro balancear[...]Me cuido bem[...] gosto muito de viver. Estou com 62 anos e quero chegar a mais (♀, 63anos, 10 anos de tratamento, Sobrepeso)

Quando os sujeitos não ficam presos às prescrições e restrições, a alimentação pode ganhar novos significados. A admiração pelo modo de preparar os alimentos por parte de amigos e familiares, permeada pelo diálogo e pela afetividade, são formas de ressignificar regras dietéticas e transformá-las em práticas alimentares capazes de conciliar as demandas do processo de cuidado com o conjunto de outras demandas subjetivas, demandas de seu cotidiano, do contexto social e cultural. As pessoas [...] gostam do jeito que preparo a minha alimentação [...] gosto muito de cozinhar[...] tenho o prazer de fazer[...] feijoada [...] mais light[...] Vou ao churrasco com a turma [...] levo a minha bebida [...] O natal passo na casa de minha mãe [...] família grande[...] combina os pratos que vai fazer (♀, 63anos, 10 anos de tratamento, Sobrepeso).

A prescrição dietética também pode ser vivenciada como uma oportunidade de desenvolverse por meio da arte culinária, mediada pelo afeto e pelo desejo de ativar o potencial de adaptação às limitações impostas pelos distúrbios crônicos. Observou-se neste estudo que o apoio e a admiração de amigos e familiares no convívio social, engendrados pela comensalidade, foram promotores da potencialidade de autocuidado. O sentimento de orgulho de saber cozinhar e a valorização pessoal vinculado ao saber culinário demonstram o potencial da comensalidade como prática cotidiana. A regra dietética externa pode passar a fazer parte da pessoa, a partir de um processo de reflexão. A identificação das necessidades da pessoa em situação de cuidado nutricional não é exclusivamente de ordem nutricional. A importância que a alimentação ocupa em nossas vidas e na sociedade se identifica na individualidade desse fenômeno, mas também no seu aspecto de coletividade, ou seja, da comensalidade. Millán (2002) afirma que se trata ao mesmo tempo de uma necessidade individual, intransferível, que não pode ser retardada por muito tempo, que cada um tem de alimentarse, mas que ao mesmo tempo sempre implica o coletivo, nas diferentes etapas e como distintos agentes dos sistemas alimentares em que nos inserimos (Millán, 2002). Ao considerar que a pessoa pode desenvolver-se por meio da relação com os alimentos, com a culinária e com a comensalidade pudemos inferir que é possível conciliar as demandas externas com as necessidades nutricionais e de manejo do comportamento alimentar no


processo de adoecimento crônico. Esse processo foi observado entre os sujeitos que conseguiram dar novos significados ao prazer de comer e preparar os alimentos, incorporando as propostas de mudanças no comportamento alimentar, inserido num processo de reflexão mais profundo da própria maneira de vivenciar o adoecimento. As dietas excessivamente centradas nas necessidades nutricionais individuais podem reforçar a perda do sentimento de pertencimento por meio da comensalidade. Comer e beber juntos são acordos implícitos de renunciar uma parte para compartilhar os alimentos com o outro, afirmando o coletivo, os aspectos culturais e afetivos que a comida e comensalidade são capazes de expressar (Millán, 2002).

Conclusão No âmbito do cuidado nutricional, as vivências relacionadas com a perda de liberdade de comer exigem uma escuta cuidadosa. Os profissionais ocupados com essa prática clínica precisam desenvolver olhar mais amplo e atualizado dos problemas e dilemas alimentares, que não se restringem ao processo de adoecimento crônico. No processo de cuidado nutricional, são relevantes os aspectos emocionais do indivíduo assim como assim os aspectos socioculturais das práticas alimentares tanto de sua família quanto de outros contextos sociais. As relações intrafamiliares que se estabelecem em torno da “mesa”, as relações mediadas pelos alimentos e um melhor entendimento de quem é o indivíduo, como ele se relaciona consigo e com os alimentos, podem fornecer elementos importantes para compreender os mecanismos psicodinâmicos e socioculturais para ressignificar a comida e contribuir para melhorar o manejo no campo da alimentação. A análise dos relatos de adoecidos crônicos por Síndrome Metabólica nos indica que para melhorar a adesão às dietas propostas no tratamento é necessário apoiar os pacientes no sentido de identificar a alimentação como um elemento protetor. Trata-se de um processo voltado para a compreensão dos inúmeros significados que a comida representa, com potencialidade de atender as necessidades biológicas, afetivas e culturais, de busca pela identidade alimentar e comensalidade, num contexto contemporâneo de apelos exacerbados ao consumo.

Referências

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