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Pedagogia da Performance: arte / educação e pensamento contemporâneo Ricardo Barreto BIRIBA Doutorado em Artes Cênicas Universidade Federal da Bahia Programa de Pós Graduação em Artes Visuais / Escola de Belas Artes Université Paris 8 França Estágio Pós doutoral Biribabahia@gmail.com Resumo Discute práticas educativas em artes a partir do estudo da performance dos corpos políticos, urbanos, individuais e coletivos, da imagem dos lugares, do encontro multicultural e das relações sócio-políticas na cena contemporânea parisiense. Investiga as manifestações do corpo como escultura de comportamento. Chama atenção para diversidade de formas e corpos em movimento que transitam nos lugares de ninguém - lugares de todos - lugares públicos - lugares de aprendizado e convivência, lugares de “relações mudas” e “corpos presentes”. Aborda arte / educação integrada à “escultura social” e seus desdobramentos na formação do artista contemporâneo e do professor de arte. Transita pela antropologia, sociologia, estética, estudos da performance, arte das imagens e educação. Propõe uma pedagogia da performance a partir da escultura de comportamento e arte de ação. Este estudo é parte integrante do estágio pós-doutoral em desenvolvimento no núcleo de estudos “Arts des images & art contemporain”, Université Paris 8, sob a supervisão do Professor Dr. François Soulages. Palavras-chave: performance, educação, arte contemporânea.

Abstract Discusses educational practices in arts from the perspective of the study of performance of political, urban, individual and collective bodies, the image of places, the multicultural encounter and from the socio-political relationships in the contemporary Parisian scene. Investigates the manifestations of the body as sculpture of behavior. Draws attention to the diversity of shapes and moving bodies that pass through "no-one's place" - everyone's spaces - public places - places of learning and leaving together, places of "silent relationships" and "present bodies". Approaches art / education integrated to the "social sculpture" and its implications when it comes to the the shaping of the contemporary artist and art teacher. Navigates through anthropology, sociology, aesthetics, the study of performance, art imagery and education. Proposes a pedagogy of performance from the sculpture of behavior and the art of action. This study is part of the post-doctoral internship training under development at the study group "Art des images & art contemporain," Université Paris 8, under the guidance and supervision of Professor Dr. François Soulages. Keywords: performance, education, contemporary art.


A

s práticas educativas em artes, em alguns setores, nestes últimos anos vêm adotando abordagens pedagógicas interdisciplinares para poder atender as demandas do mundo contemporâneo em acelerado processo de transformação. As obras de arte hoje, em sua grande maioria são desenvolvidas através de recursos multimídias e estão tomando um rumo diferenciado que contrapõe o universo estético e as teorias da arte que se sustentam durante décadas no consciente humano. Rever estes conceitos e perceber que as linguagens artísticas contemporâneas não somente adaptaram, mudaram ou mesmo substituíram seus instrumentos técnicos, suportes e suas relações com o público, mas, sobretudo, transgrediram paradigmas, conceitos e teorias. Isso requer uma atenção cuidadosa frente ao ensino da arte e sobretudo na formação de professores que ainda adotam somente métodos pautados em pressupostos formalistas e tecnicistas. Entendendo arte contemporânea como intervenção problematizadora de questões humanas, as relações que esta estabelece com o seu público, em modos gerais, rediscutem as condições formais e estéticas referentes à contemplação e admiração da obra de arte assistida até o modernismo. Discutir a formação de artistas e educadores e chamar atenção aos aspectos do pensamento contemporâneo nas artes tornaram-se quase uma obrigação para professores e artista em formação. Para isso, é preciso desenvolver questões tais como: O que a arte hoje se propõe? Que caminhos seguir para vencer o medo do contemporâneo? Porque estimular sentidos necessários para a convivência com o diferente e o estranho? Como potencializar a formação do olhar em um mundo construído por imagens instantâneas e efêmeras? Qual o poder que os professores de giz e apagador têm para enfrentar o espetáculo hiper-real da TV e da WEB? Assim, a educação em artes tem a obrigação no mínimo de aproximar as relações entre estudo de arte dentro das academias, universidades e escolas integrado à pesquisa social. É preciso refletir a orientação da arte e seu construto conceitual e formal a partir da “escultura social”, já anunciada por Joseph Beuys desde os anos 70, se é que os objetivos são integrar educação / arte / sociedade / pensamento contemporâneo. Contudo, deve-se entender as necessidades e obrigações expostas aqui como questionamentos, opções ou possibilidades. Segundo Gallwitz1: A escultura social é o resultado da atividade de um escultor incansável que aceita qualquer tipo de material e trabalha utilizando toda sorte de instrumentos e as mais variadas técnicas. Mas suas esculturas, assim como as suas actions, suas manifestações, suas teorias, seu engajamento político, enfim, tudo aquilo que a sua moral artística impunha como tarefa diária, também faz parte dessa escultura social.

Nessa condição, os corpos performáticos são legitimados por suas práticas e suas ações e, enquanto corpos sociais, tornam-se instrumentos de exercício do seu próprio poder.

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GALLWITZ. 1992, P.12


São essas ações que por acaso criam um intenso laboratório político de experimentações estéticas do corpus artístico, o qual se pretende trabalhar. A imagem, os lugares e as ligações entre o sujeito e o corpo coletivo que compõem a paisagem das ruas, as interfaces culturais que o distingue e o une, o encontro multicultural e as relações sócio-políticas. Estes elementos são a base para refletir a escultura social e pensar a arte de ação e a intervenção performativa dentro dos processos de educação, especificamente, na formação de artistas e de professores de arte. Preencher as lacunas que separam a vida da arte é uma das características da performance artística, e sobretudo, do pensamento contemporâneo nas artes e, por suposto, uma forma de estabelecer uma ligação entre educação artística e escultura social, o que, neste ponto de vista implica a busca de uma pedagogia da performance. Nesse contexto, ou bem dizer, o olhar sobre os corpos transeuntes da “cena francesa” da eclética Paris, vistos como manifestações de corpos em estados performáticos, comportamentais e reveladores de identidades, emoções, sentimentos e intelecto, tornouse o laboratório de análises fundamentais destes estudos para a arte / educação, porque mostra as relações entre as diferenças culturais responsáveis da cena contemporânea: os grupos, as tribos urbanas apartadas de negros, judeus, àrabes, mulçumanos, chineses, japoneses, coreanos, etc. e franceses, longe de uma pretenciosa mestiçagem. Uma Paris mexida por dentro, invertida em seus valores. Ainda que estejamos vivenciando uma ambiência construída a partir do conjunto Interétnico, composto de imagens, movimentos e ações de corpos que se “encontram”, se “olham” e se “relacionam”, em lugares que chamamos de “espaços de ninguém”, que de certa maneira são lugares de todos. Estes lugares públicos passaram a conviver constantemente com interrogações diversas, aproximando o “estado de lugar”, a “escultura social”, o seu encanto e desencanto, a estética comportamental as “relações mudas” e os “corpos políticos fragmentados”. A partir do olhar observador e ao mesmo tempo participante, vivenciar e apreender as relações sociais do mundo “in-comum” destes estados performáticos, traz reflexões significativas sobre os estudos da pedagogia da performance, base essencial das ações educativas e da criação artística aqui predendidas. É dizer: perceber a rua e o universo social como campos de aprendizado integral, sistematizados que orientem o aprendizado na academia e na escola, na convivência com o outro, nas aproximações e divergências metodológicas e nas abordagens didáticas. Mas, o que da arte e o que da rua influenciam ou tornaram-se objetos de questionamentos educacionais do mundo contemporâneo? Num eterno vai e vem, a arte esmaga a rua e a rua não para de se servir da arte, ao mesmo tempo criativa e mimética, inventiva e oportunista, as trocas entre a arte e a rua, entre o desfile dos transeuntes e as manifestações artísticas que nela acontecem, podem interferir na desconstrução de paradigmas positivistas e questionam a condição humana. “No lugar da


arte no cotidiano, desejada pelos movimentos dos anos 60 e 70, o cotidiano introduzido na arte”.2 A simples transformação do “autor de obras em operador de relações” 3. É a partir da rua e da arte da rua que se observa de um lado, os performadores que levam a vida mostrando suas habilidades musicais, corporais, vocais, plásticas e mendigais para sustentar não somente a vida o frio e a fome, mas de matar a fome da arte; de um outro lado se percebe os estados performáticos dos transeuntes comuns metidos em casacos pretos, centrados em jornais gratuitos ou em romances de bolso, quando não fechados em seus aparelhos multimídias. De modo comum, o conjunto humano circulante nesse ambiente parisiense ainda é bombardeado de informações publicitárias, imagens, sons e odores onde, apressados correm, empurram, passam desculpam-se. Estados performáticos estes, reveladores de comportamentos individuais transitórios, mutantes e pleno de surpresas.

Figura 1. Mendigos nas proximidades da Catedral de Notre Dame de Paris

Fonte: fografia Ricardo Biriba, arquivo pessoal do autor. 2011, Paris

As manifestações performáticas organizadas, os estados performáticos espontâneos e à parte, estabelecendo um paralelo, a performance como linguagem artística contemporânea permiti questionamentos importantes sobre o comportamento humano modelador da escultura social onde são produzidas a imagem do cenário humano. São nestes espaços em especial, ou seja nas ruas, no metrô, que a enganosa neutralidade humana e/ou as identificações culturais se mostram e se escondem. Como são evidências sensíveis manifestadas no corpo, elas anunciam ou definem muitas vezes em seu percurso, os limites e os sentidos do social. Marc Augé em seu clássico Livro: “Un Ethnologue Dans le Métro4, (pg.117, 1986) diz: “A imagem do metrô parisiense sempre foi associado por mim ao caráter inelutável e irreversível do percurso humano individual”.

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Szaniecki. 2010, p.76 Szaniecki. 2010, p.77 4 AUGÉ. 1986, P.117 3


Nesse sentido, os caráteres das várias qualidades das performances organizadas nesse estágio, cito: grupos de jovens de Street Dance que se apresentam na Av. Champ Elysée; músicos, pedintes, pick-pockets; performers de um modo geral, na sua maioria nos corredores e dentro dos trens do metrô, se manifestam como formas de entretenimento, que por vezes quebram os momentos constantes de monotonia coletiva, contraditoriamente, da frenesi dos corpos urbanos, como desviam os percursos rígidos, programados no tempo e espaço do grande fluxo humano. Mais precisamente, enquanto que a moda contemporânea das artes na rua pressupõe a instauração da arte como atividade separada e consciente de sua separação, a arte da rua mesmo, designa uma variedade de espetáculos, apreende com isso, em suas atividades abundantes os ornamentos quotidianos, mas intervêm excepcionalmente nestes espaços. (tradução nossa francês/português)5.

Os espetáculos de rua como espetáculos livres, comumente referem-se ao conteúdo da rua (o seu ambiente, em outros termos o espaço arquitetural, o jogo complexo de configurações combinadas ou entrelaçadas, disciplinadas ou flexíveis e por vezes utópicas, os cheios e os vazios urbanos) se debruçam em numerosos discursos (criações artísticas?), adequando-os ao acontecimento no momento exato. “A arte pública nasce frequentemente de uma certa adequação entre tomadas de decisões e destinos que deve tomar, entre o objeto, seu contexto e sua função.” 6 O que da arte e o que da rua pode influenciar o outro?

Figura 2. Apresentação de Street Dance Av. Champs Elysées

Fonte: fotografia: Ricardo Biriba, arquivo pessoal. 2011, Paris

O primeiro lugar da arte é o corpo, o segundo é o mundo e a rua é uma modalidade dos dois. A cidade e a rua enquanto estabelecimentos humanos podem ser olhadas como performances em constante transformação? A rua parece propor uma reflexão sobre o estatuto do efêmero e do transitório: seja como agente catalizador de relações humanas; seja como formas de trocas e de ligações com a 5 6

TORTOSA 1994, P.104 TORTOSA 1998, P.102


esfera social que ela produz. A rua, ou mesmo, a gente da rua produz suas próprias alternativas e estratégias políticas intervencionistas nesse mundo público particular. As possibilidades de ensino da arte, a partir da convivência com a diversidade, neste caso, a partir do olhar observador aos corpos transeuntes das ruas de Paris, pode suscitar questionamentos importantes para pensar a sociedade e seus meios comuns, como também para pensar arte que dialogue com o sistema operante do “corpus social”. É nesse enfoque que o estudo da performance, das manifestações culturais performativas destes “corpos políticos”, integrados e dispersos na multidão vem construindo seu pensamento pedagógico. Entendendo performance como ações que emanam do corpo, os estudos da performance a partir da vivência nos espaços da rua e encaminhados como possibilidades arte educativas são fundamentalmente necessários principalmente quando voltados para o ensino das artes visuais. Isso porque, as expressões gráficas e tridimensionais ou seja, desenho pintura e escultura são linguagens onde o artista está separado corporalmente da obra quando esta é exposta ao público. Trabalhar o ensino da arte na academia a partir desse pressuposto é ao mesmo tempo desenvolver uma forma ampliada de arte com potência performativa e trabalhar um novo espaço relacional e comunicacional junto ao educando, estimulando-o a pensar pelo viés da performance, que busca uma contra-estética ou seja, uma estética crítica, para chegar à arte das idéias, à modelagem do pensamento, descentrada dos dogmas e cânones das belas artes. Já dizia Joseph Beuys7: “pensar é esculpir”, “eu sou a arte e o artista a uma só vez”, “a natureza da minha escultura não é imutável e definitiva”, “tudo está em estado de mudança". Pautados nesse pensamento, o que se pretende são processos de desmaterialização da arte e, para isso entramos na esfera do sensível, dos sentidos e do pensar a ação em “uma quarta dimensão da escultura: aquela na qual as atitudes ganham forma, e os comportamentos conteúdos”8 – desenvolvimento do pensamento e ação, produção de conhecimento e diálogo social construtivo e político. Perceber essas ideias como parcelas do pensamento contemporâneo, é ainda enfrentar um campo minado de resistência, formado pelos filhos fiéis do pensamento modernista. Sem querer me estender na discursão do que vem a ser arte contemporânea, o que não é o propósito dessa discussão, ela, a assombrosa arte contemporânea, que ainda mete medo aos desavisados abre um campo vasto de conceitos e de liberdade criativa, e se situou na fronteira dos territórios paradigmáticos que tentam fechar definições controladas por princípios formais. Resumindo não é preciso somente saber mas, ter consciência que: Após os anos 70 e principalmente nos 80, a arte percorreu uma trajetória de re-orientação estética e sócio-cultural. Além do desenho, pintura, escultura, fotografia e da instalação, a arte apropriou-se dos meios tecnológicos e digitais. Com isso, tempo e espaço no universo da 7

Beuys, Joseph. In BORER, Alain. Beuys. São Paulo : Cosac e Naify, 2001. Pg. 27 MACIEL, Pedro. http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:_4svKOs1pzsJ:www.stormmagazine.com/novodb/arqmais.php%3Fid%3D630%26sec%3D%26secn+&cd=2&hl=fr&ct=clnk&source=encrypt ed.google.com acessado em 05 de abril de 2011. 8


arte têm sido constantemente re-dimensionados. Os modelos artísticos da modernidade expandiram seus territórios e conceitos, o que influiu decisivamente para mudanças significativas na cultura em geral e no pensamento artístico. 9

Nesse sentido a performance como linguagem artística interdisciplnar onde, o corpo é instrumento, sujeito e objeto da criação tornou-se na prática docente uma ferramenta pedagógica fundamental para discutir, o papel da arte hoje e a função da universidade pública de arte. O estudo da performance na Escola de Belas Artes, tem levado estudantes à um tipo de aprendizado além da sua formação técnica, conceitual e profissional. Do autoconhecimento, a auto crítica e o senso crítico e estético para as questões do eu corpo social, do eu corpo político e do eu artista mas, o mais importante são as maneiras de relacionamento e convivência dos corpos em seus estados performáticos próprios, o se perceber no outro e perceber o outro em você. Como dizia Wolf Vostel: “Desconhecemos mais a nós mesmos que nos conhecemos”.10 Para aprofundar o estudo da performance e estabelecer desdobramentos para o ensino da arte, considerando que o mundo atual requer formas de educação que comtemple as relações sociais entre as diferenças, recorrer a grandes centros imigratórios, se faz muitas vezes necessário perceber e conviver com os processos relacionais e humanos para pensar a sociedade e o papel do educador na formação de cidadãos. Paris, por ser um dos grandes centros imigratórios de diferentes e grandes grupos humanos, onde estes se deparam não somente com o “raro” parisiense nato, mas, encontram um panorama segregacionado de culturas das mais diversas origens. De acordo Laetitia Devel11, Pode-se dizer que: “A cidade engendra uma certa estética reflexiva do corpo, reveladora de sua dupla existência: simultaneamente fisiológica e imagem. No espaço urbano ao mesmo tempo que eu vejo meu corpo em sua carne eu o vejo como imagem, e mais ainda, ao mesmo tempo que eu o vivo em minha carne eu o vivo como imagem”.

São corpos em “dupla existência”: matéria e imagem. O quê, se configura como corpo político porque “a organização da cidade é política”12. A corporeidade dos diversos grupos que de certa forma carregam em si marcas culturais, valores estéticos, e comportamentos que o identificam e o destacam na cena urbana, enfrentam o dilemma entre a manutenção das suas culturas e dos seus valores, como vivem o irresistível e atraente encantamento da sociedade que os acolhe, o que são incorporados aos seus valores originais. São detalhes percebíveis principalmente na imagem dos trajes do “corpo que se projeta e se reflete”13 .

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CARVALHO. http://carvalho.multiply.com/calendar/item/10005, acessado em 07 de abril 2011 (apontamentos de classe, por Bartolomé Ferrando em outubro de 2004, Escola de Belas Artes da Universidade Politécnica de Valencia, ES). 11 DEVEL, 2006 P. 62 12 SOULAGES, 2008. P.257 13 Laetitia Level, pg 162, 2006 10


Figura 3. Performance em frente a Église de Sacré Couer / performance no Cartier Latin

Fonte: fotografia: Ricardo Biriba, arquivo pessoal. 2011, Paris

Apesar disso, os grupos migrados, pouco se relacionam com o francês nato, ou melhor, podemos perceber que uma grande parcela do francês parisiense é um indivíduo centrado muito em si e de difícil comunicação, vive em seu mundo pessoal e particular e pouco ou quase nunca estabelecem relações pessoais. Esta realidade se transformou em uma das preocupações do Ministère des Affaires Sociales, que em pesquisa publicada no jornal “20 Minutes” (2011), (não me recordo a data), que é distribuido gratuitamente mas estações de metrô de Paris diz que quarto milhões de franceces estabelecem uma a duas relações pessoais durante o ano e que uma grande maioria vive em eterna solidão. Isso vem aquecendo consideravelmente a procura por agências e CHATS em WEB que vendem encontros programados e personalizados para os solitários. Marc Augé em Un Ethenologue dans le Metro diz também que: La solitude: ce serait sans doute le maître mot de la description que pourrai tenter de faire du Phénomène social du metro un observateur extériuer. Le paradoxe um peu provocateur de cette proposition tiendrait simplement à la nécessité où se trouverait assez vite cet observateur de ecrit le mot “solitudes” au pluriel signifiant par cette post-posé le caractère limite du rassemblement imposé par les dimensions des wagons (le contenant) et les horaires de travail qui en déterminent la frequentation (le contenu): um peu trop de monde, et la bousculade – qui pourrait à l’occasion dégénérer en panique – impose le contact, suscite les protestation ou les rires, bref crée un mode de relation, certes aleatoire et fugitive, mais qui manifeste une condition partagée; un peu trop peu de monde, dans le paresse d’un après-midi d’ été ou la fadigue de une nuit d’hiver, et, selon son âge, son sexe et sa disposition du moment, le voyager solitaire peut ressentir l’exaltation qui s’attache au fait d’appréhender un instant dans tuote sa pureté la grandeur de sa condition social (la puissance publique est a son service, les mots reprennent un sens) ou au contraire l’angoisse de voir surgir au bout du coloirdèsert sous la voûte duquel son pas résonne étrangement l’Ennemi, l’Étranger, voleur, violeur, tuer.14 14

AUGÈ, 1986 p.55-56. (tradução nossa). A solidão: isto seria sem dúvida palavra soberana da descrição que poderia tentar fazer o observador extériuer sobre fenómeno social do metrô. O paradoxo um pouco provocador desta proposição, teria simplesmente à necessidade onde encontrar-se-ia muito rapidamente este observador de escrever a palavra “solidões” ao plural, o que significa por este “s” o caráter limite do ajuntamento imposto pelas dimensões dos vagões (o recipiente) e os horários de trabalho determinando a aglomeração (o conteúdo): muita gente, e o empurrão - que poderia à ocasião degenerar-se em pânico - impõe o contacto, suscita o protesto ou risos, resumidamente cria um modo de relação, certamente aleatório e


Pode-se questionar então, algumas formas de relações pessoais perceptíveis, dos estados comportamentais, ou bem dizer, estados performáticos, destes corpos circulantes na cena metropolitana. O que se esconde por detrás da imagem dos estados performáticos destes corpos sociais e políticos da cena contemporânea da eclética Paris? Partindo do princípio que a obra de arte contemporânea é uma intervenção social e defendendo a idéia de ligação da arte-homem-sociedade ou arte-vida, como pressuposto para discutir arte contemporânea, a disciplina etnocenologia (Pradier, 1988) e estudos da performance (Schechner, 1988; Turner, 1988), afirmam que a performance se encontra no limite entre a vida e a própria arte. Uma vez que a arte tem consciência de si mesma ela reconhece o salto entre a realidade e a representação. Como um dos responsáveis pela criação destas possibilidades de investigação, Jean Marie Pradier, conceitua a Etnocenologia mais como uma disciplina, do que um método de pesquisa acabado, diz Pradier15: A etnocenologia estuda as práticas e os comportamentos humanos espetaculares organizados (PCHSO) dos diversos grupos étnicos e comunidades culturais do mundo inteiro. (...) entendendo-se que se trata de uma disciplina em que não é um corpo de saber já constituído e dogmático, mas, bem ao contrário, uma direção dada, um elã em favor de um canteiro de investigações permanentes.

A Etnocenologia designa um certo método de abordagem, que não implica hipóteses a prioi sobre a natureza daquilo que se observa. Do mesmo modo que se pratica comumente a etnologia, a etnocenologia compreende as “análises interiores”, que partem dos critérios próprios à cultura estudada, e de “análises exteriores”, fundadas sobre as noções e os métodos científicos em uso. A partir destes conceitos e estabelecendo uma ponte entre as teorias da performance (Schechner, Turner, Goldberg, Picazzo, Kaprow, Coehn), Renato Coenh,16 analisa o progresso da criação performática: “a performance constrói a sua arte a partir da imagem emocional, de estruturas arquetípicas básicas e de situações que pertencem ao inconsciente coletivo da comunidade”. No campo sociológico, a sociologia compreensiva, discutida por Michel Maffesoli (1988), como uma sociologia “aberta”, apta a integrar saberes especializados num conhecimento plural e no campo antropológico, a antropologia cultural como estudos de natureza social dos processos de contato, difusão, interação e culturalização. Para a qualidade desta abordagem, definir o ponto de confluência destes campos teóricos permiti a compreensão fugidio, mas que manifesta uma condição compartilhada; quando não tão muito cheio, na preguiça de uma tarde de verão ou na fadiga de uma noite de inverno, e, de acordo com a sua idade, o seu sexo e a sua disposição do momento, o viajante solitário pode sentir a exaltação de quem se agarra ao fato em um momento de apreensão en toda sua pureza, a grandeza da sua condição social (o poder público está ao seu serviço, as palavras retomam um sentido) ou pelo contrário a angústia de ver surgir no outro lado do corredor deserto sob a abóbada, o passo do inimigo, o Estrangeiro, ladrão, violador, assassino. 15 Pradier, 1998, p.9 16 (1989, p. 159)


das formas insistentes das mudanças sociais, que estão direta ou indiretamente ligadas à dinâmica própria dos estados performáticos nos espaços públicos. Estes estados fortalecem as dúvidas, ainda por responder, sobre a importância da pesquisa social e antropológica para discutir arte contemporânea e educação. A Antropologia visual se insere nesse aporte teórico quanto à interpretação da imagem da paisagem parisiense, das apresentações das performances e do material documental para este fim, na ótica da Etnocenologia. Nesse contexto, Massimo Canevacci citando Paolo Chiozzi17, “aponta a antropologia visual, por um lado, como interpretação visual de uma certa realidade e, por outro, interpretação dos dados visuais próprios dessa realidade”. As observações in loco do objeto de interesse e a interpretação dos dados visuais, registram uma memória que demonstra como os processos de educação e de criação artística podem criar juntas momentos de convivência importante, como promover estados de prazer, que quebram a monotonia rotineira da solidão impregnada nos indivíduos da sociedade de referência. Segundo Geertz (1978), a Performance cotidiana urbana (estados performáticos naturais) é sobretudo social, um somatório de fluxos alimentados pela convulsão social, são ações em sociedade que alteram tanto aquele que sofre a ação, quanto aquele que a promove. Na realidade, não há uma diferença muito evidente neste caso, entre os lados, eles se confundem e em um somatório geral fazem parte de um todo que é a rua, aqui não há espectadores nem atuantes . Por outro lado, as performances artísticas de rua (performances organizadas), são performance que modelam uma forma de relação entre os mundos dos atuantes e os mundos dos seus espectadores, configurando, portanto, um espaço de interação e linguagem entre um suposto público e o próprio performador. Ainda assim, estes lados diferenciados fazem parte de um contexto comum e um depende do outro para que exista a performance. São, enfim, elementos que agem para os outros se despersonalizarem, tornarem-se larvas, e se deixarem atravessar por todas as multiplicidades dos novos fluxos resultantes deste trânsito de experiência artística. O que a performance de intervenção no espaço público pretende é evitar a redundância das séries, e isto com ações que remetam a outros tipos de séries contaminadas por um fora não-narcísico e não narcisista, não negociável e não corruptível.18

Passando aos estudos da performance como processos de construção de identidade, seja ela pessoal como identificações individuais culturais ou mesmo como afirmação étnica do grupo a qual pertence, o que se percebe na cena estudada é muito mais um embate silencioso delimitado por elementos dissonantes, perturbados por uma “pluralidade incontrolável de agoras”.19 17

(2001, p.175) www.anpap.org.br/2009/pdf/cpa/jorge_luiz_cruz.pdf : acessado em 28 de 02 de 2010 pg 640 18º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Transversalidades nas Artes Visuais – 21 a 26/09/2009 - Salvador, Bahia MÁQUINA-PERFORMANCE Jorge Luiz Cruz/UERJ Leandro José de Mendonça/UFF) 19 CAUQUELIN, 2005, pg. 12 18


Vive-se cada vez mais, momentos instantâneos, curiosos por um diálogo com as linguagens contemporâneas, sobretudo para ver-se atualizados. O contraponto se estabelece num embate com a memória, valores, cultura, crença, costumes que o ser aporta consigo. É importante aqui entender a performance tanto como representação do ser social, como apresentação de si mesmo mas, que se abre com o desejo de estabelecer trocas com o outro. Os estados performáticos de perfil étnico, perceptíveis tanto no espaço público central como nos chamados bairros étnicos de Paris como Barber, San Denis, entre outros, pode-se levantar a seguinte questão: Os estados performáticos são vetores de identidade? Para o desdobramento dessa questão é pertinente fazer também uma leitura das manifestações do corpo do artista de rua – o performer – como escultura de comportamento, reveladora do perfil étnico com identidade pessoal visivelmente definida. Figura 4. Performance Músicos em Montmartre em frente à Église du Sacré Couer : Paris

Fonte: fotografia: Ricardo Biriba, arquivo pessoal. 2011, Paris

Escultura de comportamento, nesse sentido refere-se ao performer que se instaura como “obra de arte” que se manifesta e se corporifica pelo movimento, palavras, sons, gestos e plástica visual. Nesse estado são eliminados o sentido da representação artística que a arte carrega como categoria diferenciada da vida. Ao contrário, a performance é a afirmação do “devir humano”, na acepção Nietzscheriana do "torna-te quem tu és". Como uma linguagem de fronteira, situada entre a arte e a vida mesma, a performance e o performador como a vida e o ser, dia a dia perdem e conquistam algo, se transformam, mesmo quando aos nossos olhos as mudaças ou perenidade não são percebidas. O estado comportamental perceptível na cena estudada pode ser visto como ato lúdico, é a condição de liberdade do performador, pelo livre-arbítrio nas ações e nas suas tomadas de decisões, seja no campo formal ou conceitual é o corpo que fala. Uma mistura de ordem e


anarquia, um comportamento emergente, menos uma narrativa linear e mais uma rede interconectada que se forma no espaço tempo. A performance é, escultura de comportamento cuja potência performativa, sobrepõe-se à sua materialidade que autoriza a criação de um espaço relacional ou comunicacional com a memória e o presente. A performance é também escultura de ideias, uma obra deflagradora de um movimento integrativo, uma materialidade silenciosa, um trabalho sobre si mesmo com superfície aberta, ampla e de fronteiras livres. Uma qualidade efêmera de gestos vitais e simbólicos pensados da imagem social. Tomando como pressuposto que, a educação para o século XXI deve, sobretudo contemplar o estudo da diversidade cultural e possibilitar a convivência com as diferenças de forma concreta. Rever as formas de formação de artistas e de professores de arte requer uma constante transformação nos princípios que orientam a sua práxis. É dizer: aliados à pedagogia da performance a pedagogia da convivência. Acreditamos que a universidade de artes pode desenvolver seus conteúdos com novas perspectivas nos processos de formação dos seus profissionais – artista plástico e arte / educador. Desejamos uma Escola de Artes que trabalhe as novas formas de ensinoaprendizado, pelo ato do pensamento crítico e construtivo e da ação política e social. Sonhamos com uma universidade de artes de fato, com o corpo de professores atualizado que esteja aberto para as mudanças do mundo contemporâneo. E assim, pressupomos um quadro de formandos preparado para intervir na escultura social, desconstruindo préconceitos, possibilitando o encontro com outras verdades, muitas vezes negadas, escondidas, escravizadas, destruídas e banidas. A nosso corpo necessita ser re-descoberto na arte. Portanto, As abordagens sobre a performance de rua e o estudos das cenas nas ruas de Paris e suas possibilidades pedagógicas, evidenciam de forma eficaz que a superação da ênfase sobre a reprodução de parcelas isoladas de conhecimento podem promover e criar outras analogias e estruturas conceituais voltadas para o ensino integrado de arte na universidade. E, todavia responder: Porque abordar os estudos da performance e a pedagogia da convivência como construção metodológica para o aprendizado das artes visuais?

Referências ATELIER LUIZ CARLOS DE CARVALHO (2011) Padrôes aos Pedaços: o pensamento contemporâneo nas artes; disponível em: carvalho.multiply.com/calendar/item/10005, acessado em 07 de abril de 2011. BORER, Alain (2001) Joseph Beuys. São Paulo: Cosac & Naify. CANEVACCI, Massimo (2001) Antropologia da Comunicação Visual. [tradução Alba Olmi]. – Rio de Janeiro: DP&A. CAUQUELIN, Anne (2005) Arte Contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins.


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