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Samba de Roda Transpondo o Tempo Através da Memória Cultural, da Arte e da Educação no Espaço Quilombola Genira de Araújo GÓES Especialista em Planejamento de Ensino CEARC/Kléber Pacheco/Mª Quitéria1 Brasil genira.goes@ig.com.br

Resumo O artigo aborda saberes ancestrais, respaldando-se no discurso do tempo, no que diz respeito a questões culturais dos afro-descendentes da comunidade quilombola de Barra II, Morro do Chapéu, Bahia. Justifica-se por acreditar na necessidade de resgatar a cultura e as tradições de um povo marcado pelas dificuldades e estigmatizado socialmente, mas que muito tem a preservar e a ensinar, principalmente aos seus descendentes e à comunidade em seu entorno. A metodologia consistiu em pesquisa de campo realizada na comunidade, a partir da narrativa de moradores e de visitas às escolas da região, as entrevistas foram realizadas respeitando-se a oralidade e o modo de ser das pessoas. O objetivo foi à valorização das tradições culturais através do samba de roda e da expressão da história na perspectiva de uma educação dialógica como forma de resgate da cidadania. Nas considerações finais, ratifica-se que a educação popular é viável e transformadora; que o encontro com a diversidade pode e deve ser um viés democrático em uma proposta de estudo e resgate do samba de roda como manifestação da cultura popular. Uma cultura que possibilita a inserção de sujeitos em um contexto histórico de reorganização de valores, crenças e tradições. Palavras-chave: Arte, Cultura, Educação Contemporânea, Memória, Mediação Pedagógica.

Abstract The article discusses about ancestral knowledge, supporting themselves in the time discourse, with regard to cultural issues of African-descendants of the quilombola community of Barra II, Morro do Chapéu, Bahia. This study is justified by the need to rescue the culture and traditions of a people marked by difficulties and socially stigmatized, but that has much to preserve and teach, especially to their descendants and the community around it. The methodology consisted of field research conducted in the community, from the narrative of residents and visitors to schools of the region, interviews were conducted with respect to orality and the way of people. The aim was the recovery of cultural traditions through the samba and the expression of history in terms of a dialogical education as a means of promoting citizenship. At the end, it confirms that popular education is feasible 1

CEARC: Colégio Estadual Adroaldo Ribeiro Costa / Colégio Estadual Kléber Pacheco de Oliveira (Salvador) /Escola Municipal Maria Quitéria (Camaçari).


and transforming; that the encounter with diversity can and should be a democratic way in a study proposal and rescue of samba as a manifestation of popular culture. Culture that allows the inclusion of people in a historical context of reorganization of values, beliefs and traditions. Keywords: Art, Culture, Contemporary Education, Memory, Pedagogical Mediation.

Introdução

E

ste artigo aborda a experiência educativa e social do resgate do samba de roda em uma comunidade negra e rural, descendente de povos escravizados, proporcionando sua aproximação com uma escola da região. Para sistematização, foram usados vários tipos de registros como escrita, fotografia, relatos de experiência, entrevistas, vídeos, filmagens. Todos esses elementos fazem permanecer todo o processo pedagógico. A função libertadora desta experiência nos remete a Paulo Freire (1983, p. 61): “Educador e educandos (liderança e massas), co-intencionados à realidade, se encontram numa tarefa em que ambos são sujeitos no ato, não só de desvelá-la e, assim, criticamente conhecê-la, mas também no de recriar este conhecimento. Neste sentido, Maria Olívia Oliveira (2009, p.219) aponta que o caminho educativo implica em tornar os sujeitos conscientes, “reconhecer que somos eternos aprendizes, ter coragem para (des) construir algumas certezas nas quais estamos ancorados”. Dessa forma, pontos importantes norteiam este trabalho, como o encontro com a diversidade que aqui faz ponte entre educação, arte e cultura, sendo a relação dialógica entre elas o principal caminho. A condição de vida da comunidade de Barra II encontra-se abaixo da linha da cidadania. Seus habitantes são oprimidos, sem consciência étnica e histórica ou de cidadania. Segundo Freire (1983, p.54), os oprimidos: “De tanto ouvirem de si mesmos que são incapazes, que não sabem nada, que não podem saber, que são enfermos, indolentes, que não produzem em virtude de tudo isto, terminam por se convencer de sua ‘incapacidade’.” Por inquietar-me com essas questões, comprometi-me com a experiência das pessoas daquele lugar e as suas tradições, fundamentada no dialogar, convencida de que há a possibilidade de desconstruir, transformar, e “recriar” a formação historicamente alienada dos interlocutores. Um olhar mais atento para os fatos histórico, social e educativo levou-me a crer que o samba de roda seria uma temática significativa e passível de ser decodificada e estudada. Inicialmente, foi necessário investigar o tema gerador da realidade dessa comunidade para construir a metodologia: registro da expressão desse povo, sua linguagem e sua forma de construir seu pensamento. O passo seguinte foi a escolha dos canais, dentro de uma multiplicidade, sendo o visual o mais explorado na construção de materiais didáticos – slides, fotografias, DVDs, cartazes, banners, faixas, filmes, textos, entre outros. Além desses recursos, os debates realizados posteriormente também oportunizaram uma codificação auditiva, o que contribuiu para o aprofundamento do estudo.


Um olhar na história A partir de 2005, realizei inúmeras visitas a Morro do Chapéu para estar com uma filha minha que trabalhava nesse município. Neste período, cursava uma especialização2 que contemplava as relações étnico-raciais, e fiquei encantada com o povo do lugar e sua diversidade. Entre idas e vindas, resolvi “aquilombar3”, estabelecendo uma rede de afeto. Mantive contato com alguns moradores da região. Conversei com o Sr. Leôncio, que me colocou a par da vida e de diversas atividades da região. Deleitei-me com a sua boa conversa relatando suas experiências com OVNIs4. Tive a oportunidade de ser benzida pelo Sr. Miné, nativo de Morro do Chapéu, experiente na tradição dos ternos de reis. Pude também perceber, nessa comunidade tão rica, muita magia e singularidade em um povo diversificado e com os seus saberes populares tão peculiares. Certa manhã, Crispina, membro da comunidade de Barra II, conduziu-me a conhecer o seu povo. Percebi-o inserido em um espaço de resistência e liberdade, o que me levou ao interesse por um estudo mais aprofundado sobre algo que me pareceu ter sido ocultado pela história oficial brasileira.

Quilombos e quilombolas A palavra kilombo é originária da língua banto umbundo, que diz respeito a um tipo de instituição sociopolítica militar conhecida na África Central, mais especificamente na área formada pela atual República Democrática do Congo (Zaire) e Angola (Munanga, 1996, p.58).

Os quilombos nos remetem a vários tempos e espaços históricos: à África do século XVII e ao Brasil dos fins do século XVI ao XIX, tempo que durou a escravidão institucionalizada. A partir dos anos de 1950, Abdias Nascimento, Beatriz Nascimento, Edson Carneiro e outros estudiosos da negritude já apresentavam suas ideias sobre o tema, e, por meio dessas vozes quilombolas, descobrem-se, no contexto histórico e contemporâneo, incontáveis espaços de resistência e liberdade dos remanescentes de comunidades rurais e urbanas ou “terras de pretos”, mocambos. Como decorrência desse processo de ressemantização, para o Estado brasileiro, o antigo quilombo foi metaforizado para a categoria “remanescente de quilombo”, que, de uma certa forma, fortaleceu a ideia de grupo e não de indivíduo, ideia esta que é fundamental para ganhar funções políticas no presente, por meio de uma construção jurídica que permite pensar o futuro. (Arruti, 2003, p.144).

Quanto ao modo de vida, os quilombolas convivem em agrupamentos em seus territórios, são pessoas da mesma herança étnica, fortalecidos pela solidariedade, unidos pelo trabalho partilhado. A Lei Federal nº. 11.645/2008, que insere a temática História e Cultura Afro2

Pós-Graduação: História Afro-Brasileira e Africana. Faculdade Cairu/ SSA-BA /2006. Aquilombar: tornar-se quilombola. Ficar no lugar do outro. 4 OVNIs: Objeto Voador Não Identificado. 3


Brasileira e Indígena no currículo oficial da rede de ensino, veio para libertar o pensamento, enquanto a Lei Áurea só libertou os corpos, entregando-os à própria sorte. A emergência dos quilombolas entre os movimentos sociais trava embates diários contra as sequelas da escravidão. Inquietações foram me ocorrendo em relação à forma de resistência da população de raízes africanas. A partir de um olhar mais focalizado, pode-se perceber um espaço rural e negro esquecido da história, mas vislumbrar, ao mesmo tempo, um movimento de resistência e liberdade. Assim é a comunidade de Barra II e as outras comunidades quilombolas circunvizinhas. A partir de tais observações, me vejo diante de um Brasil real ao lado de um Brasil oficial que nega os valores civilizatórios de uma parte do país que luta para se integrar e se tornar visível nesta tão falada globalização. Numa perspectiva educacional, vejo a urgência de políticas públicas para comunidades e povos com essas características. Apesar de saber-se que a oralidade se faz presente milenarmente, vê-se que o mundo midiático acaba apelando para uma insistente modernização dos espaços quilombolas, muitas vezes comprometendo suas raízes. É preciso, no entanto, que se invista em melhoria de vida e em educação de qualidade, sem que o povo perca a sua essência. Deve-se, portanto, resgatar a diferença cultural e vê-la como possibilidade de promover uma educação antirracista e igualitária.

Das ações Sopro dos ancestrais Birago Diop Ouça mais as coisas que os seres. A voz do fogo se ouve, Ouça a voz da água, Escute no vento O arbusto soluçar. É o sopro dos ancestrais...

Na cosmovisão africana, tudo se complementa, não existindo, portanto, afastamento dos elementos universais. Nesse sentido, pode-se falar da criação de vozes quilombolas na busca por melhores condições, dentro de uma política educacional de resgate e de tomada de consciência crítica e organizada, com vistas à libertação: “A libertação *...+ é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce deste parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos.” (Freire, 1989, p.36). O projeto social, histórico e educacional “Quilombola abraça a Escola” foi construído com o objetivo de criar uma aproximação entre a escola, com o saber institucional, e a comunidade, com o saber popular. O movimento do projeto em busca da mudança de atitude em relação à comunidade quilombola pode ser contemplado em alguns aspectos, como nas narrativas feitas pelos membros da comunidade. No campo da educação, identifiquei o entusiasmo e o compromisso dos educadores antes e depois do evento comemorativo ao Dia da Consciência Negra, evento que possibilitou à interação quilombolas-professor-alunos, tendo sido relevante a vivência com uma


comunidade tradicional e seu samba de roda, considerado um patrimônio imaterial da humanidade. Os bens imateriais asseguram a memória de um povo, sua história, sua cultura, e, como habitualmente só se valoriza o que se conhece, deve-se preservar esse patrimônio para as futuras gerações. E constatei que as aulas posteriores foram revestidas de maiores conteúdos, investigações e aproximações, possibilitando um olhar mais atento em relação à fragilidade de um povo que necessita ter seus direitos respeitados, principalmente à cidadania plena, ocupando uma posição na história de Morro do Chapéu e do Brasil. O relato dos quilombolas se aproximou da sedução, pois expôs seu objeto de desejo: a visibilidade e o respeito para a sua comunidade. Foram feitos ainda vários relatos sobre a necessidade de passarem a estudar para se conhecerem mais e também a sua história. O referido projeto atingiu, por transferência, a questão da saúde no comportamento em relação ao uso do álcool, que é muito comum na comunidade quilombola. Sinalizou também a necessidade de mudança de comportamento nas reflexões do grupo nas reuniões periódicas da Associação de Moradores. Através desse projeto surgiu a oportunidade de resgate do samba de roda, que há vinte anos já não era mais visto na região, uma vez que muitos dos seus praticantes, já idosos, haviam morrido. Além disso, a interferência de outros ritmos e danças típicas da modernidade, provavelmente, contribuiu para o desinteresse pela prática do samba de roda, principalmente entre os mais jovens. O caráter transformador iniciou-se com o apelo pedagógico local: transitou-se, ao discutir a temática, por um leque de possibilidades, pois esse movimento pedagógico possibilitou a abordagem de temas tais como estética, religiosidade, culinária, linguagem, musicalidade, agricultura, ervas medicinais e outros. O diálogo e o círculo para contar histórias são comuns entre os povos descendentes de africanos. Os espaços utilizados para ouvir essas narrativas foram à igreja, a escola municipal, as casas dos membros das comunidades e a plantação de marmelo, por ocasião de visitas ao local. Também ficou estabelecido pelos professores que os alunos entrevistassem alguns moradores do povoado como fonte de informação e conhecimento sobre as tradições locais. Por outro lado, os quilombolas estavam em movimento, em busca das lembranças, das letras e dos ritmos dos sambas de roda, dançados pelos seus antepassados, tendo sido os mais velhos muito importantes nessa empreitada. Foram ainda convocadas algumas pessoas que não se encontravam mais na comunidade para auxiliar no renascimento do samba.

O lúdico vislumbrado através do samba de roda da Chapada Após selecionar os sambas de roda e anotar as letras dos sambas que falam de fatos cotidianos, a comunidade passou ao ensaio. A cultura festiva surgiu repleta de palmas ritmadas, que davam uma repaginada no campo. A roda de samba é interessante, na medida em que seus participantes podem dançar no grupo ou se manifestar individualmente no


centro da roda. Os instrumentos se harmonizam, e o toque do pandeiro é fundamental para o sucesso do samba, seguido da viola e do tambor, no interessante show de performance e criatividade. Muitas vezes, os músicos ficam mais em evidência do que as sambadeiras, cada qual dançando a seu modo. Em contrapartida, os estudantes organizavam uma apresentação de dança afrocontemporânea, uma forma de integrar ritmos, letras e coreografias. À medida que foram se apresentando, celebrando o passado em forma de presente, o evento transformou-se num clima festivo e único. E vem a propósito o que diz Dayrell (1996, p.137): “o processo educativo escolar recoloca a cada instante a reprodução do velho e a possibilidade da construção do novo, e nenhum dos lados pode antecipar uma vitória completa e definitiva.” As letras dos sambas de roda de Barra II serviram como intervenção pedagógica na perspectiva de uma educação voltada para a descoberta em forma de resgate, não só de samba como de vida. Senhoras, senhores, jovens e adolescentes fazem parte desse pedaço de cultura, o samba de roda, deixando uma pista, um sinal para as novas gerações da comunidade. Seguem-se algumas letras de samba de roda recolhidas na região:

Cavalo de São Jorge Que mataram de olhado Quando foi no outro dia São Jorge tava montado — Oh meu santo reis Pra onde você vai? — Vou buscar Jesus Que ele é nosso pai. Sai da lagoa marreco Sai da lagoa marreco Deixe o peixe nadar Sai da lagoa marreco Deixe o peixe nadar... Beirão, beirão Beirão, beirão, beirão, Vamos dar mais uma volta Cada qual em seu lugar

Beirão, beirão, beirão. Entra mulher no samba Entra mulher no samba? Oh entra. Entra, por que não entra? Oh entra. Se você for conhecer A selva do sertão, Conheça este caboclo Que tá à disposição


Se sente frio quer uma rede bonita Para balançar no verão Tem farinha, carne assada, Rapadura e requeijão Tem mulher para te servir E outra não. Polícia bateu na porta Polícia bateu na porta A moça mandou entrar Polícia bateu de novo É samba de moça

A Folia de Reis está associada ao samba de roda, sendo um folguedo que acontece em vários territórios populares. Herdada dos portugueses, tendo como objetivo divertir o povo, a Folia de Reis transformou-se, no Brasil, em um ritual religioso, tradição surgida no meio do povo, que canta de porta em porta, anunciando a chegada do menino Deus nascido. É prática muito comum no interior do país, inclusive na Chapada Diamantina, onde podem ser encontrados muitos grupos de reisados, e tem lugar desde o Natal, culminando em seis de janeiro, o Dia de Reis, com paneladas de comidas e muito samba de roda para os adultos, enquanto as crianças brincam de roda durante a festa. A comunidade de Barra II, por ser tradicionalmente católica, antes de iniciar o samba de roda costuma cantar ladainhas. Transcreve-se, a seguir, a letra de um desses cânticos: Benditinho louvado seja Oh menino Deus nascido Na casa dos nove meses Ele foi aparecido O galo crista de serra Por ser muito divertido Foi quem deu o sinal primeiro Que Jesus era nascido. Já saiu as Três Marias Pelo mundo a passear Foram atrás de Jesus Cristo Foram andar com ele em Roma Revestido no altar Cálice de ouro na mão Missa nova, nova missa. Os três reis quando souberam Que era nascido o Messias O primeiro trouxe ouro O segundo trouxe vela E o terceiro trouxe incenso. Vinte e cinco de dezembro Não se deita no colchão Que nasceu o menino Deus Entre as palhinhas e o chão Uma areinha tão fria Onde Jesus assentou No dia primeiro


E no dia seis levantou Levantou no dia seis Pra cumprir uma promessa Convidou todos os devotos Pra o dia da sua festa. Enverdece a laranjeira, A limeira deita flor, Joelha todos os devotos Pra beijar Nosso Senhor. Adeus, Deus menino, Adeus, Deus de amor, Adeus, José, adeus, Maria, Até pra o ano Neste mesmo dia. Que noite feliz, Que noite de rosa É só pra nós A mais venturosa.

São detalhes do evento: vestidos em chitão, camisetas, bonés, tranças, arte; oficinas para fazer pulseiras e colares de palha da costa com búzios e contas; banner anunciando as boasvindas aos visitantes; construção da roda com seis metros de diâmetro para as apresentações; bolas, bandeiras; músicos; convidados; brilho. Trabalho de amor, de vida e de alegria: “Toda arte é silenciosa por dentro, ainda que os sentimentos estejam conturbados, dessa forma a existência genuína se manifesta em cada detalhe.” (Gordilho, 2007, p.54).

Considerações finais A proposta do estudo e do resgate do samba de roda buscou mostrar que a educação popular é viável e transformadora, e que o encontro com a diversidade pode e deve ser um viés democrático que possibilita a inserção de sujeitos em um contexto histórico de reorganização de valores, crenças e tradições. Na comunidade de Barra II, a prática educadora revelou saberes significativos. Através de uma abordagem metodológica, foi possível resgatar e valorizar a cultura de um povo que faz parte da formação do brasileiro e que reconhece e respeita a pluralidade cultural. Uma experiência que se revelou emocionante e que, certamente, será o início de uma construção de saberes. Registrar e sistematizar as informações obtidas foram passos fundamentais para todo o processo, para uma nova percepção do mundo e do quanto é importante a educação. Observou-se, principalmente, que a voz dos ancestrais está viva na memória de Laudelino Barbosa de Oliveira, Vicentino Vieira dos Santos e Manuel do Carmo, alguns dos primeiros habitantes da comunidade, e que a tradição pode estar viva graças à união de todos.


O samba de roda é um fio condutor que poderá levar os habitantes de Barra II a grandes voos, a difundir seus saberes — cultura, história, música e culinária — em outros espaços, como escolas, universidades, centros culturais. Tendo a certeza de que a função da academia, além de educativa, deve ser social, fica a provocação para outros educadores no que diz respeito à verdadeira missão da escola enquanto espaço de saber e democracia, em que deve ser repudiada qualquer atitude de preconceito, de racismo ou de segregação a grupos desprivilegiados. É imprescindível que se promova aos acadêmicos uma formação profissional sem esquecer os vínculos comunitários que formam o patrimônio civilizatório milenar africano.

Referências ARRUTI, José Maurício P. A. (2003) O quilombo conceitual: para uma sociologia do “artigo 68”. Texto para discussão do Projeto Egbé-Territórios Negros. Rio de Janeiro: Koinonia. DAYRELL, Juarez (1996) A escola como espaço sócio-cultural. In: ______. (Org.) Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: UFMG,. p.137-161. DIOP, Birago. O sopro dos ancestrais. Disponível em: <http//apoesiadosoutros. blogspot.com> [Dezembro de 2010]. FREIRE, Paulo (1983) Pedagogia do oprimido. 15 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra GORDILHO, Viga (2007) Onde as casas se vestem de céu? Salvador: EDUFBA. MUNANGA, Kabengele (1996) Origem e histórico do quilombo na África. Revista USP, São Paulo, n.28, p.56-63. OLIVEIRA, Maria Olívia de Matos (2009) Representações sociais docentes sobre a mídia: aproximações e distanciamentos. Revista FAEEBA: Educação e Contemporaneidade. Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, v.18, n.32, p.211-219, jul./dez.


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