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O barco Do Livro “O mundo inimigo” de Luiz Ruffato.

As pontas dos dedos mastigavam a aba do chapéu-de-palha que giragirava nas mãos tuberculosas do Marlindo. De pé, três degraus abaixo da mulher, ele falava, em espasmos. - O menino... Não tenho com quem deixar... Não queria que ficasse vadiando por aí... É muita tentação... Pode fazer alguma bobiça... Ele é bom... estudioso... mas... as companhias... Se viesse comigo... Não vai atrapalhar... Se a senhora pudesse fazer essa caridade... A mãe dele lava roupa pra-fora o dia inteiro... Não tem como tomar conta... A menina, a Hélia, está na fábrica... Ele não vai dar amolação... E dona Geralda, contrariada: - Está bem. Tem quanto? Dez? Taludinho? Põe uma enxada na mão dele, manda capinar o quintal até a beira do rio... Dou uns trocados pra ele, se ficar bom. Mas, o Osvaldo... - Ele vai gostar, a senhora vai ver... vai gostar... O menino é bonzinho... Comportado... Não vai dar trabalho... Um muro alto, enfeitado de cocares de cacos-de-vidro, isola o terreno da rua. A ligação, um portão de ferro inteiriço, carcomido nos baixios. Um caminhozinho de pés-de-moleque une o lá-fora aos cinco degraus da varanda, ensombreado por um teto de idosas parreiras estéreis e ladeado por um avoengo jardim: ervas-daninhas sufocando beijos-estudantes, brincos-deprincesa, rosas-japão, moças-velhas, onze-horas, bocas-de-leão, damas-danoite, margaridas. Heras escalam paredes descarnadas, samambaias transbordam dos xaxins. À esquerda, uma bifurcação esquina-se num corredor, um tanque-de-cimento de águas musgosas pegado à parede um dia amarela, e deságua nos fundos da casa. O quintal se expande às margens do Rio Pomba, imundo de pé-de-galinha, marmelada-de-cachorro, capimgordura, assa-peixe, vassoura, capim-angola, que rastejam por entre mangueiras, abacateiros, abieiros, ingazeiros, goiabeiras, amoreiras e pés-decarambola. Debruçadas sobre as águas, do outro lado, as industriárias casas da Vila Minalda, a estrada para Leopoldina, para o Rio de Janeiro. - Pai, como é que é a casa? - Nunca entrei. - Tem cachorro? - Ele não gosta. - E gato?


- Também não. - Pode nadar no rio? - Pode nada! Você vai lá é pra me ajudar! Não vai me arrumar confusão não, heim! - Vou não, pai, pode deixar. - E o... Ele? - Quê que tem? - Ele é... abilolado? - Deixa de ser besta, menino! É igualzinho à gente... - Uai... Então por quê que o senhor precisa pajear ele? - Por quê? Porque... Ê menino!, você garra numa perguntação! Me deixa maluco! Bico-calado! A campainha estrilou. Adelaide surgiu, ansiosa, escancarando o portão. - Ainda bem que o senhor chegou... Ele não dormiu a noite inteira... Ficou assim, zumbi, rondando pela casa... Uma chaminé! O homem e o menino seguiram-na, calados. No tanque-de-cimento, Luzimar vislumbrou uma tartaruga esquipática. A velha arrastava as chinelas pelo chão neblinado. Na varanda da cozinha, sentado numa cadeira-depalhinha esfrangalhada, Osvaldo mascava a manhã pasmacenta. De vez em quando, Osvaldo encocorava-se num canto, jururu, gato comido de lagartixa. Cabisbaixo. Alheado. Mudo. Olhos vidrados. Para dentro. Desfalecido. Outras horas, agitava-se: falava, falava, falava. Os braços conversavam com o vento, as árvores, a cabeleira esverdeada do mato. Ficava nervoso. Um bicho-carpinteiro subia-descia. Vontade de esmurrar o chão. Pular o muro, sair a galope. Pegar uma acha e rebentar a cabeça do cachorro que latia, latia, latia onde? Tampar os ouvidos, não mais escutar as agônicas águas do rio que escorriam sem paragem. Dois maços de mata-rato por dia. Um aceso no outro. Fumaça esvaindo pela boca, nariz. Veneno no sangue. Se entregava. Ficava quietinho, quietinho. Mocheado. Desfalecido. Marlindo tinha quarenta e três anos – o povo daria bastantes mais. Franzino, magro, transparente. Uma larga estrada devastara seus cabelos, noantigamente, e uma berruga enorme encapelava seu cocuruto. Rosto escavado pela bexiga, olhos mel escondidos em covas enegrecidas. Desconhecia pai e mãe, indigentes enterrados em rasas sepulturas no cemitério de Guiricema. Dera duro para engrenar como gente. O pão que o diabo amassou comera com gosto. Muita cabeçada. Agora apagara o facho. Assentara praça. Graças à Zulmira, verdade seja dita. Tinha que reconhecer. Por ele, estaria vagando ainda, sem pouso, nem repouso. Ela bateu o pé. Manhou. Não ia mais ficar rolando morro abaixo, não era pedra... Também, coitada, guardava lá suas razões. Num ano só, seis vezes mudaram. De cidade. Uma roça de arroz


desandada, em Guiricema. Mão na frente, mão atrás, em Cataguases. Rachando lenha em Dona Eusébia. Chutando lata em Cataguases. Vendendo caramujo em Leopoldina. Cataguases, novamente. E Zulmira deu um basta. Um chega. Morreriam de fome em Cataguases. Pronto! Assumiu a rédea. Marlindo demandou serviço na Industrial. Carteira assinada. Varria o chão, avolumando o algodão pelos cantos. Deu para trás. Não nascera para empregado. Comprou um carrinho-de-pipoca. Arrumou licença na Prefeitura para trabalhar na Praça Rui Barbosa, em frente ao Cine Edgard. Sobrevivia. Mas, meu deus, e a paradeira? Fez-se sócio de uma venda na Vila Minalda. Nas prateleiras, macarrão, apenas. Do fino, do grosso, goela-de-pato, cabelode-anjo, estrelinha. Só mosquitos ultrapassavam a soleira. De volta à labuta. Agora, graças a Deus, achara-se. Pajem. O moço tinha... problemas... Gostava? O Osvaldo tinha lá suas esquisitices, mas, quem não tem? Ancorava cedo, passava em-antes no botequim, comprava dois maços de cigarro, obrigação de dar remédio na hora certa. Sobrava tempo para a Bíblia. Cinco anos já, era crente. Um dia, chegou encachaçado em casa. Aniversário da Hélia, a filha. Ela perguntou pelo presente. Presente? Tem presente nenhum. E foi destampar as panelas para ver a janta. A menina desatou no bué. Ele, alto, enjerizou. Partiu para cima dela, corrião na mão. Um bafafá. A Zulmira entreveio, Vai bater na menina não, cachaceiro senvergonho! O Luzimar, um bostinha assim, também tomou as dores da irmã, berrando. Percebeu, ali, que alguma coisa estava errada. E era com ele. Subiu o beco, bufando. Pensou em se jogar debaixo das rodas do cata-níquel. Ou do trem. Andou, andou, andou. Quando se deu por si, estava espigado na porta da Igreja Quadrangular. Lá dentro, palmas. Vozes. Um irmão o abordou, Quer entrar? Quanto tempo vagando nas trevas da ignorância! Largou de fumar, de beber. Outro homem. Tinha lá seus calos. A Zulmira não quis seguir seus passos, agarrada à idolatria. Aos catolicismos. À batina dos padres. Aos santos óleos. E a Hélia, menina-moça, habitava o mundo da lua. À espera de um príncipe encantado. Que nunca apareceria. Porque não existem. Mas, vá meter isso na cabeça-dura dela! Tentara arrastá-la, Deus era testemunha. Conseguia era o deboche. A esculhambação. Namoradeira, fazia vista grossa aos deslizes. Orava por ela. Que arrumasse logo um marido. Um homem bom. Que não batesse nela. Que. Já o menino, uma preocupação só. Sonhava, com o aval de Deus, um mundo melhor para ele. Um curso de torneiro-mecânico no Senai. Ou de ajustador mesmo, já estava bom. Morando em São Paulo. Endinheirado. Sem precisar de passar necessidade. Dando de presente para a mãe uma geladeira. Ou uma enceradeira. Orgulho da família. Bem-falado. Mas, para isso, precisava de firmeza. Determinação. Meu Deus, quantos sacos de serragem?, quantos carrinhos-de-mão cheios de toquinhos teria de empurrar ainda para a mulher


ferver roupa para fora? Quantos? Dona Geralda levantou a cabeça e tomou o retrato que conservava no criado-mudo, à cabeceira da cama. Mirou-o, suspirando. Lá, quase-menina, bonita, vestida de noiva, o olhar enviesado na direção do marido, rapagão espadaúdo, bigode em flor, recém-formado em Medicina pela Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. A felicidade... Ah, a ignorância do vindouro! Se soubesse... Romualdo tornou-se clínico importante. Ganhou fama, dinheiro. Construiu uma casa imponente, em plena Rua do Pomba, placa de ferro chumbada na parede: Doutor. Centro de peregrinação dos despossuídos, dos que não tinham onde cair mortos. E dos ricos, dos mandatários. A todos, o mesmo tratamento, honorários díspares. Virou político, vereador de vário mandato. E o que restara de tudo? A morte abateu-o, estupidamente. Um fulminante ataque do coração. Desgosto, provavelmente. A filha, a Bernadete, conheceu um “paulista” num baile de debutantes no Clube Social. Um ano mais e estava casada e mudada. De São Paulo, escrevia de quando em quando, o apartamento, as crias, as novidadezinhas. Uma carta de quinze em quinze dias, uma carta por mês, uma carta por ano, nenhuma carta. Um obrigatório telefonema no Natal, nos aniversários. “Minha filha, Geralda, foi embora... Para sempre, Geralda, minha filha... para sempre...” Osvaldo, Osvaldo... Quando completou dezessete anos, teve aquele... esgotamento... Fechou-se no quarto, dias mudo, sem comer, sem dar as caras. O pai falou, Isso passa... Seis meses depois, desapareceu, quatro dias e ninguém o encontrava, achavam até que... meu deus! O colega da Casa de Saúde, Doença dos nervos. O colega da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, Doença dos. O colega de uma clínica particular do Rio de Janeiro, Nervos. Adeus, Romualdo! Daí para a frente, um varapau. Desapaixonou-se. Envelheceu. Entregou os pontos. Uma tarde dormitou na sala, não amanheceu. Geralda olhou à roda, as vozes esfumaram-se. Onde a romaria?, pobres, ricos, pretos, brancos, morenos, mulatos? Onde os amigos?, vizinhos?, aproveitadores? As entediadas águas do Rio Pomba silenciaram-se, coniventes. Meu Deus, tanto trabalho!, brancas noites, adiadas viagens, inconclusos passeios, bobas alegrias, infundadas preocupações, para quê?, para isso? Osvaldo, Osvaldo, o menininho medroso, secarrão, que se esgueirava pelas fímbrias dos cômodos, a Seleções do Reader’s Digest debaixo do sobaco, venturo causídico, segundo desenho do pai, que já o enxergava de beca no dia da formatura. Osvaldo, Osvaldo. O fado. O fardo. A fortuna. O destino. Osvaldo ergueu-se, agitado, gritou para o Marlindo, Vamos, vamos capinar! Vamos arrancar o mato do quintal! Vamos!, e saiu rápido em direção à edícula. Tirou, compulsivamente, uma enxada, um enxadão, um ancinho, um carrinho-de-mão. Luzimar agarrou-se às pernas da calça do pai, amedrontado.


- Não é isso o que ela quer? Heim? - Osvaldo... Jogou as ferramentas no chão, com ira. E correu quintal abaixo. - Ai, meu deus! Seu Marlindo, segura ele, ele vai se jogar no rio, seu Marlindo, pelo amor de deus, segura ele!, bradou a dona Geralda. Marlindo soltou-se do menino e saiu veloz atrás do Osvaldo, que repentinamente parou, escalando felino as grimpas de uma mangueira. Lá de cima, gargalhava histericamente. Marlindo bradava, Desce, Osvaldo, periga você cair daí, rapaz, desce! Em seguida, chegaram a dona Geralda e Luzimar. Desce, pelo amor de deus, você esborracha no chão, Osvaldo, desce! O menino falou, Uai, se ele quer ficar lá... Dona Geralda e Marlindo estancaram a balbúrdia. Caminharam devagar de volta para a varanda do quintal, acompanhados pelo Luzimar. Dona Geralda chamou a Adelaide, pediu um copo de Maracugina. - Até quando isso, meu deus?, até quando?, elevou os olhos, esgotada. Adelaide tinha sido pega para criar aos oito anos de idade pelo pai do doutor Romualdo Nascente, que tinha um casarão enorme na Granjaria, na entrada da cidade, para quem vem dos lados de Ubá. Na frente, mantinha um comércio, onde vendia de um tudo: agulha-de-costura e fumo-de-rolo, cachaça e vinho-do-porto, arroz e verdura-de-folha. Um entra-e-sai danado, de demanhã, quando abria, até o boa-noite do último pé-de-cana. Adelaide, um toquinho de gente, cresceu no meio da azáfama. Acordava na primeira hora, ajudava na feitura do café-da-manhã, na tomação de conta dos meninos e meninas, na faina do almoço, no cosimento dos andrajos, no labor do jantar, na lavação dos pequenos, na arrumação dos estoques, e ia dormir no adiantado das horas. Todos os dias. Inclusive sábados, domingos e dias-santos-deguarda. Cresceu assim, sem tempo para entender o que estava acontecendo à sua volta. Acompanhou quatro casamentos, descabelou-se no enterro do seu Miguel Nascente, chorou quando o Romualdo foi para o Rio de Janeiro estudar. Um dia, pegou-se com trinta e tantos anos, sozinha, sem lar, sem dinheiro, sem família, sem nada. Dona Jussara, mãe de todos, ficou meio zureta, internaram-na num asilo. Nunca mais a viu. Agradeceram por tudo, deram-lhe uma correntinha de ouro, com uma medalhinha de Santa Rita de Cássia, como lembrança e paga, despediram-na. Muitos anos depois, o Romualdo, já médico-doutor formado e casado, resgatou-a, homiziada defavor nos fundos de uma casinha humilde na Vila Reis. Osvaldo conheceu o mar, as serras, as igrejas históricas de Ouro Preto e Mariana, a agitação de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, os filmes nos cines Edgard e Machado, domingo à tarde, as meninas do Colégio Cataguases e do Colégio das Irmãs, a piscina do Clube do Remo, as coleções de livros do pai,


os discos, mas nada daquilo lhe interessava. Sentia um alheamento do mundo, a dor das coisas que fenecem a todo momento, a lenta ruína das horas. Gostava de deitar-se na varanda do quintal, olhos fechados, e deixar que o silêncio se instalasse na tarde. Ou então debruçar-se num tronco, no alto do abieiro, e ficar observando a vagareza das águas do Rio Pomba escorregando por entre as pedras, os redemunhos. Achavam que estava anêmico. Ou com a barriga tomada pelas lombrigas. Mas o que tinha era apenas cansaço. É essa porcariada de livros que ele fica lendo, a mãe brigava com o pai. É essa vadiagem, a Adelaide resmungava, Nunca vi criar filho assim, sem fazer nada. É a idade, professorava o doutor Romualdo, logo-logo passa. Mas aquele sentimento de inutilidade, de absurdo, de absoluta falta de sentido da vida, só crescia dentro dele. Trancou-se no quarto, quando completou dezessete anos. Não queria ver a cara de ninguém. Quiseram arrombar a porta, o pai não deixou. Depois, sumiu. Quatro dias zanzando pelos matos que cercam a cidade. Freqüentou médicos em Cataguases, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. Procuravam uma doença, encontraram. Mas não era seu corpo que carecia de remédio. Sua alma é que estava irremediavelmente condenada. O mal do doutor Romualdo, raciocinava Adelaide, foi ter casado com uma mulher que nunca tinha colocado os pés numa cozinha, que nunca tinha lavado uma muda de roupa, que nunca tinha sujado as mãos num cocô de neném. Que parecia estar sempre de caganeira, com aquela cara-de-quemcomeu-e-não-gostou. Que toda vez que ficava de-barriga quase que ia para o outro mundo. Parecia de louça, a diaba. Por isso, a fama do doutor Romualdo, coitado. Motivo de conversinhas nas rodas de cadeiras de fim de tarde. Botou casa para uma mulher em Leopoldina. Tem filho com outra em Muriaé. É amigado com outra ainda na Saudade. Caiu na língua do povo. Tudo invencionice! Ele era lá de arrumar quizumba? Tinha era o coração mole, isso sim! Não sabia dizer não para ninguém. Mas nem todo mundo tem sangue-debarata. A Dete não agüentou, fugiu. Cansou de ficar escutando falação na hora do recreio no colégio, na rua, na igreja. Foi embora. Certa está ela. Além do mais, via a dona Geralda e o doutor Romualdo passando a mão na cabeça do caçula, por tudo e por nada, O menino é doentinho, Adelaide, não vê? Doentinho! Sei! Puxou a mãe, o inconho! Branquelo, luxento, moleirão. Desde pequeno, aquela coisa. Retardou no andar, retardou no falar, o estrupício. Fosse filho dela, colocava nos trilhos em dois tempos. Sapecava uns tapas na bunda, um safanão nas orelhas, um beliscão nos vazios, e pronto!, virava gente. Mas, não. Deixaram ele crescer assim, metido a besta, tonto, desgostoso de tudo. Tão diferente da Dete! Menina boa... Companheirona... Agora, lá longe, em São Paulo. Adelaide, um dia vou trazer você pra cá, mulher, deixa estar! Deus a tenha, lhe dê saúde e força! Os olhos enchem


d’água. Ah, os justos pagam pelos pecadores! E fica essa morrinha aí, fungando pelos cantos, como se a culpa por essa miséria toda não fosse só dela! Os dias deixavam-se arrancar nas raízes pelas mãos antigas do Marlindo e pelas mãos neófitas, empapuçadas de calos-de-sangue do Luzimar. O Osvaldo arrastava a cadeira-de-palhinha esfrangalhada para a sombra da árvore mais próxima de onde os dois suavam a camisa e, entre uma baforada e outra, deixava seus olhos singrarem por entre as letras e sinais de pontuação de exemplares amarelecidos da Seleções do Reader’s Digest ou do Almanaque Mundial. O silêncio só incomodado pelos gemidos do Marlindo escavando o chão e pela roda desengraxada do carrinho-de-mão empurrado quintal acima pelo Luzimar. Uma tarde, aproveitando-se da ausência do Marlindo, que tinha ido fazer um mandado na rua, Osvaldo aproximou-se do menino, que enchia uma lata de minhocas junto ao chão barrento do leito do rio, e disse: - Ela tem vergonha de mim. Por isso que não saio de casa. Luzimar assustou-se. Era a primeira vez, em cinco dias, que o rapaz se dirigia a ele. Acocorou-se, arrancou um talo de capim, colocou-o entre os dentes, os olhos ensebados de tranqüilizantes, deu um trago no cigarro. - Ela acha que eu sou doido. Sou doido não. Você acha que eu sou? O menino olhou-o, perscrutando-o. - Heim? Você acha? - Não... Acho não... - Pois então. Só não saio daqui porque não quero. Se quisesse... Ninguém me segurava... Mas, não. Faço questão não. Está bom assim. Lá fora... é... muito perigoso... Prefiro assim... Ficar bem quietinho no meu canto... Levantou-se abruptamente, jogou o talo para longe, esmigalhou a ponta do cigarro com o bico do sapato, e voltou encurvado para a varanda do quintal. O doutor Romualdo Nascente estacionou o Aerowillys no terreiro da Casa Branca e logo-logo uma mulher gorda e espalhafatosa, que, debaixo do verniz, percebia-se ter sido muito bonita no antigório, correu ao seu encontro. Bateu a porta do carro, estendeu a mão, disse, encabulado, O Osvaldo... Ela ofereceu-lhe um sorriso maldoso, Doutor Romualdo!, é seu filho? Meu deus, é um homem já! Vem, vamos subir, meu querido. Vamos, doutor, vamos. A mulher resfolegou escada estreita acima. O pai bateu desengonçado nas costas do filho, Vamos lá? Pai... eu..., e arrastou-o até um grande salão. Os olhos demoraram-se a acostumar à penumbra, as paredes tapadas por grossas


cortinas vermelhas. O pai agarrou-se ao balcão do bar, o garçom cumprimentou-o amistoso, um copo de uísque, duas pedras de gelo. Lili!, chamou a mulher gorda e espalhafatosa. Lili! A morena, vastos cabelos, levantou-se, caminhou em sua direção, penhoar preto, longo, que permitia adivinhar os peitos e a calcinha escura. Lili, este aqui é o Osvaldo, filho do doutor Romualdo... A moça abriu-se, marota. Oi, vamos subir lá em cima pra conversar só nós dois? Osvaldo tentou, com os olhos, resgatar o pai, mas já ele engatara uma palestra com um-lá, sem mais jeito. Lili puxava-o pela mão trêmula, suada, alcançaram o segundo andar, um inacabável corredor, misteriosas portas lado a lado. No quarto, correu a tranca, derrubou-se sobre a colcha-de-retalhos que recobria o lençol, Vem cá, meu pequeno, deita aqui do meu ladinho. De pé, Osvaldo notou, refletido no espelho da pequena penteadeira, os olhos embruxados de um gato branco com manchas amarelas, espichado no parapeito da janela entreaberta. Dona Geralda acordou com o estrondo do trovão, a desoras. Levantouse e a luz tinha acabado. Percorreu, tateando, toda a casa. Voltou, jogou a coberta sobre o corpo e ficou paralisada, ouvindo o roçagar dos galhos das árvores. Tinha quatro, cinco anos, chovia. Quis gritar de medo, mas a voz apagou; quis correr para o quarto dos pais, mas as pernas emudeceram; o corpo calado amarrado aos pés da cama. O horror. Foi apresentada ao futuro marido logo após completar os quinze anos. Lia bem em francês – com o tempo, esqueceu – e tirava algumas músicas no piano – ah!, o Noturno de Chopin!, o Minueto em Sol Maior de Bach!, gostava tanto, tanto! Quando se casou, o pai, coitadinho, chorou desesperadamente durante todo o trajeto da igreja. Depois... Duas gravidezes não conseguiu segurar. O Romualdo, de revolta, passou a caçar outras mulheres. Ficou falado na cidade inteira, o que não o impediu de entrar na política e tornar vereador bem votado. Fiava-se no afamado entra-e-sai de gente em busca de uma consulta grátis, de uma remessa de tijolo, pedra ou areia, do pagamento de uma conta pendurada, de uma palavra amiga. Quando nasceu a Bernadete, estourou champanhe francês, jurou que mudava de vida, que largava as sujeitas que se enrabichavam nele, e que isso e que aquilo. Seis meses bastaram. A mesma ladainha, quando deu à luz o Osvaldo. E a solidão prosperava dentro dos oito cômodos da casa. Mocinha, entendida das coisas, a Bernadete avisou que largava tudo pelo primeiro que se apresentasse. Nessa época, o Osvaldo já vivia doentinho, trocando as bolas, amuado pelos cantos. Quando o doutor Romualdo Nascente caiu do cavalo, já era tarde. “Eu estava cego, Geralda... e surdo... E agora, Geralda?, e agora?” Um dia, o coração não agüentou, explodiu. Luzimar, à sombra, esparramado nas raízes do abieiro, observava as poucas moitas e touceiras que ainda restavam sujando o quintal, quando,


assustando-se, viu o Osvaldo, de pé, cigarro pendurado nos lábios, olhos fixos nas águas do rio que escapavam céleres, formando pequenos redemunhos, cujo barulho penetrava devagarzinhamente nos labirintos dos ouvidos, hipnotizando as nuvens, aos poucos paralisando a tarde. Curioso, o menino acercou-se do moço. - Já viu o meu barco?, perguntou ele, apontando para uma pequena canoa que dançava desajeitada sobre a água, atada por uma corda a uma estaca de madeira cravada no barro arenoso da margem, no quintal vizinho, separado por um muro alto que findava numa cerca de bambu, firmemente abraçado pelo arame-farpado, que estendia-se até quase afogar-se dentro do rio. - Sabe nadar? - Sei... - Bem? - É. - Consegue puxar ele até aqui? - Consigo, uai... Osvaldo distraiu o pensamento para os morros do outro lado do rio, que se debruçam sobre a sucessão monótona de cores e jeitos das casas industriárias da Vila Minalda. - Ele... é... é seu? - É... - Ué! Por quê que está lá? - Roubaram... Depois que o pai morreu roubaram tudo... tudo que era nosso... A mãe... ela é uma palerma... não liga... - E não deu parte na polícia? - Já falei... É uma boba... todo mundo passa a perna nela... já falei... - Conversa com o pai... Quem sabe... - Tem que falar nada! Deixa de ser bobo! Tem que ir lá e pegar! Só isso, entendeu? Só isso! O menino baixou a cabeça. Osvaldo suspirou, acendeu outro cigarro. Voltou-se para o Luzimar, que novamente se refugiara sob o abieiro. - Ei, gosta de jogo-de-botão? - Nossa! - Quer um? - Uai... se quero... - Eu dou dinheiro pra você comprar... - O Flamengo? - Se preferir... - De cara ou de escudo?


- Pode escolher... - Puxa! - Só precisa dar uma mãozinha... Sentiu uma tremedeira em-dentro. - É só pular pro outro lado, puxar o barco até aqui... - Mas... E... e se der confusão? - Não dá não, sossega. Não estou roubando ninguém... E então? Heim? - O time do Flamengo? Marlindo tinha perdido a conta das vezes em que havia se esgueirado rente ao muro, sem nem sonhar que um dia labutaria naquela casa. De nome, conhecera o tal doutor Romualdo, benfazejo na política, curtido na safadeza. Do enterro, todo mundo ainda se recordava, um frege. A filha-mulher, instalada em São Paulo, não veio, mandou telegrama. O filho, esse Osvaldo, não foi. Dona Geralda, a legítima esposa, caiu de cama. O caixão disputaram várias mulheres: mocinhas-de-família, senhoras-adamadas, senhoras-comfilho-de-colo, senhoras-com-cara-de-muitos-amigos. Esparramava-se uma fila imensa, já entrada no cemitério, ainda acordoada na boca da Ponte Nova. Carregava fama, o homem: bom, prestativo, positivo. Eleição, ganhava uma agarrada na outra, verdade que ajeitadas pelas mãos dos Prata. Em-antes de adentrar a seção para votar, o eleitor soletrava o nome para o cabo-eleitoral conferir na lista dos empregados das fábricas. Se as urnas parissem menos votos que os garantidos, ia a fieira inteira para o olho da rua. Sem dó, sem piedade. Do serviço não tinha queixa. O rapaz Osvaldo era assim, meio bobo, abobado, abobalhado, besteiro, mas quase nunca trabalhoso, só às vezes, quando cismava de encopar num canto, banzeiro, aluado, estuporado, ou às vezes quando baixava um faniquito, uma comichão, uma desordem no ládentro-dele... Mas obrigação mesmo era dar remédio-tranqüilizante nas horas certas e injeção de calmante nos estados-de-nervo. E desembaraçar recados e mandados na rua, vez por outra, que isso era até prazer, um homem costumado na lida com o povo. Não se conformava era com o desprezo da dona Geralda. Nunca pôde pôr sequer o bico da botina no assoalho da sala. Na cozinha entrara uma que outra vez, desabusado, para encher um copo d’água na talha ou para sujar o fundo de uma caneca de café da garrafa-térmica. A comida, engolia na varanda, sentado nos degraus da escada que dava para o quintal, prato equilibrando na planta da mão, garfo virando a massa do arroz-comfeijão, angu-e-couve, uma isca-de-carne. Da dona Geralda conseguia arrancar nada, nem oi, nem ai, boca-de-siri, o dia inteiro alinhavando a passagem das horas, perdida no-antigamente, olhos pastejando estranhezas, solidões, silêncios, tristezas... A Adelaide era outra: parafusos desajustados, nada de proveito indicava, quando, arrastando o corpo pesado pelos quatro-cantos,


escarrava disparates, cicios, vaguezas... O corpo pequeno e magro pendeu por instantes do galho do abacateiro e desabou no chão do quintal vizinho. Lépido, buscou um esconderijo no miolo do bambual, ouvidos atentos: passarinhos pipilam, cães ladram ao longe, o motor de um caminhão ronca no outro lado do rio, um pregão ininteligível vindo da rua... Osvaldo vigia. Faz um sinal positivo com o polegar direito. Depois, gesticulando, manda, nervoso, que ele aja rápido, Anda, anda, balbucia. Luzimar prendeu a respiração, disparou em direção à margem, desatou com facilidade a corda da estaca de madeira, enrolou-a, jogou-a no fundo do barco, mansamente entrou nas águas do Rio Pomba, a mão esquerda manobreira, a correnteza navegou-os. Saiu tiritando de frio, os pés atolados no barro fedido e movediço, as palmas das mãos magoadas, os ombros rijos de medo, nos olhos uma anteposta alegria por, logo-logo, ter à mão um time novinho do Flamengo, iam invejá-lo, o pessoal que jogava botão na casa do Gildo e do Gilmar aos sábados, ah, iam! O Osvaldo agarrou a proa do barco, - E o jogo-de-botão? conduziu-o até uma loca, debaixo do barranco, - E o jogo-de-botão? arrancou vários galhos de árvores para escondê-lo, - E o jogo-de-botão? e, depois que se sentiu absolutamente seguro de que ninguém poderia descobri-lo, - E o jogo-de-botão? pegou o Luzimar pelo braço, apertou-o, chacoalhou-o, ameaçou, Se contar pra alguém... Choramingando, Luzimar disse, Não, Não vou contar pra ninguém não, Ai, ai, meu braço, está me machucando, Ai, ai, ai meu braço, está me machucando... Fora-de-si, Osvaldo deu um safanão em Luzimar, arremessando-o longe. Os braços agitados conversam com o vento, as árvores, a cabeleira esverdeada do mato, vontade de pular o muro, sair a galope, esmurrar o chão, pegar uma acha e rebentar a cabeça desse cachorro que fica latindo, latindo, latindo aonde?, aonde?, tampar os ouvidos para não mais escutar as agônicas águas do rio que escorrem sem paragem, para onde?, para onde? Não fosse o correio de casas herdado da família, no Matadouro, e dona Geralda não sabe como estaria vivendo. De favores, talvez. Porque o marido, doutor Romualdo Nascente, de-seu o que deixara? Uma casa, essa, na qual morava. Mais nada. Quem ainda se lembra dele? Quem ainda se lembra dela? Nem mesmo à igreja, ali, colada, na Praça Santa Rita, à Matriz de Santa Rita


de Cássia, tinha gosto mais de ir. Para quê? O véu negro que cobre a cabeça das beatas não esconde a sua vergonha, a sua tristeza. Deixem que falem, que pensem o que quiserem: um marido adúltero, uma filha sem-alma, um filho bobo. Que testamento! Paciente, aguardava a sua vez de bater, de mostrar as cartas, o seu dia, que não tardava, pressentia. A cabeça vira-e-mexe oca, esquecida, nomes, datas, fatos, acontecimentos, nada, oca, ausente, vazia. O corpo que já não mais se apresenta: braços de barro, pernas de chumbo, ossos de gesso, cabelos de milho. A vista que não distingue as sombras de dentro das sombras de fora. E essa lâmina que penetra ardente músculos, órgãos, ulcerando cada pedaço da pele, chagando cada dobra do corpo, martirizando, esfolando, essa dor que não é dor, esse morrer, que ainda não é... A campainha estrilou. Daí a pouco, a Adelaide escancarou o portão. - Graças a deus o senhor chegou, seu Marlindo... Ele... ele... sumiu... sumiu, seu Marlindo!, tomou café e ninguém mais viu ele... ninguém acha ele... sumiu, seu Marlindo, sumiu... que desgraceira... (Meu jogo-de-botão!) Marlindo gaguejou qualquer coisa e Luzimar desatou a correr. Dobrou o caminhozinho de pés-de-moleque, cruzou com a tartaruguinha esquipática que adornava o tanque-de-cimento de águas musgosas, vislumbrou, na varanda da cozinha, a cadeira-de-palhinha esfrangalhada, vazia, ganhou o quintal, lanhou a perna nos espinhos de uma roseira, afundou os chinelos no barro fedido e movediço da margem do rio, (Minha nossa! E agora?) - Luzimar!

O Barco(PB) - Luiz Ruffato  

Conto Luiz Ruffato

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