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Roupas no varal Do Livro “Vista parcial da noite” de Luiz Ruffato

A Kombi azul, 1200, estampava um arabesco cinza de massa-depintura na porta esquerda, motivo da demissão do último motorista, “Relou num poste, o desgraçado!”, o Lino reclamava, carinhando o ressalto, como machucado fosse, “Tem que prestar atenção, meu deus!, tem que prestar atenção!”. Consultou displicente a carteira recém-tirada, “Amanhã de manhã, então. Vamos fazer uma experiência, está certo?” Lalado assentiu, enfiou o documento no bolso da camisa e, buscando driblar a euforia, deixou o armazém, vontade de abraçar cada passante, “Gente, arrumei um emprego!”, pedalou veloz em direção à Rua do Comércio, desviando-se de automóveis, carroças, charretes, bicicletas, transeuntes, “Um emprego!”, detendo-se em seguida, o misto, vagões de minério-deferro, estacionado interrompendo o caminho, “Arrumei um emprego! Arrá!” Sim, havia valido a pena os coques e xingamentos do seu Maurício da Serraria, “Ô raio de menino burro, sô!” Não fossem as esculhambações... Enquanto a molecada desmamava de bola no campinho, enchia sacos de serragem e toquinhos. Enquanto cruzavam a pinguela para bisbilhotar mulheres na Ilha, descascava toras e empilhava pranchões. Enquanto inventavam moda nos bancos da pracinha, suava as marchas da caixa-seca do Fenemê. Agora, a compensação. Desfilaria para baixo e para cima entregando compras, ordenado certo fim do mês, logo-logo trocaria a Monark por uma vespa ou quem sabe até mesmo por um Fusquinha, por que não? Dia seguinte, rondava a frente do Armazém do Lino desde em-antes das sete, ânsia de agarrar-se ao volante, calcar os pés no acelerador, no breque, na aflição, não conseguira pregar os olhos. Recolhera-se logo intentando que a noite se dissipasse em sonhos, mas consumiuse o durma-bem, brasa tornada cinza, extinguiram-se os alvoroços, estabeleceu-se cuidadosa a madrugada apascentando gatos e passos, tosses e choros de bebês, e até mesmo as águas do Rio Pomba paralisaram silenciosas, só não o aguilhoou o sono, e quando o primeiro galo reclamou a manhã, o corpo livrou-se da coberta e as pernas da calça levantaram-se e os braços agasalharam-se numa blusa verde esburacada e os calos apertaram-se nos sapatos novos,


“Já de pé, Aguinaldo?” A mãe passava o café, à beira do fogão-a-gás. O irmão-mais-velho escovava os dentes no tanque. “Está escuro, ainda, Lalado”. “É meu início lá no Armazém do Lino”. “Motorista?” “É...” O pai ultrapassa o portal, embrulho de pães-de-sal quentes na mão. “Já de pé, Aguinaldo?” “É...” “Aqui em casa ninguém perde hora...” “Pelo menos ‘um’ filho meu não vai trabalhar pros Prata!” “Ô Raul, não cospe no prato que você come não... A nossa família...” “Exploradores!, o que eles são.” “Ih, começou cedo a mixórdia hoje...” Seu Lino entregou-lhe o molho atado a um chaveiro do Lions, “Responsabilidade sua, heim!”, vidro traseiro Brasil, ame-o ou deixe-o, rasgo no banco-carona, tigre da Esso dependurado no retrovisor interno, vazio o porta-luvas. Girou a ignição, pernas bambas, morreu o motor. Girou novamente, experimentou a potência, “Ê, queima gasolina à-toa não, sô!”, a Kombi, um cômodo só seu, “Vem comigo”. Fraco o movimento, nenhuma entrega a-domicílio até o almoço, permaneceu no depósito arrumando mercadoria. “Correu tudo bem lá, meu filho?”, indagou a mãe. Anuiu, espetando com o garfo a gema, que escorreu amarelando o arroz, infiltrando-se no feijão-batido. À tarde, duas saídas, listas-mirim de dinheiro contado, 150 gramas de Claybom 2 latas de gordura-de-coco Dunorte 5 quilos de arroz de segunda ½ quilo de arroz piemonte 2 quilos de feijão-preto 1 ½ quilo de fubá 2 latas de leite-ninho 1 ½ quilo de pó-de-café 2 barras de sabão-português 1 caixa de anil 4 sabonetes 1 água-de-colônia 1 palha de aço 1 saquinho de Bombril 1 lata de Parquetina 2 quilos de açúcar 1 litro de água-sanitária ½ quilo de cebola 200 gramas de alho 1 Toddy 2 pastas de dente 1 Pinho Sol 1 latinha de Neocid 2 pacotes de macarrão Portuense 2 latinhas de extrato de tomate


3 rolos de papel higiênico 1 garrafa de álcool 1 pacote de caixas-de-fósforo 1 pacote de vela 1 pacote de sal

nenhuma para os lados do Beira-Rio, impedido de esnobar, “Ê, cambada, aí eu ó!”. “Dia dez é que o troço pega fogo!”, esclareceu o rapaz do estoque. “Correu tudo bem lá?”, indagou o pai. “Tudo... Agora, o negócio é a semana do pagamento... Aí a coisa entorna o caldo... Nem tempo pra almoçar...” E a custo engrenou o sono, contando-recontando dias, horas. Final de sábado, última entrega, os óculos e os dedos do seu Lino conferem os garranchos no papel-de-pão, quatro engradados de brama, cinco garrafas de cachaça, uma de Campari, uma de Martini, uma de são-rafael, uma de groselha, uma mortadela, uma caixa de defumador, um Detefon e uma ratoeira, “Certo?” Lalado ajeita o carregamento, cerra as portas da Kombi. “Camargo?” “Camargo. Sabe chegar lá?” “Acho que...” “É uma casa-de-tolerância nova.” “O quê?” “Zona, meu filho, zona! Puteiro!” “Ah!” “Conhece não? Presta atenção: pegando a estrada pra Ubá, na Granjaria, tem uma subida forte e logo depois uma descidona. Mais ou menos no meio você vai ver um caminhinho à direita, saindo do asfalto, e uma casa só-entijolada lá embaixo, quase beirando o rio. Toma cuidado porque é uma despenhadeiro aquilo. Entrega a mercadoria, confere o dinheiro e vem embora, que eu vou ficar esperando. Entendido?” Diminuiu a velocidade, parou no acostamento, desligou o motor, saiu do carro. Silêncio. O ar gelado lhe magoava os lábios, unhas roxas, mãos enrijecidas, o nariz. A poeira assenta-se sobre o pasto a-perderde-vista de capim-gordura esturricado, árvores desgarradas solitárias, um cavalo carrapatos, uma que outra seriema encolhida, cerca-dearame-farpado que se redobra-desdobra morro acima-abaixo, o Rio Pomba magrinho lááá-longe, céu encarniçado, a casa só-entijolada ao cabo da trilha de regos, sulcos, valetas entalhadas pelas enxurradas, por onde negacearam falsearam patinaram as rodas da Kombi suspendendo pó indisperso na paisagem. Um viralata malhado escapa rumo às suas pernas, indeciso entre rosnar e abanar o rabo, intimorato ou fanfarrão, late late late, “É as encomendas”, uma voz feminina alegra-se, descortinando-se indistinta à janela, ferragem despontando


da laje, uma Rural desleixadamente estacionada, duas bicicletas guidão encostado na parede. Lalado escancara as portas da Kombi, arrasta um engradado de cerveja, ergue-o ao ombro, caminha convicto para a porta da sala, intercepta-o o rabo-de-cavalo, frente-única amarela, cílios postiços, batom vermelho, calça santropê cinza, tamancos, “Não, não! Lá atrás! Lá atrás!”, reorienta-o. Circundam a casa, pulam uma língua-dágua que escorre contínua de um tanque, sobem oito degraus, ultrapassam o portal da cozinha, “Aqui! Aqui!”. Deposita a caixa no chão-decimento-grosso, “Traz tudo pra cá, viu?”, examina os cascos vazios em busca de bicos lascados, troca o vasilhame, ergue o engradado ao ombro, desce oito degraus, pula a língua-dágua que escorre contínua do tanque, coloca-o no chão junto à Kombi. Na segunda viagem principia a suação, arranca a blusa verde esburacada, joga-a sobre o banco-carona rasgado. Na quarta viagem topa uma moça, camisola de tule preta, peitos e pêlos adivinha, assustam-se, quase escorrega no lodo que margeia a língua-dágua, ela escapa apressada, encabulado ri. A quinta viagem, a caixa de bebidas, parece a dita se encorujou na toca; a sexta, mortadela, defumador, Detefon, ratoeira, surge miando um gato amarelo, o rabo-de-cavalo reaparece, expulsa-o com uma vassourada, “Gato veado!, não serve nem para espantar a ratalhada!”, as unhas da mão esquerda seguram a lista, “Vamos conferir?”, a unha do indicador direito assinala, “Um, dois, três, quatro engradados de brama, cinco garrafas de Onde será que se meteu a, fael, uma de groselha, uma mortadela, uma caixa de”, espia à janela, um cercado de bambu protege a horta de folhas esturricadas, um porco amarrado pelo pé chafurda sob a mangueira, “por enquanto, mas já-já isso vira uma Casa Branca, você vai ver... Pronto! Tudo certo. Vou pegar o dinheiro”. Lalado desce os oito degraus e curioso envereda o caminho inverso à entrada principal. Rente à parede da cozinha, um monte de areia, outro de pedra-britada, uma pequena pilha de tijolos, uma enxada suja de massa-de-concreto, pontas de cigarro, cocô-de-cachorro. Ao dobrar a esquina, um jardim mirrado, calcinhas e vestidos esticados no varal,


a moça sentada num toco a fumar levantou-se repentina espaventando o gato amarelo que ronronava em seu colo e escapou apavorada, a guimba caída na poeira, pretíssimos cabelos escorridos, fugazes olhos esgazeados, visagem. Lalado quase riu mas Não tem jeito não essa menina! então a professora aproximou-se e espatifou a régua-de-madeira em sua cabeça Dona Cristina, eu não... vestidosalopete azul, camisa tergal branca, sapato-boneca Diolinda, chora não, boba! Diolinda... A Diolinda fe-de! A Diolinda fe-de! Não aprende nada, essa menina! Grupo Escolar Flávia Dutra segunda série, terceira série Repetente, a Diolinda impigem “Ah! Estava te procurando! Aqui, o dinheiro!” Tomou o maço de notas sebentas, esforçou-se para contá-las, “Certo?” Diolinda... Mãe, quando eu crescer quero ser bancário... Bancário? É, que nem o marido da dona Cristi. O rabo-de-cavalo devorou-o a noite aquartelada dentro da casa. Entrou na Kombi, colocou a féria no porta-luvas, vestiu a blusa verde esburacada, girou a ignição e notou no lusco-fusco uma das bicicletas alcançava o tope do morro.


Roupas No Varal(UFBA) - Luiz Ruffato  

conto Luiz Ruffato

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