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Helen Grant

O Desaparecimento de Katharina Linden Tradução Flávia Carneiro Anderson


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inha vida teria sido muito diferente se eu não tivesse ficado conhecida como a menina cuja avó explodiu. E se não tivesse nascido em Bad Münstereifel. Se a gente, por acaso, tivesse vivido numa outra cidade — bom, não estou querendo dizer que o evento teria passado despercebido, mas o estardalhaço, na certa, só teria durado uma semana, pois as atenções logo se voltariam para outro acontecimento. Além disso, numa cidade grande eu seria anônima, e as chances de me apontarem como a neta de Kristel Kolvenbach seriam quase nulas. Já numa pequena... Bem, cidadezinhas do mundo inteiro são repletas de fofocas, mas, na Alemanha, as pessoas conseguiram transformá-las numa forma de arte. Eu me lembro de Bad Münstereifel como um lugar com grande senso comunitário, ora reconfortante, ora sufocante. A mudança das estações costumava ser comemorada com festivais frequentados por todos os moradores: o Karneval em fevereiro, a Festa da Cereja no verão, a procissão do dia de São Martinho em novembro. Nesses eventos, eu via os mesmos rostos: nossos vizinhos da Heisterbacher Strasse, os pais que se aglomeravam no portão da escola na hora do almoço, as atendentes da panificação local. Se a minha família decidisse sair para jantar à noite, provavelmente seria atendida pela mesma mulher com a qual minha mãe tinha conversado no correio naquela manhã e, na mesa


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ao lado, estariam os vizinhos de frente. Seria uma tremenda ingenuidade tentar manter qualquer acontecimento em segredo num lugar daqueles — ao menos, era o que todo mundo pensava. Quando me lembro daquele ano, vejo que era uma época inocente, um período em que minha mãe me deixava de bom grado, já aos dez anos, perambular sem supervisão pela cidade — um período em que os pais permitiam que os filhos brincassem sem que lhes passasse pela cabeça a terrível possibilidade de eles não voltarem para casa. Isso mudou depois, claro. Meus próprios problemas começaram quando a minha avó morreu. Um acontecimento que, na época, causou rebuliço e que, teoricamente, já deveria ter sido esquecido no período em que ocorreram os verdadeiros horrores do ano seguinte. Mas, quando ficou óbvio que alguma força maligna atuava na cidade, a opinião pública perscrutou o passado e assinalou a morte de Oma Kristel como a precursora da maldição. Como um Sinal. E a grande injustiça em relação a isso foi que Oma Kristel não tinha exatamente explodido, mas sofrido uma combustão espontânea. Porém, fofoca se espalha que nem vento, e nunca deixa a verdade impedir uma boa narrativa. Se alguém ouvisse a história recontada nas ruas de Bad Münstereifel, sobretudo no pátio da Grundschule, onde eu estudava na época, acabaria achando que a minha avó tinha detonado como fogo numa fábrica chinesa de artigos pirotécnicos, em meio a estrépitos, estouros e clarões fascinantes de luzes coloridas. Só que eu estava lá; vi tudo acontecer com os meus próprios olhos.


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ra 20 de dezembro de 1998, data que ficaria marcada para sempre na minha lembrança. Esse domingo anterior ao Natal, quando acenderíamos a última vela da coroa do Advento, acabou se tornando o último da vida de minha avó e a última vez que a família Kolvenbach celebrou o Advento. Minha mãe, que, na época, era um dos três cidadãos britânicos morando na cidade, nunca tinha aceitado bem os costumes natalinos da Alemanha. Normalmente só se lembrava da coroa do Advento quando o primeiro domingo estava para chegar e as únicas à venda eram malacabadas e feiosas, expostas do lado de fora do supermercado nas cercanias da cidade. A coroa daquele ano não passava de um adornozinho lamentável, com quatro velas azuis sem graça mal-encaixadas num aro de folhas verdes artificiais. Bastou Oma Kristel botar os olhos nela para em seguida sair com o intuito de comprar uma outra mais apropriada. A que ela trouxe era linda: uma guirlanda volumosa, com laços dourados e vermelhos, e pequenos adornos de Natal enfeitando as folhas de tom verde-escuro. Oma Kristel carregou-a com pompa até a nossa sala de jantar, como se estivesse levando um incenso para o próprio Menino Jesus, e colocou-a no centro da mesa. A coroa de minha mãe, com as velas azuis sem graça, ficou relegada ao aparador e, depois, sem ser acesa, foi parar na lata de lixo. Se minha mãe tinha algum comentário a fazer, ficou calada e apenas contraiu um pouco os lábios.


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Naquele domingo, um jantar especial fora planejado. Além de Oma Kristel, esperávamos o irmão do meu pai, Onkel Thomas, a minha Tante Britta e os meus primos Michel e Simon, que tinham vindo de Hannover. Minha mãe, que normalmente não se preocupava muito com faxina na Alemanha, ficara histérica com a limpeza e o preparo da comida. A nossa casa era uma daquelas típicas de Eifel, bem tradicionais e antigas, tipo Fachwerk, ou seja, de madeira aparente. Bastante pitorescas, essas construções têm o pé-direito baixo e o interior escuro, além de janelas pequeninas, que deixam passar um mínimo de claridade e fazem com que os quartos mais limpos pareçam encardidos. O cardápio também fora uma fonte de estresse para a minha mãe; Onkel Thomas era um homem de gostos simples e teria preferido comer larvas a algo não alemão. Minha mãe atormentou meu pai pouco antes do evento, ameaçando servir curry e batata-frita, mas, por fim, a perspectiva de Onkel Thomas ficar empurrando a comida no prato, com um garfo, como um patologista investigando uma amostra de fezes, pareceu-lhe demais. Daí ela resolveu preparar Gänsebraten, ganso assado com recheio de Leberwurst, resmungando: — Thomas e Britta, com certeza, vão gostar de qualquer coisa que tenha Leberwurst. Enquanto minha mãe dava os últimos retoques no ganso e meu pai abria uma garrafa de vinho, Onkel Thomas e a família chegaram. Meu tio quase bloqueou a claridade ao passar pela porta da frente, os ombros preenchendo o caixilho. Tante Britta, uma mulher diminuta, com pernas e braços esqueléticos e um jeito ágil de se mover, similar ao de uma ave, seguiu-o e, logo atrás dela, vieram Michel e Simon. Na Alemanha, as crianças tinham que cumprimentar os adultos com um aperto de mãos; eu detestava fazer isso e me escondia atrás das pessoas, mas, naquele dia, Oma Kristel me empurrou com uma cutucada enfática nas costas. Com relutância, dei a mão a Onkel Thomas, que a estreitou com a garra enorme e rechonchuda. — Hallo, Pia. — Hallo, Onkel Thomas — saudei obedientemente, torcendo para que ele soltasse a minha mão e eu pudesse limpar sorrateiramente os dedos na minha calça; as mãos dele eram sempre pegajosas.


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— Você cresceu — comentou, com seu jeitão cordial. — A-hã — sussurrei e, então, subitamente inspirada: — Tenho que ajudar a mamãe na cozinha. Com certo alívio me dirigi para lá, onde a condensação do vapor escorria pelas vidraças diminutas e minha mãe se movia de forma frenética, lembrando aqueles sujeitos que alimentavam a caldeira na casa de máquinas de um barco a vapor. Ela me lançou um olhar severo. — Sai. — Foi tudo o que disse. — Mãe, Onkel Thomas e Tante Britta chegaram. — Ah, meu Deus! — exclamou encorajadoramente. Então, ela me expulsou da cozinha e me mandou voltar para a sala, onde me deparei com Michel comendo o último chocolate que eu tinha ganhado de São Nicolau no dia 6 de dezembro. O rebuliço que se seguiu continuou até o jantar ficar pronto e minha mãe sair da cozinha com o semblante estressado, para nos informar que podíamos nos sentar. Ela olhou para o rosto vermelho de Michel, manchado de chorar, e contraiu os lábios de novo, porém sem fazer nenhum comentário. Em boca fechada não entra mosca; mamãe voltou para a cozinha e terminou de fatiar o ganso. Assim que ela anunciou que serviria o jantar, foram todos para o banheiro, inclusive Oma Kristel. Para a minha avó, sentar à mesa sem dar um último retoque na maquiagem estava fora de cogitação. Nenhum de nós a tinha visto sem maquiagem ou sem penteado, pois ela andava sempre com o cabelo armado, cheio de laquê, formando uma espécie de capacete prateado e brilhante. Naquele dia, o capacete tinha murchado um pouco porque Oma Kristel fora diversas vezes à cozinha dar dicas sobre o preparo dos pêssegos dourados que acompanhariam o assado. Pensando nisso, ela levara um enorme frasco de laquê, parecido com um torpedo, juntamente com a bolsa volumosa, cheia de batons caros e cremes antirrugas de efeito industrial, até o banheiro. Oma Kristel estava com excelente aparência naquele dia, algo com que meu pai, Wolfgang, e o irmão dele, Thomas, concordaram de forma lúgubre, no enterro. Sempre cuidadosa com a dieta, ela se mantivera


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elegante até a velhice. Usava uma saia de um tecido aveludado preto, justa demais, porém incontestavelmente chique, um casaco de angorá rosa-shocking, meias-calças transparentes nas pernas esbeltas e sapatos de bico fino e salto alto. No peitilho, o qual ainda se destacava, mantendo a aparência evocativa da mulher atraente que fora nos tempos da guerra, ela colocara um broche grande de zircônia, como uma medalha presa à frente de um uniforme. Gosto de pensar que, ao dar uma última espiadela em si mesma no amplo espelho do banheiro, Oma Kristel ficou satisfeita com o que viu. Seja como for, a vovó passou um tempo retocando a maquiagem, de maneira que minha mãe já colocava as travessas na mesa quando ela chegou na parte do laquê. — Oma Kristel! — gritou minha mãe, num tom de voz hesitante, sem querer parecer estridente demais com a sogra de personalidade forte. — Mama! — vociferou Onkel Thomas, que era menos melindroso em relação a esses aspectos e que, sem dúvida, estava louco para devorar o ganso e o Leberwurst. Oma Kristel ajeitou os cabelos e, em seguida, borrifou-o com a dedicação de um mecânico de automóvel repintando um BMW. Conseguiu espalhar o produto no busto e nos ombros, até o casaco de angorá ficar brilhando com gotículas pequeninas e uma nuvem de laquê se formar ao seu redor. Em seguida, guardou o frasco na bolsa e foi direto para a mesa. As luzes principais haviam sido apagadas; meu pai aguardava, segurando uma caixa de fósforos para acender as velas da coroa do Advento. Oma Kristel lançou-lhe um olhar que dizia “quem é que manda aqui?” e estendeu a mão com o intuito de pegar os fósforos. Abriu a caixa, pegou um palito e acendeu-o com um floreio. A chama irrompeu em meio à penumbra da sala escura, um minifarol dourado. Oma Kristel segurou-a por um instante no alto e, em seguida, o inimaginável aconteceu. O palito escorregou de seus dedos e caiu direto no casaco de angorá rosa-shocking dela. Com um vuuuuuumpt! similar ao som de um aquecedor acendendo, o laquê que ela espalhara na parte de cima do corpo pegou fogo, envolvendo-a numa coluna de chamas.


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Por um momento estarrecedor e interminável, fez-se silêncio e, em seguida, veio o pandemônio. Tante Britta deu um tremendo berro, digno de filme de terror, levando as mãos ao rosto. Houve o ruído de móveis sendo arrastados quando meu pai se moveu aos trancos e barrancos, desviando-se de uma série de cadeiras, na tentativa de encontrar algo que apagasse as chamas. Onkel Thomas, que lutava para tirar a jaqueta com o intuito de envolver a mãe em chamas, praguejava descuidadamente, os olhos arregalados de pavor. Tanto Michel quanto Simon uivavam, horrorizados. Acho que eu fiz o mesmo, porque durante dias, após o ocorrido, fiquei rouca, com a garganta coçando. Minha mãe, que tinha acabado de chegar da cozinha com o ganso assado nas mãos enluvadas, deixou cair tudo no piso de cerâmica, provocando um estrondo com o impacto. Somente Sebastian, em sua cadeira alta, permaneceu alheio ao que ocorria, pelo visto achando que tudo aquilo fazia parte da celebração do Advento. Todos os demais entraram em pânico. Dali a pouco, num final horripilante, Oma Kristel projetou-se à frente, tombando na mesa em meio aos estilhaços de taças de vinho e louças. Seus dois filhos finalmente tomaram uma atitude; meu pai despejou uma jarra de água mineral nos seus restos fumegantes, e Onkel Thomas jogou a jaqueta, que finalmente conseguira tirar, em cima dela. Porém, foi tarde demais para Oma Kristel: ela já estava esturricada como um rato morto, ou Maus tot, como dizem os alemães. O choque fez seu coração parar de bater com o requinte de uma marreta estraçalhando um relógio de mesa. Com as pernas ainda elegantemente cobertas voltadas para fora, minha avó não parecia nem um pouco com Oma Kristel, e sim com um manequim de vitrine de loja. No silêncio que se seguiu, Sebastian por fim começou a chorar.

O Desaparecimento de Katharina Linden - Trecho  

No dia em que Katharina desapareceu, Pia foi a última pessoa a vê-la. O terror se espalhou pela cidade. Como uma garotinha de dez anos poder...

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