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VAL McDERMID

DOMÍNIO SOMBRIO Tradução Sibele Menegazzi


Este livro é dedicado à memória de Meg e Tom McCall, meus avós maternos. Eles me deram amor, ensinaram-me o sentido de comunidade e jamais esqueceram a vergonha de ficar na fila da comida, em um centro de caridade, para poder alimentar os filhos pequenos. Graças a eles, cresci amando o mar, as florestas e o trabalho de Agatha Christie. Uma dívida que não é pequena.

4ª p.


* Quarta-feira, 23 de janeiro de 1985; Newton of Wemyss A voz é suave, como a escuridão que os cerca. — Está preparado? — Mais preparado do que nunca. — Você disse a ela o que fazer? — As palavras agora rolam, tropeçando umas nas outras num emaranhado único de sons. — Não se preocupe. Ela sabe das coisas. Sabe quem será responsabilizado se isto der errado. — Palavras ásperas, num tom áspero. — Não é com ela que estou preocupado. — O que você quer dizer com isso? — Nada. Não quero dizer nada, está bem? Não temos escolha. Não aqui. Não agora. Apenas temos de fazer o que deve ser feito. — As palavras possuem o tom vazio da bravata. Só Deus sabe o que elas escondem. — Vamos, terminemos logo com isto. Assim é como tudo começa. Quarta-feira, 27 de junho de 2007; Glenrothes A jovem cruzou o saguão com passos largos, os saltos baixos produziam uma batida ritmada no piso de vinil danificado por milhares de pisadas. Parecia alguém com uma missão a cumprir, pensou o funcionário, conforme ela se aproximava de sua mesa. Mas também, quase todos tinham a


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mesma postura. Os pôsteres sobre a prevenção de crimes e outras informações de interesse geral que forravam as paredes eram invariavelmente ignorados por aqueles que ali chegavam, perdidos que estavam no turbilhão de sua determinação. Ela avançou sobre ele, os lábios apertados numa linha fina. Não era feia, ele pensou. Mas, assim como muitas mulheres que apareciam por ali, não estava em seus melhores dias. Ela poderia ter colocado um pouquinho mais de maquiagem, para ressaltar os brilhantes olhos azuis. E vestido algo que lhe caísse melhor do que jeans e blusa de capuz. David Cruickshank assumiu seu rígido sorriso profissional e perguntou: — Em que posso ajudá-la? A mulher inclinou ligeiramente a cabeça para trás, como se estivesse se preparando para defesa. — Quero informar o desaparecimento de uma pessoa. Dave tentou não demonstrar sua irritação cansada. Quando não eram denúncias de vizinhos infernais, eram as pessoas supostamente desaparecidas. Aquela ali estava calma demais para que se tratasse de um filho pequeno, e era jovem demais para ter um filho adolescente fujão. Uma briga com o namorado, era disso que se tratava. Ou um avô senil perdido. A mesma perda de tempo de sempre. Ele arrastou um bloco de formulários pelo balcão, arrumou-os à sua frente enquanto procurava uma caneta. Nem chegou a destampá-la; havia ainda uma pergunta-chave que precisava ser respondida antes que ele anotasse quaisquer detalhes. — E há quanto tempo essa pessoa está desaparecida? — Vinte e dois anos e meio. Desde a sexta-feira, 14 de dezembro de 1984, para ser exata. — Seu queixo se abaixou, e a truculência nublou seu semblante. — Será que é tempo suficiente para que você leve a sério?

O sargento da polícia Phil Parhatka assistiu ao final do vídeo e fechou a tela do computador. — Vou te dizer uma coisa — ele falou —, se existe uma época excelente para se trabalhar nos casos arquivados, é agora. A inspetora de polícia Karen Pirie mal ergueu os olhos do arquivo que estava atualizando.


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— Como assim? — Veja só. Estamos no meio da guerra contra o terrorismo. E eu acabei de assistir a meu parlamentar local tomar posse da sede do governo, na Downing Street, 10, com a patroa a tiracolo. — Ele se levantou num salto e foi até a geladeira que ficava em cima de um arquivo. — O que você prefere fazer? Solucionar casos arquivados e receber os louros por isso, ou tentar prevenir que os muçulmanos abram uma cratera no meio do nosso distrito? — Você acha que o fato de Gordon Brown se tornar primeiro-ministro faz de Fife um alvo? — Karen marcou onde estava no documento com o dedo indicador e dirigiu toda a sua atenção a Phil. Ela se conscientizou de que tinha a cabeça mergulhada havia tanto tempo no passado, que não considerara as possibilidades atuais. — Nunca se incomodaram com o distrito eleitoral de Tony Blair, quando ele estava no poder. — Isso é verdade. — Phil espiou para dentro da geladeira, decidindo entre um refrigerante Irn Bru e um Vimto. Trinta e quatro anos de idade e ele ainda não se desamarrara dos refrigerantes, que tanto lhe deram prazer em sua infância. — Mas esses caras se autodenominam guerreiros islâmicos, e Gordon é filho de um pastor presbiteriano. Eu não gostaria de estar no lugar do chefe de polícia se esses terroristas resolverem explodir a velha igreja do pai dele. Ele acabou escolhendo o Vimto. Karen sentiu um arrepio. — Não sei como você consegue beber isso aí — ela disse. — Nunca reparou que o nome é um anagrama de “vomit”? Phil tomou um grande gole enquanto voltava para sua mesa. — Faz crescer cabelo no peito — ele disse. — É melhor você tomar duas latas, então. — Havia uma ponta de inveja na voz de Karen. Phil parecia viver à base de refrigerantes açucarados e gorduras saturadas, mas ainda estava tão enxuto quanto na época em que os dois eram novatos. Ela só precisava tomar uma Coca-Cola normal para sentir suas medidas aumentando. Isso, definitivamente, não era justo. Phil apertou os olhos escuros e retorceu o lábio num sorrisinho bemhumorado. — Que seja. O lado positivo é que talvez o chefe consiga tirar um pouco mais de dinheiro do governo, se conseguir convencê-los de que a ameaça agora é maior.


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Karen balançou a cabeça, agora em terreno conhecido. — Você acha que a famosa bússola moral permitirá que Gordon haja de um modo que pareça tanto ser em benefício próprio? Ao dizer isso, ela esticou a mão para o telefone, que havia começado a tocar. Havia outros agentes, de posição inferior, no amplo setor que alojava a Equipe de Revisão de Casos Arquivados, mas a promoção não havia alterado o jeito de Karen. Ela nunca perdera o costume de atender a qualquer telefone que tocasse perto dela. — Casos Arquivados, inspetora Karen Pirie falando — ela disse distraidamente, ainda pensando no que Phil tinha dito e se perguntando se, no fundo, ele não sentia saudade de estar envolvido com a ação. — Aqui é Dave Cruickshank da recepção, inspetora. Estou com uma pessoa aqui... acho que ela precisa falar com você. — Cruickshank parecia um tanto inseguro. Aquilo era incomum o bastante para chamar a atenção de Karen. — Do que se trata? — De uma pessoa desaparecida — ele disse. — É um dos nossos? — Não, ela quer informar sobre uma pessoa desaparecida. Karen engoliu um suspiro irritado. Cruickshank, definitivamente, já deveria saber fazer aquilo. Ele já havia trabalhado na recepção por tempo suficiente. — Então ela precisa falar com o Departamento de Investigações Criminais, Dave. — Sim, claro. Normalmente encaminharia para lá. Mas, sabe, este caso está um pouco fora do padrão. E é por isso que achei que fosse melhor que passasse por você primeiro, entendeu? Vá logo ao que interessa. — Nós somos da Revisão de Casos Arquivados, Dave. Não lidamos com investigações recentes. — Karen girou os olhos para Phil, que devolveu um sorriso falso diante da óbvia frustração dela. — Não é exatamente recente, inspetora. Esse cara desapareceu há vinte e dois anos. Karen se endireitou na cadeira. — Vinte e dois anos? E só agora é que vieram informar? — Isso mesmo. Faz com que seja um caso arquivado, não?


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Tecnicamente, Karen sabia que Cruickshank deveria encaminhar a mulher para o Departamento de Investigações Criminais. Mas ela sempre se sentia atraída por coisas que provocavam surpresa nas pessoas. Tiros no escuro sempre conseguiam animá-la. E seguir esse instinto lhe havia trazido duas promoções em três anos, superando alguns colegas de igual posição e deixando muitos outros incomodados. — Mande-a subir, Dave. Vou falar com ela. Ela recolocou o fone no gancho e se afastou da mesa. — Por que diabos alguém esperaria vinte e dois anos para informar o desaparecimento de uma pessoa? — ela perguntou, mais para si mesma do que para Phil, vasculhando a mesa à procura de um caderno vazio e de uma caneta. Phil espichou o beiço, parecendo uma carpa de exibição. — Talvez ela estivesse fora do país. Talvez tenha acabado de voltar e aí descobriu que a pessoa não estava onde ela imaginava. — E talvez ela precise de nossa ajuda para conseguir uma declaração de morte presumida. Dinheiro, Phil. É disso que geralmente se trata. — O sorriso de Karen era irônico. Pareceu ficar suspenso no ar como se ela fosse o Gato de Cheshire. Ela saiu apressadamente do setor e foi até os elevadores. Seu olhar treinado catalogou e classificou a mulher que emergiu do elevador, sem qualquer indício visível de timidez. Jeans e blusa pseudoatlética da Gap. Modelos e cores da estação. Os sapatos eram de couro, limpos e sem marcas de uso, da mesma cor que a bolsa que pendia de seu ombro na altura do quadril. O cabelo castanho-médio tinha um bom corte chanel longo, que começava a mostrar algumas pontas irregulares. Não se tratava, portanto, de alguém que vivesse à custa da Previdência Social. Tampouco, provavelmente, de uma pobretona metida a besta. Parecia uma mulher agradável, de classe média, com alguma coisa na cabeça. Vinte e tantos anos, olhos azuis com o brilho suave do topázio. Uma camada levíssima de maquiagem. Ou já tinha marido, ou não estava interessada em arrumar um. Ao perceber a avaliação de Karen, a pele ao redor de seus olhos se apertou. — Sou a inspetora Pirie — ela disse, abreviando o impasse em potencial entre duas mulheres que se analisam mutuamente. — Karen Pirie. Ela se perguntou como a outra mulher a veria: uma mulherzinha gorducha, espremida num terno da Marks and Spencer, cabelo castanho-médio


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precisando de uma visita ao cabeleireiro, e que poderia ser bonita, caso fosse possível ver a definição de seus ossos sob a carne. Quando Karen se descrevia daquela maneira a seus amigos, eles riam, lhe diziam que ela era lindíssima e deduziam que ela estava sofrendo de baixa autoestima. Ela não concordava. Tinha uma opinião razoavelmente boa sobre si mesma. Mas, quando se olhava no espelho, não podia negar o que via. Belos olhos, no entanto. Azuis, com toques de avelã. Incomuns. Fosse devido ao que vira, ou ao que ouvira, a mulher se sentiu mais segura. — Graças a Deus por isso — ela disse. O sotaque de Fife era claro, embora as asperezas houvessem sido amenizadas pela educação ou pela distância. — Perdão? A mulher sorriu, revelando dentes pequenos e regulares como os dentes de leite de uma criança. — Significa que vocês estão me levando a sério. Que não estão me enrolando, me despachando para o oficial subalterno que faz o chá. — Não permito que meus oficiais subalternos percam tempo fazendo chá — Karen disse secamente. — Por acaso, fui a pessoa que atendeu ao telefone. — Ela deu meia-volta, olhou para trás e disse: — Você me acompanha? Karen tomou a dianteira, seguindo por um corredor lateral até uma salinha. Uma janela comprida dava para o estacionamento e, à distância, para o verde artificialmente uniforme do campo de golfe. Quatro cadeiras estofadas de lã cinza estavam próximas a uma mesa redonda, cuja alegre superfície de cerejeira fora polida até adquirir um brilho opaco. A única indicação do propósito daquela sala era uma galeria de fotografias emolduradas na parede, todas elas retratos de policiais em ação. Toda vez que usava aquele local, Karen se perguntava por que os oficiais superiores haviam escolhido fotografias do tipo que geralmente aparecem na mídia depois que algo muito ruim acontece. A mulher olhou em volta com incerteza quando Karen puxou uma cadeira e lhe indicou que sentasse. — Não é assim na televisão — ela disse. — Quase nada da Divisão Policial de Fife é como na televisão — Karen respondeu, sentando-se de forma a ficar num ângulo de noventa graus em


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relação à mulher, em vez de sentar-se de frente para ela. Aquela posição, menos confrontadora, normalmente era a mais producente em uma entrevista de testemunha. — Cadê o gravador? — A mulher se sentou, sem aproximar a cadeira nem um milímetro da mesa e agarrando-se à bolsa que tinha no colo. Karen sorriu. — Você está confundindo interrogatório de testemunhas com interrogatório de suspeitos. Você veio aqui para informar algo, não para ser interrogada sobre um crime. Por isso pode se sentar numa cadeira confortável e olhar pela janela. — Ela abriu seu bloco de anotações. — Creio que está aqui para informar sobre uma pessoa desaparecida. — Isso mesmo. O nome dele é... — Só um minuto. Preciso que você volte atrás um pouquinho. Para começar, qual é seu nome? — Michelle Gibson. Esse é meu nome de casada. Prentice é meu sobrenome de solteira. Todos, no entanto, me chamam de Misha. — Certo, Misha. Também preciso do seu endereço e telefone. Misha informou todos os detalhes. — Esse é o endereço da minha mãe. Estou meio que agindo em nome dela, se é que você me entende. Karen conhecia a cidadezinha, embora não a rua. Começara como um vilarejo construído pelo proprietário de terras local para alojar seus mineiros de carvão, numa época em que estes lhe pertenciam tanto quanto as minas. Terminou como uma cidade-dormitório para estranhos sem qualquer ligação com o lugar ou seu passado. — Mesmo assim — ela disse —, preciso de seus dados também. As sobrancelhas de Misha se abaixaram momentaneamente e, então, ela deu um endereço em Edimburgo. Não significava nada para Karen, cujo conhecimento da geografia social da capital, a apenas cinquenta quilômetros de distância, era provincianamente escasso. — E você quer informar sobre o desaparecimento de uma pessoa — ela disse. Misha fungou fortemente e assentiu com a cabeça. — Meu pai. Mick Prentice. Bem, Michael, na verdade, se é para ser exata.


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— E quando foi que seu pai desapareceu? — Ali, pensou Karen, era onde ficaria interessante. Se é que algum dia ficaria interessante. — Como eu disse para o cara lá embaixo, há vinte e dois anos e meio. Sexta-feira, 14 de dezembro de 1984, foi a última vez que o vimos. — As sobrancelhas de Misha Gibson se abaixaram numa expressão desafiadora. — É uma espera um tanto longa para se informar sobre um desaparecimento — disse Karen. Misha suspirou e virou a cabeça para olhar pela janela. — Não pensávamos que ele estivesse desaparecido. Não exatamente. — Não estou entendendo. O que quer dizer com “não exatamente”? Misha virou a cabeça e se deparou com o olhar fixo de Karen. — Você fala como alguém desta região. Curiosa sobre o rumo que aquilo tomaria, Karen respondeu: — Cresci em Methil. — Certo. Então, sem querer faltar com o respeito, mas você tem idade suficiente para se lembrar do que aconteceu em 1984. — A greve dos mineiros? Misha assentiu. Seu queixo continuou empinado e o olhar, desafiador. — Cresci em Newton of Wemyss. Meu pai era um mineiro. Antes da greve, ele trabalhava na mina Lady Charlotte. Você se lembra do que as pessoas costumavam dizer por aqui: que ninguém era mais militante do que os mineiros da Lady Charlotte. Mesmo assim, houve uma noite em dezembro, depois de nove meses de greve, em que meia dúzia deles desapareceu. Bem, eu digo desapareceu, mas todo mundo sabia qual era a verdade. Eles haviam ido para Nottingham se juntar aos fura-greves. — Seu rosto se franziu rigidamente, como se ela estivesse lutando contra uma dor física. — Com relação a cinco deles, ninguém ficou muito surpreso de que fizessem aquilo. Mas, segundo a minha mãe, todos ficaram perplexos ao saber que meu pai tinha ido com eles. Inclusive ela. — Lançou a Karen um olhar defensivo. — Eu era pequena demais para me lembrar. Mas todos dizem que ele era um sindicalista roxo. O último cara que esperariam que virasse um fura-greve. — Ela balançou a cabeça. — Porém, o que mais ela iria pensar? Karen entendia bem demais o que uma deserção como aquela devia ter significado para Misha e sua mãe. Na região carbonífera radical de Fife, a solidariedade era reservada apenas para aqueles que que aguentavam. A atitude de Mick Prentice teria conferido à sua família o status instantâneo de pária.


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— Não deve ter sido nada fácil para sua mãe — ela disse. — Em um aspecto, foi muito fácil. — Misha disse com amargura. — Para ela, aquilo era o fim. Ele estava morto e enterrado. Ela não queria mais saber dele. Ele enviava dinheiro, mas ela o doava para o fundo de emergência. Depois, quando a greve terminou, ela passou a doá-lo para a Assistência Social dos Mineiros. Fui criada numa casa em que o nome do meu pai jamais era pronunciado. Karen sentiu um aperto no peito, algo entre solidariedade e pena. — Ele nunca entrou em contato com vocês? — Só mandava o dinheiro. Sempre em notas gastas. Sempre com o carimbo do correio de Nottingham. — Misha, não quero parecer insensível, mas não me parece que seu pai seja uma pessoa desaparecida. — Karen tentou fazer sua voz soar o mais gentil possível. — Eu também não achava. Até que fui procurá-lo. Acredite em mim, inspetora. Ele não está onde se supunha. Nunca esteve. E preciso que o encontrem. O desespero óbvio na voz de Misha pegou Karen de surpresa. Para ela, aquilo era mais interessante do que o paradeiro de Mick Prentice. — Por quê? — ela perguntou.

Terça-feira, 19 de junho de 2007; Edimburgo Nunca havia passado pela cabeça de Misha Gibson contar o número de vezes em que havia saído do Hospital para Crianças Doentes com aquela sensação de ultraje pelo fato de que o mundo seguia seu caminho, a despeito do que estivesse acontecendo no hospital atrás dela. Nunca pensara em contar porque nunca havia se permitido acreditar que aquela poderia ser a última vez. Desde que os médicos haviam explicado a razão para os polegares deformados de Luke e para as manchas cor de café com leite espalhadas por suas costas estreitas, ela se apegara à convicção de que, de alguma forma, ela ajudaria o filho a se esquivar das balas que seus genes haviam atirado contra sua expectativa de vida. Agora, parecia que aquela convicção tinha, finalmente, sido testada ao extremo. Misha ficou insegura por um momento, ressentindo-se da luz do sol, desejando que o tempo estivesse tão sombrio quanto seu ânimo. Ela ainda


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não estava preparada para ir para casa. Queria gritar e atirar coisas, e um apartamento vazio iria tentá-la a perder o controle e fazer exatamente isso. John não estaria em casa para abraçá-la ou impedi-la; ele já devia saber sobre a reunião dela com o especialista; então, obviamente, teria surgido no trabalho alguma questão complexa com que só ele pudesse lidar. Em vez de dirigir-se a Marchmont, a seu conjunto habitacional de arenito, Misha atravessou a estrada movimentada até o parque Meadows, o pulmão verde do centro sul da cidade, onde ela adorava caminhar com Luke. Uma vez, quando ela procurara sua rua no Google Earth, havia também checado o Meadows. Do espaço, ele parecia uma bola de rúgbi rodeada de árvores, os caminhos cruzados parecendo as linhas que costuravam a bola. Ela sorrira ao pensar em si mesma e em Luke arrastando-se pela superfície como formigas. Hoje, não havia sorrisos para consolar Misha. Hoje, ela tinha de encarar o fato de que poderia nunca mais voltar a caminhar ali com Luke. Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos piegas. Café, era disso que ela precisava para raciocinar melhor e colocar as coisas em perspectiva. Uma caminhada rápida através do Meadows e, daí, atravessaria a Ponte George IV, onde cada loja, atualmente, era um bar, um café ou um restaurante. Dez minutos depois, Misha encontrava-se aninhada em uma mesa de fundo, com uma confortante caneca de latte à sua frente. Não era o fim. Ela não permitiria que fosse o fim. Tinha de haver alguma maneira de dar outra chance a Luke. Ela soubera que algo estava errado desde o primeiro instante em que o segurara nos braços. Mesmo aturdida pelos medicamentos e exaurida pelo trabalho de parto, ela soubera. John estava em estado de negação, recusando-se a dar qualquer importância ao baixo peso corporal do filho, ou àqueles polegares curtos demais. Mas o medo havia agarrado o coração de Misha com sua incerteza gélida. Luke era diferente. A única questão em sua mente, então, fora: quão diferente? O único aspecto da situação que havia se parecido remotamente à sorte era o fato de eles morarem em Edimburgo, a dez minutos a pé do Hospital Real para Crianças Doentes, uma instituição que aparecia regularmente nas histórias “milagrosas” que os tabloides tanto amavam. Não demorou muito


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para que os especialistas do hospital identificassem o problema. Nem para explicar que não haveria nenhum milagre, naquele caso. Anemia de Fanconi. Falando rápido, parecia um nome de tenor italiano; ou de uma cidadezinha numa colina da Toscana. Mas a musicalidade encantadora das palavras disfarçava seu conteúdo letal. Escondidos no DNA de ambos os pais de Luke havia genes recessivos, que tinham se combinado para criar uma condição rara que condenaria seu filho a uma vida curta e dolorosa. Em algum momento, entre as idades de três e doze anos, ele quase que certamente desenvolveria anemia aplástica, uma anomalia na medula óssea que, no fim, acabaria matando-o, a não ser que encontrasse um doador compatível. O veredito nu e cru era que, sem um transplante bem-sucedido de medula óssea, Luke teria sorte se vivesse até os vinte e poucos anos. Aquela informação dera a Misha uma missão. Ela logo descobriu que, sem irmãos, a melhor chance de um transplante viável de medula viria de algum membro da família; era o que os médicos chamavam de doador aparentado não compatível. A princípio, isso havia confundido Misha. Ela havia lido sobre os registros de transplante de medula e deduzido que sua melhor chance estava em encontrar um doador compatível ali. Mas, de acordo com o especialista, a doação de um membro da família não compatível, que compartilhasse de alguns genes de Luke, oferecia um risco menor de complicações do que a de um doador compatível que não tivesse qualquer parentesco com o paciente. Desde então, Misha vinha vasculhando as reservas genéticas dos dois lados da família, valendo-se de persuasão, chantagem emocional e até mesmo oferecendo recompensas a primos distantes e tias idosas. Aquilo havia consumido muito tempo, já que se tratava de uma missão solitária. John se fechara atrás de uma muralha de otimismo pouco realista. Haveria um avanço na pesquisa com células-tronco. Algum médico, em algum lugar, descobriria um tratamento cujo sucesso não dependesse de genes compartilhados. Um doador cem por cento compatível apareceria em algum registro. John colecionava boas histórias e finais felizes. Ele varria a Internet à procura de casos que provassem que os médicos estavam errados. Aparecia semanalmente com milagres médicos e curas aparentemente inexplicáveis. E deles tirava sua esperança. Não entendia a procura incessante de Misha. Sabia que, de alguma forma, tudo acabaria bem. Sua capacidade de negação era olímpica.


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Fazia com que Misha sentisse vontade de matá-lo. Em vez disso, ela havia continuado a escalar os galhos de sua árvore genealógica à procura do candidato perfeito. Havia se deparado com seu último beco sem saída apenas uma semana, mais ou menos, antes do terrível julgamento de hoje. Só restava uma possibilidade. E era precisamente aquela que havia rezado para não ter de levar em conta. Antes que seus pensamentos pudessem ir ainda mais longe naquele caminho em particular, uma sombra recaiu sobre ela. Ergueu os olhos, pronta para ser agressiva com quem quer que estivesse invadindo seu espaço. — John — ela disse, com cansaço. — Achei que te encontraria por aqui. Este é o terceiro lugar que tento — ele disse, deslizando para o assento, contorcendo-se desajeitadamente até ficar num ângulo reto com relação a ela, próximo o suficiente para que se tocassem, se algum deles quisesse. — Eu não estava preparada para enfrentar um apartamento vazio. — Não, isso eu posso ver. O que eles disseram? Seu rosto marcado se contorceu de ansiedade. Não por causa do veredito do especialista, pensou ela. Ele ainda acreditava que seu precioso filho era invencível, de alguma forma. O que deixava John ansioso era a reação dela. Estendeu a mão para tocar a dele, desejando o contato tanto quanto o consolo. — Está na hora. Seis meses no máximo, sem o transplante. — Sua voz parecia fria até mesmo para ela. Mas não podia se dar o luxo da emoção. A emoção derreteria seu estado congelado e ali não era o lugar para demonstrações de pesar ou amor. John apertou os dedos dela com força. — Talvez não seja tarde demais — ele disse. — Talvez eles... — Por favor, John. Agora não. Os ombros dele se endireitaram dentro do paletó, o corpo se tensionava conforme ele controlava sua discordância. — Então — ele disse, numa expiração que era mais um suspiro que outra coisa —, imagino que você vá procurar o filho da puta? * * *

Primeiro Capítulo de Domínio Sombrio, de Val McDermid  

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