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Nunca se case com uma mulher de pés grandes A representação da mulher no dito popular

Tradução Manuela Torres

Rio de Janeiro | 2012


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Prólogo A mãe de todas as ciências Parece-me, Sancho, que não há ditado que não seja verdadeiro, porque todos são observações retiradas da própria experiência, a Mãe de todas as Ciências. MIGUEL DE CERVANTES, Dom Quixote

Podemos entender a humanidade como um conjunto de parentes que não se deram ao trabalho de se reunir. Os membros das diversas culturas, e o mundo em geral, devem aprender a se comunicar uns com os outros.1 Como se aprende a pensar, a falar e a se reunir num âmbito global, não exclusivo? É preciso não somente obter informação e conhecimento sobre o que temos pensado, dito e escrito sobre nós mesmos e sobre outras pessoas como também nos familiarizar com o que pensam, dizem e escrevem outras pessoas acerca de si próprias e de nós. O conhecimento mútuo é uma chave fundamental da coexistência pacífica. A observação dos aspectos comuns a todos nós se revela muito proveitosa, e hoje, mais do que nunca, impõe-se como uma necessidade peremptória. É um ponto de partida muito melhor do que a constante insistência no “nós” em face do “eles”, naquele que “pertence ao grupo” em face do que “está excluído”, divisão que, no pior dos casos, projeta o eixo perigoso do bem e do mal entre o “nós” e o “eles”. Não é preciso dizer que quem procura diferenças só encontra diferenças, ao passo que quem indaga a semelhança observa as experiências comuns dos povos. O que temos em comum não é apenas fruto da globalização, como alguns pensam; é também fruto de antigas proposições universais, porque, além do físico, partilhamos algumas


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necessidades e experiências essenciais como seres humanos. Certas inscrições sumérias datadas de quatro mil anos apresentam pontos coincidentes com posteriores reflexões gregas, latinas, sânscritas ou chinesas, bem como africanas, asiáticas ou sul-americanas, transmitidas oralmente até nossos dias, apesar das diferenças culturais e das mudanças históricas de cada região. Provérbios sobre mulheres tendem a refletir o velho costume de opor o “nós” ao “eles”, não em termos culturais, mas em personificação sexual. É certo que hoje, pela primeira vez na História, homens e mulheres recebem uma educação igualitária e executam as mesmas tarefas; esta circunstância, porém, não se verifica em todo o mundo. Devemos ter em mente os inúmeros obstáculos concebidos e estimulados durante séculos para impedir essa igualdade. É significativo que muitos provérbios estigmatizem o acesso igualitário à educação e aos papéis sociais como algo indesejável, digno do pior pesadelo. Dediquei vários anos à comparação de textos escritos e orais de diversas origens culturais. Minha pesquisa sobre os provérbios foi um trabalho extenso e monumental, e também gratificante, sobre a história da humanidade. Durante os últimos anos fiz conferências sobre os resultados da pesquisa em diversos lugares e perante auditórios diversos: fóruns acadêmicos (em Nova York, Paris e Pequim, para citar apenas alguns), grupos de camponesas, crentes de diversos credos (judeus numa sinagoga de Leiden ou muçulmanos numa mesquita de Nairóbi, por exemplo), estudantes universitários, o Parlamento Europeu em Bruxelas etc. Uma conversa sobre provérbios é uma experiência maravilhosa que pode se desenrolar em qualquer nível social ou cultural. É algo que fascina todo mundo, visto que tem a ver com a própria existência. Provérbios sobre mulheres também falam de homens, de modo que este estudo também abarca o masculino. Parece-me revelador que qualquer povo possa compreender facilmente os provérbios sobre mulheres de culturas totalmente desconhecidas. Observações proverbiais sobre os elementos mais preocu14

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pantes da vida que partilhamos constituem um excelente ponto de partida para uma melhor compreensão mútua sem preconceito, hostilidade ou maniqueísmo. A análise global e concreta de nossos legados culturais, observados em termos fraternos, é uma extraordinária via para estabelecer pontes entre culturas.

Criação e procriação O melhor remédio contra a morte é dar à luz. (Fula: Camarões, Guiné, Nigéria)

Diz um antigo provérbio neoaramaico da antiga Mesopotâmia que homem e mulher foram moldados a partir do mesmo barro, e outro provérbio russo acrescenta, mil anos depois, que todos viemos ao mundo do mesmo modo. Talvez concordemos com ambos, mas então por que adquirem tanta importância as pequenas diferenças físicas entre os sexos? Se recuarmos ao início da existência, descobrimos que as questões relativas ao sexo e ao gênero estão expressas nas tradições orais do mundo inteiro, como nos mitos e histórias sobre o Gênesis, contos de fadas, fábulas, baladas ou canções de embalar — e provérbios. Esta “sabedoria” oral, transmitida de geração em geração, constitui uma história cultural fascinante. Os provérbios, o mais elíptico gênero literário que existe, são uma parte bastante eloquente dessa história da humanidade. É neles que se centra este trabalho; no entanto, antes de os analisar, um breve olhar sobre os mitos da criação poderá ser bastante esclarecedor. O velho ditado de que os homens e as mulheres são feitos do mesmo barro deve ter inspirado a história sobre a primeira mulher de Adão, criada por Deus a partir da mesma argila que moldou Adão. Não se chamava Eva, mas sim Lilith. O fato de terem sido criados em pé de igualdade gerou terríveis consequências, porque Lilith queria ficar por cima quando tinham relações sexuais, teimando no seu PRÓLOGO

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direito em fazê-lo. Segundo algumas variantes, Adão negou-se a tal, separou-se dela e repudiou-a, porém, em outras versões, foi ela que o abandonou. Lilith pronunciou o nome de Deus, fugiu do Paraíso e voou para o mar Vermelho. Deus enviou anjos para capturá-la e trazê-la de volta para junto de Adão, ameaçando-a de que, se não o fizesse, perderia uma centena de seus filhos demônios todos os dias, mas ela preferiu isso a voltar para Adão. Desde então, vingou-se de Eva (sua rival), estrangulando bebês e engolindo o esperma dos homens que dormem sós à noite.2 Aparentemente, ficar por cima durante a relação sexual é um sinal de poder. Na Tanzânia, assisti recentemente a uma discussão sobre quem tinha o direito a ficar com a guarda dos filhos depois do divórcio, se era o marido ou a esposa. A maior parte dos homens alegava que devia ser o marido, e um dos argumentos jocosos era o de que “é o homem que está por cima quando os filhos são concebidos”. Voltando a Lilith, a principal conclusão é a de que a igualdade entre os sexos não é uma boa ideia. Eva inspirou outras histórias sobre a origem, primeiro na cultura judaica e mais tarde no mundo árabe, na África e na Europa. Certas variantes põem em causa que Eva tenha sido criada a partir de uma costela de Adão, devido a um incidente que precedeu sua criação. Eis uma versão que ouvi da boca de um refugiado sudanês no Congo, há vários anos: Deus enviou do céu à terra o arcanjo Gabriel para arrancar uma costela do corpo de Adão enquanto ele dormia. No caminho de volta ao céu, Gabriel encontra o Diabo, que lhe diz: “Olá, Gabriel, como vai?” Gabriel responde com cortesia e segue seu caminho. O Diabo não deixou de reparar no curioso objeto que o arcanjo levava na mão e voou para junto dele. “O que é isso?”, perguntou-lhe, curioso. “Não é da sua conta”, respondeu Gabriel secamente. O Diabo insiste, mas o arcanjo permanece calado. Então, num rompante, o Diabo pega a costela de Gabriel, que de imediato o persegue. O Diabo consegue escapar de Gabriel, mas este

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não deixa de o perseguir, para não ter de regressar até Deus de mãos abanando. Durante muito tempo voaram e lutaram, até que o Diabo conseguiu libertar-se. Mas a perseguição não parou. Por fim, o arcanjo conseguiu agarrá-lo pela cauda. Claro que o Diabo fez tudo que pôde para se libertar, mas Gabriel segurou-o com força, até que, de repente, a cauda se partiu, e o Diabo conseguiu fugir. Como o arcanjo não foi capaz de reaver a costela de Adão, foi aquela parte do corpo do Diabo que entregou a Deus e foi com ela que a primeira mulher foi criada...

As mulheres sempre (pro)criaram com o corpo, ao passo que, no passado remoto, os homens não tinham tanta certeza de ter contribuído para o milagre da gravidez e do nascimento. Nos mitos da criação, curiosamente, o papel das mulheres na procriação foi ignorado. Na Bíblia, a criação de Adão e Eva é um desses casos: Eva nasce do corpo de Adão, e não o inverso. Em muitos mitos, omite-se a participação da mulher no nascimento e atribui-se a criação do ser humano à arte de um deus varão ou de um primeiro antepassado que o modela com as mãos a partir de uma matéria como o barro ou a terra ou por qualquer outro processo. O deus egípcio Atum-Rá, por exemplo, vomita gêmeos, enquanto que em outra variante os cria masturbando-se. Segundo uma narrativa oral dos cubas congoleses, a origem da humanidade remonta a uma dor de barriga de Deus; seu mal-estar é tão intenso que Ele vomita. Cria tudo a partir das suas entranhas: as plantas, as árvores, os seres humanos etc., e com eles vai povoando a terra. Um mito fang do Gabão explica que a primeira mulher surge a partir de um dedo do pé do primeiro homem, ou então é este que a cria com um tronco de madeira. Seja como for, não se sabe de onde provém a ideia desses criadores autossuficientes: seria um impulso natural para compensar, de forma intelectual, “aquilo que as mulheres produziam de forma física?”3 Mais próximos da realidade que os mitos, os provérbios reconhecem sem reservas a procriação como uma qualidade feminina PRÓLOGO

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indispensável, e a maternidade como uma dimensão essencial da vida: um provérbio twi de Gana diz que “é a mulher que gera o homem”. A capacidade de parir é considerada tão exclusiva que muitos provérbios exprimem não somente o respeito como também o temor perante este feito maravilhoso. Os mitos são relatos poderosos; dão origem a dogmas e a afirmações que os crentes assumem sem questionar. Os mitos confirmam e explicam que o “homem” criou a ordem a partir do caos e, por meio da cultura, conseguiu impor sua própria vontade sobre a natureza. Frequentemente, nas tradições orais, associam-se as mulheres ao caráter incontrolável da natureza. Muitos mitos descrevem a origem como uma época na qual as mulheres detinham o poder e os homens viam-se forçados a roubar-lhes os segredos, justificando tal fato com o argumento de que elas “possuíam tudo”. Essa posse incluía a capacidade de parir e ter um clitóris (interpretado como um pequeno pênis), além de uma vagina.4 O Gênesis e inúmeras outras passagens da Bíblia foram frequentemente interpretados pela teologia cristã como uma reafirmação da superioridade do homem sobre a mulher. Depois da morte de Jesus, a igualdade entre os sexos foi questionada pelo apóstolo Paulo, que afirmava que o “homem” era a cabeça da “mulher”; posteriormente, essa ideia foi adotada pelos padres da Igreja. Essa crença foi adquirindo maior influência do que as próprias palavras de Jesus, e assim é expressa em inúmeros provérbios. O mesmo se poderá dizer em relação à leitura do Corão pelos ulamas ou pelos intérpretes muçulmanos posteriores5 e à concepção ortodoxa da mulher hindu derivada dos antigos textos religiosos sânscritos.6 No que diz respeito ao budismo, a posição da mulher era avançada nos tempos de Buda. No entanto, depois da sua morte, deu-se uma regressão instigada por forças hostis a ela.7 A orientação dos mitos sobre a origem e dos provérbios sobre a mulher revelam uma busca de “equilíbrio” entre a reprodução e os demais domínios da vida, possivelmente o mesmo equilíbrio para o qual tende a monopolização masculina das religiões do mundo.

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Os provérbios referem-se a histórias, e estas aos provérbios. Assim, em muitos provérbios hebraicos e europeus, alude-se genericamente à mulher com o nome de “Eva” em tom de reprovação. Frequentemente, a narrativa bíblica do Gênesis reaparece nos provérbios, como, por exemplo, no provérbio russo “Não há nada de bom a esperar da nossa costela” ou no romeno “Até a melhor das mulheres esconde nas entranhas uma costela do Diabo”.8 Apesar de, ao contrário de Lilith, Eva não provir do mesmo barro que o homem, tinha, contudo, certas iniciativas indesejáveis em vez de adotar uma atitude humilde e obediente. O provérbio russo “‘Eu vou sozinha’, disse Eva, repelindo quem lhe mostrava o caminho para sair dos céus” reflete sua intransigência. Em alguns provérbios europeus, compara-se a esposa perfeita com a Virgem Maria bíblica, modesta e submissa. Os provérbios sublinham que essa mulher ideal é muito rara: “Abençoado aquele a quem Deus deu uma mulher como Maria.” Como fica evidente, Eva é apresentada como a antípoda de Maria. Por outro lado, nos provérbios de outras regiões surgem também referências às deusas míticas, como a deusa suméria dos cereais, Ezinu-Kusu, “Como planta mais doce que um marido, mais doce que uma mãe, Ezinu-Kusu viverá contigo em casa”; ou a deusa chinesa da misericórdia, Kuan Yin, “Quando jovem é uma Kuan Yin, quando velha é um macaco”. O legado da tradição oral é moral: ensina o que se deve fazer ou pensar numa determinada situação e formula certo aspecto do senso comum, os valores e os modos de agir.9 Dotados de autoridade, tais como outros textos orais e escritos, os provérbios descrevem como deveria ser o mundo de certa perspectiva. Essas sentenças contribuíram para a definição dos papéis e identidades sociais, e ainda exercem influência nos dias de hoje. Embora não saibamos se foi um homem ou uma mulher que inventou cada provérbio, podemos analisar os interesses em jogo. A natureza desses interesses e o modo como se definem em cada cultura — retórica e tematicamente — são

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questões que devemos ter presentes ao estudar os que se referem às mulheres, que é justamente o objetivo deste livro.

Compilação e análise dos provérbios Um velho provérbio nunca se gasta. (Russo)

Como a maior parte dos ocidentais, nunca dei grande atenção a provérbios até ter visitado a África. Nas culturas orais,10 continuam a ser “o óleo de palma com que se comem as palavras”, tal como os definiu certa vez o escritor nigeriano Chinua Achebe. Quando vivi no Congo, por vezes anotava os provérbios que ouvia, porque sua força poética me fascinava. Alguns anos depois, de volta à Europa, uma editora propôs-me editar um livro que foi publicado com o título Unheard Words: Women and Literature in Africa, the Arab World, Asia, the Caribbean and Latin America (1985). Decidi epigrafar cada uma das cinco partes, dedicadas a escritoras, com uma seleção de provérbios de cada região. Assim surgiu meu interesse por toda a fraseologia popular que versa sobre mulheres. Embora naquela época meu material fosse ainda reduzido, algo de inesperado aconteceu. Em contraste com a ideia preconcebida de que as culturas se caracterizam sobretudo pela diferença, encontrei notáveis semelhanças nos provérbios de todo o mundo. Será que, apesar das profundas diferenças entre culturas, não se tratava de uma coincidência? Se não era, eles brotavam de um solo comum? Para responder a tais questões, comecei a coletar provérbios, aonde quer que eu fosse, por mais de quinze anos. Consegui coletar meu material graças às contribuições entusiasmadas de uma multidão de pessoas de todas as partes do mundo. As pessoas comentavam e partilhavam comigo os provérbios, desde a feirante ao taxista, desde o merceeiro ao dono de restaurante, desde os funcionários e empregados de limpeza aos passageiros de ônibus, trem ou avião que viajavam ao meu lado. Também fui ajudada por muitos 20

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amigos, colegas e alunos de vários países. Quando reuni mais de 15 mil fontes escritas e orais em mais de 240 línguas de todos os continentes, relativas a todos os aspectos que provavelmente são comuns à vida das mulheres, tanto físicos como comportamentais, decidi que chegara o momento de estudar esse material tão enigmático a partir de uma perspectiva temática, como um corpus de textos comparáveis. Os provérbios e as variantes que se registram numa determinada cultura, língua ou região se repetem frequentemente em outros países. Como é possível? Os pesquisadores são muito categóricos quando afirmam que existem padrões na atribuição do status e das tarefas concretas na divisão do trabalho, apesar de esta ideia estar gradualmente se modificando: Em quase todas as sociedades, o homem está mais bem-posicionado do que a mulher; exerce mais poder, tem um status superior e goza de um maior grau de liberdade. É costume ser ele o chefe de família, tem mais influência nas questões legais, políticas e religiosas, alterna entre várias parceiras sexuais, frequentemente se casa com mais de uma mulher, tem liberdade para escolher a cônjuge, costuma morar perto dos parentes e tem maior acesso às bebidas alcoólicas e às drogas. Em contrapartida, a mulher costuma ficar relegada ou isolada durante a menstruação, partilha frequentemente o marido com outras mulheres, culpabiliza-se se não tem filhos, e vê-se obrigada a ceder ao homem os principais cargos públicos. O cuidado das crianças é a única tarefa em que a mulher exerce geralmente maior influência que o homem.11

A literatura oral desempenha uma função importante na consolidação das ideias consideradas “tradicionais”. Concretamente, os provérbios fornecem-nos uma rica série de reflexões sobre o corpo feminino, bem como um rico mosaico das consequências sociais associadas às diferenças sexuais entre os indivíduos. O ponto de partida deste livro é a constatação de que os provérbios sobre mulheres refletem a divisão de tarefas associadas ao sexo em todo o mundo. Precisei responder às seguintes perguntas:

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• Que dizem os provérbios sobre a mulher? • Por que as culturas acreditam que o homem e a mulher devem receber um tratamento diferente? • Os argumentos a favor da divisão dos papéis entre o homem e a mulher são semelhantes em todas as culturas? Que tipo de diferenças se observam?

Tentaremos responder a essas perguntas nos capítulos seguintes. Antes, entretanto, convém analisar outra questão: Como é possível que consigamos entender provérbios de culturas tão “díspares”? Como pertencemos todos à espécie humana e, até agora, habitamos o mesmo planeta, temos em comum com os nossos antepassados certas necessidades e impulsos primários — como comer, abrigarmonos e procriar — que determinam nossa existência, pelo menos em parte. A forma do nosso corpo determinou os papéis masculino e feminino; referimo-nos às “tradições culturais” das comunidades em que estas se impõem, e muitos provérbios referem-se, direta e metaforicamente, ao corpo feminino ou a partes dele, aos papéis do homem e da mulher, e às relações entre os sexos. Graças às características e experiências comuns, é possível assim compreender sem muita dificuldade vários provérbios fora da cultura de origem, mesmo traduzidos. Nesta perspectiva, é revelador o fato de ser possível entender sem dificuldade certos provérbios que provêm de culturas remotas. Observei esse reconhecimento imediato em grupos de diversas idades, origens sociais, culturas e continentes. Essa surpreendente compreensão intercultural se dá, sobretudo, com os provérbios que se baseiam na “experiência comum do corpo” e nas diferenças entre os sexos. Por outro lado, há outros que surgem em contextos culturais mais específicos e que, assim, são muito mais difíceis de entender sem informação complementar. É evidente que a comparação requer dados comparáveis. Para tal, convém aplicar a seguinte regra prática: “Quanto maior for a área 22

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geográfica que se pretende estudar, menor deverá ser a unidade de análise.”12 Assim, um corpus de provérbios, selecionados a partir do tema comum da mulher como “gênero”, é bastante adequado para se proceder à comparação. Por um lado, os provérbios são declarações concisas; por outro, a existência dos dois sexos é uma característica universal. Contudo, ao optar pela comparação intercultural, perdemos algo de vista — o significado adicional de cada cultura local no contexto “vivo” das situações citadas —, mas também adquirimos algo: neste caso, um novo conhecimento dos modelos de comportamento associados ao sexo. Com efeito, os provérbios mostram modos de entender a vida. Na sua forma musical, direta e franca, refletem não somente a peculiaridade cultural de cada região como também os traços comuns a todos os seres humanos, entre os quais o nosso corpo. As pessoas foram programadas a se comportarem como homens e mulheres sem terem consciência disso. As mensagens dos provérbios são um excelente indicador para determinar até que ponto continuamos apegados — individual ou socialmente — a ideias preconcebidas ou se desenvolvemos uma visão do mundo diferente da dos nossos antepassados. Consciente ou inconscientemente, todos nós recebemos a influência dessas mensagens, apesar das diferenças regionais ou locais, e apesar dos processos e mudanças históricas. Algumas ideias refletidas na fraseologia popular já não são tão evidentes como no passado, o que indica que as tradições estão mudando, sobretudo nas sociedades mais desenvolvidas. Essas mudanças registram-se, principalmente, em certos grupos privilegiados e influem muito menos na grande maioria, com menos oportunidades de acesso à educação e cujas ideias proverbiais a respeito dos papéis do homem e da mulher são geralmente bastante persistentes. No entanto, isso não significa que essas ideias já não estejam presentes no legado inconsciente e interiorizado dos grupos socialmente privilegiados, como se observa, por exemplo, na vida das mulheres que triunfam na esfera profissional e, por isso, têm dificuldade em encontrar um parceiro adequado.

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Os provérbios sobre a mulher ajudam a explicar como e por que as diferenças sexuais foram introduzindo uma defasagem em todo o mundo, que impediu que homens e mulheres partilhem as mesmas funções públicas e as mesmas responsabilidades no lar. Ao ensinar e preconizar a necessidade de conservar tal defasagem, baseada em diferenças físicas relativamente insignificantes, os provérbios reforçaram as hierarquias dominantes e estabeleceram imagens rígidas do que significa ser homem ou mulher, legitimando assim os papéis dos sexos. A outra face desta moeda é a estigmatização do homem e da mulher que não se adequam à conduta prescrita, condenados na mesma medida tanto pelos homens quanto pelas mulheres. Há que se levar em conta que os privilégios não se cedem facilmente; em geral, quem está habituado a delegar aos outros as tarefas desagradáveis deseja que essa situação se mantenha. Como observou a escritora francesa Madame de Sévigné, no século XVII: “A humilhação dos inferiores é necessária para a manutenção da ordem social”. Ou segundo um ditado alemão: “Um faz a cama e o outro se deita nela.” A generosa oferta de repartir de forma equitativa as tarefas mais penosas é muito pouco frequente entre aqueles que ostentam uma posição social dominante. Nesse sentido, o provérbio ruandês “um mau lar obriga-te a buscar água e lenha” significa que um homem se transforma em escravo da esposa se aceita substituí-la nessa “humilhante tarefa feminina”. Se a mulher não se adequa ao papel social que lhe cabe, passa a ser objeto de censura. Na Europa, por exemplo, essa mulher era acusada de “usar calças”, reprovação que é repetida com frequência nos provérbios. As advertências dirigidas ao homem, bem como as regras e preceitos impostos à mulher, revelam um alto grau de incerteza e medo de perda de status. Se as mulheres fossem tão servis como deveriam, segundo uma série infindável de prescrições e proscrições, os provérbios seriam completamente supérfluos. Ou não? Convém sublinhar que este livro não trata da “realidade”, pois a fraseologia popular não reflete o âmbito do “real”. Tais textos conden-

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sados representam modelos, bem como certos desvios reprováveis em relação a eles, segundo são concebidos por aqueles que defendem seus próprios interesses. A que modelos nos referimos? Como gênero popular, o provérbio cumpre e mantém a “tradição”, sem especificar exatamente de que tradição se trata. Esta obra, longe de representar a “realidade” da mulher no passado ou no presente, é um espelho misterioso no qual se refletem interesses, ideias e temores herdados, fundamentalmente masculinos, acerca da mulher “perfeita” e da mulher “depravada”, revelando ao mesmo tempo as ideias herdadas sobre o homem “perfeito” e sobre o homem “depravado”. Graças a uma série de imagens e comparações engenhosas, os provérbios produzem um efeito surpreendente e divertido. De certa forma, este livro também pode parecer inquietante, pois revela o predomínio da misoginia, sobretudo nos provérbios sobre a mulher casada, transmitidos de geração em geração em centenas de línguas diferentes de todo o mundo. Nos provérbios vemos refletidos todos os papéis associados ao gênero: papéis prescritos e incorporados, recusados e aclamados, antigos e atuais. O espelho mostra que os tempos e as imagens mudam e recorda-nos de que, devido à existência de tais legados, muitas mulheres ainda hoje têm menos liberdade que os homens.

Os provérbios e sua repercussão Agarra-te às palavras dos teus antepassados.13

Quantos de nós podemos citar provérbios de cor? No Ocidente, atualmente são muito menos frequentes que os slogans publicitários. Contudo, de vez em quando, surgem numa conversa ou num programa radiofônico ou televisivo e às vezes também nos discursos dos políticos. Os leitores ocidentais talvez julguem que os provérbios caíram em desuso na sociedade atual, mas o Penguin Dictionary of Proverbs sublinha a persistência do seu impacto: “Apesar de o provérbio ter sido abandonado, ele não foi falsificado.”14 Se é certo que sua impor-

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tância diminuiu nas culturas da escrita do século XXI, alguns são mais conhecidos do que seria de esperar. Quando eu citava exemplos chineses na China, as pessoas diziam conhecer muitos deles. Na África, quase toda a sociedade está familiarizada com os provérbios, “tem ouvido” para eles. Na Europa também ainda persistem. Num programa de rádio sobre este projeto, pediu-se aos ouvintes que telefonassem se se lembrassem de algum referente à mulher. Os cinco telefones do estúdio não pararam de tocar durante a hora de transmissão do programa, e mais tarde recebi inúmeras cartas com referências a esse tema. Portanto, o gênero não morreu; pelo contrário, é possível que o interesse pelo provérbio escrito esteja no auge, a julgar pelo número de antologias reimpressas nas últimas décadas. Paralelamente, os “provérbios orais” continuam vigentes na vida cotidiana das culturas de todo o mundo.

Um gênero ancestral Boca com barba não mente. (Bemba)

O provérbio nasceu muito antes da história escrita. Ao longo dos séculos, esse importante gênero foi transmitido através das tradições orais. Meu corpus baseia-se em fontes escritas e orais muito diversas, de todos os continentes. Os exemplos mais antigos datam de 2600-2550 a.C. Os provérbios sumérios inscritos nas tabuinhas de argila foram descobertos em 1963, a 150 quilômetros a sudeste de Bagdá, no entanto, as tradições orais são muito mais antigas. A única coisa que sabemos ao certo é a data aproximada da inscrição, o que não nos fornece nenhuma informação sobre as gerações anteriores que os transmitiram. O mesmo se poderá dizer dos provérbios em geral; na maior parte dos casos não sabemos quase nada sobre sua criação, sua antiguidade ou seu grau de difusão. O fato de serem utilizados ou de constarem em antologias escritas mostra que foram conservados e transmitidos, primeiro de

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forma oral e depois escrita, primeiro no âmbito local e depois no nacional, e hoje também no âmbito internacional, em muitos casos. Os provérbios foram definidos de muitas maneiras. Tendem a ser considerados como um fenômeno geral, aplicável a uma ampla variedade de contextos. Encerram uma discussão, resolvem um malentendido, disfarçam a ignorância ou dão um ar respeitável a uma má causa. Embora não exista nenhuma definição plenamente satisfatória e válida para todos os casos, são facilmente reconhecidos como tais por falantes e ouvintes. Podem ser descritos como expressões sucintas e engenhosas que encerram uma verdade estabelecida ou uma crença geral. As definições costumam destacar quatro características fundamentais: (1) forma artística concisa e fixa; (2) finalidade social de conservação e apreciação; (3) validade como princípio fidedigno; (4) origem anônima. Não é possível detectar a origem das fontes populares da fraseologia popular. Às vezes parecem provir das Sagradas Escrituras ou de textos literários que todos conhecem. Mesmo assim, nesses casos a influência costuma ser inversa: são os escritores que se inspiram na tradição oral. Isso significa que não sabemos quem os criou nem de quando datam, nem sequer de forma aproximada. Também significa que é impossível classificá-los historicamente. Alguns são provavelmente muito antigos e ainda citados na atualidade; outros já não se usam na língua de origem, porque esta já não existe, mas perduram em outras línguas, como acontece com vários provérbios latinos que continuam vivos em línguas derivadas na Europa. Em muitos casos, também não é possível saber com que frequência se empregavam no passado ou com que frequência são empregados atualmente, embora alguns sejam considerados muito populares, segundo apontam algumas de suas fontes. Em várias culturas, apresentam-se como um gênero a ser levado a sério. O ditado iorubá “Os provérbios são os cavalos da fala” mostra que estes servem para retomar o diálogo, se este se quebrou. Eis alguns exemplos:

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Cem provérbios, cem verdades. (Espanhol) Os provérbios são as filhas da experiência cotidiana. (Kriol; holandês) Os provérbios são a nata da linguagem. (Afar) Todos os provérbios caminham sobre padiolas. (Sueco)

Como funcionam, na prática, os provérbios e os ditados populares? Independentemente de a sua origem estar na sabedoria tradicional, no Talmude, na Bíblia, no Corão, nos Vedas, nos discursos dos líderes políticos ou religiosos ou nos textos de filósofos ou poetas, são utilizados como citações. Numa cultura oral, os mestres são — principal ou exclusivamente — chefes e anciãos que se remetem à tradição ancestral, da qual se consideram seus legítimos representantes. O provérbio é associado à sabedoria estabelecida. Sua capacidade de influência reforça-se com referências convincentes, como “A tradição nos ensina...” ou “Como diziam nossos antepassados...” Se a autoridade o diz, quem somos nós para remar contra a corrente de tais princípios tradicionais, religiosos e sensatos? Ao aludir à validade inquestionável da sabedoria, os falantes também conferem respeito e autoridade às suas próprias palavras. Como assinala um conhecido provérbio chona do Zimbábue de autoelogio: “As palavras dos homens não tropeçam.” Desse modo, permitem reafirmar os valores dominantes em benefício do falante e, em última instância, resolvem todas as questões, como confirma o provérbio chona: “Quem cita provérbios consegue o que quer.” Têm, pois, a função de legitimar certa distribuição dos papéis sociais, além de impedir seu questionamento. Nas sociedades com uma rica tradição oral, as pessoas se impressionam com aqueles que dispõem de um amplo acervo de provérbios e sabem utilizá-los no momento certo. Citar é uma arte, e as citações podem ser utilizadas para transmitir algo que, por alguma razão, não se quer dizer diretamente. Com efeito, o provérbio produz uma sensação de desapego e de generalização; permite ao falante distanciar-se e abordar temas espinhosos de forma indireta e engenhosa, com o

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objetivo de exprimir, sem qualquer risco, aquilo que pretende dizer, pois não se responsabiliza pessoalmente por uma “sentença” tradicional. Nesse sentido, a citação converte-se num modo certeiro de criticar, ridicularizar ou até insultar. Como legado cultural, segundo nos relataram quase todas as fontes, os provérbios, pela sua própria natureza, consolidam as normas e os valores da sociedade. Não é costume ter em conta o fato de os valores dominantes serem os dos dirigentes. Quem os usa dá como certa a aceitação coletiva da norma dominante.15 As pessoas tendem a considerar que os tempos passados foram melhores, e adotam um estilo melífluo quando se fala de tradições proverbiais. Seja como for, é evidente que nesse ponto é necessária certa cautela.16

Meios de comunicação Os provérbios são como as borboletas, uns são caçados e outros conseguem escapar. (Alemão)

Os provérbios não são apenas transmitidos oralmente, são também impressos em livros e dicionários, revistas ou jornais, bem como em obras clássicas. O Dom Quixote de Cervantes é um exemplo característico, bem como os primeiros romances de Chinua Achebe, na África, ou a obra do famoso romancista chinês do século XVI, Luo Guanzhong. No mundo inteiro, provérbios e ditados foram transcritos e publicados numa série crescente de compilações e dicionários nacionais ou internacionais. Também foram descobertos em outros suportes: transcritos em pratos, cartazes, jarras, taças, vasilhas e outros objetos vendidos em lojinhas para turistas. Para animar sua clientela, uma cabeleireira de Dacca colou um provérbio bengali na parte superior do espelho, que dizia: “A felicidade da família depende da virtude da mulher.” Ao qual acrescentou por conta própria: “Mas somente se esta tiver a seu lado

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um homem virtuoso.”17 Na África, podemos encontrar ditados e provérbios de todo tipo em espaços coletivos como cafés ou transportes públicos. As inscrições dos automóveis nem sempre são provérbios ou ditados populares de tradição oral; no entanto, quando o são, costumam aludir às relações entre os sexos. Por exemplo: “O homem sofre e a mulher não fica sabendo”; “Sem negócio não há esposa”; “Uma mulher bela nunca se conforma com um único homem” ou “Teme a mulher e brinca com as víboras”.18 Apesar de a maior parte deles ser transmitida verbalmente — quer de forma oral, quer num formato escrito ou impresso —, há alguns que também circulam através de outros meios: gravados nas tampas das panelas, inscritos em cabaças, bordados ou estampados em tecidos ou representados em obras pictóricas. Na África, é costume ser transmitidos por meios muito mais variados do que em outras partes do mundo: é o caso do som dos tambores, por exemplo, bem como de outros signos e símbolos. Também na África as mensagens são por vezes transmitidas por meio de um tipo de saia (também designada por pano, lappa, leza ou capulana) usado pelas mulheres; sua função social é refletir o modo como se desenrolam as disputas domésticas entre as várias mulheres do mesmo marido. Por exemplo, se o nó está atado atrás e não à frente, como é o normal, alude-se ao ditado: “Uma tola chegou depois de mim”, referindo-se à coesposa com a qual o marido decidiu se casar ou com quem já se casou contra a vontade da primeira esposa.19 O marido também recebe mensagens da esposa através da roupa. Por exemplo, ela pode recordar-lhe o velho provérbio de que “um bom marido é caro”, que também é o nome de um tecido muito cobiçado pelas mulheres.20 Outros canais visuais pelos quais os provérbios são transmitidos entre os akan, de Gana, são os desenhos dos mantos funerários (adinkra), o colorido traje kente, que alude a objetos significativos de determinada cultura, entre outros.21 Uma forma bastante original de transmissão não verbal é a mensagem gravada nas tampas das panelas, um costume que, tanto quanto pude apurar, só é seguido pelas mulheres fiotes,22 que vivem em 30

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Cabinda, um enclave angolano. As tampas das panelas são utilizadas para dizer verdades que as mulheres não podem dizer aos maridos. São tampas redondas, de uns vinte centímetros de diâmetro, nas quais são gravadas imagens em relevo exprimindo um provérbio ou ditado. Tradicionalmente, o casal não come junto; os homens do clã reúnem-se no templo para comer. Em situações normais, as esposas preparam a comida dos maridos num recipiente de barro, cobrem-no com uma folha de bananeira e pedem a um menino que o leve ao templo. Quando uma esposa está descontente com o comportamento do marido, ou quando ambos discutem, recorre a um provérbio significativo do seu próprio acervo ou pede a um artesão que crie uma nova tampa, segundo suas instruções. A tampa substitui a folha de bananeira habitual, de modo que, quando chega a comida, com a tampa gravada, o escândalo é evidente: O quê? Uma tampa especial? De quem é e o que significa? O marido em questão vê-se obrigado a confessar o problema e provoca um grande alvoroço. A queixa pode dever-se à preguiça, impotência ou avareza do marido, à insatisfação sexual da mulher ou às objeções desta perante a chegada de uma segunda esposa. Se ele diz não entender a mensagem, um especialista examina a tampa e, em função do veredicto, o marido recebe conselhos dos seus companheiros. Por exemplo, o relevo pode mostrar uma panela sobre três pedras, o que, nesse caso, significa que “três pedras sustentam a panela; no matrimônio, uma mulher tem três direitos: roupa, comida e sexo”. Nesse caso, a mensagem é uma queixa relativa a algum dos direitos conjugais. Esse meio especial de comunicação tem algumas vantagens notáveis. Por exemplo, a mulher evita o primeiro acesso de cólera do marido, visto que não está presente quando este recebe a mensagem. Além disso, o marido costuma moderar sua reação na presença dos outros membros do clã. O código da tampa mostra que, por uma questão de tato, a esposa evita o confronto direto e prefere tratar os temas delicados da vida conjugal de modo indireto. Nesse sentido, muitos provérbios confirmam que as mulheres não têm o direito de

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falar. A comunicação artística através da tampa na cultura fiote partilha com outras formas não orais a utilização de canais diferentes do da voz, o que confere às mensagens uma dimensão adicional, velada e sutil.

Mil e uma formas de falar da mulher Um provérbio é o adorno da fala. (Persa)

Os provérbios revelam diversas semelhanças, tanto na sua formulação como nos seus recursos poéticos, e são facilmente reconhecíveis pela sua fórmula compacta. É curiosa a semelhança de algumas formulações provenientes de diferentes partes do mundo.23 Eis alguns exemplos mais frequentes: • A é (como) B: Uma casa cheia de filhas é (como) uma taberna cheia de cerveja amarga. (Alemão; holandês) Uma mulher bela é (como) festa para os olhos e solidão para a alma. (Filipino) Uma mulher é (como) uma muralha protetora para o marido. (Hebraico) • A não é (como) B: A mulher não é (como) uma espiga, que se valoriza ao ser desfolhada. (Baúle) Um mau marido às vezes é um bom pai, mas uma má esposa nunca é uma boa mãe. (Espanhol) Tua mulher não é um xale de culto que trocas por outro quando já não te agrada. (Hebraico)

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• Não há A sem B: Não há moça sem espelho nem velha sem conselho. (Espanhol) Não há noiva sem véu nem mulher sem ciúme. (Ladino) Não há mulher sem encantos nem poeta sem rum. (Português: Brasil) • É melhor A que B: É melhor uma esposa tonta do que uma casa arruinada. (Bassari) É melhor viver com um dragão do que com uma má mulher. (Inglês: Reino Unido) É melhor morrer de fome do que comer a comida do gato; é melhor morrer de frio do que vestir roupa de velha. (Chinês) • Se A, então B: Se a velha dança, convida a morte para casa. (Alemão) Ainda que o pai não se comporte como pai, a filha deve comportar-se como filha. (Chinês) Se uma mulher não quer dançar, diz que é porque a saia é curta. (Inglês: Jamaica) • Provérbios em estilo direto:24 “Respeitada!”, disse a noiva ao saber que estava grávida. (Oromo) “Mais por pontaria que por acaso”, disse o homem quando, ao atirar uma pedra ao cão, acertou na sogra. (Dinamarquês) “A verdade é dura”, disse o homem e bateu com a Bíblia na cabeça da mulher. (Frísio) A forma concisa, os recursos estilísticos surpreendentes, a rima e a métrica, bem como outros desvios da fala habitual fazem dos provérbios um gênero facilmente reconhecível. Os recursos poéticos uti-

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lizados são tão numerosos que só será possível fazer referência aqui aos mais frequentes. As principais figuras de estilo são metáforas, metonímias e símiles. São tão comuns nos provérbios que merecem atenção especial no capítulo 5. Muitos provérbios transmitem exatamente a mesma ideia; são sinônimos, embora a ideia seja expressa através de imagens diferentes. É o que acontece, por exemplo, com a ideia de que o mundo está superlotado de mulheres: As mulheres são como os sapatos, sempre podem ser trocadas. (Rajastani: Índia) As mulheres são como os ônibus: quando um parte, outro chega. (Espanhol: Venezuela)

O provérbio minianka “Até uma velha cabaça tem a sua utilidade” é um exemplo de personificação. Não somente se personificam animais como também partes do corpo e todo tipo de objetos inertes que, portanto, adquirem capacidade de raciocínio ou de atuação, como no provérbio kirundi “As costas da mãe pecam quando está sentada” (Rundi). O feno não segue o cavalo” (Holandês). O exagero é outro recurso interessante, como podemos observar no provérbio ashanti “Mil mulheres, mil confusões”; no provérbio japonês “O amor transforma as marcas de varíola em covinhas”; e no provérbio chinês “Morrer de fome é um mal menor; o mal maior é perder a castidade.” Geralmente os provérbios costumam ter apenas uma frase, raras vezes mais de duas. Já falamos sobre seu estilo conciso. Em alguns casos, é um estilo quase telegráfico: omitem-se algumas palavras — sobretudo artigos, verbos, pronomes —, de forma que o resultado pode chegar a ser bastante críptico. O exemplo bengali do Bangladesh “Um charuto grande e uma mulher pequena” exprime laconicamente que ambos os elementos fazem parte da boa vida, desde que tenham as dimensões adequadas. O ditado popular uólofe do Senegal “sobre-

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nome mulher-esposa: Sim. Não vás, fico; não fales, calo-me; não faças, renuncio” pode, à primeira vista, parecer enigmático, pelo seu estilo telegráfico. Quer dizer que o sobrenome da mulher que se casa é “Sim”; se alguém disser: “Não vás”, ela responderá: “Fico”; se lhe disserem “Não fales”, ela responderá: “Calo-me”; e se alguém disser “Não faças”, ela dirá “Renuncio”. Em muitas ocasiões, é costume utilizar paralelismos, ou seja, uma repetição com uma ligeira diferença. O paralelismo formal de verbos ou adjetivos reforça as semelhanças ao mesmo tempo que sublinha os contrastes de significado, como acontece com o verbo “ter” no exemplo tigrínia da Eritreia “Ter uma filha é ter um problema”; no japonês “Sabedoria de mulher, sabedoria de macaco” e no vietnamita “O barco segue o leme, a mulher segue o homem”. Por sua vez, certos recursos como a assonância, a aliteração, a rima, o ritmo, a repetição ou o jogo de palavras, para citar apenas alguns, são por vezes intraduzíveis, apesar de alguns filólogos considerarem que todas as línguas são traduzíveis e compreensíveis para os falantes não nativos.25 Infelizmente, na maior parte das vezes, perde-se a rima, ainda assim, porém, muitos conservam toda a sua expressividade na tradução, e, sem esta, nunca seriam acessíveis a quem não conhece a língua de origem.26 Uma última característica formal é o uso frequente de estereótipos. Os que versam sobre mulheres costumam recorrer a certas características estereotipadas relativas ao corpo, à idade, ao sexo e à estatura para destacar determinadas características e ignorar outras. Essas características “típicas” presentes nos provérbios pretendem anular a independência de critério dos ouvintes, de forma a que todos aceitem automaticamente as ideias expostas. É o mesmo uso do clichê e da retórica que se observa, por exemplo, na publicidade. Em alguns, o sexo do falante parece evidente. Uma mulher seria capaz de dizer, como no provérbio alemão: “As mulheres e os bifes, quanto mais batidos melhores”? Ou o provérbio ruandês “A mulher é como a cabra: amarra-a onde crescem os espinhos”? Ou o provérbio japonês “Nunca confies numa mulher, mesmo que te tenha dado sete filhos”? PRÓLOGO

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É bastante improvável que alguém formule afirmações tão negativas sobre o próprio grupo. Mas nem tudo é tão simples, pois... de que grupo falamos? Antes de mais nada é uma questão de pertencimento e de posicionamento. O exemplo lingala “Comer com uma mulher é comer com uma bruxa” esclarece esse ponto. Na República Democrática do Congo há situações em que uma mulher, sobretudo se for mãe, usa provérbios para alertar o filho, especialmente quando se aproxima o dia do casamento. Recorre ao provérbio para alertar contra sua futura esposa, de cujas intenções deve suspeitar. Do ponto de vista materno, é “natural” posicionar-se a favor do filho contra a nora, visto que o principal interesse da mãe repousa nos seus parentes consanguíneos, especialmente o próprio filho. Dessa perspectiva, a futura nora é uma rival pouco confiável. No caso da nora, como em outros, as estratégias e os interesses cumprem uma função essencial. Na verdade, a mulher não tem em mente esfacelar seu próprio grupo, e não o faz de todo. No entanto, não considera dever lealdade ao restante das mulheres. Os interesses e as lealdades são uma questão muito complexa, e os provérbios sobre mulheres não podem ser reduzidos a uma mera contraposição de gênero.

A mesma mensagem em contextos diferentes Algo deve acontecer para que seja necessário um provérbio. (Ibo)

Antes de passar ao corpo feminino, gostaria de apontar outros aspectos gerais do provérbio. Em primeiro lugar, alguns especialistas assinalam o fato de ele adquirir seu significado contextual somente quando é empregado.27 Concordo que, cada vez que se cita um, novos matizes de significado são acrescentados, suscetíveis de estudo específico. No entanto, existe também, em cada provérbio, um núcleo significativo constante, independente do contexto. Dada a natureza do nosso material — um vasto corpus de diversas origens —, adotaremos uma

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perspectiva comparativa centrada na mensagem e significado intrínsecos de provérbios de todo o mundo.28 Gostaria de colocar outra questão: os provérbios contradizem-se ou neutralizam-se entre si? Este parece ser um aspecto pouco relevante no uso cotidiano dos provérbios. Pensemos, por exemplo, no tema da monogamia em face da poligamia nos exemplos balubas (Congo) “Ter uma única esposa é viver com um único olho” e “Se te casas com duas, morrerás jovem”. Ambos mostram as vantagens e os inconvenientes de cada opção, de modo que, consoante as preferências pessoais, podemos escolher entre uma ou outra fórmula. Trata-se de uma questão de estratégia. Finalmente, convém ressaltar também seu significado literário e metafórico. É costume afirmar que existem dois tipos de provérbios: (1) afirmações diretas em sua formulação e (2) provérbios considerados metafóricos em sua origem. Pode aplicar-se a mesma distinção aos que concernem ao sexo. Em primeiro lugar, há exemplos que se referem explicitamente a mulheres e a homens, filhas e filhos, mães e pais, ou a partes do corpo específicas: seios e barbas, vaginas e pênis. Estes levam o corpo a sério, em relação àqueles que os citam, como neste exemplo oromo: “O homem carrega e urina com o que tem”, no qual se indica que o varão deve tirar proveito de sua anatomia, ao mesmo tempo que são sublinhadas as diferenças sexuais entre ambos os sexos. Tais provérbios sobre o corpo ou sobre diversas categorias de homens e de mulheres podem ser usados ou não para destacar algum aspecto relativo ao sexo. Em segundo lugar, há outros que não aludem diretamente às características físicas, sendo “tradicionalmente” considerados como mensagens mais apropriadas para apontar os papéis e as relações ideais ou desviantes de cada sexo. É o caso do crioulo (Trinidad e Tobago) “Arranja uma gaiola antes de teres um pássaro”, cujo significado é que o homem deve ter uma casa antes de se casar. Não é fácil separar ambas as categorias em todos os casos. A literalidade é sempre um conceito problemático: onde termina e onde começa o sentido metafórico? Os ditados são, por vezes, concebidos

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como o guarda-chuva que abrange todos os provérbios, máximas e preceitos, ao passo que, em outros casos, se definem como simples “afirmações diretas”, não metafóricas, em face dos autênticos provérbios metafóricos. Assim, o provérbio ashanti (Gana) “A galinha sabe quando é manhã, mas olha para o bico do galo” não é uma lição de história natural, antes pretende demonstrar à mulher que é o homem que tem a palavra, e não ela. Uma vez metafórico, é considerado como um “provérbio autêntico”. Este livro aborda também as chamadas “máximas diretas” como exemplos não rejeitados do gênero dos provérbios (ao contrário do que defendem certos especialistas), que são incluídas sempre que, de certa forma, aludam à mulher. Poderíamos citar o ditado espanhol “Uma noite de trabalho e no fim só uma filha” como exemplo literal ou metafórico, que exprime a decepção perante os escassos frutos de um grande esforço. Nesse caso, não persiste, sob a superfície, a desvalorização do nascimento de uma filha. Em baúle (Costa do Marfim), um homem pobre lamenta seu azar citando o ditado popular: “É indiferente que a viúva esteja ou não menstruada.” Literalmente, significa que, naquela sociedade, uma viúva não tem direito a ter relações sexuais, tal como acontece a qualquer outra mulher durante a menstruação. Nesse caso, o homem refere-se à miséria em que vive: para ele não há diferença entre dias vulgares e dias de festa, pois sua situação é sempre monótona e deprimente. Assim, o comentário “senso-comum” sobre as diferenças entre sexos, que é assumido como normal, torna-se metafórico quando se aplica a outro aspecto da vida. Por conseguinte, a distinção entre o plano literal e metafórico não parece adequada nesse caso. O exemplo demonstra que as afirmações diretas não podem se distinguir dos chamados “provérbios autênticos” (ou metafóricos), porque podem assumir significados metafóricos inesperados. Contudo, também não se perde o significado direto original. Apesar de o provérbio baúle sobre a viúva ser usado num sentido completamente novo e imprevisto, subsiste o “núcleo principal”, pois continua a lembrar ao ouvinte que a liberdade da viúva é restringida na cultura baúle. 38

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Para efeitos deste trabalho, foram compilados tanto os provérbios que se referem literalmente às mulheres como os que aludem a elas num plano metafórico em sua formulação original. Ambas as categorias fornecem informação sobre as mulheres em sentidos diversos: diretamente, em observações, recomendações, prescrições etc.; e, indiretamente, por meio de mensagens que utilizam uma linguagem metafórica e imagens de todo tipo. É evidente que a segunda categoria pode exigir mais conhecimento contextual para identificar a leitura relativa ao sexo. Acrescentamos algumas explicações nos casos em que tal foi considerado necessário. Os provérbios exageram, idealizam, simplificam, criam estereótipos, debocham, ridicularizam e, em sua utilização contextual, sua verdade subjacente é menos relevante que seu significado potencial. Assim, nos contextos locais, o peso das posições misóginas, muito presentes nos provérbios, pode ser contrabalanceado com o debate e a ironia. Seu valor no contexto depende do que convém ao falante para sua argumentação.29 No entanto, aqueles que aludem às diferenças entre sexos constituem uma perspectiva dominante. Foram considerados 15.735 exemplos encontrados em fontes escritas ou em conversas orais. Os provérbios foram analisados como parte de um gênero intercultural difuso, no sentido mais amplo do termo. É surpreendente o predomínio dos que representam a perspectiva masculina, que defendem a superioridade, os interesses e os privilégios masculinos. A “verdade” que apresentam esconde sempre interesses ocultos. Raras vezes afloram as “verdades” correspondentes à perspectiva da mulher, e não somente nos provérbios. Do mesmo modo que em quase todas as sociedades a mulher fica excluída das funções e dos espaços públicos, sua perspectiva também não costuma refletir-se nos provérbios que compilei a partir de fontes orais e escritas — sobretudo dicionários e repertórios fraseológicos — apesar de ter procurado especialmente por esse tipo de material. É sempre difícil estudar de forma sistemática os pensamentos e as ideias das mulheres no passado, pois dispomos de muito pouco material

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escrito. Os provérbios não constituem exceção à regra da história da humanidade, na qual a perspectiva e a voz femininas, sobretudo se controversas, são parte apenas recente do espaço público. É provável que a maioria silenciosa das nossas antepassadas se moldasse à ordem social dominante, que a maior parte dos provérbios apresenta como a “ordem natural”. No entanto, diante do que seria de esperar, a enorme influência e poder da mulher está muito presente nos provérbios, como veremos neste estudo.

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Nunca se case com uma mulher de pés grandes - Primeiro Capítulo