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Fabio Genovesi

ISCAS VIVAS

Tradução Diego Silveira

Rio de Janeiro | 2013

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Galileu era um idiota (verão de 2005)

Um... Dois... Contamos. A água do canal é rasa e escura, parece uma foto tremida da lama. É uma tarde de julho de 2005, nós olhamos a água e contamos. Nós somos Stefano, Silvia e eu, que infelizmente me chamo Fiorenzo. Não falta muito, temos apenas que chegar até dez. Contar é legal, transmite a sensação de algo fácil e seguro, exatamente como a matemática, e você se sente tranquilo, porque a matemática é perfeita e, se você confiar nela, jamais vai errar, já dizia Galileu. Só que Galileu era um idiota. Exato. Galileu Galilei, que era de Pisa, e por isso dá nome a todas as escolas daqui, foi tema da prova e do trabalho de ciências de todos os meus colegas da nona série. Eu, para ser diferente, preferi falar sobre energia nuclear, que não me interessa nem um pouco, mas o importante era não dar atenção para ele. Que inventou um monte de coisas e um dia escreveu que a Terra girava em torno do Sol, e o papa decidiu queimá-lo vivo, e então ele disse: Não, desculpe, eu me enganei, é tudo mentira. 9

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Mas não é por isso que ele era um idiota. Galileu era um idiota porque afirmou que a natureza é como um livro aberto diante de nossos olhos, e esse livro é escrito em uma língua que é a matemática. Enfim, para ele, todas as coisas do mundo e da vida, as pessoas e as árvores e as conchinhas e as estrelas e os cavalos-marinhos e os semáforos e as medusas, tudo, absolutamente tudo, pode ser entendido através dos números e das figuras geométricas. O que, convenhamos, é uma bobagem gigantesca, e, se fosse eu quem soltasse essa pérola, com certeza me mandariam para aquele lugar, e teriam razão. No entanto, quem disse foi Galileu Galilei, e então deve ser verdade mesmo, porque ele era um gênio e vivia em uma época em que todos eram gênios ou artistas e não passavam o tempo fazendo compras, vendo televisão ou indo ao bar... Não, eles criavam poesias ou quadros ou leis científicas importantíssimas, exatamente como essa. Mas isso é bobagem. Na época de Galileu nem existia bicicleta. Muito menos eletricidade. E, quando eles ficavam apertados, se aliviavam em um balde nojento e depois jogavam tudo pela janela, sem olhar se passava alguém na rua. Pô, nem sequer sabiam fazer gelo, e tinha gente que vinha das montanhas para vender neve. Os caras compravam neve! E nós aqui dizendo que antigamente tudo era maravilhoso e profundo, e que agora somos todos uns idiotas inúteis... O que, aliás, é verdade, nós somos idiotas, só que sempre fomos assim, desde os tempos das cavernas até hoje à tarde, quando Stefano, Silvia e eu chegamos à beira do canal e começamos a contar. E, em matéria de idiotice, com tudo aquilo que está para me acontecer, eu passo por cima de qualquer um brincando. Três... Quatro... Segundo o livro da natureza, podemos contar até dez. Ou melhor, devemos. Se não, o rojão toca a água muito rápido e se apaga antes 10

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Iscas vivas do estampido. Fizemos um monte de testes, o fundo do canal está cheio de rojões sem estourar, apesar de a água ser muito escura e não deixar ver direito. Mas, se você acender e esperar dez segundos para lançar, a chama já estará tão próxima da pólvora que a água não poderá mais apagá-lo. O rojão voa para dentro do canal, afunda e então estoura, e vêm à tona bolhas, lama e os bichos que têm coragem de viver lá embaixo. Peixes, enguias e rãs cessam de existir como mágica e emergem à superfície todos juntos de barriga para cima. Do morro, avistam-se apenas as barrigas inchadas, bem mortas, que parecem listras brancas. No entanto, a listra que vimos hoje de manhã era outra. Era negra e imensa, vivíssima, era um dorso vistoso que se movia sem pressa e fendia a água em duas. Pronto, agora é oficial, o monstro do canal existe, não restam dúvidas. Até hoje, apenas o Stefano tinha visto, mas ele não é um sujeito confiável. Stefano é do tipo que acorda a mãe para acompanhá-lo ao banheiro à noite. Pois bem, hoje de manhã nós três o vimos. E como não ver com todo aquele tamanho? Estávamos pescando, sentados na lama seca da beira do canal, e, puta que o pariu, apareceu aquela coisa medonha. Stefano gritou que era um tubarão, Silvia berrou que era um golfinho, mas não podia ser nem um nem outro, porque os dois vivem no mar. Quer dizer, na Amazônia existem golfinhos quase cegos que vivem nos rios. Só que não estamos na Amazônia, mas na província de Pisa, e isso não é um rio, mas um canal de irrigação estreito, que fede a adubo. Enfim, o monstro não pode ser um golfinho, nem um tubarão, então o que é? Para descobrir, só havia um jeito, e dessa vez não bastava um rojão, o assunto era sério. Seis rojões de vara seis, modelo magnum profissional, amarrados por uma fita isolante prateada. Stefano disse: Será que não é demais? 11

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com aquele tom choroso que dá raiva. Silvia e eu nem respondemos, fizemos cara feia e enrolamos a fita na ponta dos rojões, bem apertada. Ficou parecendo um único rojão gigante, uma bomba de mão. Mais do que isso, só chamando o Exército. Cinco... Seis... A discussão para decidir quem ia lançar a bomba durou meia hora. Stefano balançava a cabeça, chutava a terra do chão, levantando poeira, e resmungava que “Não é justo, vocês se aproveitam porque eu sou mais fraco”. Depois, entendemos que ele insistia para não lançar, explicamos a situação e ele não criou mais problemas. Ao contrário, afastou-se um pouco e se pôs a contemplar a cena todo emocionado. Entre mim e Silvia a coisa foi mais complicada. É verdade que a ideia da superbomba era minha, mas o dinheiro para os rojões foi ela quem deu e, portanto, estávamos empatados. E, como sempre que os argumentos não são suficientes, decidimos no par ou ímpar. Um, dois e já! Ímpar. Ganhei. Trata-se de um momento muito especial: a última vez da minha vida que ganho no par ou ímpar. Ou melhor, pelo menos com esta mão, a direita. Que agora mal segura a bomba de tão grande. Sinto a palma de minha mão carregada de potência, de fogo e pólvora, sou o rei do canal. E você, caro monstro, você pensa que é mais forte, não é? Ok, então me diga se gosta desse pirulito. O braço dobra para trás lentamente, a manga da camiseta se encolhe, ouço o barulho das seis chamas que queimam juntas. Parecem um sopro, mas um sopro fortíssimo, tipo um ninho de serpentes ou o ruído da turbina de um caça ou dos jatos de vapor de Larderello. Tudo é poderoso, tudo é magnífico. 12

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Iscas vivas Contamos juntos em voz alta, gritamos cada vez mais, os números passam, precisos e metódicos, e nós somos como eles, firmes e seguros e belos... Sete... Oito... Bum. Meus ouvidos assobiam. Vejo Stefano, que foge e grita, não consigo ouvi-lo, mas percebo que ele chora. Silvia, por sua vez, está na minha frente, imóvel, e me fita um pouco mais abaixo do rosto. Sigo seu olhar e vejo o que ela vê. O vazio. Bem, agora estamos em 2010, já se passaram alguns anos, mas essa coisa do vazio continuou gravada dentro de mim. O resto da história talvez não tenha sido exatamente assim, a fita isolante talvez não fosse prateada, o que havia no canal talvez não fosse mais que um tronco que, por conta do calor e da água poluída, parecia um monstro. Mas aquela estranha sensação de vazio continua aqui, igual, idêntica, não me saiu da cabeça até hoje. Porque o verdadeiro vazio é algo terrível. O verdadeiro vazio não é o nada. O nada é pouco demais. Duas cenas para explicar melhor. Cena um: você chega a um quarto de hotel e abre uma gaveta para guardar sua roupa, a gaveta está vazia e você começa a colocar dentro dela cuecas, camisetas e meias. Cena dois: você volta para casa. Na última gaveta do armário, você guarda todo o seu dinheiro, escondido em uma caixa de sapatos. Você se abaixa, abre a gaveta e a encontra vazia. Pois bem, temos duas gavetas, e ambas estão vazias. Mas esses vazios significam a mesma coisa? Não, eu acho que não. 13

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Porque o verdadeiro vazio não é o nada, mas o nada onde deveria haver algo. Algo importante, que já existiu antes, e então, em um determinado momento, você olha e se dá conta de que aquilo não existe mais. Como naquela tarde de julho de 2005, quando meus ouvidos assobiam e eu baixo os olhos e vejo meu braço, que nasce no ombro, se dobra no cotovelo e continua até o pulso. E depois do pulso, nada. Ali deveria estar a mão, a minha mão. Sempre esteve, havia catorze anos estivera ali, e, no entanto, agora, só existe o ar, o ar fétido do canal, e pronto. O vazio é isso. Um Dois Três Quatro Cinco Seis Sete Oito... Bum. Porque Galileu era realmente um idiota. E eu, pior do que ele.

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Iscas vivas - Primeiro capítulo  

Aos catorze anos, Fiorenzo perdeu a mão direita por culpa de um rojão e, embora tenha reagido com garra e criatividade, logo descobriu que,...

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