Page 1

CMYK

Diversão&Arte

• Brasília, terça-feira, 7 de janeiro de 2014 •

CORREIO BRAZILIENSE • 3

>> entrevista BORIS PAHOR O esloveno que já foi indicado ao Prêmio Nobel completou em 2013 um século de vida. Para quem passou por duas guerras mundiais, viver por tanto tempo traz significados diferentes para as lembranças Arquivo Pessoal - 9/12/13

» PAULA BITTAR ESPECIAL PARA O CORREIO voz ao telefone mostra o cansaço de um homem de 100 anos. As palavras constroem imagens tristes de alguém que passou por duas guerras mundiais, uma delas como prisioneiro em um campo de concentração nazista, ditaduras e pela tentativa de apagar sua cultura materna. Da conversa de uma hora, a vitalidade do escritor se mostra nas memórias ainda muito vivas. Boris Pahor escreveu mais de 30 livros, muitos deles baseados no que viu e viveu. O tempo passa diferente hoje para o homem que carrega como desejo pungente em sua rotina conseguir escrever coisas belas. Necrópole, obra traduzida para 13 línguas, inclusive o esperanto, foi escrito em 1967 após uma visita do escritor ao campo de concentração de Natzweiler-Struthof, na Alemanha, que havia se transformado em museu. O retorno à prisão deu origem a uma das narrativas mais importantes da literatura sobre as atrocidades do nazismo. O trabalho autobiográfico é marcado por descrições que tiram o fôlego do leitor. Os detalhes dos dias de terror não se perderam na memória e na vontade de esquecer. Com o passar dos capítulos, o autor mantém a linguagem forte e crua, sem que a frieza diante dos fatos narrados tomem conta da história. A obra demorou mais de 20 anos para ser traduzida pela primeira vez para outra língua. Em 2013, o livro ganhou versão em português pela editora Bertrand Brasil. Pahor nasceu em Trieste, Itália, dentro da comunidade minoritária eslovena. Durante a Segunda Guerra Mundial, colaborou com a resistência antifascista eslovena e foi deportado para os campos de concentração nazistas. Lecionou por 24 anos literatura italiana e eslovena. Já foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Em 1992, recebeu o Prêmio Prešeren, o mais alto reconhecimento esloveno, por sua atividade literária. Em 2007, recebeu a Ordem Nacional da Legião de Honra do governo francês; e, em 2009, a Condecoração Austríaca de Ciência e Arte dada pelo governo daquele país. Suas experiências o marcaram profundamente tanto na vida pessoal quanto na produção literária. Os resquícios podem ser observados em seus livros. O autor não se cansa de dizer que o amor é o único valor pelo qual o homem pode ser aliviado do mal. Mais do que um escritor, alguém para se admirar.

A

Os vários mundos do escritor O senhor mudaria algo no seu livro? Mudar? Poderia escrever um livro maior, mas não mudaria nada. O que gostaria de apagar da sua memória? Não há como eliminar lembranças. A partir do momento que vivemos algo, podemos deixar de lado, mas não apagar. Tudo que está na memória está ligado a outras experiências. Há memórias terríveis, mas não se deve eliminar porque são ruins. É preciso acostumarse a elas, acostumar-se para conseguir viver momentos belos. As memórias têm riquezas, mesmo quando tristes. Para o senhor, qual ferida não tem cura? Eu acredito que, em geral, há cura, mas ficam as cicatrizes. É

como um machucado, ele sara, mas permanece ali a marca. Podemos viver com os machucados que não falam mais. Estão silenciosos. O ferimento fica para sempre. O senhor escreveu mais de 30 livros e ganhou vários prêmios. O que ainda falta em uma trajetória profissional tão brilhante? Eu não escrevi para ganhar prêmios. Escrevi porque queria escrever, era um alívio, uma forma de descarregar o que tinha dentro. Nunca imaginei ganhar prêmios e ter sucesso. Pensar que com minha língua, o esloveno... iria ganhar grandes prêmios... nunca imaginei. Do que o senhor mais gosta: escrever ou ensinar? Ensinei durante muito tempo. Dei aulas de língua e literatura italiana por 24 anos aqui em Trieste. Não podia ensinar minha língua materna. Eu gosto de ensinar, mas depois as escolas mudaram muito. Se a escola é bem organizada, eu gosto. Mas fiquei feliz de me aposentar, porque houve período em que os estudantes comandaram, e não os

professores. A família, em vez de se interessar pelo bem do aluno, ia contra os professores porque tinham dado notas baixas. Isso ainda acontece, infelizmente. Mas gosto muito de escrever também. Todas as férias, eu escrevia. Escrevia para ter a impressão de fazer algo de útil porque perdi muito tempo, muitos anos com a deportação, a doença, o trabalho na África. Escrevia para colocar a vida em ordem, dizendo tudo que estava mal colocado. Não vivi muitas belezas. A maior parte da minha vida eu reconstruí com a escrita. O que o senhor não gostaria de ter visto? Antes da Segunda Guerra Mundial, passei pela ditadura fascista. Não podia falar minha língua. Estava na Itália, na minoria eslovena, que não podia ter escolas, livrarias ou bibliotecas da minha cultura. Quando fui para o campo de concentração, já tinha 20 anos de ditadura fascista. Esse foi o mal que sofri antes da deportação nazista. Não me bateram, não me colocaram na cadeia, mas vivi muitas coisas que não foram bonitas antes do campo de concentração.

CMYK

Por que escreveu Necrópole? Eu escrevi para meus amigos que morreram, porque é preciso lembrar que deram a vida pela liberdade. Nos campos de concentração, morria-se por falta de comida, por doenças e pelas mãos dos homens.

“DIZEM QUE SOU COMUNISTA, MAS NÃO É VERDADE, SOU SOCIALDEMOCRATA. É PRECISO MELHORAR A VIDA, MAS COM LIBERDADE, NÃO COM SANGUE”

“EU NÃO ESCREVI PARA GANHAR PRÊMIOS. ESCREVI PORQUE QUERIA ESCREVER, ERA UM ALÍVIO, UMA FORMA DE DESCARREGAR O QUE TINHA DENTRO”

“NÃO HÁ COMO ELIMINAR LEMBRANÇAS. A PARTIR DO MOMENTO QUE VIVEMOS ALGO, PODEMOS DEIXAR DE LADO, MAS NÃO APAGAR”

Nasci em 1913 como cidadão austríaco, sem estado esloveno, submisso. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, virei italiano. Não pude ser esloveno, a língua eslovena eu aprendi sozinho, por conta própria. Os seus sonhos de criança se concretizaram? Eu sonhava apenas com a liberdade, era pequeno, nem sabia o que era isso, mas já esperava que a ditadura mudasse e acabasse. Sonhava com liberdade. Não queria ser rico ou famoso. Em 1920, queimaram a casa de cultura eslovena, um palácio de seis andares. Tinha 7 anos e minha irmã, 4. Antes de sonhar, tiraram-me os sonhos. Aquilo foi um trauma psicológico, como se tivesse cortado todo o futuro e sem futuro, a gente não sonha. É difícil explicar isso. E com o que o senhor sonha hoje em dia? Eu queria escrever coisas bonitas, nas quais há esperança e beleza para o futuro. As pessoas hoje vivem sem uma ideia, somente para o dinheiro, para o egoísmo, para fazer festas e viajar. As pessoas não pensam e não acreditam em mundo melhor. Todos os dias, morre gente porque não tem o que comer e há ricos que poderiam ajudar, mas não estão nem aí. Dizem que sou comunista, mas não é verdade, sou social-democrata. É preciso melhorar a vida, mas com liberdade, não com sangue. Quem você mais gostou de conhecer nesses 100 anos de vida? Minha esposa e uma jovem francesa que conheci quando saí do campo de concentração. Ela se chamava Madeleine e era enfermeira. Com ela, reencontrei o significado de viver, ela me deu esperança. Eu estava muito doente e cuspia sangue. Isso foi em 1945/1946. Escrevi um

livro sobre Madeleine.Teve grande importância por me fazer acreditar que, após o campo de concentração, a vida iria mudar. Ela era muito inteligente, escrevia belas cartas, não apenas com palavras bonitas. Tive esse período na minha vida em que houve uma pessoa muito importante e, por isso, não posso dizer que foi apenas minha mulher, com quem fui casado por 60 anos. O que as pessoas precisam saber para que males como aqueles causados por guerras não se repitam? Espero que não vão repetir esses males (campo de concentração, guerras), já vivemos muitos males, mas ainda temos a bomba atômica, gente que quer dominar e que só pensa no dinheiro. Não há interesse para melhorar a vida no mundo. O que diria ao jovens? Eles têm que estudar história. Não apenas aquela que aprendemos na escola, porque lá há tendência de sempre se falar bem do país e esquecer o mal. O jovem deve saber o que aconteceu, inclusive o mal. É uma pena porque deveríamos falar aos jovens da bela vida. Conhecer o passado é como uma vacina. Se a gente se imuniza, não pega gripe. Se conhecemos o passado, temos a esperança de que as pessoas digam: não, não vamos fazer assim porque assim deu errado. O que perturba o senhor na política do século 21? O verdadeiro mal é que não há uma ética para melhorar a vida do homem e eliminar todo o mal. É preciso ter ética, não fazer da terra um lugar inabitável. No Brasil, por exemplo, quantas árvores foram cortadas e para quê? Para o dinheiro. O Brasil é rico, é uma pena que está perdendo suas florestas. Colaborou Cecília Pinto Coelho


Ent pahor cor braziliense  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you