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MARY ROURKE

DUAS MULHERES DA GALILEIA

Tradução Ana Beatriz Manier

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PRÓLOGO PRÓLOGO

Os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades. [...] Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, [...] e muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens. Lucas 8:1-3

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casa em Nazaré está vazia agora. Ninguém pensaria em morar lá desde que Maria se foi. Não querem correr o risco de herdar seu infortúnio, uma viúva com um filho crucificado. Não obstante, este é um lugar sagrado. Alguém precisa cuidar de sua segurança. Em uma idade mais avançada, Maria viajou para cidades distantes na companhia de João, o mais jovem dos discípulos de seu filho, zelando por ele como mãe. Naqueles anos, era mais fácil se deslocar pelo Império. Cláudio o governava de Roma, e, pelo menos desta vez, o estrangeiro que controlava a Judeia era simpático com os hebreus.

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Difícil acreditar que, após doze anos de Nero, tal época algum dia existiu. Jerusalém encontra-se sob cerco desde a Páscoa dos Judeus, e o embargo romano impossibilita a entrada de comida pelos portões da cidade. Para nós aqui no Norte, notícias sobre a luta chegam com as caravanas. As piores parecem nos atingir com a velocidade de uma flecha. Há a história de um homem que engoliu todo o seu ouro antes de tentar fugir da Cidade Sagrada. Quando os soldados o capturaram, abriram-lhe a barriga e arrancaram-lhe as moedas. Ele ainda estava vivo. Presenciou o ato. A casa desocupada de Maria foi meu consolo depois que ela partiu. Senti tanto sua falta que passei horas lá, sozinha. Imaginando que ainda estivesse comigo, vi detalhes seus que antes não percebera. Seus cabelos, uma vez fartos e escuros, haviam adquirido a cor prateada da pedra da lua. Sua pele ainda tinha a nuança cálida de casca de amêndoa, mas o brilho rosado que uma vez tingira suas faces desaparecera. O passar dos anos deixara suas formas arredondadas como seixos rolados. Uma tarde, enquanto eu sonhava acordada, ela passou por mim a caminho do celeiro, pegou um punhado de sementes secas, derramou-as dentro de um pequeno saco de aniagem e esmagou os piolhos brancos de uma caçamba próxima na qual ficavam os grãos em processo de amadurecimento. Sem parar para me cumprimentar, pegou uma jarra de barro da prateleira e saiu na direção do poço, detendo-se apenas o suficiente para olhar satisfeita para mim. Ouvi-a recitar as orações de graças e comecei a entoá-las junto com ela. Antes de conhecer Maria, eu não sabia nenhuma oração. Em sua casa vazia, comecei a me lembrar de algumas coisas. Do perfume de alecrim nas panelas e das prateleiras cheias de cestas que aguardavam para serem ocupadas com os bolos de sua cozinha. Todos os seus pertences estavam gastos pelo uso.

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Sua casa pequenina não parecia o tipo de lugar capaz de atrair visitantes durante todas as horas do dia, mas eram tantos os que vinham na esperança de receber sua bênção que boa parte deles tinha de voltar do portão. Relembrando esses dias confusos, ainda me pergunto: terá qualquer um de nós que lhe pediu ajuda realmente entendido ou suspeitado o que Maria era capaz de fazer por aqueles que amava? Quando chegasse a hora, ela arriscaria a vida. Alguns até diriam: a alma. Em uma tarde, uma enxurrada de sujeira interrompeu meu devaneio. Caiu do teto da casa de Maria pela parte mais desgastada do telhado. Acima de minha cabeça, folhas de palmeira silvaram como mensageiros dos ventos à brisa. Eu podia vê-las pelos vãos abertos no teto. Palha enfiada no emboço. Eu não havia percebido ainda. Restaurar tal dano era minha forma de honrar Maria, mas também uma estranha ambição para uma mulher como eu, que nada sabia de serviços domésticos. Eu, Joana, esposa de Cuza, procurador-chefe de Herodes, fui criada para ser a soberana de um Estado. Tinha pouca experiência com limpeza de casa ou qualquer outro trabalho braçal. Por causa de Maria, aprendi. A partir do momento em que tomei minha decisão, comecei a levantar da cama antes de o sol iluminar os quartos do andar superior de minha casa. Deixando de lado os lençóis frescos de linho, preparei-me para um dia de reparos na casa decadente de Maria. Enchendo grandes cestas com jarros de vinho, cantis de óleo, vidros de perfume e joias antigas — artigos que eu conseguiria permutar por serviços de reparo —, troquei os deuses de mármore e as colunatas de minha cidade romana de Séforis pelos campos de cevada do leste da Galileia. Foi como viajar de volta no tempo. Phineas, meu cocheiro, percorreu os quase cinco quilômetros em uma corrida contra a alvorada. Já havia feito viagens muito mais perigosas por mim, durante seus longos anos a meu serviço. Nem uma vez sequer

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me desapontou. Portanto, repousei tranquila à medida que ele seguia aos solavancos na direção de Nazaré, passando por ovelhas de face marrom, que vagavam pela estrada e nos encaravam não habituadas a carruagens trafegando em velocidade. Não habituadas, também, a ver uma mulher como eu, com unhas arredondadas e limpas e pele alva que raramente se expunha a longas horas ao sol. Quando nos aproximamos da cidade, meninos do campo atacaram minha carruagem com azeitonas podres. Phineas rosnou como um lobo planejando um ataque e os manteve afastados. Suas faces suavizadas de eunuco e sua cabeça brilhante assentavam-se com orgulho sobre ombros largos e braços musculosos. Ele era dotado de um físico vigoroso e inspirava respeito. Quando passamos pelo portão da cidade de Nazaré, o rangido das dobradiças de ferro perturbou os vizinhos de Maria, que saíram aos tropeços de suas casas de dois cômodos ou de suas grutas rasas para ver quem havia entrado. Suas expressões incrédulas questionavam o que uma mulher rica estaria fazendo naquela parte da província. Eu não tinha uma resposta fácil. Além disso, a morrinha de ovelha em suas túnicas rústicas irritava meu nariz. Eu evitava conversar. Foi em uma dessas viagens matinais que decidi escrever sobre Maria. No início, achei que minha existência tempestuosa não teria lugar em sua história. Minha saúde debilitada, as intrigas na corte de Herodes Antipas e os problemas resultantes em meu casamento não pareciam revelar coisa alguma sobre sua forma de viver. No entanto, logo percebi que ela havia me conduzido pelos eventos mais íntimos de minha vida, até minha atual situação. Nada me resta a não ser contar nossas histórias como uma só. Éramos primas. Só vim a descobrir já adulta, quando fui vê-la pela primeira vez. Precisava de sua ajuda. Eu estava morrendo, e Maria tinha

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um filho, um curandeiro que solucionava casos desesperadores. Queria que me arranjasse um encontro a sós com ele. Minha doença me afligia desde a infância. A tuberculose era parte do legado que os romanos deixaram para o Ocidente. Os exércitos de César a levavam com eles conforme avançavam, conquistando tudo em seu caminho. Minha família considerava minha doença parte do preço que a Judeia pagava pelo progresso. As estradas pavimentadas e o comércio internacional deixaram meus parentes ricos. Simpatizantes dos romanos muito antes de meu nascimento, eles não consideravam a vida de sua única filha um tributo demasiadamente exorbitante por sua fortuna. Eu, no entanto, não estava preparada para morrer pelo comércio. Após várias tentativas de cura, incluindo um verão insuportável em uma estância de tratamento próxima ao Mar Morto, minhas entranhas encharcadas se recusavam a secar. Como última esperança, recorri a Maria. Eu estava preparada para recompensá-la com generosidade. Sempre fui uma mulher de posses.

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Duas Mulheres da Galileia - Prólogo