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DREW LERMAN

CIDADE MÁGICA Tradução Fal Azevedo

Rio de Janeiro | 2012

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0 É UM NEGÓCIO COMPLICADO, CRESCER. Você passa sua vida in-

teira acreditando que o mundo é de um jeito e, então, do nada, tudo muda. Você percebe que talvez seus pais não saibam de tudo, seu governo é corrupto, seus ancestrais são assassinos. Você descobre que um dia vai morrer e, depois disso, quem sabe realmente o que acontece? Em pequenas doses, você aprende que o mundo não é absolutamente nada parecido com o que as pessoas lhe contaram. A lavagem cerebral passa, e tudo o que você pode esperar é que ela volte. Charlie Brickell me diz tudo isso. Eu lhe digo que ele deve estar certo. Ele me diz que a pergunta real é: o que você pode fazer? O que você pode fazer para não se ver trinta, quarenta, cinquenta anos na estrada se perguntando o que foi que você fez com a sua vida? Pergunto o que ele acha, porque essa é a questão. Só estou aqui para manter a retórica da conversa. Pode me chamar de Tonto. Igor. Sancho Pança. Ele me pergunta se quero passar a minha vida inteira sendo um peão de xadrez. Se quero correr o risco de jogar o jogo deles pelo resto da vida, deixando-os definir o que é virtude. Neste momento, realmente não me importo, mas posso perceber que a resposta que ele está esperando é não. Às vezes, quando converso CIDADE

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com Charlie, sinto-me como se estivesse respondendo àquelas perguntas dos programas de autoajuda que passam de madrugada. Eu quero liberdade? Felicidade? Quero uma vida melhor? Tudo isso, e Charlie está me dizendo que existem três tipos de pessoas no mundo. É meia-noite, e estamos sentados na praia. Charlie está inclinado para trás, apoiado nos cotovelos; eu apoio os braços nos joelhos e o queixo nos braços. E pergunto a ele: — Só três? Uma onda suave quebra na areia e desliza de volta para o Oceano Atlântico. — Três, e garanto que todas as pessoas que você conhece se encaixam perfeitamente em um desses três grupos. Parece que Charlie tem sempre um rufar de tambores, e diz que se refere a fracassados, babacas e gente legal. — Cite um nome — diz ele. Com Charlie, qualquer conversa contém um “pegue uma carta, qualquer uma”. Ele sabe disso, e você sabe que ele sabe disso, mas você acha que talvez possa aprender o truque se prestar bastante atenção. Se continuar no jogo. Então, é isso que eu faço. E pergunto a ele: — Keith? — Babaca. — Mas Keith é nosso amigo. — Keith é seu amigo. E, de qualquer modo, não faz diferença. Ele ainda é um babaca. — Phil. — Fracassado. Vamos lá, estou esperando por um desafio. CIDADE

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— Bem, como você chega a uma conclusão? Como decide? E ele me diz que a equação é bem simples: se eles são chatos demais para andar com a gente, são fracassados; se são antipáticos demais para andar com a gente, são babacas. O resto é gente legal. O número de gente legal é bem menor do que se pode imaginar. Eu rio, mas ele não. Olha para o céu e depois para o oceano. Durante um longo tempo, olhamos para o reflexo da lua flutuando na água. Daqui a alguns dias, será lua cheia, e quase posso ver a sombra que o resto da parte luminosa irá preencher. Só para quebrar o silêncio, digo a ele que seu sistema é uma bobagem. Não é um sistema universal. É baseado apenas nas opiniões dele, e quem é ele para fazer afirmações tão absolutas? E ele me diz: — Vá se foder. Tenho um bom senso de julgamento. Se digo que alguém é um babaca, ele é um babaca. Se você não gosta, pode inventar o seu próprio sistema de merda. Eu me inclino para trás e sinto a areia fria nas palmas das mãos. O céu é azul-escuro, e a água nunca acaba. Esta noite deveria ser perfeita. E acho que é. Mas, por algum motivo, a única coisa em que consigo pensar é Rebecca Tuttle. E Charlie está me perguntando se quero voltar para o hotel. Ele está dizendo: — Vamos lá, vamos voltar. Digo: — Espere só um segundo. Estou tentando aproveitar tudo isto.

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PARTE UM GORDOS, QUIETOS E FALANTES

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1 O QUE É PRECISO LEMBRAR a respeito do transtorno de estresse pós-

traumático é que pode levar algum tempo para que os sintomas melhorem. O que é preciso saber é que melhorar pode ser um dos maiores desafios na vida de uma pessoa. O que não se quer esquecer é quais pessoas com TEPT podem se recuperar. Pelo menos, é isso que os médicos lhe dirão. Está chovendo forte de novo, o que significa que estou sentado em minha cama, às três e meia da manhã, tremendo e suando. Deram-me comprimidos, mas os remédios não fazem a chuva parar. E o jeito da chuva, não me importo que isso soe estúpido, faz com que eu me lembre de cães e gatos. Quando a peste bubônica se espalhou em Londres, cães e gatos frequentemente caíam mortos no meio da rua. Depois de uma tempestade, os cadáveres flutuavam pela cidade ou apareciam nas sarjetas, e você sabe como as pessoas eram na época medieval: uma coisa levou a outra e, de repente, estavam chovendo gatos e cachorros.* Meus dentes estão batendo. Quero olhar a caixa em meu armário, mas não olho.

* Referência ao ditado inglês “It’s raining cats and dogs.” Em português: “Estão chovendo cães e gatos.”(N.T.) CIDADE

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Ouço a tempestade lá fora, e é quase como se ela estivesse dentro da minha casa, do meu quarto, desabando sobre mim. Não seria a primeira vez. Cada som na casa é amplificado pelo silêncio. O vento soprando pelas portas de correr de vidro. O tique-taque constante do relógio. Lagartixas ou baratas correndo pelo chão. Os sons são bons, porque, se tudo estiver quieto demais, vou pensar e, se eu pensar, vou pensar sobre a chuva. Então, ligo a televisão. ABC, CBS, NBC. CNN, FOX, BET, MTV. Isso é a vida. Depois do aquecimento global ou do holocausto nuclear ou do que quer que nos destrua a todos, é isso que encontrarão. Oitenta milhões de horas de imagens de televisão arquivadas. I Love Lucy. Tudo em Família. Um maluco no pedaço. Seinfeld, Friends, Cheers, Happy Days, Confusões a Três. Quando desenterrarem nossos restos mortais, pelo menos vão pensar que sabíamos rir. Na presença azul hipnótica da televisão, posso me desligar totalmente e não me preocupar com nada. Posso fechar meus olhos e não pensar em absolutamente nada. Se há algo em que definitivamente não estou pensando é na caixa em meu armário. A caixa, que é apenas uma velha caixa de sapatos do tempo em que eu usava três números a menos, não está nem perto de passar pela minha cabeça. E me lembro do que os médicos me disseram. Eles usam todo tipo de critério para determinar se você tem ou não transtorno de estresse pós-traumático. Dividem-se em três categorias básicas: intrusão, superexcitação e entorpecimento. Os médicos organizam os sintomas de forma que, se você tiver quatro dessa categoria, ou cinco daquela, ou três daquela outra, é possível entender como o transtorno o afeta pessoalmente. Você recebe CIDADE

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umas listas, e eles fazem a coisa parecer aqueles testes engraçados das revistas. Eles listam os sintomas ao lado de pequenos espaços para marcar X à esquerda. Intrusão: isso é a reexperiência. É quando você se vê acordado, no meio da noite, atormentado por visões e lembranças e flashbacks. É quando você pode praticamente sentir a chuva socando-o contra o chão. Marcado. Superexcitação é quando você se sobressalta a cada 2 segundos sem motivo algum. Quando você fica desconfiado e paranoico. É quando você se contorce. Desenvolve tiques nervosos. Seus olhos estão sempre em alerta. Marcado. E entorpecimento. É quando você deixa o seu passado para trás. Segue em frente. Deixa tudo de lado e diz a si mesmo que o que aconteceu não foi grande coisa. Tudo que se pode fazer é deixar pra lá. Jogar fora o que houve. Colocá-lo em uma caixa. O truque, se você quiser chegar a algum lugar, é pular as duas primeiras etapas e ir direto para o entorpecimento. Amnésia intencional. Porque como pode o passado se repetir se você não se lembra dele? O que eles lhe dirão repetidamente é que esses sintomas não estão apenas na sua cabeça. Você não está louco. Você se lembra de tudo isso enquanto engole seus comprimidos. Duas cápsulas de Desyrel alaranjadas e redondas, de 50 miligramas, protegidas com filme plástico. Os comprimidos que os médicos lhe receitam são para depressão. Desde o Adapin, passando pelo Luvox, até o Zoloft, nada disso é território desconhecido. Esses são nomes sofisticados para medicamentos genéricos, mas, se você tiver uma doença mental, pelo menos mantenha o estilo. Você toma 25 miligramas de Asendin. CIDADE

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Cinquenta miligramas de Effexor. Cem miligramas de Pamelor. Tudo é feito sob medida. Depois que o dopam com todas essas pílulas, os médicos pedem que você se sente e lhe contam, bem lentamente, pronunciando cuidadosamente cada palavra, do jeito que as pessoas que não são loucas falam umas com as outras, que o TEPT é uma doença real, como diabetes ou artrite. Ele não é, nunca, de jeito algum, um sinal de fraqueza pessoal. E é por isso que você tem que tomar essas pílulas. E você está livre para pedir a eles que falem mais devagar se achar que estão indo rápido demais. Ainda assim, com todas as pílulas do mundo, é difícil não ter lembranças em uma noite como esta. Relâmpagos, trovões e a chuva intensa. E um gotejar que não para. Pingo, pingo, pingo. De onde o barulho vem eu não sei. Provavelmente do telhado. Apenas poucas gotas no começo, batendo suavemente contra as vigas, e então o telhado inteiro cede, tudo vem abaixo e você morre. Ou talvez seja apenas a pia. Inspiro fundo e fecho os olhos. Expiro. Meus pais estão fora da cidade mais uma vez, porque ultimamente estão sempre viajando. Estão trabalhando, vão a convenções. Eu estou em casa, passando pelo ensino médio. Essa é a nossa dinâmica. Eles, dormindo sozinhos em quartos de hotel pelo país; eu, rolando pelo colchão como um peixe que busca oxigênio. Contar carneirinhos não funciona mais, então balbucio trivialidades, todas aquelas histórias engraçadas sobre o TEPT. Como quando você acorda de um sono atormentado, gritando ou resmungando consigo mesmo ou chorando: esse é o seu sistema límbico funcionando. Os sonhos, os flashbacks, o modo como você se lembra de cada detalhe CIDADE

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perfeitamente. Agradeça ao seu hipocampo por isso. Está tudo escrito nos livros que os médicos têm. Está tudo lá, preto no branco. No seu lobo temporal, onde o seu cérebro produz lembranças. As pessoas que desenvolvem o mal de Alzheimer têm o hipocampo danificado, e ele diminui até que elas não tenham mais lembranças recentes. A doença se espalha até devorar o resto de seu sistema límbico e finalmente o lobo frontal. Mais cedo ou mais tarde, elas não se lembram de mais nada. Neste momento, isso me parece o paraíso. E esse não foi um grande plano meu ou algo do tipo. Nunca desejei estar tão fodido. Sério. Tudo o que sempre quis é o mesmo que todo mundo quer. Ser feliz. Ter sucesso. Ser amado. E, neste momento, sentado na cama no meio da noite, meu maior objetivo na vida é simplesmente dormir. O que eles lhe dizem é para encontrar conforto no fato de que você não está sozinho. Pouco mais de 3,5% dos americanos passam pelo transtorno de estresse pós-traumático em algum momento. Console-se, você não passa de uma estatística. Há um milhão de pessoas exatamente como você e, quando você morrer, haverá mais um milhão.

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Cidade Mágica - Primeiros Capítulos  

Vencedor do PUSH Novel Contest quando estava no ensino médio, Drew Lerman apresenta o livro que comprova seu talento como um dos grandes aut...