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Tradução Mauro Gama


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orde George Gordon Byron tinha 1,74m de altura, o pé direito deformado, o cabelo castanho, uma palidez assombrosa, têmporas de alabastro, dentes como pérolas, olhos cinzentos orlados de cílios escuros e um encanto a que

nem homens nem mulheres podiam resistir. Tudo a seu respeito era um paradoxo; acessível e arredio, belo e deformado, sério e jocoso, pródigo, mas ocasionalmente mesquinho, e dispunha de uma inteligência arrebatadora, adornada, contudo, da magia e das malícias de uma criança. O que escreveu em 17


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relação ao poeta Robert Burns podia facilmente servir como seu próprio epitáfio: “Ternura, aspereza — delicadeza, grosseria — sentimento, sensualidade... sujeira e deidade — tudo misturado nesse composto de inspirada argila.” Era também um poeta colossal, mas, como nos lembra, a poesia é uma aptidão diferente e não tem mais a ver com o indivíduo do que tem a pitonisa quando longe de sua trípode. Byron, longe de sua trípode, torna-se Byron, o Homem, que, conforme sua própria confissão, não podia existir sem algum objeto de amor. Suas paixões se desenvolveram muito cedo e provocaram agitação, melancolia e pressentimento da perda que estava fadada a ocorrer no “paraíso terrestre”. Ele amava homens e mulheres, precisando do “outro”, fosse quem fosse, ela ou ele. Precisava apenas olhar para um rosto bonito e estava pronto para “construir e queimar uma nova Troia”. A palavra byroniano, até hoje, conota excesso, façanhas diabólicas e uma rebeldia que não correspondem nem a rei nem a plebeu. Byron, mais do que qualquer outro poeta, chegou a personificar o poeta como rebelde, imaginativo e sem-lei, estendendo-se além de raça, credo ou fronteira, suas falhas manifestas redimidas por um magnetismo e, finalmente, por um heroísmo que, ao terminar em tragédia, elevam-na, e a ele próprio, do particular para o universal, do individual para o arquetípico.

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eu começo não foi propício. Em janeiro de 1788, Londres estava gelada, a geada fustigava e abrandava no Tâmisa havia semanas, a severidade do tempo era atribuída à erupção vulcânica na Islândia. Tudo se deu em um cômodo alugado em

cima de uma loja na rua Holles, Londres, a que a mãe, de 22 anos, Catherine Gordon, havia acorrido para dar à luz, assistida por uma parteira, uma enfermeira e um médico. O trabalho de parto foi tortuoso, a criança nasceu com uma membrana sobre o rosto, um suposto símbolo de sorte; causou sobressalto, porém, a descoberta de que ele tinha um pé deformado. 19


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O pai, “Jack Maluco”* Byron, não estava presente porque, se voltasse à Inglaterra, seria preso por dívidas. O sr. Hanson, um jovem procurador, foi enviado de Aberdeen, pelos curadores de Catherine, como prova de solidariedade para com a mãe, sozinha em Londres, sem o marido errante. O pé se contraiu em um coto, a panturrilha definhada e sensível, uma aflição que traria tormento, escárnio e humilhação ao jovem e futuro lorde, adaptado conforme ficou com ferros e armações para perna, e engenhocas diversas ao longo dos anos, segundo o conselho de charlatães e médicos ortopedistas. Várias causas para a deformidade foram aventadas, até mesmo a privação de oxigênio nos pulmões, mas Byron, sempre pronto a castigar a mãe, a atribuiria à vaidade dela, ao usar um espartilho demasiadamente apertado durante a gravidez. Para ele, o pé aleijado se tornaria o sinal de Caim, um símbolo da castração, um estigma que arruinou sua vida. O dinheiro, ou melhor, a enorme escassez de dinheiro dominava a mente de seus pais naqueles dias frios. Escrevendo da França para a irmã Frances Leigh, na Inglaterra, Jack Maluco, necessitando imensamente de dinheiro, acrescentou que, quanto a seu filho andar, “isso é impossível, pois tem o pé deformado”. A própria Catherine pressionava o executor de seus curadores em Edimburgo, resumindo suas dificuldades, acrescentando que os 20 guinéus que lhe enviaram para o parto não foram suficientes e que agora precisava de 100 guinéus. Esperava também que o dissoluto e descuidado marido reaparecesse, e que mãe, pai e filho pudessem se

* Alcunha do pai de Byron; no original, “Mad Jack”. (N.T.)

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mudar para algum lugar de Gales ou do Norte da Inglaterra, onde os três viveriam modestamente, a fugaz felicidade de seu namoro em Bath, apenas três anos antes, reacendida. Suas esperanças foram inúteis. Dois meses depois, estava novamente escrevendo ao executor em Edimburgo, com queixas ainda maiores: “Devo deixar esta casa daqui a quinze dias, de modo que não há nenhum tempo a perder, e, se eles não enviarem o dinheiro antes desse prazo, não sei o que devo fazer nem o que será de mim.” O menino foi batizado como George Gordon, nome dado em homenagem ao pai, na igreja de Marylebone, que havia servido de cenário para Rake’s Progress (Progresso do libertino), de Hogarth. Os bem-nascidos, mas afastados, parentes escoceses, o duque de Gordon e o coronel Robert Duff de Fetteresso, escolhidos para padrinhos, estavam desafortunadamente ausentes. Catherine era uma descendente de Sir William Gordon e de Annabella Stuart, filha do rei Jaime I. Os Gordon de Gight eram barões feudais que haviam mantido o Norte do país sob terror e servidão, gerando filhos ilegítimos, cometendo estupros e pilhagens. Alguns foram executados no cadafalso, alguns assassinados e alguns mortos pelas próprias mãos de seus senhores. O avô de Catherine havia se jogado nas águas geladas do rio Ythan, exatamente debaixo dos muros do castelo de Gight, e o corpo do pai dela fora encontrado boiando no canal de Bath. Sua mãe morrera jovem, assim como suas duas irmãs, deixando Catherine como única herdeira de uma fortuna de rendimento anual no valor de 30 mil libras, provenientes das participações em vastas extensões de terra, direito de subscrição de ações no Banco de Aberdeen, referentes à pesca do salmão, e arrendamento de minas de carvão.

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Aos 20 anos, Catherine fora para Bath como uma das esperançosas herdeiras à procura de um marido. Não era bonita e, conforme o amigo de Byron e primeiro biógrafo reverente, Tom Moore, era baixa, corpulenta e “rebolativa em seu modo de andar”. Tinha pouca desenvoltura intelectual capaz de compensar a falta de graça. Além disso, era impressionável e, aparentemente, tivera um pressentimento, pois um ano antes, em um teatro na Escócia, quando a famosa atriz sra. Siddons, na peça intitulada The Fatal Marriage (O casamento fatal), exclamara “oh, meu Biron,* meu Biron”, a histeria de Catherine foi de tal ordem que ela teve de ser levada de seu camarote. Em Bath, encontrou seu “Biron”, Jack Maluco, recentemente enviuvado e falido. Antes de conhecê-la, ele havia namorado Amelia, a encantadora esposa do marquês de Carmarthen, que fugira com ele para a França, sendo logo sua fortuna e sua saúde arruinadas com o desregramento e a volubilidade do companheiro. Sua corte a Catherine logo se concretizou. Os primos escoceses dela, sabendo-a impetuosa e provavelmente presumindo que o futuro marido era um pilantra, tentaram persuadi-la a não se casar; no entanto, Catherine era inflexível e teimosa. Casaram-se e foram para o castelo de Gight, onde Jack planejou uma vida de esplendor tão ostentatória, com cavalos e cães de caça, jogos, excessos, que eles ganharam fama em uma balada. Em rápida visita a Londres, no mesmo ano de seu casamento, Jack foi preso por dívidas e levado para a prisão da Suprema Corte, tendo sido seu alfaiate a única pessoa da vizi-

* Nome próprio francês. Tiveram-no dois ou três generais da França do século XVI ao XVIII, dois deles duques, célebres por diversas proezas nas guerras da monarquia. (N.T.)

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nhança que pôde libertá-lo sob fiança. Logo, como muitos devedores, o casal fugiu para a França, o dinheiro acabou, o castelo e a maior parte da propriedade foram vendidos para um primo de Catherine, Lorde Aberdeen, e a jovem esposa não apenas ficou sem os parentes, como também foi destituída do respeito deles por ter decaído de maneira tão vergonhosa no mundo. Byron mal vira o pai e, no entanto, durante toda a vida, manteve-se devotado às ousadas e pitorescas façanhas de seus ancestrais paternos, nascidos e criados nas armas, guiando seus vassalos, como ele se gabava, da Europa às planícies da Palestina. A vívida narrativa de um naufrágio perto da costa de Arracão, escrita por um antepassado, proporcionou o estímulo e a inspiração do Canto IV de Don Juan. Com relação à família da mãe, ele seria mais crítico, chegando a afirmar que todo o sangue ruim que corria em suas veias se originara daqueles bastardos de Banquo. Como nos conta Tom Moore, a “desilusão veio a seu encontro exatamente no limiar da vida” — renegavam-no uma mãe irritadiça e inconstante, e as atenuadoras influências de uma irmã. Moore diz que Byron foi privado dos alívios que poderiam ter reduzido a alta intensidade de seus sentimentos e tê-los “salvado das tumultuosas corredeiras e quedas”. Se bem que essas mesmas corredeiras e quedas caracterizassem seus ancestrais de ambos os lados. Os Byron, mencionados no Domesday Book,* foram os De Burun da Normandia, feuda-

* Registro de um levantamento das terras da Inglaterra realizado por ordem de Guilherme I por volta de 1086, informando domínio, extensão, valor etc. das propriedades. (N.T.)

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tários de Guilherme, o Conquistador, adquirindo títulos e terras em Nottinghamshire, Derbyshire e Lancashire por sua bravura em batalhas terrestres e marítimas. Um John Byron de Colwyke, no ano de 1573, adquiriu de Henrique VIII, em Nottinghamshire, a abadia de Newstead, a habitação, a igreja e os claustros pela soma de 810 libras, sendo feito cavaleiro pela rainha Elizabeth I uns seis anos depois. Ele remodelou Newstead para ajustá-la a seus gostos seculares e pródigos, até mesmo instalando a própria trupe de músicos residentes. Na época do nascimento de Byron, um tio-avô conhecido como Lorde Cruel estava vivendo em retiro, em Newstead, a sede da família. Havia sido um homem desregrado, mas, em função das vicissitudes da vida, tornara-se um recluso. Construiu um castelo mirabolante e fortificações de pedra no lago que eram providas por uma esquadra de navios de brinquedo, onde ele comandava batalhas navais com o criado Joe Murray, que tinha de atuar como um factótum e segunda autoridade, e comentava-se que ensinava os grilos, na cornija da lareira, a conversar com ele. Em 1765, em uma taberna de Pall Mall, em Londres, os proprietários de terras e nobres de Nottinghamshire, muitos dos quais parentes, haviam se reunido para uma recepção. Lorde Cruel e seu primo William Chaworth se envolveram em uma discussão a respeito do melhor modo de se pendurar uma carne de caça;* a animosidade chegou a tal extremo que os dois homens se encaminharam para uma sala do andar de

* Pendurá-la (faisão, perdiz etc.) a fim de esperar que atinja o ponto adequado para o preparo e o consumo. (N.T.)

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cima, onde, sob a luz de uma única vela, Lorde Cruel cravou sua espada curta na barriga do adversário. Pelo assassínio, passou um breve período na Torre de Londres,* antes de ser absolvido por seus pares, sendo libertado depois de pagar uma pequena taxa. Lorde Cruel voltou para Newstead, tornando-se cada vez mais amargurado, e logo sua esposa o deixou; ele gerou um filho em uma das criadas, a qual dera a si mesma o pseudônimo de Lady Betty. Seu filho e herdeiro William deveria casar-se com uma herdeira, mas, em vez disso, fugiu com uma prima-irmã; furioso, Lorde Cruel mandou devastar as imponentes florestas de carvalhos, sendo os dois mil cervos que vagavam pelas florestas aniquilados e vendidos no mercado de Mansfield por uma bagatela. Em uma última orgia de vingança, arrendou os direitos das minas de carvão que possuía em Rochdale, privando todos os futuros herdeiros de sua renda. Não obstante, Byron se gabaria da nobreza de sua linhagem, esquecendo-se de acrescentar que muitos de seus integrantes eram rudes, vagabundos, propensos a uma loucura episódica e, como disse Thomas Moore, nunca livres dos “avanços das dificuldades financeiras”. Em agosto, quando Mad Jack não havia regressado para completar o quadro da família, Catherine e o menino partiram em diligência pública para Aberdeen, e, uma vez mais, ela foi obrigada a alugar cômodos em cima de uma loja. O marido realmente aparecia de vez em quando para arrancar dinheiro

* Fortaleza histórica em Londres, Inglaterra; originalmente um palácio real, tornou-se depois uma prisão. Atualmente, trata-se de um local onde existem um arsenal e um museu. (N.T.)

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de uma mulher cuja renda, agora, estava reduzida a 150 libras por ano. As violentas brigas que se sucediam, e que Byron afirmava lembrar, deixaram-no, como diz, “com pouca inclinação para o casamento”. A vida em Aberdeen, para mãe e filho, era espartana e um tanto frívola. Catherine era uma mulher de extremos, variando do afeto excessivo a ataques de ira, e o filho revidava com seu temperamento desabrido. Os vizinhos se lembravam de como a sra. Byron apanhava as tenazes contra ele, estigmatizava-o de “aleijado” e, cinco minutos depois, sufocava-o de beijos. De sua parte, nos cultos religiosos, ele se divertia espetando um alfinete de segurança nos gorduchos braços da mãe. Recusava-se a se submeter. Trajado nos tartãs azul e verde dos Gordon, cavalgava um pônei, carregava um chicote e, se lhe caçoavam do defeito físico, conforme ocorria frequentemente, empunhava o chicote dizendo: “O Dinnya aqui já te ensina.” Da França, Jack Maluco implorava à sua irmã Frances, que também fora sua amante: “Venha, pelo amor de Deus”, já que não tinha nenhuma cama, nenhuma pessoa para cuidar dele e estava vivendo de migalhas. Em agosto de 1791, morreu de tuberculose em Valenciennes, tendo ditado um testamento a dois tabeliães, em que deixava o filho de três anos responsável por suas dívidas e despesas de funeral; Catherine dispôs-se a pagar a conta, pedindo emprestado com base em uma herança de pouco mais de mil libras que ela deveria receber na morte da avó. Quando soube da morte do marido, seus gritos foram ouvidos em toda a extensão da rua Broad, seu desgosto “beirando a loucura”. Em carta completamente autoritária para a cunhada, a quem se dirigia 26


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como “minha prezada Madame”, salientou seu enorme desgosto, depois pediu uma mecha dos cabelos dele, reafirmando o amor entre ela e seu “querido Jonnie”. Aos 5 anos e meio, Byron se tornara tão insubordinado que Catherine o mandou para a escola na esperança de que pudesse ser mantido em “temporária inatividade”. Com os conflitos e irritações em casa, e Catherine se referindo ao garoto como esse “pirralho coxo”, tendo o castigo ficado tão gravado na memória dele que anos mais tarde, em um drama, The Deformed Transformed (O deformado transformado), Arnold, o corcunda, é tratado pela mãe como um íncubo e um pesadelo, enquanto ele lhe implora que não o mate, embora odiasse sua forma desprezível. Sob a educação de um sr. Bowers, ele rapidamente desenvolveu sua paixão pela história, particularmente pela de Roma, deliciando-se com as narrativas de batalhas e naufrágios, que mais tarde desempenharia para si próprio. Aos 6 anos, estava traduzindo Horácio, lendo os longos, mas solenes, relatos de morte, como esta se fazia sentir nos salões dos palácios e nos casebres, e sua imaginação acelerava terrivelmente. Antes de completar 8 anos de idade, havia lido todos os livros do Antigo Testamento, considerando o Novo Testamento nem de perto tão rico em suas descrições. Quando foi matriculado no ginásio, calculou, embora devamos levar em consideração algum exagero pueril, que havia lido quatro mil obras de ficção, sendo seus favoritos Cervantes, Smollett e Scott. A história era sua maior paixão, e a Turkish History (História turca), de Knolles, estimulava a ânsia de visitar o Levante quando rapaz e proporcionar o pano de fundo exótico para muitos de seus contos orientais.

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Foi em uma escola de dança, aos 8 anos, que ele foi dominado pelos encantos de Mary Duff e, embora não conhecesse isso pelo nome, sentiu as alegrias resultantes e a incerteza do primeiro amor arrebatador. Mary era um desses seres fugidios, feitos de arco-íris, uma aparência grega nas feições, a quem ele seria suscetível para sempre, sendo sua sucessora uma prima distante, Margaret Parker, à qual também devotou um amor intenso. Byron buscou repetidamente essa alma gêmea em parentes consanguíneos, paixões pelas quais seria lançado em uma “confusão convulsiva”. A antítese dessa ternura foi sua crueldade contraditória. Era fascinado por um romance gótico, Zeluco,* cujo anti-herói é predestinado a cometer crimes que não podia controlar, estrangulando as pessoas íntimas dele, domesticando um pardal de estimação com o fim de poder torcer-lhe o pescoço, façanhas tenebrosas que, em vez de o destinarem para as masmorras, elevaram-no à condição de Magus,** que o próprio Byron almejaria. Não houve nenhuma confraternização com a família Byron, embora Catherine tentasse aliciar Frances Leigh a fim de obter ajuda financeira de Lorde Cruel: “Você conhece Lorde Byron. Acredita que ele fará alguma coisa por George, ou seja, dar-lhe, a qualquer preço, uma educação adequada ou, se desejasse fazê-lo, sua fortuna atual é suficiente para poder poupar algo dessa fortuna?” Todas as cartas foram ignoradas. Então, em uma manhã de 1798, chegaram-lhes notícias de que Lorde Cruel havia falecido, aos 65 anos, já tendo morrido seu filho William Byron, na Córsega, por uma bala de canhão

* Romance do médico e escritor escocês John Moore publicado em 1789. (N.T.) ** “Mago” ou “bruxo” em latim. (N.T.)

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na Batalha de Calvi, em 1794. George, com 10 anos, tornou-se o sexto Lorde Byron, um enobrecimento pelo qual mãe e filho foram brevemente transportados nas asas de Ícaro. O cosmo inteiro da infância de Byron foi modificado. Seria servido de vinho e bolo pelo diretor do ginásio e sucumbiu a um acesso de choro quando, na hora da chamada, em vez de Byron, ele respondeu Dominus de Byron* e, quando o espelho não foi capaz de lhe revelar um ser diferente, resolveu tornar-se diferente por dentro e se comportar como um lorde. Também para a mãe era uma ascensão atordoante em um novo mundo, a mudança para a Inglaterra seria perturbadora, os novos amigos dela seriam parentes de Byron e, mais cedo ou mais tarde, ela se tornaria a favorita do filho e uma inquilina na casa dele. O primeiro aparecimento de Catherine na abadia não impressionou a senhora dos tributos, que a considerou desmazelada e também pensou que o garoto era demasiadamente gorducho para estar sentado no colo da ama, May Gray. Catherine teve de vender a mobília para ajudar no funeral de Lorde Cruel, que permanecera na abadia durante semanas, enquanto os credores se apoderavam de tudo que podiam. Os bens dela rendiam 74 libras, 17 xelins e 6 pence, sendo sua única, e um tanto altiva, solicitação que os criados de Newstead se trajassem de negro no funeral. Quando, no fim de agosto de 1798, ela já havia acumulado dinheiro suficiente, saiu para a viagem de cerca de 600 quilômetros na diligência pública, com Byron e May Gray. O percurso de três dias forçou paradas nas muito pouco atraentes hospedarias que seus parcos fundos permitiriam.

* Senhor de Byron (Lorde Byron) em latim. (N.T.)

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Byron Apaixonado - Primeiro Capítulo  

Lorde Byron foi o primeiro rock star literário, um anjo caído cujas faltas foram redimidas por seu magnetismo, heroísmo e destino trágico. O...

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