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Caroline Alexander

A guerra que matou Aquiles A verdadeira história da Ilíada

Tradução Marcio de Paula S. Hack

Rio de Janeiro | 2013

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As coisas que carregavam Este é o épico dos épicos, a mais reverenciada e longeva de todas as histórias de guerra já contadas. Em linhas gerais, a lenda antiga da Guerra de Troia conta sobre o cerco (de dez anos de duração) à cidade asiática de Troia, ou Ílion, por uma coalizão de forças gregas, com o objetivo de recuperar Helena, uma filha da nobreza grega, famosa por sua beleza, que fora levada para Troia pelo príncipe troiano Páris. A guerra foi vencida pelos gregos — ou aqueus, como eram conhecidos —, que finalmente conseguiram entrar na cidade fortificada ao esconder seus melhores homens dentro da barriga de um gigantesco cavalo de madeira, supostamente uma oferenda ao deus Posêidon. Depois que os troianos, ludibriados, puxaram o cavalo para dentro de suas próprias fortificações, os aqueus escondidos saíram à noite, saquearam a cidade, incendiaram-na e mataram ou escravizaram os troianos restantes. A maior história de guerra jamais contada celebra um conflito que não estabeleceu novas fronteiras, não conquistou territórios e não promoveu causa alguma. A guerra é, com algum espaço para dúvida, datada de cerca de 1250 a.C. Sua história foi relembrada pela Ilíada, um poema épico atribuído a Homero e escrito cerca de cinco séculos depois, por volta de 750-700 a.C. A Ilíada de Homero é a única razão de essa campanha ambígua ser conhecida até hoje. 19

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Durante o perigoso abismo entre a Idade do Bronze e a época de Homero, gerações de poetas contadores de histórias transmitiram a lenda da guerra pelos séculos. Muitos dos episódios evocados por esses bardos esquecidos em seus poemas hoje perdidos foram ignorados ou rejeitados pela Ilíada. O épico de Homero não discorre sobre acontecimentos aparentemente essenciais, como o sequestro de Helena, por exemplo, tampouco sobre a arregimentação e a navegação da esquadra grega, as primeiras hostilidades da guerra, o Cavalo de Troia ou o saque e o incêndio de Troia. Em vez disso, os milhares de versos da Ilíada de Homero descrevem os eventos de um período de aproximadamente duas semanas, no décimo e último ano do cerco a Troia, cerco que chegara a um impasse. Assim, os episódios dramáticos que definem a Ilíada são a acusação pública feita pelo grande guerreiro aqueu, Aquiles, a seu comandante em chefe, chamando-o de mercenário covarde e sem princípios; o afastamento de Aquiles da guerra; e a declaração de Aquiles de que nenhuma guerra ou recompensa valia o preço de sua vida. A Ilíada de Homero termina não com um triunfo marcial, porém com a aceitação desolada da parte de Aquiles de que ele realmente perderá a vida nessa campanha militar inteiramente desprovida de sentido.

Na época de Homero, as ruínas do que no passado haviam sido as bem-construídas muralhas de Troia, em sua posição sobranceira para o Helesponto — como o estreito de Dardanelos era então conhecido —, estavam à vista de qualquer viajante; a descrição minuciosa que a Ilíada faz da Trôade, a região que circunda Troia, sugere que o poeta a conhecia pessoalmente. A guerra, então, era real, e não 20

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mítica, para Homero e seu público. Da mesma forma, os maiores principados gregos mencionados pela Ilíada como participantes da guerra também existiram. Suas ruínas também estavam à vista de qualquer viajante. Nosso conhecimento sobre Troia e sua época foi aprimorado pela arqueologia. Contudo, a Guerra de Troia em si, a terrível conflagração que mobilizou nações inteiras, continua envolta em mistério. A despeito de quaisquer fatos que possam vir à luz, o retrato inequívoco feito pela Ilíada do que essa guerra significou permanece inalterado. Mergulhando fundo nessa história já antiga para ele, Homero compreendera uma verdade violenta e perene. Contada por ele próprio, a antiga narrativa dessa guerra específica da Idade do Bronze foi transformada em uma evocação sublime e arrebatadora da devastação causada por todas as guerras, em todas as épocas. “O divino Homero”, segundo os gregos antigos, foi um poeta profissional da Jônia, uma região de povoados gregos ao longo da costa ocidental da Anatólia (atual Turquia) e de suas ilhas remotas. Excetuando essa plausível tradição, sua identidade encontra-se perdida no passado mítico; de acordo com um escrito, por exemplo, seu pai foi o rio Meles, e sua mãe, uma ninfa.1 As origens da própria Ilíada são igualmente obscuras. Certas características poéticas (por exemplo, um sistema complexo de versos metricamente úteis e o uso acentuado da repetição de passagens e palavras) indicam que, por trás da Ilíada, há uma longa tradição de histórias orais. As referências a topônimos geográficos, a tipos de armamento e outros artefatos que podem ser correlacionados com descobertas da arqueologia moderna, 21

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em conjunto com evidências linguísticas, indicam que alguns de seus elementos remontam à Idade do Bronze. Esses elementos históricos foram mesclados com temas, linguagem e personagens emprestados de outras tradições e folclores, sendo a poesia e a mitologia do Oriente Próximo e do Oriente Médio fontes particularmente ricas. Alguns elementos são até mesmo de origem pré-grega. A proveniência do nome Helena, por exemplo, pode ser atribuída ao indoeuropeu *Sweléna-, de raiz *swel — “sol”, “clarão solar”, “queimar”, “assar”. Seu arquétipo foi uma Filha do Sol, sendo o sequestro da Virgem do Sol um tema recorrente da mitologia indo-europeia.2 Algumas características da Ilíada podem ser deslindadas para sugerir ao menos o espírito, se não a trama propriamente dita, da tradição épica da Idade do Bronze. O herói Ájax, por exemplo, com seu inconfundível escudo em forma de torre e tamanho descomunal, pertence à Idade do Bronze grega, assim como a comunhão fácil entre deuses e homens, símiles comparando homens a leões, e heróis da estatura de deuses. Acima de tudo, podemos inferir que a tradição mais antiga cantava as batalhas e a morte em combate.3 ²

A jornada do épico pode ser remetida à história de dois povos extintos: os gregos da Idade do Bronze — conhecidos como “aqueus” por Homero e como micênios pelos historiadores modernos, nome originado de seu principal povoado — e os troianos, um povo parente dos hititas da Anatólia ocidental. Os micênios assumiram o poder no continente grego no século XVII a.C., e, embora a grande península ao sul chamada Peloponeso 22

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fosse a região principal de suas fortalezas, eles eram marinheiros, saqueadores e guerreiros, assim como comerciantes, e, por volta da metade do século XV a.C., haviam assumido as supremacias política e cultural por todo o Egeu. Objetos preciosos, até de ouro, descobertos em túmulos mostram que foram um povo rico. Parte dessa riqueza teve origem no comércio legítimo, mas referências fragmentárias a micênios desordeiros nos registros históricos dos hititas contemporâneos sugerem que grupos de indivíduos, se não exércitos organizados, perambulavam pela costa da Anatólia à procura de butins: talvez a ação dramática dos primeiros épicos tenha ocorrido em consequência a tais ataques marítimos.4 Com certeza os temas resolutamente militaristas da arte micênica, com suas representações de cercos, guerreiros em marcha e esquadras partindo, indicam fortemente que os micênios foram um povo guerreiro.5 O ápice de sua riqueza e poder foi atingido entre o fim do século XIV a. C. e o início do século XIII a.C., era conhecida como período “palaciano”, em deferência aos grandes complexos palacianos que foram então construídos. Muitas vezes erguidos em pontos estrategicamente altos e circundados por imensos muros fortificados, os palácios funcionavam tanto como fortalezas de defesa quanto como sedes de uma burocracia sofisticada e feudal. Arquivos de documentos encontrados em alguns dos sítios arqueológicos, escritos em tabletes de barro cozido em uma forma primitiva da língua grega, usando uma escrita silábica ideogramática batizada de “Linear B”, contêm listas aparentemente inesgotáveis de tributos, impostos, mercadorias, suprimentos e equipamentos militares — um vislumbre ao mesmo tempo da riqueza, organização, espírito militar e materialismo cru da classe governante.6 Documentos diplomáticos, 23

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característicos de outras sociedades da Idade do Bronze nos Orientes Próximo e Médio, não foram encontrados entre as pilhas de tabletes em Linear B; nada de tratados ou cartas trocadas entre embaixadas ou governantes, ou relatos históricos de desentendimentos ou batalhas; nada de poemas ou preces ou épicos fragmentários — nada além de meticulosas e avarentas listas de haveres: Kokalos reembolsou a seguinte quantidade de azeite de oliva a Eumedes: 648 litros de azeite. Um escabelo com incrustações em marfim de um homem e um cavalo e um polvo e um grifo de marfim. Um escabelo incrustado com as ranhuras e as cabeças de leão em marfim... Um par de rodas, com eixo de bronze, impróprias para uso. Vinte e uma mulheres de Cnido com suas doze meninas e seus meninos cativos. Mulheres de Mileto. E: To-ro-ja — Mulheres de Troia.7 Não se sabe como mulheres de Troia acabaram fazendo parte do inventário de um palácio micênico, não a partir de uma parca anotação, porém a explicação mais óbvia é que, como as mulheres de Cnido e Mileto — e de Lemnos e Quios e de outros povoados citados da Anatólia ou das ilhas egeias —, elas eram, na linguagem dos tabletes, “mulheres tomadas como despojo”, ou cativas, levadas 24

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à força para servir como “costureiras”, trabalhadoras têxteis, “assistentes de banho” e, provavelmente, na cama de seus amos.8 Uma carta escrita por volta de 1250 a.C., a época conjecturada da guerra, pelo rei hitita Hattusili III para um rei micênico cujo nome não é mencionado, referente ao transporte e ao reassentamento de aproximadamente sete mil anatólios, por captura e persuasão, em Micenas, indica a dimensão da interferência dos micênios.9 Alguns documentos hititas e a entrada em Linear B, em conjunto com uma profusão de objetos micênicos em cerâmica, descoberta na própria Troia, são evidência de que, no curso de suas viagens — objetivando comércio, saques ou colonização ao longo da costa da Anatólia —, ocorreu um contato significativo entre o povo de Micenas e os habitantes de Troia.10 Situada na entrada do Helesponto (hoje Dardanelos), a própria Troia tinha uma história anterior a qualquer um dos palácios micênicos. O mais antigo povoado troiano, muito pequeno, foi construído por volta de 2900 a.C., empoleirado em uma colina baixa sobre uma planície pantanosa e talvez malárica que era cortada por dois rios, o Simoente e o Escamandro.11 Sete grandes níveis de assentamentos foram construídos no lugar entre a data de fundação e a de seu abandono, quase dois mil anos depois, em 1050 a.C.12 Desses sete níveis, o chamado de Troia VI (datado de entre 1700 e 1250 a.C.) estendeu-se pelo período do domínio micênico na Grécia. Mesmo erguida em oito fases distintas, sobre as cinzas de suas predecessoras, Troia VI foi construída com uma perícia e num estilo perceptivelmente novos, indicando que um novo povo tomara posse do antigo local; sabe-se que os luvitas, um povo indo-europeu parente dos poderosos hititas, assentaram-se por volta dessa época 25

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no noroeste da Anatólia e são os candidatos mais prováveis para a identidade desses novos troianos.13 Na colina, a cidadela palaciana foi reconstruída e redecorada com graciosas muralhas de defesa, levemente inclinadas, construídas com blocos de calcário muito bem-acabados. Tendo aproximadamente cinco metros de altura, os muros de pedra eram, por sua vez, encimados por uma superestrutura de adobe, de modo que as muralhas da base de pedras até o cimo de tijolos chegavam a quase nove metros de altura; torres estrategicamente posicionadas fortaleciam a defesa, e rampas de pedra levavam a portões que permitiam entrar e sair da cidade. Esses detalhes seriam conservados pela tradição épica, pois a Ilíada sabe dos amplos caminhos e portões, suas torres e “belas muralhas”. Abaixo da cidadela, uma cidade mais baixa abrigava uma população de aproximadamente seis mil almas.14 Assim, à época do auge do poder de Micenas, entre os séculos XIV e XIII a.C., Troia era um povoado de grande porte, encimado por uma cidadela-palácio e bem-situada à entrada de Dardanelos, que por sua vez controlava o acesso ao mar de Mármara e ao mar Negro, mais além.15 Sua influência estendia-se não somente pela Trôade, mas chegava às ilhas como Lesbos, no Egeu oriental, onde os registros arqueológicos, atestados principalmente em objetos de cerâmica (e até pela presença do chumbo em objetos de cobre), mostram que desde pelo menos 3000 a.C. os ilhéus de Lesbos compartilhavam os artefatos culturais dos troianos.16 Apesar de tudo isso, contudo, Troia nunca foi mais do que um poder de alcance limitado às suas cercanias. O grande reino hitita, que governava a Ásia Menor a partir de sua capital, Hattusa 26

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(hoje, Boğazköy, na Turquia central), tinha domínio supremo, e documentos em argila dos vastos arquivos hititas mostram que Troia era apenas um de seus Estados vassalos.­­­­17 Pesquisados por estudiosos à procura de evidências da “verdadeira” Troia e de sua guerra desde que foram decifrados pela primeira vez, os arquivos hititas revelaram evidências irresistíveis, tornadas mais sólidas por descobertas recentes. Uma referência aos “Ahhiyawa”, governados por um Grande Rei do outro lado do mar, por exemplo, é hoje consensualmente interpretada como uma menção aos aqueus — o nome mais comumente usado na Ilíada para os micênios.18 De forma semelhante, a “Wilusa” hitita se confirmou ser a Ílio homérica ou, mais apropriadamente, com a restauração da letra antiga original com som de “w”, o “dígama” — “Wilios”.19 Particularmente intrigante é uma referência feita em uma carta do rei hitita Hattusili III para um rei de Ahhiyawa não mencionado pelo nome, de cerca de 1250 a.C.: “Quanto àquele assunto de Wilusa, motivo de inimizade entre nós [...]”20 Isso, então, é evidência de que, em pelo menos uma ocasião, um rei micênio se envolvera em hostilidades a respeito de Ílio. Até agora, nenhum documento foi encontrado em nenhum dos níveis de Troia; um único sinete de pedra, descoberto em Troia VI, com inscrições em luvita, continua sendo a única evidência de escrita.21 Só se pode conjeturar como Troia sobrevivia e acumulou riqueza suficiente para construir suas impressionantes muralhas. O número de tortuais de fuso descobertos por escavadores foi interpretado como evidência de uma indústria têxtil consolidada, enquanto ossos equinos encontrados em Troia VI podem ser evidência de criação de cavalos: na Ilíada, a Troia de Homero 27

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é “Ílion de famosos cavalos”.22 Particularmente sugestivo, contudo, é o pequeno cemitério do fim da Idade do Bronze, descoberto próximo ao porto ocidental de Troia, no qual aproximadamente um quarto das cremações e dos enterros diversos continha objetos micênicos. Independentemente de Troia, parece ter sido um cemitério para marinheiros ou comerciantes estrangeiros.23 Ao mesmo tempo, as evidências de um contato micênico para além do Helesponto e do Bósforo são muito escassas, indicando que a maior parte do comércio não se arriscou a ir mais longe e se deteve em Troia. Pode ter sido porque os troianos controlavam ativamente o estreito, talvez cobrando taxas alfandegárias, como foi feito em épocas posteriores, quer simplesmente devido à dificuldade de fazer navegarem as embarcações sem quilha da Idade do Bronze contra os habituais ventos e correntes fortes; no entanto, é impossível saber.24

Na mitologia e na épica gregas, a guerra entre os gregos e os troianos foi causada diretamente quando Páris, um filho do rei Príamo, de Troia, visitou o rei grego Menelau, de Esparta, e sequestrou, ou seduziu — já na Antiguidade essa questão era controversa —, a esposa do rei, Helena, levando consigo muitos bens. Não há motivos para que essa tradição não reflita parte da verdade histórica. Dado que os inventários em Linear B claramente indicam que mulheres eram capturadas em incursões micênicas ao longo da costa anatólia, é ao menos possível que as incursões também fossem feitas na outra direção. A união mitológica da grega Helena com o asiático Páris poderia também refletir uma vaga memória de um casamento por conveniência política — casamento talvez alvo de ressentimento — entre um príncipe hitita e sua noiva grega.25 Por outro lado, a causa 28

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da “Guerra de Troia” pode ter sido simplesmente uma busca cruel por pilhagens, com uma série de incursões romanticamente fundidas na única Grande Guerra da Idade do Bronze. Significativamente, as primeiras histórias mitológicas e épicas se referem a dois saques a Troia por parte dos gregos ao longo de duas gerações sucessivas e também — o que é intrigante — a uma campanha fracassada à região liderada por Agamêmnon, o rei de Micenas.26 A última das fases de Troia VI — Troia VIh — terminou em 1250 a.C., sendo destruída devido ao que parece ter sido uma combinação de desastres naturais e fogo inimigo. A mesma população, muito reduzida tanto em número quanto em recursos, permaneceu no local, lotando a cidadela outrora palaciana com o que parece ter sido um aglomerado de pequenas casas: ou a elite governante mostrara-se notavelmente hospitaleira a esses novos habitantes, ou havia fugido, abandonando seu palácio para as pessoas mais humildes. Se Troia VIh sucumbiu pelas mãos de invasores micênicos, estes não tiveram muito tempo para saborear a vitória. Apesar da força e do estado de alerta de suas grandes cidadelas, com seus postos de vigilância e prudentes estoques de suprimentos, os micênios não puderam evitar o desastre cataclísmico que pôs um fim dramático e repentino à sua civilização por volta de 1200 a.C., aproximadamente uma geração após a queda de Troia. Muitas razões para o colapso foram aventadas — desastres naturais, agitações internas, interrupção do comércio, saqueadores estrangeiros. Que tenha sido a própria Guerra de Troia a responsável por deixar o mundo grego vulnerável a tais desarmonias foi a interpretação de escritores antigos posteriores. Essa interpretação também é aventada na Odisseia, o segundo e subsequente épico atribuído a Homero: no retorno, após a guerra, 29

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à terra nativa, o herói Ulisses descobre que sua propriedade fora saqueada por usurpadores em sua ausência. “Muito tempo se passou antes que o exército retornasse de Troia, e esse fato por si só provocou muitas mudanças”, escreveu Tucídides no século V a.C. “Havia conflitos entre facções em praticamente todas as cidades, e aqueles que foram condenados ao exílio fundaram novas cidades.”27

Assim como em Troia, algumas populações micênicas locais tentaram reconstruir sobre as regiões destruídas, voltando aos escombros do que haviam sido seus lares para resgatar o que pudessem das muralhas, dos santuários e dos armazéns danificados das cidadelas; no entanto, semelhante ao que acontece com os desastres modernos, aqueles que possuíam os meios de seguir em frente o fizeram. Embora partilhando a mesma cultura, a mesma religião e o mesmo idioma por toda a Grécia, os micênios se distinguiam entre si por diferenças regionais e, quando seu mundo entrou em colapso, escolheram diferentes rotas de fuga. Aqueles que viviam na Beócia, na Grécia central e na erma Tessália, na extremidade setentrional do mundo micênico, vagaram a leste, para a ilha de Lesbos, possivelmente se juntando a pequenos povoados de parentes que lá haviam se assentado anteriormente, antes ou durante a Guerra de Troia. Significativamente, referências fortuitas a incursões dos aqueus à Trôade e a ilhas orientais do mar Egeu encontram-se difundidas por toda a Ilíada: “Doze cidades de homens eu destruí com as minhas naus;/ por terra afirmo que saqueei onze na terra fértil de Troia”, diz o herói grego Aquiles, em uma passagem que, sem dúvida, relembra a conquista da região por seu povo.28 Escavações em Lesbos mostram que a cultura nativa era uma extensão da Trôade — por acaso ou por ironia do destino, portanto, os micênios haviam se assentado em meio 30

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a um povo culturalmente aparentado aos troianos.29 Gregos mais recentes, relatando o conhecimento fragmentário de sua história pós-micênica, chamaram esses colonizadores de eólios, de Éolo, um filho de Hélen, o herói tribal epônimo dos helenos, ou gregos, e o termo é usado pelos historiadores atualmente. Atrás dos imigrantes micênicos estavam sua terra, suas cidades, os túmulos de seus ancestrais. Como refugiados, sem dúvida carregaram tudo o que puderam de suas antigas vidas — ouro e bens preciosos, se possível, as roupas nas costas, utensílios domésticos — ou assim se presume, pois dessa forma o fazem todos os refugiados até os dias de hoje. Contudo, foram incapazes de preservar muitas coisas, e patrimônios valiosos evaporaram com a desintegração de sua civilização: a alfabetização, por exemplo, desapareceu e não ressurgiria por quase quinhentos anos. De todas as coisas que os refugiados levaram de seu mundo estilhaçado, as mais significativas foram também as menos tangíveis — os deuses que adoravam, a língua que falavam, as histórias que contavam. Ali, na região de Lesbos, memórias do mundo micênico perdido foram passadas para as gerações subsequentes em histórias e poemas: contos de grandes cidades, ricas em ouro; recordações, muitas vezes confusas, de batalhas combatidas e tipos de armadura. Seus poemas cantavam as aventuras de guerreiros que lutavam como leões e em comunhão com os deuses, heróis diletos, como o grande Embusteiro, cujas ardilosas artimanhas sempre derrotavam os inimigos, e de um homem gigante e teimoso que lutava por trás de um escudo que o ocultava como um muro — heróis que, mais tarde, seriam conhecidos pelo mundo como Ulisses e Ájax.30 Juntamente com esses elementos comuns, os refugiados carregaram tradições específicas da Tessália. Em algum ponto, 31

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um personagem novo e eletrizante adentrou a narrativa em progresso sobre guerra e guerreiros, um herói semidivino, indelevelmente associado à distante e escarpada Tessália, que foi chamado de “Aquiles”. A antiga tradição marcial também adotou um conflito específico, moldando-o em torno do cerco a uma cidade que de fato existiu, cujas ruínas atualmente se encontram a apenas um dia de navegação, no Helesponto, na Anatólia ocidental — “Taruisa”, na língua dos hititas, “Troia”, em grego.31 Presumivelmente, os aliados troianos, entre os quais se encontravam assentados os micênios, tinham histórias próprias sobre a cidade — seu povo, seus apuros e sua destruição; palavras e expressões anatólias integradas à Ilíada são evidências de um contato entre os colonizadores e os habitantes locais.32 Tendo atrás de si as ruínas de suas cidades e — um dia de navegação à frente — as ruínas de outra, os poetas eólicos aos quais era confiada a antiga narrativa épica podem ter visto, de seu novo posto de observação, que a antiga história da destruição de Troia era inextricavelmente ligada à de sua própria destruição. O épico em progresso ainda se encontrava a séculos de distância de seu término, com outros estágios cruciais ainda por vir. Possivelmente no fim do século X ou no início do século IX a.C., o épico eólico foi absorvido por poetas que trabalhavam com o grego jônico.33 Sofisticados e inovadores, os jônicos acrescentaram ao velho épico eólico tradições paralelas e o tornaram seu. Apesar do veio perceptível de eolismos bem-integrados à obra, a Ilíada de hoje é composta em grego jônico, e a tradição antiga afirmava ser Homero um poeta da Jônia.34 Essa era, portanto, a mistura de elementos que fora transmitida por poetas épicos no decorrer dos cinco séculos que se seguiram 32

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ao colapso da civilização micênica, para a era que os historiadores batizaram como “Idade das Trevas” ou “Idade do Ferro” — época em que Homero viveu. Durante esse período ainda pouco conhecido, as populações decaíram, bem como a cultura material. Ainda assim, apesar de toda a sua pobreza relativa, a vida e a sociedade devem ter não apenas resistido como, por fim, florescido, pois, quando a “Idade das Trevas” acabou, um novo e vibrante cenário humano foi revelado. Cidades-Estados haviam substituído as comunidades assentadas em palácios feudais da época micênica, expedições para o exterior haviam levado à colonização de novas terras por colonos gregos, a escrita fora restaurada — usando um alfabeto adaptado do fenício —, e a Ilíada de Homero fora concebida. Pouco se sabe sobre como a Ilíada recebeu sua forma final. Teria sido ditada ou escrita? Para que público foi encenada? A recitação do poema inteiro tomaria dias inteiros, um entretenimento apropriado talvez para festivais esporádicos, mas parece mais provável que a encenação do épico tenha sido dividida em episódios. A Odisseia descreve dois cantores profissionais, ambos pertencentes às cortes de famílias nobres, que encenam pequenas “canções”;35 um deles, Demódoco, é cego, fato que inspirou uma tradição que afirmava que o próprio Homero fora um bardo cego.36 As pequenas e aristocráticas reuniões (em maior parte, porém de modo algum exclusivamente, frequentadas por homens) para as quais os poetas da Odisseia encenavam são modelos plausíveis para os públicos da Ilíada.37

Quando a Ilíada começa, os exércitos aqueu e troiano estão atolados em uma situação de impasse, após uma década de hostilidades. A gigantesca frota de naus vinda de todas as partes do mundo grego 33

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encontra-se abicada nas areias sob a cidade fortificada de Troia, seus cordames e cascos de madeira apodrecendo com o desuso; e, como o épico deixa bem claro, as tropas estão desesperadas para retornar às suas casas. Nos primeiros de seus 15.693 versos, a Ilíada narra o conflito entre o herói Aquiles e seu inepto comandante em chefe, Agamêmnon, o governante da rica Micenas. Logo após o confronto, Aquiles retira-se, furioso, da causa comum, levando seus homens consigo, e ameaça retornar à sua casa na Tessália. Esses eventos ocorrem no Canto I (por uma convenção antiga — ou, possivelmente, por escolha do próprio Homero —, a Ilíada está dividida em vinte e quatro capítulos, ou “Cantos”),38 e Aquiles mantém-se afastado até o Canto XVIII; a maior parte da ação narrada pelo épico, portanto, acontece na ausência de seu herói principal. Quando seu companheiro mais próximo, Pátroclo, é assassinado pelo herói troiano Heitor, Aquiles retorna à batalha, tendo como único propósito vingar seu amigo. E assim o faz, em um decisivo confronto final que termina com a morte de Heitor. Depois que Aquiles enterra Pátroclo com todas as honras, o pai de Heitor, Príamo, rei de Troia, viaja à noite até o acampamento grego para implorar pelo corpo de seu filho morto. Aquiles cede e devolve o corpo, e Heitor é enterrado pelos troianos. O épico termina com o funeral de Heitor. Desde os tempos antigos, esse épico foi chamado de Ilíada (a primeira menção a seu título é feita por Heródoto)39 — “o poema sobre Ílio”, sendo Ílio e Ílion os nomes alternativos de Troia. Notavelmente, não há qualquer relato, nos épicos ou na mitologia grega, da queda de qualquer uma das cidades gregas; todo o páthos emocional estava investido na perda da cidade asiática de Troia. 34

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Embora o épico de Homero narre os eventos de uma porção muito reduzida da guerra de dez anos, a lenda completa continha vasta rede de subtramas e amplo elenco de personagens, protagonistas e coadjuvantes. A história completa da guerra foi contada por uma série de seis outros épicos, o conjunto deles sendo conhecido como os poemas da Guerra de Troia do Ciclo Épico. Compostos em datas diversas, todos bastante posteriores à Ilíada, também, assim como a Ilíada, se basearam em tradições comuns muito mais antigas. A própria Ilíada mostra uma consciência aguda dessas outras narrativas, possivelmente concorrentes, ao fazer alusão a eventos e personagens específicos delas. As partes em que isso é feito sempre merecem estudo minucioso, pois podem revelar elementos tradicionais que a Ilíada adaptou ou rejeitou — encruzilhadas, em outras palavras, em que a nossa Ilíada fez escolhas deliberadas e transformadoras. Os épicos do ciclo há muito se perderam no tempo, e somente resumos rudimentares e alguns versos soltos sobreviveram, a fonte primária deles sendo um compêndio de “conhecimento literário útil” atribuído de forma incerta ao filósofo de nome Proclo, no século V d.C. Nesses resumos, ficamos sabendo que o épico Cípria contava as origens da guerra, por exemplo, ao passo que o Etiópida narrava a morte e o funeral do maior herói da guerra, Aquiles. Outros épicos narravam a tomada de Troia pelos gregos, sua destruição e o retorno dos veteranos gregos aos seus lares.40 Dada a ampla gama de tópicos disponíveis, a escolha feita na Ilíada de uma finíssima fatia do período menos relevante da guerra, que a tudo e a todos envolveu — uma discussão entre um guerreiro e seu comandante durante o impasse prolongado do cerco —, é impressionante. Por trás dessa escolha sem dúvida há uma canção 35

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épica muito mais antiga construída em torno do tema familiar da ira, da vingança e do retorno de um guerreiro tratado de maneira desonrosa. Nessas circunstâncias, a estrutura escolhida para a Ilíada necessariamente fixa nossa atenção sobre Aquiles. Essa narrativa, portanto, concentra-se menos no lançamento de esquadras ou na queda de cidades do que na tragédia do melhor guerreiro da Guerra de Troia, que, como a Ilíada incessantemente deixa claro, morrerá numa guerra na qual ele próprio não vê sentido.41 Há muitas evidências na Ilíada que sugerem que Aquiles era originalmente um herói folclórico, possuidor de dons e atributos mágicos que o tornavam invulnerável, e que foi levado à poesia épica num momento relativamente tardio. Na Ilíada, Aquiles traz os atributos indeléveis de suas origens folclóricas antigas, mas é despojado de todos os poderes mágicos que o protegiam. O Aquiles de Homero, o filho da deusa Tétis e do herói Peleu, é inteiramente mortal, e, de fato, sua mortalidade é um dos polos imóveis em torno dos quais gira o épico. Aquiles é o veículo da grandeza da Ilíada. São os discursos dele que incitam os acontecimentos decisivos, seu questionamento agressivo que dá ao poema seu poderoso sentido. “Eu não vim para aqui lutar por causa dos lanceiros Troianos,/ visto que eles em nada me ofenderam”, diz enfurecido ao seu comandante em chefe, Agamêmnon, no calor da discussão que dá início ao épico, “Mas foi a ti, grande desavergonhado!, que seguimos,/ para que te regozijasses”. “Quanto a ti, ó Pelida,”, diz o idoso conselheiro dos aqueus, Nestor, buscando conter Aquiles, “não procures à força conflitos com o rei,/ pois não é honra qualquer a de um rei detentor de cetro,/ a quem Zeus concedeu a glória.” 36

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“Chamar-me-ia um covarde e uma nulidade”, é a resposta de Aquiles, ignorando o velho Nestor e falando diretamente a Agamêmnon, “se tivesse de te ceder naquilo que me ordenas./ A outros dá as tuas ordens, mas não penses mandar/ em mim. Pois penso nunca mais te obedecer.”42 Dessa forma, baseando-se em sua longa tradição, a Ilíada usou eventos e heróis épicos convencionais para contestar a concepção heroica da guerra. Será legítimo que um guerreiro alguma vez desafie seu comandante? Deve ele sacrificar sua vida pela causa de outro? Como se permite que comece uma guerra catastrófica, e por quê, se todas as partes desejam vê-la terminada? Sendo assim, não se pode terminá-la? Ao dar a vida pelo país, estará um homem traindo sua família? Os deuses aprovam a carnificina da guerra? Será a morte de um guerreiro compensada por sua glória? Essas são as questões que permeiam a Ilíada. Essas também são as questões que permeiam uma guerra de verdade. E, na vida, como nos épicos, ninguém as respondeu melhor do que Homero.

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A guerra que matou Aquiles - Primeiro Capítulo