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A Conspiração do Faraó


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Do Autor:

O Ladrão de Tumbas A Conspiração do Faraó


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O professor caminhava com as mãos às costas enquanto repetia os tempos verbais em voz alta. Ao mesmo tempo, agitava com suavidade uma espessa vara de junco, à medida que comprovava a correta repetição das frases por parte das crianças. — Sdm.i, Sdm.k, Sdm.f... — repetiam elas com suas vozinhas musicais sem saber muito bem o que diziam. Hesy — assim se chamava o professor — as observava, ciente da dificuldade daquela estranha forma verbal. Não era à toa que, havia mais de quarenta anos, ensinava gramática nas kap,* conhecendo de sobra os problemas que apresentava aos alunos. — A forma Sdm.f é uma oração sem ligação, que tem um particípio passivo como predicado — explicava ele com a monotonia própria de anos de experiência.

* Academias onde os príncipes e os filhos das famílias importantes eram educados.


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18 Os pequenos o observavam com os olhos bem abertos, convencidos de que aquelas palavras só podiam ser compreendidas por um sábio. O professor deu delicados golpes com a vara na palma da mão, fazendo-os entender o que iria acontecer se não prestassem atenção. O fato é que eles haviam se revelado legítimos preguiçosos. Hesy não se lembrava de ter tido alunos piores em qualquer outra turma — distraídos, teimosos e até mesmo mal-intencionados. — De um jeito ou de outro, algum dia regereis o destino do Egito — costumava repetir o professor. — Que ao menos então os deuses e os homens possam governar com propriedade. Essas palavras, porém, pareciam perder-se por entre os imponentes muros do palácio, sem que tampouco seu eco causasse o mínimo efeito. E assim passavam todo o verão. Havia dias em que Hesy fazia um grande esforço para não empregar sua vara com vigor e seguir o velho ditado que dizia que os ouvidos das crianças ficam nas costas. Apesar disso, também devia reconhecer que as chibatadas que se vira obrigado a administrar em algum momento pouco ou nenhum efeito haviam causado, exceto, claro, a redenção de sua ira contida. O professor suspirou com desânimo enquanto seu olhar percorria, novamente, a distinta classe. — Alguém sabe o significado do que eu explicava antes, a respeito da forma Sdm.f? Um dos meninos levantou o braço como um raio, o que não deixou de surpreender Hesy. A criança em questão era a menos adiantada da classe. Na opinião do professor, um verdadeiro retardado, embora fosse príncipe mesmo assim. Hesy olhou para o menino com curiosidade enquanto erguia uma das sobrancelhas, convidando-o a responder.


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19 — Está claríssimo que significa ouvir — afirmou o menino com segurança, ao mesmo tempo que olhava para os outros, satisfeito por sua resposta. A classe inteira explodiu em uma gargalhada geral, enquanto o professor, boquiaberto, observava o aluno, arrasado. É que a resposta não deixava de ter sua graça, já que o verbo Sdm significava mesmo ouvir, embora não naquela forma, Sdm.f. — O príncipe Amonhirkopshep — disse Hesy, levantando a voz em meio ao tumulto reinante — decidiu iluminar-nos hoje com seus infinitos conhecimentos. As risadas voltaram a ressoar na sala com ainda mais estardalhaço — se é que isso era possível —, o que fez com que o príncipe se digladiasse aos empurrões com o companheiro mais próximo. — Thot* divino! Parece que a ira de Sekhmet** se apoderou desta classe — exclamou Hesy, ao mesmo tempo que tentava separá-los, açoitando-os com a vara. Quando, enfim, conseguiu pôr ordem na agitação, o professor respirava com visível dificuldade, e seu rosto estava coberto de suor devido ao esforço. — Não vou tolerar atitudes semelhantes nesta sagrada classe — gritou entre um arquejo e outro —, mesmo que para isso tenha que utilizar uma vara nova todos os dias. * Deus que inventou a escrita e as ciências conhecidas pelo homem. Foi considerado mago e era padroeiro dos escribas. É representado como um homem com cabeça de íbis. ** Deusa com cabeça de leoa. Era filha de Rá, esposa de Ptah e mãe de Nefertem. Foi muito venerada em Mênfis durante o Novo Império. Nela se acumulavam poderes benéficos e forças destrutivas. Deusa da guerra, tinha fama de sanguinária quando encolerizada. Consta que causava doenças e epidemias e era padroeira dos médicos.


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20 Então, deu um forte golpe com o junco em uma mesa próxima, fazendo com que os alunos estremecessem. Agora o silêncio era absoluto, e o velho Hesy distribuía seu indignado olhar entre a turma de desalmados. De fato, o pobre Hesy aguentara mais que o suficiente durante aquele verão que custaria a esquecer. Ele, que era um escriba Per-Ankh, da Casa da Vida da sagrada cidade de Abidos, e que instruíra príncipes e vizires durante tantos anos, não merecia semelhantes interrupções de insolentes malcriados. Fechou os olhos e usou as costas da mão para enxugar o suor da testa. Pensou por um momento em sua casa de Tebas, na esposa, nos filhos, nos netos... Sentiu saudade deles, assim como dos perfumes do jardim e de tudo o que um pobre velho espera desfrutar em sua aposentadoria. No entanto, era aqui no Baixo Egito que se encontrava, e a mais de cinquenta iteru (cem quilômetros) de seu querido lar; exatamente em Pi-Ramsés, a cidade fundada pelo grande Seti e por Ramsés II, e que servia de capital aos raméssidas durante parte do ano. O deus User-Maat-Rá-Meri-Amon (Ramsés III),* como era de costume, transferira a corte para essa cidade a fim de passar o verão ali, fugindo do excessivo calor que açoitava Tebas durante o estio. A residência inteira mudava de lugar, e com ela os altos cargos do país, juntamente com suas famílias. Como em ocasiões anteriores, o deus lhe havia pedido que o acompanhasse durante o verão para se encarregar da educação dos príncipes e filhos dos dignitários. A vontade do faraó era sagrada. Ele seguiria o Hórus** vivente aonde este lhe chamasse, mesmo que tivesse de ir de joelhos. * Seu nome significava “Poderosas são a verdade e a justiça de Rá, o Amado de Amon”. ** Filho de Osíris e Ísis, Hórus era o deus que simbolizava a realeza. Os faraós eram considerados uma encarnação dele.


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21 — Será a última vez que peço — dissera-lhe o deus; vida, saúde e forças lhe sejam dadas. — Não há dúvida de que garantiste uma feliz aposentadoria depois de tantos anos de bons serviços prestados. E, na verdade, fora exatamente assim. Hesy tivera a honra de educar todos os filhos de Ramsés, mesmo que para isso tivesse precisado dedicar quase trinta anos de sua vida. Voltou a olhar seus alunos com dureza, que o observavam calados. Nada na atitude deles o levava a pensar que temessem qualquer ameaça. Mais ainda: parecia até que gozavam em silêncio da possibilidade de diversão que uma boa sessão de açoites lhes proporcionaria. A essa altura, Hesy já não tinha nenhuma dúvida de que eram uns verdadeiros monstros. Obviamente, não era a primeira vez que tinha de enfrentar crianças rebeldes. Ainda recordava a batalha que tivera de travar com o príncipe Parahirenemef em sua infância. Aquele menino revelara-se um autêntico demônio, a quem nem os golpes de vara mais enérgicos foram capazes de amolecer. Um caso único, sem dúvida. Claro que, naquela época, Hesy era mais jovem e tinha força suficiente para aguentar a guerra diária que mantivera com o príncipe. No final, até o deus precisou intervir, castigando severamente o filho pelo comportamento. Logo que se tornara adulto, o príncipe acabou mantendo uma magnífica relação de amizade com o professor, que chorara sua morte com pesar, quando — havia alguns anos — Parahirenemef partira inesperadamente para o reino de Osíris.* Agora, contemplando o grupo tão heterogêneo sob seus cuidados, sentiu que as forças começavam a faltar, embora mantivesse o firme propósito de enfrentar preguiçosos como aqueles até o fim. * Osíris, deus de diversas identidades, era o Soberano do Além. Filho de Geb e de Nut, irmão e esposo de Ísis e pai de Hórus.


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22 A essa espécie pertencia o príncipe Amonhirkopshep, neto do atual deus* (Ramsés III) e, chegada sua hora, possível herdeiro da coroa dupla. O príncipe fazia parte dela, não tanto pela soberba, mas pela má criação, já que era um mimado que toleravam, insuportável sob todos os pontos de vista, sobretudo agora que o deus havia nomeado seu pai Generalíssimo, Escriba Real e príncipe herdeiro. A partir desse momento, o pequeno desenvolvera a capacidade de olhar de forma ameaçadora para todo aquele que não se submetesse à sua vontade. Sem dúvida, um menino abominável. Junto dele se sentava Paneb, a maior peste já encontrada em uma sala de aula: à sua natureza perversa se somava uma astúcia imprópria para um menino de 11 anos. Costumava comandar qualquer ação beligerante contra o professor, sendo o mais hábil lançador de bolas de papiro que Hesy conhecera em sua longa carreira. Graças a Paneb, o velho ficara sem um único jaleco para vestir, devido aos impactos das bolotinhas impregnadas de tinta que o menino lançava todos os dias. Paneb costumava comandar a balbúrdia, liderando os colegas com inata habilidade a ponto de conseguir fazer seus companheiros brigarem entre si enquanto ele se mantinha à margem. Era filho de Turo, Sumo Sacerdote de Montu** em Tebas, e Hesy previa para ele um futuro promissor na vida pública. Mais ao fundo se encontrava a princesa Nubjesed, irmã de Amonhirkopshep, tão mimada quanto ele, ainda que muito mais inteligente. Era de natureza aberta e certamente impulsiva e já dava indícios de uma beleza que, com o passar dos anos, chegaria a ser deslum-

* Os antigos egípcios chamavam seu faraó de deus. ** Deus guerreiro do nomo (província) tebano, que se caracterizava por sua grande força, com a qual subjugava os inimigos do Egito.


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23 brante. Ela sempre se sentava junto de quem afirmava ser o seu noivo, Nefermaat. Para Hesy, Nefermaat era o mais esperto de todos. Um rapazinho tranquilo e muito aplicado, que mostrava abertamente um coração sem malícia alguma. Quando o professor o repreendia, ele baixava a cabeça, pesaroso, aceitando seu erro sem discutir. Certamente, a antítese de Paneb, com quem, por outro lado, mantinha uma relação magnífica — algo que Hesy considerava verdadeiramente espantoso. Nefermaat era acompanhado por seu meio-irmão Kenamun, que pouco ou nada tinha a ver com ele, não fossem filhos do mesmo pai, Hori, Mordomo da Casa de Sua Majestade, e decerto muito querido. Na relação entre ambos os irmãos, o professor intuía desavenças caladas, mas difíceis de ocultar de um coração tão experiente quanto o seu. Kenamun era aplicado, mas muito ardiloso, e seu olhar, sempre esquivo, fazia com que parecesse pouco confiável — embora tivesse apenas oito anos. Sentia-se atraído por Neferure, menina tão calada quanto ele, mas que tinha uma vivacidade que faltava a Kenamun. Neferure era neta de Usimarenajt, Primeiro Profeta de Amon e, portanto, um dos homens mais poderosos do Egito. O restante da classe era composto por descendentes dos Maribast e dos Bakenjons, famílias que continuavam governando, na sombra, o país de Kemet* havia séculos, durante os quais tinham acumulado grande poder e riqueza, ocupando todos os postos hierárquicos da administração. Ambas as famílias estavam unidas por laços de sangue e suas relações políticas eram de tal magnitude que nem mesmo o próprio faraó podia se igualar a elas. * Era como os egípcios chamavam seu país. Significa “terra negra”, referência à cor do solo invadido pelo limo levado pelo Nilo durante as cheias.


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24 Os membros dessas famílias haviam recorrido naquele verão à kap de Hesy e eram, além de péssimos estudantes, baderneiros e até brigões. Teriam servido melhor como recrutas para combater as tribos do oeste do que como futuros funcionários públicos do País das Duas Terras.* Acostumados a fazer barulho sempre que houvesse chance, todas as manhãs eles recebiam o professor imitando um toque de trombeta que levava a classe às gargalhadas. Hesy, no começo, aceitou com tranquilidade o fato, que não deixava de ter certa graça, já que, no tempo do Grande Ramsés (Ramsés II), existira um trombeteiro com o nome do professor, que se tornara relativamente famoso no exército do faraó. Chegaram até a erguer uma estela em homenagem a ele, reproduzindo-o com sua trombeta de bocal longo e fino sob o braço esquerdo, adorando Ramsés II. Como é fácil entender, os meninos não perderiam uma oportunidade como aquela de fazer suas brincadeiras. Assim, no início e no fim das aulas, sempre havia alguém que imitasse o toque do instrumento, exatamente como fazia a guarda. Um martírio, sem dúvida, para o velho professor que, no terceiro dia, não teve outra saída senão utilizar sua vara já desgastada diante da algazarra geral. Aqueles eram seus alunos e, ao encará-los de novo, esboçou ao menos um leve sorriso, já que, em poucos dias, as aulas chegariam ao fim e ele poderia regressar à saudosa Tebas, esperando nunca mais ter que se deparar com aqueles malandros. — Falávamos da forma de Sdm.f, não do verbo Sdm [ouvir] — disse Hesy, olhando de soslaio para o príncipe Amonhirkopshep, como se o recente tumulto não tivesse acontecido. — Algum de vocês saberia me explicar em que consiste essa forma? * Outra forma que os antigos egípcios denominavam seu país.


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25 Os meninos permaneceram em silêncio enquanto o velho acompanhava, impassível, um deles erguer a mão. — E então? — dirigiu-se com um tom repreendedor à vítima, que não era outra senão Kenamun. — É uma oração sem ligação, que tem um particípio passivo como predicado — respondeu o aluno. — Isso eu já disse antes — comentou Hesy, achando graça, enquanto, de novo, a sala era inundada de risadas e agitação. Hesy emitiu um som, indicando que queria falar. Bateu com a vara na mesa, pedindo silêncio. Kenamun apertava os lábios, entrefechando os olhos com uma ira contida. Quando, afinal, o silêncio se fez, o professor olhou para Kenamun, gesticulando para que ele prosseguisse. — Quer dizer que esta forma não indica um tempo determinado, podendo expressar o presente, o passado ou o futuro, sendo utilizada com qualquer verbo. Hesy afagou o queixo ao escutar a explicação do aluno. — Está correto, mas incompleto. Não deixa clara a procedência da forma. Alguém pode completar a definição? Os alunos permaneceram calados. — Ninguém? — continuou o professor, encarando um por um. — Tu, Nefermaat — disse ele, cravando os olhos no menino —, não poderias ser mais explícito? Nefermaat o encarou surpreso, remexendo-se incomodado em sua almofada. Ele não gostava nada de exibir seus conhecimentos em público, muito menos para corrigir uma deficiência de seu meioirmão. Hesy, que se deu conta disso perfeitamente, o estimulou com discrição.


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26 — Kenamun nos deu uma explicação correta, e talvez tu possas acrescentar algo mais para nos ajudar a compreender o que ele quis dizer. Nefermaat pigarreou, perturbado. — O que meu irmão nos explicou de um modo prático — falou enfim, lançando um olhar breve para Kenamun — é que uma forma que originalmente tinha o sentido de “o que ele tem ouvido” se transformou, chegando a significar “ele ouve” ou “ele ouviu”. Usando, claro, o verbo ouvir como exemplo. — Correto — falou Hesy com voz suave. — E como criaríamos a voz passiva? — Introduzindo o elemento .tw após o verbo. — Então, como seria, na primeira pessoa, o exemplo completo da forma sdm.f? — Sdm.i [eu ouço] como ativa e sdm.tw.i [eu sou ouvido] como passiva. — Exato — suspirou Hesy —, embora existam questões que complicariam muito esta forma, nos levando a uma discussão interminável sobre isso. O velho professor contemplou aquele grupo tão heterogêneo que suas palavras, e não seu conhecimento, ao menos calaram. Observava Nefermaat e como ele colocava seus cálamos adequadamente entre os mnhd (instrumentos do escriba). Para Hesy, ele e seu meio-irmão eram os únicos que pareciam ter aproveitado as aulas, embora, em sua opinião, Nefermaat tivesse sido muito mais brilhante. Bem, quem sabe talvez tivesse valido a pena todo aquele esforço. Mesmo que fosse apenas pelos dois. Deu uma espiadela em sua clepsidra de alabastro exatamente no momento em que as últimas gotas de água caíam através dela, indicando que o tempo acabara. O silêncio na sala de aula era agora absoluto,


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27 embora os alunos observassem atentos o lento fluir daquele tempo em forma de água. Instantes que para aqueles meninos pareciam eternos e que para Hesy, ao contrário, foram breves, pois ao passar a última gota pelo fino gargalo do relógio, alguém imitou o toque de uma trombeta e a classe se transformou em um pandemônio. Choveram bolas de papiro impregnadas de tinta, vindas de todo lado, no pobre Hesy. Até mesmo Nefermaat, naquele dia, foi alvo da fúria de seus companheiros, formando-se uma batalha monumental. O professor se absteve de qualquer comentário, não se dignando sequer a olhá-los. Recolheu seu material e saiu daquele lugar que para ele parecia o preâmbulo da entrada no Amenti.* Quando, finalmente, as crianças deixaram de brigar, a sala de aula mostrava as consequências do alvoroço: tinteiros, cálamos e papiros foram despedaçados e jogados no chão. Enquanto isso, Paneb, que parecia ter recuperado em parte o ânimo, se dirigiu até a pequena mesa que Hesy costumava utilizar, sentando-se sobre ela. Em seguida, lançou olhares para um lado e para o outro, pedindo que os companheiros se calassem. Logo, agarrou uma das poucas escrivaninhas que ainda não estavam estragadas, mergulhando o cálamo em um tinteiro de água para borrifar gotas ao seu redor em louvor a Imhotep,** em uma clara alusão à cerimônia com que, diariamente, Hesy começava suas aulas. A brincadeira teve efeito, e de novo começaram a brigar, jogando almofadas nos que ainda estavam sentados. Até que os guardas tiveram que intervir para acabar com a confusão e esvaziar a sala, sem privilegiar ninguém. * O Amenti era uma das muitas formas com que os egípcios designavam o mundo dos mortos. ** Os escribas, antes que começassem a escrever, realizavam este ritual em louvor ao grande sábio Imhotep.


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28 Ao sair, a maioria dos meninos ainda ria, celebrando o gracejo de Paneb, enquanto recebia um ou outro açoite. Só Kenamun parecia estar ausente de tudo que o rodeava.

Podia-se afirmar que Nefermaat não era um menino comum. Isso não se devia à sua privilegiada situação dentro da sociedade egípcia nem ao fato de que mal tivera contato com os outros meninos que viviam fora do palácio. Ele, como a maioria das crianças de sua idade, divertia-se com todas as brincadeiras comuns naquele tempo, ainda que, isso sim, somente as compartilhasse com príncipes. Talvez tudo isso parecesse suficiente para a felicidade de qualquer menino, mas obviamente não era bem assim. Nefermaat crescera no seio de uma família da qual jamais havia recebido demonstrações de carinho. Seu pai, Hori, era mordomo da Casa de Sua Majestade, cargo de grande importância que o deus lhe havia confiado, como já fizera no passado com seu avô, Ptahemuia, que tinha servido a Ramsés III, incumbência de uma vida inteira. Ele e sua mulher, Hathor, foram tão estimados pelo faraó que, após a morte de Ptahemuia, o deus decidiu que o único filho do empregado, Hori, o sucederia à frente da administração do palácio. Hori demonstrou merecer a confiança depositada nele, sendo um mordomo tão magnífico quanto o pai. Chegado o momento, Hori casou-se com Tetisheri, uma bela jovem de profunda espiritualidade, pertencente a uma antiga família tebana, e que fora consagrada como “divina cantora de Mut”.* Fruto * Mulheres que faziam parte do clero da deusa Mut, esposa do deus Amon e mãe de Konsu.


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29 daquela união, nasceu um belo menino a quem a mãe pôs o nome de Nefermaat.* Era um nome suntuoso, que evocava antiquíssimas estirpes,** e dada a importância que tinha para os antigos egípcios, Hori o achou muito apropriado. Instalados no palácio do deus em Medinet Habu,*** Hori dedicava-se à supervisão do adequado funcionamento da Casa de Sua Majestade, enquanto Tetisheri se dedicava por inteiro ao filho, tomada de felicidade. Foi uma época maravilhosa, durante a qual os deuses lhes propiciaram bem-aventurança, tornando plenamente ditosa aquela união. Entretanto, desgraçadamente, ela acabou sendo efêmera. Em um dia infeliz, enquanto se banhava no Nilo, Tetisheri se afogou. Uma das traiçoeiras correntezas, comuns naquelas águas, carregou-a, e seu corpo jamais foi encontrado. Aquele foi o golpe mais terrível que o infortúnio dera em Hori, que se negou a aceitar tamanha desgraça. A corte inteira chorou a perda de Tetisheri, muito querida por todos, e até o deus demonstrou publicamente sua amargura, declarando, convencido, que Hapi**** a levara para convertê-la em senhora de seu harém de deusas-rãs, dona das sagradas águas de que agora era parte indissolúvel.

* No Antigo Egito, o nome do menino era escolhido pela mãe, e o da menina, pelo pai. ** Nefermaat tinha sido um príncipe da IV Dinastia. Foi vizir do faraó Snefru e pai de Hemon, construtor da Grande Pirâmide. *** “Templo de Milhões de Anos” (templo funerário) de Ramsés III, situado na margem oeste do Nilo, em Tebas. Anexo ao templo, o palácio real. **** Deus que representava a fertilidade e que era responsável pelas cheias do Nilo.


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30 Ramsés buscou confortar seu mordomo com belas palavras, embora soubesse que, provavelmente, não fora Hapi e sim Sobek* quem reclamara para si a bela Tetisheri. Como Nefermaat ainda não tinha completado um ano de idade, uma ama do palácio foi encarregada de cuidar dele. Hori ocupava-se todo o tempo com o trabalho, buscando esquecer o que considerava um castigo imerecido. Entretanto, o coração dos homens se mostra frágil diante do infortúnio, sendo difícil suportar tanta solidão e infelicidade. A dor parece acordar dentro dele de novo a cada dia, e acaba por converter-se em um tormento que o aproxima mais e mais do poço da angústia. É então que busca desesperadamente algo que o ilumine em tão intensa escuridão, embora, muitas vezes, nem ele mesmo saiba o quê. Essa foi a razão pela qual Hori se aferrou à bela Mutenuia, feito um náufrago a uma tábua salvadora surgida milagrosamente no meio da tempestade provocada pelo furioso Set,** lá em seus infernais domínios, junto ao Grande Verde.*** Por fim, os deuses, benévolos, assistiam ao pobre mortal com ventos de esperança para redimir seu coração. Ou quem sabe não fosse bem assim? O tempo responderia claramente a Hori, embora este já não estivesse disposto a escutá-lo. Enamorou-se perdidamente pela mulher e, mal a conhecendo, resolveu casar-se. Sua viuvez durara apenas um ano.

* Deus-crocodilo com múltiplas aparências, venerado no Antigo Egito desde as primeiras dinastias. ** Deus do Antigo Egito, filho de Geb e de Nut e irmão de Osíris, Ísis e Néftis, da qual também era marido e quem, entre as diversas formas, era representado como o deus do deserto. *** Como os antigos egípcios denominavam o mar Mediterrâneo. Chamavam-no também de Wdy Wr.

A Conspiração do Faraó - Trecho  

Mesclando ficção com dados históricos obtidos em papiros que fazem referência ao reinado de Ramsés III e à Conspiração do Harém — um dos epi...

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