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Editora OCA Edição 001 – ano 01 – nº 1 05 de Março de 2018 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

REVISTA DIÁLOGOS com Lígia Maria Ortega Jantalia

por BEATRIZ CAROLINA DA COSTA SANT’ANA e CAMILA MARIAH

OCA – Laboratório de Educação e Política Ambiental ESALQ - USP


Um diálogo com Lígia Maria Ortega Jantalia sobre educação ambiental e transição para sociedades sustentáveis Hoje, na Revista Diálogos tivemos o prestígio de entrevistar Ligia Maria Ortega Jantalia, professora aposentada, participante do Coletivo Educador de Bertioga e aluna do Curso de Especialização ''Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis''. Nessa entrevista ela apresenta sua visão sobre o curso e seus encontros e que acontecem uma vez por mês aos finais de semana. ''O curso é algo totalmente inovador, criativo, sensível nessa minha caminhada de vida. Sempre sonhei em agir para transformar as condições de vida nos lugares (sem saber que antes eu precisava transformar, descobrir muitas coisas em mim mesma).''

1) O que é o Curso de Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis? R: É uma grande oportunidade e um privilégio! É muito bom aprender e conviver com pessoas que compartilham sonhos, experiências e conhecimentos. O curso é algo totalmente inovador, criativo, sensível nessa minha caminhada de vida. Sempre sonhei em agir para transformar as condições de vida nos lugares (sem saber que antes eu precisava transformar e descobrir muitas coisas em mim mesma). 2) Em que momento dentro da sua profissão acadêmica você se viu pensando ser um/uma especialista em Educação Ambiental?

R: Foi recentemente, através da minha participação no Coletivo Educador em 2016, quando a pesquisadora Semíramis Biasoli, falou sobre o curso e a importância dessa experiência para o meu trabalho no Coletivo em Bertioga. 3) Fiquei sabendo que você participou do último encontro do Curso de Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis, certo?! Como foi o encontro e a sua participação nele? R: Sempre sinto que os encontros são intensos. Passamos quatro dias juntos em atividades que, apesar de variadas, me levam a muita reflexão, a relacionar com as coisas da vida, com o que eu faço, quero e penso em fazer!


Procuro participar das atividades sempre relacionando com as minhas experiências no trabalho, na convivência com as pessoas.

leva a nada” é compartilhada pela Nancy que falou não ver tanto a “linha divisória” e sim se deixar se motivar pela vontade de transformar.

Como já fiz uma caminhada, um pouco longa (risos), e assim identifico várias situações onde as minhas ações poderiam ter sido um pouco diferentes e às vezes coloco isso para o grupo.

5) O Curso de Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis sempre desenvolve atividades para despertar e refletir enquanto seres individuais agindo de maneira coletiva. Como é pra você participar da atividade João Bobo*? R: É bem tranquilo, confio bastante em todas e todas. Apenas fico pensando em como a pessoa, no meio da roda, está se sentindo! Às vezes, percebo certo receio de quem está no meio. * João Bobo consiste em uma dinâmica onde as pessoas participantes se dividem em grupos de cinco ou seis pessoas. Uma pessoa começa no meio e o objetivo é que ela jogue o peso do seu corpo aos poucos, para que os demais ao seu redor possam a conduzir. É uma atividade que exige concentração, confiança e equilíbrio.

4) É verdade que em algum momento do curso teve a presença ilustre de Nancy Thame (PSDB) e José Machado (PT)? Como foi para você, participar de uma roda de conversa com pessoas políticas ditas ‘’opostas’’ pela sociedade? R: Sim, nossa querida vereadora-aluna Nancy em diálogo com o ex-prefeito de Piracicaba mostrou que, apesar das diferenças políticopartidárias, é possível encontrar pontos convergentes para se agir, desde que é claro saiba se conviver com as diferenças e focar naquilo que é comum para juntos e juntas agirem numa causa socialmente importante! Acho que essa conversa só foi possível porque essas pessoas expressam muito dos princípios do nosso curso: respeito, relação dialógica, generosidade, e principalmente a busca de sociedades justas e dignas. Por exemplo, creio que a ideia de que “ fazer política num nível de hostilidade, de ataques não

6) Houve uma roda de conversa com Edna Costa (a mesma que deu dança circular e faz parte da REPEA – Rede Paulista de Educação Ambiental), Antônio Vitor Rosa e Laís Ferraz de Camargo (aluna do curso


EATSS). Como foi esse momento? R: Creio que os convidados, dentre eles a querida Laís, tiveram uma participação importante no encontro pois , como é característica do nosso curso, possibilitaram, com a sua fala, que relacionássemos como se dá a construção de Políticas Publicas em EA e assim podemos entrar em contato com experiências concretas de construção dessas políticas. Novamente muito dos princípios e conceitos que discutimos em nosso curso como aprender participando, respeito às diferenças, relação dialógica, puderam ser identificadas na construção dessas políticas. 7) Professor Demóstenes apresentou sobre a Gestão Ambiental e Políticas Públicas. De que maneira você acha que esse momento contribuiu como ferramenta de estudo para a sua formação? R: Penso que foi a ideia de pertencimento e participação das pessoas (quer seja em Conselhos, Coletivos, Grupos de Trabalho), quando se quer transformar um lugar, através da formulação ou reformulação de políticas públicas. Relacionei essa fala com o que aconteceu em um dos encontros do Coletivo, em 2017, quando ouvi do meu vizinho de bairro que, na verdade ele

queria mesmo era voltar para Oeiras, no Piauí. Isso foi em Agosto, em dezembro ele se mudou com a família para lá todo feliz! 8) A Professora Mirian Stella Rother também estava presente nesse encontro, né?! Fiquei sabendo que ela fez um vídeo bem bonito sobre a MIP (Mínima Máxima Intervenção Possível) no Rio Piracicaba. Como foi receber esse presente? Isso fez você resgatar algum tipo de sentimento? R: Foi muito bom e gostoso assistir ao vídeo e recordar aqueles momentos da Intervenção! Realizar a Intervenção foi extremamente positivo enquanto aprendizagem, mas ao mesmo tempo, fiquei um pouco triste ao pensar na participação popular e lembrei do Ciclo de Diálogos! Não é fácil mobilizar as pessoas! Confira aqui a matéria na íntegra de como foi a MIP no Rio Piracicaba! http://ocausp.wixsite.com/cursos /singlepost/2017/10/30/Intervençãona-praia-do-Rio-Piracicaba-é-odestaque-do-encontro-deOutubro

9) Aconteceu uma atividade noturna idealizada pela equipe pedagógica. Você


acha que foi um momento difícil? Gostou da participação nessa atividade? R: Gostei muito desse momento e não achei nada difícil! Recordei os rituais que fazíamos com os alunos do Fundamental I quando passavam para o Fundamental II, nas escolas em que trabalhei há duas décadas! Também lembrei das minhas aulas de Antropologia e dos rituais de vários povos indígenas, da importância da passagem nessas culturas! Achei que essa atividade foi preparada com muito cuidado e carinho. Os textos lidos, as vestimentas, as músicas me fizeram viver aquele momento intensamente! 10) Como é pra você, Lígia, realizar um curso que fala sobre espiritualidade e de que maneira você vê esse tal assunto fazendo sentido dentro dos processos individuais, coletivos e profissionais? R: Falar de espiritualidade nesse curso vem de encontro a minha vontade de conciliar racionalidade, acolhimento, amorosidade, escuta, diversidade, generosidade e muito mais coisas que permitam fazer das relações entre as pessoas, algo que promova o bem estar e a felicidade. Meu guru e mestre indiano, Paramahansa Yogananda

(1893-1952), em seu livro “Autobiografia de um Yogue’’, afirmou, sobre os ideais de educação na escola que criou na cidade de Ranchi, na Índia, em 1918, que: “Via claramente os áridos resultados da instrução comum, que visa apenas o desenvolvimento do corpo e do intelecto”. “Os valores morais e espirituais, sem cujo apreço, nenhum homem pode encontrar a felicidade, ainda estavam ausentes do currículo formal”. Instruiu a todos que a maioria das aulas (matérias agrícolas, industriais, comerciais, acadêmicas), fosse feita ao lar livre e aos alunos de Ranchi eram ensinados também a meditação iogue e “... um sistema original de desenvolvimento da saúde e do corpo, Yogoda, cujos princípios descobri em 1916”. Estive em 2014, nessa escola de Ranchi e sentei-me numa frondosa árvore, nos jardins onde, há mais de cem anos, provavelmente algumas dessas aulas aconteceram. Que benção, que alegria foi para mim essa experiência! Acredito portanto que as referencias de educação que adotamos, filosóficos e científicos, nos levam a refletir e pensar nos sentidos de nossas ações individuais e coletivas! Penso que nessas escolas já praticava-se uma educação ambiental crítica. Ah, e também ainda em sua Autobiografia, ele


cita um outro grande mestre indiano, Lahiri Mahasaya que, mesmo pertencendo a casta dos brâmanes, a mais elevada na sociedade indiana, fez corajosos esforços para acabar com os preconceitos de castas nessa época. Portanto, ao ler e trabalhar conceitualmente a espiritualidade no curso sintome bastante feliz, porque trabalhar com todas essas referências é meu desejo! 11) Qual é o sentimento que te vem quando observa nossas colegas de curso, como Laís e Gabriela Tiburcio, falarem a frente de maneira profissional? R: Sinto um contentamento e alegria em saber do trabalho delas e de como isso pode ser compartilhado conosco através da oportunidade que o curso oferece em programar esse momento! Considero esse um exercício importante para todo educador, partilhar com seu grupo a sua experiência profissional! Isso nos anima e dá mais coragem para realizarmos nossas ações! 12) Pra galera que não conhece muito sobre as ferramentas, você poderia resumir de maneira simples o que seria a arquitetura da capilaridade e de maneira ela se aplica na nossa vida? R: Pergunta difícil, ein! (risos)

Muito genericamente (preciso estudar mais), seria a capacidade de, em nossos processos formadores, alcançar o maior número de pessoas possível, ter parceiros, aliados, atingindo Grupos de Trabalho, Conselhos, Coletivos, diversas instituições, empresas e, principalmente, que as políticas públicas existentes e reformuladas, sejam efetivas. Como foi dito no encontro: “Queremos que 208 milhões de pessoas sejam PAPs (pessoas que aprendem participando)”. 13) Dentro das reflexões levantadas no último encontro, quais são os desafios de ser um/uma especialista em Educação Ambiental dentro da nossa sociedade atual e de que maneira podemos ultrapassar essas dificuldades? R: Outra pergunta difícil (risos), Penso que é o de lidar com o descompasso entre as nossas intenções e a realidade, a prática. Ou seja, procurar acabar com o descompasso entre o “instituído e o instituinte” A capilaridade tem essa função, ela procura ultrapassar essa dificuldade! Em nossos Projetos de Intervenção temos que nos confrontar com essa situação de sabermos o que somos, o que queremos, como fazemos parceiros e aliados (nossa capilaridade) e como damos continuidade as nossas


práticas, para que a cada ano escolar , governo, gestor, o trabalho se mantenha! Utopia? Sim, penso que estamos nesse curso para isso: pensar a sustentabilidade, a mudança com conhecimento, confiança, força e coragem!

E essa foi Revista Diálogos entrevistando Lígia. Fica notável como o Curso de Especialização ''Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis'' vem trazendo uma grande transformação na vida desses estudantes-profissionais, acreditando cada dia mais em um movimento mais dialógico e horizontal. Que sigamos em mais encontros e que tenhamos mais oportunidades de entrevistar pessoas, com suas diversas vivências e pontos de visão, sendo assim, agentes multiplicadores de informação e formação.

Revista diálogos  

O ano de 2018 inicia com novidades na Comunicação da Especialização. Os estudantes foram convidados a compartilhar suas narrativas sobre os...

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