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Play it again! (as histórias das canções)


Play it again! (as histórias das canções)

Título

Play it again! (as histórias das canções)

Autores Alunos da turma 12ºC do ano letivo de 2011/ 12 Revisor Prof. Carlos Lopes Profª. Paula Rócio Capa Pedro Alvarez Arranjo Gráfico Profª. Fátima Santana Lancha Direitos Reservados Escola Secundária c/ 3º Ciclo Quinta do Marquês R. das Escolas – 2780-102 Oeiras, Portugal Telf.: 214 57 33 94 - Fax: 214 58 76 88 e-Mail: ceesqm@gmail.com http://www.esec-qta-marques.rcts.pt/

1ª Edição – maio 2012 ePub – ISBN 978-989-20-3127-9

Play it again! (as histórias das canções) by E.S.Q.M. is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-ComercialProibição de realização de Obras Derivadas 3.0 Portugal License

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Play it again! (as histórias das canções)

Prefácio

Coisas como casas ou canções

Sempre me interessou o que fica por dizer, o que se adivinha poder ter sido, a suspeita de outras coisas para além das coisas que existem. O que mais me fascina é o que sobra, pequenas manchas de pó, marcas de humidade e de respiração. Tudo tem um início, mas o fim, esse silêncio próximo da morte, nem sempre acontece quando se torna parte de nós. Com as canções passa-se o mesmo. Uma canção é uma casa que se habita, um espaço que não nos pertence, mas que é, ao mesmo tempo, nossa pertença também. Fazemos parte delas, ocupando-as até ao mais íntimo pormenor. Se as coisas se passassem de outra forma, as canções seriam sons parados no tempo, melodias sem sentimentos, casas abandonadas, pequenos fósseis à mercê da solidão eterna. Por isso, mas também por muitas mais coisas que não se entendem, nem se imaginam, resolvemos habitar as canções das nossas vidas. E nelas (falo de vidas ou de canções?), inventamos caminhos que ninguém trilhou. Ouvimos canções, e sabemos que é nosso o sonho que ninguém sonhou.

Prefácio inspirado na canção House where nobody lives, de Tom Waits

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Play it again! (as histórias das canções)

Índice Prefácio .................................................................................................................................... ii Um amigo no mar ..................................................................................................................... 2 Imagine..................................................................................................................................... 3 Toupeira ................................................................................................................................... 4 Quem és tu no espelho? ........................................................................................................... 5 Tempo para aceitar ................................................................................................................... 6 Mad world ................................................................................................................................ 7 Mais vale tarde que nunca ........................................................................................................ 8 Rhapsody in Blue ...................................................................................................................... 9 Cantar o nosso hino ................................................................................................................ 10 O derradeiro regresso ............................................................................................................. 11 Instinto ................................................................................................................................... 12 Ontem, hoje e amanhã? .......................................................................................................... 13 Expectativas ............................................................................................................................ 14 Easy come, easy go ................................................................................................................. 15 Balada de um estranho ........................................................................................................... 16 40 dias de preparação ............................................................................................................. 17 Leva-me contigo ..................................................................................................................... 18 O que ouço já não são apenas notas ....................................................................................... 19 Campa de rosas ...................................................................................................................... 20 Regresso Ao Passado .............................................................................................................. 21 Memórias ............................................................................................................................... 22 Karma ..................................................................................................................................... 23 Amor insubstituível ................................................................................................................. 24 Sunny day ............................................................................................................................... 25 Diário de um assassino............................................................................................................ 26 Índice de histórias e de canções .............................................................................................. 27

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Um amigo no mar

A história que vos trago não é a daqueles ousados marinheiros, homens do mar, mas sim de um tímido e discreto homem que há algum tempo conheci. Era um homem sobre quem não se lhe conheciam grandes interesses, excepto o de um dia poder navegar sozinho, no pequeno barco amarelo que o próprio construiu e cujo formato se assemelha a um submarino. Passadas algumas semanas, quem o visse era a andar de um lado para o outro a percorrer as lojas da cidade, sempre a acartar coisas para dentro do seu pequeno barco. Naquela manhã cinzenta, lá se fez ao mar sem destino algum, somente com a sua enorme vontade de navegar por águas calmas. Mas as semanas foram passando, os dias tornaram-se longos e a solidão começou por tomar conta do destemido marinheiro, que com receio da loucura e da alucinação, decidiu arranjar um amigo com quem pudesse partilhar os seus dias. E arranjou! Um amigo imaginário, a quem tratava somente por amigo. Preparava os seus dias a bordo sempre como se para duas pessoas se tratasse, até as refeições diárias eram concebidas a pensar nos dois, e se durante o dia conversavam bastante, era à mesa que mantinham os grandes diálogos. Tinham tanto em comum que a conversa durava sempre até muito tarde. Foi este seu amigo que durante meses o ajudou a manter a sua sanidade mental. Chegou finalmente o dia de regressar, e assim que atracou no porto da sua pequena cidade, dirigiu-se ao café que normalmente frequentava e onde se encontravam os homens da terra, os seus verdadeiros amigos. Passou o resto do dia a narrar a sua aventura, nunca se esquecendo de nomear o seu amigo, aquele que o ajudou a superar os momentos mais solitários, e que nunca o abandonou.

Ana Santos

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Imagine

Tocou a sirene… Lá vêm os aviões! Mais uma explosão!!! Tantos tiros!!! De quem são estes gritos?! Onde estou? Mamã, onde estás? Caminho rumo ao desconhecido… Ao meu redor só vejo destroços. As casas, os passeios, as estradas e os jardins estão irreconhecíveis. Observo todo este cenário de profunda tristeza e vêm-me à memória as conversas dos meus pais sobre as causas desta guerra: o dinheiro e o poder. A maldita ganância humana! Decorridos alguns quilómetros, encontro um aglomerado de pessoas completamente prostradas, algumas das quais se encontram gravemente feridas. Aproximo-me e tento saber onde estamos, mas todos me ignoram. Tenho fome e frio. Sinto-me extenuada. Dirijo-me a uma tenda, encosto-me e adormeço profundamente, desejando que tudo aquilo seja mentira… *** Sinto claridade nos olhos. Já é dia. Está um sol radiante! Ouço um riso de crianças absolutamente inebriante. Levanto-me de imediato, para ver o que se passa. Vejo outros meninos a saltar à corda e vários adultos a trabalhar, transbordando de alegria. Uma das meninas, que aparenta ter a mesma idade que eu (6 anos), aproxima-se de mim com um sorriso espelhado no rosto, e convida-me para dar um passeio de bicicleta pelas ruas da cidade. Não quero acreditar no que vejo! Não há mendigos, nem pedintes nas ruas! Todos aparentam estar bem alimentados e em paz! Cruzam-se uns com os outros de forma amistosa, e cumprimentam-se mutuamente! Não há carros a apitar nem a circular de forma desenfreada! Vejo um outdoor com os Chefes de Estado do G8 anunciando de viva voz o fim da guerra e a criação de um mundo partilhado por toda a humanidade, em pé de igualdade. DEVO ESTAR A SONHAR E NÃO QUERO ACORDAR. *** Ouço uma voz suave a chamar-me. Abro os olhos lentamente e reconheço o rosto. A voz diz-me: Bom dia, filha. Dormiste bem? Beatriz Neves

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Toupeira

Noite … Fechado, espreito a janela, para o sorriso que despejam, aquele sorriso que não vejo. Isolado, sou eu que não consigo olhar para fora, pois eu sou por dentro. Destilado, o que molha, inflama a minha consciência. Como figura autoritária que é, não tardou a vir o senso comum. Exausto, erguia o seu vulto, já com as mãos calejadas, exibindo as suas unhas embrenhadas de terra, de uma jornada que não era a primeira.

Dia … Mal acordo, cumpro com a minha rotina. A rotina de ser o que ainda não fui, tal como jurei. Espreitei a janela outra vez. Apercebi-me que era impensável falhar. Só era preciso tentar. Talvez seja este o método de acabar o que ainda não começou. Já sentia a brisa a entrar nos meus pulmões. Tão bom que era cheirar aquele ar já tão respirado, tão gasto! Sentia-me novo. Eu sabia que tinha conquistado algo. Subitamente, comecei a perceber eu era um peixe de água salgada. O sorriso do cardume que triunfava no exterior não era doce, mas sim adoçado, regulado ciclicamente. Era essa a minha amarga conquista. O requinte da mentira enchia-me de prazer. Toda esta experiência de ser quem não sou, trazia mil paladares ao meu pensamento. Ao ser diferente de mim, rejubilava, por ser igual a tantos outros. Viver só podia ser aquilo explodir de tanto gozo e banalidade. Este foi o dia em que eu tentei viver. Foi o dia em que um mentiroso tentou ser um figurante da sua própria história. Era improvável não errar. É por isso mesmo que um dia os pinguins vão voar mais alto que todos os aviões. E eu sairei do meu casulo; quando for tempo as minhas asas serão ainda mais robustas que as dos pinguins - o suficiente para viajar contigo no espaço. É só tentar. Até lá, continuarei a ser eu, modestamente.

Bernardo Viana Maya Vicente

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Quem és tu no espelho?

Estou cansada de pensar. A minha cabeça, bloqueada pelas palavras que sempre tentei que saíssem, organiza-as da maneira mais assertiva. Procurei que a razão prevalecesse acima dos sentimentos, que os meus instintos ficassem escondidos por detrás da barreira que mostrava de mim mesma. E para quê? Não sei. Podem achar-me negativa, derrotista ou até mesmo ingénua. Digam-me que não entendo a vida, que devia encarar a realidade conforme ela surge, ou leiam-me o discurso mais eloquente e bem redigido que encontrarem. Apontemme o que quiserem, que eu vou admirar a capacidade que tiveram aos vos moldarem segundo os seus ideais. Parabéns! Deixaram de ser vocês próprios, conforme a mim me aconteceu. Estou cansada! Repito: estou cansada de pensar, de ser uma marioneta imposta pelas vontades dos outros. Tudo começou quando nasci. Fui sempre uma menina bonita, mas mimada, fútil. Tinha objectivos, muitos projectos para o futuro e era o sonho de qualquer família. Segui os padrões que me incutiam, mantive as relações que me eram mais úteis e era, portanto, um modelo exemplar. Até que comecei a dançar. A música fazia-me sentir livre e o meu corpo podia finalmente movimentar-se como queria, deixando a postura direita que era obrigada a manter à mesa de jantar. A dança era expressão, era luz, era o momento em que olhava para o espelho e me debatia insistentemente com a pergunta: quem és tu? Cresci. A minha vida foi dando voltas e voltas, com paixões e desilusões. Momentos vazios e intensos que começaram a fundir o gelo que criava em meu redor. A imagem daquele espelho consumia-me, porque dentro de mim apenas sentia o vazio, a solidão e uma profunda tristeza pelo reconhecimento da nulidade do meu papel no Mundo. Foi aí que mudei. Agarreime à única sensação que sempre me acompanhou e segui o meu coração. Danço, danço sempre numa entrega absoluta. Cada passo faz-me mais forte, faz-me reconhecer o meu valor, e perceber o que quero. Afinal, é a primeira vez em que, no espelho, me revejo: sinto-me viva. Sinto-me eu.

Catarina Leitão

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Tempo para aceitar

A notícia na televisão a anunciar o noivado atingiu-me como uma seta direta ao coração. Pareciam felizes, tal como nós o fomos outrora. Tentei ficar feliz, não consegui. A minha mente só conseguia pensar no porquê de não ter resultado entre nós. As lembranças começaram então a invadir-me e eu permiti-me navegar nelas. Lembrei-me da noite em que nos conhecemos, no Club New York, nitidamente como se estivesse a viver o momento. Sentei-me num banco do bar e pedi um Martini. Já me doíam os pés de tanto dançar. A Karen ainda estava na pista de dança e não me pareceu que fosse sair de lá rapidamente. Os rapazes eram atraídos por ela, tal como o efeito que vemos nos ímanes. Quando te vi andar na minha direção, quase em câmara lenta, lindo, com cabelo desgrenhado e ar confiante, nunca esperei o que se seguiu: sentaste-te ao meu lado e começaste a falar comigo. Foi assim que tudo começou. Encontrámo-nos várias vezes. Um dia pediste-me para ir ter contigo ao Empire State Building, às 18h. Eu fui. Não havia mais ninguém para além de nós. Pediste-me em namoro e ofereceste-me o maior ramo de flores que jamais tinha visto. Eu aceitei! Os dois anos que se seguiram foram espetaculares. Comecei a achar que eras o tal, o homem com quem queria casar e passar o resto da minha vida. Sempre pensei que esse sentimento fosse recíproco, mas não. Depois de tanto tempo juntos, acabou tudo repentinamente. Sei que discutimos, sei que gritámos, mas só me lembro de ele ter dito “às vezes o amor dura mas, às vezes em vez disso fere”. Nunca mais falámos, nem soube nada de ti, até hoje... O tempo voou e pensei que te ias arrepender e perceber o quão feliz fomos, mas isso não aconteceu. Agora só desejo que sejas feliz, tal como eu fui contigo. Eu não desisti de amar, porque acredito sinceramente que vou encontrar alguém como tu.

Catarina Garcias Soares

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Mad world

O relógio de parede marca o compasso da vida de Gary. Não é um homem comum, talvez por ser humilde e honesto. Diariamente sonha, mas sonha pouco. Sonha enquanto lhe dão corda, mas não é capaz de o fazer sozinho. O mesmo se passava com o seu relógio. Era objecto estimado do seu avô, por isso todos os domingos, cuidadosamente, limpava-lhe o pó e nunca se esquecia de lhe dar corda. Naquele dia pôde sonhar mais um pouco. Acordara inquieto, absorvido de um sentimento difícil de explicar, como um arrepio agudo e penetrante, mas ao mesmo tempo satisfatório. Regressava a casa depois de um dia longo de trabalho, sabendo que amanhã voltaria a sofrer do mesmo. Pelo caminho, encontrou um mendigo sentado na rua. Segurava um cartão de papel, e nele estava escrito um pedido de ajuda peculiar, com letras maiúsculas: dinheiro ou sorriso. Gary pensava em como ele podia fazer gozo da situação decadente em que se encontrava, mas não deixou de sentir compaixão, e por isso decidiu dar-lhe ambos. Brotou um sorriso forçado e atirou uma nota de cinco euros, nunca olhando directamente nos seus olhos. O mendigo disse então: - Antigamente sorrias mais. Gary, pasmado, levantou devagar a cabeça, e por cinco segundos frisou o seu olhar nos olhos verdes do mendigo. Rapidamente se afastou, reconhecendo, mais tarde, um conforto antigo: Michael, o seu melhor amigo de infância. Um sentimento de paz invadiu-lhe o espírito, como nos tempos em que abraçava o avô e se podia rir sem preconceito. O espaço entre as pedras da calçada abriram-se para Gary cair no inferno da nostalgia.

Gisela Cheoo

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Mais vale tarde que nunca

Nunca gostei de ninguém. Sempre me bastei a mim próprio. Se tivesse retido a educação que me deram, não sei onde estaria. Forcei-me a trabalhar e fiz de mim aquilo que sou hoje. Demorei meia vida a perceber que afinal não é bem assim. Adoeci há cerca de três meses, e isso mudou-me. As constantes dores de barriga, as alucinações frequentes e a falta de sono e de apetite arruinaram-me. De um segundo para o outro precisei de mais gente do que em toda a minha existência. Precisei de um médico para me diagnosticar, de um psicólogo para me curar, até que me resignei. Estou apaixonado, e um apaixonado deixa de ser o próprio. Um homem não é de ferro, e nunca saberei do que realmente é. Aliás, agora pouco sei. Sou um novo homem, o rei do mundo, mas sem servos porque todos o são comigo. Sou um sortudo que sabe ver o mundo como ele é, sentado num arco-íris. Reconheço a natureza, e a água sabe-me a vida, como nunca o soube. Continuo apenas a não acreditar na mudança, mas agora por não querer mudar. Perspetivo um futuro pela primeira vez, e sem medo. Do arco-íris nunca se vê o medo, mas sim as verdades. Hoje vi que uma nuvem negra tem sempre um fim, mas que o arco-íris não. Quis escrever uma verdade intemporal e deixar isto aqui, para o próximo que cá passar.

Henrique Silva

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Rhapsody in Blue

Estava um dia quente para aquela época do ano, e Walter transpirava devido ao calor sufocante. Era dia de visitar o pai. Suspirou, não que não gostasse dele, mas por vezes este revelava-se uma pessoa complicada. Walter era a única pessoa cuja companhia o pai ainda tolerava, mas havia dias em que nem com ele se entendia. Contudo, George Hunter nem sempre foi assim. Outrora fora um escritor de grande renome. Nessa altura era um homem enérgico, afável e um excelente conversador, mas isso aconteceu há muito tempo… O pior, reflectiu com pesar, era que o seu pai parecia cada vez mais abalado. Das últimas vezes que o fora visitar, ele falara-lhe de algumas das personagens dos seus livros como se elas existissem, chegando a relatar-lhe alguns diálogos que supostamente tivera com elas. * George ouviu o filho entrar no seu apartamento, mas continuou a fitar a janela na esperança de voltar a ver Mr. White, mas este tinha desaparecido. Estivera bastante tempo a olhar para aquele sujeito do outro lado da rua, a fumar, envergando a sua inseparável gabardine azul escura. Sentiu a presença do filho atrás de si e disse num tom ligeiro: — Acabei de ver Mr. White. Seguiu-se um breve silêncio desconfortável, e Walter afirmou, angustiado: — Pai… Mr. White não existe, foi o senhor que o criou… era a personagem principal dos seus livros. Não se lembra? Queria falar consigo sobre isso. Acho que o pai já não devia morar sozinho. Lembra-se daquele sítio de que lhe falei no outro dia? Penso que seria o indicado; é tranquilo… George sentiu-se furioso. O seu próprio filho atrevia-se a falar com ele como se fosse incapaz de tomar conta de si. Abriu a boca para lhe dizer exactamente o que pensava dele, mas foi interrompido por uma senhora que entrou no seu apartamento. Dirigiu-se ao filho e disse-lhe que já estava tudo pronto para partirem. George olhou para ambos confuso, até que finalmente percebeu qual a intenção do filho. Revoltado, deixou que a senhora o conduzisse para uma carrinha branca de transporte de doentes. Walter atravessou a rua e dirigiu-se para o seu carro, chocando contra um sujeito que usava uma gabardine azul escura, apesar do calor, o que lhe casou alguma perplexidade. Pediu desculpa e prosseguiu. De repente estacou e virou-se para trás, olhando para aquele sujeito que lhe devolveu o olhar e sorriu enigmaticamente, esfumando-se na multidão.

Joana Vicente

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Cantar o nosso hino

Era um dia normal na casa de Justin. Todo o grupo se tinha juntado ali, como já era habitual. Éramos muitos e diferentes, mas todos tínhamos em comum a luta contra tudo o que estava relacionado com autoridade e política. E, no meio de todos nós, Justin funcionava como um líder. Foi Justin que me convenceu a juntar-me a eles, quando eu só queria isolar-me no meu quarto. Hoje sou o seu braço direito. Foi um encontro como todos os outros. Alguns falavam, outros gritavam, alguns jogavam videojogos e atiravam batatas pelo ar. A certa hora, as pessoas começaram a sair, mas eu deixei-me ficar com Justin, como era habitual. Assim que ficámos sozinhos, ele contou-me que tinha pensado num plano para o nosso grupo. Justin queria fazer-se ouvir, queria que o mundo soubesse quem éramos, e decidiu fazer uma aparição na manifestação que ia acontecer daí a dias. Primeiro achei-o idiota, mas depois acabou por parecer boa ideia, e aprovei. E quando o dia chegou, encontrámo-nos na rua, com os manifestantes, apregoando ideais e palavrões. No ponto de maior confusão, surgiu Justin, uma espécie de torre humana, a gritar: - Ouçam o nosso hino! Este é o hino de todos os que se sentem excluídos, que não querem saber de autoridade, de política, de conformismo! Gritem todos! Libertem-nos! “Libertem-nos!”, gritámos todos. E nesses segundos, percebi que era esse o meu mundo. Nunca mais vimos Justin, mas esse momento ficou para sempre em mim. Como todos, dói sempre que falho, mas luto para cantar ao mundo o hino da minha vida.

João Serra

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O derradeiro regresso

Parecia que o tempo tinha voado. Tinha sido ali que havia passado grande parte da sua infância, e 50 anos depois, lá estava ele outra vez. Agora, porém, estava muito idoso. A idade já pesava, a calvície, a barba por fazer a ninguém passava despercebido. Tinha saído de casa aos 14 anos com o intuito de triunfar na vida. Sentia que o destino lhe reservara algo mais que uma simples vida de pastor, como a de seu pai. Os seus pais nunca concordaram com esta decisão, e desde então nunca mais falaram entre si. A velha casa não mais abriga vidas no seu interior. Tudo é passado. Tudo é lembrança. Hoje, apenas almas juvenis brincam despreocupadas e felizes entre as paredes trémulas. No seu chão, despido da madeira polida que a cobria, brotam ervas daninhas. Entre a vegetação que busca minimizar as doces recordações do passado, surge a figura amarela e suave da sua mãe. A velha casa está em ruínas. Pássaros saltitam e gorjeiam nas amuradas que a cercam. Raízes de grandes árvores infiltraram-se entre as pedras do alicerce e abalam as estruturas. Agoniza, a velha casa! Agora, somente imagens desfilam, ao longo das noites. A casa velha em ruínas clama por vozes e movimentos. Uma sensação de tristeza invadiu a sua alma. Sentia que a história da sua vida estaria a ser deteriorada dia após dia. Era ali que se tinha feito homem. Ao se aproximar da casa lembrara-se do arroz doce da avó, que era de comer e chorar por mais, das famosas caças que tivera com o seu pai, da sua hortinha que tão meticulosamente era tratada, das brincadeiras de criança que tinha com os seus amigos. Ao realizar este flashback não deixou de largar uma lágrima. Sempre fora um homem que nunca se deixara levar pelas emoções, mas a sensação de nunca poder voltar a viver estas sensações assombrou-o significativamente.

João Guedes

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Instinto

O sol vai baixo e as gotas de orvalho iluminam o jardim. Começa o ritual, uma taça cheia de “cereais” e água. Não entendo porquê, mas todas as manhãs os monstros de metal atravessam a rua, rugindo e deitando fumo. Por alguma razão sinto as pernas a tremer, o coração bate-me no peito com força e um formigueiro atravessa-me o estômago… Grito a plenos pulmões, não consigo resistir: “Pára!”, mas eles ignoram-me: “Por favor, pára!”. O dono chama-me ao longe, ele não gosta que eu fale com aquelas “coisas”, mas não me consigo conter. Ele está a fugir, mas não posso deixá-lo! Que raiva! Corro atrás dele, mas é inútil eles são todos iguais: grandes, mas medrosos. Volto para casa e o dono olha-me zangado enquanto fala. Não preciso de perceber “humanês” para saber que estou a ser repreendido. Só há uma solução: o meu olhar fofo. Recebo uma festa e vou-me deitar. Todos os dias, a minha irracionalidade força-me a este rito sem sentido, cada dia mais perto, mas sem resultado. Hoje não é diferente. Espero a vítima em silêncio. Sinto o seu cheiro nefasto a ficar mais nítido e consigo vislumbrar o sol a reflectir-se nos seus olhos. O nervoso miúdo foi substituído pela cadência acelerada de uma corrida frenética, enquanto a adrenalina se apoderava do meu corpo. Ladrei na esperança que parasse, e à semelhança de nenhum outro dia, parou! Tinha conseguido apanhá-lo, mas sentia-me perdido, sem saber o que fazer. Cheirei e observei-o e percebi que o meu fascínio sem sentido não desvanecia. Não compreendia que sentimento era este… Da sua cabeça saiu um humano. Será que tinha sido engolido e agora estava a fugir? Sem qualquer resposta fui capturado e preso no estômago do monstro. Na escuridão daquele compartimento sentia a presença de outros como eu, traídos pela falsa esperança de capturar uma nova emoção, seres derrubados pela inocência. Percebo agora que todos seguimos os nossos instintos. Com que fim? Não sei, mas sou só um cão e, por isso, não preciso de saber…

João Menino

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Ontem, hoje e amanhã?

Céu. Revolucionamos a nossa existência para atingir este fim. Ultrapassamos obstáculos e barreiras, enfrentamos medos, vivemos o momento apenas com uma certeza: um dia vamos ser pó. Gonçalo nasceu no seio de uma família pobre, no norte do país. Por estar inserido nesse meio, era um rapaz educado e honesto. Foi. Por motivos profissionais, a família Meireles viu-se obrigada a migrar para Lisboa. Com a mudança repentina, a vida familiar perdeu-se, e Gonçalo começou a desviar-se dos costumes da aldeia. É difícil adaptarmo-nos a outra realidade... Gonçalo nunca foi de grandes amizades, mas a influência do grupo é uma pressão fortíssima. Uma noite, abusou dos vícios e foi parar ao hospital. A sua última palavra foi: consegui! Depois, no aconchego dos braços da mãe, fechou os olhos para nunca mais os abrir. “Pesas mais agora. Da primeira vez que te peguei, quase cabias na minha mão, agora quase não tenho forças. Não tenho forças. Recordo a primeira vez que foste ao parque. Éramos só nós, jovens e incontroláveis. Nunca nos separámos, vivemos sempre juntos todos os momentos. Quase todos. Agora, nos meus braços, os momentos passam e não ficam. Separam-se do meu coração. A vida passa, eu fico, tu vais. Creio que foste feliz. Sempre tiveste alguém para te confortar e acalmar as dúvidas. Hoje, nos meus curtos e insuficientes braços, inconsolada, afirmo: és tudo o que eu quero.” “Mãe? Não vês? Estamos no céu!”

José Umbelino

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Expectativas

Ela acordou no meio das ervas sem saber como tinha ido ali parar. Mas também não quis saber. Se não tivesse acordado de todo, melhor ainda seria. É que antes de adormecer tinha aprendido que as expectativas raramente são atingidas e nunca são ultrapassadas. Pelo menos, não quando se espera tudo como ela esperava. Achava aquela uma lição injusta porque sempre a tinham ensinado a sonhar, a querer mais e a não se contentar com o suficiente e não percebia porque é que algo que os pais lhe ensinaram, no final, a tinha feito sofrer tanto. Tinha concluído que de certeza teria levado as coisas demasiadamente à letra, de tal maneira que nunca estava satisfeita. As promessas tinham sido quebradas. E porquê? Ela nunca lhe tinha pedido tais promessas. Não percebia porque é que alguém fazia promessas se não pretendia cumpri-las. Em parte, a culpa foi dela: como não estava suficientemente satisfeita e segura, puxou demasiadamente e a corda cedeu. Mas tinha de puxar porque precisava saber se o que tinha ali era verdadeiro. Não se arrependeu de ter puxado, e puxado, e puxado. Apenas pensou, por instantes, que talvez tivesse sido melhor nunca ter acreditado que algo tão perfeito pudesse ser verdadeiro. Se nunca tivesse acreditado não estaria agora no meio do nada, sem saber como voltar para casa. Resolveu, portanto, continuar a andar porque era, agora, uma pessoa diferente, e como tal, pressentia até que a sua casa já não lhe iria parecer um lar. Se já não se conhecia, como é que podia sentir-se confortável com algo que a ligava apenas a quem era?

Madalena Monteiro

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Easy come, easy go

A outrora parede branca estava agora manchada com o vermelho do sangue. Queria que tudo aquilo fosse apenas mais um sonho, mas não conseguia acordar. Podia tentar argumentar que tudo se tinha passado muito depressa, e que no calor da disputa o tinha morto, mas a verdade é que teve tempo para calmamente encostar o cano da arma à cabeça da sua vítima e de pressionar o gatilho, sem hesitar. Não sabia o que fazer e os ainda abertos olhos do morto pareciam-lhe portas para o inferno, portas por onde o seu demónio parecia sair. Assustou-se e fugiu. Desceu as escadas do prédio a uma velocidade vertiginosa. Sempre fora calmo, mas não havia uma réstia de calma na sua pessoa. As ruas estavam geladas, mas ele transpirava profusamente. O assassínio de um importante chefe de uma organização criminosa tinha traçado o seu destino. Para ele não importava de que direção o vento soprava, pois morreria em breve. Como podia a sua vida ter descarrilado de forma tão abrupta? Não era de se meter em apuros, mas em menos de vinte e quatro horas deixou de ser apenas o mecânico do bairro. Agora tinha a sua cabeça a prémio, e pelo valor mais alto. Deu por si em frente da casa onde tinha nascido. Sabia que do outro lado da porta estava a sua adorada mãe. Tinha a certeza que seria pior para ela, se soubesse apenas quando o seu corpo fosse encontrado num qualquer conspurcado beco. Ao entrar foi invadido por recordações, mas nenhuma o distraiu do seu propósito. Contou-lhe tudo. Surpreendentemente, a mãe beijou-o na testa, levantou-se e foi para o seu quarto, sem dizer uma única palavra. Ouviu-a rezar ao passar pelo seu quarto, enquanto se dirigia para a porta da rua. Ao sair pela última vez, apenas uma pequena lágrima lhe escorreu pela cara. Desapareceu na escuridão da noite, sem nunca ter sido encontrado.

Manuel Santos

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Balada de um estranho

Ocorreu há já vários anos um trágico acidente com o carro que conduzia, resultando a morte da sua mulher e da sua filha. Era uma pessoa muito feliz, mas o sentimento de culpa e de perda assolaram o resto da vida desse homem. Na tentativa de construir uma nova vida, longe de tudo o que lhe lembrava a família, mudou-se para a cidade de Berlim. Nessa capital europeia arranjou uma boa casa e um bom emprego. De nada valeram, visto que tudo o que precisava era de sobreviver, apenas. Só saía de casa para trabalhar e não esboçava um sorriso verdadeiro há vários anos. Os únicos momentos de lazer eram passados à frente da secretária, a arranjar relógios por ele coleccionados. Todos os relacionamentos que tentava construir acabavam cedo, pois receava voltar a sofrer desnecessariamente, e por isso nunca voltou a casar. Vivia sozinho e não arriscava nada na vida. Havia perdido toda a confiança em si próprio. Certo dia acordou de uma forma diferente, sentiu-se estranho, com as mãos húmidas e frias. Pareceu-lhe ouvir passos. Procurou pela casa toda, revistou todos os cantos, mas de nada valeu. Caiu em si e percebeu que a mulher e a filha jamais iriam ter uma presença tão real como a das fotografias espalhadas por toda a casa. Olhou à sua volta. Nunca iria conseguir derrubar o muro que estava à sua frente. Voltou para a cama. Era o único lugar onde se sentia seguro. Não conseguiu voltar a adormecer, mas permaneceu lá durante longas horas. Ao olhar para o calendário existente na parede do seu quarto, reparou que tinham passado exactamente trinta anos desde o dia em que perdeu toda a sua vida.

Margarida Coutinho

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Play it again! (as histórias das canções)

40 dias de preparação

Era pelos corredores que o seu corpito voava para os lugares que residiam distantes nos placares que os “mais grandes” afixavam pela escola. Não havia um jantar em que as histórias extraordinárias das novas maravilhas que tinha descoberto, não fossem narradas. Pedia que a levassem a visitá-las, mas o dinheiro era para viver bem, mas não com luxos. Começou a ganhar alguns trocos, a apostar nos jogos. Ao quadragésimo dia de ocupação num apartamento, abandonou tudo e abraçou-se a uma crença maior. Fez bem em confiar, tinha ganho uma quantia avultada de papel colorido. O primeiro país foi Portugal. Definira que um ano bastava para absorver sons, cheiros e as cores de cada país. Seguiu-se a Dinamarca, Estados Unidos, África do Sul… E foi a meio da jornada que se deteve, depois de pensar, Mais um chinoca que não reconhece a muralha do próprio país, para o ir acudir. Corou, pois não eram olhos pontiagudos, mas um azulão redondo. No meio da coscuvilhice mútua, e por ironia do destino, descobriram que tinham os dois a mesma resolução. Voaram no dia seguinte para Itália, depois Japão, México, Tailândia… para ser nas águas cristalinas de Bora-Bora que nasceu uma menina. O desassossego de desvendar os recantos do mundo tinha de aquietar. Não tinham rumo, não sabiam o que fazer, teria sido um erro? Voltaram à origem de Glhorya, Inglaterra. O tempo ajudou a reorganizar as suas vidas, voltando tudo à mesma harmonia inicial. Hillary, a filha de já vinte e dois anos, seguiu as pegadas da mãe, dando continuidade ao sonho dos pais.

Maria João

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Play it again! (as histórias das canções)

Leva-me contigo

Café, livro, música, sol e um cigarro, a combinação perfeita para uma paz de alma que alegra o dia de qualquer um. “É um bom dia para lhe escrever.” Tirou a caneta do bolso de dentro do casaco e abriu o seu pequeno caderno de estimação. A mão mexia-se sozinha, os pensamentos fluíam e aquilo em que pensava passava a milésimos de segundo pela sua cabeça. Fazia-o todos os dias, sempre com o mesmo propósito. “Escrevo porque tenho saudades, escrevo porque sofro todos os dias, escrevo para que me oiças.” Tinha saudades das tardes de cozinhados tardias com abraços espontâneos, ria-se quando ela torcia o nariz ou lhe mexia no cabelo. Havia manhãs em que ninguém a podia aturar, o mau humor prolongava-se o dia todo, e aquilo que ele fazia estava sempre mal. Nesses dias, sussurava-lhe ao ouvido a canção que fizera: “Oh there's a very pleasant side to you, a side I much prefer, one that laughs and jokes around.” Talvez fosse uma das melhores histórias de amor alguma vez contadas. Ele, um simples músico de rua, ela, uma bailarina bem conceituada. Corriam as ruas agitadas de Londres, ambos cruzaram a esquina agitadamente e trocaram imediatamente olhares. Como ele próprio escreveu, “era impossível não ter notado em ti, o que mais me enlouqueceu foi o teu inconfundível cheiro”. Nunca mais se viram, até que se reencontraram num café perto da universidade de dança dela. Ele reconheceu-a imediatamente, sem qualquer dúvida, e começaram a falar. “Este lugar está ocupado?” Foi a primeira frase que ouvi da tua doce boca. A partir daí, soube que serias tu aquela pessoa com quem passaria o resto da minha vida. Os anos passaram e ela adoeceu. Uma doença degenerativa. Ele tratou dela todos os dias quando a doença se apoderou do seu corpo. No fim, sussurrou-lhe: “Não poderia ter tido uma existência melhor, encontrei o meu amor eterno, aquele que nunca deixarei de amar…”. Partiu para o outro mundo e ele enlouqueceu. Tentou acabar com o sofrimento inúmeras vezes, tinha o seu amor ausente, sentia o coração frio. Quando voltou a cruzar a esquina, sentiu a sua presença, toucou-a e deu-lhe a mão, sentindo-se finalmente livre de qualquer angústia.

Mariana Margarido

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O que ouço já não são apenas notas

Já estou habituada a estes desvarios do Félix. Louco pela sua música entra pela loja de rompante, ao fim da tarde, com o estojo do saxofone na mão. Traz algo para eu ouvir, seguido da sua extensa interpretação e, por vezes, lágrimas comovidas. Normalmente “desligo” ao primeiro minuto, fingindo fazer as contas da caixa. Oiço-o como a um louco no seu mundo de fantasia: não o quero despertar, mas nada daquilo faz sentido! As bandas nem cantor têm, não há sequer palavras que podiam inspirar-me. “Tu não entendes, pois não?”, pergunta-me. Não... É só música. Um negócio como outro qualquer. Ontem esta rotina terminou. Eram já 20h quando o vi lá fora, especado, a ver-me vender o último par de sapatos do dia. Entrou devagar. “O que tens?”, quase gritei, nervosa. Aproximou-se cuidadosamente, olhos nos olhos, medindo a minha reacção. Antes de falar sorriu, e beijou-me. Estranho... Depois dos anos que vivemos em direcções opostas, não o esperava. Vai-se embora! Vai para Nova Iorque com os trocos que fez a tocar num bar e o curso superior a meio. Explicou-me que lhe veio “do fundo” a necessidade de ir onde a História está a ser feita. A História do Jazz, claro... Deu-me um pedaço de papel escrevinhado: Train – Chris Potter. Há pouco deixei o jantar a fazer, inseri o seu conteúdo letra a letra no Google, e ouvi. “One, two, one two three, ahn ahn ahn”, e aí entendi. Foi diferente a minha maneira de ouvir. Por vezes é preciso pensar menos. Simplesmente... entendi. Tudo o que o Félix alguma vez me disse fez sentido, de repente. O que oiço não são apenas notas. Sinto agora que são emoções transferidas do coração de um artista para o seu instrumento “com um impacto brutal, hehehe”, como ele diz. Vou com ele. Tenho medo... Mas descobri um mundo novo, o mundo dele, e quero fazer parte dessa fantasia.

Marta Garrett

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Campa de rosas

Sentou-se em frente ao piano, mas não se atreveu a tocar. As suas mãos já não tinham a força e o rigor de outrora, que lhe permitiam dedilhar as poeirentas e desafinadas teclas. A idade pesava-lhe no rosto, e as memórias assombravam-lhe a alma. Já não tinha coragem para viver. Todos os dias eram uma mera repetição do dia anterior. Ainda de madrugada, levantava-se e ia colher as rosas mais belas que cresciam no seu jardim, e durante o resto do dia limitava-se a ficar sentado naquela sala a ver o tempo passar e a recordar tudo o que em tempos esta lhe trouxe de bom. Revivia detalhadamente o dia do seu casamento. Aquela mesma sala era iluminada pelos raios de sol que entravam através da única janela existente. Estava cheia de amáveis convidados que trocavam dois dedos de conversa até ao momento em que as portas se abriam e uma jovem, magra e alta, vestida de branco e com um longo véu a cobrir-lhe a cara, surgia do outro lado. O sol refletia-se nos diamantes do vestido. Parecia que um anjo tinha descido à terra. Vinha de braço dado a um homem alto e forte, e na mão esquerda carregava um ramo de rosas perfeitas. Recordava também aquele particular dia em que chegou a casa e a encontrou sentada na cadeira de baloiço, que estava junto à janela da sala. Sessenta anos depois ainda se lembrava da melodia que ela costumava cantar para o bebé adormecer, e da expressão na sua cara quando, por detrás das costas, apareceu um ramo de rosas vermelhas, que carinhosamente lhe ofereceu. Secou as lágrimas que começavam a cair e levantou-se. Estava na hora. Aproximou-se do bengaleiro, vestiu a gabardina e o chapéu, pegou nas rosas que tinha colhido de madrugada, e saiu. Andou lentamente durante quinze minutos até passar os imponentes portões pretos. Por fim, parou. À sua frente podia ler-se «Aqui jaz Maria do Rosário, adorada esposa, mãe e avó.». Colocou as rosas sobre a campa, despediu-se e voltou para casa. Amanhã estaria de volta.

Patrícia de Oliveira Meireles

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Regresso Ao Passado

Perdido nas suas reflexões, esmagava o que restava do cigarro num cinzeiro que há muito não era de grande utilidade. Apesar de não ser um fumador regular, encontrava refúgio no tabaco quando tal se tornava imperativo. O mesmo não podia dizer do álcool: gostava de permanecer consciente o suficiente para desfrutar das suas tragédias. A mais recente crise que o consumia teria sido impossível de prever. Contudo, era de certa forma inevitável. O passado jamais nos abandona. Após ter reencontrado um amigo de infância, as memórias que não explorava há já muito tempo dominaram-lhe o pensamento durante o resto do dia. Ao chegar a casa, vasculhou por entre os restos do passado que tinha conservado ao longo dos anos. As horas voaram. Há muito que já não se deixava absorver por alguma coisa. Gradualmente, foi-se apercebendo do quanto tudo se tinha alterado num espaço de tempo tão curto e, nostálgico, recordava como a vida costumava ser simples. Com a inevitável chegada da maturidade e dos requisitos que lhe eram inerentes, a complexidade e a reflexão excessiva apoderaram-se do seu dia-a-dia. Tinha saudades de se satisfazer com pouco e de apreciar os pequenos e simples prazeres que outrora tinham sido os únicos aos quais tinha acesso. Ao acabar o seu último cigarro sentiu-se satisfeito, esclarecido e confiante. De facto, estava de tal forma consumido pela alegria de se ter reencontrado que agarrou no essencial e partiu numa viagem cujo destino lhe era desconhecido, tal como as que fazia quando era ainda jovem e livre de impurezas.

Pedro Fialho

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Memórias

21 De Setembro de 2001, 10 dias depois do atentado terrorista a uma das maiores e mais simbólicas construções feitas pelo Homem, o World Trade Center…

Mais um dia em que me sento só, mais um dia em que me sinto perdido, mais um dia em que a vontade de viver é nenhuma, devido aos trágicos milhares de desaparecimentos e mortes de centenas de pessoas, uma delas o meu pai. Escrevo para não me esquecer daquele trágico dia, para recordar o meu pai e os bons momentos que passei com ele. Não saio de casa há dois dias, não falo com ninguém desde então, mesmo que venham bater à porta finjo que não estou para não ouvir as mentiras dos media e os pêsames dos vizinhos e de quem me é mais próximo. O mundo, e sobretudo a América, são bombardeados com caras e nomes de possíveis autores deste massacre. Televisões, jornais e rádios só divulgam e reportam uma única notícia, o atentado terrorista ao World Trade Center. A América deixou de ser aquele local que acolhe toda a gente, independentemente do país ou do continente de onde são oriundos, e passou a ser o país mais seguro do Mundo, em que a palavra “segurança” passou a ser prioridade máxima. Espero ansiosamente que se encontre o responsável e que se faça justiça por todas as almas que se perderam no World Trade Center há dez dias atrás. Não sei quando vou conseguir ultrapassar esta grande perda familiar, mas sei que irei sempre recordar o meu pai, que perdeu a sua vida a salvar centenas e centenas de vidas, representando e enaltecendo as insígnias dos bombeiros de Nova Iorque.

Pedro Dias

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Karma

Desde há três dias que batem de porta em porta para investigar o nosso passado. A Polícia do Karma fez justiça ao longo de um ano, aqui onde vivo e nasci, até decidir que o equilíbrio do presente era uma fraude, porque não faz o bem quem sabe da recompensa. O povo sabia como extorquir do Karma, abusou, mas não mais! O aviso foi claro. O saldo do que nos demorou vidas a fazer seria corrigido num só dia, o seguinte à inspecção. Chegara por fim a altura de equilibrar o passado. A escumalha teria o seu castigo. O mundo seria um lugar perfeito, sem ressentimentos nem dívidas. Os honestos e bons nada tinham a temer. Eu temo, porque sei que o que fiz não tem perdão. Parece-me haver bem mais do que sete pecados mortais, e que o diga o meu irmão mais velho, que ao confessar-me que esperava, a qualquer momento, uma promoção ou chuva de mulheres, se engasgou num pedaço de noz, até ficar vermelho, roxo, e por fim branco. As pessoas gritam nas ruas desespero e alegria, choram lágrimas que juntas fariam um lago sereno. Eu não tenho saída. Matei um homem! Foi há muitos anos, na noite em que conheci a rapariga que me parou o coração pelo menos um segundo. Ela entrou e sentou-se a meu lado, mas os meus olhos estavam presos na já velha conhecida imagem que vive no topo da bebida. Não queriam ficar cegos por algo tão puro e simples. Quando saiu, segui-a; há oportunidades que se perdem, e outras que não se repetem em cinquenta encarnações. Quando venci os tremores de estômago saí, e vi-a ser incomodada por um bêbado louco, que lhe falou, depois agarrou-a e perseguiu-a. Corri e acertei-lhe com a primeira arma que a minha mão alcançou, uma pedra do tamanho de um punho, que lhe abriu a nuca e o atirou ao chão. Um mar negro fez da sua cabeça uma ilha na noite e eu deixei-o lá. Essa rapariga é agora minha mulher, e chora no meu ombro por mim. Prende-me, Karma! À tua maneira. Se soubesses o que senti essa noite, decapitavas-me. E o melhor é que não me arrependo. Agora dá-me licença, que bateram à porta.

Pedro Cal

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Amor insubstituível

As células são a unidade básica da vida. Nós somos constituídos por um conjunto de biliões de células que nascem e morrem freneticamente até ao fim das nossas vidas. Mas basta uma falhar para que o equilíbrio, que consideramos garantido, se perca. Quando falamos em perda de memória, pensamos sempre naquelas simples alturas em que nos esquecemos das chaves de casa, ou perdemos o comando da televisão, mas para a minha avó chaves de casa e comandos de televisão já são conceitos bem distantes. Para ela, todos os dias são um novo dia. Nunca percebi bem como é que o nosso organismo pode falhar de forma tão miserável e como nós nunca descobrimos maneira de combater tamanha monstruosidade. Bom dia, Eduarda! Hoje sou a Eduarda, ontem fui Maria e amanhã, possivelmente, serei Francisca. É difícil o primeiro instante, mas depois caímos na realidade, onde o nosso eu não existe. Já tive momentos de profunda frustração. Parecia que alguém estava a cavar a sua sepultura e eu meramente aplaudia. Assentei, e felizmente já sei lidar com esta nova pessoa, que muda de dia para dia. A nossa ligação é nula, mas o afeto existe, e é esse que me faz visitála todos os dias na esperança que no futuro os seus olhos brilhem, e ela me reconheça. Continuo à espera de um dia sentir esse amor insubstituível que alguém me tirou.

Rita Alves

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Sunny day

Sento-me, pela primeira vez, com um papel e uma caneta na mão, após aquele desastre. Disseram-me que era mais fácil exprimir, e talvez aliviar o meu sofrimento, se escrevesse tudo o que penso. Lembro-me que estava um dia solarengo, daqueles dias em que apetece estar a passear na praia com um sorriso na cara, e de repente a água, que outrora deslizava suavemente sobre os meus pés, pretendia agora ameaçar a minha vida e a de tantas outras pessoas. A minha vida encontrava-se toda organizada, tinha uma casa linda e bem posicionada na cidade, um carro acabado de comprar, e tudo desapareceu com a força da água. Tinha uma vida que muitos desejavam, e agora nada tenho, a não ser memórias, que por vezes até aquela mesma água parece querer levar. O que parecia o paraíso tornou-se um inferno tão real, que sempre que os meus olhos se fecham é como se o vivesse de novo, e temo que seja impossível superar este trauma, mas sinto que ao manifestar o meu sofrimento pareço ingrata e um pouco egoísta, pois apesar de tudo sobrevivi, o que não aconteceu com muitas pessoas boas e com um promissor futuro pela frente. É verdade: perdi a casa e todos os meus bens, mas não perdi a vida, e posso recomeçála em qualquer outro lugar. Deveria estar bastante grata por ter esta oportunidade. Sei que sou uma pessoa diferente, mais madura talvez, e que terei de me adaptar aos acontecimentos e seguir em frente. É o que todos tentamos fazer. É necessário ter esperança. Ou melhor, esperança é talvez a única cura, e é essencial virar a página de modo a começar um novo capítulo, na esperança de que as feridas sarem, pois apesar de tudo, a vida prossegue e o sol brilhará, alegrando os futuros que restaram. Soraia Lopes

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Diário de um assassino Dia 0 O sangue já frio, as sirenes a martelar-me a consciência. À medida que me aproximava, o cenário tornava-se mais óbvio. Os murmúrios à minha volta soavam a acusações, como se alguém soubesse o porquê da minha presença. Não aguentei, afastei-me. Um toque soou, trabalho na forma de uma chamada. O dia fora um fracasso, dinheiro gasto e um carro queimado. A vida tem destas coisas, há que aceitar o tempo dedicado em vão. Dia 1 Os efeitos de uma boa noite de sono são terapêuticos. Afinal de contas, sou famoso. As pessoas famosas não têm que se preocupar com reflexões autodestrutivas e remorsos inúteis, apenas têm que ser famosas. E todos sabem quem sou, ou pelo menos o que fiz. Chamam-me filho da rua, produto de drogas e de gangues. Talvez o seja, que importa? É esta a vida que conheço. É esta a minha vida. A escola já a deixei há muito; os meus pais não passam de lápides cinzentas na minha mente. É esta a minha família agora. Eles chamam-me avô. Não que eu ache que a capacidade de dar ordens me faça merecer tal alcunha. Tenho um, talvez dois anos a mais que o mais velho. Nem sou o mais alto. É tudo uma questão psicológica. Eles precisam de alguém, de alguém que sirva de ídolo, de bode expiatório quando tudo corre mal. Nos dias que correm, sou eu esse alguém. Dia 2 A realidade bate-me à porta. Dormi pouco e mal; pesadelos e suores frios não fazem bem a ninguém. Levanto-me, oiço as notícias. São más. Alguém viu, alguém sabe. A minha cara no jornal, as minhas feições na televisão. O jogo começou e eu já sinto que vou perder. Dia 3 Estou só, mas não, não vou abrir a porta. Sei o que está para lá dela. Homens armados de justiça, uma vida atrás de grades. Também sei que eles têm razão. Tenho de pagar pelo que fiz. Eu matei aquele miúdo. E hoje, no dia do seu funeral, é a minha vez de morrer. Talvez assim equilibre a balança. Can I still get into heaven if I kill myself? Veremos… Tiago Correia

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Índice de histórias e de canções Um amigo no mar ...................................................................... Yellow submarine, The Beatles Imagine .................................................................................................. Imagine, John Lennon Toupeira ............................................................................ The day I tried to live, Soundgarden Quem és tu no espelho? ................................. I’d rather dance with you, Kings of Convenience Tempo para aceitar ............................................................................. Someone like you, Adele Mad world

.................................................. Mad world, Gary Jules e Michael Andrews

Mais vale tarde que nunca .................................... I’ve got the world on a string, Frank Sinatra Rhapsody in Blue ................................................................ Rhapsody in blue, George Gershwin Cantar o nosso hino ................................................................................... Zebrahead, Anthem O derradeiro regresso ......................................................... A minha casinha, Xutos e Pontapés Instinto ............................................................................................. Chasing cars, Snow Patrol Ontem, hoje e amanhã? .......................................................................... Heaven, Bryan Adams Expectativas ................................................................................................. Paradise, Coldplay Easy come, easy go ....................................................................... Bohemian Rhapsody, Queen Balada de um estranho ................................................... Balada de um estranho, Jorge Palma 40 dias de preparação ............................................................................ 40 days, Dave Brubeck Leva-me contigo ............................................................................ Mardy bum, Arctic Monkeys O que ouço já não são apenas notas ............................................................. Train, Chris Potter Campa de rosas ....................................................................................... Bed of roses, Bon Jovi Regresso Ao Passado ........................................................... Invitation to the blues, Tom Waits Memórias ....................................................... Wake me up when september ends, Green Day Karma ................................................................................................ Karma police, Radiohead Amor insubstituível ......................................................................................... Fix you, Coldplay Sunny day ..................................... Have you ever seen the rain, Creedence Clearwater Revival Diário de um assassino ..............................................................................King park, La Dispute

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