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A disputa pela razão Fundação Ivan Goulart e Prefeitura de São Borja em conflito Dyuli Soares Franciele Mendes Jézica Bruno

Não é de hoje que a população de São Borja reclama do pronto-socorro do hospital. Falta de atendimento, desleixo, desrespeito e falta de informações, são os argumentos mais utilizados por aqueles que, em algum momento, precisaram de ajuda, mas não a obtiveram. Quando fomos até a Fundação Ivan Goulart, no dia 16 de abril, presenciamos a revolta de Margarete da Silva. Ela, mãe de uma menina de nove anos, esbravejava com funcionários que tentavam acalmá-la, enquanto explicavam o que havia ocorrido. Segundo Margarete, sua filha sofreu uma convulsão na sexta, 14, às 12h. Ela foi levada às pressas para o hospital, onde foi atendida e fez uma tomografia às 14h. “Ela teve uma convulsão sexta! Hoje é segunda-feira! Disseram que o resultado estaria aqui às 10h, mas nada! Ela teve uma convulsão e eu não tenho como saber o porquê”, completa. Margarete conta que o resultado do exame ainda não havia sido entregue a ela, pois seria feito em Santo Ângelo, mas que ninguém a tinha informado sobre isso. Este é um dos acontecimentos que causa revolta nas pessoas que necessitam de atendimento através da saúde pública em São Borja. Em novembro do ano passado, a estudante Suelen Soares, foi até o hospital com enjôo, febre e fortes dores musculares, e por ser passado das 18h, não seria possível ir até um posto de saúde. Lá, a enfermeira que a recebeu, informou que ela não poderia ser atendida. “Eu poderia até ser atendida pelo plantão, só que eu teria que ter ido no primeiro momento que eu senti enjôo, só que ela disse que como eu deixei passar dois dias, eu tinha que ir em um posto para poder tirar ficha, e aí ser atendida. E aí ela explicou porque eu não poderia ser atendida: porque o atendimento era específico para pessoas com traumas, como ferimentos à bala e à faca”, conta Suelen.


Segundo a enfermeira coordenadora do pronto atendimento da Fundação Ivan Goulart, Aparecida de Fátima Pereira, o atendimento não foi negado aos pacientes que apresentavam riscos como fratura exposta ou pressão alta. Para avaliar essa situação, ela faz uso de um protocolo mundial de classificação. Os pacientes que não apresentam os sintomas de risco são orientados a procurar um posto de saúde. De acordo com Aparecida, houve uma sobrecarga nos atendimentos da emergência. Muitas das pessoas que ali chegavam poderiam resolver seus problemas em uma das Estratégias de Saúde Pública (ESF), mas a maioria procura de imediato o pronto socorro por ser mais cômodo. O Diretor da Fundação Ivan Goulart, Marcelo Braga, afirma que eles deixavam de atender alguns pacientes em decorrência da falta de pagamento dos funcionários do hospital. Segundo ele, o pronto-socorro só tinha obrigação de atender aqueles que estivessem em situação emergencial, e se atendessem casos mais simples, não receberiam por isso. Braga acredita que a forma como a prefeitura administra a saúde na cidade é errada. “São Borja foi um das primeiras cidades do estado a municipalizar o hospital, em 2010. Isso é errado. A verba que vem do estado passa primeiro pela prefeitura”, afirma. Para ele, acontecem desvios do dinheiro que deve servir para pagar os trabalhos feitos no hospital. Além desta, Braga faz outras críticas à política de saúde da cidade. De acordo com o diretor, existem 26 ESF’s em São Borja, mas mesmo assim, eles não conseguem atender toda a população por falta de divulgação e explicação sobre o que deveria ser atendido no hospital e o nos ESF’s. O ex-secretário de Saúde e vice-prefeito, Jefferson Homrich, afirma que a Prefeitura nunca deixou de pagar por nenhum serviço prestado pela Fundação. Segundo ele, uma ficha deveria ser feita para cada paciente que consultasse no prontoatendimento, mas isso não vinha ocorrendo, e por essa razão, a Prefeitura se recusava a pagar por consultas não comprovadas. “O hospital atendeu mal, o hospital prestou um péssimo atendimento”, declara Jéferson. Além disso, ele afirma, que na verdade, São Borja possui 14 ESF’s, e que eles atendem a população exatamente da forma que deveriam. No dia 13 de abril a prefeitura recebeu da Vara Cível da Comarca de São Borja, uma nota de expediente (n° 389/2012) com a seguinte informação: “Quanto aos


descumprimentos noticiados no incidente em apenso em relação ao Município, verificase que os valores estão sendo adequadamente pagos, não havendo motivos para ensejar a majoração da multa fixada.”, com isso, a população deve passar a ser atendida normalmente no hospital. Mesmo com a divulgação dessa nota, a Fundação Ivan Goulart continua com a Ação Civil exigindo que os valores pendentes sejam pagos pelo município, e afirma que, se houver novos problemas nos pagamentos, os atendimentos serão novamente suspensos. Já o vice-prefeito acredita não estar devendo mais nada à instituição. A disputa entre a Fundação Ivan Goulart e a Prefeitura de São Borja ainda não tem prazo de validade, e para a população, ainda é difícil saber quem fala a verdade em relação aos problemas entre eles, mas o que se espera, é que todos possam ser atendidos, seja no hospital, ou nos ESF’s.

A disputa pela razão  

Fundação Ivan Goulart e Prefeitura de São Borja estão em conflito

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