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Teoria &

prática

andam juntas? Durante a vida acadêmica, os conceitos teóricos ganham destaque e se fazem presentes de maneira recorrente na grade curricular. No entanto, quando o profissional se insere no mercado, há quem diga que, em decorrência da correria do dia a dia e dos prazos cada vez mais apertados, esses conceitos teóricos são colocados em segundo plano. Segundo Armando Filho, diretor de projetos da Unisys Brasil, “os defensores da prática alegam que a teoria é pouco efetiva, uma vez que sua aplicação é sujeita a condições específicas e particulares. Por outro lado, aqueles que defendem a teoria alegam que os conceitos são as verdadeiras fontes do saber e do conhecimento” (migre.me/5DpMP). Falando especificamente sobre a rotina dos profissionais criativos, o quanto da teoria do mundo acadêmico é aplicado no dia a dia? Como é essa relação entre a teoria e a prática? Profissionais gabaritados de diversas áreas da criação opinam sobre o tema.

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Amyris Fernandez (www.amyrisfernandez.com.br) Doutora em Comunicação, consultora em Design de Interação e membro do IxDA (Interaction Design Association)

A questão da diferença entre o ensino teórico e o conceitual e sua aplicação prática é algo que os alunos discutem e sentem ao sair da escola e de que a indústria reclama, pois as escolas não preparam seus alunos para serem profissionais. O resultado é uma academia que só se defende e afirma que é preciso saber a teoria para poder aplicá-la na prática. Trabalho há trinta anos, já fiz MBA, mestrado e doutorado e tenho uma empresa de consultoria, à qual seleciono e contrato profissionais. Minha observação sobre o problema diz que ele tem as seguintes vertentes: o modelo clássico de educação não dá os resultados esperados nem para o aluno e nem para o mercado, muito menos para o mercado digital. Com isso, alunos e profissionais tendem a desprezar o conhecimento teórico, privilegiando o conhecimento prático acima de todas as coisas. Creio que os educadores se enganam ao colocar que teoria é importante, pois essa frase é óbvia e encerra o assunto em lugar de resolver o problema do diálogo com o mercado. Teorias e conceitos são importantíssimos, sim, mas o aluno não assimila o conceito se a importância deste não for indicada na prática. Vamos a um exemplo prático. Canso de ver Relatórios de Usabilidade ou Análises Heurísticas em que o consultor diz: “tira daqui e põe ali, pois assim o usuário não vai mais cometer erros”, e eu pergunto por que ele afirma isso e acabo recebendo uma reposta vaga — “Ah! Eu vi isso no teste. Aqui é melhor”. De novo pergunto por que ele afirma isso e a reposta não vem. Não vem, porque essa pessoa não sabe a reposta. Não vem, porque ele não conhece ciências cognitivas. Não vem, porque ele não sabe a teoria. Simples assim. Culpa dele? Não. Acredito que parte da culpa seja de um sistema de ensino chamado de clássico, que se apoia na premissa de que o aluno deve olhar para o professor como fonte de conhecimento, e não como mestre de uma arte. Acontece que as coisas mudaram com a chegada da internet. Havia livros e informações que ficavam em bibliotecas distantes, impossíveis de serem visitadas por muitos. Agora, impossível não existe. Por isso, o papel de fonte de informação não existe mais para o professor. Seu papel mudou. Mexer com tecnologia nos tornou artesãos. Outra vez artesãos. Por isso, professores clássicos são menos necessários.

Precisamos de teoria, mas precisamos de mão na massa, de experiência e de transmissão de experiência/vivência com a prática. E é nesse ponto que tocamos a ferida aberta da indústria insatisfeita com os profissionais que as escolas colocam no mercado. A indústria, o varejo e os serviços não precisam de gente que só sabe a teoria, mas de “gente que sabe fazer”. Sim, isso mesmo. Somos parte de uma linha de montagem moderna, que precisa de todo tipo de expertise. Precisa de “gente que faz”. Logo, gente com medo, gente com dúvida, gente sem experiência não serve. Eu sei que muitas empresas investem em Universidades Corporativas, mas, considerando que todo o mercado está carente de gente preparada, os pioneiros nesse processo tornam-se celeiros de contratação para os RHs de outras empresas e todo seu investimento em educação se vai assim que o recurso/colaborador sair e for para outra empresa. Resumindo, é uma conta que não fecha nunca e deixa muitas mágoas e frustrações. Acredito em educação acadêmica. Mas, como pessoa da indústria de comunicação, compartilho com todos aqueles que não se satisfazem com a visão apequenada das escolas, que insistem em não mudar, quando o mundo, o aluno e o mercado já mudaram.

“Acredito que parte da culpa seja de um sistema de ensino chamado de clássico, que se apoia na premissa de que o aluno deve olhar para o professor como fonte de conhecimento, e não como mestre de uma arte” 87 > CRIAÇÃO | WIDE |

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Juliana Duarte Formada em História, pós-graduada em Tecnologia da Informação e Diretora de Comunicação Digital na agência Lápis Raro (www.lapisraro.com.br)

Aqui na LápisRaro existe um gosto muito forte pela discussão sobre teoria/prática. Acho que isso está na alma da agência. As pessoas são muito intelectualizadas e, independentemente da função, a maioria gosta de aprofundar as conversas, de trocar conhecimento, de pesquisar. Acho que esse ambiente é muito propício para que a teoria e a prática se aproximem e caminhem juntas na busca de um trabalho criativo e consistente. É claro que, na nossa rotina de agência, a forma de nos debruçarmos sobre um problema não acontece da mesma maneira que em um ambiente acadêmico, em que o tempo e a profundidade de investigação são outros. Mas, quando as ferramentas conceituais estão à mão, elas expandem as nossas ideias e diminuem as nossas incertezas. Quando vamos iniciar um projeto, seja um portal ou uma grande campanha, partimos de um diagnóstico apoiado em metodologias e técnicas que desenvolvemos e que se apoiam em

Eduardo Loureiro Formado em Comunicação Social, pós-graduado em Design de Interação pela PUC-Minas e cofundador da Voël (www.voel.in)

A lógica é bem simples. A academia precisa estar alinhada com os problemas atuais da sociedade, que frequentemente estão no foco de atuação do mercado. E o mercado precisa de embasamento conceitual e teórico para atuar em seus projetos comerciais de forma planejada, inteligente e eficiente. A consequência do distanciamento da teoria para o mercado reflete-se diretamente na qualidade dos projetos que são feitos e, mais que isso, na eficiência de tais projetos frente aos objetivos que eles deveriam atender. Esses problemas acontecem pela falácia de que uma “ideia”, por si só é suficiente para resolver os problemas de comunicação ou de negócio dos clientes. É claro que a criatividade é muito importante, mas ela não é um dom, é um processo construído com conceitos, referências e embasamento. Além disso, uma ideia, por melhor que seja, para ser efetiva em

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disciplinas como a Ciência da Informação, Etnografia, Pedagogia, Sociologia, Filosofia e Semiótica. Quando partimos para a criação, levamos esses conhecimentos na bagagem e somamos a eles todo um patrimônio cultural que para o profissional criativo é matéria-prima. É fundamental conhecer história da arte, literatura, cinema, música, fotografia etc. O que a gente faz para estimular esse encontro entre a teoria e a prática é manter equipes multidisciplinares e profissionais com formações acadêmicas diversas. Temos uma turma grande que veio da Comunicação, mas temos também físico, historiador e a equipe de programação, que não fica só “escovando bits”, mas participa ativamente das reuniões de brainstorms que antecedem os projetos.

“O que a gente faz para estimular esse encontro entre a teoria e a prática é manter equipes multidisciplinares e profissionais com formações acadêmicas diversas”

seus objetivos precisa ser bem planejada, especificada, executada e monitorada. E nesse ponto as teorias acadêmicas podem ser valiosíssimas. A teoria acadêmica é aplicável para os criativos, seja em uma composição gráfica ou na identificação das demandas das pessoas. Ou seja, os exemplos vão desde a correta escolha de tipos, que proporcionem uma boa experiência de leitura, até a definição de escopo de um produto ou serviço.

“É claro que a criatividade é muito importante, mas ela não é um dom, é um processo construído com conceitos, referências e embasamento”


Gabriel Patrocínio Graduado em Design pela ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ) em 1982, onde leciona e é exdiretor. Atua como perito judicial de design desde 1997, além de ser parecerista, consultor e conferencista na área de propriedade intelectual. Desenvolve, atualmente, pesquisa de doutoramento na Cranfield University, Inglaterra, sobre políticas nacionais e regionais de design, das quais a propriedade intelectual é um dos componentes.

Em Cambridge, existe um poste no meio de um parque, separando a área do campus e o centro da cidade. O lugar é conhecido como “reality checkpoint” — a divisão entre a vida acadêmica e a “realidade”. Porque esse distanciamento entre os conceitos teóricos desenvolvidos na academia e as atividades práticas? Pode-se dizer que, por definição, a academia é um lugar de aprendizado e, portanto, precisa ser livre de restrições da realidade para exercitar o livre-pensamento, gerar novo conhecimento. Mas, esse conhecimento precisa ser transferido e aplicado. O design é reconhecido hoje como a ferramenta ideal para conectar o conhecimento puro e a prática — ou entre a tecnologia, a criatividade e o usuário. As agências de design se lançam nesse caminho: a IDEO não faz design, mas “ajuda empresas a construírem negócios, inovar, desenvolver potenciais e crescer”; a Tátil faz “design de ideias” e gerou recentemente a “CRIA” — uma consultoria criativa que se posiciona como uma empresa que promove a “criatividade para um futuro mais inteligente”; A GAD’Innovation propõe-se a ajudar a “transformar informação em conhecimento, conhecimento em vantagem”. Aqui na Inglaterra, participei recentemente de uma reunião de formação de um consórcio de universidades e empresas de diversos países com a proposta de desenvolver e aplicar conceitos teóricos para uso prático em pequenas empresas e no setor público. Os objetivos foram claramente estabelecidos. Não queremos fazer pesquisa acadêmica, mas aplicação prática de conhecimentos. O conhecimento teórico é a base inalienável para o exercício prático. E o design pode construir a ponte entre teoria e prática.

“Pode-se dizer que, por definição, a academia é um lugar de aprendizado e, portanto, precisa ser livre de restrições da realidade para exercitar o livre-pensamento, gerar novo conhecimento. Mas, esse conhecimento precisa ser transferido e aplicado”

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Teoria & prática andam juntas?  

Entrevista concedida para a edição 87 (novembro-dezembro/2011) da Revista Wide.

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