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REVISTA

SOLAR

A MANHÃ EM QUE O CARANGUEJO SAMBOU

Ano 1 • Nº 1 Julho 2013


sumário • Palavra do Solar Menino de Luz • Eventos Culturais • Páginas Verdes • Matéria de Capa • Parceiro da vez • Mural da criançada • Mosaico de fotos

SOLAR

EXPEDIENTE

MENINOS DE LUZ

Iolanda Maltaroli

Presidente e Fundadora Isabella Maltaroli

Diretora Geral

Guilherme Maltaroli

Diretor Administrativo e Financeiro Alessandra Maltarollo

Diretora de Comunicação e Captação de Recursos Ingrid David

Analista de Comunicação

2 • Revista Solar - julho 2013

André Duarte

Editor Chefe da Revista Solar Repórter

Andre Duarte

Colaboradores

Henrique Almeida


• Palavra do Solar Meninos da Luz

 JUVENTUDE UNIVERSITÁRIA NO SOLAR Iolanda Maltaroli Presidente fundadora do Solar Meninos de Luz

A descoberta do Solar Meninos de

da corrupção na política.

Uma prova de

Luz pelos universitários tem se tornado um

que eles não estão alienados como se dizia

fenômeno interessante. Diversas ações estão

anteriormente. Pois de que adianta ficar

sendo idealizadas e realizadas através da

antenado aos acontecimentos e não fazer

participação desses jovens. Como exemplo,

nada pelo desenvolvimento do povo?

podemos citar os alunos da FACHA fazendo

Vejo os jovens que aqui participam

um programa de marketing para cadastrar e

como parte integrante desta geração,

captar novos voluntários; o estudante do CEFET

com coragem de passar das palavras vãs à

promovendo o curso para mulheres do

empreendedoras

Pavão-Pavãozinho

e

Cantagalo; o de Administração da PUC ajudando no nosso modelo de gestão; e o grupo de jornalismo da UFRJ, cujo trabalho resultou na criação da revista Solar, que tem como finalidade

o

colaboradores

diálogo e

com

prática, e assim, dando

“Vejo os jovens que aqui participam como parte integrante desta geração, com coragem de passar das palavras vãs à prática...”

parceiros,

um

salto

quântico

de

idéias

e

transformar

sonhos em atos concretos. São intelectuais, artistas, meninos

e

promissores

meninas nas

áreas

humanas e tecnológicas, que

contribuem

nas

atividades como o teatro, a

música,

a

dança,

a

responsáveis pela sustentabilidade financeira

fotografia, a informática, o reforço escolar,

da casa, sempre ameaçada por falta de verbas

entre outras, sempre dispostos a se doarem

para custeio. Eles são audazes, profundamente

para os que ainda não podem usufruir de

bons.

todas as oportunidades. Testemunhamos

a

movimentação

Além de protestar nas manifestações,

da juventude em nosso país durante estas

uma forma de colaborar com o país

últimas semanas, rompendo o imobilismo

também é por intermédio de ações simples,

egoístico e saindo às ruas por reivindicações

retificadoras, que acabam por multiplicar

para a coletividade, entre elas a melhoria nos

soluções consistentes para nossa amada

hospitais, nas escolas, nos transportes e o fim

nação brasileira.

Revista Solar - julho 2013 • 3


Arte

• Eventos Culturais

sem limites no Solar Primeiro dia da exposição de Osvaldo Carvalho como curador, na Galeria de Arte do Solar, apresenta aos pequenos alunos e moradores do Pavão-Pavãozinho os mistérios da arte contemporânea

Galeria de Arte do Solar: exposição Limites

4 • teve Revista Solar - julho 2013 a presença dos alunos da instituição


Os detalhes da obra Paraíso Monarca, como os soldados com asa de borboleta, foram o atrativo para os olhos atentos dos jovens alunos do Solar

ANDRÉ DUARTE

São 16h30 de uma quinta-feira não muito comum. Algumas pessoas começam a chegar ao morro, depois de subirem por uma das duas vias de acesso ao Pavão-Pavãozinho: uma ladeira estreita disputada por pedestres e motos ou então uma escada com cerca de 120 degraus. Elas não parecem preocupar-se com o esforço físico realizado, muito menos com o calor que o sol ainda faz prevalecer, porque acima de tudo aguardam algo de especial. Professoras aparecem cercadas de pequenos alunos, que, para desespero das mestres, arruínam qualquer planejamento de fila e

partem correndo à Galeria de Arte do Solar. Lá dentro, sete obras de arte contemporânea compõem o primeiro dia da exposição Limites, apresentada entre 9 de maio e 22 de junho e organizada pelo curador Osvaldo Carvalho. “Aqui na favela, não há limites. O que existe é uma negociação pelo espaço, e não uma imposição. Quando que em uma exposição lá em baixo uma criança entraria assim?”, aponta o artista para uma menina descalça, que boquiaberta, tocava com o dedo indicador em uma das instalações apresentadas: “A arte tem a função de libertar o ser humano”. Alguns minutos depois da abertura da exposição ao público,

que era formado por admiradores e amigos dos autores das obras, diretores e funcionários do Solar, professores e alunos do ensino fundamental da instituição e moradores da comunidade, dezenas de gaivotas de papel sobrevoam a galeria, passeando pelas mãos dos pequenos. “Elas fazem parte da Gaivotada, de Hilton Berredo, que trata da questão dos limites dentro da perspectiva da natureza, através da construção de recortes e montagens formando uma espécie de árvore, onde os pássaros estariam circulando. “A sensação é de que esses animais estão se transportando de uma árvore para outra, dando um aspecto de sobressalto em relação à parede.

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Interação com a arte: a distribuição de gaivotas de papel por Hilton Berredo, autor de Gaivotada cativou os animados visitantes

As gaivotas remetem à liberdade, e por isso, elas estão sendo distribuídas às crianças. Ambos são seres frágeis, que quando espalhados simbolizam o milagre da vida”, explica Hilton. Do lado direito, cabeças se aglomeram para observar um exército de bonecos soldadinhos pendurados sob a moldura de borboletas, o que gera risos e comentários por parte dos alunos. “Olha, que engraçado! Eu nunca tinha visto soldado voando, ainda mais com essas asinhas”, graceja a garota Nicoly para uma coleguinha. O Paraíso Monarca, que caiu nas graças dos menores, foi construído por Fabio Carvalho, aliando a idéia de brutalidade do

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soldado à estética delicada deste bicho. “A borboleta monarca é venenosa, por isso espécies diferentes tentam imitá-la na aparên-

cia para intimidar os predadores. É um sistema parecido de camuflagem ao qual o soldado recorre em uma batalha”, conta

Composição de Gaivotada, de Hilton Berredo: artista busca com a obra simbolizar a liberdade


Uma pausa para foto tendo ao fundo a obra O que te identifica é o que te iguala, de Lin Lima

o autor, apropriando-se da imagem do militar, tão presente em comunidades pacificadas como é o caso do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, com o intuito de dar significação ao universo cotidiano daquelas crianças. A arte contemporânea se notabiliza pela subjetivação da interpretação, fazendo do abstrato, muitas vezes, um fator preponderante. Mesmo com a complexidade do entendimento de uma obra, tanto para um leigo quanto até para um profundo conhecedor de arte, a estudante Fábia, de 10 anos, mostra desenvoltura ao indicar alguns pontos da instalação Nós vamos invadir sua praia, de Ilcio Lopes: “Aqui é o calçadão de Copacabana, ali está a rua, os prédios e acho que mais em cima pode ser uma favela”. A instalação se constituiu por cubos pretos e brancos a partir de um formato de orla, que seria confirmada pelo autor como sendo a do famoso bairro carioca.

“Queria representar o fenômeno de mistura entre o morro e o asfalto. Nós, artistas, invadimos a comunidade, os gringos também estão subindo até aqui. A gente pretende quebrar os limites sociais impostos, que sempre existiram na cidade”, diz Ilcio. Junto com os primeiros sinais do anoitecer, o público começa a se evadir lentamente. Ainda assim, há um personagem

que parece alheio ao tempo, tamanha é a satisfação pelo resultado. O curador Osvaldo Carvalho permanece no meio do salão, cumprimentando gente e observando atentamente o redor. “Essa atmosfera é fantástica. Daqui a 20 anos, quantos desses meninos não podem se transformar em artistas? Tudo isso porque eles viram um dia uma galeria de arte”, conclui, orgulhoso. Se depender da criatividade e inteligência da criançada do Solar, esta hipótese tem grandes chances de se concretizar como real.

Fábio Carvalho, o autor de Paraíso Monarca

Curador Osvaldo Carvalho e o artista Ilcio Lopes

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• Páginas Verdes

DO PAVÃO PARA O MUNDO Recém-chegado de Malta, país do sul europeu, o jovem morador do PavãoPavãozinho e formado pelo Solar, Matheus Barbosa, revela as aventuras da viagem e como conseguiu dedicar-se aos estudos

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ANDRÉ DUARTE

Fazer um intercâmbio na Europa para aperfeiçoar o inglês é uma oportunidade mais do que natural para os jovens de classe média alta. Mas e quando um menino da favela atravessa as fronteiras sócio-econômicas e desembarca no Velho Continente para estudar? Apenas um delírio? Nem sempre. Tornou-se uma realidade para Matheus Barbosa, de 17 anos, morador do PavãoPavãozinho, que teve grande parte de sua formação escolar no Solar Meninos de Luz. Graças a uma parceria com a instituição, o garoto, que sequer imaginava sair do Brasil um dia, passou dois meses em Malta, país situado no centro do Mar Mediterrâneo, onde realizou o sonho de conhecer o exterior: “Quando descobri que havia sido escolhido para viajar, a ficha demorou a cair. Tratavase de uma experiência única. Fui com a cabeça e o coração abertos para absorver o máximo”. Quem pensa que o fato de morar na Europa é um bom argumento para auto-promoção na comunidade ou para contar vantagem em relação aos amigos, é porque não conhece Matheus. O rapaz de pele morena traz um corpo franzino e um sorriso espontaneamente simpático. Sua simplicidade aniquila qualquer sentimento de soberba e arrogância. Provavelmente, ela seja reflexo de uma vida repleta de limitações e, ao mesmo tempo, de superações. A começar pelo drama familiar, que vem exigindo do garo-

A felicidade de Matheus (centro) ao abraçar colegas do Solar

to uma maturidade incompatível com a idade. “Minha mãe convive com um problema neurológico que afeta sua coluna, deixando 80% de seu corpo paralisado no lado esquerdo. Minha irmã e eu nos dividimos para auxiliá-la o tempo inteiro.” Ele conta que, mesmo com as dificuldades físicas, a mãe fez três anos de Escola Normal e hoje dá aula para crianças de até 10 anos em um colégio estadual. “É minha fonte de inspiração. Se ela tira forças para viver, eu tenho obrigação de cumprir minha obrigação que é estudar.” A devoção e dedicação aos livros só poderiam ser desenvolvidas em um lugar como o Solar, segundo Matheus. “O nível dos professores daqui faz você se sentir equiparado a um aluno de maior poder aquisitivo”, referindose aos mestres que teve ao longo de oito anos, período que esteve da 4ª série do Fundamental até o

3º ano do Ensino Médio, concluído em 2012. Nesse tempo, entrou no curso intensivo de inglês, com duração de três meses, oferecido pelo Edupró – Raízes Culturais, um programa cujo objetivo é permitir o intercâmbio de voluntários estrangeiros para darem aulas de língua inglesa no Brasil, e também levar jovens da periferia para países anglofônicos. A cada ano, os dois melhores alunos do Solar ganham uma bolsa de dois meses no exterior. Foi o caso de Matheus. Na relação entre os escolhidos de 2012, viajou em janeiro deste ano para Malta, onde morou na casa de uma família, junto com outros dois estudantes russos. Bem recebido pela host mother (“mãe hospedeira”), adaptou-se rapidamente à cultura e aos hábitos malteses, muito embora o frio tenha sido seu pior inimigo durante a permanência no país: “Nunca tinha sentido frio na vida. Ouvia falar, mas não

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acreditava que ele existisse (risos). Aí, resolvi descer do avião sem casaco e quase congelei de verdade. Meu primeiro contato foi traumatizante”. A partir de então, deu-se conta que as temperaturas tropicais do Rio de Janeiro estavam a alguns milhares de quilômetros de distância. Momentos após o desembarque, tratou logo de comprar as roupas necessárias para sua sobrevivência. Para dormir, tinha que vestir calça, casaco e três cobertores. Não bastasse toda esta parafernália para o momento de descanso, ainda era obrigado a enfrentar um problema tão grande quanto. “Um dos russos,

que dormia exatamente ao meu lado, roncava assustadoramente. Acho que é porque ele bebia muito, o tempo inteiro”, relembra o jovem franzino às gargalhadas. Quanto à proficiência do idioma inglês, Matheus obteve um certificado de nível 6, entre os oito possíveis no curso, onde passava

“Quando descobri que havia sido escolhido para viajar, a ficha demorou a cair.”

as manhãs durante a semana. O resultado positivo foi conquistado pela seriedade nas aulas e a convivência com estudantes de outras nacionalidades, em especial, os turcos e os alemães. “Evitava andar com brasileiros, justamente para não falar a língua nativa e me forçar a praticar o inglês.” Apesar da satisfação pessoal em relação ao seu avanço intelectual obtido no exterior, a maior alegria só aconteceria no momento em que, finalmente, regressasse à cidade natal: “Quando minha mãe foi me buscar no aeroporto, vi em seus olhos uma felicidade inexplicável, um sentimento de dever cumprido. Não há dinheiro

Sala de aula em Malta, com Matheus (ao fundo) ao lado de outros colegas estrangeiros

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Matheus na formatura do curso profissionalizante, ao lado de outros colegas: vocação para os estudos

no mundo que compre isso”, descreve timidamente emocionando a cena do reencontro. De volta ao Pavão-Pavãozinho, o garoto reflete sobre a favela e lamenta que outros, como ele, não tenham oportunidades semelhantes. Mas sua participação como voluntário-moni-

“Se ela (mãe) tira forças para viver, eu tenho obrigação de cumprir minha obrigação que é estudar.”

tor de inglês é uma maneira de ajudar colegas a trilharem o mesmo caminho. “Agradeço demais ao Solar, pois representa tudo na minha vida. Ser monitor é uma forma de retribuição a tudo que recebi aqui.” Agora, Matheus

aguarda o segundo semestre para começar a faculdade de Engenharia de Produção na UniverCidade. Enquanto isso, ele brinca sobre os novos objetivos: “Depois de Malta, o céu é o meu limite”.

Aproveitando o tempo livre para passear com os amigos e conhecer Malta

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• Matéria de Capa

A MANHÃ EM QUE O C

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CARANGUEJO SAMBOU Comunidade no alto do morro do Pavão-Pavãozinho recebe o Mega Dia Legal, evento criado pelo Solar para alegrar e levar opções de estudo aos seus moradores

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ANDRÉ DUARTE

“Oh abre alas que eu quero passar”, ouvia-se em coro do alto do Pavão-Pavãozinho. O Solar não só passou, como ficou. Os versos eternizados por Chiquinha Gonzaga são a síntese da ação objetiva naquela manhã ensolarada de sábado: levar amor e esperança à região chamada Caranguejo, onde quase nunca a ala dos serviços públicos mais básicos desfila. Enquanto o grupo de chorinho, formado por alunos do Solar que fazem aula na Escola Portátil de Música, apresentava-se no palco montado improvisadamente em cima de uma laje, uma

tenda ao lado recebia a população local com o informe: “Inscrições abertas”. A escada que liga a parte baixa do morro até seu pico parece interminável, mas nem por isso se tornou obstáculo para os diversos voluntários que subiam os degraus convidando àqueles que encontravam pelo caminho: “Hoje tem festa! Venha para o Mega Dia Legal!”. Alguns já haviam chegado bem cedo para deixar tudo preparado para o grande dia. “A gente se organiza há muitos anos para, enfim, conseguir realizar esse evento”, diz Iolanda Maltaroli, presidente e fundadora do Solar, “nosso intuito é de

Tenda de inscrição para cursos

“Hoje tem festa! Venha para o Mega Dia Legal!” voluntários do Solar

A animação dos alunos da Escola Portátil de Música expressa na apresentação da música Oh Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga

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Do alto do morro Pavão-Pavãozinho a vista da praia de Copacabana é um convite à contemplação

conta que há dois anos tenta trazer os moradores para as atividades da instituição, mas o histórico de sofrimento e falta de perspectivas deles

acabaram atrapalhando o processo. “Desta vez, vamos levar educação até eles, através das inscrições nos cursos que estamos oferecendo, como

A mestre de cerimônias Balu Carvalho (à esquerda, de chapéu rosa) dá início ao evento

A arte do grafite “invade” os muros das casas

aproximação com esta parte tão carente da comunidade, praticamente invisível pelo poder público e também pelo restante do Pavãozinho”. Ela

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Número de mágica leva crianças ao riso contagiante

o de alfabetização a jovens e adultos, o de Fundamental I e II, e os profissionalizantes”, conclui. Entre esses cursos, a alfabetização será realizada no próprio Caranguejo, enquanto que os outros serão ministrados pelo SESI nas instalações do Solar.

Aos poucos, as crianças vão se aglomerando a espera das atrações anunciadas. Elas são unânimes: querem ver mesmo o palhaço. Outros moradores

se aproximam curiosos: “Ouvi dizer que vai ter hip-hop”, revela uma menina chamada Janaína. A ansiedade só teve fim quando Balu Carvalho,

“Desta vez, vamos levar educação até eles, através das inscrições nos cursos que estamos oferecendo...” Iolanda Maltaroli

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Performance de hip-hop anima o Caranguejo


mulher, de 34 anos, admitindo ser analfabeta, assim como o filho Pedro, de 11 anos, que nunca foi à escola. “O pai dele jogou nossos documentos no lixo. Não consigo matricular meu filho em nenhum lugar”, lamenta Mônica.

A mágica de Millord ganha encanto com a participação do menino

a mestre de cerimônias, anunciou: “Sejam bem-vindos, meu povo! Vai começar uma manhã inesquecível”. Após as apresentações do choro e o do hip-hop, finalmente, o momento mais aguardado. O mágico e o palhaço se revezam no palco, levando a criançada ao delírio. Os risos não atingem só os pequenos, mas como em um efeito

Palhaço Tilinha nos braços da criançada

multiplicador ganham os rostos dos adultos, principalmente, os da comunidade. A alguns metros dali, Dalila de Jesus, de 18 anos, se inscreve no curso de Fundamental I. Ela vive em uma humilde casa no Caranguejo junto com a filha Maria Vitória, de 1 ano de idade. “Desde que ela nasceu, botei na cabeça que eu tinha que voltar a estudar. Com isso, quero arrumar um emprego e servir de exemplo para minha menina.” A interrupção dos estudos, na 4ª série, se deu após um grande trauma. Segundo ela, um professor agredia fisicamente os alunos: “Ele ameaçava e batia em quem fazia bagunça na sala. Acabei tendo pavor do colégio, e tudo o que eu queria mesmo era fugir de lá”. Atrás dela na fila está sua tia, Mônica Alves. “Ficar sem ler é muito ruim, né?”, diz a

“Desde que ela nasceu, botei na cabeça que eu tinha que voltar a estudar. Com isso, quero arrumar um emprego e servir de exemplo para minha menina.” Dalila de Jesus

Dalila (à direita) com sua filha no colo

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Quando os acordes do violão do mestre Sant’anna passeiam pelo ar, há indícios de que a festa está se encerrando. A roda de samba é a última atração do dia. A música vira a trilha sonora dos muitos abraços de despedida. Os voluntários do Solar já sabem das escadas que têm pela frente, mas o sentimento de dever cumprido aniquila o cansaço físico. “Alcançamos a primeira meta, que era sensibilizar para transformar. Agora vamos continuar com as visitas e aos poucos cultiva-los para estarem do nosso lado”, completa Iolanda. Em notas derradeiras, o Juízo Final de Nelson Cavaquinho é cantado suavemente fazendo com que sua melodia percorra o chão íngreme de barro e atravesse as paredes dos barracos e das casas de pau a pique: “o Sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações”. A profecia do compositor estava certa. O sol brilhou como nunca e a luz da esperança de um futuro melhor invadiu diversos corações. A partir dessa manhã, o Caranguejo não seria mais o mesmo.

Roda de samba com mestre Sant’anna (ao violão) encerra com chave de ouro o Mega Dia Legal

“Alcançamos a primeira meta, que era sensibilizar para transformar.” Iolanda Maltaroli

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Iolanda (à esquerda) não resiste às brincadeiras do palhaço e cai na gargalhada


O Solar dá até logo ao Caranguejo após uma inesquecível manhã


• Parceiros da Vez

EDUPRÓ: A LINGUA ULTRAPASSANDO

FRONTEIRAS

História de vida da fundadora do projeto, Maria Aparecida Galbier, é determinante para a construção de uma obra que traz jovens do mundo inteiro ao Pavão-Pavãozinho e leva os alunos do Solar ao exterior

Turma do projeto Edupró-Raízes Culturais

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ANDRÉ DUARTE

“Tenho nome de santa, mas não sou santa. O milagre é feito através do nosso próprio trabalho.” Maria Aparecida Galbier realmente ainda não pode ser incluída na esfera das entidades divinas, mas tampouco pertence à classe dos seres humanos imersos em preocupações mundanas e materiais. Ela é a idealizadora e responsável pelo projeto Edupró – Raízes Culturais, que há dois anos estabelece uma parceria com o Solar Meninos de Luz, oferecendo aos jovens do 3º ano do Ensino Médio a realização de um sonho quase improvável, em circunstâncias normais, para moradores de uma comunidade carente: fazer intercâmbio no exterior em busca da fluência do idioma inglês. O Edupró – Raízes Culturais nasce com o investimento do próprio bolso e com a ajuda de famílias amigas, carregando a experiência e os contatos feitos

Leitura como importante ferramenta de aprendizado

no exterior. Em 2011, Galbier conheceu o Solar Meninos de Luz por intermédio de uma colega e se impressionou com a obra: “O Solar era justamente aquilo que tinha tudo a ver com a minha própria história de vida. Ali seria o lugar ideal para canalizar minhas idéias”. A partir de então é que surge a parceria, cuja missão é a de levar o desenvolvimento da fluência de inglês aos estudantes do Ensino Médio de modo a

Atividades didáticas desenvolvidas pelo professort

aperfeiçoá-los intelectualmente. Durante o período de férias no hemisfério Norte, entre agosto e setembro, jovens intercambistas de diferentes partes do mundo se voluntariam para dar aulas de inglês no Solar. Em contrapartida, têm contato com o idioma português e conhecem a cultura brasileira. “Eles sobem o Pavão-Pavãozinho e se encantam com a nossa gente”, diz orgulhosa. Por sua vez, dois alunos que estejam participando do projeto e que cursem o último ano do colégio são escolhidos para passar três meses do exterior durante as férias do Brasil. Eles ficam em casas de família e entram em um intensivo em inglês. “A escolha é feita por uma profunda análise de envolvimento do jovem com o estudo, sua motivação, seu esforço, e não necessariamente é o que mais sabe inglês. Nós privilegiamos os que querem vencer, têm sede de conhecimento”, explica.

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Confraternização de voluntários estrangeiros e alunos do Solar

Selecionados na primeira turma do projeto, Luan e Manuella rumaram à Cidade do Cabo, na África do Sul, no início do ano passado. Em 2013, três alunos atravessaram as fronteiras do país: Ronaldo seguiu para Vancouver, no Canadá, e Camila e Matheus (ver Páginas Verdes, páginas 8-11) foram para a Malta, no Mediterrâneo europeu. “Para a próxima turma, estamos em contato com instituições da Austrália, Irlanda e Nova Zelândia”, revela, admitindo também que as oportunidades dependem da contribuição de colaboradores para viabilizar financeiramente a empreitada. É impossível desvencilhar a criação do projeto com a história de Maria Aparecida Galbier.

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Nascida em uma fazenda de Vargem Grande do Sul, interior de São Paulo, a menina de origem humilde já percebia desde pequena que o planeta era um pouco maior dos que os limites de seu município. A tela do cinema a fascinava. Era o contato com um

“O Solar era justamente aquilo que tinha tudo a ver com a minha história de vida. Ali seria o lugar para canalizar minhas idéias” Maria Galbier

universo diferente do seu. “Criava imaginações, fantasias. Sonhava que ia para o Egito”, conta hoje a mulher de 64 anos. Se o Egito ficava a milhares de quilômetros de Vargem Grande do Sul, a cidade de São Paulo era um destino palpável. Foi aos 14 anos quando Maria Aparecida resolveu deixar a família e desbravar a capital paulista para estudar e trabalhar. Enquanto concluía a Escola Normal, descobriu que sua grande paixão era o estudo das línguas. Posteriormente, quando já cursava a faculdade de Direito na PUC e trabalhava em um grande escritório de advocacia, conseguiu uma bolsa de três meses na Itália e pela primeira vez saia do Brasil. “Voltei com a visão de que


o mundo iria se globalizar. Sabia que tinha que aprender inglês o mais rápido possível, mas sequer falava uma palavra do idioma.” O novo desafio fez com que todos os esforços fossem voltados para a busca de uma oportunidade nos Estados Unidos. De tanto insistir às universidades americanas, ganhou três meses de bolsa na New York University: “Cheguei em um dia de nevasca, sem ter onde ficar. Mas não me preocupei porque sabia muito bem o que queria. Mesmo sem saber inglês, falei tanto, mais tanto, que eles me deixaram no dormitório da universidade”. A obstinação da jovem de 29 anos superou

qualquer dificuldade inicial. Galbier venceu nos EUA. Fez mestrado, casou-se com um americano, teve dois filhos, estava completamente habituada à cultura local. De lá, geria seus escritórios de advocacia no Rio de Janeiro. Mas quis a vida que questões de ordem pessoal e graves problemas de saúde a obrigassem a retornar ao Brasil. A sensibilidade gerada pela recuperação física e emocional, após quase morrer, foi o embrião para a criação de um projeto que pudesse proporcionar às pessoas carentes aquilo que ela mais gostava, a cultura através do estudo da língua. “Meu objetivo

era educar para libertar.” Apesar do nome bíblico e do grandioso trabalho voluntário, Maria Aparecida Galbier provavelmente não será beatificada um dia, muito menos terá espaço no seleto grupo de santas. Mas vai ser lembrada para sempre por aqueles que já foram beneficiados por intermédio de sua ação solidária com o próximo. Novamente, ela rejeita qualquer enaltecimento pessoal por seu trabalho. Ao invés disso, prefere citar a frase favorita de sua autoria: “Não importa quem você é ou de onde você vem, tenha a audácia de sonhar e a coragem de realizar os seus sonhos”.

Maria Aparecida Galbier (ao centro) entre os jovens do projeto

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• Mural da criançada

1o ano

Emilly

Victoria

Pré 2

Maria Eduarda

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2o ano

Ana Carolina

Andrew

Nicolas

Gabrielly

Sarah

Maria Eduarda

• Meio Ambiente

• Poesia

Tema que pautou o trabalho feito pelas crianças do pré 2 e das primeiras series do ensino fundamental. Desde cedo elas aprendem a importância de se preservar a natureza.

Após a aula de literatura brasileira, os alunos do 5˚ ano fizeram poesias.

3o ano

5o ano

Maria Paula

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• Mosaico de Fotos

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