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capitu

http://www.revistacapitu.com

literatura & cultura

Santos, SP. Ano I. nº 1. Novembro/2008

Fernando Morais legitima Paulo Coelho Daniel Piza mergulha Machado Christian Godoi revela o inimigo invisível isaac bashevis singer contardo calligaris marcelo ariel zuza homem de mello cecília meirelles hilda hilst andré dahmer paulo ghiraldelli jr. marcelo camelo

mais de 60 sugestões em literatura, cinema, música, teatro, artes plásticas, eventos, quadrinhos, cursos capitu e concursos — novembro — 1

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adelto gonçalves


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capitu capitu Santos, SP. Ano I. nº 1. Novembro/2008

entrevista_ Machado: personagem machadiano O jornalista Daniel Piza revela a complexidade do escritor, este que moía certezas. Ele pensou sua época e fez o perfil das crenças e de um Rio de Janeiro que retratam o País de hoje. — 12

quem é Paulo Coelho? Fernando Morais biografa Paulo Coelho, o escritor que nasceu morto, encontrou o diabo, alcançou a marca de 100 milhões de livros vendidos e mais traduções do que Shakespeare. Morais fala à Capitu sobre seu método de trabalho. Mais: crítica da biografia, erros e acertos. — 18

a violência invisível de cada dia O cotidiano trama contra você. Repara: seu celular, seu emprego, sua página pessoal no Orkut, sua checagem matinal de emails, sua poltrona de pai de família — todos eles na surdina tramam contra a sua liberdade. O professor Christian Godoi pode te fazer pensar o quanto está disposto a ceder para a sociedade. No caso dele, muito pouco. — 32

bússola_ 38 páginas de sugestões culturais ficção, poesia, não-ficção, teóricos, teatro, cinema, música, internet, eventos, concursos, oportunidades para artistas e escritores, cursos e mais_

veja submenu na página 62 4


sumário

sumário

capitu apresenta_ Danilo Aroeira: desespero e escárnio Felicidade, hq de Danilo Aroeira (arte acima), traz uma história de desespero: um homem no limite do cansaço — e o escárnio. — 28

Marcelo Ariel: caranguejos aplaudem Nagasaki Poesias de Marcelo Ariel — que, de acordo com Ferreira Gullar, é um dos melhores poetas da atualidade. Ariel falou à revista sobre arte, sua obra e o que espera de seu público. — 47

Furor na íris: ‘condição de ser cognocivo” Contos do mineiro Marcus Nascimento. Seu texto tem a mistura sinestésica de todos os sentidos; possui grande experimentação linguística e dá vida a personagens que são crítica à alienação. — 56

mais: Contardo Calligaris conta como a arte criou o amor (40); Zuza Homem de Mello reinventa a história da bossa nova (54); Capitu relembra Cecília Meirelles (102).

Expediente Revista Mensal de Literatura & Artes. Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo. Faculdade de Artes e Comunicação (FaAC). Universidade Santa Cecília (UNISANTA) Santos (SP)

Novembro de 2008 Pauta, Reportagem, Texto, Edição, Fotografia, Projeto Gráfico e Diagramação: Duanne Ribeiro Colaboradores: Márcio Calafiori , sobre Isaac Bashevis Singer — 64 Paulo Ghiraldelli Jr., sobre o filósofo Richard Rorty — 72 Orientação e Revisão Márcio Calafiori Projeto da Capa: Duanne Ribeiro Atendimento ao leitor e ao assinante: revistacapitu@ revistacapitu.com olvra.ribeiro@gmail.com (13) 3326-0398 capitu — novembro — 5


editorial

editorial

Artista ‘estátua-viva’ representa Machado de Assis na Feira Literária Internacional de Paraty

diversão e catarse

A

s expressões da cultura podem ser formas de diversão ou de catarse, passatempos ou fontes de emoções várias; mas também podem ser transformadores da visão que temos do cotidiano. Essa tendência se repete em algumas das matérias de Capitu neste mês. Daniel Piza destaca em Machado a sua faceta de pensador do seu tempo. O psicanalista Contardo Calligaris explica como usamos a ficção para responder às perguntas que não temos como responder. O professor Christian Godoi fala sobre a violência sutil que existe nos atos de cotidiano, na própria rotina, no trabalho, em um aparelho de celular. Esses são exemplos de textos que podem mudar antigas idéias. Esse é, de fato, o tipo de texto adequado a uma revista que use o nome Capitu. A personagem de Machado era curiosa, inteligente e gostava entender tudo a fundo. Hoje, se serve a discussões infindáveis que alternadamente a põem como anjo injustiçado ou como demônio traiçoeiro. Capitu nos faz pensar

novamente sobre o que tínhamos concluído, nós passamos a desconfiar da honestidade de Bentinho, das intenções de Machado... É foco que desestabiliza certezas, como um tipo particular e excepcional de arte consegue ser. Este deve ser um dos objetivos de uma revista que se pretenda cultural. Ao lado de informação — livros, filmes, discos e eventos importantes; e de experiências artísticas de diferentes meios de expressão — contos, histórias em quadrinhos, poesia — deve estar esse viés crítico. Assim como diria Tom Zé — tô te confundindo pra te esclarecer... — a matéria de tom reflexivo está aí para derrubar velhas opiniões. Porque só assim nascerão novas e melhores idéias. Uma sugestão? Capitule. 6


mais capitu

online

online

http://www.revistacapitu.com O site expande e discute o material apresentado na revista impressa, mês a mês. Da última vez que olhamos, esses eram o atrativos exclusivos da versão online de Capitu: + poesia, + contos, + quadrinhos de autores garimpados pela revista. + expansão das matérias da revista: observe o box no pé de cada texto e veja o quanto mais ainda oferecemos. Exemplos? Além da entrevista de Daniel Piza, resenha crítica sobre a biografia que fez de Machado de Assis; a briga de Machado (de novo ele?) com Eça de Queirós. Chegaram aos finalmentes? Clica lá e descobre. + matérias exclusivas: o colombiano Fernando Vallejo, o brasileiro José Paulo Cuenca, o poeta Cláudio Willer e mais...

http://www.revistacapitu.com/blog No Manifesto Antropofágico, o modernista Oswald de Andrade propõe a “apresentação dos materiais”, em oposição à arte santificada da época anterior. O blog da Capitu é mais ou menos isso: uma “versão do diretor” da revista, um making of — e se é para se apropriar de palavras em inglês, como Oswald fez — um work in progress. Complementos para as matérias, fotos e histórias que não se tornaram material editorial, fatos do período de produção: a revista não é um produto acabado, mas que cresceu e continua a crescer.

http://twitter.com/capiturevista O Twitter é uma espécie de miniblog, com mensagens necessariamentes curtas. Quando a notícia é recebida na redação de Capitu, no instante seguinte está no Twitter. Foi assim com a premiação de Jean-Marie Gustave Le Clézio com o Nobel de Literatura, e será dessa forma com outras notas relevantes, anúncios de cursos, eventos e oportunidades de trabalho para artistas e escritores.

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‘deixa eu falar dos

livros que me fizeram ser quem sou’ A Capitu pediu aos integrantes do grupo de discussões Círculo (http://br.groups. yahoo.com/group/circulodeblogs) que indicassem os livros que consideraram marcantes em suas vidas. Emoção, prazer, aprendizado, rumos de vida definidos.As respostas falam de aprendizado, emoção e — um ou mais — destinos transformados.

“Um dos livros mais interessantes que li é Zen e a arte de Manutenção de Motocicletas (Martins Fontes, 2007), de Robert M.Pirsig. Quando o peguei para ler não fazia idéia do que falava, e bem depois de terminá-lo que fui descobrir que é um cult dos anos 1970. Basicamente, é um romance sobre filosofia, um sujeito louco buscando uma teoria da qualidade e resgatando a si mesmo enquanto anda de moto por todo país. Dos últimos que gostei, temos A Cura de Schopenhauer (Ediouro, 2005) e Quando Nietzsche Chorou (idem, 2003), ambos do Irvin D. Yalom, duas ficções que me fizeram entender um pouco mais meus filósofos favoritos, de quebra, com uma história muito bem escrita.”

Rafael Henrique Martins, 22, estudante de Jornalismo e webdesigner. Seu blog: Devaneios Gratuitos http://www. trunkael.blogger.com.br “Posso falar dos três últimos livros que eu li e que me ficaram na memória realmente? “Todos os Fogos o Fogo (Civilização Brasileira, 2007), Julio Cortázar. Trata-se da coleção de contos deste que é um dos maiores escritores argentinos. Para qualquer pessoa que goste de literatura, eu acho que o Cortázar é um mestre, com todos os clichês da prosódia daqueles que elogiam. Todos os contos são densos, não no sentido da pretensão do con8


Comente sobre os livros que foram importantes para você e veja seu texto publicado na revista! Mais: sugira outros temas de discussão, faça críticas, opine sobre as matérias, contraponha argumentos. A revista é sua.

do leitor

do leitor

participe

email: revistacapitu@revistacapitu.com

teúdo, mas como algo que você tável... É provavelmente um dos pode realmente partir em mil livros mais belos que já li. pedaços e experimentar o encaixe de diferentes posições dos jogos com a linguagem. E há quem diga também da técnica cinematográfica que ele utiliza nos contos — planos-seqüência, confusão de vozes narrativas, sobreposição de histórias em épocas diferentes... o cara é completo. Vale a pena, demais. “Cem Anos de Solidão (Record, 2003), Gabriel García Márquez. É o seguinte: você quer fazer um romance atemporal, que trate da perpetuação das gerações, do estigma da dor daqueles que sofrem, tudo isso misturado com as coisas impossíveis, mas longe de serem questionadas por um leitor mixuruca? Fale com o Márquez. A narrativa é impressionante, a construção dos personagens é tão bonita, a passagem das gerações, o envelhecimento inevi-

se tornou um dos meus preferidos. Talvez seja uma das prosas mais singulares que eu já tenha lido, e também mais cheia de opostos. Ao mesmo tempo em que vai ao encontro às memórias mais bonitas da infância, o personagem volta pras suas perversões, seu desencontro com a tradição imposta pela família patriarcal, suas escatologias, sua cólera... É uma narrativa também muito bonita e muito triste, curta de extensão mas muito pesada no conteúdo.” Lara Spagnol, 21, estudante de Letras (UFMG). Seu blog: Põe na Língua http://

“Lavoura Arcaica (Companhia Das Letras, 2005), Raduan Nassar. Li este livro para uma matéria da faculdade, e apesar de todo o academicismo que poderia manchar a minha leitura, Lavoura Arcaica

laravedder.blogspot.com “Recomendo Ventos do Apocalipse (Lisboa, Editora Caminho, 1999), de Paulina Chiziane, por dois motivos: primeiro, é uma leitura que ao mesmo tempo choca e decapitu — novembro — 9


“Estamos em meio à guerra civil moçambicana, num lugarejo humilde. Daí as personagens emergem, cada qual como se fosse um retalho, que vive e sente e ama, e nunca deixará de fazer isso, de viver e celebrar. Antes de tudo, no livro, há a vida.”

leita. Choca por suas histórias de horror em meio à guerra e à extrema pobreza, onde o lado mais primitivo do homem é ressaltado. Bela, pois Paulina não se restringe a contar a história apenas. Conta junto. Ela é a mulher dos belos panos, dançando no dia do casamento; é o homem desoladamente sentado, lembrando do que um dia teve; é a criança remelenta que chora junto à mãe morta. É tudo isso porque sente, faz parte de seu povo e em momento algum deixamos de fazer parte, em seu livro, dessa realidade. A história é contada na roda, assim, cheia de gente. E fala de seu povo, “karingana ua karingana” (era uma vez, no dialeto ronga). Sem pretensões de ser grande, de enaltecer temas, metros, conteúdos. Uma conversa, um conto da avó, carinho da mãe, assim é o livro, para mim. Estamos em meio à guerra civil moçambicana, num lugarejo humilde. Daí as personagens emergem, cada qual como se fosse um retalho, que costurados mostram um rosto que é triste e sofrido, mas que vive e sente e ama, e nunca deixará de fazer

isso, de viver e celebrar. Antes traiçoeiro. Escreve um longo comentário de um poema de mil de tudo, no livro, há a vida.” linhas (que aparece, inteiro, no Letícia Silva, 20, estudante de começo do livro); o problema é que seu comentário em poucas letras — FFLCH/USP páginas deixa de seguir o poe“Bem, se estamos falando de ma e começa a entrar em delírilivros que nos influenciaram, os de que o próprio Kinbote é acho que posso listar alguns. 1) Mero Cristianismo (Quadrante, 1997), do C.S. Lewis. O livro não é muito profundo, é escrito estritamente para leigos, e seu argumento para a existência de Deus (assim como qualquer argumento que busque provar com fórmula a existência de Deus) é fraco, mas no ponto da minha vida em que eu o li (14, 15 anos), ele revolucionou minha mente. Foi o começo de uma paixão por teologia, pelo estudo de doutrina e Escritura, e do desenvolvimento de ambas, que agora é minha ocupação principal. “2) Fogo Pálido (Companhia Das Letras, 2004), Vladimir Nabokov. Eu tenho que me refrear para não dizer que este é o melhor romance que já li na vida. Nabokov é o mestre do narrador inconfiável: tal como o Humbert Humbert de Lolita, Charles Kinbote é um narrador

um rei exilado caçado por um assassino vulgar, e que todo o poema — e a vida do poeta, o póstumo John Shade — revolvia em volta dele mesmo. O narrador combina uma arrogância cômica com uma subserviência desesperada para com Shade, resultando num personagem egocêntrico, solitário, e desesperadamente necessitado de atenção. Conta uma história real (mas altamente contaminada por sua personalidade) e outra provavelmente fantasiosa, e entrelaça ambas, voltando sempre para o poema inicial e comentando menos e menos dele a cada página.” João Santos, 25, teólogo. Seu blog: Pensamentos Cativos http://pensamentos cativos.blogspot.com

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“Deixa eu falar dos livros que realmente me fizeram ser quem eu sou. “1. O Ovo Apunhalado (L&PM, 2001), Caio Fernando Abreu. Foi o primeiro do Caio que li, e fiquei maluca, passei a comprar tudo dele, passei a escrever como ele e tê-lo como meu guru. Ele tem um estilo bem próprio, cheio de palavras unidas por hífens, cheio de universo fantástico no mundo cotidiano, cheio de vontade de sempre querer viver mais. Ele sabe descrever situações e sentimentos como ninguém. São 21 contos, divididos

em três grupos que abordam relações amorosas e familiares, medos e críticas à sociedade. “Aqui um trecho: “Todos os olhares convergiram para a mesma direção. Sem conseguir evitar, novamente o médico pensou nas estrelas cadentes e nas prováveis cismas daquelas cabeças queimadas, quase uniformes em seus olhos esverdeados de sol, suas roupas esfarrapadas, seus gestos precisos e poucos, embora marcados pela lentidão do cansaço — o cansaço dos que esperavam por um acontecimento indefinido, capaz de fazê-los movimentarem-se subitamente com mais vontade, talvez com medo. Precisavam do temor como quem precisa de um sentido.” “2. O Meu Amigo Pintor (Casa Lygia Bojunga, 2006), Lygia Bojunga. É um livro infantil, e Lygia tem uma vasta carreira na área da literatura infantil que incluem A Bolsa Amarela e A Casa da Madrinha. São livros que nunca tratam as crianças como imbecis, que falam de morte, de pobreza, de amor, de vida, desejos e sonhos. Em Meu Amigo Pintor, um menino mora no mesmo prédio que um pintor e tornam-se amigos. Um dia o pintor se suicida e o livro conta como o menino li-

do leitor

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“Mero Cristianismo não é muito profundo, mas no ponto da minha vida em que eu o li, ele revolucionou minha mente. Foi o começo de uma paixão por teologia, pelo estudo de doutrina e Escritura, que agora é minha ocupação principal. “

dou com isso nos sete dias seguintes. Há uma série de questionamentos sobre quais seriam as razões para tal ato e porque as pessoas tiveram reações tão drásticas em relação ao evento. É uma prosa leve e bem humorada, mesmo tendo como mote um assunto difícil e tudo visto sob a ótica da criança. “3. Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios (Companhia Das Letras, 2005), Marçal Aquino. É um romance com violência, drama e tudo o que gosto numa literatura ficcional de entretenimento. Marçal escreve muito bem, nos leva numa viagem por seus personagens e nos surpreende em vários momentos de tensão. No livro, Cauby é um fotógrafo quarentão que trabalha no norte do país numa região de garimpo, em determinado momento ele conhecerá e terá um caso amoroso com a mulher do pastor da cidade. Com Cauby aprendi a amar.” Bianca Cardoso, 27, professora. Seu blog: Groselha http://www. groselha.wordpress.com capitu — novembro — 11


uma dúzia de vezes

Machado de Assis No ano em que se completam cem anos da morte do autor, o jornalista Daniel Piza, que o biografou — o ‘maior escritor brasileiro do século 19’ —, fala da complexidade do escritor e das relações dele com a sua época

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escobri Machado na escola. As pessoas em geral acham que isso dá errado. No meu caso, deu certo; deram-me pra ler Quincas Borba e eu fiquei encantado. A partir disso fui ler todas as obras de Machado, me encantei mais ainda com Brás Cubas. Desde então, acho que não se passam dois meses sem que releia ou leia alguma coisa dele, incluindo cartas, crônicas, críticas. Eu tenho uma relação afetuosa com a leitura de Machado. O Brás Cubas eu reli mais de uma dúzia de vezes; Dom Casmurro, quase isso também, um pouco menos”. As palavras são do jornalista Daniel Piza, colunista de O Es-

tado de S. Paulo e autor da biografia Machado de Assis — Um Gênio Brasileiro (Imprensa Oficial, 2005). Biografia que, de acordo com José Roberto Torero, teria feito de Machado um personagem machadiano — demonstrando toda a sua complexidade. É sobre isso que Piza fala à Capitu. Para escrever a obra, ao longo de dez anos, formou uma biblioteca com tudo o escrito por e sobre Machado. A influência do escritor carioca se encontra, sobretudo, no próprio estilo com que Piza escreve, em uma mistura improvável entre Machado e os jornalistas do Pasquim. “Como eu sou jornalista cultural, faço muita crítica literária, de arte, e fui muito influencia-

do pelo pessoal do Pasquim, o Millôr Fernandes, Paulo Francis, Ivan Lessa — acho que o Machado sempre serviu de contraponto para mim. Onde aqueles eram contundentes, incisivos, Machado era de captar sombras, sutilezas. Essa coisa de eu gosto de catar o mínimo e o escondido — eu tenho muito isso também. Eu não gosto de cair nos extremismos, não gosto de cair nessa coisa muito polarizada. O Machado me ensinou uma nota de sobriedade muito importante na minha vida”. Sóbrio, tomando um café na mesa de uma livraria enquanto espera o início de um curso sobre a vida de Machado, no qual seria o professor, desen12


“Estátua-viva” de Machado, na Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP capitu — novembro — 13


volto em todas as questões, Piza falou sobre alguns itens daquela complexidade que demonstra em Machado: “A imagem que eu costumo usar é que eu mergulhei o Machado na sua época — como quando você mergulha uma bola numa piscina e ela sai com mais força para o alto — eu fiz isso com o Machado, para que ele fosse mais para o alto, para mostrar o quanto ele é universal”. MACHADO E BRASIL O que Machado representa para o Brasil? Piza diz: “Não só o fato de ser o maior escritor brasileiro do século 19, como Rosa foi o maior do século 20, mas importa também a maneira como ele leu o Brasil, muito antes do Brasil ser um país moderno e se aproximar dos outros em termos de desenvolvimento — porque, no século 19, o Brasil perdeu um pouco o trem da Revolução Industrial. A maneira como leu aquela elite formadora do Brasil e percebeu muitos dos problemas que o país iria ter depois. Os primeiros 40 anos de vida do Machado se distinguem muito da imagem que se tem hoje, meio oficial, meio acadêmica, de Machado como um autor melancólico

e pouco sociável. Na verdade, Machado, na juventude, foi uma pessoa extremamente participante da vida cultural e social do Rio de Janeiro.” DESILUSÃO ROMÂNTICA

sunto de Dom Casmurro não é a traição ou não de Capitu, mas o efeito que essa dúvida, ou até que essa probabilidade — porque é provável, mas nós nunca vamos saber, não tem a descrição — causa na psicologia do Bentinho. Alguém com essa visão român-

“Um tema muito forte na obra machadiana, principalmente na melhor parte da obra dele, é a desilusão romântica. Quer dizer, o romantismo da adolescência servindo como uma cobertura de ilusão que impede as pessoas de enxergar os fatos, a realidade. É a história do Bentinho. Ele fica encantado pela Capitu e não vê a realidade ao redor dele, até porque é um herdeiro mimado que acha que a função de todo mundo é bajulá-lo. Então, ele não enxerga, porque está tomado por essa visão romântica, não só no sentido amoroso, mas no sentido completo da palavra — de você achar que existe um transporte para outro lugar, de que há uma oposição permanente entre Deus e o Diabo... É uma visão romântica nesse sentido.” CAPITU TRAIU BENTINHO? “Na verdade, o grande as14


tica e mimada do mundo, de repente vê que as coisas não estão funcionando da maneira que ele imaginava. Então, isso causa um efeito: Bentinho é um cara despreparado para viver com aquela incerteza. O mundo dele era supostamente estável, ele está no centro e ao

redor estão os agregados, os vizinhos, a mãe, todas as pessoas que o bajulam porque ele é o herdeiro. Esse é o grande tema do livro, aliás, esse é o grande tema do Machado: o efeito que a instabilidade dos novos tempos provoca numa pessoa que foi cultivada para

ser o centro de um mundo.” BUDISTA DESENCANTADO “Por que os livros de Machado até Dom Casmurro se passam nos anos 50, 60 e comecinho dos anos 70, e jamais chegam

Homenagem feita à Machado na Flipinha — a FLIP Infantil capitu — novembro — 15


aos anos 80; e aí no final da vida ele decide escrever dois livros que se passam justamente na passagem de 1888 para 1889, quando a Abolição implica também a aproximação da República? O mundo em que ele viveu é o mundo do Segundo Reinado e aí vem a demora em fazer a Abolição e a Proclamação da República acabar com esse mundo no qual ele tinha acreditado profundamente — ele era fã, bajulador até, do Dom Pedro II. Então, é outra coisa para você entender porque a obra dele pós-Brás Cubas é tão crítica e desiludida, desencantada. Machado se dizia um budista desencantado.”

Representação de Mach

IDÉIAS DE PLENITUDE “A religião quer curar os males do corpo curando os males da alma, via milagre ou confissão ou oração; e a ciência passou a querer curar os males da alma curando os males do corpo, com seus remédios milagrosos. Machado critica ambos. Ele critica o quê? Essa idéia de totalidade. Machado é um grande crítico das idéias de plenitude. Seja da plenitude religiosa, seja da plenitude científica: da idéia da totalidade. Veja, por exemplo, a Flora em Esaú 16


hado criança, na Flipinha

e Jacó. Qual o sonho da Flora? Um homem perfeito que seria a junção do Pedro, monarquista, com o Paulo, que é o republicano — de noite, romanticamente, ela sonha com a união dos dois contrários e que seria o ideal, mas que nunca vem. O Machado é um comentador do idealismo. Se tem um tema nele é a questão de como exagerar os ideais até atrapalha ar realização concreta desses ideais.” GOSTOS LITERÁRIOS “Machado tinha um grupo de autores que lhe dava o maior prazer. Na filosofia, eram Shopenhauer, Voltaire e Diderot — os dois últimos não só como filósofos, mas também como ficcionistas; nos contos, você vê muita coisa do Edgar Allan Poe; e nos romances, ele mesmo deu a pista: Lawrence Sterne, Xavier de Maistre, o próprio José de Alencar na primeira fase, essa tradição inglesa, meio irônica, que tem o Jonathan Swift e vários outros autores; e, obviamente, Cervantes e Shakespeare, as duas colunas básicas da literatura ocidental. Você vê toques de Cervantes no humor do Machado e toques de Shakespeare no aspecto trágico das obras dele.”

RESUMO DO AUTOR “Tem uma cena que pode resumir bem a personalidade do Machado, que é a reação ao livro do Sílvio Romero. O Sílvio Romero escreveu um livro acabando com Machado de Assis, dizendo que ele era um autor menor, que o Tobias Barreto era muito melhor (e ninguém lê Tobias Barreto hoje), que Machado, por ser um mulato e epiléptico, não tinha uma obra firme. Era uma obra hesitante, que não defendia, não mostrava o Brasil. Machado não respondeu ao Romero, ao contrário do que tinha feito em outras ocasiões. Ele disse: parece que ele me espanca. Ele não está fazendo uma crítica ao meu trabalho, ele está me espancando pessoalmente. A esse tipo de pessoa, não respondo. Acho que isso é muito Machado. É um cara que gosta do debate, mas que prefere a reserva quando o debate se encaminha para um nível ético que não é o dele.” mais leia no site: + Piza fala sobre a biografia de Machado + Machado enfrenta Eça de Queirós capitu — novembro — 17


Fernando Morais narra biografia em ritmo de thriller e, Ă s vezes, assume a postura do biografado. Ele fala Ă  Capitu sobre o seu processo de trabalho

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Mesa de autógrafos de Morais, na Bienal do Livro de São Paulo

LEGITIMANDO

PAULO COELHO capitu — novembro — 19


Para saber dos segredos de Coelho, teve de vencer uma aposta, no caso, descobrir quem tinha feito essa ameaça ao escritor “Se você estiver mentindo, eu arranco os seus olhos e os mastigo.” or alguns instantes o to sem acessórios para as ima- que ninguém mais teve acesso. jornalista Fernando gens. O vestuário preto, esse Ocorreu dessa forma: em certo Morais, autor de O sim, está lá porque emagrece. E momento de sua vida Coelho Mago, biografia de Paulo Coe- enquanto Paulo Coelho vendeu foi preso pela ditadura e recelho, lembra o seu próprio per- 100 milhões de livros, Morais beu de um major a seguinte sonagem. Remetendo à condição chega só a 2% disso, mas não ameaça: “Se você estiver mende pop star do escritor de O Alqui- parece desejar fama ou fogos tindo, eu arranco os seus olhos mista, ele usa óculos escuros em de artifício; e aqui segue uma e os mastigo.” um ambiente fechado. Também proposição arriscada: nem ele O escritor propôs então ao veste roupas totalmente negras, nem o Mago querem esses prê- jornalista que, se ele descoo que por razões místicas o mios efêmeros. É o que os tor- brisse quem foi esse militar, “objeto de seu interesse” usual- na parecidos. Fernando Morais poderia ler o conteúdo de um mente faz. Em outro nível Mo- e Paulo Coelho compartilham baú com 40 anos de memória: rais, assim como Paulo Coelho, o gosto por uma mesma sensa- 170 cadernos que serviram de atende a todos os jornalistas ção: o reconhecimento. Se tem diários, mais cem fitas de áusem distinção — até mesmo na ponta da língua as respos- dio. Paulo Coelho pusera no um estudante de jornalismo tas sobre seu livro, é porque seu testamento que aquilo tudo que lhe pede entrevista sem Morais, de fato, sabe tudo so- seria destinado à incineração nem estar credenciado —, au- bre ele ou ao menos conhece no momento de sua morte. tografando livro após livro, todas as perguntas que lhe se- Fernando Morais descobriu para os compradores da fila riam feitas. Sabe também que quem o torturara e cumpriu a conseguiu para si um furo de sua ordália: o grosso do livro que se forma à sua frente. Essas cenas ocorreram na reportagem ignorado por to- se constitui dessas confidênBienal do Livro de São Paulo e dos por muito tempo e que fez cias condenadas. são quase totalmente engano- um trabalho que poucos outros O resultado foi um livro com sas. Morais não absorveu Pau- jornalistas teriam feito. descrições vívidas da vida de Teve até mesmo que apostar Paulo Coelho, a partir do molo Coelho, não se tornou quem pesquisava — mas, de fato, com seu biografado e vencer mento em que nasceu ‘morto’, talvez compartilhe com ele para receber informações con- muito frágil, até a especulação uma característica essencial. fidenciais sobre ele. Justamente sobre quanto tempo levará para Primeiro, vamos ao que enga- escrevendo sobre um autor que os seus livros sejam esquena no perfil acima. Os óculos conhecido por suas viagens e cidos. Temos os acontecimennão se devem a qualquer opção peregrinações projetadas por tos e também as reações, as estética, mas a uma trombose um mestre obscuro, Morais confissões, os comentários — — explica Morais a uns cinco teve de cumprir uma missão, como que em tempo real — do fotógrafos que pedem um ros- um teste que lhe daria dados a próprio Coelho, que, como o

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Fernando Morais, na Bienal do Livro de São Paulo

capitu — novembro — 21


Acompanhe: Paulo Coelho foi internado em um manicômio, passou por sessões de eletrochoque, transou com homens e mulheres (inclusive em situações inóspitas), tentou suicídio e se encontrou com o diabo. leitor verá, possui uma variedade surreal de experiências. É possivelmente a primeira vez em que a descrição publicitária de um livro (algo como “uma história que nem o roteirista mais criativo seria capaz de criar”) está próxima, bem próxima da verdade. Acompanhe: Paulo Coelho foi internado em um manicômio, passou por sessões de eletrochoque, transou com homens e mulheres (inclusive em situações inóspitas), tentou suicídio, se encontrou com o diabo, experimentou todo tipo de droga — maconha, cocaína, LSD e outras — fez dupla com Raul Seixas, reencontrou a fé, viu seu anjo e hoje é o ‘único autor vivo mais traduzido do que Shakespeare’. Desnorteante. VISÃO AUTOBIOGRÁFICA O maior problema que isso gera é que o livro não dá a sensação de que Morais tenha contestado a história de Paulo Coelho, assim como ele a conta. Não que a maioria dos dados pareça inverossímil ou sem sustentação — mas em pelo menos dois casos o ponto de vista do escritor é ou o único

a que se tem acesso ou o único que recebe valor. No primeiro caso, estão as experiências sobrenaturais que — o que talvez seja pedir demais ao livro — nunca são explicadas, o que acaba legitimando o mistério que Coelho construiu em torno de si. Alguns elementos podem indicar que Morais não quis desmistificar o seu personagem ou prejudicar o poder da ficção de certo trecho narrativo. Por exemplo, no capítulo 16, Fernando Morais narra o momento em que Paulo Coelho, segundo o próprio, encontrou o diabo: “Além das vertigens e da fumaça, ouvia barulhos assustadores, como se alguém ou alguma entidade estivesse quebrando tudo à sua volta — mas as coisas continuavam em seus lugares”. Morais dá valor às visões. Ele releva que Paulo “por um instante implorou que estivesse vivendo o momento mais temido pelos usuários de droga — uma bad trip, a viagem às vezes sem volta provocada pelo consumo de LSD. Mas nem isso era possível. Fazia muito que não punha na boca um pedacinho sequer de LSD”. Acontece que era possível. O uso de LSD inclui o

efeito flashback — o efeito da droga vem sem que se tenha de ingeri-la. De acordo com a ong americana Drug-Free America (www.drugfree.org), o efeito pode ocorrer mais de um ano depois do último uso. A informação também foi confirmada à Capitu pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). No site Psicnet (www. psicnet.psc.br), coordenado pelo psicólogo Marcos A.L. Renna, há uma descrição dos sintomas do flashback, o chamado Transtorno Perceptual Persistente por Alucinógenos. Entre outros efeitos, “alucinações geométricas, falsas percepções de movimentos nos campos visuais periféricos, lampejos coloridos, cores intensificadas, rastros de imagens de objetos em movimento”. A interpretação de Paulo Coelho tampouco é incomum. Uma pesquisa realizada em 1961 pelo professor de Harvard Timothy Leary, recentemente falecido, estudou os efeitos do LSD em 400 voluntários. Desses, 83% disseram ter “aprendido algo ou vivido uma iluminação”. Não é zelo demais pedir que Morais esclarecesse esses pontos. O jornalista Gay 22


Talese, em A Mulher do Próximo — mesmo sendo partidário das idéias de seus entrevistados — traz um panorama, coloca as atividades deles em uma linha histórica. O leitor há de decidir se são só uma seqüência de malucos ou visionários persistentes. Poderia se afirmar que esse não seria o trabalho de uma biografia — mas no livro Machado de Assis, um Gênio Brasileiro, Daniel Piza, de acordo com ele, não legitima dados não-documentados sobre a vida de Machado. De resto, é o trabalho jornalístico questionar.

VISÃO REVANCHISTA Outro elemento incômodo é que o jornalista assume o que seria o ponto de vista do autor, e ele próprio é revanchista em relação aos críticos de Paulo Coelho. É só olhar o vocabulário utilizado para definir toda e qualquer ação da crítica literária e jornalística e a descrição de Coelho ao lado disso, sempre magnânimo. Desde o título do capítulo 25 — a crítica não analisa, ela inicia um “esquarte-

jamento público”. Página 492 do citado capítulo, Morais reclama que “uma notinha de vinte linhas assinada por Hamilton dos Santos resumia a obra de Paulo a uma “síntese gelatinosa de ensinamentos que vão do cristianismo ao budismo”. Verdade ou mentira? O autor nem sequer pensa em discutir. É um ataque a Paulo Coelho e isso será descrito sucessivamente como pura maldade. Na página 499, Morais diz que “no lançamento de Brida a mídia parecia querer sangue. Impiedosos e muitas vezes Mesa de autógrafos: Morais já vendeu dois milhões de livros

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A recepção do público, então, é a única medida para saber da qualidade de um autor? Autores com boa recepção da crítica e pequena vendagem seriam menores? roçando o desrespeito, os principais veículos do Rio e de São Paulo pareciam dispostos a não deixar pedra sobre pedra”. O primeiro desses supostos ataques trata do uso da língua portuguesa. Luiz Garcia, pelo O Globo, afirma que Coelho “não sabe usar a crase, emprega mal os pronomes, escolhe aleatoriamente as preposições”. Morais então nega que Paulo Coelho tenha errado ou confirma que esses erros de português não são importantes? O leitor que escolha segundo sua simpatia. Quando Jô Soares (pág. 500) abre seu programa com uma lista de 86 erros de O Alquimista, Morais atribui isso a ele ter embarcado na onda contra Paulo Coelho. Um pouco abaixo, ele relata que Paulo Coelho tinha “um fiapo de esperança de que alguém lesse seus livros sem preconceitos”. Mas eram só preconceitos, de fato? Fernando Morais adotou uma frase de Nelson Rodrigues para dispensar essa fúria injustificada da mídia: “A crítica é incapaz de levar uma só bactéria às livrarias”. A recepção do público, então, é por excelência a única medida para saber da qualidade de um au-

tor? Autores com boa recepção por parte da crítica e pequena vendagem seriam, pelo mesmo argumento, menores? ENTREVISTA Na Bienal do Livro de São Paulo, Fernando Morais respondeu às perguntas de Capitu a respeito do seu processo do trabalho, do que pensa sobre Paulo Coelho e sobre o que fará agora, com a biografia pronta. As perguntas exclusivas da revista se unem a outras questões formuladas por jornalistas presentes à entrevista coletiva não-planejada, que se formou assim que Morais chegou ao estande da editora Planeta. Capitu — Por que o senhor escolheu o Paulo Coelho como biografado? Quais foram os seus motivos? Fernando Morais — Olha, porque... [usa os mesmos termos do livro para se explicar] porque ele é o único escritor vivo mais traduzido que Shakespeare, porque ele vendeu 100 milhões de livros no mundo inteiro, porque ele deixou de ser apenas um autor de sucesso pra se converter num fenômeno

pop planetário; eu viajei com ele pelo mundo inteiro e aonde quer que ele vá tem multidões interessadas em falar com ele, em vê-lo, em pedir autógrafo. Da Patagônia à Sibéria, não há um único lugar aonde ele vá que não junte uma pequena multidão querendo ter algum tipo de contato. Então, acho que isso é razão mais do que suficiente pra ele ser objeto do meu interesse. Capitu — Na sua opinião, por que a biografia fez tanto sucesso? Morais — Primeiro que é preciso esclarecer que é uma biografia independente, é uma biografia em que o autor não meteu o bedelho nela, ele só leu esse livro quando já estava impresso, estava lendo junto com cem mil brasileiros. Isso, o fato de ser uma biografia com revelações pesadas sobre um brasileiro popular como o Paulo produziu um resultado surpreendente; o livro está em todas as listas de mais vendidos e a partir de outubro começa a sair em 47 países. Então, é isso. Eu acho que o Paulo chamaria atenção por ser ele quem é; por ser o fenômeno planetário que é, chamaria atenção de qualquer 24


O Paulo é um fenômeno pop planetário. Não há um único lugar aonde ele vá que não junte uma multidão querendo falar com ele. forma, mas acho que está fazen- ser dramaturgo. O Paulo nunca do esse sucesso todo sobretudo quis ser jornalista. Nunca quis ser executivo de multinacional pelas revelações. fonográfica. Ele queria ser o Capitu — Qual a impressão que ele é hoje., um escritor. do senhor sobre a personalidade Capitu — O senhor mudou do Paulo Coelho? Se puder realguma coisa no livro? Mudou, sumir, como ele é? Morais — Se eu pudesse romanceou? Criou algum eleresumir numa palavra, eu diria mento ficcional? Morais — Não. A minha que ele é um obstinado. Ele é um sujeito que passou a vida concessão máxima é estética inteira querendo uma úni- é procurar dar um trabalho ca coisa: ser o que ele é hoje. literário ao texto jornalístiUm autor lido e respeitado no co. Mas literário não significa ficcional. Literário significa mundo inteiro. um texto elegante, um texto Capitu — Raul Seixas não fluente. ficou numa posição muito secundária na história, mesmo Capitu — Mas tem muita sendo o grande músico que tensão, como é que você consegue manter essa tensão? foi? Morais — Escolha do perMorais — O Raul tem, nesse livro, a dimensão que ele sonagem. É a escolha do perteve para a vida do Paulo. Se sonagem. Porque eu passo por você fizer as contas, vai ver que dez livros e não pifo, e acabo foi uma parceria curtíssima no pegando um Paulo Coelho e tempo: um ano e meio depois todo mundo se surpreende? deles terem se encontrado pela Tem dois tipos de personagem primeira vez, já não havia mais para se biografar: aquele que é nada. Depois teve uma tenta- muito conhecido e as pessoas tiva de “reconciliação”, que não já têm curiosidade sobre a vida deu certo — pois eles nunca dele, que é o caso do Paulo e do brigaram. O Paulo nunca quis Chatô; e aquele que é desconheser roqueiro. O Paulo quis ser cido, que é o caso da Olga e do o que ele é. O Paulo nunca quis Montenegro, e que o biografo

revela para o leitor, revela o personagem inteiro. No caso de O Mago, o que dá tensão, o que transmite a emoção para o leitor, é a história dele. O que eu fiz? A única coisa que eu fiz foi escolher os fatos da vida dele e montar uma estrutura que pode ou não ser cronológica — no caso do Chatô, não era cronológica. Capitu — Como é o seu processo de trabalho? Como produz as suas biografias? Morais — Varia de personagem para personagem — cada um tem uma história diferente. Portanto, cada um acaba me obrigando a fazer um tipo de pesquisa diferente. Eu me valho basicamente de entrevistas — o maior número possível de entrevistas, o maior número possível de pessoas que eu puder localizar pra entrevistar — e de acervo, de material de arquivo. Depois de que eu tenho isso na mão, depois de que eu consigo juntar isso... em casos como o do Paulo, que a quantidade de material foi muito grande, eu tive que montar um banco de dados na Internet e criar um programa especial pra eu poder acessar as informações que eu estava capitu — novembro — 25


querendo localizar. E aí é sentar e escrever, sentar e sofrer. No caso dessa biografia, eu passei três anos... [interrompe a entrevista por um momento enquanto procura algo numa bolsa]... deixa eu tentar achar um remédio aqui... se é que está

aqui... não, não está... [logo depois, coloca uma caixa de charutos Jewels Vanilla, com cinco unidades, sobre a mesa] ... no caso do Paulo, eu tive de montar um banco de dados e criar um programa de computador especial pra eu acessar as in-

formações. E depois é sentar e sofrer, sentar é escrever. Capitu — Foram três anos de trabalho? Morais — Três anos de pesquisa e um ano de redação, texto.

Já há cinco propostas de 26


Capitu — O mesmo com Chatô [Chatô – O Rei do Brasil (Companhia das Letras, 2001), biografia do magnata brasileiro Assis Chateaubriand]? Morais — Não, Chatô foi diferente porque eu larguei no meio, fui ser secretário de

e filmagens da biografia de Paulo Coelho

Cultura, então, não sei dizer exatamente quanto tempo levou. Do começo ao fim, durou sete anos; mas no meio parei, parei três anos, não saberia te dizer. Capitu — E o filme do Chatô, vai sair? Morais — Espero que vá. O Guilherme [Guilherme Fontes, diretor acusado de mal uso de verbas governamentais de apoio à cultura. Em 22 de fevereiro de 2008, foi condenado pela Controladoria-Geral da União (CDU) a devolver R$35mi aos cofres públicos, por não-cumprimento do contrato] me disse que o filme tá pronto, só falta editar. Ele disse que ainda esse ano a gente já assiste o filme. Capitu — Já te procuraram para produzir um filme da biografia do Paulo? Morais — Já tem cinco propostas. Quatro propostas de produtores brasileiros e uma norte-americana.

serviço: O Mago 1ª Edição Planeta/2008 cerca de R$ 34 (632 p.) Chatô - O Rei do Brasil Companhia Das Letras/01 cerca de R$55 (732 p.) Olga Companhia Das Letras cerca de R$45 (263 p.) mais: leia no site: + erros nos livros e nas crônicas de Coelho. + link para o livro que o escritor renegou:

Capitu — E o próximo biografado, já tem noção de quem pode ser? Morais — [sorri] Quero descansar, quero passear de motocicleta agora.

O Manual do Vampirismo + entenda os problemas que o diretor Guilherme Fontes teve com a CDU capitu — novembro — 27


A FELICIDADE É UMA ARMA quadrinhos de danilo aroeira

D

estoando brutalmente do título que se encaixa no canto superior esquerdo da página — Felicidade — um homem direciona o cano da arma para a própria cabeça e chora. Antes que possa disparar, alguém aponta um dedo para ele e ri. É a história de um homem no instante do suicídio — e, quem sabe, do alívio — e alguém faz pouco da sua situação. O som de mais e cada vez mais gargalhadas segue alto, enquanto ele se vê atordoado contra um muro quadriculado, de traços simples. A solução que encontra é a sua destruição. Esse jogo de opostos em que duelam escárnio e tristeza, desespero e orgulho, e em que

o suicídio se põe como a única saída é o mote de Felicidade, história em quadrinhos que Capitu apresenta nas próximas páginas. O autor, Danilo Aroeira, é mineiro de Belo Horizonte e tem 24 anos. Trabalha atualmente com publicidade, ilustração para A história de um homem no instante do suicídio — e, quem sabe, do alívio. livros infantis e é um dos responsáveis pela revista Magnito e Sua Turma. É publicitário graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), e especialista em História da Cultura e da Arte pela Universidade Fed-

capitu apresenta

capitu apresenta

eral de Minas Gerais (UFMG). Como quadrinista, iniciou seu trabalho no jornal Diário da Tarde, de Belo Horizonte, com a série de tiras de humor A Tchurma!!. Foi diretor de arte de agências de publicidade. É autor premiado. Sobre a HQ Felicidade, que recebeu a medalha de ouro no Expocom 2006, em Brasília, na categoria Humor Gráfico — História em Quadrinhos, ele diz: “É uma das minhas favoritas. Foi a primeira que escrevi para um público mais maduro. Nem sempre tenho oportunidade de fazer histórias como essa, mas gosto muito desse estilo. O fato de não ter falas também me agradou muito, porque provoca interpretações variadas”.

Aroeira é publicitário graduado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), e especialista em História da Cultura e da Arte pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 28


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o inimigo mora ao lado

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Christian Godoi desmascara um inimigo ardiloso: a violência que a gente vivencia, pratica constantemente e é vitimado por ela o tempo todo — mas não percebe, porque ela não machuca. Cuidado. Aquele site de relacionamentos pode estar tomando controle. Ou o catálogo de ofertas. Atente: celular no ouvido é arma na cabeça. Mirando a nossa autonomia. capitu — novembro — 33


Christian Godoi: Mestrando da Universidade de S達o Pa 34


aulo, professor de publicidade, ex-punk

O

professor do curso de Publicidade & Propaganda da Universidade Santa Cecília, Christian Godoi, acaba de puhlicar Os Sentidos da Violência (Realejo Livros), uma reunião de nove ensaios que tratam de um inimigo sutil — um lobo em pele de cordeiro.

eletrônico e também o que compra um celular e não consegue se desligar do trabalho.

diferentes uns dos outros — do terrorismo ao rap, dos policiais à mídia, dos celulares ao Orkut. O autor examina os vários tipos de violência para tratar da variedade que considera mais nociva: a violência simbólica. “Esta violência é aquela que a gente vivencia, pratica constantemente e é vitimado por ela o tempo todo, mas não percebe, porque ela não machuca”, diz.

INSCRITA

“Antigamente eu andava com a moçada e sempre tinha briga, aquilo de querer ser mais do que outro. Isso sempre me interessou”, conta Godoi. Imagine-se a cena: rapazes de moicano e jaquetas de couro se digladiavam nas proximidades do Canal 7, em Santos. Para

Na visão de Godoi, a violência simbólica é recíproca e freqüente. Tanto para terroristas — que são excluídos da sociedade e por isso reagem — quanto para policiais que só devem se mostrar como irretocáveis cumpridores da lei e nunca como gente normal que tem medo e que falha. Esse tipo de violência atinge ainda o indivíduo que pensa que para se encaixar na sociedade precisa ter esse ou aquele aparelho

um dos integrantes do grupo, o próprio Godoi, o que importava no conflito era o contexto que o gerava. “Na época eu não tinha ainda a sensibilidade para perceber, para tratar da violência simbólica, que é a que hoje me interessa mais”. No início do mestrado na USP, Christian Godoi resolveu tratar do terrorismo, tema dominante entre 2001 e 2004 (em 11 de setembro de 2001,

Mestrando da Universidade de São Paulo (USP) e ex-punk, Godoi diz que não lê e-mails nos fins de semana e não atende o celular a qualquer hora. Olhar para essas questões e procurar Com o subtítulo de TV, Ce- entender a violência que há nelular e Novas Mídias, Godoi las é o seu método de trabalho. aborda no livro assuntos que, A MENSAGEM de cara, podem parecer muito NOS CONFLITOS

capitu — novembro — 35


ocorreram os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, nos Estados Unidos, com cerca de três mil mortos; em 11 de março de 2004, houve o atentado à bomba na rede ferroviária de Madrid, em que morreram 191 pessoas e mais de 1700 ficaram feridas). Foi em Jacques Lacan (psicanalista francês 1901—1981) que ele descobriu dois conceitos-chave para os assuntos que queria estudar: a idéia de sujeito e de objeto, duas palavras que parecem mais complicadas do que de fato são. Sujeito é a situação de alguém

que tem autonomia, que decide todos os aspectos de sua vida. Objeto, ou objetivado, é o contrário: quem se deixa levar por idéias que não as suas. A partir daí o autor começou a fazer uma série de perguntas incômodas para a sociedade contemporânea: quais os motivos dos terroristas? Por que se jogam nesses ataques? Temos alguma culpa nesse processo? O Primeiro Comando da Capital, o PCC, quais são as razões de existir? Que tipo de pressão sofrem os policiais e ninguém percebe? Com a teoria na mão,

a análise abrange, no livro — o rap do Racionais MCs o filme Tropa de Elite, a invasão da reitoria da USP (protesto dos alunos em maio de 2007) e as manifestações dos sem-terra. Godoi propõe outro jeito de pensar tudo isso. O PAPEL QUE ESMAGA, VIOLENTA Para entender a violência simbólica, há três textos no livro que são essenciais. Em um artigo, Godoi analisa a imagem do policial na mídia; em outros dois, o clipe Vida Loka II, do Racionais MCs, e os celulares. Os três são complementares porque, na verdade, tratam dos meios que a gente usa para se incluir num grupo, numa sociedade. No primeiro texto, a idéia que importa é a dos papéis. Como se tudo se tratasse de uma peça de teatro gigantesca, nós todos cumprimos papéis. O que quer dizer que nós assumimos uma posição — por exemplo, de pai de família, de funcionário de loja — e sabemos o que se espera que a gente faça nessa posição. Desse jeito: se espera de um jornalista 36


Quais os motivos dos terroristas? Por que se jogam nesses ataques? Temos alguma culpa nesse processo? O Primeiro Comando da Capital, o PCC, quais são as razões de existir? Que tipo de pressão sofrem os policiais e ninguém percebe? que esteja bem informado so- poimento não fogem do estrito Providência, em que soldados do bre todos os assuntos correndo relato do que aconteceu. O pa- Exército entregaram jovens a na mídia. O jornalista, então, pel dessas pessoas é serem poli- um grupo de traficantes inimigo, se esfalfa entre vinte jornais ciais, elas não teriam nenhum o que significa dizer, para a morte para cumprir seu papel. De um outro modo de expressão. A certa? Pode ser causa do desconvereador, espera-se que esteja obrigação é opressiva: “ele es- trole que levou um grupo de sempre disponível para ouvir e quece sua própria existência, policiais a atirar violentamente sempre atento aos problemas. passa a se enxergar enquanto contra um carro e assassinar o menino José Roberto Amaral, Como se vê, são vários os pa- corporação”, diz Godoi. Enquanto isso, os crimino- de três anos, também no Rio de péis que cumprimos. A violência ocorre quando um desses sos são nossos heróis. Em Notí- Janeiro? Segundo Godoi: “Não papéis exige todo nosso tem- cias de uma Guerra Particular, de é justificativa para esses crimes, po, se torna nosso único meio João Moreira Salles, documen- mas é uma explicação”. de expressão. O personagem tarista que também produziu daquela peça de teatro desco- Entreatos e Santiago, Godoi PERTENÇO munal assume o controle, e a mostra esse cenário: de um lado, PORQUE TENHO; o policial falando apenas da sua gente só observa de longe. SOU GENTE atividade; do outro, o bandido, Para Godoi, é mais ou menos PORQUE POSSO o que ocorre com os policiais. O apresentado com glamour e deCOMPRAR senvoltura. No filme, um inteque a mídia e o que nós fazemos “Tá vendo isso aqui? Cê com os policiais, na verdade. O grante do Batalhão de Operapolicial nunca se mostra como ções Especiais, o Bope, afirma: nunca vai ter um desses”, dizem é, “com filhos, esposa e mãe”, “A família nem pergunta mais uns bandidos do clipe Vida Loka escreve o professor, e, princi- como foi o dia” — o que, para II, do Racionais MCs, para um palmente, “com esperanças num Godoi, serve de resumo para a grupo de crianças, querendo imsucesso que não virá”. A polícia, solidão, o dilema policial. Tropa pressioná-los com tênis All-Star em qualquer situação, é tratada de Elite, de José Padilha, explora novos. De acordo com Godoi, a como o lado negro, até quando os temas que Notícias deixa de situação demonstra outro modo faz o que lhe pagam para fazer. fora: a vida íntima do capitão, de se incluir em um grupo. O que Segundo Godoi, xingam os sol- suas contradições, a pressão so- os bandidos estavam dizendo e o que as crianças aprendiam? Que dados “no rock, no rap, no funk, bre o comando. Será que essa pressão, essa o modo de ser aceito era possuir no punk. Em jogos de futebol, aparece como um retrato do violência sobre a individualidade certo produto. Não porque seja mal”. E em qualquer entrevista, pode ser uma das causas de algo produzido pela sua comunio assunto questionado e o de- episódios como o do Morro da dade, mas porque a sociedade rica capitu — novembro — 37


“Não nos desligamos nunca do trabalho. Reclamaram no trabalho que eu não tinha visto um e-mail no fim de semana — claro que não! Não vou trabalhar nos fins de semana também”. tem — é uma questão de status que não se aplica só à periferia. Se entendem que só podem ser alguém se possuírem um produto, é natural que o desejem. É um jeito de se realizar. No primeiro ensaio do livro, Godoi explora como as novas mídias são, em especial o celular, instrumentos causadores de desigualdade — criadores de excluídos digitais — e por essas razões e ainda outras, donos de grande poder de violência simbólica. A realização seria trocar aparelho novo por aparelho mais novo, e assim por diante, mesmo que não se precise de tudo o que um celular de última geração faz, mesmo que o velho funcione bem. Os novos sistemas de relacionamento na internet também vão engolindo o tempo das pessoas cada vez mais. Christian Godoi troca o seu artigo em miúdos com uma frase: “Eu não tenho Orkut e por isso é como se eu fosse um nada no mundo. E não tenho, nem vou ter”. Por pouco não é a nova mídia que é utilizada, mas o usuário que se perde nela. “Com o celular, acabamos trabalhando o tempo inteiro, não nos desligamos nunca do trabalho. Já reclamaram porque eu não tinha atendido o celular às onze horas

O TERRORISMO É UM DIREITO?

a uma frase do grupo de rap Public Enemy. Alguém diz ao vocalista: “você é hostil”, ao que ele responde: “Eu tenho o direito de ser hostil, cara, o meu povo tem sido perseguido”. É como Godoi diz — a “nação democrática”, salvo engano, a nossa — “permite que se ignore

São dois os termos principais para entender como somos violentados nessa tentativa de fazer parte de um grupo — ou cumprindo um papel ou tentando alcançar um ideal de status. Guarde na cabeça: “pertencimento” e “inclusão”. Pertencimento é quando fazemos mesmo parte do bando, temos autonomia, temos direito de opinar e não somos apenas influenciados. Inclusão é a forma cosmética do anterior. Se for seguir a aquela metáfora do grande teatro, o indivíduo faz parte do conjunto, mas só como um figurante. Sem direito à voz ou opinião, sendo determinado por escolhas que não são as dele. Eis a situação do terrorista, segundo Godoi. Na contracapa do livro, há uma questão: “o terrorista é o único culpado pelo terror?”. Qual a sua resposta? Essa provocação remete

partes dela que precisam de amparo e as partes que começam a achar injusto esse mundo que vivem”. Em pelo menos três situações recentes, grupos se consideraram sem atenção e usaram de atos mais ou menos extremos para ganhar visibilidade. A primeira delas, os ataques do PCC em maio de 2006 em São Paulo formaram a “sensação de perigo iminente em um Estado com mais de 40 milhões de habitantes e com cerca de 200 mil policiais”. O grupo criminoso fez uso da mídia, estimulou-a com informações falsas e criou uma rede de medo que paralisou os paulistanos. O surgimento do PCC se liga diretamente com as más condições dos presídios, entre superlotação, abusos realizados pelas autoridades, doenças e injustiça jurídica. Aí uma explicação para o fenômeno: o grupo se pensa sem lugar na sociedade, se organiza e produz

da noite. Não atendo. Desligo. Reclamaram no trabalho que eu não tinha visto um e-mail no fim de semana — claro que não! Não vou trabalhar nos fins de semana também”.

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Na contracapa do livro, há uma questão: “o terrorista é o único culpado pelo terror?”. Qual a sua resposta? uma violência que sabe errada, diz. A questão está em outro do o que querem, quando quepara chamar a atenção sobre si. nível. “O terrorismo é um gri- rem. Há um estudo das novelas, tratando-as como formadores do Como diz Godoi, não é justifi- to”, argumenta o professor. imaginário popular. Trata tamcativa, mas explicação. bém do corpo, dos esportes, do SUJEITO, OBJETO No caso da reitoria da USP, prazer. Com mais uma palavra os estudantes tinham uma série de reivindicações; “o modo de A violência simbólica, em to- complicada para explicar essa ação foi, no âmbito da mídia, bem dos os casos, pode ser entendi- atitude de ir de um tema a outro, sucedido, e serviu de exemplo da por meio daqueles conceitos Godoi chama o que faz de flanar. para outras manifestações pos- explicados lá no início: o sujeito Flanar nada mais é do que pasteriores”, diz Godoi. Outro caso, e o objeto. Os muitos grupos — sear sem destino, costume que duas manifestações dos sem- policiais ou terroristas, alunos alguns franceses criaram e que o terra, recebe tratamento partic- da USP ou sem-terra — que- brasileiro João do Rio praticava ular. Tratando da invasão ocor- rem autonomia e a voz dentro no início do século XX. “O que se quis com essas rida no Congresso Nacional, em do grupo. As pessoas comuns junho de 2006, feita pelo Movi- — eu e você — também. Somos reflexões foi apenas fazer uma mento de Libertação dos Sem cada vez mais sujeitos enquan- flanerie, um flanar por assunTerra, diz que foi um rompante to nós temos esse poder de de- tos tão presentes na atualidade, não-planejado, não se configu- cisão nas mãos, e cada vez mais parar em frente a eles, tentar não rando como forma de protesto. objetos, ou objetivados, quando excluí-los do círculo de debates”, No entanto, a destruição de dois a decisão passa por outra pes- escreve Godoi. “A flanerie foi a melhor metáfora encontrada hectares de soja transgênica da soa, por um grupo maior, ou por haver nessa idéia o descommultinacional Monsanto, em pela obrigação de comprar um promisso da chegada. Nela, se ato promovido pelo Movimento telefone celular e ter mil amigos chega apenas quando se quer. dos Trabalhadores Sem-Terra, em um site de relacionamento. Apesar de essas discussões Assim devem ser as reflexões”. é outra história. Por trás da ação havia motivos que a mídia não serem o grosso do livro, passadestacou, de acordo com Go- mos ainda por outros assuntos. Os Sentidos da Violência TV, Celular e Novas Mídias doi. “A acusação de João Pedro Há ensaios sobre a televisão que Stédile [presidente do MST] se choca com o que se diz dessa Editora Realejo de que a multinacional vendia mídia: a TV não teria nenhum Cerca de R$30 (164 p.) suas mudas transgênicas [o que poder de controlar seu público. é ilegal], não foi considerada Os telespectadores, de acordo mais: com Godoi, fazem o que que- veja no site a sério”. O terrorismo, então, é um rem com os programas, lidam + o clipe Vida Loka II e as direito? Não é isso que o livro com eles com cinismo, toman- letras das músicas capitu — novembro — 39


a arte E, de quebra, também nos ajudou a inventar nossa identidade e personalidade. O psicanalista e romancista estreante Contardo Calligaris afirma: somos feitos de ficções; a arte soluciona dúvidas que não conseguimos responder

A

ficção preenche os espaços de incerteza e a literatura criou o amor assim como nós o conhecemos. Essas idéias são os pontos altos da entrevista do psicanalista, romancista estreante e colunista da Folha de S.Paulo Contardo Calligaris. Aqui, o autor de O Conto do Amor fala também de relacionamentos e de como a arte retrata este sentimento que, de acordo com ele, é a única coisa com o poder de transformar o indivíduo. Italiano, Calligaris carrega no sotaque um ou outro detalhe atraente. Diz per que em vez de por que, pronuncia marcadamente o som dos “eles”. Parece repensar

o que vai dizer logo no momento em que o diz. Inicia uma frase e corta-a em seguida, como se tivesse achado uma resposta mais completa. O cigarro funciona como um ponto-e-vírgula, tragado num instante, como quem toma fôlego. Sempre os olhos nos olhos do interlocutor. Não demonstra pressa em responder ou explicar. Quanto a essa última qualidade, é só o que se espera de um psicólogo: ouvir e comentar. Diz-se um contador de histórias. Defende o valor da experiência, boa ou ruim, por ser experiência. Talvez a filosofia se aplique tanto ao livro, quanto à entrevista, quanto ao amor: dure o

quanto durar e crie o efeito que puder. O final feliz não precisa ser o único objetivo. Capitu — O senhor diz que somos constituídos por ficções e que as histórias que costumamos ler também passam a fazer parte da nossa vida, da nossa história pessoal. Como ocorre esse processo? Contardo Caligaris — Há um exemplo trivial: a gente aprende a amar no cinema e na literatura, no sentido do amor romântico, mas ninguém é predisposto a isso. Antes da literatura, antes do século 18, digamos, amar era uma coisa diferente. Eu, por exemplo, aprendi no cinema onde se colocava o nariz na hora de 40


inventou o amor

Contardo: “Se um leitor, graças ao livro, se autorizar a amar...tanto melhor” capitu — novembro — 41


“Uma relação amorosa pode durar trinta e cinco anos e ser... pobre, em experiência, e outra pode durar uma semana e ser o centro de uma vida inteira.” beijar uma moça — porque, antes disso, era uma pergunta que me colocava seriamente — como é que a gente faz? Como é que se beija? Estou falando só de gestos do amor. A nossa gestualidade amorosa é inteiramente derivada do cinema e da televisão. Capitu — E também a postura em relação ao amor? Calligaris — Ah, sim, sem dúvida nenhuma. O amor começa como fenômeno literário, o amor moderno. Provavelmente, o primeiro texto moderno neste ponto de vista é Romeu e Julieta e continua; muito rapidamente a literatura começa a transformar em um tema, por exemplo, os efeitos dos próprios livros de amor na vida das pessoas. Emma Bovary é um efeito disso, de alguma forma, é uma espécie de Dom Quixote do amor, não é. Sabe, a grande diferença é que, numa sociedade pré-moderna, a vida das pessoas em grande parte é decidida pelas relações de parentesco, que são mais importantes do que as relações afetivas, muito mais. Ser pai, ser filho, é o que importa — amar não é o que importa.

Capitu — E a ficção também faz parte da construção dessas relações? Calligaris — Bom, as relações afetivas, para nós, são muito mais importantes do que as relações de parentesco. As relações afetivas são sempre incertas. Então, as questões que a gente se coloca sobre quem somos e outras se tornam questões mais problemáticas, que não têm respostas seguras. Porque o amor do outro, no fim, é uma coisa que não paramos de interrogar; o nosso amor, também, é uma coisa da qual podemos duvidar. As ficções passam rapidamente a ocupar esse espaço sem resposta. Uma criança do século 18 ou do século 17, por exemplo, não tinha o menor interesse em saber se os seus pais se amavam. O pai podia ter uma amante, que pode até ser uma amante oficial, visitar o quarto da mãe — estou falando de uma família da aristocracia — uma vez por mês ou nunca mais. Isso não era uma questão para essa criança. Mas para nós, hoje, é uma questão crucial, que cada um de nós tenta resolver como pode, geralmente, com uma ficção.

amor, antes da modernidade, iam até o final feliz. Já na modernidade, passaram a relatar o casamento, a rotina. Na pósmodernidade, vai além do fim da relação, cada vez mais em direção ao cinismo. Concorda com essa idéia? Calligaris — Geralmente, a literatura moderna privilegia o fim da história com o começo da história amorosa. Ou seja, temos uma enorme literatura e uma enorme quantidade de histórias cinematográficas ao redor do encontro amoroso e do apaixonamento. A literatura sobre a vida do casal depois que se juntou geralmente é comédia, quando não é tragédia. A história de amor é a história dos dois que se apaixonam. Cinderella depois do casamento é Shrek, dito em termos pop (risos).

Capitu — Então, história de amor é só até o final feliz mesmo? Calligaris — Não, eu acho que não. Acho que já existe na literatura contemporânea livros sobre a convivência amorosa, sobre o gesto cotidiano. A literatura e também o cinema — narrativas seria mais correto dizer — da gestualidade, da convivência Capitu — As histórias de amorosa, é uma coisa que a con42


O psicanalista em seu consultório: “O amor moderno começa como fenômeno literário”

capitu — novembro — 43


temporaneidade produz e tem namentos no livro que quer que o leitor assimile? coisas tocantes nesse material. Calligaris — Claro que quero Capitu — O senhor já disse em que meu livro faça parte do livro um artigo que um relacionamento interior do leitor, mas é a palavra duradouro é uma história que se “ensinamento” com a qual eu não constrói, uma espécie de aventura. concordo. Contar uma história é Calligaris — Não, a primeira muito diferente do que transmicoisa que eu diria sobre a questão tir idéias ou ensinamentos. Não da duração é que não se trata de quero que ninguém pense como um documento. Dá para dizer as- eu. Ao escrever um livro de ficção, sim: uma história de amor durar eu quero, como acontece quando dois anos, dois meses ou trinta se conta uma boa história, que e cinco anos. Isso não é critério. essa história faça parte da história O critério da qualidade de uma dele, de quem lê. É diferente do história amorosa é a qualidade que transmitir um ensinamento. da experiência que foi vivida. Capitu — Sim, mas, por Também não é se foi feliz ou se foi dramática — pode ser dramá- exemplo: o protagonista é contica e ser uma grande experiên- tido na relação e não consegue cia. Para mim, o único valor, no dizer que ama a personagem fefundo, numa vida, é a intensidade minina — ao ler a história o leie a qualidade da experiência vivi- tor não aprenderia a ver isso nele da. Então, uma relação amorosa próprio, se isso existisse? Calligaris — Isso depende pode durar trinta e cinco anos e ser... pobre, em experiência, e de como ele integra aquilo na outra pode durar uma semana e sua própria história. Ele pode ser o centro de auma vida inteira. integrá-lo de mil maneiras difeAcontece isso com o pai do pro- rentes. Eu não acho que o meu propósito, que tenha um propótagonista, no meu romance. sito, de “vou ensinar os tímidos Capitu — O senhor quer que a ousar amar”. Se um leitor, grao seu livro passe a fazer parte da ças ao livro, se autorizar a amar, ficção pessoal do seu leitor? O tanto melhor. senhor coloca, vamos dizer, ensi“As relações afetivas são sempre incertas, não têm respostas seguras. Porque o amor do outro e o nosso são coisas que não paramos de questionar.”

resenha

o conto do amor Livro é leve, envolvente e faz o leitor passear pela Europa De acordo com o autor, O Conto do Amor (Companhia Das Letras, 2008) não pretende ser complexo como Crime e Castigo, de Dostoievski; “tenta apenas contar uma boa história”. Se é esse o objetivo, o autor o alcançou. O livro tem um texto leve e seu enredo é envolvente. Pode atrair o leitor por pelo menos três motivos: um, a busca que o protagonista empreende, como um detetive, para entender o passado de seu pai. Dois, pelo roteiro de viagem pela Itália: com a descrição de lugares reais, a trilha de hotéis, igrejas renascentistas e vinhos italianos pode ser seguida pelos leitores. E três: a história de amor dos dois personagens principais, que rende imagens bonitas e qualquer reflexão sobre nós 44


mesmos no fim da história. A história é parte real e parte ficção. O motivo que Calligaris teve para escrever o livro é o mesmo do seu protagonista, Carlo Antonioni, para começar a sua procura: uma revelação absurda que seu pai lhe faz nos últimos dias de vida. O pai, um ateu convicto, diz que foi, em outra vida, um ajudante do pintor italiano Giovanni Antonio Bazzi (1477—1549), que era conhecido como Sodoma. Tentando entender as razões dessa confissão, e imaginando nela o modo de saber sobre o passado desconhecido do pai e a distância que sempre impôs à família, o protagonista vai para a Itália e repete os passos dele. Quando procura saber mais sobre o pintor, conhece a professora por quem vai se apaixonar. Depois da primeira viagem à Itália, o restante é ficção. Como as passagens se passam em cenários reais, descritos com fidelidade, pode-se usar o livro também como um guia de viagem e viver a ficção de um outro como Antonioni faz. Calligaris diz que não pretendeu criar nenhum roteiro para os leitores seguirem, mas alguns lhe contaram ter seguido as instruções do livro. Milão, Siena, Florença, Paris e Nova York — a história descreve o nome de

ruas, de restaurantes, de hotéis e de comes e bebes. Para o autor, essa descrição geográfica fiel é parte da própria personalidade do personagem principal, que dá imenso valor aos lugares fixos, inclusive nomeando os capítulos do livro — escritos por ele, em primeira pessoa — apenas com o nome de cada cidade em que a história temporariamente se passa. O relacionamento dos protagonistas se passa de forma onírica, com um número grande de coincidências providenciais que os acabam unindo — o leitor verá — até um pouco mais do que gostariam. A procura do passado dos pais é vivida pelos dois como se fosse uma aventura (Calligaris já comentou em uma de suas crônicas que a tônica de um casamento pode ser a busca conjunta de um objetivo). Há algumas cenas de sexo descritas suavemente, em combinação com o deslumbramento da cidade — ou o interior cheio de verde e árvores ou o panorama de Florença visto de uma janela. As declarações de amor também são poucas, nunca diretas, cheias de rodeios, a definir mais uma das características do personagem. Nenhum dos dois no casal exige nada do outro, no que

pode contrastar com a experiência de muitos dos leitores, mas que é a evidente mensagem de Calligaris, se há alguma: o amor é uma história que se vive. Boa ou ruim. Que seja eterna enquanto dure.

O Conto do Amor Companhia Das Letras, 2008 cerca de R$30 (128 p.) Antologias de Crônicas:

Quinta Coluna Publifolha, 2008 cerca de R$49, 101 crônicas (384 p.) Terra de Ninguém Publifolha, 2004 cerca de R$49 101 crônicas (424 p.) capitu — novembro — 45


O poeta Marcelo Ariel na Praça da Independência, em Santos

46


a poesia é uma anti-força A verdade subliminar em traficantes, catástrofes e filósofos.

M

arcelo Ariel é como um fenômeno que ocorre a nossa frente. Sentado a uma mesa de livraria, às vezes se mostra inquieto, olhando a rua através das vidraças, os livros nas fileiras; lê um título, outro, esquece-os. Noutras vezes, é definitivo em cada opinião — mas guardando-se o direito de mudar quaisquer dessas opiniões, como a pele de cobra que se troca de tempos em tempos — para se tornar maior (?). Cubatense, autodidata, segundo Ferreira Gullar um dos melhores poetas contemporâneos, em sua poesia Marcelo Ariel põe

no mesmo palco traficantes e filósofos; fala de catástrofes e coisas prosaicas; cria imagens deslumbrantes ou dolorosas ou difíceis de traduzir — seus versos às vezes A entrevista caminhou sempre por um terreno perigoso. As perguntas tiveram de ser entregues escritas previamente. Aceitas, Ariel respondeu por escrito. perguntam, como Drummond: trouxeste a chave? Esses elementos se unem porque cada um traz uma verdade que não é a verdade maior e que se esvai como todo o resto. “Jamais saberemos o que é

Real, o Irreal nos cerca, diria até, que o Irreal nos governa”, diz. Ariel entende do modus operandi do jornalismo — e o despreza. A primeira frase que diz, no momento em que chega para a entrevista marcada, é: não sei se você sabe, mas não dou entrevistas. O motivo para isso teria sido o despreparo de um jornalista do jornal O Estado de S.Paulo: “Ele parecia um débil mental”. O jornalista não tinha lido Tratado dos Anjos Afogados (Letra Selvagem, 2008), segundo livro de Ariel. Não fez fotos. Para Ariel, o jornalismo cultural seria isso: superficial, descapitu — novembro — 47


Nova Cadenza dos Comandos ou PCC Forever

É óbvio que preferimos os projéteis de Baudelaire a ver nos túmulos esse Uroboro invertido o dragão de setecentas asas e três cabeças movendo sua cauda nos presídios...

Poeta-enterrado pensa no escuro:

nas paredes reina o fantasma de

Da cauda do dragão, agora com trezentas cabeças,

Hamurabi...

sai um anjo e oferece um cigarro.

As unidades prisionais são

Do outro lado do Styx.

um átomo do Hades...

começa o ISO 9000 do arrastão,

Ali os netos dos sobreviventes de canudos

escrito nas nuvens.

tomam duas horas de sol cada

A cauda do dragão reescreve a cartilha do I.R.A.

e transformam uma lágrima em faca,

na cela com os fantasmas de canudos.

um leu A Arte da Guerra,

Aqui fora um presídio simbólico ofuscado

um Maquiavel por dentro?

pela sociedade do espetáculo.

Outro nunca leu nada

Agora a seleção dubla o hino num filme estático

só ‘amor-de-mãe’ na pele-lápide..

o poeta enterrado canta junto. Cantam as AR15s.

Lá fora o insolúvel respira...

As bombas-caseiras. Os ônibus incendiados.

A sociedade contra o social é a U.T.I. da alma ...

E o canto ecoa num terreno baldio.

Uma reação ao insolúvel:

e lá no alto outros anjos cantam

Os comandos são o seu duplo incômodo

o hino do fogo e o hino da terra

O medo empresarial montado na besta do Estado janta sossegado?

Enquanto penso na quietude voraz dos cemitérios,

Num canto do campo de concentração o

onde reina a paz dos ossos. ali o comando dos comandos acaba com o jogo que separava um presidiário e um policial de um poeta. 48


Titanic World Quando tudo for transformado num shopping center e o próprio ar for etiquetado quando a água substituir o ouro e o ouro por sua vez for reduzido a mero asfalto nessa hora a humanidade quase extinta sonhará com escombros e dos bueiros irá se erguer um Sócrates-Cristo armado até os limites do insano.

preparado, morto. Assim sendo, a entrevista caminhou sempre por um terreno perigoso. As perguntas tiveram de ser entregues escritas previamente. Aceitas, Ariel as responderia por escrito. O texto final das respostas, que segue abaixo, se mostra revelador do que o poeta pensa sobre si, sobre a poesia e sobre suas influências. Um amigo do poeta, Alessandro Atanes, disse que Ariel cria poesia enquanto conversa, sem momento previsível. A última pergunta que fiz, portanto, foi: esta entrevista poderia virar poesia? Ao que Ariel respondeu: “Se for publicada na íntegra, talvez...Talvez ela possa se tornar inútil como um

poema, com a vantagem de ser parte encontrou para se comunicar com um falso exterior. esquecida mais rápido...”. Como diria Borges: somos um pensamento do mundo e SOU UM EX-POETA, não o oposto, mas podemos ainTODOS SÃO POETAS da assim intervir e melhorar ou MENOS EU piorar as coisas. Shakespeare, Homero, CerDevo absolutamente tudo o que sei ao meu bairro, à minha vantes, Camões e Dante são nosrua, à minha família e a meus sos contemporâneos — porque a amigos. Fora deste círculo que humanidade não mudou, apesar encerra em si inúmeros misté- dos ‘avanços da ciência’, não pasrios, para mim nada mais existe, samos de Quixotes e Hamlets, além do abismo do tempo e da seres em busca de Ítacas, perdidos parede absoluta da morte. Escre- em Infernos, Purgatórios e Paraívo por causa da insônia parcial, sos criados por nossas mentes. Tais referências estão nos ou seja, por causa de uma parte de mim que jamais dorme e cer- meus textos. Fora deles, gosto tamente não morrerá. A escrita é de ouvir o som das vozes das apenas a forma precária que essa pessoas que amo e Bach dentro capitu — novembro — 49


Caranguejos aplaudem Nagasaki (Vila Socó) Corpos em chamas se atiram na lama mulheres e crianças primeiro caranguejos aplaudem Nagasaki bebê de oito meses é defumado enquanto Beatriz agora entende o poema derradeiro Beatriz mãe solteira antes de morrer deu um inútil pontapé na porta No ar gritos mudos a noite branca da fumaça envolve tudo alguém no bar da esquina pensa em Hiroxima nas vozes horror e curiosidade acordaram a cidade se misturando dentro do inferno olhos clamam por telefone o ministro é informado — O fogo os consome... A sirene das fábricas não silencia Dois serafins passando pelo local sussurram no ouvido do Criador “Vila Socó: meu amor” Uma velha permaneceu deitada em volta da cabeça na auréola o último pensamento passa o coro das sirenes no meio do breu iluminado uma garça voa assustada com os humanos e seu inferno criado no mangue o vento move as folhas Um bombeiro grita: — KSL! O fogo está contra o vento! Câmbio... Foi Deus quem quis diz o mendigo que sobreviveu porque estava dormindo no bueiro da avenida

Um orgasmo é cortado ao meio quando o casal percebe o fogo queimando o espelho. Voltando no tempo lamentamos o movimento do gás levíssimo iceberg que converteu fogo em fogo, horror em horror Vila Socó estacionou na História ao lado de Pompéia, Joelma e Andrea Doria Pensando nisso ergo neste poema um memorial para nós mesmos vítimas vivas do tempo onde se movimenta a morta se espalhando na paisagem como o gás que também incendeia o sol (bomba de extensão infinita) Beatriz sentou perto da porta e ficou olhando o fogo. Até que invade a cena a luz suave de um outro sol frio Fim de jogo. (O que não queima) Beatriz agora é outra coisa e contempla: raios negros num céu negro depois brancos num céu branco suavemente penetrei num jardim onde uma única árvore existe. (O incêndio acaba e a garça pousa no mangue, onde os anjos sonham) Naquela noite um acordou andou no meio das chamas e as chamas o queimaram. [poema dedicado aos sobreviventes da tragédia da Vila Socó, em 24/02/1994] 50


Marcelo Ariel: “Pedagogia, não hermetismo” da minha cabeça. Também gosto de ler quadros e esculturas. A experiência da leitura silenciosa dos quadros e esculturas de Farnese de Andrade para mim foi uma iluminação. Não escrevo pensando no número de leitores possíveis (talvez pense uma vez ou outra nos leitores impossíveis). Tampouco me interessa a busca da compreensibilidade imediata dos fatos mentais que derivem do meu trabalho. Duvido que os meus textos sejam herméticos, como os de James Joyce: as referências utilizadas estabelecem

conexões com outros textos — e o que isto significa? PEDAGOGIA, e não HERMETISMO. Quanto à compreensibilidade, bem, no fundo ela não é um valor para a escrita, pense no Finnegans Não creio no limite interpretativo das mensagens. O ideal seria que cada poema do livro fosse lido como a legenda de um filme iraniano. Wake e no Apocalipse de São João... Não escrevo textos burocráticos. No Tratado dos Anjos Afogados não existem fatos objetivos; o que quero dizer é

que procurei embaralhar as coisas para extrair delas um fato puramente mental e nãoobjetivo; não creio na ilusão da permanência, nem no limite interpretativo ou reinterpretativo das mensagens, tudo isso é apenas mistificação. O ideal seria que cada poema do livro fosse lido como a legenda de um filme iraniano. A poesia do modo que a concebo nada tem a ver com força nenhuma, ela é uma anti-força. Mas não sou mais um poeta, sou um ex-poeta, todos são poetas menos eu. capitu — novembro — 51


Praça Independência-Santos

engole outra ou concorre ao Oscar notícias rápidas como carros na velocidade do desespero eufórico, os corredores (dentro & fora) param para atravessar o sinal em tempos diferentes (cérebro-metrônomo) passam de novo pela estátua com seu grito gravado nos olhos de novo na praça-túmulo pela Supernova imóvel no jornal (para uso microscópico) pelos adolescentes parados no velório cômico do ‘cardume’ de carros com crianças velhas, galáxias, tudo gritando só o louco ouvindo os gritos

Por que esse anjo não grita? (Para acordar os corredores-sonâmbulos que atravessam a avenida.) Ela dança em volta dos corredores-mortos (do shopping-center) Onde a outra sede se esconde Enquanto o Sol se apaga (clonado na tv digital do celular) como os sons de uma catedral desabando ecoam no ar condicionado (os corredores estão sonhando com si mesmos) No vidro, sonhando com algo menor refletido em outro na vitrine, outro com tempo para lembrar de coisas para comprar como a sensação de nunca (o grito congelado dentro da estátua ter transformado em Deus congelado dentro do visto um pássaro riso do louco olhando como respostas congeladas dentro do Sol nos fios os fatos que não pára de gritar ou cantar) projetados sem ênfase o Sol sonhando com o sono do anjo. (ou existência) comprar um lanche barato olhar no jornal uma estrela engole um planeta 52


Tolstoi no Motel Comparo inutilmente o suor do amor com o orvalho ou com a chuva passageira, e o silêncio que fica com um poema sem palavras ou com um espelho no escuro e sonhar com ele com andar na água ou tentar lembrar como.

Tratado dos Anjos Afogados Editora Letra Selvagem, 2008 cerca de R$30 (216 p.) Me Enterrem com a Minha AR-15 (edição artesanal) Editora Dulcinéia Catadora, 2007 http://paginas.terra.com. br/arte/dulcineiacatadora/

O Abismo é um céu invertido onde um sol enterrado espera teu consentimento para brilhar

O blog do Marcelo Ariel tem críticas pessoais de livros, cinema, música, etc, todas as poesias de Tratado dos Anjos Afogados e trabalho inédito do autor que estão sendo trabalhados para uma futura compilação. http://teatrofantasma. blogspot.com/ capitu — novembro — 53


bossa nova e Jornalista e produtor musical Zuza Homem de Mello revê livro de 1976 e produz registro em primeira pessoa do “momento mais revolucionário da MPB”

O

jornalista e produtor musical Zuza Homem de Mello, que escreve sobre música desde 1956, resolveu rever uma obra sua, em homenagem aos 50 anos da bossa nova. O livro Música Popular Contada e Cantada, lançado em 1976, foi revisto e se tornou, em nova edição, com outro formato e acréscimos, Eis os Bossa Nova (Martins Fontes, 08). A partir de entrevistas feitas com os músicos, Mello cria uma espécie de biografia em primeira pessoa da bossa nova. De acordo com o autor, “São episódios que chamam a atenção porque são uma descrições de viva-voz: as pessoas contam a história que viveram. O início, no bar do Plaza, com o Johnny Alf tocando e as pessoas escrevendo como todos eles iam lá ouvi-lo, eu penso que é um dos

episódios que chama atenção. A descrição da primeira gravação de João Gilberto, como ele faz os dois percussionistas tocarem do jeito como ele quer; é algo que só eles podem contar. O livro está cheio de curiosidades, de aspectos que esclarecem muito a essência da bossa-nova”. Ainda segundo Mello, “a idéia foi desmontar o livro original e remontar em função da bossanova. Além de eliminar aquilo que não era ligado à bossa-nova no livro original, eu acrescentei novos depoimentos e dei a ele um outro título também, de maneira que ficou um livro mais homogêneo e mais específico”. São 27 personalidades desse movimento, que, de acordo com o que diz o autor, foi “o momento mais revolucionário da história da música popular brasileira até hoje”. “De uma maneira geral, to-

Eis aqui os Bossa Nova WMF, 2008 cerca de R$30 (238 pag) Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova Ruy Castro Companhia Das Letras, 1990 cerca de R$50 (461 pag)

mais Ivan Vilela http://www. ivanvilela.com.br/ Dante Ozetti http://tiny.cc/38sjP Rosa Passos http://www. rosapassos.com.br/ 54


em viva voz “Quando você ouve um trabalho, uma composição do Dante Ozetti, da Rosa Passos, do Ivan Vilela, você vê que a canção brasileira está mais viva do que nunca; e isso não é divulgado na maioria dos meios de comunicação”

dos eles me marcaram. Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bosco. O Tom Jobim, pela inteligência, percepção, conteúdo e, sobretudo, pela capacidade de uma certa premonição, de uma certa previsão em relação à música brasileira feita em 1967 e que, de uma certa forma, se confirmou nos anos seguintes. A Elis Regina também: era uma pessoa maravilhosa, extraordinária, com uma abertura de visão que não se limitava só à música, ela ia mais além. Embora na minha entrevista ela tivesse vinte anos, vinte e um anos, uma coisa assim, ela já tinha essa capacidade de vislumbrar coisas que as cantoras da sua idade não conseguem”. Há outro livro bastante conhecido, já chamado de registro ‘definitivo’ da história da bossa nova por alguns jornalistas: Che-

ga de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova (Companhia das Letras, 1990), de Ruy Castro. Perguntado sobre o que seu livro traria de novo ao relato de Castro, qual seu diferencial, Mello disse: “Bom, eu não posso comentar isso porque são os leitores que devem comentar sobre esse assunto. Eu acho que, em princípio, um assunto nunca se esgota. Não posso deixar de citar que a primeira edição desse meu livro é de 1976, portanto, anterior ao Chega de Saudade, do Ruy Castro”. De acordo com ele, essa primeira edição teria sido bibliografia de Castro. MPB HOJE Sobre a atual situação da música brasileira, Zuza Homem de Mello se mostrou entusiasmado, mas criticou a mídia pelo

modo com que trata essa arte. “Eu preciso ir atrás do que acontece na cena musical do Brasil hoje, que é muito rica, cada dia mais surpreendente em relação ao que acontece. De maneira que quando você ouve um trabalho, uma composição do Dante Ozetti, você vê que a canção brasileira está mais viva do que nunca; quando você ouve uma cantora como a Rosa Passos, você também chega a essa conclusão; quando você ouve um violeiro como o Ivan Vilela, também” (veja box). “Isso tudo não é, infelizmente, divulgado na maioria dos meios de comunicação. A mídia, em geral, quando não é comprometida, é muito preguiçosa. Na maioria dos casos é comprometida com uma relação comercial que beneficia o bolso de quem faz o programa, ou coisa do tipo”. capitu — novembro — 55


LITERATURA CALEI FUROR NA ÍRIS, DE MARCUS

N

ão há o que se entende por certeza no livro Furor na Íris, escrito pelo mineiro Marcus Nascimento e ilustrado por Marcelo Kraiser. A obra trata da incerteza, mas tampouco posso estar certo disso. Em todos os sentidos, se mantém entre a compreensão e a incompreensão, entre o sucesso e a falha, entre o real e o irreal — nas palavras do autor, é como olhar por uma janela embaçada, e esses efeitos persistem por muito mais tempo. Indefinindo a gente. Considere: é um livro formado por contos curtos que, por sua vez, são escritos com frase curta após frase curta, em descrições fotográficas, declarações densas de poesia ou diálogos entre vários personagens, sem pontuação, apenas destacado do texto comum pelo itálico. Ao lado disso, ilustrações cuja ligação com

o tema do conto quase nunca é imediatamente compreensível; são imagens de cor e nitidez alteradas, cenas prosaicas repetidas, elementos díspares unidos na mesma fotografia como se complementares. Além disso, os contos não são lineares: a história passa, sem aviso, a ser contada em outra língua e pode incluir receitas, cartas de tarô, artigos jornalísticos etc. Nos contos do livro, inclusive nos que Capitu apresenta, a mensagem — se há mensagem — parece ser a de que a realidade, na verdade, é muito delicada. A coerência quem constrói é o leitor, a partir dos cacos. Mesmo no modo de tratar o tema da vez, Nascimento é incerto: passa do dramático ao cômico, ou ao nonsense, sem que isso destoe do tom geral. Até mesmo as palavras: seu sentido num

dado momento é considerado e então, com a mudança de uma letra, aquela palavra passa a ser outra, e as cenas prosseguem por um quase nada. A mensagem — se há mensagem — parece ser a de que a realidade, na verdade, é muito delicada. É natural, portanto, que os personagens sejam geralmente pessoas no limite. No fio da navalha. Em um texto que atravessa metade do livro em oito partes — O Doador de Órgãos — um homem em busca de dinheiro vende seu corpo parte a parte, terminando totalmente decomposto, literalmente — você verá — símbolo de uma fé vã. Outro, preso demais ao cotidiano, à repetição e à angústia, aqui descrita como uma senhora vestida de verde-petróleo. Uma mulher que interrompe bruscamente todas as suas atividades, num choque, um lapso 56


NASCIMENTO que parece eterno, mas que não é. E tantos outros. Há um tom obscuro, dalton trevisiniano, em todos os contos. Com exceção de um. Só nele houve descanso — uma espécie

de alegria. Contava a história de uma senhora que enfim vai ao céu. O céu é um lugar onde encontra São Pedro e ele sorri, e todas as línguas são compreendidas como se fossem uma. Só

capitu apresenta

IDOSCÓPIO

capitu apresenta

haverá descanso se todas as línguas forem compreendidas como se fossem uma. É essa a mensagem do livro? Quem sabe. Se houver mensagem. Reprodução

capitu — novembro — 57


solo de melancolia “Que divindade foi ofendida ou por que a rainha dos deuses, ressentida, obrigou um varão insigne pela piedade a correr tantas aventuras, a sofrer tantos trabalhos? Tão grandes iras existem nos ânimos celestes!” Eneida, Virgílio

I– Vai ser muito difícil fazer essa senhora sair daqui. Ignorá-la? Tarefa hercúlea! Mira e verga a intenção. Impulso. A tensão. A ponta. Da flecha embebida no phármakon. A distensão. Movimento-intento eliminar distância no percurso. Per-furo. E pronto. Falar é míssil. Fácil, não? Vai ser muito difícil fazer essa senhora sair daqui. Aterrá-la? De repente, na base do susto? Não. Que ela é o próprio susto e a base é sólida. Ela está dentro de mim quando estou fora e está fora quando estou por perto. Volteia dentro do seu vestido preto [do grego melan] com franjas verde-bílis [kholè]. Melankholé. A melancolia é verde petróleo. Ela pede clinicamente que eu a perdoe. Não se lembra de mim; sequer sabe quem sou. Não recorda meu semblante. Não sabe meu nome, mas me tem por muito jovem.

Toma a minha mão. Insinua uma aventura necessária sem recompensa no final. E o diabo é que vou assim mesmo. Dói nos nervos. Melhor esquecer as conseqüências da vida. O que já passou por mim... A vida vai ficando cada vez maior. Rugas? Ah, minha cara, estou cheia delas! A aranha de Ariadne perde, às vezes, a consciência da teia que trama. E treme. II – Todo dia é um descer as escadas. Encontrar depois da porta a rua e do outro lado da rua a mesma criatura indigente. Meu anjo e meu cão de guarda. Aquela dor se contorcendo no rés-do-chão. Ouço o dia de ontem e o de amanhã. Eu remexendo as minhas coisas. Uma gaveta cheia de guardados e a vista cansada. Não costuro mais. Sexo, já parei com isso. Um beijo no rosto. Todo dia. Um antes de sair e outro ao chegar. 34 anos. 58


Reprodução

Reprodução

capitu — novembro — 59


Mais ou menos 60 beijos por mês. 720 por ano. 24.480 beijos nesses 34 anos. Meu filho na borda da esfera do pensamento. Não existe solidão que se compare à solidão de uma criança. Primeiro dia de aula. Um portão azul enorme. Uma saia também azul plissada e blusa branca. Ás vezes tudo tão perto. Apertado na cabeça. Não dá nem pra me mexer. A casa é pequena. Quando se tem o que fazer o tempo passa mais... Jogar conversa fora sem ter que guardar. Sentir a propriedade da palavra. Quase igual a coisa pertencente ao dono. Deixaram o portão destrancado e o cachorro fugiu, coitado. Às vezes vem visita de parente. Fica até tarde. Um abraço. A única coisa verdadeiramente falsa é o abraço. Minha mãe (a hospedeira) deu um grito e esse grito era eu. Coisas do absurdo... Os olhos fechados. Que dizer do mundo? É muito luminoso, às vezes. Não guardo nada do que eu olho. Essas ilusões de ótica eu abandonei há muito tempo. Estrangeiros não falam a nossa língua. Daí a angústia. Uma mulher vive num aquário com água e açúcar no fundo e às vezes nada, nada até a superfície. Tem de respirar. A outra mulher que vive no mesmo aquário não deixa a água subir além do pescoço, não. Uma das duas tem que estar já na cozinha. Às 6h da manhã. O café pronto. 134 páginas 1ª Edição mais: leia no site outros contos de Marcus Nascimento Para adquirir um exemplar, envie um email para: paulinomariana@gmail.com

Vista

Com meus pés dou dois pássaros para a frente com as mãos manuseio na maciota um manual de macieiras-do-Japão levanto os olhos planejaneladamente surpreendo o medo do goleiro antes do pênalti. A bola escoiceia a rede frágil e fur(i)a e se aloja em meu olho direito perco a definição e a profundidade de campos e assim semi-ótico expio um pecado remoto enquanto eu [meu eu lírico] e meu olho sobrante sobranceiro sobrevivente na cavidade ocular testemunha o fim da partida e mais nada a fazer [que monotonia!] a não ser o fenestrar-se entre as lanças gradativas em guarda no gradeado que defende a minha casa. Antes disso de cócoras na beira do lago logo lancetei linhazul num impulsazul de araras raras e o azul perfurado espraiou seu sangue alagoando a superfície que me a(ba)rrancou um grito fisgado feridadentro 60


Cansada “Um escritor que chama uma enxada de enxada deveria ser obrigado a usá-la” Oscar Wilde

na calada escura via de duplo sentido que subjaz [gutural] a palavra que só a golpes se declara. Fiquei naquele peixe-me-deixe um tempão. Mas o lago me desaguou são e sávio excalibur burburando. Falta dicionário e coragem que falem a dor sem previsão de acabar. Da boca dela [personagem] saem cacos [despedaçada que está] fonemas apenas são tantos e em muitos deles só se chega através de picadas abertas a golpes de facão. Sob nua lua e crua nadarei do azul mili milhas da escala cromática até esverdear-me na borda do lagondelonge deixei-me desafogando de papo pro ar anuviando meus olhos azuis mirados em miríades de nuvens acalanto celacantos e mais e mais animais aluíam pelo céu boquiaberto. Vou parar aqui por encanto. Mas logo, pré, se achegou [de mim] um animal histórico. Após o susto, vi que se tratava de um rinoce-

rontem com sua lança de cavaleiro medieval. Tratei de preservar o olho bom contra o mal olhado do bicho. Outro sou um touro. O sol caiu morto occidentalmente atrás do morro por absoluta falta de estilo. Então o olhar baixou e não disse mais nada. Fixou coisas miúdas no chão, mas algumas descolaram da retina. Entraram no olho esquerdo [ou direito]. Ficou vermelho na hora. Embaçou. Ainda quepoucapoeira. Tinha uma casa em demolição bem perto. Fachada modernista. Alguém tentou soprar. Mesmo assim a cena doloriu-se. Só sei de ouvir falar. É essa a condição do ser de ser cognocivo. Eu estou me granulando em letras. Assim mesmo, sem aspas na língua. Sou burro borrador. Osculei uma colégua de sala. P(r)onto [?] Recoloco meus óculos pra longe. Guardo meus óculos pra perto. capitu — novembro — 61


bússola Indicações de livros, música, filmes, eventos, sites e oportunidades para artistas e escritores_ neste mês: 38 páginas de sugestões + memória: Cecília Meirelles

eventos — 96 oportunidades — 92 cursos — 100

internet —

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Ficção/Poesia: Isaac Bashevis Singer, No Tribunal de Meu Pai — 64 Mia Couto, Venenos de Deus, Remédios do Diabo — 66 Lourenço Mutarelli, A Arte de Produzir Efeitos sem Causa — 66 João Carlos Biella, Um Ironismo como Outro Qualquer — 67 Cláudio Murilo Leal, Toda a Poesia de Machado de Assis — 67 Não-Ficção: preview: Adelto Gonçalves reconta a história de São Paulo — 68 Rolling Stone: As Melhores Entrevistas da Rolling Stone — 68 Vanessa Barbara, O Livro Amarelo do Terminal — 71 Dang Thuy Tram, A Noite Passada eu Sonhei com a Paz — 71 Teóricos: artigo: Paulo Ghiraldelli Jr. indica livros sobre o filósofo Richard Rorty — 72 Teatro preview: Editora Globo lança obra teatral completa de Hilda Hilst — 76 Ana Portich, A Arte do Ator entre os séculos XVI e XVIII — 77 Vanessa Teixeira de Oliveira, Eisenstein Ultrateatral — 77 Cinema: artigo: o conflito de ideologias é revisitado: a história do ponto de vista das pessoas, não das nações — 78 Fréderic Strauss, Conversas com Almodóvar — 80 Maria Roberta Novielli, História do Cinema Japonês — 81 Martin Scorcese, Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano — 81 Quadrinhos: preview: André Dahmer lança nova antologia de tirinhas — 82 artigo: responsáveis pelo site Acervo HQ discutem contexto para publicação de quadrinhos online — 84 Música: artigo: Álbum Branco dos Beatles faz 40 anos — 86 Marcelo Camelo, Sou — 88 Relespública, Efeito Moral — 88 capitu — novembro — 63


isaac bashevis singer: fé medieval e racionalismo Márcio Calafiori, especial para Capitu

Descobri Isaac Bashevis Singer (1904-1991) por acaso, folheando um livro de contos seu chamado Obsessões e outras histórias. De início, o que me atraiu em sua prosa foi a narrativa em primeira pessoa, uma voz poderosa que traduzia a experiência de quem viveu, testemunhou e ouviu muitas histórias e sabia contá-las. Judeu polonês, nascido em Radzymin, Singer ganhou o Nobel de Literatura em 1978. Em 1935, o escritor se muda para os Estados Unidos. Na América, continua escrevendo em iídiche — a língua falada em casa sob a influência do pai, rabino hassídico. Ainda em 1935 publica em capítulos na revista Globus o seu primeiro romance importante, Satã em

Gorai, a história de uma moça histérica e epiléptica e o clima medieval da aldeia onde mora, nos confins da Polônia. Vertida originalmente do iídiche para o inglês, a obra de Isaac Bashevis Singer é repleta de bruxas, demônios e de outros seres sobrenaturais e imaginários, o confronto entre o mundo medieval e o mundo moderno. Ele é um dos grandes contadores de histórias do século 20, técnica que desenvolveu com a leitura dos clássicos e do Talmude e também pela aversão ao experimentalismo com a linguagem. Outra particularidade que me atrai em sua obra é a humanidade. Singer é desses escritores que se preocupam com o homem, com o seu destino e

a sua tragédia, com o seu aspecto desprezível e risível. Assim, imersos na cultura judaica os seus personagens nos comovem pela insignificância ou estranheza: as solteironas e os viúvos, os idiotas e os bobos, os diabos e as bruxas, as almas perdidas, os pequenos sapateiros e os rabinos. O próprio Singer é, muitas vezes, personagem dos contos, eventualmente cruzando ou recebendo a visita de fantasmas. No Tribunal do Meu Pai reúne histórias curtas — ou crônicas autobiográficas, como define o escritor: “Este livro conta a história de uma família e de um tribunal rabínico cujas existências eram tão entrelaçadas que era difícil dizer onde terminava uma e 64


Trecho de uma entrevista que o escritor Isaac Bashevis Singer deu ao jornalista Harold Flender, em 1968. Dez anos depois o escritor ganharia o Nobel de Literatura. Pergunta — “O sobrenatural vive aparecendo em quase tudo o que escreve. Por que essa forte preocupação com o sobrenatural? Acredita, pessoalmente, no sobrenatural? Isaac Bashevis Singer — Totalmente. A razão por que sempre aparece é por estar sempre em minha mente. Não sei se devo me chamar de místico, mas sinto sempre que estamos rodeados por misteriosos poderes, que desempenham um grande papel em tudo o que estamos fazendo. Diria que a telepatia e a clarividência desempenham um papel em toda história de amor. Mesmo nos negócios. Em tudo o que os seres humanos fazem. Durante milhares de anos as pessoas usaram roupas de lã, e quando as tiravam à noite, para dormir, viam centelhas. Pergunto-me o que essas pessoas pensavam milhares de anos atrás dessas centelhas quando as viam, ao tirar as roupas de lã: “Mamãe, o que são essas centelhas?”. E tenho certeza de que a mãe dizia: “Você está imaginando coisas!”. As pessoas deviam ter medo de falar sobre as centelhas porque não queriam que houvesse suspeitas de que fossem feiticeiros ou bruxos. Seja como for, elas foram ignoradas, e agora sabemos que não eram alucinações, que eram reais, e que o estava por trás daquelas centelhas era o mesmo poder que hoje move a nossa indústria. E digo que nós também, em cada geração, vemos centelhas iguais, que ignoramos simplesmente porque não se enquadram na nossa concepção de ciência ou conhecimento. E acho que é dever do escritor, e também prazer e função, trazer à tona essas centelhas. Para mim, a clarividência e a telepatia e... os demônios e os espíritos malignos.. fantasmas e todas essas coisas que chamamos hoje de superstição são exatamente as centelhas que estamos ignorando em nossa época.” Extraído de Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review. Companhia Das Letras, 1988.

capitu indica: ficção

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começava o outro”. Seu pai é quem dirigia o tribunal da aldeia, uma mistura de tribunal de justiça, sinagoga, casa de estudos e consultório psicanalítico. No livro, Por que Grasnavam os Gansos é uma das histórias de que mais gosto e que traduz perfeitamente o confronto entre a fé medieval e o racionalismo. Uma mulher entra na sinagoga carregando numa cesta gansos mortos. Mesmo depois de terem as cabeças, o intestino, o fígado e todos os outros órgãos extirpados as aves continuam grasnando. O rabino empalideceu e ficou assustado. “Não seria um sinal do Demônio, do Satã em pessoa?”, cogitou. Para ele, o fenômeno revelava a prova maior da existência do Criador. Mas para a sua humilhação quem descobre o mistério é a sua própria esposa, racional até a raiz dos cabelos. A mulher que matara os gansos não retirara as traquéias das aves e, por isso, elas continuavam grasnando. Com um enredo mínimo Singer expõe exemplarmente as suas criaturas. capitu — novembro — 65


A Arte de Produzir Efeito sem Causa Lourenço Mutarelli Companhia Das Letras (208 p.) Cerca de R$ 40 Novo livro de Lourenço Mutarelli, autor de quadrinhos e de obras de ficção. Sua primeira e mais conhecida é O Cheiro do Ralo, adaptado por Heitor Dhalia para o cinema. O livro anterior, O Natimorto, recebeu uma adaptação bem avaliada para o teatro e está em processo de produção um filme, que deve sair no começo do ano que vem. Mutarelli traz personagens sombrios em um universo absurdo, que poderia lembrar Kafka e Beckett.

Venenos de Deus, Remédios do Diabo Mia Couto Companhia Das Letras (188 p.) de R$30 a R$38 O mais recente livro do premiado escritor moçambicano Mia Couto narra a história de Bartolomeu, um doente terminal que repensa o tempo, a família, a vida e a morte. O livro segue os temas que Mia Couto explora também em Terra Sonâmbula e Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra: com uma escrita que às vezes pode lembrar Guimarães Rosa, pela inventividade lingüística, e que às vezes lembra a literatura fantástica latino-americana, o africano trata da tradição, das nossas ligações com o passado, do que deixamos de fazer e do que devemos fazer, sem escapatória. 66


Um ironismo como outro qualquer – a ironia na poesia de José Paulo Paes João Carlos Biella Unesp cerca de R$30 (168 p.) Lançamento da Unesp. Com base na obra de críticos como Alfredo Bosi, Davi Arrigucci Jr., Flora Süssekind e Flávio Aguiar, Biella discute a ironia, o humor e a sátira na obra do poeta paulista José Paulo Paes (1926-1998). Biella é doutor em Estudos Literários pela faculdade de Ciências e Letras da Unesp.

capitu indica: ficção/poesia

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Toda Poesia de Machado de Assis Cláudio Murilo Leal Record R$85 (756 p.) Parte de seu trabalho de pouco comentada mesmo nesse centenário de morte do autor, toda a poesia de Machado de Assis (1839-1908) está neste volume. São 180 poemas, além de 48 crônicas que Machado escreveu em verso e que foram publicadas na Gazeta de Holanda, entre 1886 e 1888.

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a história de São Paulo (agora, mais precisa) O escritor, professor e jornalista Adelto Gonçalves corrige alguns erros históricos e fornece o panorama de uma São Paulo nada parecida com a de hoje

A razão para ter escrito um livro sobre os primeiros momentos da história de São Paulo — segundo o autor, “em um período que vai, a rigor, de 1640 a 1822” — é praticamente uma anedota. Como sua mulher tivesse que fazer um curso em uma faculdade próxima ao Arquivo Público do Estado de São Paulo, em Santana, o escritor, professor e jornalista Adelto Gonçalves resolveu passar as tardes nessa que é a repartição pública mais antiga de São Paulo, fundada em 1721. Enquanto esperava, estudava as folhas que vieram do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, sem apoio ou qualquer ligação acadêmica.

O resultado dessa pesquisa de dois anos foi um livro ainda não-publicado — mas que está prestes a ser publicado em Portugal — que pode reparar um ou outro erro de obras que tratam desse tema: o que se passou na cidade pauSão Paulo, que se hoje aparece como imensa, cosmopolita e dinâmica, como não poderia deixar de ser, um dia foi acanhada e pequena. Sem importância. listana entre o fim da União Ibérica, na Europa, até a Independência do Brasil. Segundo o professor, o livro deve ser publicado no ano que vem no Brasil: “O livro está na Ateliê Editorial, em Cotia (SP), à espera de definição para pu-

blicação. Espero que seja publicado em 2009 em co-edição com a Imprensa Oficial do Estado de S.Paulo”. Por exemplo, em Documentos manuscritos avulsos da capitania de São Paulo (Imprensa Oficial/Fapesp/Edusc, 2000), do professor José Jobson de Andrade Arruda, doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP), a lista de governadores da capitania não está correta. De acordo com Gonçalves: “Entre os vários erros da lista de capitãesgenerais e governadores da capitania de São Paulo, um é que lá aparece D.Antônio de Távora, o conde de Sarzedas, como governador de 1732 a 68


capitu indica: não-ficção Rolling Stone As melhores entrevistas da revista (...) Vários Larousse Cultural cerca de R$40 - (448 pag.)

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1748, quando, na verdade, ele deixou o governo em 1737. O governador morreu neste ano, em Tocantins, na capitania de Goiás, acometido por sezões (febres) do sertão”. Também em Capital da Solidão (Objetiva, 2003), do jornalista e articulista da revista Veja Roberto Pompeu de Toledo, há um erro histórico: “O episódio que está mal contado em Capital da Solidão é sobre a morte do trombeta Caetano José Gonçalves a mando do governador Lobo de Saldanha. Em 1781, oficiais da Câmara escreveram à rainha acusando Lobo de Saldanha de ter mandado matar o músico, que, por sua vez, havia assassinado o filho do governador, depois de uma discussão. Em Capital da Solidão, lê-se que o trombeta apenas ferira levemente o filho do governador ‘entre a orelha e o pescoço’. E que o filho do governador, seu ajudantesde-ordens, acompanhou ao lado do pai, a solenidade da passagem do trombeta em direção à forca”. Para Adelto Gonçalves, a possível razão desses erros podem ser as fontes de pesquisa dos autores. “Alguns historiadores se basearam em outros historiadores, não

Livro apresenta seleção de 40 entrevistas históricas da versão americana da revista Rolling Stone. A coleção inclui John Lennon, o ator Jack Nicholson; o diretor de O Poderoso Chefão e Apocalipse Now, Francis Ford Coppola; o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, Bono Vox, do U2; Pete Townshend, do The Who; Ray Charles, Kurt Cobain, do Nirvana; Patti Smith; Keith Richards e Mick Jagger, dos Rolling Stones; o criador de Guerra nas Estrelas, George Lucas, entre outros.

Trechos: “Paul disse: o que você quer dizer? Eu falei: quero dizer que o grupo acabou. Estou saindo.Assim, como quando você diz divórcio e te olham com aquela cara. É como se ele soubesse que já era o final.” (John Lennon) “Costumava adorar olhar o sol. É ruim para os meus olhos, mas eu gosto. Costumava adorar olhar a lua à noite. Eu saía para o quintal e ficava observando-a. Aquilo me fascinava pra caramba. E outra coisa que me fascinava muito, mas assustava a maioria das pessoas, era a luz. Quando eu era moleque, achava muito bonito. Qualquer coisa brilhante, qualquer brilho. Eu, provavelmente, devo ter sido um piromaníaco, ou qualquer coisa assim. E havia as cores. Eu era louco pelo vermelho. Sempre achei uma cor linda. Eu me lembro das cores básicas. Não sei nada a respeito de licores coloridos — não sei que diabo é isso.” (Ray Charles) capitu — novembro — 69


“Os paulistas tinham pele escura, como os paraguaios e bolivianos de hoje. Seus hábitos eram influenciados pela cultura indígena. Desconfiavam de que os reinóis ridicularizavam seus costumes sertanejos”. no documento original. Se o primeiro errou, o outros seguiram confirmando o erro, em cascata”, diz o professor. UMA SÃO PAULO IRRECONHECÍVEL Outro atrativo do livro é conhecer mais sobre o passado de São Paulo, cidade que se hoje aparece como imensa, cosmopolita e dinâmica, como não poderia deixar de ser, um dia foi acanhada e pequena. Sem importância. Um fato que parece brincadeira é sintomático: “Em 1721, depois da separação das capitanias, o governador Rodrigo César de Meneses, ao chegar à cidade de São Paulo, logo viu que o burgo era tão acanhado que nem de aposentos apropriados para um governador e capitão-general dispunha”, diz Adelto Gonçalves. Não havia a divisão atual entre paulista e paulistano. Tanto um quanto o outro se referiam aos nascidos na Capitania de São Paulo (que incluía o que hoje são os es-

tados do Paraná e de São Paulo). Nessa época, Minas Gerais era o centro da colônia, graças ao ouro. Segundo Gonçalves: “Os paulistas, descendentes dos primeiros colonizadores que se haviam cruzado com indígenas, tinham pele escura, assemelhando-se aos paraguaios e bolivianos de hoje. Seus hábitos eram influenciados pela cultura indígena em que haviam sido criados. Desconfiavam de que os reinóis ridicularizavam seus costumes sertanejos, o que servia para acirrar a animosidade entre os dois grupos”. Ainda de acordo com ele: “Dessa época, não sobrou quase nada, com exceção do antigo Colégio dos Jesuítas, hoje conhecido como Pátio do Colégio, que passou a servir de palácio de governo a partir de 1765, à época do governador D.Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, morgado de Mateus. Mas o imóvel sofreu muitas reformas no século 19 que o descaracterizaram”. Resta, então, ouvi-lo contar a história, acrescida agora

de mais precisão histórica. Adelto Gonçalves é autor de outros livros, como Bocage – o Perfil Perdido, sobre a história do poeta português de temas românticos, eróticos e satíricos; Fernando Pessoa — A voz de Deus, de ensaios e artigos; e Gonzaga – um Poeta do Iluminismo, com o qual ganhou o prêmio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira de Escritores. Também criou o romancehistórico Barcelona Brasileira, ambientando na Santos do início do século 20, além de Os Vira-Latas da Madrugada, vencedor do Prêmio Nacional de Romance José Lins do Rego, em 1980, com memórias da malandragem santista.

mais: leia o blog de Adelto Gonçalves, com críticas literárias e trabalhos acadêmicos: http:// blog.comunidades.net/adelto/

Adelto Gonçalves é autor de outros livros, como Bocage – o Perfil Perdido, Fernando Pessoa — A voz de Deus, Gonzaga – um Poeta do Iluminismo, Barcelona Brasileira, Os Vira-Latas da Madrugada. 70


O Livro Amarelo do Terminal Vanessa Barbara CosacNaify cerca de R$30 - (254 p.) Vanessa Barbara, colaboradora da revista Piauí, faz em O Livro Amarelo... o que Gay Talese, expoente do jornalismo literário americano, fez em Fama e Anonimato com a cidade de Nova York — dá vida aos personagens, e, assim, personalidade própria ao Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. O livro também atrai pelo projeto gráfico: entre páginas amarelas para os relatos e feitas de carbono, para a base histórica do texto.

capitu indica: não-ficção

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A Noite Passada Eu Sonhei com a Paz Dang Thuy Tram Rocco cerca de R$25 - (268 p.) Dang Thuy Tram, aos 24 anos, partiu para uma aldeia pequena do Vietnam para trabalhar como médica voluntária. Quatro anos depois, foi morta. Com o corpo, estavam alguns objetos, poemas e um diário, escrito entre 1968 e 1970, que permaneceu inédito por 40 anos. Publicado o relato, se tornou best-seller vietnamita, com 400 mil edições vendidas. A posição de protagonista (ou vítima) da guerra é o maior atrativo do livro, que também traz fotos de Thuy Tram e de sua família. Foi feito um documentário, em 2005, sobre a garota. Veja o site do filme: http://www.findingthuy.com/ capitu — novembro — 71


vida de rorty vida dos frankfurtianos e nossos ensaios por Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo http://ghiraldelli.wordpress.com/

A informação é tão importante quanto a formação. Quando Richard Rorty esteve em São Paulo, para falar em um evento sobre relativismo, os professores uspianos foram chamados para o debate. O marxista de carteirinha Paulo Arantes, o marxista oficial do PSDB José Arthur Giannotti e o cosmopolita Bento Prado Jr. foram os convidados para participar. É interessante lembrar como que nenhum deles conhecia a trajetória de Rorty e, menos ainda, a filiação do pai de Dick, James Rorty — um destacado poeta e escritor — ao marxismo americano. O resultado foi óbvio: o debate

não ocorreu. Rorty falou, deixou o texto, e o que os “debatedores” fizeram foi pífio se comparado às expectativas dos organizadores. O mais triste foi ver que os três continuaram a tomar Rorty superficialmente no decorrer dos anos. Já estávamos há mais de quinze anos da publicação do clássico A Filosofia e o espelho da Natureza e, no entanto, aqueles que deveriam ser os mais informados sobre isso — os professores da USP, nossa mais iminente universidade — não conseguiam sequer traçar uma história de James Rorty e de seu então filho famoso,

que praticamente estava substituindo John Dewey como “o filósofo da democracia” ou o “filósofo da América” no mundo todo. Entre todos os uspianos “de esquerda”, Bento Prado foi o que tentou se aproximar de Rorty. Insistiu em ler Rorty sem realmente abrirse para ele. Tomou as teses de Rorty segundo aqueles velhos manuais que ligam o pragmatismo ao kantismo, dado que o pragmatismo é, de fato, uma virada em favor da “razão prática”. Todavia, em Rorty, essa virada é completamente não-kantiana. Ela é especial e assustadora-

“Uma sugestão para o leitor que não quer ficar desinformado: eis aí três livros para colocar na agenda. Dá o que comentar, pensar e imaginar.” 72


capitu indica: teóricos

intelectuais que não perdoam os Estados Unidos por terem Bush como presidente, mas permitem que a França tenha um Sarkozy e que faça experiências nucleares no mar). Adotando uma postura anti-filosófica, não quiseram se informar. O que vinha dos Estados Unidos estava manchado de molho do McDonalds e de “imperialismo” (os

QUEM FOI RICHARD RORTY Americano, Richard Rorty (1931–2007) era um filósofo pragmatista — corrente que defende que uma idéia vale pela sua utilidade: se é eficiente para lidar com um problema. Um dos mentores deste ideário, William James, afirmou que as idéias devem servir como guias para a ação. Segue um trecho do texto “Verdade e Liberdade”, em que há demonstração pequena das idéias dele: o que a filosofia e, aliás, a literatura podem fazer é fornecer novos meios de entender o que já temos. O texto está disponível no Portal Brasileiro de Filosofia, cedido pelo autor (http://portal.filosofia.pro. br/richard-rorty.html). “Penso que o que nos capacita à crítica são as sugestões alternativas concretas: sugestões sobre como redescrever o que está em questão. Alguns exemplos: as sugestões de Galileu sobre como redescrever o universo aristotélico, as sugestões de Marx sobre como redescrever o século XIX, as sugestões de Heidegger sobre como redescrever o Ocidente como um todo (...) oferecendo um vocabulário para falar de algumas pessoas, situações ou eventos específicos que atravessam o vocabulário que temos até então utilizado em nossas deliberações morais e políticas.”

capitu indica: teóricos

mente hegeliana — romântica! O romantismo de seu pai, James, nunca o deixou. Confesso que na época eu fiquei bem decepcionado com esses professores uspianos. É claro que não com o Bento. Afinal, ele tentou. Mas os outros não tentaram. Ficaram fechados. Fizeram birrinha e colocaram o narizinho empinado, cheio de pretensão afrancesada, para ficar mais arrebitadinho ainda (são aqueles

uspianos mais velhos ainda não utilizavam a palavra “neoliberalismo”, e comiam hamburgers escondidos dos filhos – calça jeans, ah, sim isso eles já usavam). O europeísmo desse pessoal era tão forte que chegava a doer nos ouvidos escutar o professor Joaquim Severino, da Faculdade de Educação da USP, pronunciar Rortí e não Rorty. Será que ele imaginava que estava diante de um conterrâneo de Merleau Ponty? Tomei contato com as obras de Rorty nos anos oitenta. Mas nada escrevi sobre ele. Quando vi que Jurandir Freire Costa, pela psicanálise, e Luis Eduardo Soares, pela política, estavam tentando escrever algo a partir de Rorty, retomei minhas velhas anotações. Conheci Rorty pessoalmente no Brasil, e nos tornamos amigos. Por razões várias de viagens e trabalhos, acabei por falar dele na Nova Zelândia e, enfim, por conta de meus estudos sobre Donald Davidson e com Donald Davidson, nosso contato foi ficando mais capitu — novembro — 73


estreito. No ano final de sua vida, passamos a trocar correspondência quase que mensal. Primeiro, por causa do livro comum que vínhamos

é significativo, pois gerou um filósofo que se definia como “do contra”. E Gross trata do assunto sem usar demais das odiosas categorias sociológi-

mas da forma como a universidade veio se burocratizando e se tornando pouco hospitaleira ao pensamento renovador no decorrer do século — em

“Se o leitor for inteligente, pode até começar a dar certa razão a Rorty, quando ele escreveu que os membros da Escola de Frankfurt não entenderam a América.” elaborando — Ensaios pragmatistas (DPA, 2006) —, e depois pela própria doença de Dick, que nos obrigou a uma reprogramação de trabalhos e, depois, a uma conversa voltada única e exclusivamente sobre a sua saúde. Até que veio uma última comunicação, agradecendo minha amizade. Dick foi isso: além de um dos mais brilhantes filósofos que nosso Planeta acolheu, ele era uma personalidade generosa. Agora, aqueles que não queriam se informar sobre Rorty, talvez tenham amadurecido e, então, queiram se abrir. Podem comprar – sem receio – o bom livro de Neil Gross, Richard Rorty — the Making of an American Philosopher (The University of Chicago Press). É uma tese de sociologia a respeito da formação americana de um tipo de intelectual. O “caso Rorty”

cas que escondem o objeto em vez de expô-lo É claro que, sendo tese, Gross não pode deixar de dizer que criou o livro a partir de uma análise de Pierre Bordieu. Mas, felizmente, é possível desconsiderar isso e ler o texto pelo seu conteúdo. As informações são ricas, bem fidedignas, e realmente servem para entendermos o “mundo Rorty”. Mais interessante ainda seria ler tal livro em conjunto com o de Rolf Wiggershaus, A Escola de Frankfurt (Difel, 2002). Uma boa comparação: as agruras de Rorty passando de universidade em universidade poderiam fornecer “o outro lado da moeda” para as agruras de Adorno, Horkheimer e amigos na estadia que fizeram nos Estados Unidos. Aprende-se muito não só da história cultural americana lendo esses dois livros,

termos comparativos com a liberdade que esperamos dela, é claro. E se o leitor for inteligente, pode até começar a dar certa razão a Rorty, quando ele escreveu que os membros da Escola de Frankfurt não entenderam a América. Fiquei contente em ler esses livros, uma vez que eles mostraram que eu, no curto ensaio em que comparei os frankfurtianos com os pragmatistas, e que está no livro citado, Ensaios pragmatistas, forneci um quadro heurístico plausível. Uma sugestão para o leitor que não quer ficar desinformado: eis aí três livros para colocar na agenda. Dá o que comentar, pensar e imaginar.

Texto publicado pelo autor em suas páginas pessoais e indicado pelo autor para publicação na revista Capitu.

“Aprende-se muito não só da história cultural americana lendo esses livros, mas da forma como a universidade veio se burocratizando e se tornando pouco hospitaleira ao pensamento renovador no decorrer do século — em termos 74


capitu indica: teóricos

capitu indica: teóricos Richard Rorty, The Making of an American Philosopher Neil Gross The University of Chicago Press http://www.press.uchicago.edu cerca de $32.50 (390 pag) A Escola de Frankfurt Rolf Wiggershaus Difel Editora http://www.record.com.br cerca de R$89 (742 pag) Ensaios Pragamatistas Richard Rorty e Paulo Guiraldelli Jr. DPA Editora peça no email: fghi29@yahoo.com.br compre os livros internacionais pelo site indicado ou pelo site http:// www.amazon.com

Paulo Guiraldelli Jr. pôs no Youtube uma entrevista em duas partes com Richard Rorty, falando sobre os principais conceitos do pragmatismo, sua corrente de pensamento. Os vídeos são falados em inglês e possui uma legenda em português que não acompanha a conversa, mas resume o diálogo. parte 1: http://tiny.cc/fJNi4 parte 2: http://tiny.cc/w8UMd Na busca, os interessados podem encontrar outros vídeos de Rorty, como palestras e pequenos documentários.

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obra teatral de hilda hilst reeditada “O teatro de Hilda está interessado nas relações entre poder, militância política e liberdade de criação”, diz Alcir Pécora, organizador da antologia

A Editora Globo lança neste mês toda a obra teatral de Hilda Hilst (1930 – 2004), escritora paulistana com trabalhos de poesia e ficção. A publicação faz parte da reedição completa da produção da autora. Segundo Joaci Pereira Furtado, coordenador editorial da Globo Livros, uma única edição trará oito peças, quatro delas inéditas em livro: As Aves da Noite, O Novo Sistema, O Verdugo (ganhadora do Prêmio Anchieta, em 1969) e A Morte do Patriarca. As restantes já tinham sido publicadas pela editora Nankin, em Teatro Reunido — Volume 1 (2000): A Empresa, O Rato no Muro, O Visitante e Auto da Barca de Camiri. Hilda Hilst publicou cerca

de trinta livros. Pode-se destacar A Obscena Senhora D; Cascos e Carícias & Outras Crônicas, que reúne os textos que Hilst escreveu entre 1992 e 1995 para o jornal Correio Popular de Campinas; e a trilogia erótica O Caderno Rosa de Lori Lambi, Contos d’Escárnio/Contos Grotescos e Cartas de um Sedutor, sem citar as antologias poéticas. O que mais interessa na produção de Hilst, de acordo com o professor de Teoria Literária da Universidade de Campinas Alcir Pécora — organizador não só da reedição de Hilst, mas também do poeta Roberto Piva — é o que ele chama de “inconformismo radical”. O teatro que agora é repu-

blicado teria, segundo ele, ligações com o restante do trabalho da autora: “o teatro de Hilda é próximo da imaginação de sua primeira obra em prosa: está interessada nas relações entre poder, militância política e liberdade de criação. De modo geral, toma o partido dessa última e é cética em relação às outras”. O professor considera O Verdugo a peça mais marcante de Hilst, com a melhor montagem até agora. No entanto, a produção dramatúrgica dela teria sido subaproveitada: “a maior parte teve apenas montagens amadoras e dois ou três autores se debruçaram sobre o seu teatro, nenhum com profundidade suficiente”. 76


A Arte do Ator entre os Séculos XVI e XVIII Ana Portich Perspectiva cerca de R$30 (224 p.) A Arte do Ator... analisa as conceituações em torno da atividade do ator, desde a Renascença até o Iluminismo. O caráter didático do teatro, assim como a ligação com seu público — já que a platéia vai moldando as atuações de acordo com sua recepção — são assuntos abordados. A autora, Ana Portich, é professora de filosofia e artes cênicas, doutora em Filosofia pela USP. Já trabalhou com os grupos Boi Voador e Teatro Oficina.

capitu indica: teatro

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Eisenstein Ultrateatral Movimento Expressivo e Montagem de Atrações na Teoria do Espetáculo de Serguei Eisenstein. Vanessa Teixeira de Oliveira Perspectiva cerca de R$30 (184 p.) Serguei Eisenstein (1898 – 1948) é um dos maiores cineastas da história, autor do clássico O Encouraçado Potemkin, filme sobre a Revolução Bolchevique que utilizou técnicas de edição revolucionárias para a época. Neste livro, a obra teatral de Eisenstein é o ponto de partida de Vanessa Teixeira de Oliveira, mestre em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), para analisar a relação entre cinema e teatro e oferecer um panorama do teatro russo e soviético do início do século XX. capitu — novembro — 77


a revolução revisitada A revolução socialista e a resistência contra a ditadura são revistos pelo cinema — com atenção principal para o viés humano.

Da queda do muro de Berlim e do fim da União Soviética para cá seguiu-se o funeral das ideologias. Excluindo-se talvez alguns países da América Latina, a opção socialista (ou comunista) parece sequer ser considerada, nem mesmo pela China, que cresce na média de 10% ao ano e sofistica seus métodos de acumulação de capital. A situação atual não permite crer que em nome do socialismo ou do capitalismo (dizendo-se democracia) foi espalhada tanta paranóia, foram feitas tantas guerras e tantas vidas se perderam. Mas em pelo menos três filmes recentes a revolução é revisitada, dessa vez sem polarizações

de viés político ou emocional. Tratando do aspecto humano em primeiro plano, esses três longas podem dar uma panorama muito mais completo do que ocorreu. O exemplo mais próximo de nós, brasileiros, é O Ano em que Meus País Saíram de Férias, dirigido por Cao Hamburguer. A história ocorre na época da ditadura militar, golpe que teria sido apoiado pelos Estados Unidos para evitar um governo de tendência esquerdista no País, assim como em outras nações da América Latina, e o que de resto era a estratégia nuclear da Guerra Fria. Os pais de Mauro, um garoto mineiro de 12 anos, fo-

gem da perseguição política e têm de deixar o filho com o avô paterno, por tempo indeterminado. A adaptação do menino à nova vida e o cotidiano comum como de um país que não parece estar sob repressão, como de um mundo que não parece estar em guerra — estes são os pontos altos do filme. Lembra Chico Buarque: “apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”; a vida continuava simples e com suas alegrias e tristezas, alheia aos conflitos políticos que iam explodindo mundo afora. Em outro filme, em outro continente, a história também vai ser filtrada pelos olhos de uma criança. Primei78


capitu indica: dvds

par do catecismo na escola. O ponto alto do filme, de forma parecida com o que acontece em O Ano..., é a interpretação que Anna faz das idéias que lhe passam. Nisso, há cenas divertidas e outras de grande profundidade. Por exemplo, quando Anna brinca de loja, os comunistas amigos de seu pai tentam lhe explicar como seria a divisão de todos os recursos entre todas as pessoas. Explicada a teoria, ela faz cara de todo-mundosabe-disso e explica a eles

capitu indica: dvds

ro longa-metragem de Julie Gravas, filha do renomado cineasta grego Costa-Gravas, A Culpa é do Fidel conta a história de uma francesa de 9 anos chamada Anna, cujos pais se engajam na luta a favor do comunismo, o que modifica de forma completa a vida burguesa à qual a garota estava acostumada. A família muda-se para uma casa menor, que agora está sempre cheia de barbudos. A babá da menina é trocada por alguma refugiada de hábitos diferentes e culinária exótica e Anna é proibida de partici-

que tem de vender um produto por mais do que pagaram, “porque isso é uma loja!”. Em outra cena, ela e o irmãozinho resolvem brincar de Allende (Salvador Allende, então presidente chileno, socialista, 1908—1973) e de Franco (Francisco Franco, ditador espanhol, 1892—1975), um dizendo que prefere ser Allende, porque ele é do bem, enquanto Franco é do mal... E há momentos em que as Divulgação

Cena de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias capitu — novembro — 79


Confrontado com a derrota política, o pai está desolado em frente à janela: toda a sua luta redundou inútil. Quanta convicção resta depois disso? perguntas da menina revelam maniqueísmos simplórios ou incoerências: ela contesta o pai, por exemplo, quando ele demonstra que antes não se importava com os protestos sociais, mas agora era atuante. Quanta convicção ele tem, portanto? O que mudou? Além do que a menina pode comentar, há ainda uma última cena fundamental: confrontado com a derrota política, o pai está desolado em frente à janela: toda a sua luta redundou inútil. Quanta convicção resta depois disso? Tudo muda ou ele vai continuar construindo o que disse ser preciso? Por fim, o último filme aqui indicado trata de quando o fim da guerra de ideologia tem seu primeiro grande anúncio: a queda do Muro de Berlim (1989). Em Adeus, Lênin, do diretor Wolfgang Becker, a mãe de Alex, o protagonista, é uma ferrenha defensora dos ideais comunistas. A mulher entra em coma em meio aos protestos contra o regime, e enquanto ela está inconsciente ocorre a abertura política da Alemanha Oriental — que era o lado socialista do país

alemão. Quando ela acorda, para evitar que a mãe tenha um choque emocional que debilite ainda a sua saúde, Alex recria no seu apartamento todo o ambiente da Alemanha comunista, forjando inclusive

uma derrocada do capitalismo na Alemanha Ocidental. Tudo isto ocorre enquanto o comércio livre, produtos de marca e a liberdade individual crescem do lado de fora do apartamento, o que

Conversas com Almodóvar Frédéric Strauss Jorge Zahar Editor Aproximadamente R$40 (312 pag.) O livro traz filmografia, coleção de fotos, textos próprios do diretor de Volver, Tudo Sobre Minha Mãe, Má Educação. O livro traz uma série de entrevistas que o crítico de cinema Frédéric Strauss fez com Pedro Almodóvar, ao longo de vinte anos. Almodóvar tem marcas conhecidas: compõe os cenários com cores fortes, aborda paixões avassaladoras e situações inóspitas; seus personagens, principalmente os femininos, cativam por serem tão próximos dos reais, com suas alegrias e tristezas e um passado cheio de emaranhados. No livro, Almodóvar fala sobre seus personagens, suas escolhas e suas influências e diretores que admira, como Michelangelo Antonioni (1912 – 2007). Trecho: “Gosto de pensar que as salas de cinema são um bom refúgio para os assassinos e os solitários.” (...) “A linguagem cinematográfica é feita de imagens que caminham para o futuro, mesmo que as histórias que contemos mergulhem no passado. Imóveis ou em movimento, as imagens nos murmuram segredos sobre nós mesmos (em Kika, a tela de televisão onde se pode ver O cúmplice das sombras, de Joseph Losey, descreve para Alex Casanova o modo pelo qual sua mãe se suicidou). Por vezes, prefiro não pensar muito nisso; as imagens condenam seus criadores a suportar a dor que destinaram às suas criaturas”. 80


Os três filmes demonstram o efeito das ideologias, do conflito dos dois grupos de idéias dominantes no período, na vida das pessoas comuns e, assim, são mais completos do que um panorama político simples: mostram o cenário geral e o os efeitos que tinha em quem de fato sofria as conseqüências ou mantinha o processo em andamento. Outras produções poderiam ser colocadas juntas a essas: Edukators, de Hans Weingartner, apresenta um grupo de jovens que protesta contra a riqueza e a segurança burguesa. Eles seqüestram um de seus antagonistas, e o convívio entre eles demonstra o o que é igual entre os lados e o que nunca deixa de ser diferente; Machuca, de Andrés Wood, tem um foco parecido, mas mostra a semelhança e a incompatibilidade não entre conservadores e revolucionários, mas entre classes sociais diferentes. O mosaico desses filmes juntos serve para que o leitor pergunte como perguntou Zuenir Ventura no seu livro mais recente, sobre os protestos de 1968: o que fizemos de nós?

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só reforça o contraste entre as idéias da mãe de Alex.

História do Cinema Japonês Maria Roberta Novielli Unb cerca de R$60 (450 p.)

Aproveite a celebração dos cem anos de imigração japonesa do Brasil e se atualize sobre os 109 anos do cinema japonês. Maria Roberta Novielli, professora de cinema e literatura da Universidade Ca’ Foscari, de Veneza, apresenta um panorama da cinematografia japonesa de 1899 até os dias de hoje. Na obra são abordados, entre outros, diretores clássicos como Akira Kurosawa e Nagisa Oshima. Para dar o gosto, segue uma mostra das preferências da autora, publicada em entrevista do site Trópicos: “Pela versatilidade, gosto do Takashi Miike. Pela poesia, Masahiro Kobayashi e Shinji Aoyama. Pelo experimentalismo, Sogo Ishii. E pela sensibilidade, Kiyoshi Kurosawa”.

Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano Martin Scorsese e Michael Henry Wilson CosacNaify cerca de R$60 (224 p.) Esta é uma edição que traz o roteiro e 134 ilustrações da série que Scorsese produziu a pedido do British Film Institute, tratando da sua paixão pelo cinema, das suas influências e das suas experiências como espectador. É divulgado como “livroaula”, que traz conceituações de alguns gêneros cinematográficos. Além de clássicos como Taxi Driver e Touro Indomável, Scorsese fez Shine a Light, sobre os Rolling Stones, Os Infiltrados, Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor em 2006, e O Aviador, indicado a 11 Oscar e vencedor de cinco estatuetas.

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andré dahmer lança novo álbum Autor da série de tiras Malvados — que estão nesta e nas páginas seguintes — está para publicar álbum de outro de seus personagens: Ulisses

A editora Desiderata está para lançar o novo álbum do quadrinista André Dahmer, o criador da série Malvados. À revista Capitu, o autor diz que a obra, seu quarto livro, será “uma compilação de tudo o que já foi publicado sobre o personagem Ulisses”. Ulisses é o protagonista de A Cabeça é a Ilha e de Ulisses versus Ulisses — que, assim como toda a produção de Dahmer, está disponível gratuitamente na internet, no site (http://www.malvados. com.br). São mais de mil e cem tirinhas já publicadas. Os quadrinhos de Dahmer se compõem de autocrítica e crítica social, com um tom que varia entre o nonsense, a escatologia e o humor negro. Seus alvos são quase

tudo: o amor, a convivência de casal, a velhice, a política, os pacifistas, a violência. Os dois personagens mais famosos são geralmente comparados a girassóis: o desenho consiste em um círculo e em abas laterais triangulares, como se fossem pétalas. O diálogo entre a dupla ou os comentários de um deles sobre certo assunto são o formato de grande parte do conjunto de tiras. Por essa razão, e pelas exigências próprias da mídia quadrinhos, as frases são curtas e certeiras. Sobre o petismo, por exemplo, seus personagens comentam: “O Lula nos ensinou coisas importantes”, diz um deles. O outro responde: “A primeira delas: não confie em ninguém”. Sobre o PFL, transmutado em DEM, um per82


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sonagem diz: “O PFL ficou lindo depois da cirurgia. Foi como vestir um gorila numa roupa de balé”. “Conheço vários otimistas, todos com menos de dez anos”, diz um dos girassóis. “Um brinde aos sozinhos, os únicos sortudos que não serão traídos por pessoas queridas”, apunhala outro. E em mais um diálogo, num cenário de guerra: “Já ouço os gritos de horror no escuro. Nesses momentos extremos, o que um grande ser humano faria?”, pergunta. De capacete e metralhadora na mão, o girassol diz: “Roubaria os mortos e culparia um dos feridos”. Já foram feitas outras três compilações dos quadrinhos de André Dahmer, duas de Malvados (pela Gênese e pela Desiderata) e de séries que são menos conhecidas do que esta última: Apóstolos (inclui-se aí o próprio Jesus), Desmemória, Mini Dahmer, Mestre Barbará das Boas Notícias e Emir Saad. O autor publica na Folhateen e no Jornal do Brasil — onde

começou a publicar semanalmente pela rede desenhistas sem fama, mas com traço criaa convite de Ziraldo. tivo e bom humor. Com um título meio espanta-leitor e MAIS HUMOR produção nova constante, o Outros quadrinistas de humor Bosta Azeda (http://www. também merecem atenção, como bostaazeda.com/) faz graça Allan Sieber, desenhista que publi- com Deus (virou moda), a ca as tiras Preto no Branco e Vida morte, com personagens da de Estagiário, na Folha de S. Paulo, cultura pop/nerd (de Power e que recebeu este ano duas pre- Rangers a Pokémon) e com miações no festival HQ Mix — de piadinhas sexuais que só não melhor cartunista e de melhor ál- caem no Casseta e Planeta bum de cartuns por Assim rasteja porque são melhores do que a humanidade (Desiderata 2006), o programa. Também é possível ler uma de suas oito antologias. Sieber não costuma fazer críticas sociais os autores da geração anteou políticas ferinas, mas faz pouco rior, que são influência declarada de personagens e situações do co- de Sieber e de Dahmer. Boa parte tidiano. Ele também faz animações da produção de Laerte antes da e em 1999 foi vencedor da mostra fase atual — que é às vezes hercompetitiva do Festival de Grama- mética e sempre inusual — (em do com a animação Deus é Pai, que http://www.laerte.com.br/) e Anmostra um Jesus adolescente dis- geli (em http://www2.uol.com. br/angeli/), estão disponíveis de cutindo a relação com o Pai. Procurando dá para encontrar graça aos leitores.

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acervo HQ: 500 HQs online de vários autores “Publicar uma HQ na internet tem seus encantos: a falta de limites é tentadora”

O site Acervo HQ, espécie de biblioteca virtual com quadrinhos online de vários autores nacionais, foi totalmente reformulado faz pouco tempo. São 450 histórias para download gratuito, e esse número deve aumentar para 500 em breve. O site trocou de organizador — André Diniz, que continua fazendo um trabalho interessante na área, sai e entra Amauri de Paula, do site Quadrinho. com (http://www.quadrinho. com). Estes dois quadrinistas comentaram para a revista a situação do quadrinho nacional e as oportunidades que a internet dá aos novos autores. “O quadrinista nacional amadureceu. Agora, estamos colhendo o resultado”, diz An-

dré Diniz, responsável pela editora Nona Arte (http://www. nonaarte.com.br). Para ele, a produção nacional passou por uma fase difícil: “viriam os últimos suspiros caso nada fosse feito”, diz. Para a melhora, era preciso não “ficar esperando que um belo dia os editores quisessem ‘nos apoiar’, nem que os leitores se livrassem do ‘preconceito’” — a questão era mais complexa — “precisava era que nós, autores, mudássemos nossa mentalidade e mostrássemos uma obra que valesse a pena ser lida e publicada. Que não fosse mera cópia do que vem lá de fora, que não fosse o exercício de um fã ou um mergulho no próprio ego, algo que só diz respeito ao seu autor”.

“O mais gratificante é que isso veio, sim”, comenta Diniz. Neste cenário em que se vê um amadurecimento do quadrinista, a internet é um lugar onde se pode ter projeção, é uma escola — e é mesmo uma superação dos meios anteriores, de acordo com o que diz Amauri de Paula. Segundo ele, “historicamente, o veículo mais recente e melhor adaptado herda o conteúdo do anterior. Assim ocorreu com o papiro quando surgiu o papel, e com a gráfica tipográfica quando surgiu a offset. A internet gera, para os quadrinhos, possibilidades de experiência impensáveis a pouquíssimo tempo atrás”. De acordo com André Diniz, “publicar uma HQ na web 84


tem seus encantos. Atinge-se um público absurdamente mais vasto (algumas HQs minhas passaram dos 100 mil downloads) e a falta de limites também é tentadora: trabalha-se livremente com cores, com quantas páginas forem necessárias (três ou mil, tanto faz) e pode-se ter uma periodicidade garantida, sem depender de uma editora que compre a idéia, de orçamento para a gráfica ou de dificuldades na distribuição”. Ainda segundo ele, “Nos anos 90, o fanzine foi a minha faculdade. Hoje a internet cumpre esse papel. Para quem está começando, a melhor escola é ter seu trabalho lido para que, em seguida, venham as reações do público. Ouvir sugestões e críticas dos leitores vale mais que mil cursos. E o autor se conhece melhor ao assumir o compromisso de uma produção mais regular”. “O ideal, porém, é somar, e não substituir”, afirma Diniz, “a internet não pode ser o objetivo de uma carreira, ao menos daqueles que querem ser profissionais. Pode ser o objetivo dessa ou daquela obra, mas não deve ser o objetivo do artista”. Mas Diniz confirma o bene-

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fício do uso da internet: “a maioria das minhas HQs lançadas na internet foram também, antes ou simultaneamente, no papel. Curiosamente, as edições impressas venderam mais quando publicadas na íntegra na web! A rede é um excelente complemento, tanto na publicação de HQs on-line como na troca de informações. Deve ser algo que adicione, não que substitua”.

mais: leia no site + indicação de Lost Girls, Do criador de Watchmen e V de Vingança, Alan Moore. + indicação de Buda, do inventor do mangá (quadrinhos japoneses) assim como o conhecemos, Osamu Tesuka. + Link para a animação Deus é Pai, de Allan Sieber. + algumas hqs garimpadas do Acervo HQ. Qualidade garantida. capitu — novembro — 85


40 anos atrás: álbum branco dos beatles Shows estão marcados para comemorar a data

O décimo melhor disco de todos os tempos, segundo lista feita por 273 músicos e críticos para a Rolling Stone americana, em 2003. Foi o álbum que mais vendeu nos Estados Unidos, com cerca de dois milhões de cópias, de acordo com o Guiness Book. E pode ser chamado de o início do fim dos Beatles, pelos vários conflitos que começaram na época de seu lançamento e terminariam por corroer o grupo. Fora isso, o mundo ardia naquele 1968, o ano que nunca acabou, já que sentimos suas influências até hoje. Havia passeatas contra a ditadura aqui no Brasil, a revolta contra o status quo pela juventude francesa, os

protestos contra a Guerra do Vietnam feito por estudantes americanos. O álbum autointitulado The Beatles, conhecido como o álbum branco, completa 40 anos de lançamento neste “Há mistura de muitas vertentes artísticas, assim como no aclamado Sargent Peppers’ Lonely Hearts Club Band, sendo até mais experimental que o Sgt. Peppers. Ao mesmo tempo, mantém as belas melodias que eram marca registrada dos Beatles.” 22 de novembro, com todo esse significado cultural e político. Foi na época de gravação do álbum branco que Yoko Ono, mulher de John Lennon

e quase sempre acusada de ser a culpada pelo fim dos Beatles, passa a ser, de acordo com entrevistas dos outros membros, a preocupação principal do músico; John Lennon, não mais “amava os Beatles”, mas Yoko. Ao lado disso, George Harrison e Ringo Star reclamavam do espaço que recebiam para suas composições individuais. O segundo chegou a largar a banda por um tempo. O álbum tem 13 canções de Lennon, 11 de Paul McCartney, quatro de George Harrison, uma de Lennon & McCartney e uma de Ringo Star. Outros problemas eram a crise financeira da Apple, gravadora do grupo, 86


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no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000 — Paraíso. Mais informações: (11) 3383-3402). A Revolution se apresenta no dia 23, em São Paulo, no Paddy’s Pub (Avenida Luiz Dumont Villares, 655 Santana. Mais informações: (11) 2977-9226). Confira no site da revista outros shows marcados para comemorar a data. MAIS Os Beatles tem 13 albúns de estúdio: Please Please Me (1963), With the Beatles (1963), A Hard Day’s Night (1964), Beatles for Sale (1964), Help! (1965), Rubber Soul (1965), Revolver (1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), Magical Mistery Tour (1967), The White Album, (1968), Yellow Submarine (1969), Abbey

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e a morte do empresário Brian Epstein: houve conflitos na escolha de seu substituto. A importância do disco se dá não só pelo contexto histórico, mas musicalmente também. E quem diz isso é quem vive — literalmente — a banda inglesa, na pele. Paul McCartney — ou Reinaldo Almeida, quando não está tocando na ZoomBeatles, banda cover que completa dez anos de existência no ano que vem — diz que “é um grande disco não só pelas composições em si, mas pelas inovações. Conceitualmente falando, há mistura de muitas vertentes artísticas, assim como no aclamado Sargent Peppers’ Lonely Hearts Club Band, sendo em alguns aspectos acho até mais experimental que o Sgt. Peppers. Ao mesmo tempo, mantém as belas melodias que eram marca registrada dos Beatles, independentemente da fase em que a banda se encontrasse”. Ainda de acordo com McCartney, ops, Almeida: “o álbum está com certeza, entre os mais reverenciados pela grande maioria das bandas ditas alternativas”. Para comemorar a data, bandas cover de diversos lugares tem shows marcados. No dia 22, a ZoomBeatles se apresenta

Road (1969) e Let it Be (1970). Outros bons álbuns foram lançados em 1968. Entre eles, estão: John Wesley Harding, de Bob Dylan; We’re only in it for the money, de Frank Zappa and the Mothers of Invention; A Saucerful of Secrets, do Pink Floyd; Beggar’s Banquet, The Rolling Stones; Electric Ladyland, da banda Jimi Hendrix Experience; e Waiting for the Sun, The Doors. Aqui no Brasil, foram lançados Tropicália: ou Panis et Circenses, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes, entre outros; e o primeiro álbum de Raul Seixas, Raulzito e os Panteras.

Festivais em novembro: O Planeta Terra acontece no dia 8, na Vila dos Galpões, em São Paulo.Traz Offspring, The Jesus and Mary Chain, Kaiser Chiefs, Mallu Magalhães, The Breeders, Bloc Party, entre outros. O Goiânia Noise acontece de 21 a 23., no Centro Cultural Oscar Niemeyer. Traz Helmet, Vaselines (com membros do Belle and Sebastian), Black Lips, Black Mountain, Inocentes, Lucy & Popsonics, Dead Rocks, Marcelo Camelo com Hurtmold, entre outros. capitu — novembro — 87


capitu indica: música

capitu indica: música Relespública Efeito Moral

Efeito Moral, lançado em setembro, é o quinto álbum da banda. O primeiro single, Homem-Bomba tem clipe, que pode ser visto no site. Uma das músicas, Tudo o que Eu Preciso, conta com a participação do músico Samuel Rosa, do Skank. Formada em Curitiba (PR), a banda está muito próxima do rock de outras bandas gaúchas, como Bidê ou Balde e Cachorro Grande, além de se aproximar do Skank (o que explica essa participação especial), mas não o Skank Balada do Amor Inabalável ou Te Ver — está mais para o indie pop do álbum Cosmotron, de 2003. O Relespública assume influência de bandas do início do rock — Rolling Stones, The Who — e afirma misturar a levada do jazz com a do rock nos arranjos. Confirme. O novo álbum pode ser ouvido na íntegra na página do grupo no Myspace.

Marcelo Camelo Sou Sou é o primeiro álbum solo de Marcelo Camelo, exintegrantes da banda Los Hermanos, que, segundo os integrantes, não encerrou seus trabalhos, mas passa por uma pausa de tempo indeterminado. Neste período, os músicos desenvolvem os seus projetos pessoais. No que se refere a Camelo, fez composições serenas que se sustentam em voz e cordas, principalmente. A voz é às vezes melódica, às vezes rouca e triste; o violão passa por levadas próximas ao samba, ao folk e a sessões instrumentais que recendem à Baden Powell, entre outros; já a guitarra lembra as composições mais etéreas do rock instrumental do Mogwai. É um álbum sem pressa, com longas introduções e extensos interlúdios — Téo e a Gaivota, por exemplo, conta com ambos, a guitarra seguindo num crescente até que a música desce totalmente ao silêncio, para retornar. É um álbum com sonoridade feita em camadas, para se ouvir várias vezes: perceber o xilofone delicado em certa hora, o ruído de guitarra com efeito, criando a ambientação. Camelo anda excursionando com a banda experimental paulista Hurtmold e Sou tem participação da badalada Mallu Magalhães, em Janta. + -- http://tinyurl.com/4fhy4x + -- www.myspace.com/mallumagalhaes + -- www.myspace.com/hurtmold

+ http://www.relespublica.com + http://www.myspace.com/ relespublica 88


blogs O BLOG DE JOSÉ SARAMAGO — O Nobel de Literatura José Saramago, autor de Ensaio sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, entre outros, agora tem um blog, disponível no site da Fundação Saramago e, segundo o autor, trará “o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice”. Saramago fala sobre memórias, publicou um trecho de seu próximo livro — A Viagem do Elefante — e também trata de política: faz críticas, por exemplo, a George Bush e Sílvio Berlusconi. O estilo geral lembra o livro de crônicas A Bagagem do Viajante. Confira: http://caderno.josesaramago.org/

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O BLOG DE GEORGE ORWELL — Nada de intrincadas análises políticas. Nem uma preocupação constante e intensa com os acontecimentos do mundo. Os diários do escritor de 1984 e A Revolução dos Bichos são repletos de anotações sobre o tempo, sobre pequenos problemas cotidianos e domésticos, assuntos da fazenda. Outra faceta do autor que tratou de autoritarismo político, de ideologias enganadoras e criou o termo Big Brother, que hoje, além de nomear um programa de TV, identifica toda A tentativa de diminuição de privacidade como invasão e nos faz um alerta. As impressões de Orwell estão sendo publicadas em um blog seguindo as datas originais, a partir de 9 de agosto de 1938. Além dos problemas do dia-a-dia, Orwell trata da 2ª Guerra Mundial, como um espectador contemporâneo. Confira: http://orwelldiaries.wordpress.com (em inglês).

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assistir LE ANIMATEUR — Animação que reconta a criação do mundo, com um viajante de planetas, dois bonecos, uma caixa de marionetes e dois...sapos (?) na platéia. Veja: http://tinyurl.com/5tdcne

RADIOHEAD — Depois de vender o álbum In Rainbows pelo preço que o comprador quisesse pagar — mesmo se o pão-duro escolhesse não dar nenhum centavo —, a banda inglesa Radiohead novamente complicou os princípios que tinham regido a indústria da música até então: promoveu um concurso em que os fãs disputariam o prêmio de US$10 mil pelo melhor videoclipe produzido. O clipe vencedor, além de 200 outros vídeos que chegaram até as finais e foram desclassificados, podem ser vistos no site: http://www.aniboom.com/radiohead/

VIDEO-ARTE — Site novaiorquino com dezenas de curtas e filmes de vídeo-arte, em vários gêneros: clipe, perfomance, documentário, animação. Seguem dois exemplos de vídeos em que se brinca com os elementos visuais e o modo como percebemos os objetos. Já se disse que a vídeo-arte não procura transmitir idéias, mas sensações — aqui, parece ser essa a regra. Confira (em inglês): New Visual Music Sketch (luzes, cores e formas): http://tinyurl.com/3w49h8 Spektrum (um corpo de luz se funde com o ambiente): http://tinyurl.com/4sj9ev

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ouvir QUALQUER COISA — Podcast sobre música apresentado pelos jornalistas José Flávio Junior, Paulo Terron e Max de Castro. O programa é uma conversa de bar — parece não ter pauta, não ter roteiro, não ter direção — com algumas músicas separando os blocos e, geralmente, um convidado. Já tem cerca de trinta edições. Escute: http://tinyurl.com/2peakg

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interagir YOUTAG — Uma das obras expostas na mostra Emoção Art.ficial 4.0, bienal de arte e tecnologia que aconteceu entre julho e setembro no Itaú Cultural, o site Youtag produz vídeos automaticamente, a partir de pouquíssima informação: algumas palavras, frases, um título. O sistema recolhe imagens da internet, monta um vídeo e envia para o email do usuário. O Youtag é expressão da idéia que norteou toda a bienal: a interferência do acaso, da aleatoriedade, do imprevisto nas obras. Com isso, havia também carpas que modificavam a música ambiente de uma sala e um robô que faz quadros como Pollock. Veja o que a sorte lhe traz e saiba mais como foi a exposição: http://www.youtag.org/ Site oficial da Mostra — http://tinyurl.com/4t8zwy

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intercâmbio para artistas brasileiros na Inglaterra Artist Links oferece bolsa e vivência cultural para músicos, atores, escritores e artistas plásticos, entre outras modalidades

Três grupos britânicos — o Arts Council England, a agência de desenvolvimento das artes inglesa, o British Council, organização diplomática e cultural do Reino Unido em vários países, e o Visiting Arts, agência que promove a troca de conhecimento entre os artistas do Inglaterra — abrem inscrições no dia 10 para um programa de intercâmbio artístico que vai levar artistas brasileiros para desenvolver seu trabalho no país europeu, enquanto artistas ingleses, da mesma forma, passam um tempo por aqui. A oportunidade é para diversas áreas: Música, Artes Cênicas e Dramaturgia, Live Art,

Literatura, Artes Visuais, Escultura, Novas Mídias e Artes Digitais, Dança, entre outras práticas. Funciona assim: o candidato envia um projeto, seguindo as especificações do programa. Se o projeto for escolhido, ele recebe “O programa proporciona uma boa verba, me colocou em contato com instituições de arte e com artistas, possibilitou a troca de conhecimento”. o auxílio e a viagem. De acordo com o Artists Links, não há valor definido para quanto cada projeto pode pedir, mas as ajudas de custo variam entre variam entre £3 mil e £8 mil, com valor médio

£6,000. Ainda segundo o grupo, esse valor cobre “a viagem, a manutenção diária, custos materiais, e a acomodação, quando esta não for oferecida pela organização anfitriã”. As inscrições seguem até o dia 21 de janeiro. Os candidatos devem ter acima de 18 anos e residirem no Brasil ou na Inglaterra por mais de cinco anos, sendo de qualquer nacionalidade. O domínio de inglês não é exigido, mas é um critério de seleção. Não há restrições quanto à formação acadêmica ou quanto ao tempo de prática artística. Não podem fazer parte do programa companhias comerciais, sociedades, estudantes que 92


oportunidades

oportunidades

queiram praticar atividades relacionadas a seu curso (do colégio ou da faculdade) ou custear mensalidades. Para participar é necessário preencher o formulário de inscrição e enviar um currículo: esses dois documentos têm modelos no site do Artists Links. Além disso, é preciso escrever uma descrição do seu projeto e anexar aos outros anteriores. Fabiano Marques, um artista nascido em Santos, participou do Artists Links: “O programa proporciona uma boa verba, que precisa ser bem administrada; me colocou em contato com instituições de arte e com artistas, o que possibilitou a troca de conhecimento”. Ele confirma os benefícios do programa: “Foi a chance de desenvolver uma pesquisa que eu não via como fazer no Brasil. Passei cinco meses na Inglaterra, adquiri um conhecimento que é difícil de mensurar. Minha maneira de pensar e minha produção artística foram influenciadas pela vivência”. Informações detalhadas sobre as exigências de inscrição e o download da ficha de inscrição e do modelo de currículo podem ser encontradas no site, assim como sites com a produção e o contato de outros artistas que participaram do programa. O endereço é: http://www.artistlinks.org.br/.

POESIA IV Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus Tema: livre até 31/12 80 poemas selecionados serão publicados em livro. Regulamento: Basta o envio de uma poesia (máximo 20 linhas) e uma minibiografia (até cinco linhas), e dados completos do autor (nome, endereço com CEP, telefone etc) por e-mail ou pelos correios, em letra formato Times New Roman, tamanho 12, entrelinha simples. O material gravado em CD ou disquete deve ser enviado para: Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus, Rua Sargento Camargo, 95-A, São Caetano, CEP: 40391-152 — Salvador/BA ou por email: valdeck@hotmail.com. O autor concorda em ceder os direitos para a primeira edição da obra. Leia o regulamento completo em: http://literaturaecritica.blogspot.com. Outras informações: o concurso consta no site do Plano Nacional do Livro e Leitura, em: http://tinyurl.com/44dz86 LITERATURA Concurso Literário Interativo, do site http:/ www.literaturalivre.com.br Tema: livre até 10/12 Os 40 melhores textos serão publicados em um livro, com dez edições para cada autor; além disso, há prêmios em dinheiro para os cinco melhores colocados: 1º - R$ 5 mil; 2º, R$ 4 mil; 3º, R$ 3 mil; 4º, R$ 2 mil; e 5º, R$ 1 mil. Regulamento: os textos são escolhidos por meio de votação no próprio site, sem qualquer tipo de sorteio. Para participar, é preciso ser assinante do portal (preços variam por período de tempo: em regime trimestral, R$ 22,50; semestral, R$ 42,75; anual, R$ 81,00). Leia completo em: http://www. literaturalivre.com.br/?area=19. Outras informações: O resultado será a partir das 12 horas do dia 11 de dezembro de 2008. Os prêmios em dinheiro serão entregues no dia 15.

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caixa econômica: apoio para produtores culturais Inscrições até o dia 28 para entidades culturais sem fins lucrativos e para instituições de defesa do patrimônio histórico do Brasil

O Caixa Cultural, da Caixa Econômica Federal, tem inscrições abertas até o dia 28 para dois de seus projetos: Programa de Revitalização do Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro e Programa Caixa de Adoção de Entidades Culturais. Os editais completos estão disponíveis no site da Caixa: http://caixa.gov.br/caixacultural. Programa de Revitalização do Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro: pretende valorizar o patrimônio histórico e cultural do Brasil; de acordo com o site da Caixa, o programa assegura (sic) “a recuperação e modernização” das instituições que possuírem acervos que guardem esse tipo de material. Entre os já beneficiados estão o Museu de Belas Artes e Museu Histórico Nacional, no Rio (RJ), Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (MG) e Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, em Salvador (BA).

Programa CAIXA de Adoção de Entidades Culturais: quer apoiar projetos de entidades culturais sem fins lucrativos de todo país que tenham mais de cinco anos, que ofereçam à comunidade atividades culturais regulares. Os inscritos passam por três fases de avaliação: habilitação, pré-seleção e seleção final. Escolhidos, contam com o apoio da Caixa por pelo menos um ano.

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é tudo verdade: inscrições abertas Até dezembro. Festival de documentários tem prêmio de R$100 mil

As inscrições de documentários para as mostras competitivas do festival É Tudo Verdade estão abertas em dezembro. A 14ª edição do festival, que acontece de 25 de março a 5 de abril de 2009, tem três competições: de longas e médias-metragens, de curtas-metragens e a disputa internacional. Os documentários devem ter sido finalizados a partir de junho/07. Para filmes brasileiros, o prazo de inscrição vai até o dia 7; para internacionais, até o dia 4. O vencedor da competição nacional de médias e longas-metragens recebe o prêmio CPFL/É Tudo Verdade — Janela para o Contemporâneo, no valor de R$100 mil. Quem quiser participar deve preencher a ficha de inscrição disponível no site do festival (http:// www.etudoverdade.com.br).Além

disso, deve encaminhar, para o escritório do É Tudo Verdade, dois DVDs do documentário, mais CD com fotos da obra e uma foto do diretor. A definição mínima de todas as fotos deve ser de 300 DPIs (dots per inch — classificaEste ano, a 13ª edição do evento apresentou uma programação com 138 produções, em uma itinerância por seis cidades brasileiras. ção da resolução). A divulgação das produções escolhidas ocorre até 4 de fevereiro de 2009. Sete produções serão selecionadas para exibição na mostra brasileira de longa ou média-metragem; nove participarão da mostra de curtas-metragens; e doze na competição internacional. No site, os interessados têm acesso ao regulamento completo

oportunidades

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do festival e aos dados das competições não-competitivas. O festival É Tudo Verdade foi criado em 1996 pelo crítico de cinema Amir Labaki. Este ano, a 13ª edição do evento apresentou uma programação com 138 produções, em uma itinerância por seis cidades brasileiras: São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Bauru (SP), Brasília (DF), Recife (PE) e Caxias (RS). O vencedor da competição brasileira de Longa e Média-Metragem foi Pan-Cinema Permanente, dirigido por Carlos Nader, que trata do poeta Waly Salomão. Na internacional, Cosmonauta Polyakov (Cosmonaut Polyakov), de Dana Ranga, foi o ganhador. O documentário tem depoimentos do astronauta russo recordista de permanência no espaço. capitu — novembro — 95


teatro da usp: plínio marcos “Homens de Papel”, obra do dramaturgo santista, tem apresentações até o dia 9

Até o dia 9 deste mês, será encenado no Teatro da USP, o TUSP, Homens de Papel, a última peça da mostra Plínio Marcos, que teve início em agosto. Plínio Marcos (1935-1999) tratava em suas histórias dos excluídos, dos personagens da periferia, daqueles que vivem à margem da sociedade. Sua primeira peça, Barrela, foi criada pela impressão que lhe causou o caso real de um garoto que foi currado na cadeia. A obra de Plínio foi recentemente revisitada por dois filmes: Dois Perdidos numa Noite Suja, dirigido por José Joffily, com a participação de Débora Falabella; e Querô, de Carlos Cortez, fruto de um projeto de inclusão social — 200 alunos de regiões carentes da

Baixada Santista participaram das oficinas para a produção do filme. Em Homens de Papel, um grupo de catadores de lixo se revolta com as condições de exploração a que são submetidos pelo comprador do seu material. Nesse cenário, um casal precisa de trabalho e dinheiro para tratar da filha doente. A fusão de crítica social e situações dramáticas dão o tom à peça. As apresentações serão às sextas e sábados, às 19 horas, e aos domingos, às 18 horas. Ingressos R$ 20,00 (inteira), R$ 10,00 (meia). Antes dessa, a mostra Plínio Marcos teve outras quatro peças do dramaturgo santista: Dois Perdidos numa Noite Suja, Abajur Lilás,

A Mancha Roxa e Balada de um Palhaço. O TUSP fica na Rua Maria Antônia, 294 — Consolação. Mais informações: (11) 3255-7182, ramais 41 e 43. MAIS Projeto Querô (inclusão social por meio da arte): http://www. oficinasquero.com.br/introducao Querô – o filme: http://www. queroofilme.com.br/site. htm Dois Perdidos... http://www. doisperdidos.com.br/ 96


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centro cultural light: mpb e samba de raiz São cinco atrações, sempre na hora do almoço, com entrada gratuita

O Centro Cultura Light, no Rio de Janeiro, tem cinco atrações musicais para novembro, sempre às 12h30 e com ingressos gratuitos distribuídos uma hora antes dos shows. O samba e a música popular brasileira são as opções, com os músicos

Neguinho da Beija-Flor, Arranco da Varsóvia, Elton Medeiros, Nei Lopes e Nilze Carvalho. O endereço do Centro Cultural é Avenida Marechal Floriano, 168. No canal http://www.youtube.com/profile?user=cana

lcomcult, você tem acesso a vídeos do Centro Cultural Light. O arquivo conta com o Alcione, Molejo, Inimigos da HP, Orquestra Tabajara, entre outros e sempre assim, de antigos sambistas a novos músicos da MPB.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA 5 - Tempero Musical - A Hora do Almoço com Gosto de MPB: Neguinho da Beija Flor 6 - Cartola de Todos os Tempos: Arranco de Varsóvia 13 - Cartola de Todos os Tempos: Elton Medeiros 19 - Tempero Musical: Nei Lopes 27 - Cartola de Todos os Tempos: Nilze Carvalho

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grupo de dança francês no Teatro Alfa, em São Paulo La Maison faz três apresentações, de 21 a 23 deste mês; a Companhia Paulista de Dança, grupo estreante, também se apresenta, entre os dias 6 e 9

Este ano o Teatro Alfa comemora 10 anos de vida; a temporada de 2008, especial para a data, começou em julho e teve apresentações de grupos brasileiros como a Companhia de Dança Débora Colker, com a coreografia Cruel, e o grupo Corpo, com Breu. Em novembro, encerra-se a festa, com a arte do grupo francês La Maison, em três apresentações que ocorrem entre 21 e 23; e da estreante Companhia Paulista de Dança, entre os dias 6 e 9. A Companhia La Maison existe desde 1996 e é dirigida por Nasser Martin-Gous-

set, coreógrafo francês que é convidado com freqüência para eventos importantes no âmbito da dança, como a Bienal de Dança de Lyon, além A Companhia de Dança Débora Colker, apresneta Cruel; o grupo Corpo, Breu. o grupo francês La Maison, a coreografia Péplum, que se organiza ao redor de imagens kitsch, romantismo, rock e de nostalgias pop”. de ter realizado parcerias com nomes proeminentes da dança francesa, como a dançarina Karine Saporta. A companhia apresenta a coreografia Péplum, com dez intérpretes e três músicos.

Péplum se inspira no filme Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz, que conta a história da rainha egípcia. De acordo com a divulgação do evento, “a trama se organiza ao redor de imagens kitsch, repleta de romantismo, rock e de nostalgias pop”. A São Paulo Companhia de Dança foi criada pelo governo do Estado, para agir no desenvolvimento e difusão da dança. Endereço: Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Jardim Dom Bosco, São Paulo, SP. Telefone: (11) 5693-4000. 98


concurso nacional de piano no centro cultural pró-música

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15º Concurso Nacional de Piano conta com músicos de todo o País. Concerto com composições de Elizabeth Ernest Dias e Francisca Aquino. Grátis

O Centro Cultural Pró-Música, em Juiz de Fora (MG), traz música erudita ao longo de todo mês de novembro. Todas as atrações são gratuitas. O Pró-Música fica na Avenida Rio Branco 2329 — Centro. Outras informações nos telefones: (32) 3215-3951 / 3215-8045. Confira a programação:

Nos dias 8 e 9, a partir das 8 horas, ocorre o 15º Concurso Nacional de Piano Arnaldo Estrella, com pianistas de todo o País. Serão distribuídos R$ 6,5 mil aos melhores músicos. As obras executadas nas provas são limitadas por algumas restrições (veja no site: http://www.promusica. org.br/) e deverão conter peças de Beethoven, Bach, Mozart e Haydn, entre outros autores.

Na série Clássicos TIM, no dia 12, às 20 horas, concerto com Elizabeth Ernest Dias (flauta) e Francisca Aquino (piano).

Na série Terças Musicais, no dia 18, às 20 horas, show com Gilberto Costa da Luz.

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Masp: curso de introdução à arte, para educadores Curso ocorre no dia 8, das 11 às 13h. Próxima palestra acontece em 6/12

O Museu de Arte de São Paulo (Masp) oferece, para professores de arte educadores em geral, no dia 8, a penúltima aula do ano do seu curso de Introdução à História da Arte, ministrado todo primeiro fim de semana de cada mês. Com orientação do professor Renato Brolezzi, o curso consiste na análise de uma obra do acervo do Masp, tratando das correntes de arte que culminaram na sua produção e do histórico do artista. Portanto, não se preocupe se perdeu as anteriores: o conteúdo de cada aula é individual e não é preciso ter assistido as outras. Em novembro, o quadro estudado será: O Grande Pinheiro (foto), de Cézanne. A participação é gratuita e não

demanda inscrição. Os interessados devem chegar 30 minutos antes do início da palestra, que ocorre aos sábados, no Grande Auditório do Masp, das 11 às 13 horas. São 374 vagas. Cada aluno recebe certificado pela freqüência. Com o documento em mãos, você pode retirar, depois da aula, um convite para visitar o museu. Além disso, pode ganhar descontos em compras na Loja do Museu e no Restaurante do MASP. Quem quiser, pode fazer uma avaliação de aproveitamento, com direito a certificado. E outra facilidade: no dia da aula, das 14 às 17 horas, a Biblioteca e o Centro de Documentação ficam abertos excepcionalmente aos participantes da aula. Saía da

aula e logo agende a sua visita aos equipamentos. E não perca a próxima: em 6 de dezembro, o Masp estuda A Compoteira de Peras, de Léger. SERVIÇO O Masp fica na Avenida Paulista, 1578 - São Paulo - SP. Horário de funcionamento: quinta-feira, das 11h às 20h e terça, quarta, sexta, sábado, domingos e feriados, das 11h às 18h, sendo que a bilheteria fecha uma hora antes. Para visitar o museu, os preços são: R$15,00 (inteira) e R$ 7 (estudante), gratuito para menores de 10 e maiores de 60 anos. Outras informações: tel. (11) 3251.5644 / Fax. (11) 3284.0574. 100


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Divulgação: O Grande Pinheiro, de Cézanne

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O Intenso. Muito enérgico. Inteligente. Pode ser ciumento e/ou possessivo. Trabalhador. Grande beijador. Pode ficar obsessivo ou reservado. Guarda rancor. Atraente. Determinado. Amores que estão em relações longas. Falador. Romântico. Pode ser às vezes egocêntrico. Apaixonado e emocional.

signo do mês: escorpião

Cecília Meirelles

Poeta estreante aos 9 anos de idade, professora: Cecília Meirelles nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca (RJ), e faleceu no dia 9 do mesmo mês, 63 anos depois. Publicou crônicas, teatro e, claro, poesia: 50 livros, entre poesias inéditas e antologias. De acordo com Karla Renata Mendes, mestranda da Universidade Federal do Paraná, que está produzindo um trabalho de pesquisa sobre a autora, “Cecília se consagrou no panorama literário brasileiro como escritora de irrefutável prestígio, das mais notáveis representantes da poesia nacional”. O primeiro poema foi mesmo ainda criança, mas a estréia em folha impressa se deu aos 16 anos, com o livro Espectros, lançado em 1919. O título talvez ofereça um resumo da obra de quem se dizia íntima

da morte, forjada pelo silêncio e pela solidão — e para quem, no futuro, iria criar a obra Romanceiro da Inconfidência, inspirada pelos antigos personagens de Vila Rica, senhores, escravos e outros sedentos por ouro do século 18, que, segundo ela, podiam ser vistos, irreais, entre os vivos, contando a sua história. Cecília demonstra lucidez quando trata dos fundamentos de sua produção poética: “O sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade. Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. Nasci três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações

entre o Efêmero e o Eterno”. Ao lado disso, o contato com os livros, em um mundo particular: “A infância de menina sozinha me deu duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano”. No decorrer de sua vida, Cecília ainda teria de lidar com o suicídio de seu marido, o pintor Fernando Correia Dias, depois de 13 anos de casamento. Tiveram três filhas — que lhe dariam cinco netas mais tarde. Lendo seus poemas apenas por este ângulo — reduzindo tudo ao tema do tempo que pas102


memória

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sa — deixamos de lado a força que possuem muitas das imagens compostas por Cecília, seu modo tradicional de rimar e o jeito com que vai montando clima e sentido no decorrer do poema, para atingir um clímax ou trazer uma nova interpretação de todos os versos. Mas estão lá a sensação de finitude, o momento presente que se esvai... Sobre o lirismo dela, um amigo, o crítico e tradutor Paulo Rónai, diz que “nenhum outro poeta iguala seu desprendimento, sua fluidez, seu poder transfigurador, sua simplicidade”. Outro exemplo de que a produção dela não se resume facilmente é a sua prosa. O trabalho de Karla Mendes — A Crônica de Cecília Meireles: um novo olhar sobre a produção ceciliana no Modernismo — segue nesse sentido, pesquisando os textos de Cecília que foram publicados em jornais. De acordo a mestranda, “na produção em prosa de Cecília, a poeta do metafísico e do transcendente ainda se faz sentir, mas abre espaço para uma autora que aborda temas como o sistema educacional, o progresso ou aspectos sociais”. Ainda segundo ela, “Só recentemente suas crônicas começaram a ser lançadas — um trabalho de mais de 30 anos em jornais do País”.

Sugestão Sede assim — qualquer coisa serena, isenta, fiel. Flor que se cumpre, sem pergunta. Onda que se esforça, por exercício desinteressado. Lua que envolve igualmente os noivos abraçados e os soldados já frios. Também como este ar da noite: sussurrante de silêncios, cheio de nascimentos e pétalas. Igual à pedra detida, sustentando seu demorado destino. E à nuvem, leve e bela, vivendo de nunca chegar a ser. À cigarra, queimando-se em música, ao camelo que mastiga sua longa solidão, ao pássaro que procura o fim do mundo, ao boi que vai com inocência para a morte. Sede assim qualquer coisa serena, isenta, fiel. Não como o resto dos homens.

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apitu capitu capitu capitu pitu capit capi Busto de Martins Fontes (1884 - 1937), na orla da praia de Santos (Canal 2). Um admirador (ou admiradora) fiel e desconhecido homenageia o poeta, pondo flores ao redor da imagem. Desta vez, foi com duas rosas, uma vermelha e outra branca, com que lhe enfeitou a lapela. 104

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Revista de literatura e cultura. Trabalho de conclusão do curso de Jornalismo (Unisanta), por Duanne Ribeiro.