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Bella Jewel #1 Pandemonium SĂŠrie MC Sinners Next Generation

Pandemonium Copyright Š 2016 Bella Jewel ~2~


SINOPSE Eu sou a boa garota, aquela que não faz nada errado. Sendo filha de um feroz e forte presidente de um clube de motoqueiros, eu sei o que é proteção. Até que uma noite muda tudo – e nem uma única pessoa no mundo pode me proteger disso, nem mesmo meu pai. Sufocada. Sozinha. Desesperada. Eu deixo meus problemas tomarem conta de mim profundamente, até que não há mais lugar para fugir. Eu preciso de uma escapatória. Qualquer coisa que faça a dor ir embora. Os problemas vêm até mim, e eu não luto contra eles. Eu tentei tanto acreditar no que eu era, mas ninguém entendia. Não até ele. Não até Lucas. Ele me vê. Ele acredita em mim. Ele se recusa a me soltar. Ele é o meu caminho para fora. A minha escapatória. Mas Lucas é proibido. Ele é um policial. Eu estou em perigo. E meu pai está tentando proteger o que não pode ser protegido. Só pode haver um resultado. Pandemônio.

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A SÉRIE Série MC Sinners Next Generation Bella Jewel

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Prólogo Era uma vez... Se todas as histórias começassem com uma frase que traz tanta alegria. Se todos os sonhos realmente se tornassem realidade, assim como os livros que traziam essa frase disseram que aconteceria. As histórias começam com ―Era uma vez‖

começaram com um lema que traz tanta alegria. Se apenas sonhos realmente se tornou realidade, como os livros que trouxeram essa frase a existência disseram que fariam. As histórias que começam com 'Era uma vez' se certificam de nos fazer felizes, prometem que você vai encontrar o Príncipe Encantado, asseguram que você vai velejar ao pôr do sol. A realidade é diferente; as histórias da vida real não começam assim. Não, elas começam com algo um pouco mais parecido com isso...

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Lágrimas secam no meu rosto e o tecido áspero do meu jeans contra a minha bochecha me lembra que eu ainda estou no chão, a cabeça sobre os joelhos e meu cabelo caindo à minha volta, toda molhada. Meus dedos estão tremendo, e não importa quantas vezes eu me sente sobre eles, isso não para. Os berros de agonia da minha mãe ecoam pelos corredores, e a voz de dor do meu pai continua a ressoar em meus ouvidos. Uma dolorosa lembrança do que eu me tornei. — Não Ava. Não nossa Ava. Ela teria me dito. Ela teria se aberto comigo. Não o meu bebê. Ela estava se afogando e eu não fui capaz de ver, porra. ~5~


O bebê dele. Eu já fui isso. Agora não sou mais. Eles pararam de saber que tipo de garota eu era quando aquela noite mudou tudo. Eles pararam de saber, mas não pararam de acreditar. E há uma diferença, você vê. Eles não viram. E agora eles se arrependem. Isso não é o que eu queria para eles, mas eu não posso parar o inevitável. Eu perdi o poder de parar quando minha vida foi colocada nas mãos de outra pessoa, e essa pessoa a torceu até que ela estivesse feia e quebrada. Mas eles ainda assim não perceberam. Agora eles estão chorando e eu não posso suportar isso. Eu não posso suportar ouvir meus pais chorando. Porque significa que eu falhei. Como filha. Como pessoa. Comigo mesmo.

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Capítulo Um AVA PRESENTE Há um conforto que o estrondo de cem Harley-Davidson traz ao seu peito quando o som enche seus ouvidos. Para mim, isso é proteção, é família, e é casa. Eu cresci nos braços amorosos e ferozes de motoqueiros. Eles eram o ar que eu vivia e respirava. Eu nunca tive medo, nunca estava sozinha, e sempre tinha quem cobrisse as minhas costas. Não seria de nenhuma outra maneira. Meu pai, Jackson, presidente do Hell’s Knights Motorcycle Club, é o meu melhor amigo, e o homem mais incrível que eu conheço. Ele criou um mundo para mim que eu não mudaria por nada. Eu ergo minha cabeça, cobrindo os olhos com a mão para protegê-los do sol, enquanto as motos chegam cada vez mais perto. Meu sorriso aumenta quando aquele que eu reconheço tão bem para em na minha frente. Meu pai esteve longe um mês, e agora ele está em casa. Meu sorriso se abre tanto que meus lábios queimam enquanto eu corro na direção dele. Ele abre os braços, grande e forte, e me pega quando eu me lanço para eles. Meu pai cheira à estrada; é um cheiro difícil de explicar. É jaqueta de couro, é ar fresco, é fumaça e cerveja. É o meu pai. — Como você está, menina? — ele pergunta no meu cabelo. — Eu estou bem agora. Saudades de você, velho. Ele ri e se afasta do abraço, olhando para mim. Eu pareço mais com meu pai do que com a minha mãe. Eu sou grata por isso. Meu pai, mesmo agora que está mais velho, é bonito como o diabo. Ele tem o cabelo longo e escuro amarrado em uma trança que cai pelas costas. ~7~


Seu cabelo agora é praticamente cinza, mas isso não afeta a sua boa aparência. Ele tem olhos azuis e pele cor de oliva, e se mantém no topo da boa forma. Ele tem que fazer isso, eu acho. — Vejo que você não perdeu o seu atrevimento desde que eu fui embora, — ele sorri. — Onde está a sua mãe? — Ela está esperando por você em casa. Seus olhos brilham. Meus pais têm o tipo de amor que as pessoas procuram no mundo inteiro. É lindo e intendo, e toda a minha vida eu desejei algo assim para mim. Meu pai é mais velho que a minha mãe, e tem uma filha, Addison, de um relacionamento anterior – mas tudo funciona muito bem entre nós. Addi é casada com o vice-presidente do papai, Cade, e eles são igualmente adoráveis juntos. — É melhor eu começar a me mexer, então. Obrigado por esperar por mim; eu senti sua falta pra caralho. Ele se inclina e escova os lábios sobre a minha testa, então acena para os caras antes de subir em sua moto. Eu, felizmente, levanto minha mão em saudação quando eles vão passando, sentindo meu peito inchar de orgulho e felicidade quando eles sorriem, acenam ou gritam para mim. Sim. Perfeito.

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— Ava, baby, estou tão feliz que você está bem! Eu levanto o olhar para encontrar o de minha mãe. Bela. Ela vai ser sempre bonita. A idade parece não a afetar; na verdade, ela parece ficar cada vez mais deslumbrante. Ela pode ser pequena, mas minha mãe tem aquele tipo de cabelo escuro bonito que faz os homens pararem em seu caminho. Principalmente o meu pai. Sempre o meu pai. — É difícil viver por minha conta, — eu rio baixinho, colocando uma mecha de cabelo escuro atrás da minha orelha. — Mas eu estou me saindo bem. ~8~


— Você não vem nos visitar o bastante. Sua irmã disse outro dia que não foi capaz de te encontrar por uma semana. Addison pode ser um pé no saco. A dor na bunda que eu adoro. — Eu tenho trabalhado, — eu digo, caminhando até a cozinha e pegando um refrigerante da geladeira. — Vou ligar para ela. — Como é o trabalho? — minha mãe pergunta, sentando em um banco e sorrindo para mim. Eu dou de ombros. — Trabalho é trabalho. — Você soa como seu pai. Eu sorrio. — Falando nisso, onde está ele? Eu não o vi desde que ele voltou ontem. Ela franze a testa. — Ele está na sede do clube. Você sabe como as coisas têm sido ultimamente. Eu concordo. — Sim, eu sei que algo está acontecendo, mas, como sempre, meu pai nos mantêm de fora dos assuntos. Mamãe suspira, mas há um lampejo de preocupação por trás de seus lindos olhos. Não houve muitas vezes em minha vida em que o clube viveu com perigo iminente. A maior parte das vezes sempre foi algo pequeno e não atingiu ninguém pessoalmente. Papai sempre a merda do lado de fora. Mas, recentemente, algo começou a acontecer, e tudo ficou um pouco mais frenético. Papai elevou a segurança e está chegando as coisas com muito mais frequência que de costume. — Ele faz isso para te manter segura, — ela sorri. — Eu sei, — eu concordo, não querendo que ela fique mais estressada do que claramente já está. — Você deveria ir visitá-lo. Cade e Spike estão visitando hoje, você sabe que ele adoraria te ver. Além disso, Danny ligou ontem à noite e perguntou de você. Danny é meu melhor amigo e filho de outro membro do clube, Spike. Há alguns de nós no clube que crescemos juntos, e até hoje eles são todos os meus melhores amigos e meus confidentes, mas se eu tiver que escolher um especial, seria Danny. Ele é arrogante e charmoso, algo que herdou do seu pai, e ele cobria as minhas costas em qualquer situação.

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— Eu vou fazer isso, — eu digo, bebendo do meu refrigerante. — Eu sinto falta de todos eles. O trabalho tem sido uma loucura. — Eles sempre perguntam de você. Nós vamos ter um churrasco no sábado, tente ir. Todas as crianças vão estar lá. — Mãe, — eu digo, pegando um biscoito fresquinho da bandeja. — Nós não somos mais crianças. Eu tenho vinte e três anos. Ela sorri e pequenas linhas aparecem em seus olhos. Isso só a deixa mais bonita. — Você sempre será a minha criança, Ava. Eu gemo e me levanto. — Eu tenho que ir trabalhar, mas vou passar no complexo antes. Eu a abraço e beijo a sua bochecha antes de sair da casa na qual eu cresci. O clube do meu pai é logo acima na estrada, e quando eu era criança, costumava caminhar até ele durante o dia, apenas para vê-lo. Minha mãe odiava, mas eu amava estar lá. Quando eu tinha aquela idade, sua proteção e lealdade feroz era quente e reconfortante; quando fiquei mais velha, se tornou algo frustrante. Agora, é sufocante. Ele sempre foi desconfortavelmente protetor. Ele não consegue evitar. Ser o presidente de um MC deixa qualquer um assim. Quando chego no clube, pego minha chave e abro o portão de segurança com arame farpado que circula o terreno. Eu o empurro e entro. Os cachorros do meu pai, Boof e Crack, vêm correndo. Ele os pegou quando eu tinha treze anos, para proteção. Eu me agacho e abro meus braços para eles, aceitando seus beijos babados. Os caras sempre me dizem que eu sou muito afeiçoada a eles, e que assim eles vão perder seus cães de guarda. — Olá, bebês, — eu choramingo. — Senti saudade de vocês. — E de mim? Você sentiu saudade? Levanto minha cabeça para ver Danny andando na minha direção. Eu sorrio e me levanto, batendo com o punho em seu ombro assim que ele para ao meu lado. — Eu sempre saudades suas, D. O que você está fazendo aqui? — Reunião do clube. — Você quer dizer, dos clubes, — eu rio.

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O pai do Danny, Spike, costumava ser o presidente de outro clube, o Heaven’s Sinners, mas ao longo dos anos os dois clubes basicamente se misturaram, embora Spike ainda proteste que ninguém vai lhe tirar o seu título, e assim ele se recusa a deixar ir completamente. É muito raro e incomum que dois clubes se misturem desse jeito, mas considerando que eles estão sempre juntos e se dão bem como irmãos, parece que foi a coisa mais esperta a se fazer. — Quando eu for presidente e Jack se aposentar, eu vou pegar esses clubes e transformar em um só. Eu bufo. — Como você vai chama-lo, então? Heaven’s Knights? Danny grunhe. — Ou Hell’s Sinners1. — Ou isso. Ele sorri. Eu o estudo. Danny é totalmente de tirar o fôlego. Ele é uma mistura perfeita dos seus pais. Seu pai, Spike, é lindo de uma forma áspera, e Danny herdou seu cabelo loiro bagunçado e seu corpo musculoso e bem constituído. Mas ele também herdou os olhos amarelos da sua mãe, Ciara. Eles são diferentes de qualquer coisa que eu já tenha visto, e são tão penetrantes que é difícil olhar para eles e não se perder. — Você está sendo um pouco assustadora, Formiguinha. Eu salto e paro de encará-lo, então cruzo os braços. Danny me chama de Formiguinha desde que eu era criança. Ele diz que é porque eu não sou maior que uma formiga, o que é provavelmente verdade. Eu tenho a constituição de fada da minha mãe – provavelmente a única coisa que puxei dela. Meu cabelo escuro, minha pele morena e meus olhos azuis são totalmente do meu pai. — Eu não estou sendo assustadora; estou só te checando. Danny sorri, mostrando suas covinhas lindas. — Ah é? — Não fique se achando, D. Você é como um irmão para mim. Seu sorriso fica maior. — Não quer dizer que eu não gosto de elogios.

Aqui eles misturam os nomes dos dois clubes, ―Heaven’s Sinners‖ (Pecadores do Paraíso) e ―Hell’s Knights‖ (Guerreiros do Inferno). Ela sugere ―Heaven’s Knights‖ (Cavaleiros do Paraíso), mas ele parece não gostar, porque fica um nome muito bonzinho para um MC, e sugere, então, ―Hell’s Sinners‖ (Pecadores do Inferno). 1

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Eu reviro os olhos. — Cara, você sabe que é bonito. Agora, onde está o meu pai? — No escritório. Você vem para o churrasco? Não temos visto muito você por aqui. Eu dou de ombros. — Eu sou uma mulher livre agora; estou gostando de descobrir quem eu sou e do que eu gosto. Os olhos de Danny escurecem. — Isso não inclui homens, não é? Eu bufo. — Danny, você não é o meu pai, e sim, isso inclui homens... quando eu achar um. — Não sou o seu pai, — ele diz, passando um braço pelos meus ombros. — Mas sou o seu melhor amigo. Ele tem que passar por mim antes, e eu posso te garantir, Formiguinha, não vai ser bonito. — Talvez você devesse focar sua atenção em Skye e nós podemos seguir em frente. Os olhos de Danny brilham, e ele faz uma careta para mim. — Não sei do que você está falando. Mas ele sabe. Ele sabe que está afim de Skye, a filha de Cade e Addison, desde que ela fez dezoito anos. Mas há um problema – as coisas não vão bem entre os seus pais. Cade e Addison nunca tiveram outros filhos, então Skye é tudo que eles têm, e Cade é ridiculamente protetor com a sua garotinha. Mesmo que ele ame Danny como um filho, ele não quer essa vida para Skye e vai fazer de tudo para manter ela longe disso. Skye é minha sobrinha, o que é algo difícil de explicar quando as pessoas nos veem juntas e assumem que somos melhores amigas. Ela é somente alguns anos mais nova que eu. Meu pai esteve com a mãe de Addison quando era muito mais jovem, e se tornou pai dela ainda muito cedo. Vinte anos depois, ele conheceu minha mãe e eles me tiveram. Há um grande espaço de tempo entre mim e Addison, mas não é algo que nos incomode. Olhando de volta para Danny, eu o vejo me encarando, uma leve tristeza em seus olhos, embora ele tente escondê-la. — Ah, você sabe do que eu estou falando, — eu rio, me virando e caminhando para o outro lado.

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— Sempre bom conversar com você pirralha, — ele grita atrás de mim. — Também te amo, D! Eu entro no prédio de tijolos vermelhos que já viu melhores dias e vou direto para os escritórios, que ficam na parte de trás, e onde os membros do clube passam a maior parte do tempo. Eu seguro a maçaneta e abro a porta, sem hesitar. Meus olhos demoram um momento para se ajustar, e eu ouço a voz de Spike ecoando pela sala. — Agora esse é um rosto bonito que eu não vejo há um tempo. Como você está, pequena Ava? Meus olhos se adaptam e eu vejo Spike, Cade, Jackson e Muff sentados ao redor de uma grande mesa redonda como um bando de reis. Eu sorrio para Spike e levanto a mão em um aceno. — Ei, Spike, eu estou bem. Meu pai se levanta e, com um grande sorriso, caminha até mim. Assim que ele me alcança, envolve seus grandes braços ao meu redor e me puxa contra o seu corpo. O peito do meu pai sempre foi o meu conforto, meu lugar feliz, então eu só fecho os olhos, envolvo meus braços nele e sinto seu cheiro. Ele tem um cheiro único que eu espero que nunca se perca. — Como você está, garotinha? — Ei, pai. Eu me afasto e olho para ele, que tem os cantos dos olhos marcados por rugas enquanto ele sorri. — Eu não sabia que você estava vindo, — ele mantém os braços ao meu redor e me vira na direção do grupo. — Eu teria mudado essa reunião. — Mamãe me disse para passar aqui, e eu queria dizer oi antes de ir trabalhar. — O meu bebê não vem mais me ver o suficiente. Eu aperto a sua cintura. — Desculpe. — Ei, princesa, — Cade diz, se levantando e vindo até nós. Ele se abaixa e pressiona um beijo na minha testa. — Como você está? Eu sorrio para ele. Cade é ainda mais ridiculamente bonito que o meu pai. Seu cabelo só tem alguns traços de cinza, mas ele está envelhecendo muito bem. Seus olhos são incrivelmente verdes e sua ~ 13 ~


pele, incrivelmente morena. Ele é forte, alto e masculino. É óbvio porque minha irmã o adora. — Eu estou bem, mano, — eu o provoco. — Como você está? Seu sorriso cresce, e eu tenho um vislumbre das suas incríveis covinhas por debaixo da barba de três dias. — Eu estou indo muito bem. — Você viu o meu garoto lá fora? — Spike pergunta, puxando um cigarro e se inclinando sobre a mesa. — Isso ainda vai te matar, tio Spike, — eu digo, e ele sorri. Sim, Danny é um mini Spike, mas Spike tem esses olhos castanhos quentes e um pouco travessos. — Algo assim. — Não diga isso; eu ainda não estou pronta para a sua morte. Ele pisca para mim. Eu balanço a cabeça e aceno para Muff, outro membro do clube, rindo da nossa conversa. Muff é o mais excepcionalmente bonito tipo de homem. Ele é estranhamente bonito para alguém ruivo. Ele tem dois filhos, que também cresceram comigo, Max e Ebony. — Ei, Muff, — eu aceno. — Ei, criança, — ele acena. Eu me viro para olhar o meu pai. — Eu tenho que ir trabalhar. Seus olhos estudam o meu rosto, e ele puxa o meu queixo. — Eu não te vejo o bastante, Ava. Já é ruim o suficiente que minha outra filha pé no saco nunca venha me visitar, mas o meu bebê... Eu rio. Addison sempre vai ser atrevida, não importa o quanto ela envelheça, e ela deixa nosso pai louco. Ele a ama por isso. — O seu bebê está bem crescidinho, tem um apartamento e um trabalho... — eu o lembro. — Falando no novo apartamento, estou mandando meus rapazes passarem lá algumas vezes por dia, para ter certeza que você está segura. — Pai! — eu gemo. — Por favor, não. Eu estou seguro. Eu sou adulta. Eu vou ficar bem.

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Seus olhos brilham. — Você vai estar bem quando eu disser que está. — Teimoso! Ele sorri e beija minha testa. — Para as minhas garotas, nunca é o bastante. Eu bufo dramaticamente e me afasto. — Onde está Addi? — pergunto a Cade. — Trabalhando. — Skye? — Trabalhando. Eu bufo. — Bem, então acho que é melhor eu ir trabalhar também. Abraço meu pai e então aceno para os outros caras. — Eu vou lá dar uma olhada no seu apartamento mais tarde, Ava, — meu pai diz enquanto eu vou até a porta. — Quero ter certeza que é seguro. Eu suspiro, mas sorrio para ele. — Amo você, meu velho. Ele sorri de volta. — Amo você também, criança. Motoqueiros. Afffff.

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— Você pode preencher esses formulários para mim e me devolver antes do fim do dia? — meu chefe, Michael, diz, olhando para os meus seios em vez dos meus olhos, enquanto me entrega um monte de papeis. Eu estremeço. Nojento. Se não fosse pelo fato de que eu não conseguiria achar outro emprego por aqui que me pagasse o bastante para viver sozinha, eu já teria caído fora. Ele na verdade nunca fez ~ 15 ~


nada, mas a simples ideia dele sendo tão assustador me deixa desconfortável. Eu tento ignorá-lo quando eu posso, porque apesar de um olhar estranho aqui e ali, eu realmente não tenho nada para levar adiante. Ele é apenas um desses homens. — Sim, — eu digo, minha voz soando um pouco enojada. — É claro. Ele para e me encara, me deixando ainda mais desconfortável. — Eu tenho um jantar de negócios na sala de conferência esse final de semana. Eu gostaria que você se juntasse a mim e ouvisse; vai ser um bom passo na direção certa para você. — Sem problemas, — eu digo, não fazendo contato visual. — Certo, bem, venha ao meu escritório quando você tiver terminado isso e eu vou conferir os papeis antes de você ir para casa. Maravilhoso. — Ok. Ele vai embora relutantemente, mas não antes que seus olhos deslizem pelas minhas pernas e um pequeno sorriso apareça no seu rosto. Quando ele se vai, eu solto a respiração que estava segurando. Abaixo minha cabeça e começo a trabalhar, porque o tempo extra aqui significa mais tempo com Michael, e eu não estou bem com isso. Eu consigo terminar a papelada logo antes do horário de fechar, e rapidamente pego tudo, jogando minha bolsa sobre o ombro e correndo pelo corredor na direção do escritório de Michael. Quando alcanço a porta, espio para vê-lo sentado em seu computador, olhando a tela com uma expressão que eu quero desesperadamente estar lendo errado. Ele tem aquele tipo de expressão que os homens têm quando estão assistindo... pornô. Eu deveria saber. Eu já vi isso; crescer em um clube MC não deixa muito espaço para a inocência. Eu levanto a mão para bater, mas de repente me sinto um pouco intrometida, e não tenho certeza se eu quero interrompê-lo bem agora. Eu baixo a mão e o movimento chama a sua atenção. Ele me olha e fecha o laptop. Ele não levanta do seu assento, mas faz um gesto para eu entrar. Eu coloco um sorriso falso nos lábios e entro, colocando os papeis na sua mesa. — Está tudo pronto. Se não tem mais nada, eu estou indo. ~ 16 ~


— Isso é tudo. Como sempre, bom trabalho. Deus, o jeito que ele está me olhando realmente me deixa desconfortável. — Bem, então, — eu digo me virando, — boa noite. Uma batida atrás de mim faz minha espinha girar. Todas as canetas de Michael estão no chão. — Oh, que idiota. Você me ajudaria a juntá-las, Ava? Meu estômago revira e eu muito cuidadosamente tento juntar as canetas sem expor nada para os seus olhos famintos. Isso não impede que eu me sinta nua no chão com ele me assistindo, e esse sentimento faz tudo dentro de mim se torcer. Eu rapidamente levanto e alcanço as canetas a ele, meus dedos trêmulos. — Você tem carro? — ele pergunta aleatoriamente. Eu pisco. — Como é? — Um carro. Você tem um? — Sim, ah, sim. — Então o seu namorado não vem te buscar? Essa pergunta me deixa nervosa, e eu quero tentar evita-la, mentir para ele, dizer que eu tenho um namorado, mas mentir nunca foi fácil para mim, e eu estremeço. Abro a boca para responder, mas nada sai exceto um patético guincho. Ele sorri. — Eu deveria ir, — eu digo. — Claro. Boa noite, Ava. Eu me viro e saio dali o mais rápido que minhas pernas podem me levar.

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Capítulo Dois LUCAS PASSADO O sorriso no meu rosto cresce mais e mais enquanto eu assisto minha filha, Shylie, correndo ao redor, seu cabelo escuro voando atrás dela enquanto seu pequeno corpo voa no balanço. Ela curva os dedos ao redor das correntes e puxa o corpo para frente, então estica as pernas com entusiasmo, para trás e para frente para manter o movimento. Rindo, eu vou até lá e seguro a corrente, gentilmente a empurrando. — Mais alto, papai! — Nem pensar, baby, — eu rio. — Você vai sair voando. — Eu quero voar! — ela choraminga, sua risada enchendo o ar. — Talvez um dia. — Ei, você. Eu me viro e vejo minha esposa de pé atrás de mim. Eu não a ouvi se aproximando. Ela me olha, seu rosto transbordando felicidade. Jennifer não foi a primeira pessoa que eu amei. Minha primeira esposa, e mãe de Shylie, Rachel, morreu no parto. Eu rapidamente me tornei um pai solteiro lutando nos primeiros dois anos. Foi então que eu conheci Jennifer, ela se apaixonou por mim e por Shylie, e preencheu o meu vazio. Ela é uma ótima madrasta e ama Shylie como se fosse sua filha. — Olá, bonita, — eu sorrio, me abaixando para beijá-la suavemente, enquanto minha mão permanece na corrente enquanto Shylie vem balançando na minha direção. — Eu consegui tudo que precisava no mercado. Vocês vêm para casa? ~ 18 ~


— Eu vou brincar com Shylie um pouco mais, e então nós vamos em seguida. — Certo, querido, — ela sorri, acenando para Shylie enquanto atravessa a rua na direção do nosso pequeno apartamento. Eu dou duro na no trabalho, tendo me tornado detetive de polícia pouco depois que Shylie nasceu. Era difícil ser pai solteiro e policial, mas eu consegui me virar com a ajuda da minha família, da família de Rachel e então de Jennifer, quando a conheci. Faço o meu melhor para dar à minha garotinha a vida que ela merece, mas nem sempre é fácil. Agora eu e Jennifer trabalhamos para manter as contas pagas em dia, mas algumas semanas são mais fáceis que outras. — Vamos lá, baby, — eu digo, puxando minha filha em meus braços e a balançando enquanto caminhamos na direção do apartamento. — É hora do jantar. — Obaaaaa! — ela grita. Sim, a luz da minha vida.

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— Então, como foi o trabalho hoje? — Jenn me pergunta tarde naquela noite, enquanto nos deitamos na cama. — Foi bom. A mesma merda, dia diferente. Ela ri baixinho. — Que resposta masculina. Eu sorrio e me viro sobre ela, então o meu corpo cobre o seu. Jennifer é uma mulher bonita, com longo cabelo loiro e olhos azuis, e é alta pra caramba, com pernas intermináveis. Ela não teve uma boa vida, e lutou contra o alcoolismo quando era mais nova. Ela superou isso e se manteve sóbria durante todos os anos em que estivemos juntos. — Você esperaria algo menos que isso? — eu perguntando, cheirando o seu pescoço. — Não, claro que não. — Como foi o seu trabalho? ~ 19 ~


Ela passa um braço sobre o meu pescoço. — Foi muito bom, mas melhor agora que estou em casa. Eu passo os lábios sobre o seu ombro. — Sempre é assim. — Hmm, nós ainda vamos ir visitar meus pais nesse final de semana? Eu gemo. — Se for necessário. Ela ri. — Vamos lá, eles não são tão ruins e eles adoram Shy. — Ainda assim, eles me deixam maluco pra caralho. — Eu vou estar com você, e pense só – nós podemos nadar durante todo o final de semana. Você sabe como Shy ama nadar. Eu sorrio com o pensamento da minha garotinha nadando. Ela adora água. Ela pode ter apenas quatro anos, mas passaria o tempo todo na água se eu deixasse. Eu prometi a ela aulas de natação no próximo ano, e ela vai ter certeza de não me deixar esquecer. — Nadar é bom, se nós conseguirmos algum tempo para fazermos isso sozinhos, — eu murmuro, mordendo o pescoço de Jenn. — Você é um animal, — ela diz. Jenn não tem a necessidade de sexo que eu tenho, mas nós conseguimos dar um jeito. Ela nunca foi uma mulher muito sexual, mas ela é amorosa e carinhosa, e eu não podia pedir nada mais. — Você não gostaria de mim de outro jeito. Ela ri. — Não, eu não gostaria, mesmo que você me deixe louca com as suas necessidades. — Mmmm, — eu digo, mordendo seus lábios. — Mmmm você, — ela sussurra, nos rolando na cama. A vida é malditamente boa.

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Capítulo Três AVA PRESENTE — Então o seu chefe ainda é assustador? — Skye pergunta, se atirando no meu sofá barato que já viu dias melhores. — Sim, — eu respondo, jogando uma uva em minha boca. — Total assustador. — O que você vai fazer sobre isso? Encolho os ombros. — O que eu posso fazer? Minhas opções são ir trabalhar como garçonete ou manter o meu trabalho e aguentar ele. Estou ganhando muita experiência com Direito trabalhando lá. — Isso é um problema, — ela diz, cruzando as pernas e me estudando. — Talvez ele seja apenas um desses caras bizarros e você não tem nada com o que se preocupar. Apenas conversa, nada de ação. Eu aceno. — Sim, acho que você tem razão. Eu estou lá há seis meses e ele não fez nada. — Então, o resto da galera vai vir hoje à noite? Eu mexo as sobrancelhas. — Sim, e sério, você quer saber se o Danny vem. Ela bufa. — Eu não disse isso. — Ahaaaaam. Ela joga uma uva na minha direção. Eu rio bem quando a campainha toca. Eu nem tenho a chance de atender antes que ela se abre e todo mundo entre. Danny está com o braço ao redor de Mercedes, sua irmã mais nova que acabou de fazer vinte anos. Max está revirando os olhos, carregando um engradado cheio de cervejas. ~ 21 ~


— Cerveja, Max? — eu pergunto, me levantando para ajudá-lo. — Você vai estar em problemas se Spike descobrir que você está dando cerveja para Mercedes. — Mercy não vai tomar cerveja, — ele sorri, dando um tapinha na minha cabeça e um sorrido para Mercy. — É tudo para mim. Eu rio e me viro para Danny e Mercy. — Ei, vocês dois, como estão indo? — Um pouco para a esquerda, — Danny diz, cutucando meu braço antes de passar por mim, gritando. — Ei, Max, jogue uma aqui. Eu reviro os olhos para Mercy. — Como você está, Mercy? Ela sorri; Deus, ela é linda. Ela é como Spike – cabelo loiro, grandes olhos castanhos... maravilhosa. — Está tudo bem, e você, Ava? — Você sabe, — eu digo, dando de ombros. — Indo. — Ei, garota, — Skye canta. — Venha se sentar e me diga onde você conseguiu esse vestido lindo. Mercy se mexe e desaba ao lado de Skye, e as duas começam a conversar. Os olhos verdes de Skye se iluminam, e ela começa a acenar as mãos animadamente durante o intercurso. Eu rio, caminhando até a cozinha, e pego uma cerveja da mão de Max logo depois que ele a abre. Ele faz uma careta, mas seus olhos estão cheios de humor. — Como vocês estão, garotos? — Tudo bem, — Max responde. — Você parece bem, Ava. Está malhando? Eu bufo. — Só se você chamar o ato de comer hambúrgueres malhar. Danny engasga. — A idade vai chegar para você, Ava. Eu tomo um gole da minha cerveja e torço o nariz para ele. — Você ainda vai ser meu amigo. — Provavelmente, mas vou ter que te arranjar um novo apelido. Formiguinha não vai mais ser adequado. Eu rio. — E como está o trabalho? — Max perguntando, me seguindo enquanto eu volto para a sala de estar. ~ 22 ~


— Está bom, — é uma mentira parcial. — Maravilha. Todos nós nos sentamos na sala e passamos as próximas quatro horas conversando e rindo. Eu honestamente não sei como viveria sem eles.

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— Muitos arrombamentos nessa área, — meu pai diz ao telefone àquela noite, depois que todos tinham ido embora e eu estava indo para a cama. Ele me liga todas as noites; ele precisa. Se ele fosse embora, ligaria; no momento em que eu me mudei, ele liga. — Pai, — eu digo, lutando contra um bocejo. — Está tudo bem. Ele bufa. — O que você vai fazer se alguém entrar aí? — Atirar neles. Ele ri. — Você me ensinou bem, coroa. Agora, vai parar de se preocupar? Ele grunhe. — Eu nunca vou parar de me preocupar, baby. Se agora acontecesse a você... Eu sorrio, e meu peito se derrete. — Eu sei, e isso é incrível, mas eu estou perfeitamente segura. Ele suspira. — Bem, mas eu ainda vou enviar os meus garotos darem uma passada aí se eles estiverem pela área. Compromisso. Eu posso lidar com isso. — Posso viver com isso. — Como está o trabalho? — ele pergunta, finalmente mudando de assunto. — Você já me perguntou isso hoje... — Bom ponto. Você teve um bom dia, então? — Bom. Max, Mercy, Skye e Danny vieram aqui hoje à noite. Ele geme dramaticamente. — Problemas enrolados em um vaso tão bonito. ~ 23 ~


Eu rio. — Tenho certeza que nós puxamos nossos pais. — Não posso negar isso. — Posso apenas imaginar os problemas que vocês causaram quando eram mais novos. Isso provavelmente é muito difícil para você agora, vovô. Ele grunhe. — Não estou pronto para ser avô ainda, garota. Skye é o suficiente para qualquer homem. Me dê mais alguns anos, sim? — Passar de velho para ancião incomoda você? Ele ri. — Minha garota está bem-humorada essa noite. Eu sorrio. — Sempre. — Certo, vá para a cama. Eu só liguei para saber de você. — E ter certeza de que eu estava viva. — Eu vou sempre ter as suas costas, garota. Você sabe disso. — Eu sei, — eu sussurro. — Te amo, coroa. — Também te amo, bebê. Boa noite. — Boa noite, pai. Eu desligo e sorrio para o telefone antes de colocá-lo sobre a mesa de cabeceira. Sim, eu não sei onde estaria sem eles.

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Capítulo Quatro AVA PRESENTE O trabalho é tranquilo no sábado à noite, mas eu fico na conferência e passo pelos avanços bizarros de Michael, então finalmente me dirijo ao meu carro. Eu deveria ir direto para o churrasco no clube, mas eu nem sei se ainda está acontecendo. Minha mãe ligou mais cedo dizendo que meu pai ia precisar sair para resolver algumas coisas e que não tinha certeza se ele voltaria. Ele tem feito muito isso ultimamente. Seja lá o que está incomodando o clube, tem deixado meu pai em alerta. Ele tem ficado muito lá, e os caras têm saído para várias corridas, o que geralmente significa que eles estão tentando resolver algo. Eu fico ansiosa quando ele faz isso, mas não há nada que eu possa fazer. Aprendi a empurrar a preocupação de lado e aceitar que essa é a sua vida e sempre vai ser. Alcanço meu carro e está mais escuro que o normal. Levanto o olhar e vejo que as luzes estão fracas – uma das lâmpadas queimou. Ótimo. Coloco minha bolsa sobre o capô do carro e começo a cavar, procurando as minhas chaves. Encontro tudo, menos elas. Deus, espero que eu não as tenha deixado no prédio, porque eu realmente não gostaria de voltar lá e falar com Michael de novo. Por que as mulheres deixam tanta merda dentro da bolsa? Eu remexo na bolsa até que finalmente ouço o tilintar. Enfio minha mão um pouco mais fundo e consigo pegá-las. Estou indo em direção à porta do motorista quando sinto, de repente, uma dor afiada no meu pescoço. Levanto a mão e ofego, mas seja lá o que me acertou, parece fogo no meu sistema. Estou tropeçando em meus pés em segundos. Tudo no meu campo de visão está ficando cada vez mais borrado, e eu começo a entrar em pânico. Tento ver de onde veio a picada, mas estou muito instável para me mexer. Com o canto do olho, ~ 25 ~


vejo uma mão vir para cobrir a minha boca, e outra passa pela minha cintura quando começo a cair para trás. Michael? É Michael? Minha mente embaralha e eu tento chutar as pernas, mas isso é rapidamente tirado de mim quando meu mundo fica preto.

*****

Estou gelada. A pedra pressionada contra as minhas costas e o concreto áspero contra o meu traseiro são lembranças dolorosas de que eu estou em algum lugar que não deveria. Estou cercada pela escuridão, mas não é silencioso. Posso ouvir outra respiração rápida ao meu lado. Estou com muito medo para falar, para perguntar a ele ou ela porque nós estamos aqui, porque isso seria ter que encarar a situação. Eu fui levada. Eu não sei quem, mas alguém me drogou e me levou do estacionamento do meu trabalho. Aconteceu tão rápido, foi quase surreal, e eu não me lembro de uma única coisa depois que meu mundo ficou em branco. Tudo que eu sei é que eu estou aqui, estou com medo e não tenho ideia de como diabos vou sair dessa. Eu não sei nem porque fui levada. — Você está acordada? — uma voz baixa e jovem pergunta. Eu pisco. Uma garota. Há uma garota aqui comigo. Isso faz meu cérebro trabalhar enquanto eu me pergunto porque diabos há outra garota aqui e o que quem nos pegou quer. Eu nunca ouvi sua voz antes, tenho certeza, então não tem como nossos sequestros estarem relacionados, certo? — S-s-sim, — eu sussurro. — Onde nós estamos? — Eu não sei, — ela chora. — Eu não entendo. Eu só estava esperando por um táxi e... Antes que ela possa terminar e eu possa perguntar quem ela é, qual o seu nome e se ela sabe porque estamos aqui, a porta se abre e uma luz cegante acerta meus olhos. Ofego e tento mover minhas mãos, ~ 26 ~


mas elas estão presas. Eu me torço e pisco, desesperada para ver o que entrou nesse horrível e pequeno lugar. A garota ao meu lado começa a chorar e implorar. Eu nunca vou implorar. Eu fui criada com motoqueiros, meu pai é presidente do maior clube do Estado. Não, eu não vou implorar. Eu vou analisar; eu vou lutar. Eu vou achar um jeito de sair. Eles sabem que eu estou desaparecida – eles vão tentar me ligar e vão saber. Eles vão me achar. Certo? — Ah, vejo que as duas estão acordadas. Eu não reconheço a voz, mas é áspera e assustadora. Minha visão limpa lentamente e eu vejo um homem enorme parado na porta, outros dois o escoltado ao seu lado. Ele é grande, tem olhos pretos e cicatrizes no rosto. Ele não é velho, definitivamente mais novo que o meu pai, mas tem uma frieza nos olhos que faz meu sangue gelar. Eu já vi muitos homens, já vi muitos monstros, mas nunca um assim. Nunca um tão vazio. — Me deixe ir, — a garota ao meu lado soluça. Eu me viro e a encaro. Ela é pequena, loira, provavelmente da minha idade. Eu nunca a vi antes, isso é certo. Meu estômago revira. Por que eles sequestraram duas garotas – duas garotas bonitas? Eles vão nos vender? Eles fazem parte do comércio do sexo? Ou talvez eles só nos queiram para si mesmos. Fique calma. Fique. Calma. Tomo uma respiração profunda e luto contra a bile e o medo subindo pela minha garganta, e olho de novo para o homem que está me encarando. Estremeço quando seus olhos encontram os meus. É como se ele pudesse ler a minha mente, ver dentro da minha alma. É enervante e eu afasto o olhar rapidamente. — Você é como ele não, é, Ava? Ele sabe o meu nome. ~ 27 ~


Isso não é bom. — Ele quem? — eu coaxo, minha garganta seca. — Como Jackson. Meu pai? Deus. Isso não é sobre tráfico de mulheres ou uma necessidade doente de capturar garotas bonitas, é sobre o meu pai e, obviamente, o clube. É por isso que ele queria segurança extra recentemente. É por isso que ele tem me ligado mais que o habitual. É por isso que minha mãe tinha aquele olhar de preocupação. Alguma coisa estava acontecendo, e essa coisa acabou de me pegar. Mas não explica a garota ao meu lado. Não explica porque nós duas estamos aqui. — O que você quer de mim? — eu sussurro. — Eu quero que você envie uma mensagem. Eu estremeço. — Sobre mim? — a garota loira ao meu lado chora, tremendo. — Eu não fiz nada. eu nem sei quem você é! Ele vira os olhos zangados para ela, que instantaneamente aperta os lábios, mas seus soluços ainda são ouvidos e escapam da sua boca. — Cale a boca. Eu vou falar com você quando eu precisar, porra. Ela chora ainda mais. Eu engulo em seco o vômito. — Se você acha que eu sei alguma coisa, eu não sei, — eu coaxo. — Oh, — ele diz, dando um passo à frente e sorrindo. — Eu sei que você não sabe nada; não é por isso que você está aqui. Me deixe explicar. Começo a tremer. — Vejam, os pais de vocês duas — ele aponta para a garota e depois para mim — estiveram conspirando contra mim. Eles querem que eu me vá. Eles me querem morto. Eles não gostam do que eu estou colocando na mesa. Eu não gosto do que eles estão planejando, então ~ 28 ~


estou enviando uma mensagem. O que poderia ser melhor, — ele ri, — do que as suas garotinhas? Eu vou vomitar. Sinto o medo direto nos meus ossos. — Por favor, — a outra garota guincha. — Por favor, me deixe ir! Eu gostaria que ela parasse de chorar. Choro não é algo que pare esse tipo de homem. Eu tenho que pensar; eu tenho que respirar. Tem que haver um jeito de sair. Meu pai vai vir. Ele vai. Ele sempre vem. Ele nunca deixou ninguém me tocar. Nunca. A garota geme mais uma vez e o homem se vira para ela. — Cale a boca, — ele ruge, e então estala os dedos e um dos seus homens vem para frente, chuta um pé no ar e acerta a mandíbula dela. Sua cabeça gira para o lado e eu ofego, lágrimas queimando debaixo das minhas pálpebras quando a cabeça dela bate contra a parede e seus gritos ficam abafados por causa da dor extrema. Monstro. — Pare, — eu grito. — Seu monstro. Deixe ela em paz. Deixe ela! Eu vou te matar, porra. Ele joga a cabeça para trás e ri antes de estalar os dedos outra vez. Seu assistente chuta outra vez, acertando o meu rosto dessa vez. Dor rasga o meu rosto, e meu crânio lateja. Eu ofego e tento respirar desesperadamente. Tanta dor. Eu nunca senti algo tão doloroso na minha vida. — Eu vejo que você tem a espinha dorsal do seu pai, — ele ri. — Apenas nos diga o que você quer, — eu sussurro. Ele sorri, e isso aterroriza cada fibra do meu ser. — Como eu disse, preciso fazer uma declaração. Eu não sou um homem legal, Ava. A sua vida significa nada para mim, assim como a dela, — ele aponta com um dedo para a garota ferida. — Então, hoje, uma de vocês vai morrer e a outra vai viver. E a grande novidade é que, por ser tão corajosa, você vai decidir qual das duas vai sair daqui para entregar minha mensagem. É quando meu mundo fica preto outra vez.

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HORAS DEPOIS

A arma fria pressiona contra minha têmpora e eu estou gritando. Eu estou lutando. Eu estou fazendo tudo que posso para me livrar do aperto forte do homem que tem uma mão agarrando meu rabo de cavalo e a outra segurando uma arma no lado da minha cabeça. Eu esperei. Eu rezei. Eu implorei. Eu fiz promessas que não podia cumprir, mas a verdade nua e crua é que uma de nós vai morrer agora. E não há nada que eu possa fazer sobre isso. Meus olhos encontram os dela. Eu ainda não sei o seu nome. Ela ainda está gritando. Implorando. Soluçando. Ela ainda está berrando que deveria ser eu. Que eu deveria morrer. Que ela tem uma vida. Que ela tem mais chances. Como eu escolho qual vida vale mais? Como eu devido qual vale mais, se a dela vale menos? Todo mundo quer que suas vidas sejam longas e realizadas, ninguém quer que ela acabe, mas quantos de nós somos heróis? Quantas pessoas aceitariam a chance de dar a vida de outra pessoa pela sua? Ela não merece morrer. Mas eu também não. Então eu estou lutando; foi tudo que me restou. Mas é doloroso e inútil. Não há escapatória. Eles vão seguir com o seu plano, porque homens assim não são encontrados, nós não vamos ser resgatadas e não há final feliz. Eu já fui espancada e surrada, mas não pelo homem que nos capturou – não, ele é inteligente e ordenou que outras pessoas fizessem o trabalho sujo. Ele é inteligente. Astuto. Não está deixando traços seus para trás. Hoje, alguém vai morrer. E eu vou ser aquela que vai decidir quem. Eu não posso fazer isso. Não posso. — Me solte! — eu grito, furiosa. — Eu vou dar a mensagem que você quiser, qualquer coisa – apenas nos deixe ir. O homem ri, completamente divertido pelos meus pedidos patéticos. — Isso não vai acontecer, Ava. O seu pai está mexendo com os meus planos, e eu não gosto disso. Se eu deixar as duas irem, que ~ 30 ~


tipo de mensagem eu vou estar enviando? Não. Então, você tem cinco segundos para tomar uma decisão, ou eu vou escolher uma das duas e fazer isso lenta e tortuosamente. Você não quer isso, quer? Porque eu posso te garantir, isso vai ser feio e eu gosto de fazer uma sujeira. Deus, não. Eu não quero morrer. Eu não quero que ela morra também. Eu com certeza não quero ver ninguém ser torturado. Ela está gritando mais alto. — Por favor, eu faço qualquer coisa, — eu imploro, minha voz quebrando. — Qualquer coisa. Seus olhos endurecem e ele sorri. — Eu preciso que ele veja o medo, a dor, a maneira como eu te quebrei. Eu preciso que eles fiquem abalados e aterrorizados pelo que vem a seguir. Para fazer isso, preciso de uma de vocês viva para ser enviada de volta, mas se você não escolher, isso vai ficar feio rápido. Você não quer isso, não é, Ava? — Não, — eu choro, lutando com as lágrimas. Eu não quero chorar; eu não quero mostrar fraqueza, mas estou com medo. Estou com muito medo. — Eu não quero morrer; eu também não quero que ela morra. Tem que haver outro jeito. Outra mensagem. — Eu poderia cortar seus braços e pernas fora e te enviar de volta assim, — ele ri, e seu assistente bate a arma na minha têmpora. Eu grito alto, e não consigo mais lutar com as lágrimas. — Mas isso não teria graça. Eu gostaria de te ver sofrer, ver você escolher entre a sua vida e a dela – ver a garotinha do Jackson quebrar. — Você não tem filhos? — eu guincho. — O que você faria se fosse eles? Ele se inclina mais perto. — Eu não tão estúpido, — ele assobia. — Agora, faça uma escolha. Ela começa a gritar. Eu começo a chorar mais forte. — Faça uma escolha, — ele berra na minha orelha. — Por favor, — ela grita. — Por favor. Eu sou só uma garota. Eu tenho uma vida. Um namorado. Uma família. Por favor. Eu não fiz nada errado. Ela não fez nada.

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Ela tem um namorado. Uma vida. Uma família. Assim como eu. — Faça uma escolha! — ele berra e seu assistente engatilha a arma, me deixando saber que ele vai puxar o gatilho. De alguma maneira ele está conseguindo segurar a mim e a arma, ou talvez eu esteja muito fraca para lutar. Medo corre pela minha espinha e eu começo a lutar de novo, mais e mais forte, implorando e pedindo. Eu quero acordar desse pesadelo. Eu quero que meu pai apareça e me salve. Eu quero que tudo isso seja um sonho ruim. Eu não quero isso. Eu nunca quis isso. — Não me mate, — ela grita, a garota sem nome, a garota que é como eu. — Mate ela. Eu vou fazer a escolha. Mate ela. Eu não me importo. Eu não me importo. Eu quero viver. Por favor. Me deixe viver. — Mas a escolha não é sua, é? — o homem ruge. — Agora faça uma maldita escolha do caralho! — Não, — eu choro. — Não. Eu não posso. Não vou. Ele estala os dedos e seu assistente move a arma rapidamente e atira, acertando a garota na perna, me assustando tanto que eu molho as minhas calças. Ele cai no chão e começa a gritar em agonia. Eu começo a gritar também, meus joelhos batendo, medo me fazendo vomitar. — Ele vai atirar em uma parte dela cada vez que você hesitar. Tanto sangue. Os olhos aterrorizados dela. Ela está agarrando sua perna, berrando, com tanto medo. — Uma escolha, — ele ruge. — Você ou ela. — Por favor, — eu peço. Seu assistente atira de novo, acertando a outra perna. Mais gritos. Mais berros aterrorizados. Eu preciso achar outro jeito. Tem que haver outro jeito. Eu tento lutar mais uma vez, arranhar, me torcer, chutar, qualquer coisa para sair do seu aperto, mas não adianta. Ele é enorme e eu estou muito quebrada. — Escolha! ~ 32 ~


Eu balanço a cabeça freneticamente. — Não, por favor. Eu faço qualquer coisa. Qualquer coisa. — Escolha! Ela está gritando. Eu estou gritando. A arma. O medo. — Escolha! — ele grita bem alto, e a arma bate na minha têmpora mais uma vez. Meu mundo começa a girar, e o medo está me apertando com tanta força que eu vomito em cima de mim e do homem que está me segurando. Ele vai fazer isso. Ele vai me matar. Eu não quero morrer. Papai. Por favor. Não. Não quero ir. Eu não estou pronta. Não estou pronta. Por favor. — Um. — Não, — eu peço. — Não. Eu vejo meu pai, sorrindo. Vejo minha irmã e minha mãe. Vejo Danny e Skye, Mercy e Max. Eu os vejo rindo. Deus, eu nunca tive alguém que fizesse amor comigo. Eu não vivi. Eu não tive um namorado, como a outra garota. Eu mal tive a chance de me aventurar sozinha. Eu não estou pronta. — Dois. — Por favor, eu não posso. Eu não quero. Não. O rosto do meu pai, seus olhos firmes. — Sempre seja corajosa, Ava. Não importa o que a vida jogue em você. Não seja uma heroína. Apenas seja corajosa. Lute. Faça o que for preciso. Se lembre do que eu te ensinei. Papai. Não. — Três. FAÇA A PORRA DE UMA ESCOLHA OU EU VOU ESTOURAR A SUA CABEÇA, — ele ruge alto. O medo me destrói. Me toma. E por um segundo, eu não penso. Estou com tanto medo. Há tanto barulho. Tudo está nublando meus sentidos, e só no que posso pensar são os olhares nos rostos dos meus pais quando eles ouvirem as notícias...

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— Ela! — eu berro. No segundo em que a palavra sai dos meus lábios, eu começo a lutar com o arrependimento instantâneo. — Não! Eu! Eu! Por favor, não ela... eu não quis... não... O assistente atira. A bala acerta diretamente entre os olhos, a fazendo explodir de um jeito que eu nunca vou esquecer. — Não, — eu grito, me enrolando no chão quando o homem me deixa ir. — NÃO! Eu disse eu... eu disse... — Oh, bem, — ele murmura, olhando para o corpo da garota enquanto caminha por ele, parando na frente. — Acho que você não mudou de ideia rápido o bastante. — Eu, — eu coaxo. Eu disse eu. A escuridão me toma mais uma vez.

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Capítulo Cinco LUCAS PASSADO Não há nada no mundo como o pânico que atravessa o seu peito quando você não consegue encontrar a sua criança. Claro, há manhãs em que você acorda e elas não estão lá, e um pânico leve se alastra antes que você as encontre fazendo algo inocente, como tomando café da manhã em frente à televisão. É quando você não consegue achar elas que o verdadeiro terror começa. Quando você procura nos armários e debaixo das camas, rezando para que seja apenas um jogo, mas em cada lugar que você olha, elas não estão, e então a realidade bate. Algo está errado. Será que elas foram para a rua? Será que um estranho apareceu na porta? Como algo tão pequeno pode apenas desaparecer? Eu acordei desse jeito essa manhã. Eu sabia no segundo em que abri meus olhos que algo estava errado. Shylie não estava na cama, e ela sempre está na cama. Ela me acorda com um sorriso e uma risada. Não essa manhã. Eu sabia antes de começar a procurar que algo estava mal. — Onde ela está? — eu lato, correndo pelo corredor, procurando pela minha filha. Jennifer está correndo atrás de mim, chamando por Shylie, nós dois sentindo o terror crescente que está tomando nossos peitos como reféns. Talvez os pais de Jenn tenham a levado para tomar café da manhã e vai haver um recado em cima da mesa explicando tudo. Mas algo profundamente dentro de mim diz que isso não está certo. — O que está acontecendo?

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Quando a mãe de Jenn entra no quarto, seguida pelo seu pai, o pânico se torna real. — Não consigo achar Shylie! — Talvez ela esteja vendo televisão lá embaixo? — Ela não está, — Jennifer ofega, — Ela não está na casa; nós procuramos por tudo. — Se acalmem, — seu pai diz, prendendo seu robe. — Ela pode estar brincando lá fora. E é assim, com uma palavra, que eu sei exatamente onde o meu bebê está. Minha filha ama nadar. Minha filha ama a água. Minha filha faria qualquer coisa para chegar lá. Eu me viro e corro o mais rápido que posso, tropeçando nas escadas, meu coração batendo na garganta. Alcanço a porta dos fundos e a puxo com força, mas ela já está aberta. Eu olho ao redor, meus olhos indo para o portão da piscina. Uma cadeira está caída ao seu lado, e ele está aberto. Meu corpo todo parece estar em chamas. Uma queimação raivosa corre dos meus pés até a cabeça. Corro até o portão, rezando, implorando, pedindo para que nada tenha acontecido com a minha garotinha. Eu derrapo na água cercando a piscina, caio em minhas mãos e joelhos, e então a vejo. Eu a vejo ali, flutuando, seu pequeno corpo flutuando. Um grito agonizado rasga minha garganta, e eu me jogo na piscina, pegando seu corpo azul e gelado em meus braços. Eu nado freneticamente para o lado, a coloco no chão e começo a massagem cardíaca imediatamente. — Oh, Deus! — eu ouço o grito de Jennifer. — Liguem para a Emergência! Eu bombeio e respiro, bombeio e respiro, colocando um pouco de vida no meu bebê. Suas bochechas ficam um pouco mais rosadas, e eu posso sentir seu pulso fraco. Ela ainda está viva. Deus, ela ainda está viva. Eu rezo enquanto lágrimas correm pelas minhas bochechas, rezo para que ela sobreviva, rezo para que a única coisa que ela ama não seja aquela que vai tirá-la de mim. Deus, por favor. ~ 36 ~


*****

— Eu sinto muito, Sr. Black, nós fizemos tudo que podíamos, mas lamento em dizer que Shylie faleceu. As palavras chegam até mim, mas não penetram. Eu olho para o médico grisalho e careca na minha frente, o que está me dizendo que fez o melhor que podia. Como eu sei se é verdade? Como eu sei se ele lutou o bastante? Talvez ele não tenha tentado o suficiente – talvez ele não tenha usado todo o tempo que poderia. Os gritos de Jennifer enchem os corredores, mas eu só fico ali parado, anestesiado. Não pode ser verdade. — Mas ela estava viva quando a ambulância a levou, — minha mãe soluça. — Ela estava viva! — Eu sinto muito, senhora. Havia muitos danos. Ela não conseguiu. Ela não conseguiu. Meu bebê. Minha inocente garotinha. — É tudo minha culpa, — o pai de Jenn chora, sua voz agoniada. — Eu nunca deveria ter colocado uma piscina. Não é estranho como nós fazemos isso? Quando algo horrível acontece, lamentamos as nossas decisões de antes. Se nós pensássemos em tudo antes, talvez pudéssemos prevenir todas as mortes e acidentes. — Lucas? — Jennifer soluça. — Luke? Eu não consigo sentir nada. Não consigo ver. É um sonho – tem que ser. De jeito nenhum a única coisa que eu amo na minha vida com cada parte do meu coração se foi. De jeito nenhum.

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Capítulo Seis AVA PRESENTE Eu tropeço pela calçada, sangue escorrendo pelo meu rosto, pedaços secos de não sei o quê presos na minha roupa. Eu não sei onde estou indo – eu só sei que estou me movimento. Rapidamente. Eles me deixaram ir. Acordei do meu pesadelo e estava sozinha em um beco escuro. O corpo dela não estava mais lá. Eles não estavam mais lá. Eu apenas fui deixada lá... quebrada. Eu levanto. Eu corro. Eu não sei para onde estou correndo. Eu deixei a sua vida ser tirada. Eles atiraram nela por minha causa. Permiti que um secundo de fraqueza entre no meu coração; permiti que a vida dela valesse menos que a minha por tempo suficiente para que ele decidisse fazer isso. Eu teria dado a minha vida. Eu teria, mas em um momento de pura fraqueza cega, fiz a escolha errada – eu disse algo que não queria. Agora ela está morta. Uma garota da minha idade. Uma garota com futuro. Morta por minha causa. Monstro. Eu ando e caio, minhas mãos são arranhadas pelo concreto frio. Um gemido deixa a minha garganta, e eu deixo minha cabeça cair na calçada, soluçando histericamente. Chuva começa a cair lentamente, ensopando meu corpo gelado e anestesiado. Não escuto nada além do meu choro partido. Agarro o chão, tentando tirar as imagens da minha cabeça. Eu não quero ver o rosto dela pelo resto da vida, mas eu vou. Eu apenas sei. — Ei.

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Estremeço e levanto a cabeça, piscando através da neblina e da chuva para ver um homem em roupas de corrida se aproximando. Ele é enorme, maior até que o meu pai, e está tão escuro que eu não posso ver o seu rosto, mas posso ver que ele é lindo. Ele se aproxima, toca meu rosto com o polegar e então o esfrega entre os dedos. — Você está sangrando. Eu não digo nada. Não me movo. Só observo. — Qual o seu nome? — A-a-a-ava, — eu sussurro. — Ava, você está ferida? Sim, muito. — S-s-sim. — Certo, — ele diz, se aproximando de mim com cuidado. — Meu nome é Detetive Lucas Black. Eu vou te tirar da rua, sim? Ele poderia ser um assassino que, nesse momento, eu não me importaria. Eu o deixo me alcançar e me levantar em seus braços. Ele está usando uma camisa de corrida e sua pele está quente. Posso sentir o seu cheiro, e me lembra o do meu pai, de conforto, então eu viro o rosto no seu peito quando ele começa a correr. Ele me leva para a delegacia de polícia mais próxima, provavelmente a mesma onde ele trabalho, e assim que nós entramos eu levanto minha cabeça do conforto da sua camisa para ver uma pequena mulher correndo na nossa direção. — Lucas? — ela pergunta. Acho que ele trabalha aqui. — Abra o meu escritório, por favor, Amelia? Eu a encontrei na rua desse jeito quando estava correndo. — Claro. Você quer que eu ligue para alguém? — Ainda não. Eu preciso ver como ela está. Amelia acena e sai correndo, e eu inclino a cabeça para ver Lucas olhando para mim. Ele tem os olhos castanhos, tão escuros que poderiam ser pretos. Seu cabelo é comprido e bagunçado, mas nesse momento está colado na testa, dando a ele um olhar perigoso. Não é alguém com quem eu mexeria. ~ 39 ~


— Quantos anos você tem, criança? — ele pergunta, estudando o meu rosto. — Quase v-v-vinte e quatro. Ele parece chocado. — Eu vou te levar ao meu escritório e você me contar o que aconteceu, ok? Eu não posso dizer a ele o que aconteceu por mais de uma razão. A primeira é que se eu disser a ele que uma garota morreu pelas minhas mãos, eu vou ir embora para sempre e eu não posso... não posso fazer isso. A segunda são as regras do clube. Meu pai ficaria louco de verdade se eu contasse a um policial o que aconteceu. Inferno, ele provavelmente nem sabe que eu ainda estou viva. Eu vou ter que dar um jeito de sair dessa. — Ok, — eu digo. Lucas se vira e caminha pelo corredor, me levando até um escritório grande. Amelia coloca uma toalha no sofá e Lucas cuidadosamente me ajuda a sentar. Eu grito de dor quando meu traseiro encosta no lugar, e uma dor afiada corre pelo meu corpo e sobe a espinha. Eu fui chutada, abusada e espancada – cada parte de mim dói. — Calma, — Lucas diz, se ajoelhando na minha frente. — Eu vou conseguir umas roupas para você, fazer uma coleta de DNA e pele nas suas unhas e então você pode tomar um banho ao final do corredor. Quando você estiver limpa, vou te perguntar o que aconteceu. Você está bem com isso? Eu aceno. — Certo, criança. Aguente firme. Criança. Como se eu fosse inocente como uma criança. Ele se levanta e minha cabeça cai, meus olhos se virando para o carpete cinza bonito. Fico assim até que ele volta, se ajoelhando na minha frente de novo. Eu fico ali sentada, anestesiada, enquanto ele raspa debaixo das minhas unhas; ele também tira amostras de sangue da minha pele e roupas. Depois ele me entrega uma camisa e um short, assim como uma toalha. Me pergunto se essas roupas são de outras vítimas. Eles lavam as roupas deixadas para trás para entregar a outras pessoas que aparecem por aqui? ~ 40 ~


— Antes do banho, preciso perguntar algo pessoal. Encontro seus olhos. — Ava, você foi... abusada sexualmente? — seu rosto aperta, como se a mera ideia de dizer as palavras o machucasse. Balanço a cabeça. — Não. Alívio passa pelo seu rosto. — Você tem certeza? — Sim, certeza absoluta, — eu sussurro. — Certo. Você quer chamar alguém? Não agora. Não estou pronta para tentar explicar isso. — Depois, — eu sussurro. — Ok. Você precisa de ajuda para levantar? Eu aceno, e ele me ajuda com uma mão na minha e a outra gentilmente nas minhas costas. Quando estou de pé, ele me leva para fora e pelo corredor até um grande vestiário com chuveiros. — Você pode tomar banho aqui, ninguém vai entrar. Eu não digo nada; apenas mantenho os olhos no chão. Lucas espera alguns momentos antes de sair em silêncio. Largo as roupas limpas e entro, ligando o chuveiro e lentamente removendo minhas roupas rasgadas. Quando elas caem no chão, vejo os leves hematomas no meu corpo. Minha garganta se aperta, e quando a água atinge meu corpo, ela começa a ficar vermelha ao lavar meus ferimentos. Eu escorrego lentamente para o chão e choro mais. Não é apenas meu sangue que está escorrendo pelo ralo. É o dela. A garota que foi morta porque eu permiti. Fecho meus olhos e tento lutar com as imagens que insistem em reaparecer na minha mente. Enrolo meus braços em volta de mim e balanço, ouvindo a voz dela se repetindo uma e outra vez em minha cabeça. Não sei quanto tempo fico sentada assim, mas finalmente uma leve batida vem do lado de fora. — Você está bem, Ava? — S-s-s-s-s-sim, — eu coaxo. — Ok. Eu vou estar bem aqui quando você terminar.

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Lucas é legal. Tão legal. Todos são tão legais com mulheres que aparecem quebradas, sangrando? Eu me levanto do chão do chuveiro e o desligo, me enrolando em uma toalha. Tudo dói, mas nada chega perto do vazio no meu coração. Coloco as novas roupas e depois vou direto para a porta. Não olho no espelho. Não quero ver o que eu me tornei. Abro a porta e Lucas está ali parado esperando. Deixo meus olhos caírem para o chão e sussurro, — Obrigada. Estou pronta agora. — Vamos lá, você precisa sentar. Quer água? Eu aceno. Ele me leva de volta para o seu consultório, e eu sento enquanto ele consegue água. Quando tomo alguns goles, ele pega uma cadeira e a traz para perto, sentando na minha frente. — Você está pronta para me contar o que aconteceu, Ava? — Eu... — olho para ele, focando na cicatriz no seu lábio. Será que alguém, alguma vez, machucou Lucas também? — Você vai reportar isso? — Depende do que você me disser. Nós sentamos em silêncio por um tempo antes de eu começar a falar. Eu tenho que mentir. Se eu contar a ele que fui pega por ser quem sou, ele vai atrás do meu pai; se eu disser que foi um ataque aleatório, talvez ele não me obrigue a ir mais longe. Vale a pena a tentativa. — Saí do trabalho na noite de sábado, — eu coaxo. — Estava caminhando até o meu carro quando alguém me atacou. Minha voz se parte e meu corpo começa a tremer. — Tome o seu tempo, Ava. Não há pressa. Nenhuma mesmo. — Eu não... eu não vi nada. Ele me pegou. Espetou uma agulha no meu pescoço. Acordei em um quarto escuro. Não conseguia ver. Não sabia o que estava acontecendo. Sei que eu tentei sair, mas ele me bateu tão duro que eu desmaiei. C-c-c-consegui escapar por uma janela quebrada e voltar para a cidade, e foi quando você me achou.

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Uma mentira nada realista. Eu sei disso. Ele provavelmente sabe disso. — Você viu quem te pegou? — Não. — Você tem alguma ideia de quem te pegou? — Não, eu não ouvi nada. Só sei que me levaram e eu consegui escapar antes que eles executassem qualquer plano que tinham em mente. — Ava, eu vou te fazer uma pergunta séria. Mordo meu lábio. — Havia mais alguém lá com você? Eu pergunto porque parece que o sangue em você não era apenas seu, o que justifica as suas feridas não serem feias o bastante para explicar tanto sangue. Nós saberemos mais quando o DNA confirmar, é claro. Começo a entrar em pânico. Meu coração começa a bater nos meus ouvidos. Eu ofego e abaixo a cabeça. Mais cedo ou mais tarde ele vai descobrir que havia uma garota lá comigo, e eu só posso esperar que ele não faça a conexão. Tenho que continuar fingindo que esse foi um ataque aleatório. Tenho que proteger o meu pai. Lucas põe uma mão na minha, me dando tempo. — Eu não sei quem era. Estava escuro. Eu não podia ver nada. Havia outra pessoa lá, eu não sei quem. E-e-eles a mataram por tentar escapar. É tudo que eu sei. Lucas estreita os olhos, mas não empurra. — Ok, obrigado, Ava. Se você não se importa, eu gostaria de tomar um depoimento completo e depois você está livre para ir, mas nós precisamos conversar de novo. — Ok, — eu sussurro. — Você fica aqui, descansa, se deita, seja lá o que precise. Eu vou fazer algumas ligações e depois vou te levar ao hospital para ter certeza de que nenhum desses ferimentos é perigoso. Decidimos o que vamos fazer depois, ok? — Ok. Ele se levanta e olha para mim. — Você fez a coisa certa me contando o que aconteceu. Descanse, Ava. Eu vou cuidar disso. ~ 43 ~


Sim, mas quem vai cuidar de mim?

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Capítulo Sete AVA PRESENTE — E você não se lembra de haver penetração ou qualquer tipo de assédio? — o médico pergunta, duas horas depois quando sento no seu consultório. — Não, — eu sussurro. — Ok, Ava. Eu vou dar uma olhada em você, ver essas feridas, ter certeza de que você está bem. Se em algum momento você precisar que eu pare ou sentir dor, quero que você me diga. Ele tem os olhos gentis, o médico. Isso é algo que eu nunca notei em alguém antes, mas depois de ter sido levada por um monstro de olhos frios, de repente posso ver tanto por trás do olhar de alguém. Me pergunto se meus olhos mudaram. As pessoas conseguem olhar dentro deles e saber o que eu fiz? — Se deite. Eu vou fazer isso o mais rápido possível. Eu me deito de costas e me levo para outro lugar. Algum lugar legal. Penso em minha família e momentos felizes. Momentos que eu me pergunto se algum dia terei de novo. Como eu vou me recuperar disso? Como vou me sentir normal outra vez? O buraco vazio no meu estômago vai se curar? Meu coração vai voltar a bater? É assim que eu vou me sentir pelo resto da vida? Quebrada, fria e sozinha? — Ok, Ava, nós terminamos, você pode se sentar agora. Eu me sento, meu corpo está machucado e dolorido, e eu observo enquanto ele junta suas coisas e me assegura que vai voltar logo. Eu fico ali sentada em silêncio, perdida em meus pensamentos, esperando ele retornar. Isso logo acontece, e Lucas vem com ele. Ele fecha a porta suavemente e se vira para nós. — Eu fiz um exame completo. Ela tem ~ 45 ~


uma concussão leve que vou ter que monitorar. Preciso costurar a ferida na sua bochecha e prescrever alguns antibióticos para prevenir qualquer infecção. Além disso, tudo parece bem. Os hematomas vão sumir com o tempo. — Obrigada, doutor. Por favor, envie um relatório completo para a delegacia o quanto antes, — Lucas diz. — Eu vou, obrigado, Detetive. Detetive. Lucas é policial. Ele já tinha me dito isso? Pegando meu braço, Lucas me leva para fora do hospital. Quando chegamos à delegacia, dou um depoimento completo, minha voz é monótona enquanto eu revivo a minha mentira. Lucas grava tudo e faz perguntas, mas há outro policial na sala também. Eles então leem os meus direitos me dão as opções que posso tomar. Eu apenas lhes digo para fazer o que for preciso, esperando que eles não descubram nada. Assim que terminamos, sou levada para o escritório de Lucas. — Eu posso ligar para alguém? Alguém para te levar para casa? — ele pergunta, estudando meu rosto. — Não, — eu sussurro. — Eu vou ir sozinha. — Eu não posso deixar isso acontecer, então eu vou te levar. Você precisa seguir as recomendações do médico, também. Para prevenir a infecção. Eu aceno, olhando para as minhas mãos. Lucas fica em silêncio por um segundo antes de se agachar na minha frente e segurar minhas mãos. — Olhe para mim, Ava. Levanto os olhos e encontro os dele, tão escuros. Eles parecem vazios, ainda que estejam me dando tanta bondade. Ele tem um rosto áspero e perigoso, mas consegue fazer com que eu não sinta nada além de conforto na sua presença. Esse é o tipo de homem de quem meu pai e seu clube fogem, o tipo de homem que eles desprezam, mas é ele que está caminhando comigo nessa hora mais escura. Lucas é perigoso, um herói perigoso. — Você vai passar por isso. Eu sei que não é assim que você se sente agora, mas eu te prometo, um dia a luz vai brilhar de novo. Você tem que ser forte – você me promete que será forte?

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Eu olho nos seus olhos. — Ele tirou uma inocência de mim que eu não acho que posso recuperar. — Pode ser, mas você sabe o que ele não pegou? O que ninguém pode fazer sem a sua permissão? Balanço a cabeça. Ele coloca uma mão contra o seu peito. — O seu coração. Ele é seu para dar. Também é seu para destruir. Não o destrua, Ava. Lute contra isso, chegue do outro lado, se torne alguém, volte para as pessoas – supere. Não deixe que isso leve quem você é. Meu lábio treme, mas as lágrimas não vêm. Simplesmente não há mais o que sair. — Eu não sei como fazer isso. Eu não sei nem por onde começar. — Você acha um jeito de se sentir melhor e, lentamente, você começa a sair da escuridão. — Realmente há um fim para toda a escuridão? Seus olhos brilham com uma dor que é tão familiar agora. Ontem eu nunca teria notado uma dor assim, mas hoje, hoje eu posso ver porque é a mesma dor que está nos meus olhos. — Eu honestamente não sei, Ava, mas o que eu sei é o sol sempre vai vir amanhã. Você só tem que aprender a abraçar isso. Eu aceno tremente. — Promete que você vai tentar? — Prometo, Lucas. Eu vou tentar. Mas promessas foram feitas para serem quebradas.

*****

Lucas me deixa em casa e promete que irá me ligar se houver atualizações no caso. Eu encaro seus olhos castanhos pelo maior tempo possível antes que ele se incline, aperte minha mão e me deixe ali, sozinha. Eu me viro e olho para o meu apartamento pelo que parecem horas, apenas olhando o espaço escuro que eu não tenho certeza se vai ser capaz de trazer qualquer conforto agora. ~ 47 ~


Dou um passo, então outro, me obrigando a chegar mais perto da escuridão. Meus dedos se curvam em volta da maçaneta e eu só virei a metade quando ouço o ronco baixo de Harley-Davidsons se aproximando. Meu coração para de bater. Eles estão passando por aqui, provavelmente procurando por mim, provavelmente esperando que eu esteja aqui, a salvo. Meu pai não vai deixar para lá e esquecer o meu desaparecimento. Ele vai querer a história, e eu tenho medo que se ele vir o quanto estou quebrada, vai odiar a si mesmo pelo resto da vida. Eu me apresso o mais rápido que meu corpo permite para dentro do apartamento e caminho em direção ao espelho no corredor. Paro em frente a ele e ofego para a garota que vejo, me encarando de volta. Essa garota não sou eu. Eu não sei quem ela é, mas não sou eu. Seu rosto está machucado e ferido, seus olhos estão vazios e quebrados, e seu rosto é um que eu nunca vi antes na vida. Dou um passo para trás, apertando o peito. As Harley-Davidsons param do lado de fora. Botas pesadas fazem seu caminho até a minha porta. Bang bang bang. — Ava? Você está aí? Por favor, me diga que você está aí. Papai. Eu me abraço, apertando os braços com mais e mais força ao meu redor, até que sinto que não posso respirar. — Ava? Se você estiver aí, abra. Eu começo a chorar. — Baby? Escorrego pela parede, puxando os joelhos contra o peito. A porta sacode, então há mais vozes, Deus, há mais pessoas. — Eu tenho a chave, Jacks. Danny. Não. — Como você tem uma chave? Spike. Eu começo a chorar mais forte. ~ 48 ~


Eu não quero que eles me vejam assim. Não estou pronta para explicar, para contar a história que estou com tanto medo de dividir. Com tanto medo realidade que faz de mim um monstro. Eu não era tão forte quando pensei que fosse. Eu não lutei. O homem queria me mandar quebrada de voltar ao meu pai; ele queria destruí-lo através de mim. Eu não posso fazer isso com ele, mas como diabos eu vou ser normal de novo? — Ela me deu uma. Nós somos melhores amigos, coroa. Lembra? — Vocês dois calem a boca. Me dê a chave, garoto, — meu pai late. — Fica frio, chefe, — Danny grunhe. — Ela vai estar aqui. Eu ofego, deixo minha cabeça cair nos joelhos e espero. Eu não tenho a energia para correr, mesmo se quisesse. A porta se abre, as luzes piscam e então eu ouço – um som que eu nunca quis ouvir escapar dos lábios do meu pai. O som dolorido, quebrado e áspero de um homem quando ele vê a sua filha, a sua garotinha no chão, soluçando, quebrada. Ele não precisa ver os meus olhos para saber que eu não estou mais aqui. Ele apenas sabe. — Merda, — Spike diz baixinho. — Ava? — Danny sussurra. Uma mão quente toca a minha bochecha, suave e gentil. Eu viro meu rosto para ela, porque preciso disso. Preciso do meu pai. Preciso que ele faça tudo ir embora. Eu preciso que essa dor deixe o meu peito. Quero que ele me diga que isso é apenas um sonho, e que tudo ficará bem. — Baby, olhe para mim. Eu levanto a cabeça, e meus olhos encontram os seus. Eu não perco isso – o momento em que ele vê o meu rosto. Seus olhos estudam os meus, então se tornam gelados. Eu só vi esse olhar no rosto do meu pai algumas vezes ao longo dos anos. Sua mão grande desliza para cima, sobre a minha bochecha inchada. — Quem. Fez. Isso? Quem te machucou?

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Eu nunca ouvi a sua voz assim. Por um segundo eu não a reconheço, e me afundo em mim mesma. Spike se ajoelha na minha frente também. Seus olhos castanhos analisam o meu rosto, se movem sobre o meu rosto, procurando por respostas. Danny só fica ali parado, me olhando, parecendo alguém que acabou de matar o seu melhor amigo. — Eu... — eu tento falar, mas minha voz é patética e fraca. — Ava, quem fez isso, porra? — Jacks, — Spike diz calmamente. — Não grite. Olhe para ela – olhe para ela, porra. Alguma coisa aconteceu; ela desapareceu há quase dois dias. Você precisa respirar. Meu pai para e seu rosto suaviza. — Baby, — ele diz, machucado, ferido. — O que aconteceu? — Eu... eu não... eu não sei. — Você não sabe? — Eu... eu estava indo até o meu carro depois do trabalho, — eu engasgo. — Eu não... eu não o vi... O rosto do meu pai endurece e ele cobre a minha bochecha com delicadeza, embora pareça que ele vai explodir a qualquer momento. — Ele? — ele morde. — Jacks, se levante, vá lá fora, respire um pouco. Me deixe falar com ela. — A minha garota está ferida, — meu pai late, — Eu não vou deixá-la. Alguém a pegou e machucou, porra. — Jacks, — Spike rosna. — Agora. Eles olham um para o outro, veneno em seus olhos, mas meu pai se levanta e sai irritado. Eu ouço algo bater. Então, quebrar. Danny não se move. — Me diga o que você viu, princesa? — Spike diz, curvando a mão na minha nuca de forma carinhosa. Eu já o vi fazer isso com Ciara e Mercy. Conforto. — Eu não vi nada na hora, — eu sussurro. — Eu apenas estava andando e então... ~ 50 ~


— Então o que, preciosa? — Então eu acordei em algum lugar escuro. Eu não sei quem me pegou – ele nunca me disse o seu nome. Havia outra garota. Eu não sei quem. Eles estavam falando coisas sobre o papai e... Deus... — Eles te...? — Estupro. Se eles me estupraram? É isso que ele quer perguntar. A pergunta que todos temem. — Não, — eu coaxo. — Você tem alguma ideia de quem ele era? Meu pai vai descobrir quem era, porque em breve o homem com quem ele estava trabalhando vai receber uma ligação dizendo que sua filha está morta. Eu não posso mentir sobre isso, mas posso mentir sobre o que fiz para mim. Posso mentir e dizer a eles que não tive escolha, quando na verdade eu tive. Eu poderia ter feito mais. Eu poderia ter escolhido a mim mesma. Eu a deixei ser morta. Eu fiz a escolha. — Era um h-h-homem e ele disse que queria se vingar do meu pai e de outro homem... — Você o viu? — Não. Mentira. — Ouviu algum nome? — Não. Mentira. — Onde isso aconteceu? — Eu fui levada do trabalho... mas não sei para onde. — E eles apenas te deixaram ir? — Spike, — eu soluço, minha voz quebrada. — Não. Ele fica quieto. — Garota, me diga o que aconteceu. Eu começo a chorar com tanta força que não consigo respirar. Não quero dizer as palavras. Não quero que eles saibam o que isso está fazendo comigo. Isso é o que o homem queria. É o que ele sabia que

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machucaria o meu pai. Ele sabia que isso o quebraria. Ele sabia que me ver afundar seria a sua perdição. — Fale comigo, — Spike diz suavemente. — O homem disse que papai estava trabalhando com outro homem, — eu soluço. — Ele disse que precisava enviar um recado. Ele pegou a filha dele, também. — E o que aconteceu? Eu estremeço. — Pai, pare. Ela está quebrando. Chame Jacks. Spike se levanta, acenando. No minuto em que ele se foi, Danny cai de joelhos na minha frente, me puxando em seus braços. Eu agarro a sua camisa, pressionando meu rosto no seu peito. — Você vai ficar bem. Eu estou aqui. Nós temos tudo coberto. Eu choro mais. — Me dê a minha filha. Papai. Levanto a cabeça e o vejo caminhando na nossa direção, seus olhos mais suaves agora. Ele está tentando desesperadamente parar a dor que aparece no seu rosto. Danny se move para o lado e meu pai se abaixa, me puxando para os seus braços. Ele me carrega para o sofá e fica ali me segurando contra o seu peito, me deixando respirá-lo. — Eu preciso que você me diga o que acontece, menina. Eu preciso saber para poder proteger você. — Eu não sei quem ele era. Ele só disse que estava enviando uma mensagem porque você estava trabalhando com alguém contra ele. Eu... ele... pai, ele a matou e então me deixou ir. Silêncio. — Bebê, — meu pai rasga. — Meu bebê. Eu sinto muito. — Eu... eu... Eu não posso contar a ele o que eu fiz. Eu não posso contar o que aconteceu. — Eu não vi, — eu minto. — Eu só sei que ele fez isso, então me mandou ir embora e disse que eu era a mensagem. ~ 52 ~


— Filho da puta, — Spike late. — Calma, Spike, — meu pai diz. — Agora não. Danny, ligue para Addison e Serenity. Agora. — Pai, — eu coaxo em seu peito. — Estou com você, querida. Tudo vai ficar bem, me ouviu? — Me desculpe, — eu raspo. — Não se desculpe. Porra, nunca se desculpe, baby. Ele me segura apertado por um longo, longo tempo. É só quando a porta da frente se abre, e eu ouço o choro da minha mãe e o ofego afiado da minha irmã, que eu sei que não estamos mais sozinhos. Meu pai me solta e eu estou instantaneamente nos braços da minha mãe, e ela está chorando, soluçando e me abraçando apertado. — Pai, — Addi sussurra. — O que aconteceu? — Ela está bem, — papai diz. — Apenas abalada. — O que aconteceu? — Addi pergunta de novo. — Nada para você se preocupar. — Pai... — Addison, eu disse não — sua voz não permite mais discussão. — Baby, — minha mãe sussurra. — Você está bem? Isso é o que ele queria; ele queria que eles me vissem assim, quebrada. Tomo uma respiração profunda e levando a cabeça, secando as lágrimas. — Eu estava com medo, mas agora tudo vai ficar bem. Minha mãe me dá um sorriso fraco e se senta ao nosso lado, me puxando em seus braços. Eu me obrigo a retribuir. Tenho certeza absoluta que nós duas sabemos que essa é uma maldita mentira.

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DOIS DIAS DEPOIS Há uma batina na minha porta naquela tarde. Eu mal me movi do sofá desde a noite que vim para casa. Meus pais vêm aqui três vezes por dia, mas vesti uma máscara de coragem e os coloquei para fora, porque agora mesmo eu não posso lidar com nada nem com ninguém. Mas quanto mais tempo eu fico deitada no antigo sofá, mais difícil é lutar contra o buraco escuro no qual estou me afogando. A batida continua e continua. Meu pai tem pessoas que vêm aqui de hora em hora, e ele instalou um sistema de alarme caro, me fazendo prometer sempre deixá-lo ligado, e se eu sair, devo avisá-lo onde estou indo, então ele vai saber se não voltei para a casa quando deveria. Eu fico de pé e caminho lentamente até a porta. Seguro a maçaneta e abro, parando de repente quando vejo o Detetive Lucas parado na minha porta, os braços cruzados, encostado contra a grande ripa de madeira que forma a minha pequena varanda. No momento em que me vê, ele se endireita. Eu o encaro. Na noite em que tudo aconteceu, eu não prestei muita atenção no homem que foi tão bondoso comigo. Eu não percebi o quanto ele é bonito. Ele não é bonito como um modelo de capa de revista, mas de uma forma perigosa, mortal. Seus olhos castanhos têm algo que eu não notei antes, e seu cabelo, que eu assumi que estava apenas bagunçado, parece mais rebelde e selvagem hoje. Ele tem uma barba de três dias cobrindo o rosto. Ele dormiu desde que eu apareci ou, como eu, teve os pensamentos daquela noite ocupando a sua cabeça? — Ava, — ele diz, sua voz mais áspera do que eu me lembro. Eu não lembro muito daquela noite, exceto a sensação de ser repentinamente rasgada em pedaços. Ainda assim, o vendo parado aqui, não posso pensar que ele não é a mesma pessoa que me encorajou a continuar respirando, a continuar lutando. Esse homem parece perigoso, um pouco assustador e completamente quebrado. Ele é o tipo de quebrado que vai findo. Eu posso dizer só de olhar em seus olhos. Ele usou uma máscara comigo aquela noite? Ele estava sendo gentil porque eu estava muito danificada? Agora a máscara caiu. Eu posso ver a dureza das linhas dentro do seu coração, assim como a dor que há por trás dos seus olhos. Eu acho que é altamente possível ~ 54 ~


que Lucas seja a pessoa mais quebrada que eu já conheci na vida. E eu nem sequer o conheço. — O q-q-que você está fazendo aqui? — Eu queria ver como você está, falar com você, deixar você saber o que está acontecendo. Eu o estudo de novo. Ele é alto, muito alto, e tem tatuagens aparecendo por fora da sua camisa branca de botões. Será que todo seu corpo é assim? Ele tem a tatuagem de uma mulher ou um bebê, ou talvez um irmão ou irmã marcada na pele, que explicaria todo o dano escrito sobre o seu rosto? — Eu... ok, — eu digo baixinho. — Entre. Eu abro a porta e ele dá um passo para dentro quando uma voz explosiva o para. — Que porra você está fazendo aqui? Lucas endurece e se vira lentamente. Papai, Cade e Muff estão subindo os degraus da frente, seguidos pelo prospecto que estava cuidando da minha casa mais cedo. Eu não os ouvi chegar porque eles vieram no carro de Muff. Sem aviso. Provavelmente era uma ronda sorrateira, ou talvez eles tenham recebido uma ligação e estavam pela área. Meu pai para na frente de Lucas com seus grandes braços cruzados sobre o peito, furioso, como se ele o conhecesse. Ele o conhece? — Jacks, já faz um tempo, — Lucas diz, sua voz dura e diferente de qualquer voz que eu já o ouvi usar. — O que diabos você está fazendo na entrada da casa da minha garota, Shadow? Lucas se vira e olha para mim, choque em seus profundos olhos castanhos. Quem diabos é Shadow? — Eu estou... — Lucas começa, mas eu o interrompo. — Ele é policial. Ele me encontrou na rua depois que fui sequestrada, — eu digo, minha voz tão patética que eu mal a reconheço. Meu pai olha para mim, seus olhos azuis gelados – eu sei que ele está se perguntando o que eu contei a Lucas. Então eles piscam de volta para Lucas. — Você a ajudou? ~ 55 ~


— Eu a encontrei. Ela me disse o que aconteceu, e eu me certifiquei que ficasse tudo bem, — Lucas diz, sua voz apertada. — E o que exatamente ela te disse? Eu estremeço. Lucas estreita os olhos. — Tenho certeza que ela te contou o que aconteceu, Jackson. Não é algo meu para compartilhar. Por que, você tem alguma informação de quem a pegou? Parece bem suspeito. Eu me pergunto se você sabe porque algo assim aconteceria. Algo pisca nos olhos do meu pai, e eu sei que ele sabe que eu não contei nada a Lucas, porque se eu tivesse feito, ele não estaria fazendo essas perguntas como se meu pai tivesse algo a ver com isso. — Não faço a porra da menor ideia de quem a pegou. Eu só sei que seja lá quem for, vai pagar quando eu descobrir. — Eu e você, — Lucas murmura. — E, acredite, eu vou descobrir. Eu sempre descubro. Os dois se olham em um desafio profundo e assustador. — Eu não sei o que você pensa que sabe, Detetive, mas posso te garantir, está tudo errado. Meu clube não tem nada a ver com isso. Você está apenas mostrando as garras porque esteve anos esperando para conseguir algo de mim, e nós dois sabemos porquê. Lucas se inclina para frente. — O que eu sei, Jackson, é que os seus malditos garotos sabem mais do que estão dizendo, e eu não vou descansar até descobrir o que aconteceu com ela. Você pode vir com essa sua besteira de merda até o fim dos tempos, mas eu sei quem você é, e sei do que você é capaz. Por que eu tenho a sensação de que a ela a quem ele está se referindo não sou eu? Na verdade, parece que os dois se conhecem, e seja lá qual foi a história que os aproximou, não é bonita. Meu pai dá um passo à frente, os punhos fechados, mas Cade coloca uma mão ao redor do seu braço, o puxando para trás. — Agora não, Prez. Agora não. — Pai? — eu sussurro. Ele vira para mim, os olhos suavizando. — Sinto muito, bebê. Como você está se sentindo?

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Eu dou de ombros. — Se você não se importa, eu quero ouvir o que Lucas tem a me dizer. — Você quer que eu fique? Balanço a cabeça. — Certo, mas vou estar esperando aqui fora. — Pai... Seus olhos brilham. — Estou esperando, garota. Eu suspiro e olho para Lucas. — Nós podemos falar aqui dentro. Ele acena e olha para o meu pai, que aperta a mandíbula antes de sair do meu apartamento. Eu fecho a porta atrás dele e a fecho, Lucas se vira para mim. — Eu não sabia que o seu pai era um motoqueiro. — Você quer algo para beber? — eu digo, tentando evitar a sua declaração. — Não, obrigado. Eu aceno e gesticulo para a mesa, onde nós dois sentamos. — Só para você saber, garota, seu pai é quem está sendo investigado nessa história toda. — Ele não teve nada a ver com isso! — eu estalo. A última coisa que eu preciso é de um policial fuçando no clube. Isso nunca acaba bem. Meu pai pode ser um homem bom, mas ele ainda pertence a um clube de motoqueiros, e isso significa que ele faz coisas que não deveria. — Você foi levada e espancada, parece que alguém estava tentando enviar uma mensagem. Faz sentido. — Ele não fez nada, Lucas, — eu sussurro. Ele estreita os olhos, mas não empurra. — Como você está se sentindo? — Estou bem. — Você mente para todos que tentam te ajudar? — sua voz é calma, inabalada. Intensa. ~ 57 ~


Eu recuo. — Eu não estou mentindo; estou superando. — Algo aconteceu aqui – algo que faz seus olhos parecerem tão assustados que me dói até olhar para você. Me conte ou não, mas de algum jeito eu vou acabar descobrindo, Ava. — Eu não pedi a sua ajuda, Detetive, — eu digo, minha voz aguda. — Aconteceu de você me encontrar, e eu te disse o que eu sabia. — É o meu trabalho descobrir, e eu vou. Eu não digo nada. Apenas o encaro. Ele é tão perigoso e escuro, como uma sombra. Shadow2. — Meu pai te chamou de Shadow. Seus olhos brilham – dor, pura e crua. Deus, agora dói de olhar. — Sim. — É o seu apelido? — Era. — E agora? — Agora eu sou apenas Lucas. Acho que ele está errado. Acho que ele é muito mais que isso. Não digo nada. — Vim aqui para te dizer o que nós descobrimos. Conseguimos resultados de DNA pela pele embaixo das suas unhas, mas ainda estamos esperando os resultados de sangue. Rastreamos alguns detalhes, mas infelizmente isso nos levou até um homem morto. Parece que o homem morto tem DNA em comum com esse que estava sob a sua pele, então podemos assumir que quem estava com você agora está morto. Ainda estamos procurando informações sobre a outra pessoa que estava lá com você. Não foi o homem que me levou que eles acharam morto. Ele era muito esperto. Ele armou tudo para que tudo que pudesse levar até ele fosse apagado. O homem morto que eles encontraram deve ter sido 2

―Sombra‖, em inglês. ~ 58 ~


aquele que fez todo o trabalho sujo, e eu não tenho dúvidas de que ele organizou tudo para que ele fosse morto depois de me descartar. Muito, muito esperto. — Então ele está morto, — eu coaxo, comprando a sua história. — Parece que sim, mas nós ainda estamos investigando, — seus olhos correm para a porta da frente, e eu sei que ele está pensando no meu pai. — Ele não teve nada a ver com isso, — eu sussurro de novo. — É meu trabalho me preocupar com isso, — ele diz, se virando para mim. — É o seu trabalho melhorar. Eu aceno. Ele segura meu olhar. Nós dois sabemos que isso não vai acontecer.

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Capítulo Oito LUCAS PASSADO A chuva cai, pesada e espessa, enquanto eu observo o pequeno caixão sendo colocado na terra. Eu já chorei, já gritei, eu me fechei – e agora só estou entorpecido. Jennifer está agarrando meu braço, chorando histericamente. Eu quero confortá-la, quero abraça-la, mas meus braços estão pendurados sem força enquanto eu observo a minha garotinha, minha luz, meu ar, sendo enterrada. Dor agonizante corta a minha garganta, e eu quero rugir. Eu quero gritar. Eu quero fazer tudo ir embora. Não deveria ser ela; ela não deveria ir antes de mim. Ela não deveria sofrer. Eu sou o seu pai, e eu a decepcionei. Eu não ouvi o seu chamado. Eu sabia que ela amava nadar, e não tomei precauções extras para impedi-la de se arrastar aquela maldita cadeira e abrir a cerca. Eu a decepcionei. Minha mãe começa a chorar incontrolavelmente quando coloca uma rosa sobre o caixão. Ela flutua no gigante buraco escuro, e seu choro fica mais forte. As unhas de Jennifer mordem o meu braço, e eu quero afastá-la. Eu só quero que tudo isso acabe. Eu não aguento mais. Eu não posso viver sem Shylie. Eu não posso continuar a viver. Um gemido de dor deixa a minha garganta. Eu não consigo parar, não importa o quanto eu tente. Uma lágrima silenciosa escorre pela minha bochecha. Eu sinto muito, meu anjo. O papai sente muito.

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UM MÊS DEPOIS — Você não pode continuar a me ignorar! — Jennifer grita, suas mãos se fechando em punhos e batendo no meu peito uma e outra vez. — Eu não estou te ignorando, — eu digo, minha voz morta, vazia. — Você está. Eu sei que você está ferido. Eu sei porque eu estou ferida também. — Você não sabe como é! — eu berro. — Ninguém sabe. Ela era minha filha, meu bebê... — Ela era o meu bebê também, — ela grita, me batendo de novo. — Era minha também! — Pare de me bater, — eu lato, agarrando seus pulsos e a empurrando para longe. — Não me bata! — Nós temos que superar isso, Luke, — ela soluça, caindo no chão. — Nós temos que superar isso por ela. Meu coração queima, e eu também me abaixo no chão, pegando ela em meus braços, não sentindo coisa alguma, mas sabendo que ela está certa – nós temos que superar isso. Temos que honrar a memória da minha garotinha melhorando. Ela não gostaria que nós vivêssemos nessa agonia, mas o simples pensamento de não pensar nela a cada segundo do dia me faz querer morrer. — Eu não estou pronto para seguir em frente, — eu rasgo. — Eu sou a sua esposa, — ela soluça, — Eu estou ferida também. — Eu sei, — eu replico. — Eu também a perdi. — Eu sei. Ela pausa. — Nós não podemos continuar assim. — Só faz um mês, porra, — eu digo, a afastando. Estou cansando de ouvir está na hora de melhorar – nunca vai ser hora de melhorar. Ela era minha filha, pelo amor de Deus. Eu nunca vou superar isso. — Eu sei, — ela soluça. — Mas você está se fechando. A cada dia fica pior... Lucas, eu não quero te perder também.

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— Então pare, — eu rosno, me aproximando, — de me pedir para esquecer a única coisa pela qual eu vivia. Seu rosto se parte, e ela se obriga a ficar de pé. — Se é assim que você se sente, — ela sussurra, se virando e saindo. — Jenn, — eu estalo, minha voz quebrada. Ela não ouve. Eu nem ao menos sei se queria que ela ouvisse.

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Capítulo Nove AVA PRESENTE Quando Lucas acaba de me dar todas as atualizações, eu o levo até a porta. Assim que ela se abre, vejo meu pai parado ali fora com Cade e também Danny. Muff se foi. Meus olhos piscam para Danny, que está encarando Lucas. Eu estou perdendo alguma coisa? Meu pai dá um passo à frente, sua mão vem para se enrolar no meu braço, me puxando para o seu lado. Eu estremeço. Ele não nota. Nenhum deles nota, exceto Lucas. Seus olhos param em mim, e ele pode ver. Meu interior lentamente se partindo. — Você acabou aqui? — meu pai pergunta. Lucas tira os olhos de mim. — Sim, acabei. — Ela vai ficar segura? Silêncio. — Eu não posso dar essa informação. Meu pai dá outro passo à frente. — Ela é minha filha, então me diga, Shadow – ela está a salvo, porra? Lucas se inclina para frente, e em uma voz áspera, ele assobia. — Não, ela não está segura ao andar por aí sozinha. Mas bem aqui, bem agora, ela está a salvo. Se ela fosse minha filha, Jackson, eu ficaria de olho. Meus olhos se arregalam. Eu estava certa; Lucas é assustador. — Saia da minha frente, — papai rosna.

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— Por favor, parem, — eu sussurro. — Sim, Prez, se acalme, — Cade diz, seus olhos em mim. — É hora de você ir embora, — meu pai diz a Lucas. — Eu já estava indo, — ele grunhe, então se vira para mim. — Se precisar de alguma coisa, me ligue, sim? — Ela não vai precisar de nada, — meu pai late. Meu peito aperta. Lucas mantém os olhos em mim. Eu murmuro yeah. Ele entende. Ele entende algo que ninguém mais consegue. Eu só não sei o que é.

*****

— Você está bem, baby? — meu pai pergunta assim que Lucas se vai. — Sim, — eu digo, evitando o olhar de Danny que está firmemente cravado em mim. — Eu só preciso dormir. Estou um pouco cansada. — Certo, mas eu vou manter uma vigília aqui, de qualquer maneira, — meu pai diz pressionando os lábios na minha testa. — Caso você precise de alguém. — Obrigada, pai, — eu sussurro, pressionando minha bochecha no seu peito. — Sua mãe vai vir mais tarde; deixe ela entrar, certo? Eu sorrio fracamente. — Eu vou. — Ela se preocupa, mas ela se importa, Ava. Se lembre disso. — Eu sei, pai. Ele me abraça forte e dá um passo para trás. Cade me estuda e então entra, curvando a mão ao redor da minha nuca e me dando um beijo na testa. — Fique firme, princesa. — Eu vou, obrigada, Cade. ~ 64 ~


— Ligue para Skye. Ela está preocupada. — Eu vou, — digo de novo. — Certo, garoto, — papai diz para Danny. — Vamos dirigir. Nós temos merda para fazer. — Na verdade, eu pensei em ficar com Ava, — Danny diz, não tirando seus olhos de mim nem por um segundo. Papai me olha, então para Danny. — Ela disse que quer descansar. — E eu vou deixar isso acontecer. Eu vou sentar e olhar enquanto ela faz as suas coisas. Meu pai sorri. Ele confia em Danny, e é mais fácil para ele, sabendo que Danny está aqui. Danny sabe disso, e é exatamente por isso que ele concordou em ficar. — Certo, me ligue mais tarde, baby, — meu pai diz para mim, antes de sair com Cade. Quando eles se vão, Danny se vira para mim com os braços cruzados. — Por que você faz isso? — eu pergunto gentilmente. — Porque eu sou seu amigo, seu melhor amigo, por sinal, e há algo nos seus olhos que eu não gosto, porra. Então eu vou ficar até ter certeza de que você está bem. Isso vai ser nunca. Mas eu não discuto. Estou cansada de discutir. — Ok, — eu digo, desaparecendo no meu quarto. Eu durmo por não sei quantas horas, mas acordo com os gritos estridentes de uma garota. Eu pulo de pé, suando, ofegando, meu coração correndo, e olho ao redor. Leva alguns minutos para perceber que os gritos não vêm de outro lugar que não da minha cabeça. Pressiono uma mão sobre o peito e controlo minha respiração. Eu gritei? Será que Danny sabe? Seco a única lágrima que escorre pela minha bochecha e pulo da cama. Eu preciso de uma distração. Coloco uma máscara de coragem e vou lá para baixo. A única maneira que vou proteger o meu pai da dor que foi mandada para ele é agindo como eu mesma outra vez. ~ 65 ~


Vai ser a coisa mais difícil que já fiz, mas vou fazer por ele. Eu chego no andar de baixo e as luzes estão baixas, fracas. Danny está de pé na cozinha, uma garrafa de uísque na mão, dois copos na outra. Ele os levanta. — Ouvi que você acordou. Achei que fosse precisar disso. Eu gritei? Se sim, ele não vai me dizer. Estou grata por isso. — Que horas são? — Meia-noite. Meus olhos se abrem. — Você ainda está aqui? — Eu sempre vou estar aqui. Meu coração dói com essa declaração. Ando para frente, e ele serve um copo de uísque. Eu o pego, todo de uma vez e ele enche de novo. Então ele acha um lugar no chão e se senta, em silêncio. Nenhum de nós diz nada por um longo, longo tempo. — Como você está de verdade? — ele finalmente pergunta. — Eu sinto que estou morrendo, — eu sussurro. — Ava, você precisa falar, nos deixar entrar. — Para que, D? — eu pergunto, olhando para ele. — O que isso vai fazer? Não vai mudar nada. A única coisa que vai melhorar as coisas é o tempo, e isso parece tão longe. — Você pode falar comigo, desabafar, tirar isso do seu peito. — Eu estava machucada. Isso foi... — eu engasgo com as minhas palavras, — horrível. Mais do que você pode imaginar. Danny nos serve outra dose. Ele me conhece. Ele sabe que não há nada a dizer que vai me fazer sentir melhor, mas ele estar aqui, me dando apoio, bebendo comigo, já é o bastante. — Bem, eu estou aqui. Você sabe. Eu sei. Nós batemos nossos copos e bebemos mais. Isso alivia a dor.

~ 66 ~


Depois de seis doses, acabou. A dor no meu coração, a dor que esteve queimando o meu estômago por dias diminui e eu me sinto livre, consigo respirar de novo. Eu rio, eu gargalho e falo sem inibição. É como se nada tivesse acontecido. Talvez tenha sido apenas um sonho ruim. Então eu bebo mais e mais, e continuo fazendo isso até que toda e qualquer parte de mim esteja anestesiada, e a única coisa que posso sentir é o tremor da risada em meu peito enquanto eu e Danny deitamos um ao lado do outro. — Você se lembra quando Skye caiu na frente daquele garoto da escola com que ela estava querendo sair? Eu rio algo. — Deus, pobre garota – ela tropeçou e caiu bem na frente dele. — E aterrissou de cara. Nós dois gargalhamos. — Mas ela era tão linda que ele a chamou para sair mesmo assim, — eu bufo. — Ela é tão linda que não importa o que aconteça, ela sempre é alguém que vale a pena chamar para sair. — Então por que você não fez isso ainda? — eu provoco. — Você sabe muito bem porquê. Cade iria perder a cabeça. Addi iria atirar em mim. — Acho que você está exagerando. Ele bufa. — Você sabe que não. — Ok, você não está. — Então eu apenas tenho que olhar de longe enquanto ela se casa e tem filhos lindos. Eu tusso. — Você está indo longe demais. Ela ainda é jovem e está se divertindo. Ele me dá um olhar que diz que ele gostaria de ser o cara com quem ela está se divertindo. Eu não o culpo. Nós conversamos toda madrugada, e eu caio no sono com ele ao meu lado na cama, e é um sono sem sonhos, durmo como uma morta. ~ 67 ~


Até de manhã. Quando tudo aparece de volta. E eu começo a procurar por alívio de novo. E minha vida espirala fora de controle.

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Capítulo Dez LUCAS PASSADO — Onde está Jennifer? — a mãe dela pergunta, entrando na minha casa três meses depois que minha filha faleceu. Eu sei o que ela vê – uma bagunça horrível e fedorenta. Eu não me importei com muita coisa além de comer, dormir e tomar banho às vezes. Todo o resto ficou como estava, incluindo o quarto dela. Eu não estive lá desde que a perdi. Eu não... eu não posso. — Não sei, — eu murmuro, olhando vagamente pela janela. — Provavelmente se embebedando. — Lucas, — ela diz suavemente, me olhando. — Ela está bebendo porque está machucada. — Ela está machucada? — eu rio amargamente. — E eu não? — Querido, você não pode continuar fazendo isso. Você não pode continuar se afogando. Você tem um trabalho e uma esposa... — E não tenho filha, — eu assobio. — Não é isso que ela iria querer para você. Eu a encaro. — Não me diga o que ela iria querer. — Lucas, querido, nós dois estamos sofrendo, inferno, todos nós estamos, mas vocês precisam se apoiar. Foi um acidente. Ela se foi nos deixe chorar por ela e tentar arrumar o que foi quebrado. — Você poderia apenas superar se Jenn morresse? — eu lato e ela estremece, seus olhos, pálidos e quebrados, afundam ainda mais. — Lucas, — ela sussurra. — Bem, então, você poderia? ~ 69 ~


— Claro que não... — Então não sente aí e me diga como devo lidar com isso. Ela era minha filha. A única coisa que eu amava mais que a minha própria vida. Ela se foi. Ela se foi porque eu não a protegi quando deveria; ela se foi porque você insistiu em ter aquela maldita piscina estúpida! Eu sei que são as palavras erradas no segundo em que elas saem dos meus lábios, mas não me importo em tomá-las de volta. O vazio no meu peito cresceu para um buraco maldito e qualquer emoção do meu corpo se foi. Sua mãe tropeça para trás, a mão apertando o peito. — Você não... você não... — Apenas saia, — eu digo, minha voz quebrando. — Apenas saia. Ela se vira e sai soluçando. Eu me viro e encaro a parede sem sentir coisa alguma.

*****

— Não me julgue! — Jennifer berra, jogando as mãos no ar. — Você tem o direito de sentar aqui e sofrer, mas não me deixa lidar com isso da minha própria maneira! — Beber não é lidar com isso. Eu posso estar sofrendo, mas não estou me afogando, — eu murmuro. Ela bufa. — Eu só estou tentando superar, como você. Dou de ombros. — Que seja. — Droga! — ela grita. — Eu sou a sua maldita esposa. Quando isso vai ter fim? Eu olho para ela; realmente a observo. Ela está mais magra, seu rosto mais fino, seu corpo mais frágil. Ela tem feito mais que beber – está claro agora. Ela sempre teve um problema com álcool, mas eu nunca esperei que isso evoluísse para drogas. — Quando você começou a usar drogas? Ela estremece. — Eu não sei de que porra você está falando.

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— Não? — eu rio amargamente. — Porque você deve lembrar que eu sou um policial, e já muitos viciados. — Você não é um policial. Nesse exato momento, você é a casca patética de um homem. Você pode imaginar o que ela acharia de você agora? Seu papai, se afundando em si mesmo, se matando em vez de se curar. Raiva atravessa a minha visão. — Curar? — eu lato. — O que você está fazendo então, Jennifer? As drogas são o caminho para se curar? — Sim, — ela grita. — Que besteira, — eu berro. — Que besteira! — Você não sabe nada. — Eu sei que você está sufocando a sua dor. Pelo menos eu estou encarando a minha. — Encarando, — ela dá uma risada dura. — Sentando aqui, afundando em si mesmo. É hora de superar, Lucas. É hora de tentar ir em frente. Eu não aguento mais, não aguento! Se você não sair dessa, eu vou embora. Eu a olho diretamente nos olhos. — Ninguém está te impedindo. E exatamente assim, eu continuo a quebrar tudo que importa para mim.

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Capítulo Onze AVA PRESENTE — Como você está indo? — minha mãe pergunta, correndo pela casa, juntando as coisas espalhadas. Eu olho para ela do meu lugar no sofá, um lugar no qual eu estive passando muitas e muitas horas sentada. Eu mal passo por cada dia, e estou tentando manter o rosto firme e provando ser mais e mais forte. — Estou indo bem, — eu lhe dou um sorriso fraco. É uma mentira. Ela faz uma careta e vem até mim, senta ao meu lado e pega a minha mão. — Você sabe que estou aqui por você, Avie. A qualquer momento do dia. Você não tem que passar por isso sozinha. — Eu sei, — eu aperto a sua mão. — É que isso vai levar um tempo. — É assim mesmo. O tempo é bom, o tempo cura, mas não cura sozinho. Estou tão preocupada com você. Eu sorrio. Estou quebrada. Ela sabe, e eu sei. Minha mãe me puxa em seus braços e me abraça, como ela fez tantas outras vezes na última semana. Ela apenas me abraça, porque sabe que é o que eu preciso. Ela conhece a profundidade da minha alma, e isso me traz conforto. Ela e Addi têm sido ótimas, vindo aqui todos os dias, cuidando das coisas. Eu vou voltar a trabalhar amanhã, e estou feliz pela distração. Talvez fazer algo normal vá ajudar a acalmar as vozes na minha cabeça. — Você está animada para voltar a trabalhar? — ela me pergunta, se afastando.

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— Animada e nervosa, — eu admito. — Espero que o novo horário funcione para mim. Meu chefe me deu um novo horário de trabalho depois de mudar a estrutura da empresa. Agora eu trabalho do meio-dia às seis, diariamente. Estou bem com isso, porque me permite recuperar pela manhã da noite anterior. Eu sonho com o rosto dela cada vez que fecho os olhos, e dormir está se tornando mais assustador a cada dia. — Eu acho que vai ser ótimo; vai permitir que você faça o que bem entender pela manhã. Eu aceno. — Isso é verdade. — Vou terminar de limpar e então vamos sair para almoçar, ok? Forço um sorriso e aceno. Vou fazer o que for preciso para protegê-los do rio que corre com raiva dentro de mim.

*****

— Ava, — Michael estala. — Você preencheu errado esses papeis. Eu me mexo em minha cadeira, frustrada. Eu mal dormi essa noite. Tomar algumas bebidas antes de ir para a cama ajudou, mas assim que o efeito do álcool passou, eu fiquei acordada. Esse é apenas o meu terceiro dia de volta ao trabalho e eu mal sou capaz de sair da cama pela manhã. Eu choro mais que sorrio. Eu mal como, e estou bebendo mais do que deveria para tentar encobrir a dor. Isso significa que meu trabalho está lamentável. — Desculpe, — eu sussurro. — Eu... eu pensei que tinha checado tudo. — Bem, você não fez isso. Você precisa terminar isso antes de ir para casa hoje, — ele late. Eu aceno, exausta.

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Michael bate os papeis na minha mesa e vai embora. Eu olho para eles. Nada do que eu faço está certo. Estou correndo e correndo, mas parece não ter fim. Eu ponho a cabeça nas mãos e luto contra o medo, a dor e a depressão. Fazer isso a cada dia está cada vez mais difícil. Eu realmente não sei se sou capaz de aguentar mais. Para onde eu vou daqui, se não há mais força em meu corpo para lutar? Eu termino os papeis, minha mente está um borrão. Quando acabo, os coloco na mesa de Michael e vou embora. Caminho até a porta da frente do prédio, onde meu carro está. Eu não estaciono mais no subsolo. A rua está cheia, e os táxis buzinam enquanto tentam passar em meio ao tráfico lotado. Eu caminho em direção ao meu carro, mas paro quando vejo Lucas encostado contra ele. Eu não o vi desde o dia em que ele me deixou em casa. — Ava, — ele diz quando me aproximo, seus olhos me estudando, se estreitando quando fica claro que ele não gosta do que vê. — O que eu posso fazer por você, Detetive? — eu pergunto com a voz cansada. Ele me estuda, realmente olhando em meus olhos. — Eu queria ver como você está. — Você checa todos os seus casos? — eu pergunto, encontrando seus olhos. Ele pisca, então diz calmamente, — Apenas aqueles que me preocupam. — Por que você está preocupado comigo? — eu digo, ajustando a bolsa em meu ombro. — Eu estou bem. — Vejo que você não se tornou uma melhor mentirosa. Eu recuo. Ele se afasta do carro, sua camiseta preta puxa contra o seu peito enquanto ele se move até a minha frente. Ele é tão alto, tão grande, tão musculoso. Ele é um homem intimidante. Ele olha para mim, seus olhos castanhos cheios de preocupação, seu cabelo escuro caindo sobre a testa. Ele é um lindo homem quebrado. — Eu estou vivendo cada dia, — eu consigo dizer. — Isso é o bastante?

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— Isso realmente não é da sua conta. Ele cruza os braços. — Eu estou fazendo ser da minha conta. — Por quê? — eu sussurro. — Por que você está tão preocupado comigo? Eu só posso pensar em uma razão para você estar aqui, e não tem nada a ver comigo, mas sim com o meu pai e com o seu clube. Lucas recua, e seu rosto se aperta. Ele se abaixa, trazendo o rosto mais perto do meu. — Se esse é o tipo de homem que você pensa que eu sou, criança, então você está muito enganada. Eu achei uma garota na rua a duas semanas atrás, quebrada e assustada. Eu vejo essa mesma garota agora – nada mudou. Eu me preocupo com isso. — Não é sua obrigação se preocupar com isso. Você fez o seu trabalho, — eu digo, minha voz não mais que um suspiro. — Eu decido quais são as minhas obrigações. — Então decida ficar longe de mim, — eu digo, olhando para longe porque não posso encontrar os seus olhos. — Eu estou vendo se você está bem. Não é a porra de um crime, Ava. — Eu estou bem, — eu minto. — Agora eu tenho que ir para casa. Eu passo por ele e entro no carro. Antes que possa fechar a porta, sua mão vem e me para. — Não se afogue, criança. Eu puxo a porta, e ele a solta. — Tarde demais. Isso já aconteceu. Com isso, eu bato a porta e vou embora.

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Capítulo Doze AVA PRESENTE Uma semana depois Coloco minha dose para baixo no balcão do bar e peço outra. Essa é a minha quinta noite nesse lugar, o único lugar que o clube do meu pai não frequenta. Ninguém sabe que eu venho aqui. Ninguém sabe que eu estou afundando mais e mais a cada dose que tomo. Eles sabem que eu continuo lutando. Eles me abraçam quando tenho um dia ruim e cuidam de mim. Eles não são estúpidos, mas não têm muita noção também. Eu estou escondendo bem o meu problema porque é o único jeito de manter as coisas simples, de tirar um pouco da culpa do meu pai. Hoje em dia, eu tenho uma rotina. Levou algumas semanas depois de ver Lucas para encontrá-la, mas eu consegui. Eu saio, bebo até desmaiar, uma vez que isso ajuda os pesadelos e os horríveis sons de gritos, então acordo no meio do dia. Coloco uma cara feliz e me maquio. Meu horário de trabalho mudou, agora trabalho da hora do almoço até às seis da tarde, e então faço tudo de novo. Funciona perfeitamente para mim agora, porque me permite dormir pela manhã, esquecendo o horror que criei na noite anterior. E estou indo muito bem. — Você está aqui de novo, — o bartender, Scott, diz enquanto me serve outra dose de uísque. — Acho que não é da sua conta o quanto eu venho aqui, — eu murmuro, enviando a dose queimando pela minha garganta. O líquido se tornou o único jeito de superar isso.

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— Não, mas eu não tenho que te servir. Estou começando a me perguntar porque uma garota bonita e doce como você faz aqui toda noite, bebendo até não poder andar. — Isso também não é da sua conta. Ele faz uma careta, mas continua servindo. Eu sou uma das únicas clientes essa noite, além de três homens velhos na outra ponta do bar. Se ele me ignorar, vai perder as doses que eu estou batendo no bar, e nós dois sabemos que ele precisa que eu as compre tanto quando eu quero comprá-las. — Como você paga por isso? — Eu tenho um trabalho, — eu gemo. — Eu duvido. Você tem que ficar de ressaca pelo menos até o meio-dia. — Eu trabalho a partir do meio-dia. Ele bufa e vai servir os outros homens. Eu sento e bebo até que o calor corre pelo meu corpo e o peso no meu peito alivia. É uma boa sensação. Tão boa. Uma briga entre os três homens começa no fim do bar e eu decido que essa é a minha deixa para ir embora. Bato algumas notas no balcão e deslizo do meu assento, caminhando na direção da noite limpa e gelada. Eu ando pela próxima quadra de edifícios que leva até um beco que leva à minha casa. Paro por um segundo para sentir a brisa fresca no meu rosto, me inclino contra uma parede de tijolos fria enquanto respiro fundo. Estou balançando em meus pés e é incrível. Estou rindo de mim mesma quando um casal vira no canto e vai em direção aos restaurantes do outro lado da rua. Eu não presto muita atenção neles até que o homem diz, — Ava? Eu estremeço. Meus olhos balançam em sua direção e eu vejo Lucas com uma bonita mulher loira. Deus, eu esqueci como ele é absolutamente de tirar o fôlego. — Detetive, — eu falo embaralhado, o saudando. Seus olhos se estreitam e ele puxa o braço da loira, se afastando dela. Ela me estuda, os lábios franzidos. Ela está me olhando com desgosto. Bem, junte-se ao clube, madame. ~ 77 ~


— Você está bêbada. Não é uma pergunta. — Eu não estou prejudicando ninguém, — eu digo com uma risadinha. — Então você não pode me prender. Lucas para na minha frente, seus grandes braços cruzados sobre o peito. Ele está vestindo uma camisa de botões preta enrolada até os cotovelos, os dois primeiros botões abertos, expondo a pele do bonita e bronzeada do seu peito. Seu cabelo está ligeiramente mais limpo que o habitual, e ele está barbeado, mas seu rosto ainda é forte e perigoso. Ele usa calça jeans preta e botas pesadas da mesma cor, fazendo com que ele pareça mais um membro do clube do meu pai que um agente da lei. Sua mandíbula, sua bela mandíbula, está apertada quando ele olha para mim. — Você é lindo, — eu rio olhando para ele. — Você também é quebrado, assim como eu. Todo fodido por dentro. Seus olhos brilham. — Eu vou te levar para casa. — Não preciso que você me leve para casa, policial, — digo, acenando com um braço. — Eu posso chegar lá por minha conta. Eu faço isso todas as noites. Ele faz um som de dor no fundo da garganta e em voz baixa, diz, — Você faz isso todas as noites? — Sim senhor. — Você está afundando. Você me prometeu que não ia afundar. Eu me inclino para perto dele, e Deus, ele cheira bem. Como hortelã e cerveja e Lucas. — Eu menti, — eu sussurro. — É perigoso você ficar aqui fora sozinha. — O que de pior pode acontecer? Tenho certeza de que já experimentei isso. — Ava, — ele adverte, os olhos faiscando. — Você precisa parar. Eu aceno uma mão novamente. — Luke, nós já podemos ir? — a loira chama. — Luke, — eu imito rindo. — Isso não combina com você.

~ 78 ~


Lucas olha para mim e algo doloroso pisca em seu rosto. Eu calo a boca. — Sinto muito, Sheila, mas eu preciso levar Ava para casa. Sheila. Seu nome é Sheila. Eu ronco e começo a rir novamente. Lucas agarra meu braço e aperta levemente, sem dúvida me advertindo. — Mas nós não temos um encontro? Eu não acho que eles estão em um encontro; acho que ele só está sendo gentil antes de lhe dar um fora. — Vou remarcar, — ele murmura. — Desculpe. — Mas... você vai ir embora por causa dela? Quem é ela, afinal? — Não me questione, — Lucas diz, sua voz suave como o gelo, mantendo a mesma picada congelante. — Vou chamar um táxi para você. — Não se incomode, — ela estala, avançando pela rua e entrando em um restaurante. — Sheila não está com sorte essa noite, — eu rio. Lucas estremece e se volta par mim, os olhos cheios de algo que não consigo ler. — Ande. Ele pega o meu braço e me puxa até a esquina, onde viramos e vamos para uma grande caminhonete preta que é tão enorme que preciso saltar três vezes antes de entrar, depois que ele abre a porta. Ele afivela o meu cinto com um grunhindo e dá a volta, deslizando no assento do motorista. — O detetive dirige um carro grande. — Fique quieta, Ava. — Eu não vou. Ele suspira. — O que diabos deu em você para vir aqui sozinha ficar bêbada? — Eu te disse, eu faço isso todas as noites. Me faz sentir melhor. — E ninguém notou?

~ 79 ~


Meu peito aperta com isso. Acho que eles suspeitam, mas a maioria tem as suas próprias vidas, e na ocasião em que eles me pegaram bebendo, eu apenas disse que era jovem e estava me divertindo. Eles todos compraram isso e viram como algo normal. Dói que eles não assumiram que podia ser algo mais. Realmente dói. — Não, — eu murmuro. Seus olhos brilham. — Essa não é uma boa maneira de lidar, Ava. É apenas uma máscara. — A máscara que eu uso diariamente. Uma máscara que funciona, — eu aponto. Seus dedos apertam o volante. — Até que não funciona mais. — O que você sabe disso? — eu estalo, olhando pela janela. — Mais do que você pensa, criança. — Não me chame de criança. Eu não sou muito mais jovem do que você. — Quase sete anos é muito. Eu pisco. — Você tem trinta? Ele acena com a cabeça. — E daí? Ele pisca. — E daí? — ele repete, claramente assustado com a minha falta de preocupação. — Sim, e daí? Eu não sou uma criança, Lucas. Por favor, não me trate como uma. — Você tem alguns anos para aprender o que eu sei. — Estou bastante certa de que já aprendi lições de vida do jeito certo, — eu falo. Ele estremece. — Você precisa de ajuda, Ava. — Eu não quero ajuda, Lucas. — Então você vai se afogar até não conseguir mais funcionar?

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Eu fico quieta por um momento e depois sussurro. — Eu não consigo funcionar se eu não me afogar. Como você acha que eu faço para atravessar tudo isso? Ele fica em silêncio. Realmente não há mais nada a dizer.

*****

— Como vai o trabalho, princesa? — Muff pergunta dois dias depois, quando eu ando através do complexo. — Indo, — murmuro, mantendo a cabeça baixa enquanto ando até a sala onde sei que Skye está. — Você está bem? Eu paro e olho para cima. Quero dizer que não, eu não estou bem, mas nada sai. Eu faço o que sempre faço. Eu sorrio, mesmo sem querer fazer isso, e o sorriso de Muff se torna maior e ele aceita. Como todos eles fazem. — Estou bem, Muff. Desculpe. Estou apenas distraída. — Não se preocupe. Eu aceno e me apresso. Chego na sala e paro com a mão na maçaneta. Eu respiro, me preparando para mais um ato falos. Hoje está difícil. Hoje está empurrando todos os meus limites. Isso acontece porque na noite passada eu descobri que o álcool não é mais entorpecente o suficiente, que eu preciso beber mais e mais para chegar ao lugar que preciso, e ele não está funcionando como antes. Sem mencionar que estou gastando uma parte do meu salário para comprar essas coisas. Logo eu não vou ser capaz de pagar meu aluguel, e então vou ter muitas coisas para explicar à minha família. Isso tudo me assuntou. Abriu minhas feridas e me lembrou que elas estão lá, ainda cruas. Eu ainda estou quebrada. Se eu não estou totalmente entorpecida, então vejo o rosto dela cada vez que vou dormir. Toda vez que fecho meus olhos, a escutando gritando e pedindo, me dizendo que queria ir para casa. Eu deveria ter ~ 81 ~


tentado tirar nós duas; eu deveria ter dito a ele para me levar; eu deveria ter feito algo diferente do que fiz. — Ei, — Skye diz quando passo na área do bar, onde ela está sentada com minha irmã, Addi. — Ei, mana, — Addi sorri. — Ei, — eu digo, mas parece quebrado e derrotado. — Você está bem? — Addi pergunta, de pé. — Eu estou bem. Estou bem, — eu minto. — Eu só tive uma noite muito longa. Estou exausta. Eu deslizo no banco. Não trabalho esta tarde, o que significa que não tenho essa distração. Já está chegando a hora do almoço e eu estou enlouquecendo, me sentindo inquieta, me sentindo perdida. Uma pequena parte patética de mim está tentando não ir ao bar e beber, mas eu sei que se não encontrar uma outra opção, é exatamente onde eu vou acabar. — Você tem trabalhado muito ultimamente. Está tudo bem? — Skye pergunta. — Claro, apenas alguns projetos grandes. Onde estão todos os caras? — Reunião. Deve ter alguma merda acontecendo, — murmura Addi. — Algo interessante? — eu digo, parecendo desinteressada quando na verdade quero desesperadamente que ela me diga o que sabe. Ela ri. — Mana, você sabe que eu não poderia te dizer mesmo se eu quisesse. Droga. Eu dou de ombros, agindo como se não me importasse. — Verdade. O que vocês vão fazer hoje à noite? — Apenas ver um filme tranquilo, — diz Skye. — Você quer ir com a gente? — Nah. Estou bem, — eu sorrio. — Vou ir me deitar cedo, — eu digo. ~ 82 ~


— Nós temos que recuperar o atraso em breve. Faz eras. — Nós vamos. — Mercy está desesperada por uma noite de meninas. Addi se levanta. — Vou deixar vocês discutirem sobre noite das meninas, pela qual eu também estou morrendo. Vou encontrar meu marido. —Ei, preciosa, Cade está procurando por você, — Spike diz, entrando na sala. — Viram, — diz Addi. — O dever me chama. Skye e eu rimos quando ela desaparece com Spyke, seu braço enrolado no dele, conversando em sua orelha. — Eu também deveria ir, — eu digo para Skye. — Só queria dizer oi. — Nós precisamos recuperar o atraso logo! — Skye. Nós duas viramos e vemos Danny na porta com Max ao seu lado. Seus olhos correm para mim e brilham. — Merda, Formiguinha, eu não sabia que você estava aqui. — Eu já estou indo. — Certo. Mas eu quero falar com você antes, — diz ele, então se vira para Skye. — Você está pronta para ir? — Ir onde? — eu digo, olhando as bochechas de Skye corarem quando ela assente. — Vou levar ela para um passeio. Ela precisa de uma nova jaqueta. Eu sorrio. Danny me encara. Skye cora. — Parece divertido, — eu sorrio. — Ei, Max! — Ei, Ava. Agitando muito? — Não muito. Você vai ir nesse passeio também? Max sorri. — E arruinar esse momento? Não.

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Eu rio. Danny atira a Max um olhar irritado. — Preciso falar com você, Formiguinha. Skye, espere por mim. Danny avança e pega o meu braço. — Você é tão mandão, — eu murmuro enquanto ele me leva para o corredor. — Você não retornou as minhas ligações, — diz ele assim que estamos em um lugar que não nos escutam. Meu rosto cai. Por um segundo, apenas um segundo, eu esqueci a minha dor e sorri com os meus amigos. Com uma frase, ele me levou de volta. — Eu tenho estado ocupado, — digo. — Muito ocupada para falar com seu melhor amigo? — Jesus, Danny, eu estive trabalhando? — E no período da manhã? — Dormindo! — Todos os dias? — Danny, — eu estalo. — Já deu. Eu não vou fazer isso agora. Ele olha para mim. — Mas nós vamos fazer isso agora sim, Formiguinha. Vou passar lá amanhã depois do seu trabalho. Esteja em casa ou eu vou te encontrar. Abro a boca para argumentar, mas ele sai. Meus ombros caem e o aperto em meu peito aumenta tanto que estou lutando para respirar. Eu preciso sair daqui.

*****

Eu viro uma dose atrás da outra. Já bebi seis doses e não estou nem perto de ficar entorpecida. Desespero corre solto no meu corpo e não importa quanto eu beba, a dor não desaparece. Eu esfrego a mão sobre o rosto e peço outra. Isso tem que ir embora logo – tem que ir. Se isso não acontecer, então não vou ser capaz de superar, e eu preciso superar. ~ 84 ~


— Por favor, eu tenho uma família. Eu estremeço e tomo outra dose. Esses pensamentos são cada vez mais difíceis a cada dia que passa. Cada segundo que eu me recuso a cooperar torna tudo muito pior. Eu não quero ver; não quero continuar vendo o seu rosto, ouvir a sua voz suplicante, sabendo que eu sou a razão pela qual ela não está aqui. Eu tive um único segundo de fraqueza que me levou a perder cada pedaço de mim mesma. — Olá. Eu estremeço e levanto o olhar para ver um jovem de boa aparência de pé ao meu lado, sorrindo. — Oh, olá, — eu murmuro. — O que uma menina bonita como você está fazendo aqui sozinha? Eu dou de ombros, ignorando-o. — Se importa se eu sentar? — É um bar livre, — murmuro. — Faça o que você quiser. Ele se senta, aparentemente imperturbável pela minha má atitude. Ele acena a mão e pede uma bebida, então se vira para mim. — Você mora por aqui? — Sinto muito, — eu digo. — Mas eu pareço alguém que quer um amigo? Ele sorri. — Parece que você precisa de alguma coisa. Eu preciso. Preciso de álcool para começar a trabalhar. Eu viro outra dose, ignorando-o de novo. — Posso te pagar uma bebida...? — sua voz desaparece, claramente à espera de um nome. — Fifi, — murmuro. Ele bufa. Eu o olho. — Desculpe, — diz ele. — Ei, Fifi, meu nome é Tony. — Ótimo. Olho para o meu telefone que está vibrando sobre o balcão. Pai. Me checando. Como sempre, se eu não ligar para ele a cada poucas ~ 85 ~


horas, ele enlouquece. Eu pego o aparelho e digito uma mensagem rápido dizendo que estou indo para a cama e ligo amanhã. Asseguro a ele que o sistema de alarme está ligado e tudo está bem. Isso vai deixálo feliz. Tony pede outra bebida e eu mexo na minha bolsa, procurando mais dinheiro. Certamente eu ainda não bebi o bastante. — Aqui, esse é por minha conta, — Tony diz, deslizando a dose na minha direção. Eu pego o copinho sem olhar para ele e o viro. — Você gostaria de mais? Eu dou de ombros. Ele pede outro. Ei, se ele está pagando, que assim seja. Duas horas mais tarde e eu finalmente estou entorpecida, mais do que eu já estive outra vez. Eu tentei duramente ficar bêbada assim nos últimos dias, com pouco sucesso. Eu não sinto que bebi muito, na verdade, tenho certeza que foram apenas oito ou nove doses, mas parece muito mais. Meu corpo inteiro é luz. Estou rindo, dançando, conversando com pessoas aleatórias e me sentindo como se não houvesse uma sacola de problemas do mundo sobre os meus ombros. — Escute, você deve ir lá fora comigo. Eu tenho mais álcool no meu carro, — Tony diz, envolvendo os braços em volta dos meus quadris enquanto nós dançamos. Eu resmungo. — Não, obrigada. Eu não sou idiota. Ele agita as mãos em um gesto inocente. — Sério. Eu não estou mentindo. — Vai sonhando, babaca. — Vamos, — ele diz me puxando, os dedos em volta do meu punho. Eu rio divertida. — Não; — Não vai demorar. Pelo menos nós podemos nos ouvir direito lá fora. Vamos. — Ela disse não.

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Eu me viro. A mão de Tony cai ao ouvirmos a voz como um chicote atrás de nós. Eu levanto meus olhos e tropeço para trás ao ver de Lucas de pé em nosso espaço, os braços cruzados e seu grande corpo em alerta máximo. — Desculpe, cara, — Tony diz. — Eu estava apenas dançando com ela. Lucas dá um passo à frente, pega o meu queixo e inclina minha cabeça para trás, estudando meu rosto. Cara, ele é bonito. Estupidamente bonito. — Ei, detetive, — eu rio. — Chega, Ava, — ele murmura, estudando meu rosto. Ele me deixa ir, se virando para Tony. — O que você deu a ela? Tony coloca as mãos para cima novamente. — Nada, eu juro. — Eu sou um policial. Eu também não sou estúpido. O que você deu a ela? Você me diz e eu te deixo ir, ou eu posso te prender, mas considerando que estou fora de serviço, acho melhor não. Tony fica de boca aberta, então de repente se vira e sai correndo no meio da multidão. Lucas suspira, mas não vai atrás dele. Eu acho que ele não acha que vale o esforço. Eu rio. — Você, — Lucas diz, olhando para mim. — Vamos. — Eu estou bem aqui, obrigada. — Agora, Ava, — ele avisa. Me desculpe, quem fez de você o chefe? Ele pega o meu braço e me puxa para o bar, se inclinando sobre ele. — Ela lhe deve alguma coisa? — Não. Ele então se vira e me puxa tropeçando para fora do bar. Me encontro dentro do seu carro de novo. Estendo a mão para o rádio, mas sua voz instantaneamente me para. — Não toque nisso, criança. Ele começa a dirigir e eu olho para ele. Que homem lindo. Eu não consigo evitar. Eu me aproximo e passo os dedos sobre o músculo tenso da sua mandíbula. — Você é muito bonito, detetive.

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— Se essa é a sua ideia de elogio, por favor, não. Corro os dedos pela sua barba e contorno o canto dos seus lábios. Ele fica tenso o tempo todo, mas não faz nenhum movimento para me parar. — Você está apaixonado agora, Lucas? — Que tipo de pergunta é essa? —Uma lógica, — eu rio. — Não, Ava, não estou. Agora, coloque sua mão para baixo para que eu possa me concentrar em dirigir. — Você não gosta de ser tocado? Seu músculo da mandíbula salta sob meus dedos. — Eu não gosto de ser tocado por mulheres bêbadas. — Se eu não estivesse bêbada, — eu sorrio, — você gostaria, então? — Não, criança, — ele suspira. — Você sabe o que eu penso, detetive? — eu digo, retirando a minha mão. — Eu acho que você tem covinhas quando sorri. — Ava, — diz ele, a voz resignada. — Hmmm? — Pare de falar. — Ok, Lucas. — Ok, criança. Eu pressiono meu rosto contra a janela e adormeço sorrindo.

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Capítulo Treze LUCAS PASSADO Trago a camiseta até o meu rosto e choro, choro com mais força do que já chorei na vida. É a primeira vez em três meses que eu venho a esse quarto e vejo tudo que ela deixou. Seus desenhos. Suas pequenas roupas. Seu cheiro. Ela. Eu cheiro a camiseta, e meu corpo estremece com cada soluço. Eu não escuto Jennifer se aproximar; apenas sinto seus braços ao meu redor. — Eu sinto muito, Luke. Eu choro mais forte, gritos roucos deixando a minha garganta. — Eu sinto muito. Eu me agarro à camiseta da minha filha até que não há mais lágrimas para deixar sair. Tudo dói. Tudo dói pra caralho. Eu levanto a cabeça e olho para minha esposa, que parece horrível. Eu fiz isso com ela? É minha culpa que ela esteja assim? Eu estendo a mão, alcançando seu rosto. Ela o vira na minha palma, seus olhos quebrados e vazios. — Nós temos que parar, — eu estalo, minha voz grave. — Nós temos que parar. — Chega de se afundar, chega de nos fecharmos, chega de bebida e chega de drogas. — Chega, — ela soluça. — Eu sinto muito, baby, — eu gemo, puxando-a em meus braços. — Eu sinto muito, porra. — Você estava machucado, eu entendo. ~ 89 ~


— Não é desculpa. Nunca vai ser desculpa. Ela não iria querer isso para mim. Ela gostaria que eu honrasse a sua memória em vez de ficar me torturando em auto piedade. — Então é isso que vamos fazer. Honrar a sua memória. — Eu não sei como seguir em frente. Eu apenas não sei... Ela me abraça apertado. — Nunca vai seguir, Luke. Só vai ficar mais fácil... Eu espero que ela esteja certa.

*****

— Você ainda está usando drogas, — eu digo duas semanas depois, observando Jennifer andar pela casa em um passo balançante. — Eu não sei do que você está falando, — ela diz, limpando os balcões feliz, o que é muito estranho, uma vez que ela odeia limpar a casa. — Eu parei com isso semanas atrás. — Não minta para mim, Jenn, — eu murmuro, a parando, curvando meus dedos no seu braço. — Eu voltei a trabalhar. Eu estou lutando para me recompor; você prometeu que iria fazer o mesmo. — E eu estou, Luke. Você está exagerando. Ela está mentindo para mim. Eu sei que sim. Eu só não sei como lidar com isso. — Jenn, — eu aviso. — Não faça isso. Seus olhos brilham e ela se ligeiramente cai. — Não é fácil parar, Luke. Você não entende. — Não, eu não entendo, mas você me pediu para sair da escuridão. Eu também estou te pedindo. Ela começa a chorar, e eu coloco meus braços ao seu redor, a segurando forte, tentando ser o marido que eu prometi ser. Minhas emoções estão espalhadas por todo o lugar. Estou tentando lembrar o amor que sentia por ela, mas tudo em meu peito está quebrado. Meus braços estão ao redor dela quase porque eles sabem que precisam estar, mas não porque eu quero que eles estejam. ~ 90 ~


Eu realmente nĂŁo sei se eu vou ser capaz de encontrar conforto novamente, muito menos dar alguma a ela. E isso me assusta pra caralho.

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Capítulo Catorze AVA PRESENTE Eu acordo com um gemido, pressionando a mão na testa. Eu tenho uma dor de cabeça, o que é incomum. O que diabos eu fiz na noite passada? Eu sento na cama e murmuro uma maldição enquanto jogo minhas pernas para o lado e esfrego as têmporas. Tento me lembrar do que aconteceu antes, mas está tudo confuso. Lembro de Tony, e Lucas... ah, cara. Lucas me encontrou no bar. O que diabos ele estava fazendo no bar? — Você está viva. Eu salto para trás com um grupo e levanto o olhar para ver Lucas de pé na minha porta, uma xícara de café na mão. Eu pisco algumas vezes. Recapitulando. Eu... eu... ah, cara... eu dormi com ele? — Não, — ele responde, como se estivesse lendo meus pensamentos. — Eu te trouxe para casa. Você desmaiou na cama. Eu olho para baixo. Estou usando a mesma roupa de ontem. Graças a Deus. Eu suspiro. — E você ficou? Ele entra no quarto, colocando a xícara de café na mesa ao meu lado. Ele tem um cheiro limpo e bom, e Deus, ele parece ainda melhor de manhã. — Você não mora com mais ninguém; eu não ia te deixar sozinha. Ainda bem que os vigias do meu pai não o pegaram me trazendo para dentro. O inferno teria se espalhado na Terra. — Certo, — eu murmuro. — E por que exatamente você estava no bar ontem à noite? — Pela razão que você está pensando. Eu estava te checando.

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Eu encontro seus olhos. — E por que você faria isso? — Porque eu não gosto de ver você se ferindo ainda mais do que já está ferida. Eu estremeço. Seu olhar segura o meu, sem se desculpar. — Sinto muito que você teve que fazer isso, — eu murmuro. — Você usou drogas na noite passada, Ava. Foi bom que eu estivesse lá. Eu estremeço. — Drogas? — eu pergunto. — Sim, eu acho que era ecstasy. Provavelmente por isso você está se sentindo diferente. Ele está certo; eu me sinto diferente, tão diferente. Meu peito se aperta, e eu olho para o chão. Eu usei drogas? Isso deveria me incomodar, mas a lembrança de estar livre por um pequeno momento não me assusta – ela me chama. — Bem, eu não usei por vontade própria. — Mas você teria? — ele pergunta, e eu salto. Não quero nem mesmo me fazer essa pergunta, porque tenho muito medo da resposta. — Não, — eu estalo. — Eu sei que essa merda é pesada, — ele diz, mas eu levanto a mão e o interrompo. — Por que você está aqui, Lucas? Eu não sou o seu caso de pena. Eu estou me virando muito bem sozinha. — Você está? — ele estala. — Porra, não é o que parece para mim. — E o que você tem a ver com isso? — eu grito, levantando as mãos no ar. — Eu não sou seu problema, então vá para casa e pare de fazer de mim o seu problema. Ele dá dois longos passos na minha direção, seus olhos brilhando, sua boca apertada. Quando ele alcança a cama, cai para a frente, colocando ambas as mãos no colchão, então seu rosto fica próximo ao meu. — Eu encontrei uma garota desesperada e quebrada, que viu algo que ninguém deveria ver. Ela continuou mentindo para mim... ~ 93 ~


— Eu não menti! — eu choro. — Não me interrompa, — ele rosna. — Você mentiu para mim. Você queira admitir ou não, eu sei a verdade. Então você prometeu, me olhando nos olhos, que não iria se afogar – que você iria lutar. Você mentiu de novo. Agora você está se embebedando até apagar e tem a audácia de me dizer para não sentir pena? Eu tenho pena de você, Ava, porque eu sei como é horrível pra caralho não ter ninguém. Com isso, ele se afasta da cama, se vira e sai. — Sim, — eu murmuro para mim mesma. — Vá se foder você também, Shadow.

*****

— Se mexa, princesa. Levanto o olhar a partir do banco em que estou sentada no complexo, olhando para fora. Todos estão rindo e tendo um bom momento no churrasco. Cade para na minha frente, segurando duas cervejas. Eu sorrio para ele. — Ei, mano. Ele sorri e me estende uma cerveja. Eu a aceito com elegância e bebo lentamente, não querendo que ele veja quão desesperada eu estou para ter o líquido gelado escorrendo pela minha garganta. — Por que você está sentada aqui fora sozinha? Eu dou de ombros. — Só pensando. — Sobre? Eu olho para ele. — Nada em particular. — Vamos lá, não minta para mim. Eu posso te ler como a porra de um livro, Ava. — E você não é o meu pai, Cade, então, não querendo ser rude, mas eu não quero compartilhar nada com você. Ele grunhe. — Você está lidando com tudo? — Sim, — eu murmuro.

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— Então por que parece que o seu melhor amigo acabou de morrer? Eu olho para longe, mirando o lado de fora da casa. — Ava? — Cade, por favor, — eu sussurro. — Eu só quero lidar com isso do meu jeito. Você se importa, eu sei que sim, e eu te amo por isso, mas por favor... — Não vou te empurrar, princesa. Se você é um pouco parecida com a sua irmã, provavelmente vai chutar a minha bunda, — ele estende a mão e a coloca sobre a minha. — Mas eu quero que você saiba que eu estou aqui, para o que for. Eu sorrio e balanço. Ele sorri de volta. É óbvio porque Addi o ama tanto. Eu não a culpo. — Ei, Cade, — meu pai diz, se aproximando. — Dê o fora e me deixe sentar com a minha garota. Cade grunhe alguma coisa e se levanta. Cinco segundos depois, meu pai se senta. Nós dois olhamos para fora enquanto todos estão rindo e se divertindo. — Você não está lidando com as coisas. Eu estremeço. — Pai, — eu sussurro. — Eu vejo nos seus olhos. Você tem o mesmo olhar que a sua mãe quando ela está triste. — Eu estou bem, pai, — eu minto. — Eu só... isso foi algo grande, e eu ainda estou aceitando o que eu vi. — A primeira vez que você vê algo assim, fode com a sua cabeça. Se eu pudesse ter te protegido disso, Ava, eu teria. Eu nunca... — sua voz, tão dolorida, tão quebrada. Eu me aproximo e me acomodo nele. Ele levanta o braço e o passa pelos meus ombros. — Não é sua culpa, pai. — Minha filha foi pega no meio da minha bagunça. — Eu vou fiar bem. Eu prometo. Ele suspira, me apertando.

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— A... a bagunça foi limpa? — eu me atrevo a perguntar, embora eu saiba que ele não vai me dizer. Eu conheço as regras melhor que qualquer um. — Não posso falar com você sobre isso, criança. Eu me viro e respiro um pouco do seu cheiro, precisando do seu conforto. Os demônios em minha cabeça estão fazendo a festa, e eu não estou conseguindo lidar. Nem um pouco. Estou pensando na garota sem nome que eu permiti morrer. Estou pensando em Lucas. Estou pensando na minha próxima bebida e imaginando se seu posso achar drogas por aqui para levar embora. Isso me assusta. Muito. — Você o encontrou...? — Não, mas você está segura. Eu aceno, engolindo em seco. — Eu vou encontra-lo, Ava. Não duvide disso. — Eu sei, pai, — Ei vocês dois! Nós levantamos o olhar para ver Ciara sorrindo enquanto se aproxima. — Jacks, Spike precisa de ajuda com o churrasco. — Ele está queimando essa merda de novo? Quem passou essa tarefa para ele? — meu pai murmura. Ciara ri, o som bonito viajando pelo ar. Meu pai se vira, pressionando um beijo na minha testa. — Mais tarde, baby. — Mais tarde, pai. Ele se levanta e desaparece, latindo e amaldiçoando Spike. Eu sorrio. — Como você está, menina? — Ciara pergunta. Eu sorrio para ela. — Bem. — Isso é bom. Ela me dá um sorriso e então entra. Eu fico ali sentada até o que cheiro de batata e hambúrguer enche o meu nariz. Meu estômago revira, e eu tomo outro gole de cerveja, tentando acalmar as voltas no ~ 96 ~


meu corpo. Eu quero beber mais. É tudo no que eu posso pensar. Eu tenho um problema. Eu sei que sim. Eu só não sei como lidar com isso. — Jacks, — alguém grita, — você tem visita. Eu viro o rosto para ver um bonito e grande homem avançando no complexo. Eu nunca o vi antes. Ele tem cabelo loiro e é todo musculoso e alto. Meu pai olha na sua direção e faz uma careta. Eu vejo quando ele para o que está fazendo e anda até o homem, ambos parando atrás do grupo de pessoas. — O que você está fazendo aqui? Essa é um churrasco de família. Você sabe que nós lidamos com negócios em outro lugar. Minha mãe está ao lado do meu pai agora, seu braço em volta do dele, gentilmente o acariciando. — Eu quero respostas! — o homem late. — Eu te dei tempo para encontrar ele; você não está cumprindo a sua parte do acordo. Eu o quero morto, Jackson. Ele levou a minha garotinha. Eu estremeço. De repente eu sei exatamente quem ele é. É o pai dela. Da garota sem nome. A garota que eu matei. O vômito sobre até a minha garganta, e eu levanto com as pernas trêmulas. O homem me nota e seu rosto muda. — Você! Eu paro de me mexer, meu corpo todo vira gelo. Ele avança na minha direção, não bravo, mas desesperado. Quando para na minha frente, ele olha para baixo, ofegando. Eu posso ver a dor em seus olhos. Ele está quebrado. — Me diga o que aconteceu aqui. Me diga. Ninguém vai me dizer o que aconteceu com a minha Bethy. Ao som do seu nome, ao finalmente escutá-lo, eu estremeço e dou um passo para trás. — Deixe a minha filha em paz, — meu pai rosna, se atravessando entre nós dois. — Eu só quero respostas. Ela as tem, — o homem ruge. — Eu só preciso saber o que aconteceu com o meu bebê. Isso está me matando. Ela era minha única filha. Eu estou morrendo, porra. Eu preciso saber. Seus olhos encontram os meus. Eu congelo.

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Sua única filha. Ele está morrendo, porra. Eu começo a ofegar. — Ela já está bastante machucada. Não precisa da sua pressão. — Por favor, — o homem implora. — Por favor, me diga o que aconteceu com ela. — Eu... — eu coaxo. — Ela sofreu? Ela sentiu alguma coisa? Ela estava com medo? Lágrimas vêm aos meus olhos, e eu não consigo respirar. — Ele a machucou? Ela estava bem? A mate. Me deixe viver. Por favor. Eu tenho uma família. Eu não quero morrer. Coloco uma mão no peito enquanto imagens do seu cérebro cobrindo as paredes da sala se formam na minha mente. Eu ofego. — Já basta, — meu pai ruge. — Dê o fora daqui porra, e espere até que eu ligue. — Ela sabe, — o homem chora, sua voz tão quebrada. — Ela sabe o que aconteceu com Bethy. Eu só quero a porra de uma resposta. — Ela não sabe, — meu pai late. — Você tem cinco segundos para sair daqui. — Só me responda, — o homem grita na minha cara. As pessoas se movem rapidamente depois disso. Cade, Spike e Muff pegando o homem e o arrastam para fora, aos gritos. Meu pai se vira para mim. Sua mão cobre o meu rosto, mas não consigo respirar. Eu não consigo ouvir – tudo está explodindo dentro de mim. Dou um passo para trás e ofego. — Eu preciso... ir. — Baby. — Por favor, — eu raspo. — Eu preciso ir. — Ava, querida, está tudo bem, — minha mãe tenta. Eu viro e corro. Corro com todas as minhas forças. Danny grita o meu nome e Skye tenta me seguir, mas eu não paro até alcançar o meu ~ 98 ~


carro. Me jogo ali dentro e com as mãos trêmulas, ligo o motor. Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas enquanto eu saio do estacionamento do complexo. Memórias assaltam a minha mente, e quando chego ao bar, estou tremendo e sou uma absoluta bagunça emocional. Corro para dento, baixando cinquenta dólares no balcão. O bartender me dá uma tequila e eu bebo, um drinque atrás do outro, mas isso não alivia a dor explodindo no meu coração. Minhas mãos tremem tanto que derrubo uma das doses e o copo se quebra no chão. Eu empurro o meu banco, não ouvindo o bartender me xingar, e corro até o grupo de homens decadentes parado em um canto. Eles têm o que eu preciso. Eu tenho certeza. — Olá, garota bonita, — um deles sorri. — Não estou aqui para conversar. Eu quero ecstasy. Seus olhos se arregalam. — O que uma coisinha bonita como você está procurando com esse tipo de coisa? — um homem pergunta, olhando ao redor para ter certeza que ninguém está ouvindo. — Você tem ou não, — eu estalo, tremendo. Ele acena. — Me encontre no banheiro. Ele desaparece, e cinco minutos depois eu o sigo. Quando estamos dentro do banheiro masculino, ele me empurra para um canto e puxa uma pílula branca do bolso. — Quanto? — eu digo, meu corpo todo tremendo. Ele me dá um preço. Eu jogo o dinheiro nele, pego a pílula e a coloco na boca. Bebo um pouco de água para ajudar a descer, e então corro para fora do bar. Meu telefone não para de tocar. Eu o pego da minha bolsa e o atiro longe com um grito. Ele bate contra o muro de tijolos e se quebra. Eu caio de joelhos e soluço. Choro com tanta força que meu peito queima. Eu fico ali parada até que a corrente de drogas entra no meu sistema. Então eu levanto. E começo a andar.

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Capítulo Quinze AVA PRESENTE Eu não tinha ideia de para onde estava indo até que parei na frente da delegacia de polícia, todo o meu corpo entorpecido, minha mente correndo em confusão. Eu empurrei a porta da frente e vi Amelia sentada em sua mesa, lixando as unhas. Quando eu entrei ela me olhou, e seus olhos se arregalaram. Eu fui até lá, pressionando as palmas no balcão. — Lucas está aqui? Ela pisca. — Detetive Black? Você quer ver ele? Black. Lucas Black. Combina perfeitamente com ele. — Sim, eu quero ver ele. — Ele sabe que você está aqui? Eu bato uma mão na mesa. — Não, é claro que não. Ela salta para trás e se levanta, fazendo uma careta para mim, então corre pelo corredor. Eu vou até as cadeiras de espera e me atiro em uma, olhando para os meus sapatos. Eles são muito bonitos. Eu mexo meus pés para cima e para baixo. Legal. — Ava? Viro a cabeça para ver Lucas parado na minha frente, seus braços cruzados, usando uma camisa branca de botões e um par de calças. A camisa está dobrada de um jeito bagunçado e Deus, ele parece bom. Muito bom. Eu levanto e o encaro. — Como você está, Detetive? Ele me estuda, e seu rosto endurece. — Eu não tenho tempo para isso, — ele se vira e começa a se afastar. Desespero me bate e eu sei que não posso suportar vê-lo ir embora. — Por favor, — eu choro. ~ 100 ~


Ele para, os punhos fechando e abrindo enquanto ele se vira lentamente, olhando para mim. — O que você precisa, Ava? Encontro os seus olhos. — Conversar? Ele aponta com o polegar para o corredor. — Cinco minutos. Eu o sigo até o seu escritório, e assim que a porta está fechada, ele grunhe, — Você está chapada de novo. Estou considerando te prender por ser tão descuidada. Ele avança até a janela, coloca as mãos sobre ela e olha para fora. Ele está bravo comigo. Desapontado. Eu não conheço esse homem, mas por alguma razão eu quero agradá-lo, e o desapontamento que vejo em seu rosto me incomoda. Dou um passo na sua direção, então outro, o álcool e as drogas em meu sistema me deixando corajosa. — Você está irritado comigo, — eu sussurro, parando atrás dele. Ele não se mexe, mas eu corpo aperta. — Sim, eu estou. Você me manda embora, me diz para não sentir pena de você, e então vem até aqui nesse estado... — Porque eu sou descuidada. Porque eu não me importo. Ele estremece. — Por que é descuidada. Porque você não se importa. — E? Ele não me olha. — Você está deixando isso te bater, criança, e está me matando apenas assistir sabendo que eu sou completamente impotente para parar essa merda. Você tem pessoas que podem te ajudar, mas você não deixa. — Eles não podem me ajudar, — eu sussurro. — Por que não? — ele murmura. — Meu pai é um motoqueiro. — Ele é. — Você não consegue ver o problema nessa situação? Ele se aproxima mais, seus lábios quase tocando os meus. — O problema está em você, Ava. Você tem família. Você tem amigos. Você tem a ajuda que precisa.

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— Mas que não posso usar. Você é a única pessoa que pode... eu não sei... — eu sussurro. — E por que isso? — Você sabe a resposta, Detetive. — Então você quer que eu acredite, — ele diz, levantando a mão e curvando os dedos na minha nuca, — que você não tem ninguém. — Sim. — Exceto a mim. — Sim. Seus olhos brilham. Ele solta a mão e se endireita. — Eu nunca fui bom com isso. Você precisar buscar a sua família. Meus lábios começam a tremer e eu não consigo segurar. Lágrimas explodem e correm pelos meus olhos. — Eu não posso, — eu estalo e ele para, mas não olha para mim. — Eu não posso. Eu não tenho ninguém. Por favor, Lucas, eu preciso de alguém. Ele caminha até a porta e coloca a mão na maçaneta. — Eu não acho que posso ser esse alguém. Com isso ele sai.

*****

Eu pego um táxi até em casa e, ainda bem, não há ninguém lá. Com certeza eles já estiveram aqui e deram uma olhada. Eu rapidamente entro e fecho a porta, trancando-a com a chave a corrente, e então ligo o alarme. Vou até a minha estante e procuro desesperadamente. Não tenho mais nada de álcool. Puxo garrafa por garrafa e as jogo no chão. Um grito rasga a minha garganta, e eu atiro a última garrafa do outro lado da sala, estourando na parede. Eu me viro e corro para o meu quarto, batendo a porta com raiva, e choro. Caio de joelhos no chão e choramingo, impotente. Tão sozinha. Tão quebrada. Eu quero parar de ver o rosto dela. Eu quero que isso vá embora.

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Eu me enrosco em uma bola no chão, e choro em um sonho lamentável e inquieto. Imagens dela, de Bethy, dançam na minha cabeça, me atormentando. E nada que eu faça as fazem ir embora. Uma mão quente passa por baixo das minhas pernas e me tira do meu sono. Sonolenta, eu tento descobrir o que está acontecendo quando uma voz baixa enche os meus ouvidos. — Não diga nada, — ele avisa, sua voz baixa, mas firme. — Só não fale nada. Lucas. Eu começo a chorar de novo enquanto ele me leva para a cama, empurrando as cobertas para longe. Ele me deita, e eu ouço o som dele tirando suas botas e a camisa. Então ele desliza ao meu lado, se enrolando comigo, me puxando para os seus braços fortes e pressionando meu rosto no seu peito. Nós ficamos deitados rigidamente por algum tempo, nenhum dos dois confortável com a situação. Eu não o conheço. Ele não me conhece. Mas ainda assim ele está aqui, sob essas estranhas circunstâncias, e eu não posso deixar de ser grata por isso. Ele continua acariciando meu cabelo até que os soluços param, e meu corpo finalmente relaxa no dele. Sua respiração fica mais profunda, e o bíceps que está enrolado ao meu redor fica menos tenso. Minhas pálpebras batem fechadas quando a escuridão me toma, e eu o sinto me apertar mais forte. Ótimo. Sim. Definitivamente.

*****

Eu acordo de manhã sem um homem enrolado em mim, e me pergunto se Lucas foi uma ilusão. Eu me levanto, esfregando os olhos, e dou um pequeno gritinho ao ver Lucas sentando na cadeira do canto, colocando as botas. Ele vestiu novamente sua camisa branca, mas ela está desabotoada. Eu posso ver seu corpo duro por trás dela, assim como as cores das suas tatuagens. — Você não foi um sonho.

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Ele olha para cima e aqueles intensos olhos castanhos encontram os meus. — Ouça, — ele diz, se levantando sem fazer amarrar os sapatos. Seu cabelo está bagunçado, ele tem uma barba de dois dias e parece masculino. Tão masculino. Tão lindo. — Eu não te conheço. Você não me conhece. A última noite foi... foi... — Conforto, — eu sussurro, olhando para ele através dos meus cílios. Ele endurece. — Ava, eu não posso ser quem você precisa. Eu sou um policial, um bom policial, e quando se trata do meu trabalho, eu sigo o protocolo e providencio o conforto necessário para aqueles que chegam, mas isso não é o meu trabalho, está fora das minhas funções, e isso é pessoal. Eu não sei como se tornou pessoal, mas é assim que é. Eu não posso continuar. — O que você acha que eu quero de você, Lucas Black? Seus olhos brilham. — O que você quer e o que eu estou disposto a dar varia bastante, criança. — O que você me deu na noite passada ajudou. Eu não sei porque, considerando que eu não te conheço, mas ajudou. Nada mais ajudava, exceto o álcool e... — Eu não posso ser esse benfeitor, Ava. Eu não posso ser aquele que vai te consertar. Você precisa encontrar sua força sozinha. — Eu tentei, — eu sussurro. Seus olhos suavizam ligeiramente. — Eu nem deveria estar aqui, fazendo isso. — Eu só preciso de alguém para conversar, — eu sussurro. — Um amigo. Seus olhos brilham. — Eu não sei como ser um amigo. — O que você fez essa noite, isso foi tudo que você precisou fazer. Ele suspira, baixando a cabeça e passando as mãos pelo cabelo. — Estou arriscando tudo fazendo isso. É errado por mais de uma razão. — Então por que você está aqui? Ele olha para cima. — Porque eu já vi a dor nos seus olhos nos meus próprios antes, e eu sei como essa merda parece. — Ainda está aqui. ~ 104 ~


Ele estreita os olhos. — O quê? — A dor nos seus olhos. Talvez você possa usar a minha ajuda tanto quanto eu posso usar a sua. Ele me estuda, seus olhos me lendo como um livro aberto. — Eu não posso prometer nada, mas se você não conseguir respirar, se você estiver lutando... você sabe onde eu estou. Isso é o melhor que eu posso oferecer. — É o bastante. — Mas você tem que parar de beber. Eu não vou consertar nada, e seu te ver novamente com uma pílula, nós dois vamos fazer uma visita à delegacia. Eu sorrio – é fraco, mas está lá. Ele sorri – é fraco, mas está lá. — Eu estava certa, — eu sussurro. — Sobre o quê? — Você tem covinhas quando sorri, Detetive.

~ 105 ~


Capítulo Dezesseis LUCAS PASSADO — Como está indo a papelada do caso? — meu parceiro, Johnson, pergunta quando entra no meu escritório, puxando o cabelo escuro para trás das orelhas e cruzando os braços. — Está indo, — eu murmuro. — Essa é a pior parte do trabalho. — Você não precisa me dizer. Pelo menos, é mais um caso encerrado. — Sim, — eu digo, esfregando minha testa, cansado. Faz sete meses que eu perdi a minha garotinha. Sete longos, quebrados e vazios meses. Desde aquela época eu apenas me joguei no trabalho, em vez de lidar com as coisas do jeito que eu podia. Sei que não é a coisa certa a se fazer, mas é a única coisa que me ajuda a seguir em frente. Quanto mais ocupado estou, menos tempo eu tenho de sentir a sua falta com um vazio que consome tudo. Jennifer, por outro lado, não está superando. Ela está bebendo mais, usando mais drogas e fica fora até tarde da noite, fazendo só Deus sabe o quê. Eu já perguntei a ela. Eu a ajudei. Eu a segurei, mas nada está funcionando. Ela não quer a minha ajuda. Ela não quer parar. Quando mais ela afunda, pior é para nós dois. — Detetive? — minha recepcionista, Amelia, diz entrando no meio do escritório. — Sim? — eu respondo com a voz cansada. — Sua esposa está lá na frente.

~ 106 ~


Ela está? Que porra ela está fazendo aqui? Ela nunca vem até o meu trabalho. — Ela está bem? — eu pergunto. Amelia faz uma careta. — Ah, eu acho que ela pode estar bêbada. Droga. Empurro minha cadeira para trás e Johnson me dá um olhar preocupado. Eu saio correndo do meu escritório para ver Jennifer sentada próximo à mulher esperando seu marido bêbado que foi trazido para cá duas horas atrás. Eu avanço até lá, a pego pelo braço e a forço a ficar de pé. — O que você está fazendo aqui? — Falando com essa simpática senhora, — ela soluça. — Venha comigo. Eu a puxo pelo corredor até o meu escritório, bato a porta e me viro para ela. — Já chega; eu não vou mais fazer isso. Você vai ter a ajuda que precisa, queira ou não. — Você está sendo tão dramático, — ela ri, girando. — Eu estou bem. — Você está bebendo, está se drogando, está perdendo peso e você perdeu seu emprego – não me diga que está tudo bem. Você me pediu para melhorar. Para quê? Para você se afogar, porra? — Eu estou bem, Lucas, — ela balança a mão uma mão bêbada. — Você precisa relaxar. — Eu acabei aqui. Se você quer que esse casamento funcione, nós vamos ter que buscar a ajuda que você precisa. — Eu não preciso de ajuda! — ela grita. — Você precisa sim, porra. — Não, — ela soluça. — Não preciso. — Eu não vou discutir com você. Vou te levar para uma clínica, para algum programa – eu não ligo. Droga, você é minha esposa, mas eu não vou viver o resto da vida desse jeito. — Então por que você não vai embora, caralho? — ela rasga. — Por que você está aqui? Você não me fode, você não me ama, você só me empurra para longe. ~ 107 ~


— Eu estou tentando! — eu berro. — Eu saí daquela casa. Eu arrumei a merda com a minha família. Eu voltei a trabalhar. Estou tentando respirar, porra. O que você está fazendo? — O mesmo que você! — ela estala. — Isso não é tentar, porra. — Para você! — ela berra. — Nós acabamos aqui, Jennifer. Ou você aceita a ajuda que estou oferecendo, ou vai embora. Como vai ser? Ela se inclina perto de mim. — Eu vou embora, porra! Então ela se vira e desaparece pela porta. Merda.

*****

— Você está indo bem, — eu digo, passando um pano frio sobre a testa de Jennifer uma semana depois. Ela não foi embora. Ela voltou para casa sóbria e implorou pela minha ajuda. Eu a tranquei no quarto e tirei uma semana de folga do trabalho, e pelos últimos oito dias estive ouvindo ela chorar, gritar e implorar dentro daquele quarto. Eu limpei o seu vômito. Eu a banhei. Eu ouvi os seus abusos e os seus pedidos. Eu estive ao seu lado, porque ela é minha esposa e precisa da minha ajuda. — Por favor, Luke, — ela coaxa. — Só um golinho. — Não, baby, — eu murmuro. — Não. — Eu preciso! — ela grita. — Você não precisa. Nós vamos passar por isso juntos. — Não, — ela grita. — Não. — Sim. — Luke, por favor. ~ 108 ~


Eu continuo acariciando o seu rosto, passando o pano sobre a sua testa úmida. — Estou com você, querida. Está tudo bem. — Por favor, — ela implora mais uma vez antes de cair no sono. Deixo minha cabeça cair contra o poste de madeira da cama. Quando a minha vida se transformou nessa grande bagunça do caralho?

~ 109 ~


Capítulo Dezessete AVA PRESENTE Meus dedos tremem enquanto eu balanço de um lado para o outro, lutando contra a urgência esmagadora de pegar as minhas chaves e sair para beber. Eu não percebi o quanto me tornei dependente do álcool. Claro, eu não sou uma alcóolatra, mas essa se tornou a minha linha da vida, a única maneira de conseguir suportar. Eu prometi a Lucas que iria tentar parar, tentar ficar bem, mas já faz quatro dias e estou lutando mais e mais a cada segundo. Um gemido agonizado escapa dos meus lábios, e eu arranho minhas pernas. Com certeza não iria importar se eu tomasse apenas um gole, só para acalmar os nervos. Eu não quero me sentir assim. Eu não quero continuar lutando contra mim mesma todos os dias. Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas, e eu estão tão cansada delas que me sinto impotente. O telefone ao meu lado toca. Eu olho para ele e vejo o número de Lucas. Ele liga todos os dias desde a noite em que me deu conforto. Às vezes, nós temos um minuto de conversa, às vezes ele apenas me conta sobre o seu dia, mas ele sempre liga. Vai ficando menos estranho a cada conversa. Eu decido atender a chamada, precisando dele de um jeito que me assusta. Eu não sei nada sobre ele, mas ele foi colocado em minha vida por alguma razão, e isso é o bastante para mim. — Lucas, — eu sussurro no telefone. — O que há de errado, criança? — ele diz no segundo em que ouve a minha voz. Eu começo a chorar mais. — É difícil. Eu... eu estou tentando tanto, mas não sei como superar isso. ~ 110 ~


— Aguente aí. Eu estou indo. Ele desliga, e eu largo o telefone. Eu sento ali por vinte minutos, minha cabeça nas mãos, respirando profundamente. Eu ouço minha porta abrir e fechar e o som de botas pesadas atravessando a sala. Então uma mão se curva debaixo do meu queixo, e eu levanto a cabeça para ver Lucas ajoelhado na minha frente, seus olhos preocupados. — Há quanto tempo isso está acontecendo? — ele pergunta, tocando minha testa úmida. — Eu estou tentando, — eu coaxo. — Eu não quero me afogar, mas é tão difícil não beber. É a única coisa que faz melhorar. — Tem outro jeito, — ele diz, estudando o meu rosto. — Você poderia falar sobre isso, me deixar entrar. Me diga o que realmente aconteceu e comece a se curar. — Eu te disse o que aconteceu, — eu sussurro, me virando. Sua mão segura o meu rosto. — Você mentiu. — Lucas... — Se você não me deixar entrar, Ava, eu não posso te ajudar. — Eu te disse tudo que eu sei, — eu digo desesperadamente. Ele encontra os meus olhos. — Se você não está disposta a sentir isso, então nunca vai embora. — Eu estou sentindo, — eu grito. — Você não está. Sinta, Ava, — ele diz, seus olhos duros. — Eu estou! — Você sabe, — ele diz, sua voz resignada. — Eu não posso te ajudar se você não me deixar entrar. Me ligue quando estiver pronta para falar. Ele se vira e sai. A simples ideia dele partindo me assusta tanto que eu começo a falar sem nem sequer parar para pensar sobre isso. — Ele atirou nela na minha frente, — eu grito, e ele estremece. — Ela estava lá comigo. Ela implorou e pediu, muito, e ele atirou nela. Bem na minha frente. Eu... eu... foi horrível. A cabeça dela... Lucas, a cabeça dela...

~ 111 ~


Ele se abaixa, me puxando em seus braços. Eu me agarro a ele e choro ainda mais. Enterro meu rosto no seu ombro e soluço enquanto ele se senta no sofá, me segurando apertado. — Calma, — ele murmura. — Tudo vai ficar bem. Isso vai passar. Essas imagens vão sumir. — Elas não vão, — eu grito, o apertando ainda mais. — Cada vez que eu vou dormir, vejo os seus olhos, ouço seus gritos, e então o momento em que ela foi morta. Foi horrível; eu nunca teria imaginado algo tão hediondo nem nos meus piores pesadelos. Ela tinha a minha idade, Lucas. Ela tinha tanto pela frente. Ele não diz nada; ele apenas me segura forte enquanto eu choro as lágrimas que deveria ter chorado quando cheguei em casa naquela noite maldita. Eu engarrafei os sentimentos, os segurei dentro de mim e bebi até não poder sentir. Agora não posso mais segurá-los. Lucas é a primeira pessoa que eu deixo ver a dor que vive profundamente no meu coração, e agora que o deixei entrar, não posso parar de colocar para fora. — É isso, garota, — ele murmura. — Coloque para fora. Vai ser bom. — Eu não quero me sentir assim pelo resto da vida. Não quero ver o rosto dela. Quero que isso vá embora. — Nunca vai embora, — ele diz, sua voz dolorida. Eu começo a chorar ainda mais com a dura realidade. — Mas vai ficar mais fácil, criança. Vai ficar mais fácil, até você aprender a respirar de novo. Faço um som de dor desesperada e o aperto mais forte. — Beber não vai fazer isso ir embora; você tem que sentir, processar, seguir em frente. Conversar, deixar as pessoas entrarem, é a única maneira de fazer isso. — Eu não quero sentir. — Mas você vai. Eu não vou parar até que você tire toda essa feiura do seu coração. Enterro meu rosto no seu pescoço e o deixo entrar. Me permito ver o rosto dela. Ouvir os seus gritos. Sentir a sua dor. Choro tanto que meu corpo treme e meus soluços saem silenciosos. Ele me segura durante todo o processo. ~ 112 ~


Choro até a exaustão. Lucas acaricia o meu cabelo, me abraçando nos seus braços fortes, me mantendo junta quando estou prestes a desmoronar. E eu desmorono. Ali nos seus braços, eu deixo tudo ir.

*****

Eu acordo na minha cama, todo meu corpo dolorido. Eu não sei que horas são – assumo que é tarde da noite e que chorei até dormir nos braços de Lucas. Não sei onde ele está agora. O quarto está escuro. Eu me sento e meu corpo geme em protesto. Eu chorei muito, libertei minhas emoções, então tudo dói. É como se os últimos meses de sentimentos represados tivessem sido soltos em uma única batida. Esfrego os olhos e jogo as pernas pela lateral da cama, ficando de pé. Tropeço até a porta e a abro. A luz no meu corredor está acesa e eu ando por ali até ver a cozinha, que tem a luz acesa também. Paro no canto para ver Lucas de pé, falando no telefone baixinho. Ele olha para cima quando eu entro, e seus olhos fazem uma rápida varredura pelo meu corpo antes de encontrarem os meus. Eu lhe dou um sorriso fraco. — Eu ligo de volta, sim? — ele desliga o telefone. — Você está de pé. — Por quanto tempo eu dormi? — Quatro horas, por aí. — E você ficou aqui esse tempo todo? — eu pergunto, abafando um bocejo. — Eu não ia te deixar sozinha. Meu coração bate no peito, e eu faço tudo que posso para ignorar como essa pequena declaração me faz sentir. — Obrigada, — eu digo suavemente. — Por... estar comigo. Ele acena, seus olhos encontram os meus. — Você quer café? ~ 113 ~


— Claro. Ele obviamente descobriu onde eu guardo o café, porque ele já está fazendo um. Sento no banquinho junto à pia e o observo trabalhar. Eu gosto de Lucas Black, mas do que já gostei de qualquer pessoa de fora do clube. Ele é misterioso e perigoso, um pouco bruto e muito profundo. Ele me dá conforto mesmo quando é claro que ele está lutando para saber como. — Você tem que trabalhar ou algo assim? — eu pergunto. Ele dá de ombros. — Eu estou de plantão regularmente. É parte do meu trabalho. — Sinto muito. Não tinha percebido. — Não é sua culpa, — ele diz, colocando uma xícara de café na minha frente. — Eu coloquei a minha vida em volta do trabalho. — Você é detetive há muito tempo? — Seis anos. Eu aceno, concordando. — Como você está se sentindo? — Meu corpo está doendo, — eu digo, me torcendo e gemendo. — Isso é normal depois de uma liberação emocional como essa. Vai passar. Banho quente ajuda. — Eu sinto muito que você tenha visto isso. Eu... — Não se desculpe, — ele diz, me cortando. — Eu queria que isso acontecesse. Para não mencionar o quanto você precisava colocar para fora. — Então agora vai ficar mais fácil, não é? — eu pergunto esperançosa. — Não sei se funciona assim, mas é um passo na direção certa. Eu faço uma careta para a minha xícara de café. — Você pode me ligar, se precisar... Eu olho para ele, sorrindo fracamente. — Isso significa que nós somos amigos, Detetive Black? ~ 114 ~


Seu rosto se ilumina, apenas um pouco, mas ele não sorri. — Sim. — Você tem muitos amigos? — Que apareceram na minha vida como você? Não. — Às vezes a vida tem um jeito engraçado de nos apresentar às pessoas que quer na nossa vida. Por que você acha que eu fui colocada na sua? Algo brilha no rosto de Lucas tão rapidamente que eu quase perco. Não posso colocar meu dedo nessa emoção, mas ela faz algo se torcer nas minhas entranhas. — Talvez você apenas precisasse de alguém que te empurrasse para fora do buraco que você estava cavando. — Talvez, — eu murmuro. Seu telefone toca de novo e ele olha para o aparelho, suspirando. —Tenho que atender, criança. Eu aceno, e ele sai da cozinha. Quando ele vai, bebo o meu café. Estava bom, bem como eu gosto. Eu me pergunto, como ele sabia disso? Pondero sobre o olhar que atravessou o seu rosto e levo minha mente de volta para a conversa que ele teve com o meu pai sobre uma garota, uma garota que tenho certeza não era eu. Me pergunto o que aconteceu na sua vida, o que colocou a dor em seus olhos, a resistência em seu coração. Lucas é atraído por mim, mas não sei a razão. Eu apenas estou feliz que ele está aqui. — Eu tenho que ir trabalhar, — ele diz, entrando na cozinha de novo. — Você vai ficar bem? — Eu tenho escolha? — eu digo, e é para ser uma brincadeira, só que ele não ri. — Ava... — Desculpe, — eu sussurro. — Eu vou ficar bem. Nenhuma necessidade repentina de beber até ficar burra. Ele pisca. — Me ligue se precisar, ouviu? — Claro, Lucas.

~ 115 ~


Ele caminha a passos largos e para na minha frente. Sem hesitar, ele curva a mão na minha nuca de um jeito que eu adoro e pressiona os lábios na minha testa, parando ali por um comprido momento. — Continue lutando. Você está quase bem, — ele diz contra a minha pele e se afasta. — Lucas? — eu chamo quando ele se vira na direção da porta. Ele olha para mim. — O que exatamente nós estamos fazendo aqui? Seus olhos seguram os meus. — Aprendendo a nadar, criança. Sim, de fato.

~ 116 ~


Capítulo Dezoito AVA PRESENTE Ouço batidas na minha porta e corro para atender. É meu dia de folga, e estou planejando fazer muitas coisas para me manter ocupada. A vontade de beber é tão forte que estou tendo que me distrair de qualquer maneira possível para me parar. Lucas teve que ficar fora por alguns dias, e mesmo que ele ligue, sem ele eu me sinto fraca e vulnerável. — Ei, — Danny grita, batendo na porta com a sua bota. — Nós estamos chegando para encher o seu saco. Espero que você não se importe. Faço uma careta para ele. — Que ruim que eu já tinha planos. — Agora não tem mais, — ele sorri, pressionando um beijo na minha cabeça. — Entre, então. Não que eu possa te parar. Ele passa por mim, se sentindo em casa. Max é o próximo a entrar, com um grande sorriso no rosto. Eu não posso evitar – um sorriso me escapa e eu o abraço. — Como você está, Ava? — Seguindo em frente, Max. E você? — Idem. Ele caminha até a cozinha e grita, — Danny, seu filho da puta, não pegue todo o espaço da geladeira para você. — Ei, garota! — Skye diz, parando para me abraçar. — Como você está? ~ 117 ~


— É tão bom ver você, — eu sorrio e a abraço apertado. — Você não ia se livrar dessa. Danny insistiu. Eu reviro os olhos e vou para Mercy, lhe dando um abraço. — Como você está, querida? Ela sorri. — Ótima. — Mercy, — Skye diz, — você contou a ela o que você fez? Minhas sobrancelhas sobem. — Não foi nada, — Mercy bufa. — Não venha com essa. Spike ficou furioso, — Skye ri, empurrando a caixa de pizza nas minhas mãos. — Pode contar, — eu digo a Mercy enquanto fecho a porta e a sigo para a cozinha. — Eu posso ou não ter ido ao meu primeiro encontro e beijado um homem bem do lado de fora do complexo sem contar a ele, e então ele pegou, — ela diz em palavras apressadas e sem respirar. Eu explodo em risadas. — Fala sério! — Sim, — Danny geme. — Meu pai perdeu a cabeça. — Eu sou velha o bastante para ter um encontro; e eu não fiz nada de errado! — ela protesta. — Beijar o cara bem na frente de um complexo de motoqueiros? Não foi o seu melhor momento, mana. Ela lhe mostra o dedo do meio e eu rio, passando um braço pelos seus ombros. — A pergunta real é, o beijo foi bom? Ela engasga. — Não, foi horrível. Eu rio, e Skye se junta a mim. — Horrível do tipo como se a língua dele fosse uma lesma? — Pior, — ela faz uma careta. — Era como se ele estivesse procurando o meu café da manhã. — Que nojo! — Skye e eu gritamos. — Porra, — Danny grunhe. Max apenas ri. ~ 118 ~


— Então o seu primeiro beijo foi uma experiência horrível, e seu pai te pegou no flagra e tornou tudo pior, — eu rio. — Meu pai saltou para fora, levantou o cara pelo colarinho e o atirou, e eu quero dizer atirou, ele no meio da rua. Eu rio mais forte. Todos nós rimos. — Então ele me jogou em cima do ombro, discursando o tempo todo até estarmos dentro do complexo sobre como ele ia me amarrar e nunca mais me deixar fora da sua vista de novo. Então o seu pai me deu um sermão sobre trazer estranhos para o complexo. Eu sorrio. — Eu me lembro desse mesmo sermão. — Motoqueiros, — ela bufa. — Desse jeito, eu nunca vou transar. — Ah porra, não! — Danny grita. — Droga, Mercy. — Desculpa, mano, — ela sorri. Ah, é bom ter eles de volta na minha vida. Talvez Luca esteja certo; talvez eu esteja saindo do buraco escuro.

*****

— Ah, vamos lá, só uma cerveja. Só uma, — Danny diz, me oferecendo uma garrafa. — Nah, — eu digo, meus olhos brilhando para a garrafa gelada. — Eu estou bem. — Desde quando você recusa uma cerveja? Pare de ser um pé no saco. Ele tira a tampa e a entrega para mim, a empurrando nas minhas mãos. Meus dedos tremem ao redor da garra. Será que eu consigo tomar uma e ficar bem? Estou lidando melhor com as coisas agora; eu não posso passar o resto da vida fugindo disso, não é? Forço um sorriso e dou um gole. O líquido gelado escorre pela minha garganta, e meu sorriso se torna real. — Aí está. Agora vamos jogar pôquer!

~ 119 ~


Todos sentamos no chamo e começamos a jogar pôquer. Conforme o jogo avança, o álcool me deixa mais livre. Todos estão bebendo, menos Mercy, e todos estamos rindo e nos divertindo. Mesmo durante esses momentos, eu me sinto tensa – meu pescoço e meus ombros não param de doer. Os últimos dias foram agonizantes, e tomar uma bebida é como vir à vida, mas quanto mais eu bebo, mais a culpa consome o meu coração. Primeiro foi divertido, um alívio. Então eu pensei em Lucas e tudo que ele tinha feito, e a culpa começou a ser difícil de digerir. Eu sorrio e me forço a continuar jogando, mas assim que todos se vão, olho para as garrafas vazias pela casa e começo a tremer. O que eu fiz? Eu prometi a ele que não faria isso, que eu iria lutar, e acabei de quebrar minha palavra. Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas enquanto eu levanto uma garrafa e a atiro do outro lado da sala. Isso nunca vai acabar. Vai?

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Capítulo Dezenove LUCAS PASSADO Dois dias. Faz dois dias que ela se foi. Eu procurei em todos os lugares que ela geralmente frequenta, e ninguém a viu ou ouviu falar dela. Eu a mantive limpa por um mês. Um mês inteiro. Eu cuidei aonde ela ia, fiz tudo por ela, a tratei até ficar saudável e fiz tudo ao meu alcance para ajudá-la. Claramente eu fiz tudo errado, porque ela está desaparecida. Vinte e quatro horas é o tempo mínimo para que qualquer um leve isso a sério, mas eu sou um policial; eu já estava atendo antes de fechar doze. Eu não consigo encontrá-la, e estou além de mim de preocupação. Desde que perdi Shylie, eu sou uma bagunça quebrada e fodida. Fiz tudo para colocar minha vida de volta nos trilhos – cuidar da minha esposa era um extra que eu não precisava. Mas eu fiz isso porque eu a amo, e porque esse é o jeito dela de atravessar tudo isso, mas eu já não tenho mais força para seguir com isso. Não tenho a força para colocar ela de pé quando eu mesmo mal consigo me manter flutuando. Mas eu não posso perder mais ninguém. Não posso. Não vou. Pego meu telefone e ligo para a sua melhor amiga, Kat. Ela atende no segundo em que toca. Eu já tentei sete vezes, e ela não tinha atendido; ouvir sua voz é um alívio. — Lucas, eu não sei o que você quer, mas eu não fiz nada, — Kat diz assim que atende a chamada. — Você viu Jennifer? Ela fica em silêncio. — Por quê?

~ 121 ~


— É uma pergunta simples, Kat. Você a viu ou não? Ela está desaparecida há dois dias. Eu não... eu não sei onde ela está, porra. Então, se você a viu, me diga. — Ela está desaparecida? — eu sussurro. — Sim, Kat, ela sumiu. Você sabe o que nós passamos nos últimos dois meses – porra, no último maldito ano todo. Eu fiz tudo que pude para manter ela longe das drogas, mas tenho uma sensação ruim de que é isso que ela está procurando. Se você sabe de algo, me diga. Ela fica em silêncio por alguns minutos. — Lucas, eu sinto muito, eu não quero fazer isso... eu não quero te machucar mais... — Kat, — eu aviso, — O que você sabe? — Ela está vendo outra pessoa! Todo meu mundo se quebra ao meu redor. O que ainda restava do meu coração se parte em pedaços, fracos e patéticos, quebrado e sem emoção. A mulher que eu amava, a única boa mãe que a minha filha teve, minha melhor amiga, minha esposa, estava vendo outro homem. Outro homem, quando eu precisava dela. Um grito de dor deixa a minha garganta. Eu perdi minha primeira esposa. Perdi a minha filha. Eu não deveria ter que lutar por ela; ela deveria estar lutando por mim, e ela não está. Ela se voltou para as drogas e me empurrou para longe, e então encontrou outro homem. Outro. Homem. Maldito. — Quem? — eu digo, minha voz como gelo. — Lucas... — Quem? — eu rujo. — Ele... ele... é parte de um clube de motoqueiros. Eu estremeço. Um motoqueiro. Ela está fodendo com um motoqueiro enquanto eu estou queimando o meu rabo tentando ajudála, mesmo com toda a minha dor. — Você precisa entender... — Eu não preciso entender merda nenhuma! — eu berro.

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— Ela estava quebrada; você estava quebrado. Ela precisava de algo... alguém que a amasse. — Eu perdi a minha filha, — eu rujo, batendo com o punho na parede ao meu lado e continuo até que um buraco grande esteja aberto. Sangue escorre pelos meus dedos. — Eu sei, — ela sussurra. — E eu sinto muito, mas ela... — Não há desculpas para isso – nenhuma. Me diga qual clube. — Luke... — Não me chame assim, porra. Me diga qual é o maldito clube! — Hell’s Knights, — ela sussurra rapidamente. — Eu não sei quem; ela nunca me disse o nome. Ela apenas disse... ela disse que eles... Isso estala como um gatilho no meu cérebro. — Não se trata do homem ou da companhia – é sobre drogas. Ela está fazendo isso para conseguir drogas. — Ela está limpa. Ela estava realmente tentando. — Mentira, — eu lato. — Se acalme, Lucas, pense nisso – pense em como tem sido difícil para ela e... Eu desligo. Então eu berro em agonia.

*****

O complexo dos Hell’s Knights é uma casa de tijolos vermelhos com galpões, rodeado por uma cerca de arame farpado. Eu paro na frente do portão e dois motoqueiros estão ali, fumando e rindo. Quando me notam, os dois param. Eu não estou dirigindo o carro da polícia, mas tenho certeza que eles sabem exatamente quem sou. Assim como eu sei exatamente quem eles são. — Que porra você quer aqui, policial?

~ 123 ~


Eu cruzo os braços sobre o peito. — Procurando pela minha esposa. Eles me estudam. — O que te faz pensar que ela está aqui? — Tenho sólidas informações de que ela está aí. — E essas informações vêm de onde? — um cara grande e corpulento diz sorrindo. — Eu perdi a minha filha, porra. Eu perdi a merda da minha vida e agora eu perdi a minha maldita esposa! — eu lato. — Droga, tudo que eu estou pedindo é que você me diga se ela está aí. Não me importa o que você faz. Não me importa o que você diz. Eu só preciso saber se ela está aí. Seu rosto suaviza, apenas um pouco, mas está lá. — Qual o nome dela? — ele pergunta rispidamente. — Jennifer Black. Suas sobrancelhas sobem e o cara corpulento fala. — Jenn é sua esposa? Eu não sabia que ela era casada. Meu peito aperta. — Bem, ela é. Ela está aí? — Eu não a vi nos últimos dias. Ela esteve aqui segunda-feira à noite. A última vez que eu a vi. — Alguma coisa que você possa me dizer sobre o que ela estava fazendo nessa noite? Eles se olham, então o grandão ordena, — Vá chamar Jackson. Eles desaparecem dentro do prédio para chamar o homem que, sem dúvidas, é o presidente. O que significa que eles não vão me dizer o que sabem, ou pior, eles sabem que vai ser algo difícil de tomar. Nenhum dos dois é bom.

~ 124 ~


Capítulo Vinte AVA PRESENTE Eu sento no meu sofá, encarando o telefone. Lucas já me ligou sete vezes. Eu não sei porquê. Eu não consigo atender, porque sei o que ele vai ouvir na minha voz. Ele vai saber que eu bebi, ele vai saber que eu o decepcionei, e eu não posso suportar isso. Então eu apenas fico ali sentada contra o balcão da minha cozinha, minhas pernas contra o peito, o queixo tocando meus joelhos. Eu não posso acreditar que fiz isso; eu não acredito que não tentei com mais força. Uma batida na minha porta me tira do meu transe. Eu olho para ela, vendo a silhueta de alguém do lado de fora pela janela. A sombra de Lucas ―Shadow‖ Black. Eu olho para ele, sem me mover. — Ava! — ele grita, batendo na porta. — Você está aí? Ele parece preocupado – irritado, também. — Suas luzes estão acesas. Abra. Eu não me mexo. — Eu vou arrombar a sua porta, criança. Vou contar até três. Eu me mexo ligeiramente. Ele vai fazer isso; ele é esse tipo de homem. — Um. Eu fico de joelhos. — Dois. Eu fico de pé. ~ 125 ~


— Três. Eu corro e abro a porta bem na hora em que ele vai bater com o pé. Meus olhos se arregalam. — Você ia realmente fazer isso? — eu sussurro. Seus olhos brilham em mim, e ele abaixa o pé. — Sim, eu ia. — Por que você está tão agitado? — eu pergunto, voltando para dentro e encarando o chão. — Você esteve bebendo. Meu corpo estremece, e eu não levanto o olhar. — Por que, Ava? — Alguns amigos vieram me ver... nós estávamos apenas nos divertindo. — Exceto que você não está em posição de beber por diversão. Eu pisco de volta a queimação sob minhas pálpebras. — Eu não acho que consigo fazer isso, Lucas. Estou tentando. Estou tentando, mas... eu preciso de algo que me ajude com a dor. Como você acha que eu devo lidar com esse horror se eu sou obrigada a viver com ele? Ele fica em silêncio, então eu levanto a cabeça e o vejo perdido em seus pensamentos, seu rosto está retorcido de um jeito estranho. Eu iria além dizendo que era uma mistura de arrependimento, realização e tristeza. — Eu vou voltar pela manhã. Esteja pronta. Eu pisco. — Desculpe? Ele se inclina para frente, me forçando a dar um passo para trás. Ele segura a maçaneta da porta e murmura, — Tranque a porta. Não beba mais. Eu vou estar aqui de manhã. Eu abro a boca, mas estou ferida. Estou ferida porque ele está indo. Ele está com raiva de mim, eu sei disso, mas eu pensei... — Lucas, — eu sussurro. — Eu sinto muito.

~ 126 ~


Ele não diz nada; apenas me puxa para frente e beija a minha testa. — Amanhã, Ava. — Lucas... Ele se vira e sai. — Tranque a porta. Então ele vai embora, desaparecendo na escuridão.

~ 127 ~


Capítulo Vinte e Um LUCAS PASSADO Jackson me encara. Eu seguro o seu olhar. Eu nunca o conheci, mas ouvi falar das histórias do presidente dos Hell’s Knights MC. Ele é feroz, furioso e não leva numa boa as pessoas mexendo com o seu clube, sua família ou seu estilo de vida. Eu já tive alguns encontros com o clube e há alguns problemas em torno dele, mas nunca falei com Jackson diretamente. Em um bom dia, eu me preocuparia em ser visto aqui. Hoje, eu não dou a mínima. Eu não me importo com o que seu clube está fazendo. Eu não me importo com nada que não seja encontrar Jennifer. Traição é algo forte no meu peito, mas ela é minha esposa, e Deus sabe que eu preciso encontrá-la onde quer que esteja e ter certeza de que ela está a salvo e limpa das drogas. Então, e só então, eu vou confrontar o fato de que ela está vendo outro homem. — O que você está fazendo no meu clube? — Jackson murmura, cruzando os braços grandes. — Eu não estou aqui procurando problemas, — eu rosno. — Estou procurando a minha esposa. — Eu ouvi, — ele diz, me estudando. — Eu não a vejo faz dois dias. — Mas que porra ela estava fazendo aqui, de qualquer forma? Vocês estavam lhe dando drogas? Seu olhar endurece. — Me acuse de qualquer coisa, policial, mas não me acuse de drogas uma mulher, porra. Se ela conseguiu isso, não foi comigo. ~ 128 ~


— Então que maldita razão ela tinha para estar aqui? — Ela estava infeliz. Ela gostava da companhia; nós demos isso a ela. Eu fico tenso. — Deixando ela foder por aí? — Ouça, — Jackson rosna, chegando mais perto. — Eu não quero que os seus problemas domésticos venham para a porra da minha vida. Se a sua esposa estava aqui, é problema dela, — ele chega mais perto. — Se ela estava tomando pau, é problema dela. Agora, pergunte o que você quer saber. Estou te dando cinco minutos antes de te chutar para fora. Eu quero levantar meu punho e socá-lo. Raiva está borbulhando no meu peito, mas eu não reajo. Eu não estou aqui para brigar; estou aqui para achar a minha maldita esposa. — Você está dizendo que não a viu? — eu digo, minha voz dura, gelada até. — Eu a vi dois dias atrás; ela não voltou desde então. — E o homem com quem ela estava? — eu digo através dos dentes trincados. — Ele está aqui. Você quer falar com ele? Eu deixo. Mas se você levantar a porra do punho? Eu acabo com você. Aperto meu maxilar. — Não estou aqui para brigar. Estou aqui para achar a minha esposa. Ele me estuda e então inclina a cabeça em um aceno. Cruzo meus braços e espero.

*****

— Eu a mandei embora, — o homem chamado Chris murmura, seus braços cruzados puxando o couro nos seus ombros. — Descobri que ela era casada. Eu estou fora dessas. Disse que não podíamos mais nos ver. Eu o estudo. Eu não sei se ele está dizendo a verdade ou não, mas preciso de respostas, e qualquer resposta me leva à direção certa. ~ 129 ~


— Você está dando drogas para ela? — eu pergunto. Ele me encara. — Não, porra. — Então onde infernos ela está conseguindo? — eu estalo. — Como eu vou saber, porra? Ela só estava aqui pela diversão. Nós demos diversão a ela. Se ela estava chapada, não foi a gente. — E você está dizendo que não tem a menor ideia com quem ela estava conseguindo drogas? Ele dá de ombros, acendendo um cigarro. — Poderia ser qualquer um. Eu não acredito nele. As últimas pessoas que viram minha esposa estão nesse clube, e eles estão tentando me dizer que não sabem de nada. Eu não acredito neles, porra, mas não tenho como provar. — Se eu descobrir que você está mentindo para mim, porra... — Vai fazer o quê? — Jackson late. — Nós dissemos o que sabíamos. Sua mulher não está aqui. Hora de ir embora. Eu cruzo os braços, segurando o seu olhar intenso. — Eu vou manter os dois olhos em você. Se ela não voltar para casa? Pode ter certeza que eu vou continuar aparecendo. Ele não diz nada, apenas mantém a sua expressão dura. Eles sabem mais do que estão dizendo. Tenho quase certeza disso. E planejo descobrir o que é.

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Capítulo Vinte e Dois AVA PRESENTE Eu olho para Lucas enquanto ele puxa minha gaveta aberta. São cinco horas da manhã e eu estou de pé, um cobertor ao meu redor, o encarando com os olhos turvos. Ele me acordou batendo na porta ainda bem cedo, e agora está passando pelas minhas roupas, procurando por algo que eu não sei o que é. Inferno, eu não sei nem porque ele está aqui; era para ele estar bravo comigo. — O que exatamente você está fazendo nas minhas gavetas? — eu pergunto. Ele não responde. Lucas está usando uma bermuda de basquete folgada, com uma camiseta preta apertada e tênis. Ele parece que vai sair para correr. Seu cabelo está limpo, suas roupas são justas e bem arrumadas, seu corpo é musculoso, e está coberto por uma leve camada de suor. Ele provavelmente correu até aqui. Eu nem sequer sei onde ele mora. Meus olhos viajam pelo seu corpo e para nos nas suas panturrilhas bem torneadas. Eu nunca tinha visto suas pernas, mas bem ali, nesse lugar do seu corpo, havia a tatuagem com a foto da mais linda garotinha que eu já vi na vida. Meus olhos crescem. Eu não sabia que Lucas tinha uma filha. — Você... essa é sua filha? Ele para, todo seu corpo se torna pedra. — Era, — vem a sua resposta, vazia, morta e quebrada. Eu abro a boca, a fecho, e então apenas o encaro. Lucas Black tinha uma linda e doce filha que agora não existe mais. Ela se foi. Eu ~ 131 ~


não sei como ela se foi, mas pelo jeito que ele falou isso, aconteceu. Talvez a esposa tenha ido embora e ele apenas não possa vê-la, mas pelo vazio em seus olhos, acho que é pior, muito pior. — Eu sinto muito, — eu sussurro. Que resposta comum e simples, uma resposta que provavelmente não significa nada para as pessoas que perderam muito, mas é a única coisa que consigo pensar. As únicas palavras que consigo trazer à superfície. Lucas não diz nada. Ele puxa uma antiga calça de corrida e um top e se vira, seu rosto inexpressivo enquanto ele estende o braço. — Se vista. Meus olhos caem para as roupas nas suas mãos. Eu não as via há anos – inferno, eu nem sei porque ainda as tenho. Foi uma fase. Eu queria ter hábitos mais saudáveis – jurei para mim mesma. Eu as vesti e saí para correr por trinta segundos antes de decidir que isso nunca ia acontecer de novo, então as escondi no armário e nunca mais as vi desde então. — O que exatamente você quer que eu faça com elas? — As. Vista. Agora, — ele diz, sua voz dura e ríspida. — Olhe, Lucas, eu sei que você está bravo comigo, mas isso não está ajudando em nada. Ele dá um passo para frente, empurrando as roupas em mim. Eu as pego com as mãos e observo ele se inclinar para frente. — Eu te dei conforto. Eu te deixei chorar. Eu estive aqui por você. Eu fiz o que achei que fosse certo, mas o passado e algo que você disse ontem à noite me fez perceber que eu estou fazendo tudo errado, porra. Se você confia em mim, se acredita que eu posso te ajudar, então você vai colocar essas roupas e me encontrar lá embaixo. Me deixando com isso, ele se vira e sai. Eu olho para as roupas. Eu confio nele? Deus, eu nem o conheço. Aquela tatuagem na perna dele prova isso. Eu não sei onde ele vive. Eu não sei se ele tem família, ex-esposa, uma namorada, filhos... não há nada – nada mesmo, e ainda assim eu sei, sem dúvidas, que Lucas Black jamais faria nada para me machucar. Então eu me visto e desço. Porque eu acredito no que ele diz. E, principalmente, eu acredito nele. ~ 132 ~


*****

Eu encaro o saco de boxe balançando na minha frente. Ajusto as calças apertadas ao redor dos meus quadris e olho rapidamente ao redor para a academia cheia. Isso não era o que eu tinha em mente. Eu pensei que ele ia me levar para correr, talvez me levaria para algum tipo de aula, mas eu não esperava uma academia e, com certeza, não esperava um saco de boxe. — Chorar ajuda, falar ajuda, mas, como você sabe, mesmo tudo isso às vezes não é o suficiente. Você precisa de mais. Você precisa botar para fora. Precisa deixar sair a raiva, o ódio e a frustração. Eu gostaria de saber o que estou prestes a te mostrar. Eu gostaria de ter sabido disso quando mais precisava. — Você quer que eu bata no saco? — eu sussurro, meus olhos crescendo. — Quero que você faça o que precisar para sair desse desesperado buraco vazio que existe no seu peito. Quero que você tenha o que fazer quando a necessidade de beber aparecer. Eu pisco. — Você quer que eu bata... nesse saco? Ele para atrás de mim, uma mão caindo no meu quadril, a outra pegando o meu punho e o levantando. — Eu quero que você bata nesse saco. Eu paro de respirar. Seu corpo grande atrás de mim me dá uma sensação estranha e pouco comum. Uma sensação que não estou acostumada a ter. É como vir à vida. É como a chuva. É como respirar. Minha pele formiga, e eu tento me concentrar enquanto Lucas gentilmente me guia para frente. — Quando você bater, — ele diz, levantando meu punho, — nunca feche o polegar na frente; ele deve sempre vir do lado de dentro. — Ele coloca o meu polegar dentro da mão e a fecha. — Quando você bater, tente alinhar seu punho e os dois primeiros dedos — ele toca meu indicador e o dedo médio e bate no saco. Ele estende minha mão para frente, tocando meus dedos no saco. — Bata com o seu corpo; gentilmente flexione o cotovelo, para que ele não fique sobrecarregado.

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Ele puxa meu punho para trás e o empurra para frente de novo, sua outra mão apertando o meu quadril enquanto ele vira meu corpo para o lado para me mostrar a posição correta de bater no saco. Então, para a minha tristeza, ele se afasta, me deixando vazia. — Agora bata. Eu tomo uma respiração profunda e bato no saco. Ele mal se move. — Bata, Ava, — ele diz, a voz mais firme. — Bata nele como se fosse o homem que tirou a vida da garota; bata como se toda a dor presa no seu peito estivesse presta aí dentro; bata como se a sua maldita vida dependesse disso. Eu encaro o saco, me lembrando de Bethy, me lembrando do homem que tirou a sua vida na minha frente, me lembrando do rosto quebrado do meu pai e me lembrando como a minha vida foi extremamente difícil nesse último mês. Eu olho para o saco e vejo tudo isso misturado. Minha garganta se fecha, minha pele formiga e dor explode no meu peito. Meu punho voa sem pensar duas vezes, acertando o saco. É incrível. Eu faço de novo e de novo, até que meus punhos estão batendo no saco, e estou pondo para fora cada grama de dor que está no meu corpo, no meu coração, na minha alma partida e quebrada. Eu grito, batendo mais e mais forte até que lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. Estou ofegando e chorando cada vez que meu punho acerta o plástico que cobre o saco. Grandes braços vêm ao redor da minha cintura, me puxando para trás, então eu viro e bato no peito duro e grande de Lucas. Eu agarro a sua camiseta, meus dedos machucados, e choro. Eu choro pelo que parece uma eternidade, mas, como sempre, ele me deixa fazer isso. Ele sempre me deixa fazer isso. — Vai melhorar. Cada vez que você bater no saco e achar um jeito de pôr para fora, vai ficar mais fácil. — O-o-obrigada, — eu coaxo no seu peito. — Não me agradeça. Só continue lutando. Eu me afasto e olho para ele. Seus olhos encontram os meus e apenas nos encaramos. Uma corrida de calor se espalha pelo meu peito e flutua sobre a minha barriga. Seus olhos brilham no meu rosto antes ~ 134 ~


dele me soltar e olhar para as minhas mãos. — Você deveria colocar gelo. Da próxima vez, vou trazer luvas. Olho para as minhas mãos vermelhas e inchadas. — A dor meio que ajuda. — Sim, — ele diz baixinho, acariciando meus dedos com o polegar. — Lucas? — eu digo. Ele continua olhando para as minhas mãos, mas murmura, — Hmmm? — O que aconteceu com você? Ele para a carícia. — Você não tem que me dizer, — eu digo. — É só que... eu sinto que você está me ajudando porque tem dor, e você me pede para confiar em você, e eu confio, mas eu não te conheço e.... bem... eu quero conhecer. Ele me olha de novo. — Eu perdi a minha filha. Eu perdi a minha vida. Eu apenas faço o que posso para sobreviver. Não há nada para conhecer. — Eu sinto muito sobre a sua filha, — eu sussurro. — Isso faz os meus problemas parecerem... patéticos, em comparação. Ele começa a acariciar meus dedos outra vez. — Nenhum problema é patético, criança. Dor é dor, não importa a forma que tenha. Não há uma pessoa no mundo que mereça ser julgada por sentir, nem que deva colocá-los de lado porque há um outro ainda pior aí fora. — Qual era o nome dela? — eu digo baixinho. — Shylie. — É bonito. Ele não responde, e eu não empurro. Ele não está pronto para me dizer mais, e eu entendo isso. Eu o entendo mais do que ele imagina.

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Capítulo Vinte e Três LUCAS PASSADO Meus pés batem na calçada quando eu termino de correr, me virando na direção da minha casa. Faz três meses. Três meses desde que eu vi a minha esposa. Três meses desde que eu ouvi a sua voz. Três meses desde que ela dormiu com outro homem e me deixou. Eu não sei onde ela está; eu não sei nem se ela está viva, mas ela se foi, e eu estou fazendo tudo ao meu alcance para descobrir onde ela está. Os Hell’s Knights sabem onde ela está, eu tenho certeza, então eu comecei a investiga-los. Eu os segui, os rastreei, descobri a merda em que eles se meteram e juntei tudo isso para descobrir o que aconteceu com Jennifer. Eles estão começando a desconfiar, e as coisas estão esquentando. Eu não dou a mínima para o que eles querem. Eu quero um fechamento, e a o único jeito de conseguir isso é achando a minha esposa. Eu chego à porta da frente e vejo Jackson de pé na minha varanda, os braços cruzados sobre o peito. Eu diminuo o ritmo, tirando os fones dos meus ouvidos e os enfiando no meu bolso enquanto subo as escadas da frente. Paro bem na frente dele, ofegando, meus músculos doendo. Ele tem o rosto apertado; seu corpo está rígido. Ele está puto. Eu sabia que ele ficaria. Eu sabia que ele viria me encontrar assim que descobrisse. — Estava me perguntando quando você iria aparecer, — eu murmuro, secando o suor do meu rosto. — Você está metendo o nariz na minha merda, investigando algo que eu não faço a mínima ideia, e eu não estou gostando. Eu me aproximo. — Mas você sabe sim, Jackson. Me diga, há quanto tempo você vem supervisionando as drogas que entram e saem dessa cidade? ~ 136 ~


Ele recua. É a única resposta que eu preciso. — Não faço a porra da mínima ideia do que você está falando. — Oh, — eu rio amargamente. — Você sabe, porra, mas não precisa me dizer. Em qualquer outro momento, eu me importaria com o que vocês, seus filhos da puta, estão fazendo na minha cidade, mas nesse momento eu só tenho um objetivo – encontrar a minha esposa. — E eu já te disse, — ele late, — eu não faço a mínima ideia de onde ela está, porra. — O seu clube a colocou no caminho das drogas, a meteu em problemas, então não venha me dizer que você não tem a informação que eu preciso para encontrá-la. — Eu não tenho, porra, e mesmo que tivesse, — ele fecha os punhos, — eu nunca ajudaria um maldito policial. — Você tem filhos, Jackson? Ele estremece. — Porque se você tem, vai entender exatamente porque eu estou fazendo isso. Eu perdi tudo. Minha filha morreu, e eu não pude salvála; agora a minha esposa se foi, e eu não consigo encontrá-la. Eu não tive controle sobre a minha filha, mas posso controlar o que está acontecendo aqui, e eu vou achar a minha maldita esposa, mesmo que isso me mate. Jackson segura o meu olhar. — Você está latindo para a pessoa errada, — ele bufa antes de recuar e desaparecer pela rua. Sim, vamos ver.

*****

— Então você não ouviu nada? — a irmã de Jennifer soluça, puxando a minha camisa. Eu tento confortá-la, mas conforto não é algo que vem fácil para mim esses dias. Eu a seguro de forma dura em meus braços, olhando sobre a sua cabeça para a parede em frente. Eu sei que ela está preocupada. Eu sei que ela quer respostas, mas eu não tenho as ~ 137 ~


respostas que ela quer. Eu não tenho nada além da porra de um buraco vazio para tentar preencher. — Não, — eu murmuro, passando meus dedos de forma tensa pelas suas costas. — Oh, Luke, — ela soluça e eu estremeço, — Eu só quero saber onde ela está. — Eu estou fazendo tudo que posso para achar ela, Kasey. Não é fácil. — Eu sei; eu sei que você está. Você a ama tanto. Aperto minha mandíbula. Eu ainda a amo? Eu não sei. Porra, eu nem sei mais o que é amar. Aprendi recentemente que eu não consigo sentir mais nada que não seja determinação para obter respostas. Eu não sei se vou encontrar ela porque a quero de volta, ou ao menos se eu quero ajudá-la, ou se é porque eu preciso do fechamento de saber que ela está bem. — Eu vou achá-la, — eu digo, dando um passo para trás. Kasey olha para mim, tão parecida com a sua irmã, e ainda tão diferente. Kasey é mais bonita que Jennifer, de uma maneira mais suave e gentil. Jenn tinha uma boa aparência que maravilhava os homens, mas Kasey os faz querer levantá-la nos braços e segurá-la perto. — Eu sei que vai. Eu só estou preocupada. — Como sempre, se você ouvir alguma coisa, precisa me ligar. — Eu não ouvi nada, nadinha mesmo. Ela é minha irmã e ela não me ligou. Nós éramos próximas, você sabia? Eu passei com ela por tudo, e ainda assim ela não ligou. Isso é alarmante por si só, mas eu não digo nada. — Nós vamos achar respostas. Eu espero estar certo.

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Capítulo Vinte e Quatro AVA PRESENTE Eu carrego duas sacolas cheias de suprimentos para o meu carro, me sentindo leve, até mesmo enérgica. Depois da minha intensa sessão na academia com Lucas, fui para casa, me limpei e enfaixei as mãos, então decidi, pela primeira vez desde que tudo aconteceu, sair de casa por algo que não fosse trabalhar ou beber. Eu não fui longe, apenas ao supermercado para comprar comida e fazer para mim mesma um jantar legal, mas já foi um começo, e é bom fazer algo produtivo. Eu penso em Lucas enquanto caminho e como é incrível a sensação de estar com ele. Eu não percebi até aquele momento na academia que eu tenho sentimentos pelo misterioso detetive durão. Eu não sei quando eles começaram. Eu não sei como eles se formaram, mas eles estão lá e são incríveis. Eu nunca experimentei nada como isso, e na verdade eles me assustam muito. Lucas e eu... somos de mundos diferentes. Eu coloco as sacolas no chão enquanto puxo a bolsa para pegar minhas chaves. Procuro e as encontro, as puxando para fora. — Ava, que incrível ver você. Ao simples som dessa voz, todo meu corpo fica duro. Eu endireito minhas costas e me viro lentamente, vendo um rosto que eu não queria nunca mais ver na vida. Tomo uma respiração profunda e tremente e aperto a bolsa perto de mim, rezando para que seja apenas um sonho. Quando ele se aproxima, eu sei que não é. — Você não achou que eu ia apenas desaparecer, não é? Eu encaro o homem que atirou em Bethy, o homem que arruinou a minha vida, o homem que quer destruir o meu pai. Eu o encaro e um ~ 139 ~


nó duro se forma na minha garganta quando vejo o rosto dela em frente aos meus olhos, implorando pela sua vida. Ele deve ver isso, porque joga a cabeça para trás e ri. Deus. Mau. Tão incrivelmente mau. — Olhe para você; eu posso ler todos os seus pensamentos, — ele ri. — Me deixe adivinhar, você está vendo o rosto dela? Como é? Quero dizer, parece que você está indo bem, mas isso não pode ser verdade, porque você escolheu acabar com uma vida inocente. De jeito nenhum você pode se sentir normal. Dor aperta o meu peito e eu lentamente movo a mão para o telefone na minha bolsa. Eu não vou deixar esse homem me pegar – não de novo. Eu não posso. Não vou. Meus dedos se curvam em volta do aparelho e eu cuidadosamente pressiono o botão de desbloqueio, rezando para que seja o certo. Rezo para que meus dedos encontrem o botão #1, que irá ligar diretamente para Lucas. Eu rezo. — O que você quer de mim? — eu sussurro, literalmente implorando a Deus para que eu tenha conseguido ligar para Lucas e para que ele atenda a chamada. Eu me movo, esperando que por algum pequeno milagre ele tenha atendido, que Lucas possa ouvir. — Eu fiz tudo que você queria. Agora me deixe em paz. Ele late uma risada. — Você não está fazendo tudo que eu queria. Eu queria que você sofresse, quebrasse, machucasse a sua família, e isso não está acontecendo. Olhe você aqui – fazendo compras, curtindo a vida como se não tivesse feito uma coisa horrível. — Apenas me deixe em paz, — eu sussurro, minha voz quebrando. — Eu preciso pegar você de novo? Preciso fazer doer mais? Preciso fazer você gritar de novo, porra? — ele grunhe, chegando mais perto. — Vá embora! — eu grito, derrubando as minhas compras e me virando para tentar entrar no carro. Ele bate o meu corpo contra o automóvel, esmagando o meu rosto no vidro. Eu ofego e grito, mas ele se inclina perto, rosnando. — Não pensei que você pode esquecer. Eu não vou te deixar esquecer. Eu não vou te deixar melhorar. Eu vou fazer isso queimar pelo resto da sua vida maldita. Nunca vou deixar você dormir sem ver o rosto dela. Assassina. Eu começo a soluçar, dor rasgando o meu peito. ~ 140 ~


— O seu pai vai pagar do pior jeito possível. Se lembre isso. Com isso, ele me deixa ir. Eu caio de joelhos, soluçando e ofegando por ar. Fecho meus olhos e imagens da cabeça de Bethy explodindo correm pela minha cabeça. Eu grito, agarrando meu cabelo e rezando, apenas rezando para que tudo vá embora. Tudo que eu queria era que, por apenas um segundo, minha vida fosse normal outra vez. Mas ela nunca mais vai ser normal. Eu nunca mais vou ser normal. Pego minha bolsa e as sacolas, então empurro meu corpo para dentro do carro. Eu esqueço completamente que liguei para Lucas.

*****

Eu afundo na banheira, meus olhos queimando de chorar, meu peito apertado de dor e horror. A água quente lava a minha pele e eu afundo mais. Continuo afundando até que o meu rosto está debaixo da água, estou completamente cercada por ela. Eu estou no controle, mas ainda assim meu corpo começa a gritar por ar. Fecho os olhos e esqueço a dor por um segundo. Penso em apenas ficar aqui embaixo, por um breve momento deixo isso passar pela minha cabeça. Seria mais fácil? Eu não acho que seria. Ele quer dor; ele quer que eu sofra; ele quer destruir a minha família. Ficar debaixo da água, tirar a minha vida – isso seria deixar ele ganhar. Isso não é o que eu quero. Não quero que ele ganhe – inferno, eu não quero sentir mais nada disso, mas parece que nada que eu faça vai aliviar essa parte quebrada e desesperada de mim. Meus pulmões começam a queimar e bem quando estou prestes a levantar, duas mãos fortes agarram meus braços e eu sou puxada da banheira. Eu ofego e meus olhos embaçam com a água que corre pelo meu rosto. Estou confusa, assustada e agarrando um corpo duro. É só quando ele fala que eu percebo que foi Lucas quem me puxou da banheira e agora está me esmagando contra o seu peito. — O que há de errado com você? — ele diz, sua voz frenética e tão angustiada que dói. — Que porra há de errado com você?

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— Luca... — Nunca é ruim o bastante para isso. Nunca é ruim o bastante para isso, porra. Oh, Deus. Ele acha que eu estava tentando me matar. — Lucas, — eu coaxo. — Porra, não pense em desistir, Ava. Você é melhor que isso, é mais forte. Não desista. Você me ouviu? — ele está gritando na minha cara agora, as mãos nos meus ombros, balançando o meu corpo. Ele está agitado e tão, tão aterrorizado que as suas narinas estão abertas, seu corpo está tenso e seus olhos estão arregalados com alarme. — Lucas, — eu imploro, tossindo a água que chegou aos meus pulmões. Ele se inclina, pegando meu corpo nu em seus braços e me levando para o meu quarto. Ele senta na cama, seus braços ao meu redor, me esmagando contra o seu corpo. Lágrimas começam a correr pelo meu rosto. — Nunca desista, — ele sussurra na minha orelha. — Não pare de lutar, baby. Baby. Eu começo a chorar mais forte. — Eu não vou deixar você cair. Não vou deixar você sofrer, porra. Eu estou agarrada a ele agora, não me importando de estar nua, não me importando que ele tenha entendido errado a situação, não me importando com anda exceto o homem com seus braços ao meu redor, me dando um conforto que eu nunca tive. — Lucas, — eu coaxo, — Eu não ia... eu não... Eu não posso terminar a frase, porque parte de mim, uma pequena parte de mim, desejava que eu tivesse me afogado naquele banho. Isso me assusta tanto que eu fico rígida em seus braços, e uma dor horrenda atravessa o meu corpo. Oh. Deus. O que eu ia fazer? Ia deixar que a dor tirasse a minha vida? Eu ia deixar ele ganhar? — Nunca, — ele raspa. — Jamais me deixe você fazer isso de novo. ~ 142 ~


— E-e-e-ele... — eu paro de falar, fechando os olhos, deixando ele me balançar contra o seu peito. Lucas é um policial, mas eu confio nele. Eu confio o bastante para deixar ele entrar. Para finalmente deixar alguém entrar. — Isso é minha culpa. Ele para de balançar e sussurra, — Eu não entendo. — O homem que me p-p-p-pegou... a outra garota que estava lá, a que foi morta... foi minha culpa. — Você pode confiar em mim, criança, — ele diz na minha orelha, me apertando mais forte. — Ele queria se vingar do meu pai, — eu admito, sentindo a corrida de algo intenso pelo meu corpo – alívio, por finalmente estar dizendo as palavras. — Ele pegou a mim e outra garota. Eu não sei quem, não sei porque, mas era um jeito de se vingar do clube. Ele disse que queria enviar uma mensagem fazendo isso, e eu tive que escolher uma de nós para morrer. Lucas fica imóvel. Eu continuo falando. — Ela estava gritando. Ele continuava atirando nela, acertando as suas pernas, exigindo que eu fizesse uma escolha. Eu nunca tive tanto medo na vida, nunca me senti tão confusa. Eu implore. Eu tentei tudo que podia para mudar isso, mas... eu estava com tanto medo que gritei antes que soubesse o que estava acontecendo. Eu disse... oh, Deus... Lucas, eu disse ela. Ele não diz nada. Ele só permanece imóvel, quase como se estivesse dormindo. — No segundo em que as palavras deixaram meus lábios, eu disse eu. Eu disse para me matar, mas... era tarde demais. Ele atirou nela. Ele apenas... atirou nela. É minha culpa que ela esteja morta. Eu sou... eu sou uma... — Não, — ele diz, sua voz dura. — Não se atreva a dizer essa palavra. — Essa palavra é a verdade. Ele se move tão rápido que me pega com a guarda baixa. Ele baixa o meu corpo, me derrubando de costas no colchão, então ele vem sobre mim, seu corpo duro caindo em cima do meu, seu rosto perto do meu. Seus olhos estão tão intensos e aterrorizantes, tão profundos, mais profundos do que eu já os vi alguma vez. — Você não é nada mais ~ 143 ~


que uma garota que foi levada, colocada em uma posição que ser humano nenhum desse mundo maldito deveria ter que enfrentar. Você acha que é a única que teria feito essa escolha? Uma lágrima escorre pelo meu rosto. — Eu disse ela... em um momento de fraqueza e medo eu disse ela, e por causa disso uma pessoa inocente foi morta. — Se fosse escolha dela, você acha que ela não teria dito a mesma coisa? Você acha que qualquer um teria dado a sua própria vida sem pensar duas vezes? — Sim, — eu sussurro. — Um herói... — Um herói vem de muitas formas. — Eu matei alguém. — Não. Você foi colocada em uma posição em que tinha pouca escolha. — Eu deveria ter dito eu. — Você acha que isso realmente teria mudado o desfecho? Eu olho para longe. — Olhe para mim, Ava. Eu não faço. — Ava, — ele avisa. Viro meu rosto para ele. — Você não matou aquela garota. — Essa é a sua opinião, — eu sussurro. — Tenho certeza que nem todos pensariam assim. — Você está certa, nem todos pensariam assim, mas eu não dou a mínima para o que os outros pensam. Eu só me importo com o que você pensa. — Eu não fiz nada errado, — eu digo, minha voz soando como um miado quebrado. — Eu só estava saindo do trabalho... eu só.... eu.... — Eu sei, — ele diz com a voz mais suave. — Eu sei, criança. — Ele queria machucar o meu pai. ~ 144 ~


— Então é o seu pai que deveria pagar o preço, não você. Eu olho para ele, meus olhos se arregalam. — Não, meu pai é um homem bom. — Um homem bom que deixou você cair nas mãos de um monstro. — Lucas, não... — eu começo a lutar, tentando sair de debaixo dele. Como ele se atreve. Como ele se atreve a culpar o meu pai? — Não lute comigo, Ava, — ele late. — Não negue o que está bem na sua frente. Os negócios do clube meteram você nessa confusão, e o líder do clube é o seu pai. Eu ouvi aquela ligação hoje; eu estava fora de mim de preocupação, mas ouvi o que ele queria. Ele queria quebrar você para fazer o seu pai pagar. Então me diga, se isso não é culpa dele que você foi levada, então de quem é? Eu estremeço quando a fria e dura realidade de que os problemas do clube me colocaram nessa posição me atinge. — Eu tinha uma filha, — ele sussurra. — Eu tinha uma filha, e ela foi tirada de mim. Eu fiz tudo que podia para lutar... mas a morte dela não estava nas minhas mãos, porque eu nunca teria permitido que isso acontecesse. — Ele me ama, — eu digo tristemente. — Eu sei, — Lucas diz, e ele fala sério. Posso ouvir na sua voz. — Mas essa dor não é sua. É dele, porque isso nunca deveria ter acontecido em primeiro lugar. — Ele não queria... ele nunca me machucaria. Ele... ele morreria se soubesse o que aconteceu comigo. — E você não acha que ele precisa sentir esse tipo de dor? Você não acha que talvez ele precise de algo para mudar o jeito como as coisas estão correndo no clube? Meu queixo aperta. — Eu não vou fazer isso, — eu raspo. — Eu não vou tentar fazer você ver que está errado, mas você está... você não o conhece. Ele fica quieto pelo que parecem horas. — Minha filha se afogou.

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Eu pulo, e minha cabeça estala para o lado quando meus olhos encontram os dele outra vez. — Lucas, eu... sinto muito... Ele acabou de me encontrar na banheira e pensou que eu estava tentando me afogar. Deus, que tipo de monstro eu sou? Como deve ter sido para ele me ver dentro da água? — Eu não pude salvar ela. Eu teria feito qualquer coisa, dado a porra da minha vida para salvar ela... mas eu não pude. Eu vejo o seu ponto. Eu vejo, e eu entendo. Eu levanto a mão e passo os dedos pela sua mandíbula. — Eu te vi debaixo da água essa noite e tudo voltou. — Lucas, eu sinto muito. Eu não sab... — E eu percebi que eu não posso mais fazer isso, porra, — ele me interrompe. Meus olhos se abem quando ele se empurra para longe de mim. Ele fica de pé e olha para mim, seus olhos viajando pelo meu corpo nu. Seu corpo fica tenso, mas não com raiva. — Eu não posso te salvar. Eu não pude salvar a minha filha, e eu não pude salvar... — ele olha para longe. — Eu não posso salvar você. — Lucas, — eu sussurro, ficando de pé, não me importando com a minha nudez, não me importando que ele possa vê-la. — Eu não estou pedindo que você me salve. — Eu não posso, — ele diz com a mandíbula apertada. — Eu não posso te curar quando eu estou tão quebrado, porra. Eu me aproximo, levanto a mão e cubro o seu queixo. — Eu não estou pedindo que você me cure também. Eu só estou pedindo para ser você. Ele olha para mim e eu fico na ponta dos pés, jogando tudo de lado e pressionando meus lábios nos dele. Um longo momento se passa e eu tenho certeza que ele vai me afastar. Seu corpo está tão rígido, sua respiração tão rápida, mas então, como se a sua alma se abrisse bem na minha frente, ele segura a minha cintura e me puxa contra o seu corpo. Então ele está me beijando. ~ 146 ~


Capítulo Vinte e Cinco AVA PRESENTE A língua de Lucas se choca com a minha, seus lábios abrem os meus enquanto nosso grupo fica mais profundo. Me pressiono contra ele, agarrando a sua camisa, o respirando, provando tudo nele. Ele dá um gemido que vem do fundo da garganta e começa a me empurrar na direção da cama, seu grande corpo dominando o meu, me fazendo sentir tão pequena, mas ainda tão segura. Afasto minha boca da dele quando ele desliza uma mão para baixo, agarrando a minha bunda, me prendendo contra ele. — Não deveríamos fazer isso, — ele murmura, seus lábios cheios, os olhos com desejo, sua ereção pressionando contra o meu estômago. — Talvez, — eu sussurro. — Mas nós dois sabemos que queremos isso. Seus olhos brilham e sua mão se curva no meu traseiro antes de dar um leve aperto. Eu sei que deveria dizer a ele que sou virgem, mas estou com medo que isso o assuste e, nesse momento, se ele se afastar de mim, eu não vou saber lidar. Preciso dele mais do que preciso da minha próxima respiração e vou fazer qualquer coisa para que ele fique. Qualquer coisa que eu puder. Então eu não abro a boca e digo o que ele deveria saber. Em vez disso, pressiono meus lábios nos seus outra vez e o beijo. Ele deixa que eu faça isso, lentamente derrubando meu corpo na cama. Sua boca se move suavemente contra a minha, e sua mão desliza pelos meus lados, correndo pela minha pele até alcançar um seio. Ele gentilmente o aperta, rodando o mamilo entre o polegar e o indicador. Um pequeno gemido deixa os meus lábios e eu arqueio, abrindo as pernas, deixando que todo o seu corpo caia contra o meu.

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— Eu posso sentir como você está quente, — ele rosna contra a minha boca. — Mesmo através do meu jeans, posso sentir a sua buceta. Eu estremeço. Ninguém nunca falou comigo assim antes, e eu amo. Mais do que eu imaginei que faria. Eu gemo e o agarro, meus dedos se embrenham no seu cabelo grosso, puxando, o querendo mais perto, mesmo que isso não seja possível. Sua mão desliza para baixo, gentilmente caindo entre as minhas pernas. Ele se inclina para trás e se apoia em seus joelhos e com cuidado separa mais as minhas coxas. Seus olhos caem para o meu sexo exposto, e ele faz um som de felicidade que vem do fundo do seu peito. — Você é linda, Ava, — ele diz, sua voz genuína. — Linda pra caralho. Meus olhos encontram os seus e minhas bochechas aquecem, corando com prazer e vergonha. — Assim como você, — eu sussurro. Ele olha para baixo, sem responder ao meu comentário, e avança para deslizar um dedo pela minha carne, fazendo um som gutural quando a encontra molhada. — Sim, — ele raspa. — Você está pronta para mim, mas eu preciso te provar, porra, então te provar eu vou. Então ele está abaixando o rosto na direção do meu sexo. Eu ofego e me contorço, mas ele me prende no colchão me segurando pelo quadril. Seus lábios escovam o meu clitóris exposto e eu ofego com a sensação incrível que corre pela minha espinha. Quando ele aproxima os lábios e me chupa, eu salto, meus quadris pulando da cama. Ele os bate para baixo novamente com as mãos e trabalha duro na minha buceta, sua língua girando, seus lábios chupando, sua boca gemendo e vibrando. — Oh, Deus, — eu grito, meus dedos dos pés se curvando. Eu nunca senti nada assim. Eu imaginei tantas vezes qual seria a sensação disso. Eu já experimentei com os meus dedos, mas nunca chegou perto de ser tão incrível. Eu gemo alto e minha cabeça cai para trás, meus seios inchados e os mamilos duros – meu corpo está em chamas. Lucas chupa e trabalha no meu clitóris até que que uma corrente de calor cresce no meu baixo ventre. — Eu acho, — eu gemo. — Eu acho... oh, Deus... Um prazer formiga cada vez mais forte pelo meu corpo, até quem meus dedos se fecham nos lençóis ao meu lado, e então eu estou ~ 148 ~


gozando, explodindo na sua boca com um grito e um ofego que soam altos demais até mesmo para mim. Lucas lambe e chupa da estremecimento meu, e então se move para cima pelo meu corpo, seus lábios correndo pela minha pele até alcançar a garganta, onde ele gentilmente chupa enquanto tira a camisa, puxando-a por cima da cabeça. Ele se ajoelha de novo, olhando para o meu corpo, abrindo o seu cinto. Eu olho para o comprimento grosso e duro marcando o seu jeans e eu sei... eu sei que eu deveria dizer a ele, mas não posso. Eu não quero que ele vá embora. Eu não quero que ele pense que não estou pronta para ele. Eu estive esperando por ele. Por esse momento. Por uma pessoa que eu deixasse entrar o suficiente para tomar algo que eu guardei com tanto cuidado. Meus olhos permanecem nas suas mãos enquanto ele empurra o jeans pra baixo, libertando seu pau. É magnifico. Não muito comprido, não muito grosso – apenas o tamanho e espessura perfeitos. Pelo menos, parece perfeito para mim. Ele fecha a mão ao redor dele e começa a acariciar, fazendo com que a ponta adquira um tom intenso de vermelho, então ele chega na sua calça e pega um preservativo. Eu observo enquanto ele rasga a embalagem com os dentes e depois cobre o seu comprimento. O preservativo é amarelo e estranho de ver, e bloqueia a vista intrigante do seu pau. Eu nunca vi um tão de perto, mas eu já vi fotos o bastante para saber o que esperar. Ainda assim, Lucas é impressionante. Ele se inclina para frente, apoiando as mãos na cama, e lentamente se move sobre mim. Borboletas voam no meu estômago quando eu percebo o que está prestes a acontecer – está realmente prestes a acontecer. Ele vai fazer amor comigo, vai tirar a minha virgindade e me introduzir em um mundo que eu estive tão desesperadamente querendo entrar com ele. Eu o alcanço, cobrindo o seu queixo, e seus olhos encontram os meus quando ele se acomoda entre as minhas pernas, seu pau pressionando exatamente contra a minha entrada. — Você está pronta para isso? Porque quando eu começar a precisar de você, baby, não vou parar. Precisar de mim. Ele precisa de mim? ~ 149 ~


Meu coração voa. — Eu não quero que você pare. Seus olhos aquecem e ele curva a mão na lateral da minha cabeça enquanto lentamente avança, pressionando o pau na minha entrada e empurrando um pouco. Não dói tanto ainda, então eu tomo um respiração profunda e tento relaxar, passando meus dedos pelo seu cabelo, escovando meus lábios contra os dele. — Deus, você é tão apertada, porra, — ele murmura, empurrando um pouco mais fundo. Eu sinto, então. Quando algo se rompe, dor sobe pela minha espinha. Eu enrijeço e ofego. Queima e é como se alguém estivesse me estirando. Eu sabia que ia dor, mas tanto assim? Não. Lucas fica imóvel em cima de mim, e quando ouso virar meu rosto para o dele, ele está em encarando, seus olhos confusos e um pouco preocupados. — Me diga que você só que faz um tempo que você esteve com um homem, — ele sussurra, sua voz claramente não querendo fazer uma aparição. — Lucas... Ele pula para trás, saindo de mim, e fica de pé, ofegando, me encarando. Seu pau está totalmente ereto, esticado, mas ele não faz nada sobre isso. Ele só me olha. — Você é virgem. Não é uma pergunta. — Isso importa? — eu sussurro. Ele ri amargamente, e é a primeira vez que eu ouço algo parecido com uma risada sair dos seus lábios. — Se isso importa? Porra, Ava, é claro que importa, merda. O que diabos você está fazendo dando algo tão importante como isso para alguém como eu? Eu me apoio nos meus cotovelos. — Eu... eu quero dar a você. — Não, você pensa que quer. Faço uma careta. — Não me diga o que eu quero, Lucas. Eu não sou criança. Seja lá o que acontece entre nós, eu sinto isso e eu quero isso. Eu quero estar com você porque você é a primeira coisa real a me acontecer, e eu não quero desperdiçar isso. Seu rosto suaviza um pouco e ele me encara, seus olhos estudando o meu rosto. — Você não pode pegar isso de volta.

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— Eu não quero pegar de volta. — Ava, — ele diz, sua voz amarrada. — Você está passando por um momento difícil; você possivelmente nem sabe o que quer. Raiva ferve no meu peito e eu me atiro para fora da cama, me jogando nele e o empurrando com tanta força que ele dá dois passos para trás. — Você sabe de uma coisa, Lucas Black? Vai se foder. Estou cansada de você me tratando como se eu não tivesse porra de ideia nenhuma do que eu preciso. Se você não quer isso, então não fique aí parado e jogue isso em mim. Cresça e aceite. Eu passo por ele direção à porta, mas sua mão chicoteia e me segura, passando ao redor da minha barriga e me puxando de costas contra ele. — Nunca diga que eu não queria isso, — ele diz, sua voz baixa. — Eu sei o que eu quero. Eu nunca estive mais certa de nada na vida, — eu digo, minha voz suavizando um pouco. — Quero você dentro de mim, — olho para ele. — Quero você me cercando. Quero tudo que você pode me dar porque você é a única pessoa que me entende. Sua mão sobe pelas minhas costas e me puxa para mais perto. — É a sua virgindade, querida. — Sim, — eu sussurro. — É, e é minha para dar. Seus olhos brilham e então ele toma uma respiração profunda antes de me puxar nos seus braços, batendo seus lábios nos meus. Ele nos empurra contra a cama e gentilmente deixa me corpo, me beijando com cuidado, adorando meu corpo, me preparando. — Não há nada que eu posso fazer para tornar isso menos doloroso, — ele diz, alcançando entre as minhas pernas e acariciando minha buceta suavemente. — Mas eu posso ir devagar. — Eu não me importo com a dor se vem de você. Ele geme e gentilmente separa minhas dobras, empurrando um dedo na minha buceta. Eu gemo e me contorço quando a dor sobe pela minha espinha outra vez. Ele lentamente puxa o dedo para fora, depois o desliza para dentro de novo. Ele faz isso até que a dor desaparece e algo incrível toma o seu lugar. Então ele coloca outro dedo, me esticando, abrindo, até que estou me empurrando contra ele. — Isso não é nem perto de como vai ser o meu pau, Ava, mas eu vou fazer tudo que posso para não te machucar. ~ 151 ~


— Eu confio em você, — eu digo, encontrando seus olhos. — Eu confio em você, Luke. Ele recua e seus olhos se fecham. Ele encosta a testa na minha. — Por favor... não me chame assim. — Por quê? — eu sussurro. — Porque é alguém que eu não sou mais. — Então quem é você, Lucas Black? Ele levanta a testa da minha. — Eu sou seu. Meu coração flutua e eu avanço, o beijando outra vez. — Então me mostre. E ele faz. Ele tira os dedos de dentro de mim e posiciona seu corpo sobre o meu outra vez. Eu me preparo para a dor, e ela vem. A cada centímetro que ele empurra dentro de mim, a dor fica um pouco pior. Mas ele é gentil. Ele é suave e carinhoso, e me acalma com palavras bonitas enquanto guia o seu corpo dentro do meu, me deixando ajustar a cada polegada. Quando ele está dentro, totalmente dentro de mim, nós paramos. Minhas mãos estão descansando nas suas costas, seu rosto está bem acima do meu e nossos olhares estão trancados. Há tanta coisa passando entre nós, tanta beleza, tanta dor, tanto que só nós dois podemos entender. Eu acho que é nesse segundo que eu me apaixono por Lucas ―Shadow‖ Black. E eu estou totalmente ok com isso. — Eu vou te foder agora, baby. Eu aceno, acariciando suas costas quando ele começa a empurrar, devagar primeiro, trabalhando meu corpo durante a picada desconfortável. Essa picada rapidamente se transforma em um leve latejar, e então em um formigamento. Não é incrível, mas não dói mais também. Fecho os olhos e o aceito, sentindo cada empurrão, o ouvindo gemer, saboreando cada carícia dos seus dedos. — Você é tão incrível, — ele rosna, se aninhando no meu pescoço. — Porra, Ava.

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— Sim, — eu sussurro, sentindo um leve zumbindo de prazer entre as minhas coxas. — Deus, sim. — Eu estou tão fundo, tão fundo, porra. — Por favor, — eu mio. — Por favor o quê? — Por favor, não pare. Ele não para. Ele empurra e desliza dentro de mim até que meu corpo está se arqueando, meus mamilos estão duros e seu corpo está coberto com uma leve camada de suor. Ele está perto, eu posso ver pela sua mandíbula, pelo jeito como o seu corpo está tenso e seus olhos brilham. A simples ideia dele encontrar tanto prazer no meu copo faz com que um arrepio percorra a minha pele. — Você está... Isso é bom? — eu ofego. — Baby, isso é incrível pra caralho, — ele rosna. — Deus, eu vou gozar. Ele empurra mais três vezes e então joga a cabeça no meu ombro e deixa sair um longo suspiro misturado com um gemido. Seu corpo estremece, e eu sinto seu pau se contrair dentro de mim. Deus. Incrível. Seu corpo relaxa um pouco em cima do meu e ele abaixa a cabeça, descansando sua testa na minha. Eu olho em seus olhos e sussurro, — Isso era exatamente o que eu precisava e mais. Ele sorri, o primeiro sorriso verdadeiro, quente e fácil que ele me dá. E é lindo.

*****

— Posso fazer uma pergunta? — eu pergunto naquela noite mais tarde, quando estou enroscada nos braços de Lucas. — Mmmm, — ele murmura, seus dedos acariciando meu cabelo. ~ 153 ~


— Se você pudesse escolher como vai morrer, você faria isso? Ele para a carícia no meu cabelo e pensa nisso por um momento antes de responder com a voz grossa, — Não. Eu pisco. — Não? — Não. — Mas por quê? — Eu não acho que nós deveríamos ter essa opção de escolha. Se pudéssemos dizer como isso vai acontecer, seria nos dar muito controle. A coisa sobre morrer é que você nunca sabe quando, nunca sabe como – você só sabe que um dia vai acontecer. Isso é aterrorizante por si só, o simples pensamento de não estar mais aqui – imagine adicionar a opção de decidir como isso vai ser. Ele tem um ponto válido. — É verdade. — E você, criança? — ele perguntando, rolando, ainda mantendo os braços ao meu redor. — Você escolheria, se pudesse? Dou de ombros. — Acho que sim, eu iria.se você tivesse me perguntando a alguns meses atrás, eu teria dito não, mas depois de ver... — minha voz some e eu olho para longe. Lucas se estica pega o meu queixo, gentilmente virando meu rosto para ele. — Continue. — Depois de ver Bethy – esse era o nome dela, você sabe – morrer.... eu me perguntei como isso seria. Será que dói? Ela apenas desapareceu sem nenhuma dor? Eu acho que se eu pudesse escolher, seria algo fácil, simples, sem nada daquele horror. — A vida não é fácil ou simples, baby, — Lucas diz, acariciando meu lábio inferior com o polegar. —Se fosse, nós não estaríamos aqui. Meu sorriso estremece e eu aceno. — Minhas palavras não vão mudar o jeito que você se sente sobre isso, eu sei, mas eu quero você saiba que não foi sua culpa. Qualquer pessoa, até mesmo a mais forte de todas, teria enfraquecido diante de uma escolha dessas. Você pode não acreditar agora – talvez você nunca acredite – mas posso te garantir que você não é uma assassina, e não foi sua culpa o que aconteceu. ~ 154 ~


Eu olho nos seus olhos, e sei que ele acredita nas palavras que está dizendo. Ele não acha que eu sou uma assassina, e ele não acha que o que fiz foi horrível ou repulsivo, mas eu apenas não sei como posso me sentir desse jeito. Não importa quanto eu tente me justificar, parece que jamais vou conseguir tirar essa culpa do meu peito. O telefone de Lucas toca na mesa de cabeceira e ele suspira, rolando e pegando o aparelho. Ele aperta um botão e o coloca na orelha — Sim? Ele ouve por um momento. Então rosna. — Certo. Vou estar aí em vinte minutos. Ele desliga e se vira para mim. — Sabia que essa noite estava boa demais para ser verdade. Tenho que ir. — Trabalho? — pergunto. — Apenas algo diferente. — Você está sempre à serviço? — Basicamente, — ele diz, deslizando para fora da cama. Pego um vislumbre do seu traseiro musculoso quando ele se inclina para achar seu jeans. Ele o veste e se levanta. Deus, ele parece bom assim, parado ali, seu jeans desabotoado, seu corpo grande e forte e definido, o cabelo bagunçado e os olhos cheios de desejo. — Se a pista para um caso aparece, eu estou lá, goste ou não. — Que droga, — eu digo, olhando para o seu abdômen enquanto ele procura pela sua camisa. — Sim, — ele diz, a deslizando pela cabeça. Eu quero perguntar a ele se vamos nos ver de novo, se isso foi apenas um caso de uma noite, se algo mudou, mas não consigo. É provavelmente por causa do medo que a resposta seja algo que eu não possa lidar, e isso me assusta. A melhor coisa para mim é apenas rezar e esperar que eu não o perca, porque eu não conseguiria lidar com isso. Ele pega suas coisas e coloca os sapatos, então caminha até a cama de novo e se inclina, enrolando os dedos no meu cabelo e trazendo minha testa até seus lábios. Ele me beija, demorando um pouco antes de se afastar apenas o suficiente para olhar nos meus olhos. — Vou te ligar mais tarde. Fique bem. Mantenha o alarme ligado. Eu vou procurar pelo filho da puta que causou esses problemas, você goste ou não. ~ 155 ~


Eu solto um suspiro resignado e aceno. — Mais tarde, querida. Eu sorrio suavemente. — Mais tarde, detetive. Ele ri. Eu menti. Pensei que o sorriso dele era a coisa mais bonita que já tinha visto. Não. É a sua risada.

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Capítulo Vinte e Seis LUCAS PASSADO — Me diga a última vez que você deu drogas a ela, — eu lato, batendo o viciado contra o frio muro de tijolos. — E-e-eu não me lembro de ninguém da última vez, — ele balbucia. — Seu mentiroso do caralho, — eu grito, chegando mais perto. — Eu sei com certeza que você deu drogas para ela, e quero saber quando foi. — Ouça, cara, eu não sei quem ela é. Eu juro. Eu o puxo da parede e então bato suas costas com tanta força que a cabeça estala contra o muro. — Pare de mentir para mim, porra — eu berro. — Ok, — ele guincha. — Eu a vi um mês atrás. Ela veio até mim pedindo uma droga específica. Eu dei a ela. Fim da história. — Qual droga? — É um novo mix. Coisa da boa. — E onde você conseguiu essa maldita droga? — Eu não posso dizer, cara. Eu vou ser morto. Eu puxo a minha arma e a pressiono contra a sua cabeça. — Acredite em mim quando eu digo que vou te matar se você não me contar, porra. — Por favor, — ele chora, — Eu não fiz nada errado.

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— Aposto que fez. Agora, resposta a maldita pergunta ou eu vou explodir os seus miolos e, confie em mim, vou escapar dessa dizendo que foi legítima defesa. Seus olhos se arregalam, e eu não sei se ele sabe se eu estou blefando ou não, mas ele rapidamente começa a falar. — Tudo que eu sei é que um membro dos Hell’s Knights estava vendendo essa droga. Não sei se são eles que fazem, mas sei que foi onde começou. A garota estava viciada por causa deles, e ela veio até mim quando eles chutaram a sua bunda de lá. Eles chutaram a sua bunda de lá? Jackson disse que não a viu, que ela apenas partiu, mas esse cara está dizendo que foram eles que a viciaram. Algo não está fechando. — Os Knights estão traficando nessa área? — Eu não sei. Só sei que a droga é bastante viciante, e eles estão fornecendo. — Obrigado pela informação, — eu digo sarcasticamente. — Agora nós dois vamos sair para um passeio. — Você disse que ia me deixar ir embora! — ele grita, se contorcendo. — Bem, — eu digo, me inclinando perto com um sorriso. — Eu menti.

*****

Eu paro em frente à cerca do complexo dos Hell’s Knights, contornando o portão para não ser visto. Cinco minutos depois, Jackson, o seu VP, Cade, e um amigo dos dois, Spike, saem de lá. Cruzo os braços sobre o peito e espero que eles alcancem a cerca. Jackson fica furioso, seus olhos escuros e a mandíbula dura. — Que porra você está fazendo aqui, Shadow? — ele late. Shadow3. Dizer que eu estive vivendo no limite desde que Jenn desapareceu é um eufemismo. Eu estive cavando no mundo do crime, perseguindo 3

Significa ―sombra‖. ~ 158 ~


drogas e procurando informação. Esse apelido foi dado pelo clube porque, aparentemente, eu chego e vou embora tão rápido como uma. Eu tenho que ser sorrateiro; o que estou fazendo é contra as regras, e eu não posso arriscar meu emprego. — Falei com um amigo seu ontem à noite, — eu digo, segurando seu olhar. — Ele me disse que vocês estão fazendo drogas. Jackson rosna, e Cade estreita os olhos. — Eu não faço drogas. — Sério? Porque, pelo que eu ouvi, vocês estão misturando várias merdas perigosas e viciando as pessoas. Então a sua fonte está errada, — ele vaia. — Eu nunca estou errado. Você tem uma conexão com o desaparecimento da minha esposa, e porra, Deus me ajude, eu vou morrer antes de parar de procurar que conexão é essa. Você também pode me ajudar ou não, mas não vou parar. — É melhor ter cuidado, policial, — Jackson rosna. — O seu desejo pode se tornar realidade — Qual deles? — eu estalo. — Aquele em que você morre. Nós seguramos o olhar um do outro. — Eu não quero negócios com o seu maldito clube, Jackson. Eu só quero saber onde está a minha esposa. Você está fazendo essa merda mais difícil do que precisa ser. — Você é um homem quebrado que não consegue esquecer, — ele rosna, — porque se parar de fazer isso, você vai ser obrigado a encarar tudo que perdeu. Eu estremeço, e suas palavras acertam bem a minha alma, penetrando lá no fundo e causando que uma dor não desejada viesse à superfície. — Na verdade, eu não acho que você quer encontrar a sua maldita esposa. Eu não acho que você se importa. Você perdeu a sua filha, e agora está aterrorizado de voltar para a sua sem ela, então você está mostrando as garras, tentando colocar o meu clube em uma merda que ele não tem nada a ver, só porque não consegue encarar a sua própria vida. ~ 159 ~


Eu avanço para a frente, curvando meus dedos no arame farpado da cerca e rosnando. — Você não sabe merda nenhuma sobre mim. — Você quer acreditar que o meu clube tem algo a ver com essa mulher desaparecida, e não vai aceitar mais nada além disso. — Você foi a última maldita pessoa a vê-la. Ela estava trepando com um dos seus membros. Não me diga que você não sabe de nada, porra, — eu rujo. Ele chega mais perto. — Eu não sei de nada. Seja lá no que ela se meteu, é com ela, não conosco. Nós não demos nenhuma droga a ela, porra. — Então explique o seu nome continuar aparecendo, — eu mordo. — Você quer que o meu nome apareça, Shadow, e se você quiser para valer, vai achar qualquer desculpa para isso. Eu tenho inimigos, não vou mentir, mas eu não estou fazendo, traficando ou lidando com drogas. Inútil. Inútil pra caralho. Ele não vai me dar o que eu quero. Então vou continuar cavando. Eu nunca vou parar.

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Capítulo Vinte e Sete AVA PRESENTE — Pare com isso, — eu rio, jogando uma uva em Danny. Ele desvia com um grunhindo, e então a pega no ar e joga uma maçã em mim. Eu desvio para o lado, meus olhos se abrem e eu guincho. — Cara, você poderia ter me matado. Ele bufa. — Não, não poderia. Não seja tão fresca, porra. — Deixe ela em paz, D, — Skye diz, observando a nossa pequena troca. — Ele vai chutar a sua bunda. Danny sorri para ela. — Vamos ver ela tentar. — Agora chega, crianças, — minha mãe diz, entrando na sala com meu pai ao seu lado, seu braço em cima dos ombros dela. — Parem de jogar as frutas. — Ele começou, — eu digo, apontando um dedo para Danny. — Eu tenho certeza que você não se importou de entrar na brincadeira, — meu pai sorri para mim. — Você me conhece tão bem, meu velho. Ele pisca para mim. Eu sorrio. Eu não me importo com o que Lucas diga; meu pai não é o culpado aqui. — Ei, — Spike diz, entrando na cozinha com Mercy ao seu lado. — O que está acontecendo? Nós estamos no complexo, tendo um churrasco. Eu não estive em um desde o último, e ele não acabou muito bem depois que o pai de Bethy apareceu e fez uma cena.

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— Vá lá pegar uma cerveja, — meu pai diz, jogando as chaves para Spike. — Pare de ser tão preguiçoso. Spike mostra o dedo do meio ao meu pai, e então se vira para Mercy. — Fique aqui, garota. Se você sair, vai apanhar. E você sabe que o seu velho não quer fazer isso. Mercy estreita os olhos para ele e cruza os braços. — Eu ao menos posso encontrar Max e ter uma conversa decente? Ele a estuda. — Ele tem telefone? — Pai! — ela estala, cruzando os braços. — Eu estou indo para a faculdade em uma semana, o que significa que você não pode continuar me tratando como se eu tivesse cinco anos! — Você está se esgueirando por aí, fazendo merda pelas minhas costas, e isso é pedir para que eu te trate como se tivesse cinco anos. Ela balança a cabeça e vai embora irritada. Quando ela se vai, Spike suspira e olha para Danny. — Vá lá e se certifique que a sua irmã não pegue nenhum telefone para fazer seja lá a porra que ela está fazendo. — Deixe ela um pouco em paz, pai. Ela é velha o bastante para saber tomar suas próprias decisões. — Ela está vivendo na minha casa e é a minha garotinha. Enquanto esses dois fatores existirem, ela não vai fazer o que bem entender. Danny me atira um olhar e eu dou de ombros, então ele vai encontrar Mercy. Eu viro para Skye e sussurro. — Do que isso se trata? — Aparentemente, Mercy escapou na outra noite e se meteu em problemas, e o pai dela descobriu. Ele não ficou feliz. — Sério? — eu ofego. — Eu não acredito que ela não me contou. — Você esteve um pouco ocupada. Faço uma careta. Muito ocupada para estar aqui para os meus amigos? — Está tudo bem, — ela remenda rápido. — Ninguém está te culpando. Eu forço um sorriso e fico de pé. — Eu vou encontrar Max. Eu não falo com ele há eras. ~ 162 ~


— Ebs está de volta, então eles têm saído juntos. Eu aceno. — Não sabia que Ebs estava de volta. Ebony é meia-irmã de Max. Seu pai era membro de um clube rival e quando ele morreu, deixou a sua mãe, Janine, a melhor amiga da minha mãe, sozinha. Janine conheceu Muff e ele instantaneamente adorou as duas, se apaixonando por Janine e praticamente adotando Ebony. Então eles tiveram Max. — Ela está, apenas por uma semana. Ebony terminou a faculdade e agora está trabalhando no seu emprego dos sonhos, uma vez que é um pouco mais velha que o resto de nós. Ela vem para casa quando pode, mas parece estar vivendo a vida muito bem. Isso é o que todo mundo pode desejar. — Bem, eu vou lá dizer oi e ter certeza que Mercy está bem. — Eu vou ficar aqui. Quero falar com o meu pai. Eu sorrio para ela. — Até mais, bonita. — Até mais. Eu caminho pelos corredores, enfiando a cabeça em cada quarto até encontrar Mercy sentada em uma das salas do clube que sem dúvida é usada para coisas desnecessárias. Há somente uma cama dupla e um par de mesas de cabeceiras velhas, mas ela está ali dentro, sentada junto à janela, olhando para fora. Eu acho que Danny não a encontrou, ou talvez ele tenha e ela o mandou embora. — Toc toc, — eu digo, então ela se vira e me dá um sorriso fraco. — Ei, Ava. — Você está bem? Ela dá de ombros. — Claro, se eu não estivesse presa em casa. — O que aconteceu? Ela suspira. — Eu... Deus, eu não sei. — Skye disse que você fugiu e foi pega. Ela acena e olha para fora da janela de novo. — Você quer compartilhar ou apenas pegar uma bebida?

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— Eu conheci esse cara. Eu me adiantado e paro ao seu lado sem dizer nada, apenas esperando que ela continue. — Eu... eu não posso explicar sem que isso soe muito mal. — Tente, — eu digo, a encorajando com um sorriso. — Eu fui a um pequeno show local com uma amiga. Nós ganhamos um par de ingressos para a área VIP em uma competição. Como eu já tenho vinte e um ano, achei que seria incrível ir lá, mesmo que a banda fosse pequena e nada demais. Então, nós fomos ao show, assistimos eles tocando, e depois fomos ao backstage para conhecê-los. Pru ficou conversando com um dos membros e eu fiquei presa com o vocalista, e Deus, Ava, ele era um idiota. Um porco total. Eu estava animada. Eu lhe fiz perguntas e ele apenas grunhiu para mim, me tratando como uma garotinha estúpida. Eu fiquei tão irritada que disse exatamente o que pensava dele, como eu tenho o péssimo hábito de fazer. Quero dizer, eu atirei tudo na sua cara e o empurrei, e ele só ficou lá parado e então me beijou. Eu pisquei. — Como é? Ela cora e acena. — Sim, ele só ficou lá parado e então me beijou, depois foi embora. Eu nunca... Deus, Ava, eu nunca senti nada assim na vida. Foi tão intenso, e ele era tão... gostoso. Eles estavam tocando de novo na noite seguinte, e eu queria ver ele outra vez, então eu tentei escapar. Eu não sei porquê. Eu só... eu precisava saber que diabos tinha acontecido. — Espere, primeiro, por que você teve que escapar? Ela bufa. — Meu pai veio com essa merda porque eu não cheguei em casa no horário na noite anterior. Ele gosta de saber onde eu estou – você sabe como é. Enfim, ele me disse que eu não ia sair de novo naquele final de semana, e enquanto eu podia ter me recusado, uma vez que já tenho vinte e um, eu não quis cutucar o urso e concordei em ficar, mas... eu não pude. — Então você deixou o urso muito, muito irritado, — eu rio. Ela acena. — Sim, e eu nunca vou ver esse cara outra vez. — Qual é a banda?

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— Eles se chamam Wrath. Eu não sei porquê. Eles são uma banda local, obviamente tentando dar o fora daqui. — E você pegou o nome dele? Ela acena. — Diesel. É tudo que eu tenho. Sem sobrenome. Nada. — É um nome bem diferente. Você provavelmente consegue encontrar ele, se quiser. Ela balança a cabeça. — Nah. Quanto mais eu penso sobre isso, mas estúpida eu me sinto. Quero dizer, ele provavelmente só me beijou para eu calar a boca e nem pensou mais sobre isso. A última coisa que eu quero é me tornar uma perseguidora. Eu rio. — Não, eu acho que não. Ainda assim, não iria doer talvez descobrir se ele vai tocar de novo. — Eu vou para a faculdade semana que vem. Com certeza vou estar muito ocupada para bandas e garotos. Eu aceno. — Você está animada com a faculdade? Ela concorda com a cabeça. — Porra, sim. Eu amo meu pai, mas realmente me cansa viver sob a sua tão feroz proteção. — Sei como é, querida, — eu rio, e ela também. — Motoqueiros, não é? — ela sorri. — Motoqueiros. — O que nós faríamos sem eles? Só Deus sabe.

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— Então você está amando o seu trabalho? — eu pergunto a Ebony enquanto nós misturamos algumas bebidas mais tarde naquela noite. — Sim, — ela sorri. — É maravilhoso. — E tem feito algo terrivelmente rebelde?

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Ela ri e pisca seus lindos olhos na minha direção. Seu longo cabelo loiro cai sobre seu rosto quando ela faz isso, então ela o empurra para trás. — Eu sempre sou rebelde. — Sim, — eu sorrio. — Mas quanto rebelde? — Sim, — Muff diz, aparecendo atrás dela. — Quanto rebelde? Ela se vira e sorri para ele. Ele pode não ser seu pai de sangue, mas é seu pai de todas as maneiras que contam. — Eu sou um perfeito anjo, — ela pisca. Ele ri e passa seu braço sobre os ombros dela, puxando-a para ele. — Você aprendeu com a melhor pessoa. Isso realmente não me surpreende. — Não fale assim da minha mãe, — Eb brinca, e Muff grunhe. — Ah, eu não estava falando da sua mãe. Eu reviro os olhos e rio. — Vocês dois são loucos. — E você? — Eb pergunta enquanto Muff balança a cabeça e se afasta. — Nada interessante além do drama sobre o que está acontecendo? Minhas bochechas esquentam, e seus olhos crescem. — Oh, você precisa me contar! — Não tenho nada para contar, — eu digo, desejando poder contar a eles sobre Lucas, mas nenhum deles entenderia. Nesse mundo, ele é basicamente o inimigo. — Você está mentindo! — ela me provoca de brincadeira. — Se eu não te conhecesse melhor, diria que você está vendo alguém. — Como é que é? Eu me viro e vejo Danny, Skye e Max parados atrás de mim. Foi Danny quem falou. — Eu não estou vendo ninguém, — eu digo, acenando com uma mão. — Meu Deus! Você está sim! — Skye grita. — Ela está o quê? — Addison pergunta, parando perto de Skye e passando um braço em volta dela.

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— Ela está vendo alguém, — Skye guincha. Minhas bochechas queimam e os olhos de Addison se arregalam. — Minha irmãzinha está vendo alguém? — ela arranha. — De jeito nenhum. Vamos, conte para a sua irmã tudo sobre isso. Eu quero os detalhes. Meu rosto queima. — Desde quando você está vendo alguém? — Danny grunhe. — Eu... eu não estou! — eu digo, mas nem eu mesma acredito nessas palavras. — Ah, que besteira! — Mercy sorri. — Você é uma péssima mentirosa. — Péssima, — Max concorda. — Pai! — Addison grita, — A sua filha está vendo alguém. — Addi! — eu choramingo. — Ei, — ela sorri. — Eu já tive que suportar a sua ira; agora é com você, mana. Eu coloco a cabeça nas mãos, e Ebony ri ao meu lado. — O que é isso do meu bebê estar vendo alguém, — meu pai grunhe, se aproximando. — Eu não estou vendo ninguém! — eu gemo em minhas mãos. — Ela está. Com certeza está, — Skye canta. Eu levanto a cabeça e lhe atiro um olhar, então dou ao meu pai um olhar envergonhado. — Bem, — ele bufa, cruzando os braços e me dando aquele seu olhar de pai. — Quem você está vendo e onde eu posso encontrá-lo? — Pai! — eu protesto. — Cuspa de uma vez, bebê. Eu vou descobrir. — Não estou vendo ninguém, — eu tento de novo. Estou falando sério, eu não estou vendo ninguém. Eu dormi com Lucas, mas isso não significa que estamos nos vendo. Ele não indicou nem por um segundo que era isso que estávamos fazendo, e ele também ~ 167 ~


não me ligou, apenas mandou algumas mensagens. Além disso, mesmo que eu estivesse, não estou prestes a contar ao meu pai sobre isso. Ele iria perder a cabeça. Não, isso não chega nem perto. Ele provavelmente mataria Lucas, me acorrentaria para sempre e então perderia a cabeça. — Não minta para mim, — ele avisa. — Pai, — eu bufo. — Eu não estou vendo ninguém. Estou falando sério. — Então por que você está corando? — Eu estou envergonhada, — eu o corrijo, — porque vocês todos estão me bombardeando! Ele me estuda. — Eu não gosto de nenhum filho da puta tocando na minha garotinha. — Ah, por favor, — Addison balança a mão antes que eu possa falar. — Ela já está bem crescida, papaizão. Ela pode ser tocada tanto quanto quiser. Meu pai lhe atira um olhar, e eu não posso evitar – começo a gargalhar. Addison está sempre no seu pé, e às vezes ela diz as coisas mais absurdas. — Isso não tem graça, — ele murmura, cruzando os braços e me encarando. — Tem um pouco de graça, — eu digo, pressionando uma mão na boca. — Na verdade é muito engraçado, — Skye ri. Cade aparece e se junta ao grupo, jogando um braço sobre os ombros de Skye, também. — Qual é a graça? — Papai está tendo um ataque pelo simples pensamento de Ava tendo um pouco de diversão, — Addison provoca, dando ao nosso pai um sorriso de merda. — Como ele deveria. Você está bem com a nossa filha tendo um pouco de diversão? — Cade grunhe, e Addison para de sorrir. Eu rio mais alto. — Vocês realmente não conseguem ser discretos, — minha mãe diz, parando ao meu lado. — Eu posso ouvir tudo lá da cozinha. ~ 168 ~


— Isso porque o papai está sendo um macaco superprotetor outra vez, — eu sutilmente provoco. Minha mãe sorri. Os lábios do meu pai se torcem. — Ele não pode evitar, — ela sorri para ele. — É apenas o seu jeito de ser. — Bem, talvez ele devesse mudar o canal e se focar mais em você, — eu sugiro. Ela cora, tão adorável. — Ah, ele faz isso. — Ew! — Addison chora. — Não, eu já te falei sobre detalhes, mulher. Minha mãe lhe mostra o dedo do meio e eu começo a rir de novo. Minha insana e adorável família – eu não sei onde estaria sem eles.

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Capítulo Vinte e Oito AVA PRESENTE Que diabos eu estou fazendo? Isso é demais. É demais, certo? Eu olho para os sanduíches na minha mão, e a sacola com refrigerantes na outra, então olho para a delegacia de polícia em que Lucas trabalha. Eu não sei se essa é a coisa certa a fazer. Inferno, eu nem ao menos sei se Lucas quer me ver. Nós não nos falamos nos últimos quatro dias. Ele provavelmente quer ficar a um quilômetro de distância e eu estou aqui, trazendo almoço para ele como se fosse a sua maldita esposa. Oh Deus. Isso definitivamente é demais. Ele nem me ligou. Ele mandou uma mensagem noite passada dizendo que estava ocupado com o trabalho e que iria me ligar hoje. Foi uma ideia estúpida pensar que seria bom trazer almoço se ele estava ocupado. Continuo olhando para o prédio como se ele fosse milagrosamente me dar as respostas que estou buscando, mas não, ele só fica ali parado como estava a cinco segundos atrás. Eu deveria ir embora. Sim, eu estou indo embora. Eu começo a andar depressa para sair logo da frente do prédio. Eu não quero que ninguém me veja. Ainda bem que o escritório de Lucas é do outro lado do prédio. Assim que eu passo o edifício, vejo duas pessoas encostadas contra ele. Há um pequeno banco e algumas ~ 170 ~


mesas ali. Eu paro bruscamente quando percebo que as duas pessoas são Lucas e Sheila. Meu coração para de repente enquanto eu os observo. Sheila está de pé contra a parede, suas costas pressionadas contra ela, seu rosto inclinado na direção de Lucas. Ele tem uma mão na parede, ao lado da cabeça dela, e está inclinado na sua direção, dizendo algo a ela, seus corpos próximos, apenas alguns centímetros os separando. Minhas mãos tremem. A posição em que eles estão não deixa muito para a imaginação. Há apenas alguns cenários que colocaria pessoas nessa posição. Algo aperta o meu peito, algo doloroso e feio. Dou um passo para trás e derrubo uma cadeira, tropeçando uma ou duas vezes antes de conseguir me equilibrar. Quando olho de novo, Lucas está me observando. Ele se afasta da parede, seus olhos nos meus, confusos, intensos. — Ava, — ele diz, sua voz grossa. — Eu estava apenas... — eu digo, minha voz pequena e tímida. — Eu estava apenas... eu pensei.... — eu estendo o saco com comida. — Eu... deixe para lá. Me desculpe. Eu não quis interromper. Eu coloco a comida e o refrigerante em cima de uma mesa e me viro, correndo para longe. No segundo em que alcanço a rua, lágrimas caem dos meus olhos e escorrem pelas bochechas. Encontro meu carro e me atiro dentro, acelerando antes que alguém possa me parar. Não que eu pensei que alguém faria isso. Claramente eu interrompi Lucas com a mulher que ele estava saindo. Deus, ela provavelmente nem sabe sobre mim. Ela provavelmente é a sua namorada. Eu sou uma idiota. Uma maldita idiota. Meu telefone toca uma vez, depois duas, e na terceira vez eu olho para ver o número de Lucas na tela. Eu o desligo e continuo dirigindo. Deus, meu rímel provavelmente está arruinado. Eu estou pronta para trabalhar. Eu pensei em almoçar com Lucas e então ir direto para o trabalho, mas isso claramente não vai acontecer. Eu vou chegar cedo. Michael não vai se importar. Quanto mais ele me faz trabalhar, mais feliz ele fica. Eu chego ao trabalho dez minutos depois e saio do carro, deixando o telefone para trás. Cavo na minha bolsa e acho um lenço, limpando meu rosto. Eu estou vermelha e inchada, mas com certeza ~ 171 ~


ninguém vai notar. Tomo uma respiração profunda e trêmula antes de entrar. O escritório está cheio, como sempre, então eu vou rapidamente para a minha mesa e ligo meu computador. Eu não preciso falar com ninguém; vou apenas fazer o meu trabalho e me distrair. — Ava, você chegou cedo. Levando o olhar e vejo Michael vindo na minha direção, carregando uma montanha de papeis. — Sim. Eu estava na área; pensei em vir para cá e fazer algumas horas extras. Ele acena, seus olhos caindo para os meus seios. Ugh. Que porco do caralho. — Sim, bem, é bom ver você. Talvez nós possamos ter uma palavrinha na sala de conferências? Ótimo. Ele provavelmente vai me demitir. Hoje é esse tipo de dia. — Claro. Eu me levanto e o sigo para a sala de conferências. Quando estamos lá, ele se vira para mim. — Eu só queria ver se você está bem. Eu pisco. — Me desculpe? — Bem, parece que você andou chorando. Eu o estudo. Michael não faz nada para ajudar os outros. Ele é egoísta e assustador, e sempre há uma razão quando ele faz perguntas como essa. — Eu estou bem. Foi só uma noite longa. — Eu vou sair para almoçar logo. Você gostaria de ir comigo? Hm. Não. — Não, obrigada, — eu digo rapidamente. — Tenho muito trabalho para fazer. Ele dá um passo mais perto, e minha pele formiga. — Claro, mas eu ainda gostaria que você se juntasse a mim. Ele está me assustando. — Meu namorado não gostaria disso, eu receio, — eu digo rapidamente. — A menos que tenha a ver com trabalho, eu devo declinar. ~ 172 ~


Isso. Isso soa profissional. — Eu não sabia que você tinha namorado, — ele diz, chegando mais perto. — Eu imaginei que você era... tão inocente. Ok. Ele precisa dar o fora da porra do meu espaço. — Desculpe? — eu digo, minha voz um pouco irritada. — Eu só não pensei em você como o tipo de que namora. Você é tão doce, tão inocente. Eca. — Bem, eu tenho um namorado, e ele é ótimo. Ele também é policial. Isso o faz dar um passo para trás, mas ele ainda está me dando um olhar desconfiado. — Espero que você não esteja mentindo para mim, Ava. Porque eu vou descobrir. E eu realmente não ficaria feliz. — Não, senhor, — eu murmuro, caminhando na direção da porta. — Não estou mentindo. Eu tenho trabalho a fazer. Corro para fora antes que ele diga mais alguma coisa. Minha pele está formigando. Eu corro para minha mesa e me sentir. Estou ali há cinco minutos quando nossa recepcionista, Hayley, se aproxima. — Ava? Você tem visita. Eu olho para ela. — Tenho? — Sim. Ele não me deu seu nome, mas disse que é urgente. E ele é maravilhoso. Lucas. Eu aposto. — Obrigada, — eu suspiro. Ela desaparece e eu me viro para o meu computador novamente, raiva e tristeza competindo no meu peito. Quando ouço a voz profunda e sexy atrás de mim, paro fazendo uma careta para a minha tela, mas não me viro. — Você vai me ignorar o dia todo? — Por que você está aqui, Lucas? — eu digo sem olhar para ele. — Olhe para mim, criança. — Não me chame assim! — eu estalo. — E eu estou trabalhando. Você precisa ir embora.

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— Eu não vou embora, — ele raspa. — Então se vire e olhe para mim. Lucas está puto. Eu estremeço e me viro, olhando para ele. Ele parece tão bom, tão malditamente bom. Ele está usando uma calça jeans preta e uma camisa de botões branca com as mangas dobradas até os cotovelos. Sua gravata está frouxa e suas botas estão ligeiramente desgastadas. Ele parece um policial rebelde, e isso é quente. Seu cabelo está bagunçado e ele tem uma barba de alguns dias cobrindo o maxilar. Seus olhos são intensos como o inferno enquanto ele me estuda. — Você pode se apressar? — eu digo, minha voz patética e fraca. — Eu estou ocupada. Ele junta as sobrancelhas. — Você saiu correndo antes de me deixar explicar. — Explicar o quê? — eu murmuro. — Você está vendo outra mulher, tudo bem. Você e eu... foi divertido. Eu entendi. Você não precisa explicar. — Ava... — Não, sério, está tudo bem, Lucas. Só porque nós dormimos juntos, não quer dizer que temos alguma coisa. Eu entendi. — Ava, — ele grunhe. — Eu fodi as coisas. Eu pensei errado... — Ava! — ele late. — Não é como se você tivesse me prometido alguma coisa... Ele me corta se abaixando, me içando da cadeira e puxando meu corpo contra o dele. Então sua boca está na minha. Ele me beija duro, até mesmo um pouco brutal. Eu ofego na sua boca e deixo seus lábios se chocarem contra os meus. Ele se afasta depois de alguns segundos e eu o encaro de olhos arregalados. — O que você viu era eu avisando Sheila para ficar longe de mim. Eu engulo em seco. — Vocês estavam... contra a parede. — Ela veio até a minha delegacia exigindo atenção. Eu a levei para fora, ela veio toda atrevida, então eu pus minhas mãos na parede e ~ 174 ~


ficamos cara a cara. Se você tivesse prestado atenção, se tivesse olhado bem, teria visto que eu estava totalmente puto com ela. Oh. — Eu... Sim, eu não tenho nada. — Eu não estou mais vendo ela ou qualquer outra pessoa. Eu não fodi você por pura diversão, — ele raspa, tão perto que posso sentir a sua respiração. — Você não ligou, — eu sussurro miserável. — Eu estava trabalhando. Certo. Olho para longe e percebo que todos no escritório pararam o que estavam fazendo e estão olhando para nós. Minhas bochechas queimam e eu olho de novo para Lucas. — Eu estou no trabalho. Nós não deveríamos estar fazendo isso aqui. Ele vira a cabeça e olha para todos, então se endireita e passa a mão pelo seu cabelo. Eu posso jurar que ouvi um suspiro de algum lugar na sala. — Ligo para você mais tarde, — ele diz, se inclinando e escovando os lábios nos meus. — Atenda o telefone, baby. Eu não vou ficar feliz se você não fizer isso. Então ele se vira e vai embora. Meus joelhos estão fracos. Isso foi quente.

*****

Meus punhos batem no saco de areia uma e outra vez enquanto eu coloco minha raiva para fora. Meu dia foi de mal a pior. Depois que Lucas saiu do escritório, Michael, o idiota pomposo, me deu um aviso escrito. Ele disse que demonstrações públicas de afeto no escritório eram fora dos limites, e se eu fizesse isso de novo, seria demitida. ~ 175 ~


Demitida! Porque alguém me beijou. Na verdade, não tem nada a ver com isso e tudo a ver com a sua obsessão por mim. Droga. Não posso me dar ao luxo de perder meu emprego. É difícil conseguir um por aqui meu chefe está agindo como uma babaca ciumento e meu – Deus, eu nem sei o que Lucas é meu – está sendo mandão e dominante. Meus punhos batem no saco de novo e suor escorre pelo meu rosto. Eu vim para cá porque não estava pronta para ir para casa. Precisava me aliviar um pouco. Eu estive emocionalmente em pedaços por dias e esse é o único jeito que pude pensar de me acalmar um pouco. — Eu disse a você para atender o telefone. Eu estremeço e paro de bater no saco quando ouço a voz rouca e irritada atrás de mim. Me viro lentamente para ver Lucas em suas roupas de ginástica, os braços cruzados, seus olhos nos meus — Eu não ouvi o telefone, então, tecnicamente, eu não ignorei a sua ligação, — eu murmuro, me virando de novo para o saco. — Ava... — Eu não estou de bom humor, Lucas. Meu chefe me deu uma maldita advertência escrita porque você chegou lá todo metido a macho e me beijou. Agora eu estou com raiva e preciso colocar para fora, então se você me liberar aqui, isso seria ótimo. Ele fica em silêncio, então sua mão chicoteia e se curva em volta da minha, me girando na direção dele. Eu bato no seu peito com um humph. — O seu chefe te deu uma advertência. Não é uma pergunta. — Sim, ele me deu uma advertência. Ele estava bravo porque você me beijou no escritório dele. Ele também está com muito ciúmes porque ele tem uma leve obsessão por mim, e eu acho que matei suas fantasias de que eu era a doce virgem inocente que ele podia foder. Lucas endurece. — O quê? — Não é nada sério, homem das cavernas, — eu murmuro. — Eu acho que ele tem uma queda por mim. — Ele já fez alguma coisa? — ele exige saber. — Não...

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— Você está mentindo. — Pare, — eu estalo, dando um passo para trás. — Eu vim aqui colocar a raiva para fora, não criar ainda mais brigando com você. — O que ele fez? — Lucas! — eu gemo. — Ava, — ele avisa. — Ele olha para os meus seios às vezes, derruba canetas e me faz abaixar para juntá-las... nada de mais. Seus olhos brilham e eu percebo que não deveria ter dito isso. Lucas não é o tipo de homem que ouve uma coisa dessas numa boa. Isso é confirmado quando ele rosna um palavrão sujo e agarra a minha mão, me puxando até que sou obrigada a segui-lo. Ele vai até o vestiário e late para todos saírem, mostrando o seu distintivo. Quando todos se vão, ele me empurra contra um dos armários e coloca as mãos em cada lado da minha cabeça. — Ele olha para os seus seios, — ele estala. — Lucas... ele é um homem... — Ele faz você pegar canetas no chão só para olhar a sua bunda... — Lucas... — Ele deixa você desconfortável, porra. Eu paro de falar. Não há nenhum ponto em discutir com ele. — Bem? — ele murmura, baixando a voz. — Ele me deixa desconfortável, — eu confirmo. — Mas nós não estamos falando sobre isso agora. Você precisa me soltar para eu poder... — Ele já te tocou? — Lucas! — eu estalo. — Já? — Não, — eu guincho. — Deus, você vai me soltar? — Não. ~ 177 ~


— Lucas! Eu empurro seu peito e ele segura minhas mãos, me puxando para ele tão rápido que minha boca bate contra a dele. Uma picada de dor se espalha pelo meu lábio antes que eu esqueça isso e o deixe me beijar. Eu correspondo ao beijo, derramando toda minha fúria nele. Eu agarro o seu cabelo, o puxando até que ele estremece. Nosso beijo é brutal, raivoso até, e ele me empurra com mais força contra o armário. — Jogue isso em mim, — ele raspa, dando um passo para trás. — Você quer liberar sua raiva? Vá em frente. Eu aceito a sua oferta, puxando a sua camiseta por cima da cabeça. Meu coração está martelando. Eu não tenho ideia do que estou fazendo, mas tenho certeza de uma coisa. Eu preciso tocar nele. Sentir ele. Respirar ele. Então eu faço. Eu faço o que parece certo para o meu corpo. Raspo minhas unhas no seu abdômen descoberto, fazendo ele estremecer, então hesitantemente deslizo minha mão até a sua bermuda. Ele assobia e eu ofego quando fecho o punho ao redor do seu pau. Ele já está duro e latejando. — Eu não... — olho em seus olhos. — Eu não sei o que estou fazendo. — Continue fazendo isso, — ele fala entre os dentes apertados. — É bom pra caralho, baby. Passo minha mão para cima e para baixo, apertando ligeiramente. Ele rosna e agarra o meu short, desfazendo o nó antes de deslizar a mão dentro da minha calcinha. Ele descobre que já estou molhada. Não consigo evitar. Eu choramingo quando seus dedos acariciam o meu sexo e ele puxa a mão para fora para lamber os próprios dedos. — Você está molhada. Meus olhos queimam de desejo e eu acaricio o seu pau com mais força, fazendo suas bolas apertarem contra o seu corpo. — Eu preciso te foder. Sem camisinha, — ele rosna, trazendo a mão para baixo e empurrando um dedo dentro da minha buceta. — Estou tomando pílula, — eu sussurro. — Estou limpa. Seus olhos brilham. — Você confia em mim? — Há alguma razão para eu não confiar? ~ 178 ~


Seu olhar segura o meu. — Não. Eu estou limpo. — Então o que você está esperando? Seu rosto fica mais escuro, e ele raspa. — Você ainda está dolorida? Eu estou um pouco dolorida, mas não estou prestes a afastá-lo de mim. — Eu vou sobreviver. — Quero te comer primeiro. Eu preciso provar você. Eu estremeço e minhas bochechas esquentam quando ele se abaixa, me forçando a soltar o seu pau. Ele pega o meu short e o puxa para baixo pelo meu corpo devagar, então apenas olha para a minha buceta. — Doce, — ele diz, tão baixo que eu mal escuto. Então ele se abaixa mais, pega o meu tornozelo e o coloca sobre o seu ombro. Minhas bochechas queimam e eu me contorço nervosamente. Eu me sinto tão exposta. Tão vulnerável. — Você parece doce como o inferno quando fica com vergonha. Você está nervosa, querida? Eu engulo em seco e aceno. — Você está se perguntando o que eu estou pensando enquanto a sua perna está no meu ombro, a sua buceta na minha cara? Meu sorriso vacila com o nervosismo. — O que eu estou pensando, — ele diz, se aproximando e inalando, — é que você cheira tão bem que meu pau está pronto para explodir. Eu estremeço. — O que eu estou pensando, — ele ronrona, deslizando a língua pela minha buceta e me fazendo ofegar, — é que a sua buceta é tão malditamente doce que eu quero deixar minha boca nela o dia todo. Eu gemo quando ele chupa duro o meu clitóris, o puxando para dentro da sua boca. — O que eu estou pensando... — ele geme, — é que eu quero tanto ter o meu pau dentro de você que a espera está me matando. — Então pare de esperar, — eu choramingo quando ele chupa o meu clitóris mais profundamente, batendo na ponta com a sua língua. — Eu vou parar quando você gozar na minha boca. ~ 179 ~


— Estou quase lá, — eu respiro, arqueando para ele, empurrando meus quadris para frente, então minha buceta pressiona mais contra a sua boca. — Você tem uma garota má trancada no armário, não é mesmo, querida? — ele sorri para mim, empurrando os dedos dentro da minha buceta. — Por favor, — eu choramingo. — Você quer a minha língua? Foda a minha cara. Eu abro a boca, então fecho e apenas olho para ele. — Você quer gozar? Eu aceno desesperadamente. — Então foda a minha cara. Mexa os quadris. Me mostre o quanto você quer isso. Ele agarra os meus quadris e me puxa de volta para a sua boca. Ele me lambe, mas eu tenho que rodar os quadris para conseguir a sua língua onde eu quero. Eu faço o que ele pediu. Eu fodo a sua cara. Meus quadris giram e mexem, esfregando contra a sua boca, empurrando sua língua mais para dentro. Eu gozo com um grito, meus joelhos ficam fracos. Lucas afasta seu rosto de mim e se levanta, puxando seu pau de dentro da bermuda. Ele levanta uma das minhas pernas, a prendendo ao redor da sua cintura, então desliza o pau dentro de mim, lenta e tortuosamente. Uma das suas mãos agarra o meu traseiro e a outra vai para as minhas costas, e em um ritmo perfeito, ele me fode. Ele começa devagar, facilitando a sua entrada, deixando que meu corpo se ajuste à dor agridoce que irradia pela minha espinha. Ela rapidamente se transforma em prazer e ele aumenta o ritmo, até o ponto em que está me fodendo tão forte contra os armários que meu corpo se choca contra eles. — Oh. Meu. Deus, — eu grito. — Porra, — ele late. — Me fode. — Lucas, — eu choramingo. Eu sinto um aperto forte na minha barriga, algo incomum e estranho, algo que eu nunca experimentei antes em toda minha vida. Ele cresce mais e mais a cada empurrão de Lucas, e antes que eu saiba ~ 180 ~


o que está acontecendo, uma explosão se espalha pelo meu corpo, começando no meu ventre e viajando por tudo até que estou tremendo nos seus braços, minha cabeça jogada para trás, gemidos roucos escapando da minha garganta. Eu vagamente escuto quando ele rosna o meu nome e então também está encontrando a sua liberação, me apertando, nossos corpos se juntando em um momento tão íntimo que não pode ser explicado. — Oh, Deus, — eu digo com a voz trêmula quando meu corpo para de tremer. — Seja lá o que foi isso, eu quero de novo. — Eu também, — ele diz rouco, me colocando para baixo e alcançando uma pilha de toalhas limpas que estava arrumada sobre um banco próximo. Ele gentilmente passa a toalha entre as minhas pernas, sentado no banco. — Eu já tive mulheres gozando antes, mas nunca assim. Intenso pra caralho. Ciúmes queima o meu peito com esse comentário, mas eu não deixo aparecer. Em vez disso, olho para a sua mão, gentilmente limpando o lugar entre as minhas pernas, e meu coração incha. — Lucas? — eu pergunto. — Hmmm — O que é isso... que nós estamos fazendo aqui? Ele levanta o olhar, seus olhos gentis, mas intensos. — Eu não sei, querida, mas seja lá o que for... eu não quero parar. Graças a Deus. Eu também não.

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Capítulo Vinte e Nove LUCAS PASSADO Faz mais de um ano que eu parei de procurar por Jennifer. Mais da porra de um ano, e ainda não tenho ideia de onde ela está. Minha vida foi de isso ser tudo que me fazia respirar para eu percebendo que havia uma chance real de eu nunca a ver novamente. Eu mergulhei no clube de Jackson, segui todas as pistas de drogas, mas ou ele é muito esperto ou não está envolvido. Eu não sei qual a resposta. Eu não sei se acredito nele, mas eu sei que de qualquer jeito, nada está me dando respostas. Minha esposa está aí em algum lugar, e eu não tenho ideia se ela está viva ou morta. Eu não acho que vou descansar até encontrá-la, mas já acabei com todas as minhas opções – parece não haver mais lugares para onde ir. Ela não quer ser encontrada ou se afundou na mais profunda e escura parte do mundo, e eu não sei se estou pronto para ir lá. Eu já perdi tudo; não acho que posso quebrar mais. Perder Shylie foi o bastante, perder Jenn foi o bastante, mas perder a mim mesmo também... eu não posso arriscar isso. Já faz quase dois anos que eu perdi a minha garotinha, e isso não está ficando mais fácil. Em vez disso, eu aprendi a viver com a dor que consome o meu peito todos os dias. Essa se tornou a minha vida; se tornou o meu normal. Eu não lembro mais como é se sentir feliz, nem lembro como era minha vida antes de Shy. Mesmo a alegria que eu senti com ela parece ser uma memória distante, às vezes. A maioria dos dias, eu nem me lembro como é sorrir. — Ei, Lucas! Eu tiro os olhos da minha mesa para ver meu colega, Jeremy, encostado contra a porta. Ele é um novato, mas está se adaptando bem ~ 182 ~


e é um detetive muito bom. Ele passa muito tempo me ajudando a procurar por Jenn, que eu tive que registrar oficialmente como pessoa desaparecida, para ser capaz de investigar mais a fundo. Isso não ajudou em nada. Eu não consigo encontrá-la, e quanto mais eu cavo, mais vazio eu me torno. Eu me pergunto, será que vou ser capaz de dormir livremente outra vez se não descobrir o que aconteceu com ela? Eu não acho que vou. — E aí? — eu pergunto, empurrando a cadeira para trás e me levantando. — Consegui uma informação que talvez te interesse. — Sobre o quê? — Jennifer. Eu recuo e olho para ele. — Espero que seja algo bom, Jer. Você sabe que eu não estou sabendo lidar com isso. — É bom. Falei com alguém por fora, cavei um pouco mais fundo. Um deles andou fuçando e disse que há uma garota chamada Jennifer namorando um dos cabeças de um esquema de tráfico de drogas. Meu corpo congela. — Ele disse que não sabe se é ela, mas ela apareceu por lá há cerca de um ano agora, procurando por drogas. Ele a pegou, eles ficaram juntos e o resto é história. — Há um milhão de Jennifers no mundo, Jer. Poderia ser qualquer uma. — A descrição encaixa perfeitamente. — Por que alguém falaria isso agora? Eu estive cavando e cavando por um ano, tentando conseguir informações. Tudo que nós conseguimos foram becos sem saída. — Esse cara quer dar o fora; ele é parte do esquema de drogas. Eu ofereci a ele um lugar seguro se ele me contasse o que sabe. Eu estreito meus olhos. — Parece suspeito para mim. Ninguém sai desses esquemas; ele com certeza sabe disso.

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— Poderia ser uma armadilha, por qual razão eu não sei. Talvez eles tenham ouvido que você está procurando por ela. — Talvez, — eu murmuro. — Nós vamos ir atrás disso? — Sim. Consegui alguns nomes. É a melhor pista que tivemos em meses. Eu aceno, me virando e olhando pela janela. Eu não sei se quero a resposta para a pergunta queimando no meu cérebro. Eu quero encontrar Jennifer, se essa é a vida que ela está vivendo?

*****

Eu corro pela rua, suor escorrendo pela minha testa. Eu preciso gastar um pouco de energia, porque porra, essas últimas semanas foram agitadas. Nós seguimos algumas pistas dadas por um homem que eu ainda acho cem por cento suspeito, e parece que estamos chegando perto das respostas. Estou convencido de quem quer que o mandou está tentando se aproximar de mim, provavelmente porque eu ando xeretando e eles não estão gostando disso. Eu tenho sido extra cuidadoso. Não posso correr o risco de perder minha vida por causa de uma mulher que claramente parou de me dar a mínima há mais de um ano. Eu viro a esquina e uma leve chuva começa a cair, não o bastante para molhar minha roupa. Eu aumento o ritmo, correndo até que estou pingando suor e meu coração está martelando, me fazendo esquecer os eventos das últimas semanas. Um choro quebrado me pega desprevenido e eu paro, procurando ao redor na escuridão. É quando eu a vejo. Ela é pequena, curvada no chão da calçada, tentando ficar de pé. Cabelo escuro está grudado no seu rosto, então eu não posso ver muito, mas ela está chorando, seus dedos enterrados no concreto. Eu volto a correr, me aproximando mais a cada segundo. Quando estou bem perto, consigo ver melhor. Ela é bem jovem, talvez no começo dos vinte anos, provavelmente um pouco menos. Ela é uma coisinha ~ 184 ~


pequena com mechas de cabelo escuro e úmido presas ao rosto. Eu não quero assustá-la, mas pelo jeito das coisas, ela precisa de ajuda. — Ei, — eu digo com cuidado. Ela estremece e levanta a cabeça, piscando algumas vezes. Ela é absolutamente deslumbrante, mesmo com todo o sangue e a bagunça. Uma garota-fada, pequena e doce, com os maiores olhos azuis que eu já vi. Os faróis de um carro próximo iluminam o seu rosto, e eu vejo manchas escuras por todo seu corpo e roupas. Eu me aproximo, passando um dedo sobre uma delas. Ela está sangrando. Como eu suspeitava. — Você está sangrando. Ela não diz nada; ela apenas me olha com aqueles olhos miseráveis e espera. — Qual o seu nome? — eu digo, minha voz gentil. — A-a-a-ava, — ela sussurra. Pobre criança. — Ava, você está ferida? Seus olhos brilham, e dor corre pelos seus traços. Ela com certeza está ferida. — S-s-sim. — Certo, — eu digo enquanto me abaixo e gentilmente a acomodo em meus braços. A delegacia é aqui perto, e essa garota precisa de ajuda. — Meu nome é Detetive Lucas Black. Eu vou te tirar da rua, certo? Ela acena. Eu fico de pé com ela em meus braços. Mal sabia que ela ia mudar completamente a minha vida.

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Capítulo Trinta AVA PRESENTE — Leve ela, por favor. Eu sou muito jovem para morrer. Eu ofego e pulo na cama. Levo um momento para perceber onde eu estou, e rapidamente puxo o cobertor, cobrindo meu peito nu. Eu estou em casa. Lucas está comigo, porque ele esteve no meu apartamento pelas últimas duas noites, me fodendo de jeitos que eu nem sabia que podia. Ele recebeu uma ligação ontem à noite, e assim que ele saiu da cama, os pesadelos voltaram, como sempre fazem. — Você sonha assim o tempo todo? Eu pulo e tento ver na escuridão, mas não consigo enxergar onde Lucas está sentado. Ele está fora de vista, mas está no quarto, sua voz rouca me trazendo algum conforto. — A maior parte do tempo, — eu digo com a voz embargada. — Eu estava gritando? — Sim. Eu acabei de voltar, mas podia ouvir você do corredor. Me assuntou pra caramba. — Onde você está? — eu sussurro. — Venha para perto, por favor. Ele se mexe e então está ao meu lado na cama, me puxando para os seus braços. Ele cheira bem, como café fresco e Lucas. — Você deveria falar com a sua família, criança, — ele sugere gentilmente. — Eu acho que a única forma de você se curar é contando a eles o que realmente aconteceu. — Eu não posso fazer isso; você sabe que eu não posso.

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— Eu não sei porque você não pode. O seu pai – ele iria querer saber. Se eu fosse pai... eu gostaria de saber. — Mesmo que isso te destruísse? Ele pensa sobre isso e em voz baixa, diz, — Mesmo que me destruísse. Eu decido mudar de assunto, porque a verdade é que Lucas e eu nunca vamos concordar sobre isso. Eu não quero ver meu pai destruído porque eu fiz uma escolha ruim. Eu não poderia suportar isso. — Você teve uma longa noite? — eu pergunto, me aconchegando em seus braços. — Hmmm. Poderia dizer isso. — Você tem cheiro de café. — Tinha que me manter acordado de alguma forma. Eu rio baixinho. — Deve ser um saco. — Às vezes é, outras vezes eu gosto disso. Mantém minha mente ativa. Se eu fico muito tempo sozinho, penso demais nas coisas. — Lucas? — Sim, baby? Deus, eu amo quando ele me chama assim. — O que aconteceu com a sua esposa? Ele enrijece, e então murmura. — A mãe de Shylie? Será que ele tem outra? De quem mais ele acha que eu estaria falando? — Sim? — Ela morreu no parto de Shy. Deus, isso é horrível. Eu não posso imaginar como isso deve ter sido – perder a sua esposa e depois a sua filha. Não sei nem como ele ainda está respirando, muito menos lidando com tudo isso. — Eu sinto muito, Lucas, — eu digo, minha voz suave. — Ela era uma boa mulher. Eu a amava. Ela teria amado Shy, e teria ficado... devastada se soubesse o que eu deixei acontecer com ela. ~ 187 ~


— Não, — eu digo gentilmente. — Deus, não. Não pense assim. Acidentes acontecem o tempo todo. Você fez o melhor que podia. — Não, eu não fiz. — Lucas... — Eu não quero falar sobre isso, Ava. — Nós vamos em algum momento falar sobre isso? Você continua me dizendo para deixar as pessoas entrarem... — Meu passado é só meu; não é assunto de mais ninguém. Eu estremeço com isso. — Nem meu? — Nós estamos transando, Ava. Nós não somos casados. Essas palavras machucam. Elas rasgam profundamente. — É assim que você se sente? Ele suspira. — Porra, não. Não é assim que eu me sinto, mas meu passado é só isso – meu passado. Eu preciso que você esqueça isso. — Como eu vou saber se você não me deixa entrar? — Esqueça, — ele late. Ele me solta e se levanta. — Tenho que voltar ao trabalho. — Lucas, — eu chamo. Ele caminha para fora do quarto e eu deslizo para fora da cama, vestindo um robe antes de correr atrás dele escada abaixo. Chego ao início dos degraus e paro completamente, meu sangue correndo para minha cabeça quando eu vejo meu pai, Cade e Spike parados na sala de estar, encarando Lucas. Ah, não. Isso não está acontecendo. Não é assim que eu queria que meu pai descobrisse. — Que porra, — meu pai cospe, — é essa? — Pai, — eu sussurro. Seus olhos disparam para mim e se arregalam quando veem que estou usando apenas um robe. Ele não me dá uma chance de explicar. Ele ataca Lucas. Os dois homens caem no chão e seus punhos voam. — Parem! — eu grito, pulando na direção deles, mas Spike pula por cima dos dois e segura meu corpo, seu braço ao redor do meu peito. — Deixe eles, — é uma ordem áspera, e sua voz soa mega irritada. ~ 188 ~


— Pai! — eu grito quando ele dá um soco atrás do outro na boca de Lucas. Lucas os devolve, e logo há sangue voando para todo lado. — Por favor! — eu choro. — Que diabos você pensa que está fazendo aqui com a minha garota? — meu pai berra, uma mão ao redor da garganta de Lucas. — Não é o que você está pensando. — Não é, porra? — meu pai ruge. — Você esteve procurando por um jeito de entrar no meu clube e conseguir suas respostas faz um ano, e que melhor maneira do que através da minha filha? Eu te disse uma vez e vou dizer mil malditas vezes – eu não sei onde a porra da sua esposa está. Eu estremeço nos braços de Spike quando compreendo as palavras do meu pai. Um jeito de entrar no clube. Uma esposa. Lucas acabou de me dizer que a sua esposa morreu no parto. Um arrepio gelado corre pela minha espinha e eu raspo, — O quê? Lucas olha para mim. — Seja lá o que ele diga, não é por isso que eu estou aqui, baby. — Chame ela de baby outra vez e eu vou te matar, — meu pai late. — Pai, — eu choro, minha voz quebrada finalmente conseguindo sair. Ele se vira para mim. — Você está transando com esse homem, Ava? — Isso não é da sua conta, — eu soluço. — É da minha conta. Você sabe quem ele é? Eu olho para ele sem responder. — Ele te contou porque está com você? Eu olho para Lucas, que está com os punhos fechados olhando para o meu pai. — Lucas, — eu sussurro. Seus olhos encontram os meus outra vez. — Ele está errado, criança. — Sobre o quê? — eu guincho. ~ 189 ~


— Ele é um maldito policial que vem xeretando o meu clube há um ano à procura da sua esposa. — M-m-mas você acabou de me dizer que a sua esposa está morta. — Ela está, — Lucas grunhe. — Oh, — meu pai bufa. — Você não contou a ela que você foi casado duas vezes e que ainda é casado com a segunda? Meu coração praticamente para, e isso dói, dói pra valer. — V-v-v-v-você é casado? Lucas olha para mim. — Sim. Meus joelhos tremem e Spike me segura. — Não é o que você está pensando, — ele diz, tentando caminhar na minha direção, mas meu pai o impede com um soco alto no peito. Lucas tropeça para trás, berrando de dor quando o ar sai todo dele. — Pai, pare! — eu grito. — Esse homem está usando você para chegar ao clube. Ele tem uma ilusão distorcida de que nós sabemos onde a sua esposa está, e não vai parar até conseguir respostas. Ele está usando você, filha. Não. Lucas não faria isso comigo; ele não faria. — Lucas? — eu digo, minha voz quebrada. — Não é o que você pensa. — Você está procurando pela sua esposa? Seus olhos brilham e ele acena. — E o clube. Você suspeita deles? Ele rosna baixo. — Ainda não é o que você pensa. — Então você me usou... você... me usou? — minhas lágrimas explodem e escorrem pelas minhas bochechas. — Você sabia o que eu estava passando e me usou para encontrar a sua esposa? — Eu não usei você, porra. ~ 190 ~


— Cale a maldita boca e saia da casa da minha filha, — meu pai exige. — Não me dê ordens, porra. Você quer vir aqui arruinar o que eu consegui e sair dessa sem nada? Você não sabe nada sobre a sua filha, Jackson. Se soubesse, entenderia que eu sou o único que impediu ela de se afogar nesse último mês. Os olhos do meu pai brilham. — Lucas, — eu coaxo. — Pare. — Você sabia atormentando ela?

que

o

bastardo

que

a

levou

ainda

está

Spike estremece atrás de mim e meu pai se vira, seus olhos quebrados quando ele olha para mim por respostas. Maldito Lucas. Maldito ele. — Isso é verdade? — ele me pergunta. — Pai... — Isso é verdade? — ele berra. — Sim. Ele vira tão rápido e dá um soco na parede, a esmagando enquanto ruge de dor. Eu escapo dos braços de Spike. Não posso mais suportar isso. Não posso. Eu corro até a porta e desvio de Cade, que parece estar prestes a explodir de raiva. Ele não faz nada para me impedir, mas Lucas faz. — Ava! — ele chama. — Não, — eu viro, minhas mãos levantadas quando ele e meu pai tentam se aproximar. — Não quero nenhum de vocês perto de mim. Fiquem longe de mim, inferno. Então eu corro pela porta antes que algum deles possa me parar.

*****

Meu telefone toca uma e outra vez. Eu não atendo. Mensagens de texto não param de chegar. ~ 191 ~


Eu não as leio. Eu apenas sento na ponte local, meus pés pendurados para o lado de fora, ouvindo a conversa sem sentindo das pessoas que passam. Lágrimas secas agora estão puxando a pele das minhas bochechas, e meu cabelo está úmido da chuva fraca que caiu uma hora atrás. Um pássaro canta ao longe, o tom alegre me fazendo sentir muito pior. Eu pressiono a testa contra a grade e suspiro. Lucas é casado. Ele está procurando a sua esposa. Todo esse tempo, todas palavras suaves de conforto... elas eram mentira? Se você me perguntasse três horas atrás, eu teria dito que ele era a pessoa mais genuína que eu já conheci, mas agora... agora eu não sei. Eu não posso ver como isso poderia ser real e uma mentira ao mesmo tempo. É possível que cada palavra que ele já me disse tenha sido uma mentira? Ou ele quis dizer aquilo? Será que significou alguma coisa para ele? Uma esposa. Deus. Ele tem uma esposa. Uma dor no meu peito se expande até que eu sinto que ele vai explodir. Pressiono a mão no coração, lutando com as minhas emoções. Tudo dentro de mim está gritando para correr, encontrar outro lugar, encontrar outra realidade. Deixar o clube para trás. Deixar Lucas. Deixar os eventos horríveis dessa cidade para trás. Olho para a garrada de vodca na sacola de papel pardo que está ao meu lado. Eu saí correndo e comprei uma. Eu não tomei nada. Não acho que eu vá fazer isso, mas ter ela aqui é quase um conforto. Não posso imaginar nada mais entorpecedor que beber a garrafa toda, mas eu sou mais forte que isso. Eu tenho que ser mais forte que isso. Se Lucas me ensinou alguma coisa, foi que eu não posso viver a vida me afogando – eu tenho que erguer a cabeça e seguir em frente. Mesmo que seja sozinha. Alguém senta ao meu lado e eu estremeço, me virando para ver Lucas. Ele não está olhando para mim; está apenas encarando a água, seu rosto ilegível.

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— O que você está fazendo aqui? — eu sussurro, minha voz muito áspera para fazer uma aparição. — Como você me encontrou? — A sua amiga Skye me disse que esse é o seu lugar favorito. Skye? Ela nem ao menos conhece ele. — Por que ela faria isso? — Porque ela sabe que eu não sou um bastardo. Eu estremeço. — Uma pena que eu não acho o mesmo. Ele se vira para mim e eu vejo um hematoma se formando no seu rosto. Seu lábio inferior está partido. Ele parece péssimo. — Eu posso falar até ficar azul; você vai me ouvir ou não vai. Eu desvio o olhar. — Eu tinha uma esposa, sim. Depois que a minha filha morreu, ela começou a usar drogas. Ela desapareceu, e a última pessoa que a viu foi um membro do clube do seu pai. Eu estive procurando por ela, não porque eu ainda a amo, mas porque preciso de um encerramento. Eu não estava usando você para achar ela, independentemente do que Jackson diga. — Você mentiu para mim, — eu sussurro. — Não, — ele diz. — Eu só não disse toda a verdade. — Você me disse que a sua mulher estava morta. — Ela está. Minha primeira esposa, a mãe de Shylie, está morta. — Então você foi casado duas vezes, e quer que eu acredite que está sério comigo? — eu rio, mas é quebrado e patético. — Sim, Ava. Eu quero que você acredite nisso porque quero que você acredite em mim, porra. — Bem, eu não acredito, — eu sussurro. — Eu não acredito em você. Eu me arrependo das palavras assim que elas saem da minha boca. Lucas olha para mim, seus olhos angustiados – posso ver tanta dor dentro deles, mas principalmente, posso ver o coração partido que acabei de infligir a ele. — Então nós acabamos aqui.

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Ele levanta e eu abro a boca para gritar, para ele parar, mas nada sai. Meu coração quebrado e amargo não vai me deixar ir atrás do homem por quem eu me apaixonei. Ele simplesmente desliga, obrigando meu corpo a fazer o mesmo. Eu o observo desaparecer na escuridão, seus ombros caídos, seu grande corpo quebrado além da reparação. E eu sei que eu o perdi.

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Capítulo Trinta e Um AVA PRESENTE Eu paro na frente do clube, vendo as pessoas andando ao redor, se agrupando, sem dúvidas procurando por mim. Eu estive fora por mais de um dia, mas eu precisava colocar minha cabeça no lugar, assim como meu coração partido, antes de poder encarar meu pai. Ele vai querer respostas, e eu não sei se posso dá-las a ele. Eu não sei mais nada. É Muff quem primeiro me nota miseravelmente parada nos portões, e seus olhos suavizam. Ele chama o meu pai, que se vira e me encara, alívio marcando os seus traços. Minha mãe o impede de ir, e vem ela na minha direção. Eu abro o portão e entro. Ela me alcança e joga seus braços em volta do meu pescoço, me segurando com força. — Eu sinto muito, baby. Eu não sabia. — Está tudo bem, mãe, — eu digo, a abraçando apertando também, precisando do conforto. — Eu estou bem. — Ele estava te assediando e nós não sabíamos. Nós não... — Eu estou bem. Que mentira. Que enorme mentira da porra. Meu pai nos alcança e diz, — Serenity, solte ela. Leve todos para dentro e nos deixe à sós. — Jacks, — ela diz suavemente, e ele vira os seus olhos para encará-la. Todos estão saindo sem discutir. — Para dentro. — Pegue leve com ela... ~ 195 ~


— Agora, querida, — ele murmura, mais gentil dessa vez. Ela acena e beija minha bochecha antes de desaparecer dentro do clube com os demais. Eu encaro os meus sapatos, sem olhar para o meu pai, não querendo ver a sua dor, mas, principalmente, não querendo ver seu desapontamento. — Um policial. Eu estremeço. — Você estava dormindo com um policial. Meu lábio treme. — E você foi até ele. Você. Foi. Até. Ele. Eu olho para cima. — Aquele pedaço de merda estava te infernizando, e você foi até ele. — Pai... — Por quê? — ele sussurra, e a dor por trás disso me machuca tanto. Dou um passo para trás, com a mão sobre o meu coração. — Eu o amo. Agora é a sua vez de estremecer. — Não, — ele rosna. — Não, Ava. Ele está te usando. — Ele não está, — eu digo, realmente acreditando nisso. — Ele pode ter escondido a verdade, mas não está me usando. — Ele está te usando, — ele late. — Lucas Black é um jogador. Ele está errado. Se ele soubesse o que Lucas me ajudou a atravessar, saberia quem ele era, mas se eu disser a ele vou quebrá-lo ainda mais. Se ele realmente soubesse o que aconteceu naquela noite, nunca mais seria o mesmo. — Você está errado, mas mesmo que não estivesse, essa não é sua decisão. — Ele é um policial! — ele berra.

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— E você é um motoqueiro! Ele recua. — Qual a diferença? — eu sussurro. — Qual a maldita diferença? Você o odeia. Ele odeia você. Não importaria de que lado eu ficasse. — Você está desse lado, se sabe o que é o melhor. — Você está certo, pai, eu sei o que é o melhor, mas me apaixonei por ele. O amor não tem barreiras. Nenhuma. Você deveria saber disso melhor que qualquer um. Seus olhos suavizam ligeiramente. — São dois mundos diferentes, Ava, e isso não pode funcionar. — Bem, — eu coaxo. — para a sua sorte, não vai. Nós terminamos. Seus olhos se arregalam um pouco agora. — Ele fez isso? — Tenho certeza que não é uma surpresa. Afinal de contas, você acha que ele estava apenas me usando. Ele cruza os braços e os encara. — Mesmo que ele não tivesse me deixado, isso seria minha escolha, pai. Você sabe que eu te amo, mas seria minha escolha. Ele olha de novo para mim. Ele não diz nada. — E sobre o outro problema, eu não sei o que aquele homem horrível e cruel quer de você. Mas eu não acho que ele vai parar até conseguir. — Ele te machucou? — ele diz. Algo em seus olhos está quase me implorando para dizer não. — Não, pai, ele não me machucou. — Você não veio falar comigo. Eu olho para as árvores atrás dele. — Eu não queria te magoar. Ele faz um som entrecortado que vem do fundo da garganta. — Porra, me diga que você está brincando, baby? — Não, pai, não estou brincando. Eu sei o que eu ser levada fez com você... ~ 197 ~


Ele dá um passo para frente. — Ava. — Está tudo bem. Eu estou bem. — Ava. Lágrimas queimam as minhas pálpebras, e eu continuo olhando para longe. — Baby. Uma delas escorre pela minha bochecha. — Porra. Ele dá mais um passo e me puxa em seus braços. Eu agarro a sua jaqueta de couro, o respirando, precisando do seu cheiro familiar. — Eu sinto muito, — eu coaxo. — Não sinta. Eu choro mais forte. — Eu estava apaixonada por ele, pai. Ele me abraça mais forte. — Eu estava tão apaixonada pra caralho. Ele não me recrimina por falar palavrão, apenas fica ali me abraçando enquanto eu desmorono. — Ele... ele me salvou, e agora ele se foi. — Eu sinto muito. É tudo que ele pode dizer. Eu sei disso. Mas se ele está dizendo, é porque realmente quis dizer isso.

*****

UMA SEMANA DEPOIS Eu não ouvi falar de Lucas. Tentei ligar para ele uma vez; ele estava com o telefone desligado. Eu liguei para o seu trabalho. Disseram que ele estava ocupado. Ele ~ 198 ~


não quer falar comigo. Eu entendi isso. Isso quebra o meu coração, depois de tudo que ele fez por mim. Eu fiz uma bagunça em algo que já era uma confusão. Posso entender se ele nunca mais falar comigo. Eu não falaria comigo, também. Estive no clube pelos dois últimos dias. Meu pai fechou um bloqueio até nós encontramos o homem que está causando todos esses problemas. Eu passei muito tempo com Skye, Danny, Mercy e Max, mas nada levanta o meu ânimo. Meu coração está partido, meus pesadelos estão piores, e nada do que eu faço me faz sentir melhor. Há apenas uma pessoa no mundo que poderia fazer tudo melhor, mas ele se foi. — Ei, querida. Eu levanto o olhar para ver minha mãe entrando, ela tem uma expressão suave. Ela vem trazendo uma xícara de chá na mão. — Ei, mãe. — Como você está se sentindo? Eu dou de ombros, cruzando as pernas. — Você mal disse algumas palavras nessa última semana. Eu olho para longe. — Dói, não é? Olho de novo para ela, que coloca a xícara de chá ao meu lado. — O quê? Seu olhar fica mais dolorido. — Ter o coração partido. Eu aceno, e meu lábio treme. — Você o amava, hm? — Sim. Eu estava apaixonada. — Você quer me contar sobre ele? Eu encontro seus olhos. — Ele é contra as regras. — Você é minha filha. Nada é contra as regras.

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Eu pego a xícara de chá. — Ele era bom para mim. Ele me ajudou a superar o que aconteceu. Ele estava lá para mim, sempre que eu precisava. Ele... estava tão quebrado, mas ele me curou, mãe. — Parece que ele se importava com você, também. — Sim. Talvez. — Eu já te contei como eu se o seu pai acabamos juntos? Eu dou de ombros. — Eu sei que você era a filha de um motoqueiro, e só. — Eu era a filha de um porco. Ele era o presidente de um clube rival, e era horrível. Ele me enviou para espionar o seu pai e acabar com o clube. Eu entrei neste clube cheia de mentiras. Meus olhos se arregalam. — Isso é sério? — Sim. Eu fui orientada a dar qualquer informação que pudesse acabar com o clube, mas me apaixonei pelo seu pai. — O que aconteceu quando ele descobriu? — eu pergunto, meus olhos ainda arregalados. — Ele perdeu a cabeça. Eu pensei que o perderia; inferno, por um segundo da minha vida, eu pensei que ele ia me matar. Eu ofego. — Mas ele te ama tanto. — Sim, ele ama, mas ele estava ferido. Eu o feri da pior maneira possível. — E como você consertou isso? Ela sorri tristemente. — Eu estava grávida de você, e acho que com o tempo ele entendeu o que eu fiz. Mas, acredite em mim, por um horrível espaço de tempo, eu pensei que tivesse acabado. Eu absorvo tudo que ela, não tendo a menor ideia de que tudo isso tinha acontecido com os meus pais. — Quanta informação. — Sim, — ela ri. — Mas o ponto é, há calma depois da tempestade. Não desista de Lucas ainda. Eu olho para ela, confusa. — Ele é um policial. Ela ri suavemente. — Sim, e eu era a filha do presidente de um clube rival. O amor não tem limites, Ava. ~ 200 ~


— Você não se importaria? Ela se aproxima, acariciando a minha bochecha. — Não. Eu não me importaria. Meu coração se aquece. Eu amo a minha mãe.

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Capítulo Trinta e Dois AVA PRESENTE Eu sento na frente do complexo, em um antigo bando que meu pai fez para mim quando eu era criança. Ele estala enquanto eu vou para trás e para frente, olhando para nada em particular. Estou no meu próprio mundinho, pensando em Lucas. Eu tentei ligar para ele no trabalho, mas a recepcionista sempre diz que ele está ocupado. Eu até mesmo pedi a ela que lhe deixasse um recado. Ele nunca retornou. Isso dói, e eu estou mal me segurando. Meus pesadelos ficaram piores. Por três vezes eu acordei com meu pai, minha mãe ou Danny olhando para mim, me perguntando o que estava errado. Eles suspeitam que existe algo mais, mas eu não posso contar. Os destruiria saber que tipo de pessoa eu me tornei naquela noite horrível. Então eu estou afogando de novo, só que dessa vez não tenho nada para me dopar. — Olá. Eu me viro para ver o pai de Bethy caminhando na minha direção. Eu me pergunto, como ele entrou? Minha boca se abre e fecha, e eu quero me curvar e me esconder. Seus olhos estão menos frenéticos e doloridos hoje do que a última vez que o vi, mas ainda assim... eu não posso encará-lo. Não posso. Apenas ver o seu rosto me faz querer virar e vomitar pela dor que oprime meu peito. Claramente ele vê a angústia em meu rosto, porque levanta as mãos. — Eu não estou aqui para gritar com você. — Então por que você está aqui? — eu digo baixinho. — Eu só quero conversar. — Eu não tenho nada para dizer. ~ 202 ~


Ele se inclina contra a árvore e me estuda. — Eu sei que você passou pelo inferno aquela noite, eu sei, mas eu não posso... eu não posso seguir em frente a menos que eu saiba o que aconteceu. Eu tentei, acredite, eu tentei, mas me sinto inútil. Eu vejo o rosto dela todas as noites, em meus sonhos. Eu só... preciso de um encerramento. Olho para ele e meu coração se parte em pedacinhos. Ele merece um encerramento, mas dizer a ele a verdade significa revelar algo que eu não consigo superar. — Encerramento nem sempre é algo bom, — eu digo, minha voz áspera. — Por favor, Ava. Você é a única que tem respostas. — Eu não acho que você realmente quer saber o que aconteceu. Isso não vai te ajudar a se curar; vai te dar pesadelos. Viva como você está. Mantenha suas memórias especiais. Não as estrague. Seus olhos enchem de lágrimas. Droga. Esse grande e constituído homem está chorando. — Ela era minha única filha. Eu nunca vou ver seu rosto de novo. Por favor. Eu olho para longe, e minhas próprias lágrimas começam a escorrer antes que eu possa pará-las, tudo vem em uma onda. Eu só contei a Lucas o que aconteceu, e isso ajudou a curar uma pequena parte de mim, mas contar a esse homem parece abrir a cicatriz aberta outra vez. — Ele queria se vingar de você e do meu pai por agirem contra ele. Ele... ele queria mandar uma mensagem. — Continue, — ele sussurra. — Eu nem sabia o nome dela. Eu... eu não sabia nada sobre ela, eu só sabia que nós duas estávamos lá pela mesma razão. Ela estava com medo, e então ele me deu uma escolha. — Que escolha? Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas quando eu revivo aquele momento. — Ele me disse que eu tinha que escolher quem iria viver ou morrer, — eu ofego, apertando meu peito. — Ela estava gritando, ele estava gritando, e ele continuava... atirando nela. Ela estava implorando para viver; ele estava me dizendo para escolher, e eu estava com tanto medo. Eu... eu... eu disse que era ela — eu tropeço em minhas próprias palavras. — Eu disse que era ela e ele atirou nela. ~ 203 ~


Silêncio. Silêncio mortal. — Eu sou a razão dela estar morta. Ele não diz nada por tanto tempo que eu me pergunto se ele ainda está ali, e quando olho para além das minhas lágrimas, ele está me encarando, o rosto totalmente quebrado. — Você deixou que ele a matasse, — sua voz é um assobio baixo. — Eu estava com medo... — Você o deixou assassinar a minha garotinha, — ele ruge e eu estremeço. — Eu tentei voltar atrás. Eu estava com medo e... — Então você pensou que a vida dela valia menos que a sua? Você é tão boa quanto quem a matou. Sua assassina maldita. Eu deslizo para fora do bando e começo a soluçar, meus joelhos encontram o chão de terra, minha cabeça cai. Ele está certo. Eu sou uma assassina. — Eu deveria te matar. Ela era minha única filha. Você matou a minha única filha. — Que porra é essa? Ouço a voz do meu pai e o som de botas esmagando a terra. — A sua filha matou a minha; ela deu carta-branca para ele matar a minha filha, porra. Assassina! Sua assassina maldita! — Saia daqui, — meu pai berra. — Antes que eu coloque uma bala no meio da sua testa. Eu já tolerei isso uma vez, mas não duas. Dê o fora. Nós acabamos. — Eu espero que o rosto dela te assombre por todos os dias, seu pedaço de lixo. Eu estalo alto ecoa no ar. — Dê o fora! — meu pai ruge tão alto que eu começo a chorar mais alto. Eu ouço o som de movimento e os gritos de agonia do homem enquanto ele é arrastado para fora. Eu fico caída no chão, chorando tão forte que meu corpo todo treme. ~ 204 ~


— Ava. Papai. — Ava, baby, ei. Eu não respondo, apenas choro mais forte, finalmente quebrando, finalmente deixando tudo que esteve preso explodir dentro do meu peito. — Querida, por favor. — Jacks, ela está machucada. Leve ela para dentro — Spike. — Ava, eu vou te levantar agora, ok? — papai fala. — Não! — eu grito. — Me deixe aqui. Me deixe. Eu não mereço respirar. — Baby, vamos lá. Nós podemos falar sobre isso. — Não, — eu grito, arranhando o chão. — Oh, Deus, — ouço o choro angustiado da minha mãe. — O que aconteceu? Seus braços vêm ao meu redor, mas eu permaneço imóvel. — Ava? — ela chama. — Baby, fale comigo. — Me solte, — eu gemo. — Eu sou uma assassina. Me solte. — Calma, não, — minha mãe suspira. — Lucas, — eu ofego. — Eu preciso dele. Por favor. Ele é o único que entende. — De jeito nenhum no inferno ele vai entrar no meu clube. Fale com a gente, Ava. Eu olho para o meu pai e o que ele vê nos meus olhos o faz levantar e latir para Cade, — Ache o policial. Agora. Eu baixo a minha cabeça e sento ali com os braços da minha mãe ao redor do meu corpo rígido, sem sentir nada além das lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas. Eu sou uma assassina.

***** ~ 205 ~


— Saia do caminho. Ouço a voz de Lucas e levanto minha cabeça quebrada, olhando para ele com a visão borrada. Minha mãe se levanta; ela esteve tentando me confortar durante toda a última hora. Eu ainda estou de joelhos na terra e as pedras rasgaram a minha pele, mas eu não me importo. Lucas se aproxima, e meu pai para na sua frente. — Você não toca nela, Shadow. — Saia da porra do meu caminho, — Lucas avisa. — Eu vou te machucar, Jackson, e eu não quero fazer isso, mas a minha garota está no chão e eu sou o único que ela quer, então saia da minha frente ou, Deus me ajude, eu vou tirar você daí. Eles se encaram por um momento, então meu pai dá um passo para o lado. Lucas se aproxima, se ajoelhando ao meu lado. — Calma, querida, — ele murmura. — Estou com você. Ele me puxa em seus braços e eu me enrolo contra ele, pressionando o rosto contra o seu peito, o respirando. Choro mais forte. — Consiga uma caixa de primeiros-socorros, — ele late enquanto caminha comigo no colo em direção ao complexo. — E água. Agarro sua camisa e escuto o murmúrio que se espalha quando Lucas entra me carregando no clube, mas não olho para cima. Sinto quando ele se senta e cuidadosamente me ajusta no seu colo, então eu fico melhor acomodada. As lágrimas já encharcaram a sua camisa, e meus soluços se tornaram um choro totalmente angustiado. — Eu estou com você, — ele continua me dizendo. — Eu sempre estou com você. — Eu sou uma assassina, — eu sussurro. — Não, baby, você não é. — Do que ela está falando? — meu pai pergunta. — Agora não, — ele murmura. Sua mão vai para o meu cabelo, e ele gentilmente o acaricia. — Não se perca agora, baby, — ele diz, sua voz suave. — Não me deixe, porra. — Você me deixou, — eu coaxo. — Você... ~ 206 ~


— Fodi tudo. Estou aqui agora. Não vou a lugar nenhum. Quer saber por quê? Levanto minha cabeça do seu peito e olho para ele. Ele alcança meu rosto para secar uma lágrima que escorre. — Porque no segundo em que eu te vi deitada na calçada aquela noite, eu sabia que você mudaria a minha vida. Meu lábio treme e eu soluço. — Não há nenhum outro lugar onde eu preferia estar. — Eu estou quebrada, — eu sussurro. — E duas metades quebradas podem formar algo inteiro, criança. Lembre disso. Ele segura a minha nuca com uma mão e me traz para mais perto, escovando os lábios contra os meus. — Agora eu vou te colocar para dormir, porque você está exausta, e vou sentar ali e contar para a sua família o que aconteceu com você. É hora disso acabar. Eu não sei se estou pronta para isso. Eu também não acho que tenho escolha.

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Capítulo Trinta e Três AVA PRESENTE — Não Ava. Não a nossa Ava. Ela teria me dito. Ela teria se aberto comigo. Não o meu bebê. Ela esteve se afogando e eu não vi, porra. Posso ouvir o choro da minha mãe o desespero do meu pai enquanto sento no meu quarto, as costas contra a parede, minha cabeça pressionada contra minhas pernas, que estão apertadas contra o peito. Eu ouvi Lucas contar a eles o que aconteceu. Eu os ouvi perder a cabeça. Eu ouvi todas as lágrimas e dores de cabeça. Eu ouvi o exato momento em que deixe de ser a sua garotinha inocente. — Ela esteve se afogando, — Lucas diz. — Ela não queria machucar vocês. — Ela deveria ter me dito! — meu pai berra. — Ela deveria ter... — sua voz se esvanece, quebrada. — Minha garotinha, — minha mãe soluça. — Meu pobre bebê. Minhas unhas afundam na pele quando eu continuo a ouvir a dor deles viajar através das paredes. — Por que você não veio falar comigo? — meu pai exige. — Não era meu segredo para contar. Ela precisava de mim, e eu estava lá. — Isso é alguma espécie de tática de vingança? Lucas late uma risada mortal. — Você pode virar isso contra mim de todos os jeitos que quiser, Jackson, mas o fato é que o seu clube que colocou ela nessa confusão. Minha sugestão para você, em vez de tentar me culpar, veja o que está bem na sua frente e pare, porra, antes que mais alguém se machuque. ~ 208 ~


— Seu fodido... — Jacks, — minha mãe chora. — Pare. Pare com isso. — Você vai me bater? — Lucas murmura. — Vá em frente. Isso não vai consertar o problema. Esse homem está brincando com a sua família e você está deixando. A sua filha esteve lá, e ela está quebrada. Deixe de lado o seu ódio e esteja lá por ela; conserte essa merda e não dê a esse filho da puta o que ele quer. Ele fez isso para te acertar onde dói, e nesse exato momento você está deixando isso acontecer. — Ela é minha filha! — meu pai grita. — Sim, ela é e sempre vai ser. Então esteja lá por ela e conserte isso, mas não deixe que isso destrua vocês dois, porque senão ele ganha. — É a porra da minha culpa que isso aconteceu, em primeiro lugar, — a dor na voz do meu pai rasga meu coração em pedaços. Ele está aberto. — Não viva com essa culpa e arrependimento. Isso não vai arrumar nada – acredite em mim. — Não me compare com você, Shadow. — Por que não? — Lucas assobia. — Eu fodi as coisas e por causa disso minha filha se foi. Eu sei como é perder alguém. Eu sei o que é sentir culpa. Eu sei exatamente como você se sente. Não dê a esse pedaço de merda o que ele quer. Você pode curar a sua filha sem quebrar. Silêncio. — Jacks, — minha mãe diz. — Coloque a sua cabeça no lugar. Ava não precisa disso. Eu vou ir falar com ela. — Com todo o respeito, senhora, — Lucas diz. — Eu preferiria ir falar com ela agora. — Nem fodendo, — meu pai murmura. — Jacks, — mamãe estala. — Não se esqueça quem você é. Essa é a nossa garotinha. Você precisa se acalmar. Lucas, claro que você pode ir falar com ela. — Obrigado.

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Alguns minutos depois, minha porta range ao abrir e Lucas entra. Seus olhos vão para a cama e queimam ligeiramente em alarme ao ver que eu não estou ali. Eles viajam pelo quarto e me encontram sentada no chão. — Você ouviu tudo, hm? Eu aceno. — Você está bem? Encolho os ombros. — Eles estão? — Eles vão ficar. — Eu nunca mais vou ser a mesma aos olhos deles. Lucas vem até mim e desliza contra a parede até sentar ao meu lado. — Você sempre vai ser a mesma, criança. Sempre. — Eles pareciam tão feridos, — eu sussurro. — Vai levar um tempo. Venha aqui, — ele me puxa no seu colo e eu deixo ele me prender em seus braços. — Eu me sinto toda dolorida, — eu digo inclinando a cabeça para olhar para ele. — Porque você finalmente deixou tudo sair. A partir de agora só pode melhorar. Eu libero um longo e lento suspiro. — Você precisa descansar. Ele se levanta e me carrega até a cama. — Você vai ficar comigo? — Sempre, baby. Sempre.

*****

Acordo no meio da noite e Lucas está dormindo ao meu lado. Eu estava me virando e mexendo. Não querendo acordá-lo, deslizo para fora da cama e visto minhas roupas antes de me esgueirar para fora do quarto. Caminho pelos corredores escuros até a cozinha do complexo. Me sirvo um copo de leite e o coloco no micro-ondas, depois estalo meu ~ 210 ~


pescoço dos dois lados. Ele está doendo. Na verdade, todo meu corpo está. O micro-ondas apita e eu pego o copo, o segurando com as duas mãos enquanto me movo silenciosamente até a sala. Noto a luz na área dos escritórios e me pergunto quem está acordado na casa. Deve ser duas horas da manhã. Eu saio silenciosamente da casa e desço os degraus da frente, indo em direção aos escritórios. Quando alcanço a porta, ouço uma música suave tocando. Eu a empurro aberta e vejo meu pai sentando em um antigo banquinho de bar, uma cerveja na mão, sua cabeça pendurada. Isso é exatamente porque eu não queria que ele soubesse. Meu coração se aperta. — Pai? Ele olha para cima, e seus olhos estão vermelhos e brilhantes. — A música te acordou? — ele pergunta, a voz grave. Eu o estudo e meu coração se parte em dois. Meu pai durão e machão estava chorando. Largo meu copo de leite e vou até lá, sentando em um banquinho de frente para ele. — Não, — eu finalmente digo para responder à sua pergunta. — Então você deveria ir dormir querida. Eu só estou pensando. — Pai, — ele levanta o olhar de novo. — Não foi sua culpa. Ele estremece e sua mandíbula aperta. Tanta dor explode do seu corpo que eu posso senti-la no meu âmago. — Foi minha culpa, e eu preciso viver com isso. — É por isso que eu não te contei. É por isso... — Ele te machucou, — ele raspa. — Ele te machucou por minha causa, porra. — Pai... — Ele pegou a minha Ava e a quebrou. Eu engulo a bola se formando na minha garganta. — Eu nunca vou me perdoar por isso. ~ 211 ~


— Não dê a ele o que ele quer, — eu digo. — Por favor, pai. Não dê o que ele quer. Ele fez isso comigo. Não com você. — Ele te pegou por minha causa. Seus dedos se apertam ao redor da garrafa de cerveja e eu me estico, colocando a mão sobre a sua jaqueta. — Eu te perdoo. — Ele pegou a minha garotinha e fodeu com ela. — Eu te perdoo, pai. — Ele a quebrou, — ele raspa. Uma lágrima escorre pela sua bochecha, e me machuca muito ver isso. Eu me aproximo, colocando meus braços ao redor do seu pescoço. Ele não se mexe. Ele apenas senta ali, a cabeça caída, as mãos ao redor da cerveja. — Se você não se perdoar, nunca vai curar, — eu digo. — Eu preciso que você esteja bem porque preciso que você seja meu pai. Seu corpo treme. — Eu não posso ser eu sem você, meu velho. Ele tira uma mão da cerveja e a passa ao redor da minha cintura. — Eu sinto muito, porra. — Não deixe ele ganhar, — eu sussurro. — Eu vou matar ele por te machucar. Eu me afasto. — A única coisa que pode me machucar agora é você não se perdoar por isso. Seus olhos encontram os meus. — Preciso de tempo. — Todos nós. Seus olhos brilham com raiva de novo. — Você deveria ter vindo falar comigo. Você nunca deveria ter sofrido desse jeito. — Não, talvez não, mas ver você quebrado me machuca muito mais. Eu só queria te proteger. — Não é o seu trabalho, — ele diz com a voz áspera. — Não é seu trabalho, baby. Ele era meu e eu fodi tudo. — Jacks? ~ 212 ~


Nós dois levantamos o olhar para ver minha mãe na porta, um robe preso firme na sua cintura, seus olhos cheios de lágrimas. Eu me levanto, porque sei que ela é a única pessoa que pode ajudar ele agora. Eu me inclino e beijo a sua bochecha, então sussurro de novo. — Se perdoe, pai. Eu preciso que você faça isso. Então eu me viro e caminho até a minha mãe. Ela me puxa em seus braços, e nós nos abraçamos por um longo tempo. Quando ela me solta, eu lhe dou um sorriso fraco. — Eu sinto muito, meu bem, — ela diz. — Não sinta. Eu vou ficar bem, — eu olho para o meu pai. — Nesse momento, ele não está. Seus olhos vão para ele e o rosto dela cai. — Fique com ele. Amanhã nós conversamos, ok? Ela olha para mim de novo. — Eu não estava lá quando você precisou de mim. Não vou deixar isso acontecer de novo. Eu pego a sua mão e aperto. — Lucas está me esperando agora. Amanhã, nós conversamos. Agora... ele precisa de você. Ela acena, lágrimas escorrendo pelas suas bochechas. Eu a abraço de novo e saio da área dos escritórios. Eu me viro e olho para eles antes de ir. Minha mão sobe no colo do meu pai. Ele deixa cair a garrafa de cerveja, coloca seus braços ao redor da sua cintura e eu ouço os sons angustiados que ele fez no fundo da garganta. Ela o segura, e eu sei que ela vai consertá-lo. Ela é única para ele. Ela pode consertar qualquer coisa. Até mesmo isso.

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Capítulo Trinta e Quatro AVA PRESENTE Já se passaram três semanas desde o meu grande colapso no clube, e as coisas estão melhorado lentamente. Meu pai não está feliz que eu esteja namorando um policial, mas ele também não está em posição de opinar muito sobre o assunto. A minha mãe realmente gosta de Lucas, assim como Skye e Mercy. Danny e Max agem como qualquer bom motoqueiro e vivem me dando sermões sobre esse assunto. Mas isso não importa. Lucas é tudo. Namorar com ele é como estar viva. É como a primeira respiração quando você está se afogando, é como rir na manhã de Natal. Ele é carinhoso, sexy e cuida de mim. Nós nos ligamos naquele dia no clube. Passamos por todas os obstáculos e descobrimos que estamos os dois lutando as mesmas batalhas. Eu nunca pensei que fosse aprender a respirar de novo depois de Bethy, mas Lucas está me mostrando que há vida depois de todo terror. Nós estamos levando as coisas o mais devagar possível. Passamos a maior parte dos seus dias de folga juntos, apenas nos conhecendo melhor. Eu não posso dizer o mesmo sobre as noites. São nesses momentos que Lucas e eu nos ligamos, realmente sentimos um ao outro. Tudo que ele esconde e acoberta sai quando ele está dentro de mim. Algo explode entre nós e cria uma conexão que fica mais forte a cada segundo. Finalmente, parece haver uma luz no fim do túnel. — Ava?

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Eu saio do meu devaneio e vejo Michael se inclinando sobre a minha mesa. Eu tive que trabalhar até tarde essa noite, algum grande caso que ele precisava ajudar, e quando mais a noite passava, mais cansada eu ficava, tendendo a deslizar para o meu mundinho. — Desculpe, — eu disse, dando uma rápida olhada ao redor para ver se todos tinham ido; era apenas Michael e eu. Isso fez minha pele arrepiar de um jeito estranho. — Você terminou os meus papeis? — ele pergunta, deslizando o seu traseiro na minha mesa. Eu quero estender a mão e empurrar ele para fora. — Sim. Eu só estou verificando eles mais uma vez. — Não parecia que você estava verificando nada; parecia que você estava pensando em outra coisa. Nós já tivemos essa conversa antes, e eu pedi para que você mantivesse a sua vida pessoal longe do trabalho. Imbecil. — Eu não estava fazendo nada, senhor, — eu disse o mais gentilmente possível, todo o tempo sonhando em lhe dar um soco no queixo. — Eu estava pensando, hm, no que eu vou comer quando chegar em casa. Ele me estuda. — Se você quiser, eu posso conseguir comida e nós jantamos juntos. Eu preferiria espetar um garfo nos meus olhos, — Não, está tudo bem. Eu tenho certeza que você teve uma longa noite e tem alguém em casa te esperando. Coisa errada a dizer. Ele se inclina para frente e passa o dedo – sim, ele passa o dedo – pelo meu braço. — Na verdade, não, mas se você quiser se juntar a mim, tenho certeza que podemos trabalhar em alguma coisa. Mantenha a calma, Ava. — Eu estou saindo com outra pessoa. — Ele não precisa saber, — ele murmura, passando o dedo pelo meu pescoço. Eu pulo para trás e forço um sorriso. — Olhe, obrigada, eu estou lisonjeada, mas... — Então nós ainda estamos jogando esse jogo, — ele estala, e eu estremeço. ~ 215 ~


— Que jogo? — Esse em que você vem aqui usando esses shorts curtos, sorrindo para mim, se jogando em mim – porra, você até trouxe o seu namorado aqui para me provocar, e agora você está agindo como se preferisse estar em qualquer outro lugar. Ele tem que estar brincando comigo. — Eu uso o uniforme, — eu aponto. — O uniforme é uma saia preta. Não uma microssaia preta que me deixa ver todas as curvas da sua bunda quando você se dobra. Eu engasgo internamente e me levanto da minha cadeira. — Eu não sei porque você pensou que eu estava dando em cima de você, mas posso garantir que eu não estava. Acho melhor eu ir agora. — Você vai, — ele diz, ficando de pé e cruzando os braços, — e perde o seu emprego. — Você está ameaçando me demitir se eu não dormir com você? — eu ofego. Ele chega mais perto e eu me seguro, os braços cruzados. — Nós poderíamos mudar isso. Se você gosta do seu trabalho, pode me convencer a deixar você ficar. — Eu prefiro comer merda, — eu cuspo na sua cara. — Agora se afaste. Ele ataca e agarra o meu braço. — Nós dois sabemos que você queria isso, mas se jogar duro te excita... Ele torce o meu braço e tenta me arrastar para o seu escritório. Eu piso no seu pé e ele assobia de dor, mas não me solta. Em vez disso, sua mão vai para a minha saia, a puxando para cima. Porra, não. Eu não vou deixar isso acontecer. Só por cima do meu cadáver. — Me solte, seu pedaço de merda, — eu cuspo. — Continue lutando. Eu gosto disso. — Eu não. Eu escuto uma grave voz masculina atrás de mim e então as mãos de Michael saem do meu corpo. Lucas dá três passos atrás de mim e então agarra um Michael choroso pela camisa, como se ele não ~ 216 ~


pesasse nada. Ele o bate contra a parede e o encara de frente. — Você sabe quem eu sou, seu lixo? — ele assobia. — Eu... eu... ela queria. Lucas o puxa da parede, e então bate suas costas de novo com tanta força que sua cabeça dá um estalo alto. — Ela não queria não; eu testemunhei isso. Você colocou as mãos em uma mulher que não queria, isso é assédio. Eu vou te prender, seu pedaço de merda, e você vai desejar nunca ter feito isso. — Não, — ele chora. — Eu entendi mal. Você não tem motivos para me prender. Por favor. — Eu posso te prender por assédio e você vai perder o seu emprego. Se ela decidir me dizer que o que eu acabei de ver está correto, e vou tinha as suas mãos nela, a forçando a fazer algo que não queria, eu posso te prender por assédio. O rosto de Michael empalidece. — Por favor. Eu não posso perder o meu emprego. — Você vai, — Lucas diz, o girando e batendo suas mãos nas próprias costas, puxando as algemas do seu cinto e as fechando em seus punhos. — Eu vou garantir isso, — ele puxa Michael para o seu lado, uma mão firmemente enrolada na corrente das algemas, e olha para mim. — Você está bem? Eu aceno, esfregando meus braços repentinamente frios. — Sim. Eu estou bem. — Viu? — Michael guincha. — Ela disse que está bem. — Cala a porra da boca antes que eu faça isso por você, — Lucas late. — Pode levar ele, — eu sussurro. — Eu vou ficar bem. Lucas estuda o meu rosto. — Venha para a delegacia e faça uma ocorrência. Eu olho para Michael, que está olhando para mim. — Eu tenho que trancar as coisas aqui se ele está indo. Encontro você lá. — Você não tem carro. Eu trouxe você aqui, lembra? — Lucas aponta. ~ 217 ~


— Eu vou chamar alguém; está tudo bem. Lucas me estuda, então bate Michael sentado em uma cadeira e rosna. — Se mova e eu atiro em você. Então ele puxa a sua arma e anda até mim, pegando a minha mão e me levando até a porta para que Michael não possa nos ouvir. — Você tem certeza que está tudo bem, baby? Eu aceno e olho para baixo. Seu dedo se curva debaixo do meu queixo, me obrigando a levantar a cabeça. — Ava. — Eu estou bem, apenas em choque. Eu sabia que ele era bizarro, mas não pensei que ele... — Eu pensei. Por isso eu mantive um olho em você. Esfrego meus braços de novo. — Quem você quer que eu chame? — ele pergunta. — Eu vou ligar para o Danny. Vai dar tudo certo. Ele me estuda uma última vez e então acena. — Eu vou levar esse desgraçado para a delegacia. Se você não estiver lá em uma hora, eu vou vir atrás de você, querida. Eu dou a ele um meio sorriso fraco. — Eu vou estar lá. Ele se inclina e me dá um beijo na testa antes de ir buscar Michael e me deixar sozinha.

*****

— Eu teria matado esse filho da puta, — Danny murmura, caminhando de um lado a outro do escritório enquanto eu guardo as minhas coisas. — Lucas é um policial, D. Ele não pode fazer isso. — Eu poderia. Assim como o seu pai. Assim como qualquer um do clube. — Se você está prestes a terminar essa frase com ―então você deveria ter chamado algum de nós‖, por favor, não. Eu estou cansada

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de ouvir isso. Se você não gosta de Lucas, é problema seu, mas eu estou apaixonada por ele e nada do que você diga vai mudar isso. Danny fica em silêncio. — Você está apaixonado por ele? Eu pisco, não percebendo que disse isso tão facilmente. Eu olho para cima e encontro o olhar de Danny. — Sim, D. Eu estou. — Foda-se. — É, acho que isso cobre o assunto, — eu rio baixinho. — Ainda assim, — ele diz, — o filho da puta deveria estar morto por tentar tocar em você. — Lucas vai cuidar dele. Não duvide disso. — Sorte que ele apareceu, hm? Eu estremeço com o pensamento, mas não deixo transparecer. — Eu teria chutado a bunda dele. Danny ri, não uma risada cheia e feliz, mas ainda assim uma risada. — Eu tenho certeza que sim, tigresa. — É melhor nós irmos para a delegacia antes que Lucas envie uma patrulha. — Aliás, — Danny diz enquanto estamos saindo, — eu liguei para o seu pai. — Danny! — eu choro. — Ele não precisa desse stress. — Nós temos ordens explicitas que se qualquer coisa acontecer com você, ele deve ser informando. Desculpe, formiguinha. Você é minha amiga, mas eu sigo as regras. Eu dou um tapa no seu ombro, e ele estremece. — Você é um pé no saco. Ele ri. — Sim, bem, você também. Nós subimos na sua moto e vamos para a delegacia. É uma noite fria, com o começo do inferno se apresentando. O ar é gelado e uma leve brisa corre por nós, fazendo o meu cabelo voar para o lado. A delegacia está fervendo quando chegamos lá, e Amelia rapidamente sorri e acena para irmos para o escritório de Lucas.

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— Não tenho certeza se eu quero ir lá, — Danny murmura, cruzando os braços e fazendo a sua jaqueta de couro ficar mais justa. — Pare de choramingar, — eu rio baixinho. Nós entramos no escritório de Lucas e ele está caminhando ao lado da sua mesa. No momento em que ele nos vê, ele para e me puxa contra o seu corpo. — Eu disse uma hora, baby. Já fazem quase duas. — O trânsito estava ruim, — eu minto, olhando nos seus olhos. — Sério, eu apenas precisava de um tempo para me arrumar depois de ligar para Danny. Lucas acena e olha por cima do meu ombro para Danny. — Obrigado por trazer ela aqui. Danny grunhe. Lucas me solta e eu me viro, dando a Danny um olhar que o faz revirar os olhos e parar ao meu lado, jogando o braço por cima do meu ombro. Lucas nem sequer pisca. — Quanto tempo demora para fazer a ocorrência? — O tempo que for preciso, — Lucas diz, e os dois seguram um olhar. Siiiim. Essa vai ser uma noite longa.

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Capítulo Trinta e Cinco AVA PRESENTE Lucas toma o meu depoimento e meu pai aparece no meio da coisa toda, exigindo me ver. Ele e Lucas trocam olhares hostis, mas meu pai ouve enquanto Lucas conta o que aconteceu. Já é quase meianoite a hora em que vamos embora, e eu estou exausta. Todos saímos da delegacia juntos, e eu estou ansiosa para me deitar na minha cama com Lucas, ou me deitar na cama dele... de qualquer jeito está bom para mim. — Suba na minha moto. Vou te levar para casa, — meu pai diz quando eu vou em direção ao carro de Lucas. Lucas e eu paramos. — Eu vou ir com Lucas, — digo cuidadosamente. Ele me atira um olhar de aviso. — O meu bebê já passou por coisa demais sem isso para adicionar ao topo, eu vou levar você para casa, então vou ter certeza de que você está bem. — Pai, eu estou bem, — eu sussurro. — Então me deixe te levar para casa. Olho para Lucas, esperando um protesto, mas ele está me alcançando um capacete. — Suba na moto, criança. Eu pisco. — Mas... — Suba. Na. Moto. Seu olhar permanece no meu e continua firme, inabalado. Eu agarro o capacete das suas mãos e viro para o meu pai, que está olhando Lucas pela primeira vez sem raiva, mas sim, com o que, respeito, talvez? Espero que seja isso que eu veja. ~ 221 ~


Porque, com isso, eu subo na moto do meu pai sem protestar. Lucas para de encarar e me olhar, acenando, antes de caminhar para o seu carro. Homens. Meu pai acelera e então nós partimos. Todo o tempo de estrada me dá a chance de respirar o ar frio, relaxar meu corpo dolorido. Eu realmente queria estar com Lucas essa noite, mas posso entender porque ele não brigou com o meu pai. Tenho certeza que se fosse a sua filha, ele gostaria de ter o mesmo respeito. O meu homem é um dos bons, sem dúvida. Nós chegamos na minha casa e descemos da moto. Meu pai se encosta contra ela, me olhando intensamente enquanto eu lhe entrego o capacete. — Você ainda está séria com esse policial? — ele pergunta, cruzando os tornozelos e colocando o capacete atrás de si. — Sim, pai, eu estou. Ele me estuda, então se levanta. Ele se aproxima, se inclina e me dá um beijo na testa. — Se ele não fosse policial, — ele murmura, — ele seria um bom homem. Eu rio baixinho e balanço a cabeça enquanto me pai dá um passo para trás, sorrindo para mim. — Aí está uma lógica que eu nunca ouvi. — Tem muito mais de onde vem essa. — Tenho certeza que sim. Agora vá para casa. Eu estou cansada e preciso muito de um banho. — Você está bem? — ele pergunta, sério dessa vez, todo o humor sumiu do seu rosto. Eu sorrio de leve e aceno. — Estou bem. Ele me estuda e acena. — Você vai ir no churrasco de sábado? — Lucas está convidado? Ele só me olha. — Então não. — Ava, — ele avisa.

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— Pai, você é um motoqueiro, e eu entendo e respeito os limites. Você não quer ele no clube, eu respeito isso também, mas ele é importante para mim, e eu não vou excluir ele de tudo. — Então você vai usar isso contra mim? Eu balanço a cabeça. — Não, isso apenas significa que eu não vou a todos os churrascos, mas vou na maior parte deles. Isso é o que eu posso oferecer agora. — Então eu vou aceitar, — ele dá um passo para a frente, olhando para mim. — Não deixe que isso fique entre nós. — A única pessoa que pode fazer isso, meu velho, é você. Eu sei que esses dois mundos nunca vão poder se misturar, mas às vezes você só tem que ser o Jackson e ele só tem que ser o Lucas, e você só precisa ser um pai e ele, o homem que sua filha ama, e acabou. — Você faz parecer fácil, — ele murmura. — E é, se você quiser que seja. Ele suspira. — Filhas teimosas.... Eu sorrio. — Nós aprendemos com o melhor. Ele me atira um sorriso antes de subir na sua moto e partir. Sim, ele vai ficar bem com isso. Com o tempo.

*****

Eu gemo quando afundo na água. Está tão quente quanto posso suportar, e enchi a banheira com sais perfumados. A cascata de água cai sobre a minha pele, lavando todo o stress do dia. Eu não tenho ideia do que vai acontecer com Michael, com o meu trabalho, nada disso, mas eu sei que foi para o melhor. Ele era o tipo de homem que continuaria fazendo isso, e eu não poderia ser o tipo de garota que permitiria que ele machucasse mais alguém. — Nunca ouvi você gemendo para mim assim.

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Eu pulo para ver Lucas parado na porta, um braço sobre a cabeça, descansando na moldura. — Você me assustou, — eu sussurro, pressionando uma mão no coração. — Desculpe, baby, — ele murmura, claramente não querendo dizer isso enquanto seus olhos correm pelo meu corpo. — Eu não achei que fosse te ver, — eu digo, minha voz grossa com desejo enquanto o observo tirar a sua jaqueta e abrir o cinto da calça. — Deixei seu pai te trazer para casa, dei a vocês o tempo necessário, mas ele não está aqui agora e nada vai me manter longe de você. Meu coração flutua. — Não? — eu sussurro. — Não, querida. Ele tira as calças e meus olhos vão para a protuberância dentro das suas boxers. Meu sangue esquenta quando ele as puxa para baixo, libertando seu pau. Ele fecha o punho em torno dele, se acariciando enquanto caminha na direção da banheira. — Você gosta do que vê? — Você sabe que sim, — eu digo, minha voz pesada com a luxúria. — Você quer se mover para que eu possa entrar e te mostrar o quanto eu gosto do que vejo? Eu me mexo, dando espaço o bastante para que ele possa entrar. Quando está na banheira, seu corpo cai sobre o meu, seus braços apoiados em cada lado para não me esmagar. Seus olhos incendeiam e seu corpo grande está duro e quente. Delícia. — Se você vai ter o seu caminho comigo, posso pelo menos ganhar um beijo primeiro? Ele sorri e se abaixa, me beijando profundamente, sua língua dançando com a minha, seus quadris balançando dentro da água para esfregar seu pau contra a minha buceta. Quando o beijo acaba, ele se afasta e olha para a nossa esquerda, onde um espelho pode ser visto. Ele ocupa toda a parede, e quando você está na banheira, pode ser ver de corpo inteiro perfeitamente. — Eu tenho uma ideia, — ele murmura. ~ 224 ~


— Eu não sei... — Confie em mim, baby. Ele passa um braço pela minha cintura, me puxando para fora da água. Ele me coloca na borda da banheira, me posicionando com a buceta exposta para o espelho, e então volta para dentro da banheira, parando logo atrás de mim e curvando um braço em volta da minha cintura. Posso ver a sua cabeça perto do meu corpo, e nossos olhos se encontram no espelho. — O que você está fazendo? — eu sussurro. — Se foda. Eu pisco. — Como é? — Se foda, baby. Me deixe ver o quanto você gosta disso. Olho para o espelho para ver meu corpo molhado, com bolhas de sabão escorrendo pelos meus seios. Minhas pernas estão separadas e posso ver as dobras da minha buceta brilhando no reflexo. Isso é... estranhamente sensual. Lucas pega minha mão e eu observo pelo espelho seu braço musculoso parar no lugar entre as minhas pernas. Meus dedos alisam a carne, e eu ofego. Isso é bom, mais do que qualquer outra vez que eu tenha feito isso. — Me mostre, — ele exige, flexionando seu punho para fazer meus dedos afundarem mais em minha carne. Eu gemo e assumo o controle, olhando para o espelho com fascínio quando meus dedos esfregam o clitóris inchado. Os corro para cima e para baixo, me abrindo ainda mais, mantendo os olhos na minha buceta enquanto deslizo os dedos dentro de mim. Lucas geme alto, e uma das suas mãos desaparece na água. Ele começa a se acariciar e eu estremeço, afundando os dedos até onde posso ir, ofegando de prazer quando meu corpo vem à vida. — Você vê como é bonita assim? — ele murmura, trazendo a outra mão para cobrir o meu seio, puxando o mamilo entre os dedos. — Estou perto, — eu gemo, mergulhando meus dedos mais profundamente, os cobrindo com a minha própria excitação. — Porra, — ele geme, se empurrando para fora da água. — Você vai guardar isso para o meu pau. ~ 225 ~


Ele puxa minha mão para trás e me reposiciona, então minhas mãos estão tocando o azulejo do chão em frente à banheira, metade do meu corpo pendurado sobre a borda. Ele ainda está ali dentro, puxando o meu traseiro na sua direção. Eu posso ver nós dois. É algo quente. — Se segure, — ele avisa. — Eu vou te foder duro. Curvo levemente os dedos no chão, esperando que eu não escorregue, e meus gemidos enchem o ar quando ele desliza para dentro, empurrando seu pau centímetro por centímetro nas minhas profundezas. Eu o observo no espelho, estudando seu rosto, amando o quanto ele parece intenso, como seus olhos suavizam com o prazer. Ele puxa para trás, e todos os músculos do seu corpo se flexionam quando ele bate de volta para a frente. — Lucas, — eu ofego. — Luke, — ele murmura. — Me chame de Luke. Isso não parecia certo desde... desde tudo, mas com você parece certo outra vez. Meu coração se derrete e eu suspiro, — Luke. — Sim, — ele grunhe. — Deus, sim. Seu pai desliza dentro e fora com facilidade, e eu estou rapidamente construindo a minha libertação de novo. Sua mandíbula está apertada no espelho, seus olhos profundos, cheios de prazer. Apenas essa visão me manda sobre a borda e eu explodo, gozando tão forte que minhas mãos escorregam para a frente. Lucas me segura rapidamente, me prendendo pela cintura contra o seu corpo molhado e duro enquanto acha sua própria libertação, sua boca perto da minha orelha, grunhindo sons baixos que ecoam pelo aposento. — Me lembre de fazer isso de novo, — eu murmuro preguiçosamente quando nós dois voltamos ao normal depois da incrível subida. — Planejo fazer isso um milhão de vezes. Eu sorrio para ele no espelho. E ele sorri de volta para mim. Um sorrio real, vibrante, lindo.

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Capítulo Trinta e Seis AVA PRESENTE Eu passo a mão pelo meu vestido, o alisando. Nós estamos no carro de Lucas, a caminho do evento de um evento de caridade da polícia que a sua equipe vai participar. Ele me convidou para ir junto e é claro que eu concordei, mas agora estou nervosa. E se eles não gostarem de mim? E se eu não me encaixar? Esse mundo é tão diferente do que eu fui criada; eu vou sentir isso? Lucas me alcança, pegando a minha mão. Ele está lindo de terno, seu cabelo bagunçado e úmido, seu rosto barbeado. Deslumbrante. — Vai dar tudo certo. Pare com isso. — E se eu não me encaixar? — Você não precisa se encaixar no mundo deles; você só precisa se encaixar no meu. Eu olho para ele. — Esse é o seu mundo. — Não, querida, — ele diz, apertando a minha mão. — Você é. Eu dou um grande sorriso quando respondo, — É? — Sim, baby. Eu olho de novo para a estrada, sorrindo todo o caminho até o salão onde o evento está acontecendo. É um espaço aberto enorme, com chão de madeira polida, um palco e mesas elegantemente decoradas com toalhas brancas e louça de prata. Lucas entra no lugar, sua mão segurando a minha o tempo todo, me mantendo perto. Ele está orgulhoso. Minhas bochechas aquecem enquanto nós andamos. Eu nunca me senti tão incrível na minha vida. — Lucas. ~ 227 ~


Nós dois nos viramos para ver um grupo de homens com mulheres do seu lado. Lucas faz um som de desagrado, mas caminha até eles mesmo assim, apertando minha mão com mais força. — Rapazes, — ele murmura, os olhos correndo para as mulheres. — Senhoras. — É bom ver você. Ouvi que você esteve ocupado com um caso importante ultimamente; nós não temos te visto, — um dos homens diz, seus olhos me estudando, mesmo enquanto fala com Lucas. — Eu não estou aqui para falar de trabalho. — Quem é a moça bonita? — ele pergunta, ignorando a declaração de Lucas. — Minha garota, Ava. A garota dele. Meu coração flutua. — Oi, — eu sorrio. — Ei conheço esse rosto, — o homem sorri, seus olhos brilhando com diversão. — A filha de Jackson. Ótimo. — Não importa de quem ela é filha, — Lucas murmura, me puxando para o seu lado. — Jackson, o motoqueiro? — uma das mulheres diz, seus olhos brilhando para mim e me avaliando. — Hmm, sim, posso ver isso agora. — Isso não tem importância, então por que estamos falando disso? — Lucas grunhe. — Não tem importância? — o homem ri. — Você está transando com a filha de um motoqueiro, e você é um policial... isso tem importância. — O que eu faço com a minha vida pessoal não é da sua conta, — Lucas responde, sua voz fria como gelo. — Eu nem sabia que Jackson tinha filhos, — a mulher diz divertida. — Eu suponho que faz mais de vinte anos que eu não o vejo, no entanto. — Como você o conhece? — o homem com ela estala.

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— Eu... — suas bochechas coram, Que nojo. Ela já fodeu com o meu pai. — Nós podemos ir? — eu pergunto suavemente, puxando a mão de Lucas. — Sim, — ele diz, olhando para todos eles antes de me puxar para longe. — Desculpe por isso, criança, — ele murmura, pegando duas taças de champanhe do garçom que se aproxima. Ele me oferece uma. Eu recuso. — Merda, — ele murmura. — Desculpa, eu não pensei. — Está tudo bem, — eu digo. — Não está tudo bem. Eu deveria saber que não posso te oferecer álcool depois de tudo. — Luke, — eu digo gentilmente, colocando uma mão no seu braço. — Está tudo bem. Ele devolve as taças para o próximo garçom que passa, recusando a sua também. Eu não discuto. Ele está irritado e tenso. — Você quer dançar? — eu pergunto. Seus olhos brilham e ele sorri. — Sim, isso seria bom. Ele me leva para a pista de dança e me puxa em seus braços. Todos os olhos estão em nós, mas eu os ignoro, pressionando minha bochecha no seu peito. Ele nos leva suavemente pelo salão, me segurando como se essa fosse a última coisa que ele vai fazer na vida. Eu nunca quero deixar ele ir; eu só quero abraçá-lo até que o mundo pare de girar e sejamos apenas nós dois. Minha bexiga tem outras ideias. — Eu tenho que ir ao banheiro, — eu sussurro. — Significa que eu tenho que te deixar ir, — ele diz, inclinando minha cabeça para cima com o dedo e beijando meus lábios. — Eu vou voltar. Sim, ele sabe que essa declaração vai ser verdade enquanto eu respirar. ~ 229 ~


Eu sempre vou voltar para ele.

*****

Lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto eu me sento na cabine do banheiro, segurando minha bolsa contra o peito. Eu estive sentada nesse cubículo pelos últimos dez minutos, mas não posso sair porque há um grupo de mulheres parado junto à pia, falando sobre mim. As palavras que elas usam me cortam profundamente, e eu estou aqui, ouvindo cada uma dessas coisas horríveis. — Eu não entendo o que ele está fazendo com ela. Quero dizer, ela é bonita, mas é uma puta de motoqueiros. — Exato. Lucas é gostoso, sofisticado – tudo que ela não é. Deus, eu já dei para ele uma vez; o homem é fora de controle. Ela é apenas uma distração fácil. Não vai durar. — Ela não é nada como Jennifer; aquela mulher tinha classe. Essa outra é jovem, também. Ela provavelmente é boa de cama. — Provavelmente está ajudando ele a superar a esposa desaparecida. Nada como uma buceta jovem e barata. Eu já estive nesses clubes de motoqueiros; eu sei como eles funcionam. Ela provavelmente esteve trepando por aí desde que tinha uns doze anos. O pai dela era um galinha. — Eu conheci Jackson; ele era quente na cama. Eu passei por uma fase rebelde quando era mais novo e costumava ir ao seu clube. O que eu vi lá faria os cabelos de qualquer um arrepiar. Lixo. Ultra lixo. — Que desperdício de um bom homem. Ele merece alguém melhor que aquela puta de motoqueiros. — Certo? — ela para e eu escuto um farfalhar. — Vamos voltar antes que alguém nos pegue aqui. Elas todas riem e saem, e eu permaneço onde estou, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Elas estão certas? Eu sou um lixo? É assim que o mundo me vê? Eu penso sobre o clube em que cresci. Eu nunca me senti assim com eles, nem por um segundo, mas é assim que o resto do mundo nos vê? Como lixo?

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Meu telefone vibra na minha bolsa e eu o pego, olhando para a mensagem de Lucas. L – Você está bem? Eu não sei como responder isso. Se ele me ver, vai saber a verdade e vai ficar irritado, mas se eu sair, ele vai querer respostas e vai descobrir. Penso nas mulheres e nas suas palavras cruéis. Penso na vida que eu sei que vivo e sei como responder. Não é com dor, mas com orgulho. Eu conheço o mundo em que vivo. Eu sei que as suas palavras estão erradas. Elas merecem saber isso, também. A – Não. L – Onde você está? O que aconteceu? A – Eu estava no banheiro e um grupo de garotas chegou falando de nós dois. L – Onde você está? A – Ainda no banheiro. Eu guardo o telefone e apenas alguns minutos depois, a porta se abre e Lucas late, — Ava? Eu levanto do vaso e seco minhas lágrimas antes de sair. No segundo que Lucas me vê, seu rosto endurece. — O que elas disseram? — ele diz, sua voz tão suave quanto ele consegue em meio à sua raiva óbvia. — Elas disseram que eu sou uma puta de motoqueiros e não sou elegante como a sua ex-esposa, — eu digo, minha voz trêmula. Seus olhos brilham e ele vira, correndo para fora do banheiro. — Lucas! — eu chamo. Eu corro atrás dele e quando volto ao salão, o encontro avançando em direção ao grupo de mulheres. Ele para na frente delas, e quando abre a boca, suas palavras param a todos, que ficam em silêncio, incluindo eu. Eu sabia que ele iria me defender, nos defender, mas até esse segundo, eu nunca percebi o quanto significava para Lucas Black. — Vocês tinham o que dizer, — ele diz para as mulheres, sua voz como um chicote. — Vocês pararam no banheiro quando a minha garota estava lá dentro e tinham um monte de porra para dizer sobre o ~ 231 ~


tipo de mulher que ela é – sobre o nosso relacionamento. Vocês a ofenderam, vocês me ofenderam e pensaram que isso não teria consequências. Vocês tinham o que dizer — ele se inclina para a pior de todas, que falou comigo mais cedo. — Agora é a minha voz. O rosto delas cai, e seus olhos se arregalam. — Vocês são mulheres sem classe, maliciosas e podres com vidas patéticas e chatas e maridos que preferem enfiar o pau na recepcionista antes de ir para casa foder os seus rabos frios e magrelos. Só porque vocês estão usando vestidos legais, joias caras e coisas bonitas não significa que vocês não sejam ultra lixo – porque vocês são, sabe? Mulheres como vocês que caem sobre os menos afortunados não apenas isso – lixo. Nem uma agulha caindo poderia ser ouvida na multidão, e ninguém tentou pará-lo. — Essa garota, — ele aponta para mim, e seus olhos aquecem, — passou mais na sua curta vida do que todas vocês juntas. Então pensem o que quiserem. No final, são vocês que vão para a cama sozinhas essa noite, sem uma pessoa no mundo que se preocupe com vocês. E essa noite, vocês vão saber que essa garota, que vocês disseram que não tem valor, terá a mim. E para mim, ela é todo o maldito mundo. Com isso, ele se vira e vem até mim. Todo o salão – exceto o grupo de mulheres com quem ele gritou – explode em aplausos. Sim, eu realmente amo esse homem.

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Capítulo Trinta e Sete AVA PRESENTE Eu deslizo sentada no balcão de Lucas e o observo se arrumar para o trabalho. Nós tivemos uma longa noite descansada depois que a função com a polícia deu errado, e eu não poderia ter pedido por nada melhor. Ele fez tudo perfeito, como eu sabia que ele faria. Ele curou a dor e mágoa que aquelas mulheres causaram. Ele fechou o buraco e o selou ainda mais forte. Ele está fazendo isso – me deixando mais forte. Sua campainha toca e nós dois nos olhamos. É bastante cedo, e pelo olhar em seu rosto, ninguém aparece a essa hora da manhã. Ele larga sua xícara de café e termina de fechar sua camisa antes de caminhar até a porta e abri-la. Então eu não ouço nada além de silêncio. Nem um pio. Curiosa, deslizo para fora do balcão e vou até a porta ver quem está lá. É uma mulher. Eles estão olhando um para o outro como se tivessem acabado de ver um fantasma. Não pode ser bom. Ela é a primeira a falar. — Lucas, quanto tempo. Quando ele fala, sua voz é quase incompreensível. — Jennifer? Meu corpo congela. Jennifer? Sua esposa, Jennifer? Eu estudo a mulher que seria absolutamente deslumbrante se não fosse o ar de viciada esquálida ao seu redor. Eu não sei se se cabelo sempre teve esse tom de loiro, ou se ela sempre foi tão magra e pequena, mas imagino que não. Ainda assim, ela tem traços delicados e ~ 233 ~


olhos lindos. Sem as olheiras escuras debaixo dos seus olhos, ela seria bonita. — Sou eu, — ela diz, mas não parece feliz sobre isso. — Eu ouvi que você esteve procurando por mim? Você parece bem, Luke. Gostoso pra caramba. Ele estremece. Eu quero ir até ele. — Você esteve desaparecida pela porra de um ano, me deixou depois que eu perdi a minha filha, e agora aparece me dizendo que eu pareço gostoso? Ela acena uma mão. — Não seja tão dramático. Eu sei que você já me superou faz tempo. Estou aqui para conversar, então você vai me deixar entrar ou nós vamos fazer isso aqui? Ela passa por Lucas e me vê, e por um segundo seus olhos brilham ligeiramente com dor antes que a raiva substitua. — Vejo que não demorou muito para você seguir em frente? — Você foi embora, — Lucas diz, sua voz quase descrente. — Você transou com outro homem e me deixou sozinho no momento mais difícil da minha vida, e agora quer me julgar por encontrar outra mulher? — Ela é bonita, — ela diz, o ignorando. — Mas muito jovem, você não acha? — Me diga porque você está aqui, porra, e vá embora, — Lucas ruge, tão algo que Jennifer estremece e olha para ele. Por um segundo, posso ver algo suave em seus olhos. — Luke, — ela diz, sua voz menos alegre. — Não me chame assim, — ele grunhe. — Me diga o que você quer e dê o fora da minha vida. — Por que você está falando comigo assim? — ela chora, jogando as mãos para cima. — Se você é realmente tão estúpida para me perguntar isso, então você não sabe nada sobre mim. — Não, você está certo sobre isso. Eu não conheço você. Você me empurrou para longe, você sabe. Ele aperta os punhos. Ele está prestes a perder a cabeça. ~ 234 ~


— Eu perdi a minha filha, perdi a minha vida, e a minha esposa decidiu deixar tudo mais difícil dando o fora e me deixando gastar um ano procurando por ela. Ela faz uma careta. — E é por isso que eu estou aqui, aliás. — Não estou mais procurando por você. — Mas você está. Eu estreito meus olhos. Lucas enrijece. — Eu sei que você está procurando por Ricky, e eu estou aqui para te dizer para parar. Ricky? Quem diabos é Ricky? — Esse é o nome dele? — Lucas murmura. — Estou falando sério, Lucas. Ele não está feliz com você xeretando em coisas que não deveria. Eu estou aqui, você pode ver que eu estou bem – agora pare de procurar ou... — seus olhos viajam para mim e voltam para ele — você vai se arrepender. — Isso é uma ameaça? Ela cruza os braços. — Eu não quero que nada aconteça a você, ok? Eu já te amei uma vez, amei Shylie, mas você está metendo o nariz onde não deveria. — Está com medo que eu derrube tudo que você e esse patético pedaço de merda criaram? — Não. Estou com medo pela sua vida. Lucas rosna. — Você pode garantir a Ricky que eu não dou a mínima para o que ele está fazendo com você e a sua merda. Sou um policial, mas até mesmo eu sei que não sou grande o bastante para derrubar algo tão enorme. — Eu sabia que você era inteligente, — ela diz, o estudando. — Agora nós acabamos? — Sério? Isso é realmente tudo que você sente por mim depois de tudo? — Tenho uma mulher atrás de mim que é dez vezes a mulher que você é, então sim, é realmente tudo que eu sinto. ~ 235 ~


Meu coração incha. — Você sabe que ele foi casado duas vezes, certo? — Jennifer diz para mim. — Você não está guardando esperanças, você sabe, de ser a única, certo? Eu não respondo a ela. — Bem, você sabe o que dizem, — Lucas rosna, empurrando ela no peito e a levando em direção à saída. — A terceira vez é a definitiva. Com isso, ele bate a porta na cara dela. Quando ele olha para mim, nossos olhares se seguram, perguntas sem resposta flutuando entre nós. A primeira e mais urgente é... nós estamos em perigo?

*****

— Então, — Skye pergunta quando nós entramos no complexo para o churrasco semanal no sábado à noite. Lucas está trabalhando, então eu aproveitei a oportunidade para vir aqui ver todos. — A exesposa dele apenas apareceu? Eu aceno. — Sim, apenas apareceu na sua porta agindo como se ela nunca tivesse feito nada de errado. — Que vadia, — Skye sussurra. — Como Lucas reagiu? — Ele ficou em choque, sério. Ele foi totalmente pego de surpresa. Sua voz era quase incrédula quando falava com ela, como se estivesse em um sonho. Mas isso passou bem rápido, e ele ficou muito puto. Me levou horas para acalmar ele. — Como ele está agora? — Está indo, — eu suspiro. — Ele foi trabalhar todo tenso e furioso. Ela fez algumas ameaças. — Como o quê? — Skye pergunta, amarrando o seu longo cabelo bonito em um rabo de cavalo enquanto entramos na casa principal.

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— Ela está com algum chefão importante do tráfico de drogas, e eles não gostaram que Lucas andou investigando, então o ameaçaram para que ele fique longe. — Você não acha que deveria contar a Jacks? Eu balanço a cabeça. — Não, isso não tem nada a ver com o clube. Lucas tem tudo sob controle, — eu espero. — E tudo mais? — Skye pergunta quando passamos por um grupo de motoqueiros e recebemos nossos habituais cumprimentos felizes. Nós acenamos e sorrimos e continuamos avançando pela casa. — Está tudo maravilhoso, Skye. Eu estou tão feliz com ele. — Eu fico feliz por você, — ela sorri. — Ei! Nós duas paramos e vemos Danny sentado em uma mesa na sala principal, com Mercy e Max ao seu lado. Nós acenamos e vamos até lá. — Como estão as coisas, Formiguinha? — Danny pergunta, me colocando na conversa. Ele está perguntando sobre Michael; eu sei disso. Eu amo que ele continua cuidando de mim. — Tudo ótimo, D. Ele sorri. — Fico feliz em ouvir isso. Michael foi demitido depois que eu registrei queixa da sua tentativa de estupro. Descobriram que eu não fui a única em quem aquele lixo colocou as mãos. Três outras garotas também prestaram queixa, e uma delas aparentemente foi obrigada a transar com ele. Ela estava muito aterrorizada para denunciar, mas quando a investigação foi adiante, ela falou tudo. Eu só posso imaginar o alívio que foi. Nós vamos ter um novo chefe e enquanto ele não vem, estamos de recesso, mas todas vamos manter nossos empregos, e é isso que importa. — Preciso de outra cerveja, — Max diz, deslizando o traseiro da mesa em que ele estava apoiado. — Vocês querem uma? Há um coro de ―sim‖ ao redor da mesa. Eu olho para Mercy, notando que ela não falou muito e vejo que ela está olhando seu telefone, o rosto em uma careta. ~ 237 ~


— Ei, Mercy. Ela olha para cima, seus olhos bonitos flutuando. — Ei, Ava. — Como está a faculdade? Suas bochechas ficam vermelhas, e minhas sobrancelhas sobem. — Bem, tudo ótimo. Eu a estudo. Oh, está mais do que bem. Algo definitivamente está acontecendo. — Me ajuda a achar Addi; eu tenho que dar uma coisa a ela — eu ofereço e Mercy pula com a oportunidade, se levantando e enganchando um braço no meu. Quando estamos fora da sala, eu me viro para ela e digo. — Então, por que você está com esse olhar? — Você se lembra do cara de quem eu falei? — O cantor... Diesel? — Sim. — Sim, eu lembro. — Bem, eu cheguei na faculdade, primeiro dia, e você não vai imaginar quem eu vi. Eu arregalo os olhos. — Ele foi para a mesma faculdade que você? — Sim, — ela murmura. — E fica pior. Ele é um completo idiota e provavelmente o cara que todas as garotas querem ficar, porque ele é misterioso e machão. Ele é conhecido por ser um jogador, e não deixa ninguém se aproximar. Ele é meio que um desafio, eu acho. — Talvez isso esteja destinado a ser, — eu aponto, puxando-a para voltarmos a caminhar. — Talvez você seja a única garota que não é como o resto. — Ele nem sequer me notou, — ela bufa. — Pare de tentar tanto, Mercy. Você é garota mais engraçada, doida e atrevida que eu conheço. Não dê a um cara como esse o seu tempo se ele não nota você. Ignore ele, seja diferente das outras, e talvez você se surpreenda.

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— Eu só não consigo parar de pensar naquele beijo, — ela suspira. — Isso é normal; só não se torne outra mulher que o persegue. Ele está acostumado a isso. Tentei ser algo que ele não está acostumado. Tente ser você. Ela sorri. — Isso provavelmente soa como um conselho a ser levado a sério. Eu rio. — Claro que é. Nós alcançamos a cozinha, onde todas as nossas mães estão reunidas. Elas se viram quando entramos e nós acenamos. Ciara, a mãe de Mercy, se aproxima. — Aí está você! Estou tão feliz que você conseguiu voltar esse final de semana. Senti sua falta, ratinha. Mercy revira os olhos. — Mãe, você está matando a minha reputação. Você não pode me chamar de Demônio de Fogo ou algo tão durão quanto isso? Ciara ri. — Você sempre vai ser a minha ratinha. Eu rio e aceno para mim mãe, Janine e Addi, que está preparando a salada do churrasco. — Irmã, — Addison chama, acenando para mim. — Venha, fale comigo, me conte sobre Lucas. — Addison, — minha mãe alerta. — Mantenha o assunto apropriado para crianças. Addi sorri para minha mãe. — Ah, pobre Serenity. Você não é nenhum anjo. Eu reviro os olhos e minha mãe joga uma azeitona em Addi, que erra por pouco. — Nada novo para contar, — eu digo, deslizando em um dos bancos do balcão, pegando um pedaço de queijo e o jogando na boca. — Sempre há algo para contar, — Janine diz, sorrindo para mim. — Exato, — Ciara adiciona, se juntando novamente ao grupo. — Ele é maravilhoso, — eu suspiro. — Doce e masculino. O melhor tipo.

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— Ohhh, — Addi dá uma piscadela. — Masculino e doce pode ser divertido. Minhas bochechas coram, me lembrando do banho. — Aparentemente é, — Mercy ri e eu lhe dou uma encarada de brincadeira. — Eu não quero saber, — minha mãe diz, tapando as orelhas com um sorriso. — Nos conte, ele é todo policial na cama? — Addi perguntando, seus olhos grandes com humor. — Addison! — minha mãe chora. — Não, apenas não! — Ah, pode sair, Serenity. Você não precisa ouvir. Eu balanço a cabeça. — Eu não vou dividir nada com você, rebelde, — jogo outra azeitona em Addi, que a pega com a mão e a atira na boca, um brilho malvado em seus olhos. Deus, eu adoro a minha irmã. Eu adoro todas elas.

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Capítulo Trinta e Oito AVA PRESENTE — Então você está saindo agora? — Lucas pergunta no telefone, sua voz baixa e rouca. — Sim, estou saindo agora, — eu sorrio quando saio do complexo e caminho pela rua da casa do meu pai, onde deixei meu carro. — Foi um dia longo. Estou ansioso para estar dentro de você, baby. Eu coro. — Ah, é mesmo? — Sim. — Bem, eu vou dirigir rápido então. — Não rápido demais, — ele me avisa sutilmente. — Não, senhor, não rápido demais. — Senti sua falta hoje, criança. Meu coração se derrete, e eu me apresso. Carros passam correndo por mim e eu me mantenho perto da parte mais escura da estrada que consigo. — Senti sua falta, também. Luzes piscam atrás de mim e eu olho sobre o meu ombro para ver um carro diminuindo a velocidade, parando logo atrás de mim. Eu aperto os olhos, mas não consigo ver quem é. Talvez seja Danny, embora ele estivesse bem entretido falando com Skye quando eu saí. — Ava? — Desculpe, um carro parou bem atrás de mim. ~ 241 ~


Lucas fica em silêncio por alguns segundos. — Quem é? — ele pergunta. A porta se abre e cinco homens saem. Meu coração para na garganta. Isso não é normal. Quando vejo o rosto familiar na luz fraca, quero me dobrar e vomitar. — Lucas, — eu digo, minha voz tremendo. — É e-e-e-ele. — Ava, — Lucas rosna. — Corra. Corra, porra. Eu corro. Me viro e começo a correr. Meus pés se chocam com força contra o concreto enquanto desço a rua. Eles estão logo atrás de mim, então me atiro na estrada e corro na direção das árvores grossas. — Ava? — Lucas berra. — Onde você está? — P-p-perto do clube, oh, Deus, Luke... — Continue correndo. Se esconda se você puder. Eu estou indo. Fique comigo. Eu corro mais rápido. Os galhos das árvores arranham meus braços e fazem minha pele queimar. Isso não me para. Posso ouvir a batida dos pés atrás de mim, ver as luzes brilhando sobre a minha cabeça. Eu viro para ter uma ideia de onde eles estão e tropeço em um tronco. Eu caio com um grito, meu telefone voando da minha mão. Eu me apresso para ficar em pé de novo, mas continuo muito devagar. Braços vêm ao redor da minha cintura, me levantando, e uma agulha é espetada no meu pescoço. Não. Por favor, de novo não. A última coisa que eu ouço é alguém dizendo, — Espero que você tenha se despedido, porque não vai ver ela novamente, policial. Então eu estou fora.

*****

Eu acordo em um quarto bem iluminado.

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Todo meu corpo dói e eu estou algemada, minhas mãos nas minhas costas, meus tornozelos presos juntos. Eu não estou amordaçada. O quarto onde eu estou é de um tamanho razoável, com uma cama de solteiro, um pequeno abajur e uma janela gradeada. Há um cheiro de mofo no ar, como se o quarto não tivesse sido usado faz um tempo. Eu me contorço, tentando me virar para ter uma melhor vista dos meus arredores. Eu tenho que ser forte. Eu quebrei da última vez; isso não vai acontecer outra vez. Meu pai vai me achar. Luke vai me achar. Ele sabe que eu estou desaparecida. Ele não vai parar até me encontrar. Certo? Medo fecha a minha garganta e eu tento empurrá-lo para baixo enquanto delimito um plano, algo para me tirar daqui. A vozinha dentro da minha cabeça está dizendo que não há como sair, e isso me assusta pra caramba, então eu a calo e visto uma máscara de coragem. Eu já passei por muita coisa; posso passar por isso também. A porta é destrancada e eu olho para cima para ver aquele monstro, o homem sem nome, entrar. Ele tem três pessoas atrás dele, mas eu não reparo nelas, estou focada apenas nele. Ele está sorrindo, seus olhos cheios de maldade. — Bom ver você de novo, Ava. — Que porra você quer agora? — eu cuspo. — Oh, — ele diz, batendo os dedos juntos. — A mesma coisa que eu sempre quis. Sangue, raiva, vingança... Eu estremeço, mas mantenho o rosto impassível, duro, firme — E por que você precisa de mim? — eu estalo. — Porque você é parte do plano. Mantenho a boca fechada e apenas olho para ele, segurando seu olhar, me recusando a quebrar. — Acredito que você conheceu a minha doce Jennifer? Meus olhos crescem e correm para o seu lado onde as três pessoas estão de pé, e ela está lá, seus olhos no chão, seu rosto em branco. — Não, — eu sussurro.

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— Ah, sim. Você não acreditaria como eu fiquei excitado ao descobrir que você não é apenas a filha do homem que eu quero matar, mas também a namorada da minha outra dor na bunda. Jennifer está com esse monstro? Esse homem horrível e cruel? Ela deixou Lucas... por isso? — O que há de errado com você? — eu grito com ela. — Que tipo de pessoa é você? Você deixou um homem carinhoso e amoroso por esse... lixo? O homem joga a cabeça para trás e ri. — Eu dou a ela o que ela precisa, diferente daquele policial fraco e patético. Eu continuo olhando para Jennifer, que não está olhando para mim. — Você tinha tanto para dizer no outro dia. O gato comeu sua língua agora? — eu rosno para ela. Ela olha para mim. — Você deveria cuidar a sua boca. — Ou o quê? — Ou talvez o gato coma a sua língua, — o homem diz. — Você disse que não a machucaria, Ricky. Ricky. Eu me lembro dela mencionar esse nome no outro dia, mas só agora notei que se trata da mesma pessoa que me levou e também arruinou a vida de Lucas. — Ricky, — eu bufo. — Que nome de merda para um homem tão grande e durão. Ricky se vira e olha para mim. — Eu vou te machucar, Ava. Vou puxar seu intestino pelo nariz enquanto você grita de dor se você não fechar essa boca do caralho. — Acertei um nervo, não é? Ele se lança para frente, agarrando meu cabelo e puxando com tanta força que eu grito. — Eu não estou brincando, — ele late na minha cara. — Você quer uma repetição do que aconteceu com Bethy? Quer que eu encontrei uma pequena criança inocente e force você a explodir a cabeça dela? Eu balanço a cabeça. Meu cabelo está sendo puxado e isso queima, mas eu não paro. — Então cale a porra da boca. ~ 244 ~


Ele me solta e se levanta, se virando para olhar Jennifer. — E você, mantenha a boca fechada e faça o que eu estou mandando. Ela acena, evitando meus olhos. — Nós vamos voltar mais tarde, — Ricky rosna, empurrando todos para fora e batendo a porta ao sair. Bem, eu aprendo algo hoje. Jennifer tem medo de Ricky, mas ela não o ama. Eu posso ver nos seus olhos. Ela pode ser meu caminho para fora daqui. Se nós conseguirmos ficar a sós.

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Capítulo Trinta e Nove LUCAS PRESENTE Eu bato nas correntes do complexo, berrando o nome de Jackson. Medo está correndo pelo meu corpo e raiva está crescendo igualmente forte. Eles estão com a minha garota. Minha Ava. Meu bebê. Eles estão com ela, e só Deus sabe o que eles irão fazer. Ela nunca deveria ter saído andando pela rua sozinha. Nunca. — Que porra você quer? — Muff, o motoqueiro ruivo, rosna, saindo de dentro do prédio. — Chame Jackson. Chame ele aqui agora, porra. — Ele está ocupado. — Ocupado demais para saber que a sua maldita filha foi levada bem debaixo do seu nariz? — eu rujo. Muff derruba seu cigarro no chão e se vira, gritando. — Jackson, emergência! Nem um minuto depois, Jackson aparece abotoando seu jeans, sua pequena esposa ao seu lado, suas bochechas coradas. Seu VP, Cade, e outro cara, Spike, o seguem, suas mulheres por perto também. — O que você está fazendo no meu portão, berrando e fazendo escândalo? — Jackson rosna. — Ele pegou a sua filha. O rosto de Jackson cai. — Quem? — Eu não sei a porra do nome dele, — eu lato. — Tudo que eu sei é que ele a pegou, bem aqui do lado de fora do seu clube.

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As mãos de Jackson começam a tremer, e sua esposa dá um grito angustiando. — Como você sabe disso? — ele exige, vestindo uma camiseta. Cade late uma ordem e, antes que saiba, trinta ou mais motoqueiros apareceram. — Eu estava no telefone com ela quando ela estava indo para casa. Eles apareceram; ela estava aterrorizada. Eu disse a ela para correr, mas eles a pegaram. Eles também me disseram que eu nunca a veria viva novamente. — Chame reforços, — Jackson rosna. — Chame todos que você conhece. Nós precisamos caçar esse filho da puta. — Você poderia me dizer exatamente quem está com a minha mulher? — eu exijo, abrindo e fechando os punhos, tentando colocar o medo para baixo. — O nome dele é Ricky Thompson. Eu estremeço. — O que você disse? — Ricky... Eu o interrompo com um berro angustiado enquanto me viro e dou um soco na cerca, cortando minhas juntas. — O que você não está me dizendo, policial? — Esse filho da puta é o homem que está atualmente comendo a minha ex-esposa. — A que estava desaparecida? — Cade pergunta. Eu balanço a cabeça em concordância. — Porra! — Jackson late. — Agora mesmo ele tem um jeito de machucar nós dois; ele tem nossas vidas nas mãos, — eu digo, minha voz sumindo ao final. — Eu vou pegar esse desgraçado, — Jackson rosna. — Me deixe ajudar. Eu tenho informações sobre ele. — Motoqueiros não se misturam com policiais.

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— Jacks, — a mãe de Ava, Serenity, chora. — É o nosso bebê. — Coloque seu orgulho de lado, — eu murmuro. — Isso não é sobre nós. — Ele pode nos ajudar, Prez, — Cade diz, mantendo a calma. — Precisamos de toda ajuda que conseguirmos. Jackson olha para mim, então acena. Eu retribuo o gesto. Está feito.

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AVA Mantenho meu corpo o mais confortável que consigo, o que está se provando ser algo difícil quando suas mãos e tornozelos estão amarrados. Eu passei toda a noite aqui – eu acho. Eles não voltaram. Eles não me deram água ou comida. Estou com sede, desesperada e rezando para Lucas e meu pai se juntarem e virem me tirar daqui. Eu me recuso a deixar o medo ganhar dessa vez. Meu corpo está duro, minhas costas estão doendo e meus tornozelos e punhos estão dormentes. Adicione a isso minha boca seca, minha língua parece grossa e áspera. Eu faria qualquer coisa por um copo d’água. Qualquer coisa mesmo. Não consegui dormir, então por todo o dia eu só fiquei aqui parada, esperando eles voltarem, esperando meu destino ser selado. Eles não voltaram. O barulho da porta abrindo me surpreende por si só, e meu coração pula quando vejo quem entra. Jennifer aparece, segurando uma garrafa de água e um sanduíche. Ela não olha para mim enquanto caminha e coloca a comida na minha frente, perto o bastante para eu me inclinar e conseguir pegá-la com minhas mãos amarradas. Eu faço isso imediatamente, abrindo a garrafa e a trazendo aos meus lábios. É o paraíso.

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Eu não bebo tudo, sabendo que só vai me deixar enjoada. Eu a largo no chão e olho para Jennifer, que está caminhando em direção à porta para sair. — Você é realmente tão má? Ela para, mas não se vira. — Lucas me disse que você era amorosa, uma ótima mãe para Shylie, mas a mulher que eu estou vendo... não é ela. Ele estava certo? A mulher que ele conheceu era de verdade ou era tudo uma mentira? Ela estremece. Eu atingi um nervo. Lucas me disse que Jennifer costumava ser amorosa e doce; ele também me disse que ela tinha uma fraqueza por drogas, mesmo quando ele a conheceu. Estou andando no escuro, esperando chegar nas suas profundezas para desenterrar a mulher que tenho certeza que ainda está lá – pelo menos, estou rezando para que esteja, porque ela é a minha única esperança de escapar. — Não finja que você sabe alguma coisa sobre mim. Eu sei exatamente o que você está tentando fazer, e não vai funcionar. — Você estaria aqui se aquela garotinha ainda estivesse viva? Ela estremece de novo. — Porque eu não acho que você estaria, — eu pressiono. — Eu acho que você estaria lá, com ele, sendo a boa mãe que você era. Imagine se ela pudesse te ver agora, machucando a namorada do pai dela, machucando o pai dela... Ela se vira, mostrando os dentes. — Você não sabe nada sobre mim. Agora cale essa boca, porra, antes que eu corte a sua garganta eu mesma. Então ela se vira e corre para fora, batendo a porta. Eu suspiro e me abaixo, pegando o meu sanduíche. Isso talvez leve mais tempo do que eu pensei.

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Capítulo Quarenta AVA PRESENTE Eu olho para Ricky, que está parado na minha frente, um sorriso cruel no seu rosto. Eu não quebro na sua presença, mesmo que tudo no meu corpo esteja gritando para eu me encolher e me esconder. Empurro para longe as imagens de Bethy e foco em me manter calma e controlada. Não quero dar a esse pedaço de merda o que ele quer. — Eu me pergunto, como o seu pai deve estar frenético agora? E o namorado policial? Eu só posso imaginar eles reunindo as tropas para te encontrar. Na verdade, eu sei que eles estão fazendo isso; tenho espiões em todos os lugares. — Eles vão te achar, — eu cuspo. — E quando isso acontecer, eles vão te matar. Ele joga a cabeça para trás e ri. — Eu amaria ver eles tentar. — Você se acha muito durão, não é? Você acha que os seus planinhos são à prova de falhas de merda, mas não são. Na verdade, você vai descobrir do jeito difícil que não é nada além de um perdedor patético e fraco que precisa roubar e matar mulheres inocentes para mostrar ao mundo como é durão. Homens como o meu pai, homens como Luas – eles não precisam fazer nada disso. Eles são fortes e firmes apenas porque são, e acredite em mim quando eu digo que eles fazer você gritar, seu porco. Ricky avança para mim, curvando a mão na minha garganta. Eu me contorço e ofego, tentando respirar através do aperto firme dos seus dedos. — Como é saber que eu poderia te matar a qualquer segundo? — Vai se foder, — eu estalo. ~ 250 ~


Ele aperta mais forte e a pressão atrás dos meus olhos aumenta, fazendo toda minha cabeça latejar. Eu ofego e ofego, mas não há ar passando para os meus pulmões. — Mais alguns minutos e você vai estar morta. Eu olho para ele mesmo aterrorizada, com tanto medo que ele faça isso. — Garota forte. Aqui eu pensei que quebrei você da última vez. Eu cuspo na sua cara. Ele me solta e me bate com tanta força que minha cabeça chicoteia para o lado. — Eu preciso te ensinar a porra de uma lição? — ele ruge. — Claramente sangue e hematomas não fizeram o trabalho, mas eu só posso imaginar como você vai lidar se eu achar outros meios mais criativos, — ele sorri, se abaixando e cobrindo o meu seio. E grito e tento chutá-lo, batendo meu corpo. — Ahhh, — ele debocha, apertando meu mamilo por cima da camisa. — Acho que encontrei a sua fraqueza. — Me solte, seu doente fodido! Ele se abaixa, me agarrando entre as pernas. Eu grito e me debato, tentando chutar, fazendo qualquer coisa que posso para me afastar da sua mão. — Como você se sentiria se eu te fodesse agora mesmo? Colocar meu pau dentro de você e depois te matar lentamente? — Vai se foder! Ele fica de joelhos e alcança o seu cinto. Vômito sobe pela minha garganta e eu luto com mais empenho, tentando empurrá-lo com as minhas mãos amarradas. Ele abre seu cinto e desabotoa o jeans, agarrando meus shorts quando ele está pronto, em uma tentativa de puxá-los para baixo. Medo como eu nunca senti na vida sobe pela minha espinha e eu começo a tremer. Não. — Eu acho que isso vai ser bom, — ele rosna, alcançando seu jeans enquanto a outra mão entra nos meus shorts. Eu guincho o mais alto que posso, atirando meu corpo para frente e mordendo seu braço – é a única coisa que eu consigo alcançar. Eu ~ 251 ~


mordo com tanta força que sua pele se abre na minha boca e o sangue começa a se derramar. — Sua vadia maldita! Eu vou te foder tão duro que você vai se arrepender disso. —Ricky? O som vem de algum lugar atrás de nós. Ricky se vira, as calças abaixadas, o pau para fora, para ver Jennifer parada na porta, seus olhos arregalados. — O que você está fazendo? — ela sussurra, dor brilhando nos seus traços. — Ensinando uma lição para essa vadiazinha. — Transando com ela? Seu rosto suaviza um pouco. — Não, não baby, — ele diz, me deixando ir e ficando de pé, puxando a calça jeans para cima. — Deixando ela pensar que eu vou fazer isso. — A sua mão estava dentro da calcinha dela... — Jenn, — ele diz, empurrando ela para fora da porta. — Não. Você sabe que eu não iria... Eu não escuto mais nada, porque ele bate e tranca a porta. Eu caio para frente e uma lágrima escorre pela minha bochecha. Essa é a única que eu vou permitir. Eu tenho que sair daqui.

*****

Eu acordo com uma mão batendo gentilmente no meu rosto. Levo alguns minutos para focar, e quando faço, vejo Jennifer pairando sobre mim. Está escuro e ela tem uma pequena lanterna em uma das mãos, e um telefone na outra. — Jennifer? — eu coaxo. — O que você está fazendo?

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— Você está certa, — ela diz, mexendo nas minhas algemas. — Lucas não merece isso; você não merece isso. Eu... eu não tinha percebido o monstro que Ricky era. — Isso é uma piada? — eu sussurro, meu coração acelerando. Ela olha para mim e eu vejo bondade em seus olhos, a bondade que, não tenho dúvidas, Lucas já viu uma vez. — Quando ela era pequena, costumava me chamar de Jenna Banana, — ela sorri tristemente. — Ela a melhor criança do mundo – bem como Luke. Tanta vida e energia. Eu quebrei quando ela morreu. Ela não era minha filha de sangue, mas era de todas as formas que contavam. Ele se fechou e eu não consegui lidar com a dor, então comecei a beber e usar drogas. Minha vida entrou em uma espiral depois disso. Eu posso entender isso. Eu estava em um ponto onde quase comecei com as drogas, também. Lucas me salvou, mas quando Jenn estava ferida, Lucas estava igualmente quebrado e não podia salvar mais ninguém – nem ele mesmo. — Eu nunca quis machucar ele, — ela diz, libertando as minhas mãos. — Eu... eu só perdi o controle. Ricky me deu o que eu precisava. O que eu ainda preciso. Eu sou uma viciada, Ava. Eu não sei se algum dia vou ser algo diferente. Talvez eu sempre precise dele, mas... não vou ficar sentada vendo ele fazer isso. — Então você vai me deixar ir? — Sim. Eu vou te deixar ir. — Se ele descobrir, vai te matar. Seus olhos encontram os meus. — Ele não vai descobrir, porque você vai me bater. Estou negando com a cabeça antes que ela sequer termine a frase. — Não! — É a única maneira dele acreditar. Aqui. Eu peguei isso dele mais cedo; estava dentro da sua calça jeans, — ela pega uma faca de bolso. — Até onde ele sabe, isso caiu no chão quando ele estava... quando ele...

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— Jennifer, — eu digo, me esticando e pegando a sua mão. — Venha comigo. Vamos conseguir a ajuda que você precisa. Lucas... eu... nós vamos te ajudar. Ela me olha tristemente. — Eu estou além da salvação. — Ninguém está além da salvação. — Se eu for... ele vai me achar. Apenas... vá. — Eu não posso te deixar aqui. Ela sorri fracamente. — Você não tem escolha. Você vai ou então fica e deixa que ele te machuque. Eu sei qual eu escolheria. Eu a estudo, estudo de verdade. Ela quer vir comigo. Ela quer que isso pare, mas ela tem medo de Ricky. Pior, ela é tão viciada nele quanto nas drogas. — Eu vou mandar ele vir atrás de você, — eu sussurro. — Não, Ava. Não vale a pena. Eu não valho a pena. — Você realmente não quer vir comigo? Ela termina de soltar minhas pernas. — Não. Eu estico as pernas e ouço quando ela me dá as instruções exatas para sair. — Eu vou distrair o vigia. Quando você sair desse quarto, vá para a esquerda. Vai achar um grande corredor; siga por ele até alcançar o final. Quando estiver lá, pegue a direita. Você vai chegar a uma cozinha aberta. Todos estão dormindo, não vai ter ninguém lá. Saia pela porta que você vir à esquerda. Estamos a uns 10 Km da estrada; se esconda pelas árvores. Ninguém vai notar que você fugiu até de manhã, mas caso isso aconteça, você não quer ser vista. Pegue esse telefone; Ricky não sabe que eu tenho ele. Ligue para Luke, dê a ele esse endereço. Ela me dá o endereço do lugar onde estamos e então se senta para trás, me alcançando a faca de bolso. — Eu não vou te esfaquear, — eu choro. — Você não precisa; apenas faça parecer que tivemos uma boa briga. — Jennifer, eu não posso.

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Seus olhos encontram os meus. — Vá em frente, Ava. Por mim. Por Shylie. Por ele. Ele precisa de você. Uma lágrima escorre pela minha bochecha quando fico de pé. Ela faz o mesmo. Então eu levanto a mão e trago para baixo na sua bochecha. O estalo alto do meu punho que ecoa pelo quarto é tão alto quanto o eco no meu coração.

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Capítulo Quarenta e Um AVA PRESENTE — Lucas Black. Eu estou correndo pela estrada de terra o mais rápido que posso. Consegui sair da casa facilmente depois que deixei Jenn no quarto, desacordada e machucada. Me certifiquei de não bater nela em nenhum lugar que causasse maiores problemas. Levei a faca de bolso comigo. Ela me disse que iria dizer a Ricky que quando ela veio me dar comida, eu havia me soltado com a pequena faca que ele tinha derrubado, a ataquei e fugi. Eu só espero que ele acredite nela. — Luke? — eu coaxo. — Ava? Porra, baby, é você? Por favor, Deus, tem que ser você. Meu coração se aperta. — Sou eu... Luke... eu preciso de ajuda. — Onde você está? Eu me abaixo, pressionando uma mão no meu joelho e tomando uma respiração profunda. — Ava? Eu cuspo os detalhes que Jennifer me deu. — Ache algum lugar seguro e não saia até que eu ligue para você. Não vá para a estrada; fique escondida. Eu estou indo por você, baby. — Lucas? — eu coaxo, correndo entre as árvores. — Sim? — Você vai tirar Jennifer dessa? Ela me salvou. Ela... ~ 256 ~


— Eu vou cuidar dela, querida. Aguente firme. — Eu estava com tanto medo, — eu choro. — Porra baby, eu também. Eu estou indo, fique forte por mim. — Eu... eu vou. Eu desligo e encontro um troco caindo, me sentando sob ele. Posso ouvir carros ao longe, então acho que estou perto da estrada. Coloco a cabeça nas mãos e respiro fundo, tremendo. Eu estou bem. Eu estou livre. Eu vou estar segura assim que Lucas chegar aqui. Eu só preciso ficar calma e me manter escondida. Um som chama a minha atenção, e eu viro a cabeça rápido. Há um carro chegando. Ele está viajando realmente devagar e vem da mesma direção da casa. Meu coração acelera e eu cuidadosamente deslizo para trás, me escondendo mais entre as árvores. A luz da lanterna brilha através da vegetação rasteira. Eles estão procurando por mim. Eu giro e procuro rapidamente por algo para me esconder atrás. A única coisa que vejo é uma árvore enorme. Corro até lá e pressiono minhas costas contra ela, meu peito subindo e descendo com o pânico. Se eles me encontrarem de novo... Não. Eles não vão. Lucas está chegando. — Porra, como diabos você deixou ela escapar? — eu ouço alguém latir acima do zumbindo baixo do carro. — Ela não pode ter ido longe. — Eu não sei. Jennifer. — Você está mentindo para mim? Porque se você está... — Ricky, eu não estou. Ela me atacou. Eu não sei onde ela foi. — Ela está perto. Eu posso sentir. Eu estremeço e não movo um músculo. As luzes vão mais fundo através dos arbustos, o carro se movendo lentamente passa. Então eu vejo mais luzes e meu coração acelera mais. Lucas. Ele poderia ser morto. Ricky deve ter mais homens com ~ 257 ~


ele, claro. Lucas deve vir sozinho, mas talvez traga algum reforço, se eu tiver sorte. O pânico se instala e eu tento espiar através das árvores. Portas de carro batem. Depois ouço vozes. — Ah, Lucas, eu estava me perguntando quando você ia aparecer. — Onde ela está? — Como eu vou saber... Ouço um rosnado alto, e então, — Porra, eu não estou brincando, Ricky. Onde ela está, caralho? — O que você vai fazer? — Ricky ri. — Eu tenho homens vindo atrás de mim, pelo menos sete, e você... bem.... — Você acha que eu não vou acabar com você? — Lucas rosna. — Com o quê? — Ricky debocha. — Suas próprias mãos? Nem você é tão bom assim, policial. — Onde está Ava? — Morta. Isso é mais do que ela merece. Aliás, ela tinha uma buceta gostosa. Eu passei um tempinho dentro dela antes de cortar a sua garganta. Lucas dá um rosnado furioso e então ouço uma arma ser engatilhada. — Chegue mais perto, — Ricky avisa, — e eu vou te matar. Eu quero correr e ajudar ele, mas não posso. Uma distração e ele está morto. Mas eu não posso apenas ficar aqui sentada e não fazer nada. Puxo o telefone que Jennifer e deu e ligo para o meu pai, rezando que ele atenda. Nada. Eu sei que Lucas deveria ter ido falar com ele, mas será que eles estão juntos essa noite? Fecho o telefone e continuo ouvindo, sabendo que a melhor coisa a fazer é ficar quieta e deixar Lucas lidar com tudo. Ele sabe o que está fazendo... certo? — Eu gostaria de te ver tentar, porra, — Lucas late. — Isso é um desafio? Silêncio.

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— Sim, — Lucas rosna. — É um desafio. Eu ofego entre as minhas mãos e fecho bem os olhos. O que ele está fazendo? — Você acha que eu não vou fazer isso, porco? — Ricky berra. — Eu vou estourar seus malditos miolos. — Tente, — Lucas diz, sua voz calma. — Assim que você tocar no gatilho, eu vou ter você e seus homens mortos em menos de um minuto. — Com o quê? — Ricky ri. — Você? — Você acha que eu seria tão estúpido de não trazer reforços? Você fodeu com a minha garota duas vezes, você colocou ela num inferno, você a torturou e matou uma mulher inocente. Você nunca vai viver para isso. Então abaixe a arma e você não vai morrer. — Reforços? — Ricky diz, sua voz um pouco menos confiante. — Eu não vejo ninguém além de você. — É porque você não está olhando direito. Eu ouço o som de botas esmagando a terra e então uma voz baixa e familiar. — Você não achou que eu ia te deixar escapar depois de ter torturado a minha filha, não é? Pai. Pressiono uma mão na boca e forço de volta as lágrimas. — Vocês não vão me matar! — Ricky late. — Vocês não vão escapar assim depois de matar tantas pessoas! — Não vamos? — Lucas ri. — Você está muito, muito enganado. Você é a escória. Ninguém vai sentir a sua falta. Ninguém vai perguntar. Eu sou um agente da lei; eu sei todas as saídas. — Agente da lei, — Ricky ri nervosamente. — Matando todos esses homens. Você vai ser pego. Lucas ri de novo. — Vamos ver, não é mesmo? Então as armas começam a disparar, rápidas sucessões, tiros rápidos. Há gritos, uma mulher grita – Jennifer, eu acho – e as armas continuar a retumbar no ar. Pressiono as mãos nos ouvidos e me deito no chão, completamente esticada, rezando com cada parte do meu coração para que eles sobrevivam. Por favor, que eles sobrevivam. ~ 259 ~


*****

O tiroteio terminou e eu posso ouvir o murmúrio de vozes baixas. Levanto minha cabeça e não posso ver nada além dos faróis dos carros. Eu não quero sair daqui; não sei quem está de pé ou não. O simples pensamento faz meu peito apertar e eu foco com força para me manter no controle. — Ava? Lucas? Eu fico de pé, as pernas trêmulas. É ele? Deus, por favor, me deixe ter ouvido direito. — Ava, querida, você está aí? É ele. Eu corro para a frente, as árvores arranham meus braços, machucando minha pele já machucada. Eu empurro os arbustos grossos e vou pela estrada de terra para ver Lucas de pé, olhando para as árvores. Quando ele me vê, todo seu corpo estremece de alívio. Eu corro para ele, minhas pernas latejando forte. No momento em que o alcanço, me atiro em seus braços, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Baby, — ele geme no meu pescoço, me segurando tão apertado que dói, mas eu não me importo. — Porra, minha garota. — Você veio, — eu soluço. — Claro que eu vim. — Ava? Ouço a voz do meu pai, desprendo minhas pernas de Lucas e me viro. Meu pai está ali de pé, seu rosto aliviado. Eu me jogo em seus braços e ele me puxa para perto em um abraço ainda mais apertado que o de Lucas. — Eu nunca tive tanto medo na vida. — Eu estou bem, pai, eu estou bem. — Você está machucada? — Não, — eu sussurro. — Graças a Deus. ~ 260 ~


— Pai... alguém... está ferido? — Não, baby, nós estamos bem. Apenas alguns machucados pequenos, mas nós os superamos em pelo menos dez homens. — Onde eles estão? — Não é algo para você se preocupar. Eu me afasto, virando para Lucas. — Ele vai se meter em problemas por causa disso? — Baby, — Lucas diz. — Deixe isso com a gente; havia somente quatro deles, incluindo Ricky. — Mas ele disse... — Ele estava mentindo, agora deixe com a gente. — E as outras pessoas abaixo dele? Eles vão vir atrás de você e... — Ei, — Lucas diz, dando um passo para frente e cobrindo o meu queixo. — Pessoas como Ricky são mortas o tempo todo. Agora, você confia em nós? Eu olho para ele, então para o meu pai. — Sim. — Então não se preocupe com isso. — Jennifer? — eu pergunto com os olhos arregalados, de repente me lembrando. — Ela está bem. Ela está com Muff. Eu exalo. — Graças a Deus. — Hora de ir para casa, querida, — Lucas diz. — Isso acabou. Acabou. Deus, realmente acabou. Finalmente.

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Epílogo — E você vai ficar bem? — eu pergunto a Jennifer. Ela está no hospital há uma semana. Ela não estava bem e eles quiseram monitorá-la depois que uma bala acertou seu braço. Ela está bem agora, mas porque todo seu sistema estava comprometido pelas drogas, ela teve uma infecção e precisou ficar internada. Eles a deixaram presa aqui, e ela está pronta para ir para o centro de reabilitação pelo qual o clube do meu pai vai pagar. — Eu vou sobreviver, — ela coaxa, parecendo como o inferno. — Vai ser uma longa caminhada, você sabe? Ela força um sorriso fraco e trêmulo. — Sim, vai ser, mas eles disseram... eles disseram que vão me ajudar. Eu pego a sua mão amarrada. — Eles vão. — Quando eu sair, — ela coaxa, — nós vamos tomar um café, ok? Eu sorrio. — Claro. — É hora de levar ela, — a enfermeira sorri, entrando no quarto. — Eu vou te ligar, — eu prometo a ela. Ela aperta a minha mão. — Obrigada, Ava. — Não, — eu digo quando ela solta a minha mão. — Obrigada você. Eu a observo ser levada de cadeira de rodas para fora do quarto e, mesmo depois que ela foi, eu fico ali parada, olhando para o nada. Enrolo meus braços ao redor de mim mesma e esfrego com cuidado, tentando afastar a tristeza crescendo em meu peito. Jennifer colocou sua vida na reta por mim; ela correu um risco enorme. Ver ela conseguindo a ajuda que precisa me faz sentir bem, mas eu também sei

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que ela vai passar por um período muito difícil. Lucas prometeu que ela vai ser cuidada. — Ei, Eu giro para ver Lucas parado na porta, sorrindo para mim. — Ei, você, — eu sussurro. — Você está bem? Eu aceno. — Você a viu? — Sim, encontrei com ela no corredor. Ela vai ficar bem, baby. Eu caminho até ele, que me puxa em seus braços. — Eu sei, mas é que vai ser tão difícil. — Vai ser, mas quando ela chegar do outro lado, vai ter uma vida melhor. Continue pensando nisso. Eu me aninho mais perto, o respirando. A última semana foi caótica, mas entre Lucas e o meu pai, eles conseguiram deter qualquer consequência possível do que aconteceu naquela noite. Eu fiz algumas perguntas, mas eles me garantiram que estava tudo bem e que eu não precisava me preocupar. Eu acredito nisso. Eu acredito neles. Eles têm todo um novo respeito um pelo outro desde então. Nós vamos ter um churrasco hoje à noite, porque é aniversario do meu pai, e pela primeira vez, Lucas foi convidado. Eu não acho que está tudo perfeito entre eles, mas eles confiam um no outro e se respeitam, e isso é tudo que eu poderia pedir. Não como se eu achasse que meu pai vai envolver Lucas nos negócios do clube, mas Lucas também não vai meter o nariz onde não foi chamado e causar problemas. Eles acharam um terreno neutro. E eu estou bem com isso. — Você ainda vai ir ao churrasco hoje à noite? — eu pergunto a ele, o soltando e dando um passo para trás. — Com certeza. — Você não está preocupado com todos aqueles motoqueiros malhumorados? Ele pega meu queixo e inclina minha cabeça. — Eu andaria através do fogo por você, querida. Lidar com um monte de motoqueiros não é nada. ~ 263 ~


Eu rio. Ele ri. Isso não fica cansativo.

*****

— Oh, meu Deus! Pare! — eu grito com Addison, jogando uma batata frita na sua cara. Ela desvia, e ri com tanta força que precisa se dobrar para frente. — Isso foi hilário pra caralho, Lucas. Ela era tão fofa e pequena... — Pare! — eu grito de novo, rindo tanto que lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. — Eu não posso parar até ter contado todas as suas histórias ruins. Ele precisa saber os detalhes perversos sobre você e cocô e... Lucas está rindo e se vira para mim, piscando. — Eu estou gostando das histórias, criança. — Eu vou te machucar, — eu rio. — Já chega, filha, — meu pai diz para Addi, e ela lhe mostra o dedo do meio. — Agora eu vejo de onde você puxou isso, — Lucas sorri para mim. — É culpa do meu pai. Meu pai ri e continua virando os hambúrgueres. — Então, Lucas, você gosta de ser policial? — Skye pergunta, jogando as pernas no colo de Danny. Ele rosna e as empurra para baixo, mas ele as coloca ali de novo. — Sim, — ele diz a ela. Eles começam a conversar sobre o seu trabalho e eu apenas escuto, sorrindo o tempo todo. Nós estamos todos sentados em um grande grupo, uma fogueira no meio, cervejas passando à vontade. Mercy e Max não estão aqui. Ele quis visitá-la na cidade onde fica a

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faculdade. Eles são muito bons amigos, e ele sente a sua falta. Ebs também já foi, então é apenas Danny, Skye e eu. A conversa é um pouco esquisita, mas ela tende a normalizar com o tempo. Eu não esperava que isso fosse ser perfeito, mas o fato é que eles aqui, juntos, já é um começo maravilhoso. Eu me levanto e caminho até o meu pai, parando ao seu lado. — Como você está se sentindo, coroa? Ele olha para mim, colocando mais carne na grelha. — Eu tenho um policial no meu complexo. — Sim, você tem. — Você sabe que eu sinto como se estivesse quebrando todas as regras. — Ele só vai vir aqui nos churrascos; ele não tem intenção de se incomodar com nada do resto que vocês aqui. Ele se importa comigo. Ele não faria isso. — Nah, eu não acho que ele faria... mas ainda assim... foi difícil convencer a todos deixar ele entrar. Eu enrolo meus braços na sua cintura. — Eles vão ficar bem. Ele me abraça mais apertado. — Fico feliz de ver você sorrindo de novo. Eu suspiro e pressiono minha bochecha na sua jaqueta de couro que é sempre um elemento permanente em seu corpo. — Eu também. Houve um tempo em que eu pensei honestamente que nunca sorriria de novo, mas estar aqui... estar com Lucas... acho que isso está se tornando uma memória distante. Ele me salvou. — Eu sei disso, garota. — Houve um tempo em que eu pensei que não poderia ser salva. — Sei disso também, querida. — Estou feliz que ele está na minha vida. Meu pai suspira. — Porra, eu também. Eu rio. — Você acabou de admitir que gosta de Lucas Black? Meu pai rosna. — Não repita isso. ~ 265 ~


Eu me levanto e lhe dou um beijo na bochecha. — Eu te amo, pai. — Sim, eu te amo também, garota. A vida está melhorando.

*****

— A sua família é incrível, — Lucas murmura naquela noite mais tarde, quando sentamos na sua varanda após um churrasco bemsucedido. — Sim, ela é. — Nunca pensei que diria isso, mas posso ver porque eles significam tanto para você. Eles não são o que eu esperava. — Eles nunca são, mas estão acostumados com isso. Todos os julgam antes de conhecê-los. — Eu aprendi que isso significa que eles não sabem o que estão perdendo. Eles são boas pessoas. Leais, corajosos, ferozes... — Sim, eles são. — E você, — ele diz, me puxando para o seu lado. — Você é o melhor tipo. Eu sorrio e olho para ele. — Ah é? — Sim, baby. Eu nunca pensei que encontraria luz de novo, mas sempre há uma luz no fim do túnel, não importa quão longo ele seja. — Todo túnel tem um fim, Lucas. Você só tem que acreditar que está lá. Ele passa o polegar pela minha bochecha. — Nunca pensei que eu seria feliz depois de perder o meu bebê, mas você está me mostrando que há uma chance de eu respirar outra vez. — Ela iria querer isso para você, sabia? Ele sorri fracamente. — Sim, eu sei. — Me fale sobre ela.

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Lucas me conta sobre Shylie, desde quando ela era um bebê até o dia em que ele a perdeu. Ele fala dela com orgulho e calor, com tanto amor que faz meu coração derreter. Ele foi um pai incrível; posso dizer apenas pelas palavras que ele usa. Ele vai ser um pai incrível algum dia. — Ela parecia perfeita, Luke, — eu sussurro. — Ela era a melhor. — Você acha que vai querer ter filhos de novo? Ele olha para as estrelas brilhando no céu limpo da noite. — Eu achei que nunca mais iria querer filhos depois que eu a perdi, mas então eu te conheci e você me mostrou que eu posso encontrar felicidade novamente. Nós dois passamos por mais coisas que a maioria das pessoas, e ainda assim eu me sinto mais forte do que nunca. Não nego que ter outro filho me assusta, e esse é um problema que vou ter que trabalhar, mas sim, eu penso que algum dia vou querer ter mais. Meu coração explode com alegria. — Fico feliz, — eu sussurro. — Porque eu realmente amaria ter uma garotinha como Shylie. Ele sorri para mim. — Eu também, criança. — Luke? — Hmmm? — Isso... eu e você... é para sempre? Ele se vira para mim e segura meu rosto com suas mãos grandes. — Eu já tive mulheres, eu já fui casado duas vezes, mas nunca precisei de algo como eu preciso de você, Ava. Você é um pedaço da minha alma que eu perdi, e a cada dia você está me curando. Eu sou tão apaixonado por você que dói, porra. — Você me ama? — eu coaxo. Ele se inclina para frente, beijando meus lábios. — Porra, eu amo. Eu me acomodo no seu lado. — Me diga quando você soube. Ele me puxa mais perto e nós olhamos as estrelas brilhantes na noite, como se elas soubessem, de alguma forma, que nos colocaram juntos. Dizem que você conhece as pessoas por uma razão, e às vezes leva um tempo para descobrir que razão é essa. Eu conheci Lucas nas

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piores condições possíveis, e ainda assim, apesar de tudo, nós estamos juntos. Às vezes as maiores dores fazem as pessoas mais fortes. — Eu soube no momento em que você olhou para mim naquela calçada, naquela noite. Eu vi algo em seus olhos, algo tão frágil e bonito, algo que eu não tinha visto desde a minha filha. Eu queria proteger você, enrolar meu corpo ao seu redor e fazer tudo desaparecer. Eu sabia naquele segundo que você mudaria a minha vida, e você mudou, Ava – você mudou tudo. Uma lágrima escorre pela minha bochecha e ele a seca com o polegar. — Você é a minha razão, — eu sussurro. — A sua razão? — Tudo acontece por uma razão. Você é a minha razão, Lucas Black. Nós analisamos as razões para as coisas com tanta frequência na vida que às vezes apenas precisamos olhar para o que está bem na nossa frente, e as respostas serão muito claras. Lucas Black, meu policial, meu homem quebrado e lindo, era a minha razão o tempo todo. E isso é tudo que precisa ser.

Fim ~ 268 ~


Bella jewel #1 pandemonium pg  
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