O Anatomista Volume 2 -2012

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Ano 3, Volume 2, Abril-Junho, 2012 ISSN 2177-0719

O ANATOMISTA A importância do estudo da anatomia humana Utilização da terminologia anatômica Músculo pronador redondo e nervo mediano Identificação da ocorrência de nuliparidade Notas históricas sobre a captação de corpos para estudo científico

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA


O ANATOMISTA REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ANATOMIA

Expediente Editores: Nadir Eunice Valverde Barbato de Prates Richard Halti Cabral Conselho Editorial:

Arani Nanci Bomfim Mariana José Aderval Aragão Marcelo Cavenaghi Pereira da Silva Jõao Carlos de Souza Cortes Mirna Duarte Barros Telma Sumie Masuko

Capa: Ilustração de capa do livro “Tabulae anatomicae” de Bartolomeo Eustachi (Roma, 1783).

A responsabilidade do conteúdo dos artigos deve ser atribuída, exclusivamente, aos seus respectivos autores. As opiniões manifestadas nos artigos não refletem, necessariamente, a opinião da Sociedade. Sociedade Brasileira de Anatomia Av. Prof. Lineu Prestes, 2415 - Prédio Biomédicas III Cid. Universitária. Cep: 05508-900 São Paulo / SP E-mail: sba@icb.usp.br / Website: http://www.sbanatomia.org.br Tel.: (11) 3091-7978 / Tel./Fax: (11) 3813-8587

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Sumário Artigos Originais A importância do estudo da anatomia humana para o estudante da área de saúde ........................................... 04 Utilização da terminologia anatômica por profissionais da educação física .......................................................... 36 Músculo pronador redondo e nervo mediano: estudo anatômico das correlações e variações anatômicas .... 50 Identificação da ocorrência de nuliparidade, de multiparidade, e avaliação do comprimento e das larguras de úteros humanos isolados .......................... 62 Notas históricas sobre a captação de corpos para estudo científico e a controvérsia contemporânea entre céticos tradicionalistas e reformistas acerca do uso de cadáveres no ensino de anatomia humana .................................. 73

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Artigo Original

A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA ANATOMIA HUMANA PARA O ESTUDANTE DA ÁREA DE SAÚDE José William Vavruk Faculdade de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Maringá

RESUMO Objetivo: Obter informações sobre a importância da disciplina de Anatomia e Neuroanatomia Humana para a Área de Saúde. Método: Utilização de questionários, distribuídos aos alunos, impressos e por meio eletrônico. Resultados: Participaram da pesquisa efetivamente n = 1006 alunos (p = 89,90% do total), com a prevalência dos estudantes situados na faixa etária de 20 a 25 anos (n = 374, 37,17%), sexo feminino (n = 725, p = 72,07%); informado ser esta a primeira graduação universitária (n = 946, p = 94,06%); o curso de Enfermagem (n = 23, p = 38,33%, que corresponde a 2,28% do total de 1006 alunos) foi a primeira graduação universitária dentre 60 alunos que atualmente encontramse em um novo curso superior; o fator que mais contribui para o aprendizado é a atenção dos professores (n = 623, p = 61,92%); a pesquisa demonstou a preferência dos estudantes nos seguintes aspectos: o Programa Multimídia Netter de Anatomia mostrou-se mais utilizado pelos estudantes (n = 968, p = 96,22%); o estudo em peças anatômicas torna-se mais adequado quando realizado em hemi-partes anatômicas (observáveis os planos coronal, sagital e transversal, n = 546,

p = 54,27%); o estudo anatômico em peças plásticas similares é melhor realizado em peças apresentando tamanhos maiores e maior riqueza de detalhes (n = 529, p = 52,58%); os corpos estudados em Anatomia Humana devem ser conservados e que apresentem qualidade de dissecção, contendo indicações precisas e relevantes para o aprendizado de anatomia (n = 663, p = 65,90%); o fator mais relevante e contributivo considerando instalações físicas para o adequado aprendizado de Anatomia é o silêncio (menor nível de ruído, n = 858, p = 85,28%); 4


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o primeiro contato com o estudo em anatomia humana foi dotado de ansiedade num primeiro momento (n= 794, p = 78,92%); atualmente a sensação quanto às aulas de Anatomia os alunos sentem-se naturais (n = 834, p = 82,90%); a bibliografia mais utilizada para estudos em Anatomia Humana é de Frank H. Netter (n = 248, p = 24,65%) e em Neuroanatomia Humana de Angelo B.M. Machado (n = 368, p = 36,58%); os alunos mencionaram ser o estudo da Fisiologia relevante quando associado à Anatomia Humana (n= 986, p = 98,01%) e de outros ramos (Histologia, Imunologia, Farmacologia, Microbiologia, Bioquímica, Biologia Celular/Citologia, Clínica e Cirurgia), à imediata compreensão e interação prática quando associada à Anatomia Humana (n = 979, p = 97,31%); a região anatômica que mais despertou interesse de estudo foi a abdominal (n = 343, p = 34,09%); os horários das aulas de Anatomia Humana e Neuroanatomia estão adequados de acordo com o curso e finalidade de bem atingir às expectativas propostas (n = 992, p = 98,60%); a quantidade de horas-aula foram suficientes para o aprendizado em Anatomia Humana e Neuroanatomia (n = 994, p = 98,80%); a assiduidade de estudo pessoal para o aprendizado de Anatomia é adequada (n = 971, p = 96,52%); o aprendizado em Anatomia Humana é considerado atualmente adequado às expectativas (n = 938, p = 93,24%); o

fator que mais contribui para o aprendizado é a dedicação pessoal (n = 849, p = 84,39%); a Importância da Anatomia para as Ciências da Saúde corresponde ao grau de relevância máxima (9 a 10, n = 996, p = 99,00%). Conclusão: A disciplina de Anatomia faz parte da fundamentação teórica dos cursos da Área de Saúde. A utilização de bibliografia adequada é fundamental, mencionando-se MOORE (MOORE, Keith L. &. Dalley, Arthur F. Anatomia Orientada para Clínica. 5a ed. Rio de Janeiro: Guanabara. Koogan. Rio de. Janeiro: 2007) e outros, utilização de recursos audio-

visuais (incluindo multimídia), dedicação dos professores, interesse dos alunos e ambiente de aprendizado próprio e adequado.

Palavras-chave: Anatomia Humana. Estudantes. Saúde. 1n

= Número absoluto considerado.

2p

= Percentagem.

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Introdução

Este trabalho de pesquisa visa apontar a importância do estudo em Anatomia Humana para o estudante da Área de Saúde. A Anatomia Humana é a base de conhecimento para todos os estudantes das Ciências da Saúde (Medicina, Odontologia, Psicologia, Farmácia, Educação Física) e acompanha o aluno universitário desde o primeiro ano até a plenitude formação acadêmica, e além, obviamente, no desempenho das atividades laborais. A cada disciplina dos diversos Cursos que compõem as Ciências da Saúde compete uma particularidade, uma exclusividade de formação acadêmica. É importante perceber a importância desta disciplina fundamental pelo estudante pois desde o primeiro ano poderá observar as várias inter-ligações e corelacionamentos intrínsecos entre as outras disciplinas, enumerando-se a Fisiologia Humana, Histologia, Biologia Celular e Molecular, Bioquímica, Genética, Microbiologia, Parasitologia, Fisiopatologia, Imunologia, Patologia, Neurologia, Cardiologia, Oftalmologia, Medicina Interna, Óssea, Muscular, Endócrina, Linfática e Oral.

Neste sentido a anatomia é a ciência que estuda, macro e microscopicamente, a constituição e o desenvolvimento dos seres organizados compondo neste Universo uma disciplina autônoma e da maior importância para as ciências da vida e da saúde e neste sentido é a disciplina que possui o maior número de horas-aula em todos os cursos devido à sua importância. Através dos séculos, o estudo da Anatomia Humana foi mesclado com imposições da Igreja; outros fatores foram contribuintes e congêneres como o fato dos cadáveres

se deteriorarem facilmente e não haver um método de conservação à época, usando-se, assim, cadáveres frescos conservados por meio de divisões seqüenciais das camadas de músculo e da remoção de estruturas e da aprendizagem da anatomia por experiências visuais e táteis locais. Nosso conhecimento atual de informação anatômica tem sido grandemente aumentado através de novos e requintados métodos técnicos (TORTORA . TORTORA, Gerard. Corpo Humano: Fundamentos de Anatomia e Fisiologia. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2006). 6


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O produto mais utilizado universalmente para conservação dos cadáveres para estudo é o formol e entre suas principais aplicações está o embalsamamento de peças anatômicas. O ato de dissecação fornece ao estudante conhecimento direto no cadáver que o habilita a conhecer a anatomia do vivente. O estudo do cadáver é extrapolada para o conhecimento do ser humano vivo, no todo e em suas partes, porém, os líquidos fixadores e embalsamadores, em variados graus, modificam o aspecto normal do corpo e dos órgãos. Profissionais da área da saúde, técnicos de patologia e histologia, professores e estudantes que manuseiam espécimes preservados estão potencialmente em alto risco de exposição (NETTER . NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. 4ª ed. São Paulo: Elsevier, 2004). Portanto, falar da importância da Anatomia Humana para estudantes e profissionais da área da saúde é falar a respeito da importância da base de um edifício para toda a construção.

Objetivos

Objetivo Geral: Obter informações sobre a importância da disciplina de ANATOMIA E NEUROANATOMIA HUMANA para a área de saúde.

Objetivos Específicos: Quantificar dados que demonstrem como o estudante da área de saúde percebe a importância da ANATOMIA HUMANA (ANATOMIA E

NEUROANATOMIA); manter introspecção no universitário sobre a importância e interrelacionamento entre a disciplina fundamental para as Ciências da Saúde, envolvendo a Anatomia e sua influência para com os demais ramos do currículo dos cursos de graduação universitária, não apenas durante o período acadêmico, mas também durante o desempenho profissional dos egressos; formatar tabelas e gráficos para a representação dos dados coletados; colaborar para a conscientização e valorização do aprendizado dos conteúdos da Anatomia e Neuroanatomia Humana.

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Método

As atividades foram desenvolvidas com a distribuição de questionário a todos estudantes da área de saúde da Universidade da Região de Joinville, Santa Catarina, no ano de 2010, e propôs-se obter informações objetivas sobre a qualidade do ensino visando adquirir conhecimento científico nesta disciplina fundamental para as ciências da saúde, a qual permeará a vida do estudante em seu trajeto acadêmico e futuramente, quando de possa do Diploma Universitário, encontrando-se apto ao pleno exercício profissional.

O questionário retro mencionado foi distribuído a todos os Cursos de Graduação Universitária da Universidade da Região de Joinville, em especial aos que compõem as Ciências da Saúde nesta Universidade: Medicina, Odontologia, Psicologia, Educação Física (modalidades bacharelado e licenciatura) e Farmácia.

O questionário distribuído e explicado minuciosamente a respeito da maneira correta para o preenchimento consta dos seguintes aspectos essenciais: versa a respeito da Importância da Anatomia Humana para o Estudante da Área de Saúde; pode ser respondido de maneira anônima (não identificada), conferindo maior liberdade para as respostas apontadas pelos entrevistados; não houve discriminação em relação a nenhum curso quanto à carga horária e procurou-se auferir a qualidade e importância do estudo correlato de Anatomia no ensino superior; não houve discriminação entre sexos, podendo participar livremente todos estudantes

matriculados; idêntica assertiva em relação à idade, religião ou filiação política ou convicção pessoal dos participantes. Todos estes aspectos levaram em consideração deixar os entrevistados livres para responder da melhor forma possível o rol de questionamentos aplicados, obedecendo-se ditames de liberdade de expressão dispostos na Constituição Federal de 1.988 e no Código de Ética profissional que rege cada uma das profissões que compõem o espectro das Ciências da Saúde. 8


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O questionário versava exatamente a respeito do tema proposto: “A Importância da Anatomia Humana para o Estudante da Área de Saúde” contendo 25 (vinte e cinco) questões de fundamental importância para o conhecimento intrínseco da maneira como a Anatomia Humana é ensinada ao estudante universitário, como este observa a plena composição em seu aprendizado e como poderá empregar futuramente este fundamental ramo do conhecimento nas horas profissionais de atividade pós-acadêmicas. O questionário encontra-se estruturado em 06 (seis) Seções, desta maneira distribuídas: Seção 01 – Dados Pessoais (identificação pessoal do acadêmico), questões 01 “usque” 06; Seção 02 – Métodos de Estudo, questões 07 “usque” 08; Seção 03 – Instrumentos Similares e Peças Anatômicas Utilizadas, questões 09 “usque” 11; Seção 04 – Ambiente de Aprendizagem em Anatomia Humana, questão 12 “usque” 14; Seção 05 – Literatura em Anatomia Humana e Neuroanatomia, questões 15 “usque” 16; Seção 06 – Opinião Pessoal, questão 17 “usque” 25. Ao final foi elaborado o quadro Cartão-Resposta para auxiliar o entrevistado a melhor manter o resultado fidedigno de suas afirmações. O questionário distribuído segue em anexo ao trabalho.

Resultados Didaticamente este trabalho de pesquisa concentrou-se em conhecer a qualidade e a relevância que Anatomia Humana representa para o estudante e neste sentido foi desenvolvido o trabalho de pesquisa sobre o tema: “A Importância da Anatomia Humana para o Estudante da Área de Saúde”. Para estruturar-se os resultados obtidos, devemos concentrar esforços pessoais em relação ao

material e método desenvolvido, qualificação de docentes, apresentação de rigorosas instalações que concentrem sintonia quanto à ausência de ruído, redução de odores, iluminação adequada e sobretudo proporcionar incentivo pessoal de aprendizado aos discentes concitando-os à compreensão que a Anatomia Humana é a disciplina de maior relevância dentre as estudadas nas disciplinas de base e de fundamental compreensão que constará como integrativa de vários segmentos e compondo a interdisciplinariedade correlata entre as que compõe o conteúdo programático de disciplinas dos Cursos da Área de Saúde.

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SEÇÃO 1 Na Seção 1 (Dados Pessoais) procurou-se identificar o acadêmico, e das 06 questões que compuseram o rol de informações pessoais, houve o retorno estatístico que se apresenta da seguinte maneira: O total de estudantes da Área de Saúde matriculados na Universidade da Região de Joinville é de n = 1119. Destes estudantes n = 1018 (p = 90,97%) responderam ao questionário on-line e n = 12 (p = 1,07%) dos alunos mencionaram respostas dúbias que foram retiradas da quantificação, permanecendo o total em análise de 1006 alunos (p = 89,90% do total e p = 98,82% dos questionários admitidos).

Na Seção 1 do questionário foram coletados dados pessoais quantificativos dos estudantes matriculados, obtendo-se como informação:

1. Idade escolar, considerando-se a totalidade dos alunos que responderam ao questionário (n = 1018 estudantes):

- até 20 anos, n = 140 estudantes (p = 13,75%); - de 20 a 25 anos, n = 483 (p = 47,44%); - de 25 a 30 anos, n = 226 (p = 22,20%) e - acima de 30 anos, n = 169 (p = 16,60%).

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A idade escolar, considerando-se a amostra válida de questionários respondidos (1006 estudantes) revela: - até 20 anos, n = 236 estudantes (p = 23,45%); - de 20 a 25 anos, n = 374 (p = 37,17%);

- de 25 a 30 anos, n = 224 (p = 22,26%) e - acima de 30 anos, n = 172 (p = 17,09%).

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Em relação ao gênero dos estudantes, considerando-se a totalidade dos alunos (1018), os resultaram demonstram que: a. Masculino, n = 304 estudantes (p = 29,86%) e b. Feminino, n = 714 = (p = 70,13%).

2. Considerando-se o gênero dos estudantes que efetivamente participam da pesquisa (1006), os resultados passam a ser: a. Masculino, n = 281 estudantes (p = 27,93%) e b. Feminino, n = 725 = (p = 72,07%).

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3. Considerando-se os alunos matriculados (n = 1119) os cursos de graduação universitária concentram as seguintes proporções de alunos matriculados: Medicina: n = 242 (p = 21,62%), dos quais n = 238 (p = 23,37%) efetivamente participam da pesquisa e n = 237 (p = 23,55%) foram válidos; Odontologia: n = 162 (p = 14,47%), dos quais n = 154 (p = 15,12%) efetivamente participam da pesquisa e n = 152 (p = 15,10%) foram válidos; Educação Física (Licenciatura e Bacharelado): n = 424 (p = 37,89%), dos quais n = 346 (p = 33,98%) efetivamente participam da pesquisa e n = 345 (p = 34,29%) foram válidos; Psicologia: n = 172 (p = 15,37%), dos quais n = 161 (p = 15,81%) efetivamente participam da pesquisa e n = 158 (p = 15,70%) foram válidos e Farmácia: n = 127 (p = 11,34%), dos quais n = 119 (p = 11,68%) efetivamente participam da pesquisa e n = 114 (p = 11,33%) foram válidos.

4. De modo a homogeneizar a pesquisa de acordo com as séries escolares dos alunos e observando que muitos cursam adotam o sistema anual ou semestral de ensino, procurou-se computar as séries escolares por semestres, obtendo-se os resultados: 13


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a. 1º período/semestre: n = 63 estudantes (p = 6,26%); b. 2º período/semestre: n = 94 estudantes (p = 9,34%); c. 3º período/semestre: n = 85 estudantes (p = 8,44%); d. 4º período/semestre: n = 136 estudantes (p = 13,51%); e. 5º período/semestre: n = 121 estudantes (p = 12,02%); f. 6º período/semestre: n = 118 estudantes (p = 11,72%); g. 7º período/semestre: n = 106 estudantes (p = 10,53%); h. 8º período/semestre: n = 132 estudantes (p = 13,12%); i. 9º período/semestre: n = 72 estudantes (p = 7,15%); j. 10º período/semestre: n = 65 estudantes (p = 6,46%); l. 11º período/semestre: n = 6 estudantes (p = 0,59%) e m. 12º período/semestre: n = 8 estudantes (p = 0,79%).

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5. Procurando obter informações sobre o passado escolar dos estudantes, a pesquisa procurou saber sobre a formação de cada aluno anteriormente ao atual curso frequentado e que se encontra matriculado, e obteve as informações: a. Sim, é a primeira graduação universitária: n = 946 (p = 94,06%) e b. Não é a primeira graduação universitária: n = 60 (p = 5,94%).

6. Os 60 (sessenta) alunos que responderam esta não ser a primeira graduação universitária informaram que são graduados nos seguintes cursos:

- Direito: n = 06 (p = 10%), que corresponde a 0,59% do total de n = 1006 alunos; - Fonoaudiologia: n = 04 (p = 6,66%), que corresponde a 0,39% do total de n = 1006 alunos; - Turismo: n = 03 (p = 5%), que corresponde a 0,29% do total de n = 1006 alunos; - Psicologia: n = 11 (p = 18,33%), que corresponde a 1,09% do total de n = 1006 alunos; - Enfermagem: n = 23 (p = 38,33%), que corresponde a 2,28% do total de n = 1006 alunos e - Administração: n = 13 (p = 21,66%), que corresponde a 1,29% do total de n = 1006 alunos. 15


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SEÇÃO 2 Na Seção 2 do questionário foram coletados dados relativos a Métodos de Estudo utilizados pelos estudantes matriculados, obtendo-se como informação: 7. Para o estudo em anatomia humana as respostas ao melhor método de aprendizado foi apresentado da seguinte maneira:

a. Atenção dos professores. n = 623 (p = 61,92%); b. Dedicação pessoal / interesse e motivação próprias. n = 271 (p = 26,93%); c. Livros. n = 42 (p = 4,17%); d. Peças anatômicas íntegras (utilizando cadáveres/corpos). n = 14 (p = 1,39%); e. Peças anatômicas seccionadas (utilizando cadáveres/corpos). n = 12 (p = 1,19%); f. Peças em plástico (reprodução similar à peça anatômica), seccionadas, reproduzindo a respectiva secção corporal com detalhes direcionados ao aprendizado. n = 6 (p = 0,59%);

g. Peças em plástico, íntegras, reproduzindo tridimensionalmente a superfície em estudo com detalhes direcionados ao aprendizado. n = 6 (p = 0,59%); h. Recursos multimídia (CD interativo). n = 4 (p = 0,39%); i. Recursos multimídia (filmes auto-explicativos). n = 7 (p = 0,69%); j. Recursos multimídia (vídeo). n = 5 (p = 0,49%); l. Utilização de equipamentos (quadros brancos e/ou negros). n = 11 (p = 1,09%) e m. Utilização de equipamentos (retroprojetor, slides). n = 5 (p = 0,49%).

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8. O recurso de multimídia utilizado e que melhor contribuiu para o aprendizado foi:

a. Programa didático instrutivo: (Exemplo: Programa Netter). n = 968 (p = 96,22%); b. Programa didático instrutivo: (Exemplo: O Corpo Humano – Globo Multimídia). n = 6 (p = 0,59%) e c. Reprodução de multimídia: (Exemplo: Akland (legendado ou sem legendas). n = 32 (p = 3,18%). 17


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Na Seção 3 do questionário foram coletados dados pertinentes aos instrumentos similares e peças anatômicas utilizadas, obtendo-se como informação: 9. O estudo em peças anatômicas torna-se mais adequado:

a. Quando realizado em hemi-partes anatômicas (observáveis os planos coronal, sagital e transversal). n = 546 (p = 54,27%) e b. Desde que realizado em peças íntegras considerando dissecção parcial e superficial apenas. n = 460 (p = 45,72%).

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10. Quando questionado o estudo anatômico em peças plásticas similares o melhor método apresentado é: a. Em peças apresentando tamanhos maiores e maior riqueza de detalhes. n = 529 (p = 52,58%) e b. Em peças com tamanho real comparativamente às estruturas vivas. n = 477 (p = 47,41%).

11. Ao questionar-se a estrutura física dos corpos estudados em Anatomia Humana estes devem ser:

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a. Corpos conservados e que apresentem qualidade de dissecção, contendo indicações precisas e relevantes para o aprendizado de anatomia. n = 663 (p = 65,90%) e b. Recentes e de boa qualidade tátil e observacional, apresentando idêntica semelhança com estruturas vivas. n = 343 (p = 34,09%).

SEÇÃO 4 Na Seção 4 do questionário foram coletados dados relativos ao ambiente de aprendizagem em Anatomia Humana. Os questionamentos versaram nas seguintes etapas: 12. Na opinião dos estudantes qual é o fator mais relevante e contributivo para o adequado aprendizado de Anatomia Humana considerando instalações físicas, obtendo-se as respostas: a. Iluminação adequada. n = 32 (p = 3,18%); b. Limpeza (mesas, bancadas). n = 71 (p = 7,05%); c. Odor reduzido de conservantes utilizados. n = 16 (p = 1,59%); d. Silêncio (menor nível de ruído). n = 858 (p = 85,28%) e e. Ventilação adequada. n = 29 (p = 2,88%).

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13. Ao inquirir-se os alunos a respeito do primeiro contato com o estudo em anatomia humana os alunos responderam que foi: a. Dotado de ansiedade num primeiro momento. n = 794 (p = 78,92%); b. Natural. n = 53 (p = 5,26%); c. Preocupado. n = 147 (p = 14,61%) e d. Não conseguiu participar. n = 12 (p = 1,19%).

14. Quando questionado aos estudantes na atualidade como estes sentem-se em relação às aulas

de Anatomia o padrão de respostas foi: a. Compenetrado. n = 34 (p = 3,33%); b. Confortado. n = 104 (p = 10,33%); c. Natural. n = 834 (p = 82,90%); d. Nervoso. n = 13 (p = 1,29%) e e. Respeitoso. n = 21 (p = 2,08%). 21


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SEÇÃO 5 Na Seção 5 do questionário foram coletados dados relativos à literatura utilizada em Anatomia Humana e Neuroanatomia pelos estudantes matriculados. Inicialmente torna-se imperioso tecer comentários concernentes à importância da

dedicação de alguns autores e relembrar que após séculos de estudo e descobertas quanto ao conhecimento do corpo humano, atualmente a sociedade científica e acadêmica possui um referencial vasto e adequado aos vários setores do conhecimento, devido ao brilhantismo de mentes que dedicaram-se em conhecer o corpo humano. Os melhores exemplos advém de livros, e em particular, de autores consagrados como Keith L. Moore (MOORE, Keith L. &. Dalley, Arthur F. Anatomia Orientada para Clínica. 5a ed. Rio de Janeiro: Guanabara. Koogan. Rio de. Janeiro: 2007), Gerald J. Tortora

(TORTORA, Gerard. Corpo Humano: Fundamentos de Anatomia e Fisiologia. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2006), Frank Netter (NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. 4ª ed. São Paulo: Elsevier, 2004) e Johannes Sobotta (SOBOTTA, Johannes. Atlas de Anatomia Humana. 22ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan: 2006). A importância para estes autores da Anatomia humana concentra-se em particularizar a micro-visão de todas as estruturas anatômicas para o estudante para que este possa despertar à compreensão pessoal da importância desde maravilhoso ramo dos estudos das Ciências da Vida.

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Frank Netter (1906-1991) assim expressou: “na minha carreira como artista médico, por mais de 50 anos, minha carreira cresceu em resposta aos anseios e necessidades da profissão médica e em todos estes anos cerca de 4.000 ilustrações foram revestidas de criteriosa seleção relacionada às várias subdivisões do conhecimento médico, como anatomia macroscópica, histologia, embriologia, fisiologia, patologia, modalidades diagnósticas, técnicas cirúrgicas e terapêuticas e manifestações clínicas de uma variedade de doenças”. A Anatomia Humana reveste-se de grandes exemplos de autores fantásticos na história da humanidade que estiveram empenhados no estudo desta fundamental disciplina, dentre estes mencionamos Vesalius, Leonardo da Vinci, William Hunter, Henry Gray, Descartes e Hipócrates. Compreendemos que vários autores atuam conjuntamente para o pleno desenvolvimento e compreensão aprofundada desta verdadeira arte e possuímos excelentes exemplos para construir este caminho formidável do conhecimento humano da vida. A Literatura de apoio ao estudante deve constar de exuberante quantidade e qualidade de informações para a compreensão pelo estudante das Ciências da Saúde a fim de que este melhor compreenda a esfera e a dimensão global do estudo de Anatomia, visando

capacitá-lo a compreender, coordenar e inter-relacionar todas as diversas disciplinas que compõem o cerne dos cursos de graduação universitária. Neste sentido, o estudante deverá utilizar-se de poderosos instrumentos didáticos que possam direcioná-lo da melhor maneira à compreensão de todos os ramos que compõem a Anatomia Humana em particular: Variação e normalidade da constituição anatômica; anomalias; fatores gerais de variação; nomenclatura anatômica; divisão do corpo humano; posição anatômica; planos de

delimitação e secção do corpo humano; eixos do corpo humano; termos de posição e direção; princípios gerais de construção corpórea nos vertebrados. Outros itens específicos que compõem o estudo da Anatomia Humana envolvem: a) Sistema Esquelético: conceito de esqueleto; funções do esqueleto; tipos de esqueletos; divisão do esqueleto; número de ossos; classificação dos ossos; tipos de substância óssea; elementos descritivos da superfície dos ossos; periósteo; nutrição.;

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b) Articulações: classificação; articulações fibrosas, cartilaginosas, sinoviais. c) Sistema Muscular: variedades de músculos; componentes anatômicos dos músculos estriados esqueléticos; fáscia muscular; mecânica muscular; origem e inserção; classificação dos músculos; ação muscular; classificação funcional dos músculos; inervação e nutrição. d) Sistema Nervoso: divisão do sistema nervoso; meninges; sistema nervoso central; vesículas primordiais; partes do sistema nervoso central; ventrículos encefálicos e suas comunicações; líquor; divisão anatômica; disposição das substâncias branca e cinzenta no sistema nervoso central; sistema nervoso periférico; terminações nervosas; gânglios; nervos cranianos e espinhais. e) Sistema Nervoso Autônomo: sistema nervoso visceral aferente; diferenças entre sistema nervoso somático eferente e visceral, eferente ou autônomo; organização geral do sistema nervoso autônomo; diferenças entre sistema nervoso simpático e parassimpático. f) Sistema Nervoso Autônomo: Anatomia do Simpático, Parassimpático e dos Plexos Viscerais: sistema nervoso simpático; aspectos anatômicos; localização dos neurônios pré-ganglionares, destino e trajeto das fibras pré-ganglionares; localização dos neurônios pós-ganglionares, destino e trajeto das fibras pós-ganglionares; sistema nervoso parassimpático; parte craniana do sistema

nervoso parassimpático; plexos viscerais; sistematização dos plexos viscerais. g) Sistema Circulatório: Coração; circulação do sangue; sistema de condução; tipos de circulação; tipos de vasos sangüíneos; artérias; veias; capilares sangüíneos; sistema linfático; baço; timo. h) Sistema Respiratório: nariz; nariz externo; cavidade nasal; seios paranasais; faringe; laringe; traquéia e brônquios; pleura e pulmões. i) Sistema Digestivo: boca e cavidade bucal; divisão da cavidade bucal; palato; língua; dentes;

glândulas salivares; faringe; esôfago; abdome: generalidades; diafragma; peritônio; estômago; intestinos; intestino delgado; intestino grosso; anexos do canal alimentar; fígado; pâncreas. j) Sistema Urinário: órgãos do sistema urinário; rins; ureter; bexiga; uretra. k) Sistema Genital Masculino: órgãos genitais masculinos; testículos; epidídimo; ducto deferente; ducto ejaculatório; uretra; vesículas seminais; próstata; glândulas bulbo-uretrais; pênis; escroto. l) Sistema Genital Feminino: comportamento do peritônio na cavidade pélvica; ovários; tubas uterinas; útero; vagina; órgãos genitais externos; mamas.

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m) Sistema Endócrino: glândulas endócrinas. n) Sistema Sensorial: órgãos da visão; bulbo ocular; anexos do olho; órgão vestíbulo-coclear; ouvido externo; ouvido médio; ouvido interno; equilíbrio e ouvido interno. o) Sistema Tegumentar: pele; camadas da pele; glândulas da pele; coloração da pele; anexos da pele; pêlos; unhas. No sentido de conhecer a contribuição de autores reconhecidos como especialistas na arte de ensinar Anatomia Humana e que servirão de embasamento técnico para este trabalho de pesquisa temos por base os seguintes autores: Em ANATOMIA HUMANA 15. Inicialmente questionado aos universitários qual o livro de Anatomia que mais contribuiu no aprendizado, foram obtidas as informações:

a. Anatomia do Aparelho Locomotor - M. Dufour. n = 0; b. Anatomia Fundamental - Sebastião Vicente de Castro. n = 0; c. Anatomia Humana - Resumos em Quadros e Tabelas - Johannes W. Rohen.

d. Anatomia Humana - Van De Graaff. n = 0; e. Anatomia Humana Básica - Alexander P. Spencer. n = 0; f. Anatomia Humana Sistêmica e Segmentar - Jose Geraldo Dangelo. n = 34 (p = 3,37%); g. Anatomia Orientada Para a Prática Clínica - Keith L. Moore. n = 232 (p = 23,06%); h. Anatomia Para o Movimento - Blandine Calais. n = 0; i. Anatomia: Conceitos e Fundamentos - Valdemar de Freitas. n = 0; j. Anatomia: Estudo Regional do Corpo Humano - Donald J. Gray. n = 163 (p = 16,20%);

l. Anatomia: Estudo Regional do Corpo Humano - Ernest Gardner. n = 0; m. Atlas de Anatomia Humana - Frank H. Netter. n = 248 (p = 24,65%); n. Atlas de Anatomia Humana - Johannes Sobotta. n = 219 (p = 21,76%); o. Capacidade Atlética e Anatomia do Movimento – Wirhed. n = 6 (p = 2,58%); p. Grande Atlas do Corpo Humano: Anatomia, Histologia, Patologias – Medillust. n = 0; q. Princípios da Anatomia Humana - Paulo Augusto Giron. n = 0; r. Princípios de Anatomia e Fisiologia - Gerald J. Tortora. n = 84 (p = 8,34%).

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Em NEUROANATOMIA 16. Em seguida foi questionado aos estudantes qual o livro de NeuroAnatomia mais contribuiu no aprendizado, obtendo-se as seguintes informações: a. Anatomia do Aparelho Locomotor - M. Dufour. n = 21 (p = 2,08%); b. Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos Fundamentais de Neurociência - R. Lent. n = 0; c. Core Text of Neuroanatomy - M. B. Carpenter. n = 0; d. Diagnóstico Diferencial em Neurologia - J. Patten. n = 0;

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e. Head Injury - P. R. Cooper. n = 0; f. Manual de Neurocirurgia - M. Greenberg. n = 0; g. Neuroanatomia - Atlas de Estruturas, Secções E Sistemas – Haines. n = 0; h. Neuroanatomia Aplicada - Murilo S. Meneses. n = 293 (p = 29,12%); i. Neuroanatomia Funcional - Angelo B.M. Machado. n = 368 (p = 36,58%); j. Neuroanatomia Humana de Barr - John A Kiernan. n = 0; l. Neuroanatomia: Texto e Atlas - J. H. Martin. n = 0; m. Neuroanatomia Ilustrada – Crossman. n = 267 (p = 26,54%). n = 0; n. Neuroanatomy Through Clínical Cases - H. Blumenfeld. n = 57 (p = 5,66%); o.

Principles of Neural Science - E. R Kandel. n = 0.

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SEÇÃO 6 Na Seção 6 do questionário foram coletadas opiniões pessoais e quantificadas posteriormente, obtendo-se como informação: 17. O estudo da Fisiologia é relevante ao associar-se à Anatomia Humana? a. Sim. n = 986 (p = 98,01%) e b. Não. n = 20 (p = 1,98%).

18. Este questionário procurou inteirar o conhecimento de outros ramos interdisciplinares e

complementares à Anatomia Humana na formação dos cursos de graduação universitária e quando questionado sobre a existência de relevância dos ramos: Histologia, Imunologia, Farmacologia, Microbiologia, Bioquímica, Biologia Celular/Citologia, Clínica e Cirurgia, no que lhes concerne, tornando-se elementarmente associativos para a imediata compreensão e interação prática associada à Anatomia Humana, obtemos as seguintes informações: a. Sim. n = 979 (p = 97,31%) e b. Não. n = 27 (p = 2,68%).

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SEÇÃO 6

19. A pesquisa de opinião dos estudantes voltou-se a procurar saber qual a região anatômica em que mais houve manifestação de interessou em estudar, obtendo-se como respostas: a. Abdômen. n = 343 (p = 34,09%); b. Cabeça e Pescoço. n = 214 (p = 21,27%); c. Dorso e Medula Espinhal. n = 142 (p = 14,11%);

d. Membro Inferior. n = 33 (p = 3,28%); e. Membro Superior. n = 49 (p = 4,87%); f. Neuroanatomia. n = 83 (p = 8,25%); g. Pelve e Períneo. n = 46 (p = 4,57%) e h. Tórax. n = 96 (p = 9,54%).

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20. Foi questionado se os horários das aulas de Anatomia Humana e Neuroanatomia estavam adequados com o curso e com a finalidade de bem atingir às expectativas propostas, obtendo-se as informações: a. Sim. n = 992 (p = 98,60%) e b. Não. n = 14 (p = 1,39%).

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21. Ao inquirir-se os estudantes sobre a quantidade de horas-aula serem suficientes para o aprendizado em Anatomia Humana e Neuroanatomia, obtivemos as seguintes respostas: a. Sim. n = 994 (p = 98,80%) e b. Não. n = 12 (p = 1,19%).

22. Objetivando conhecer a assiduidade de estudo dos universitários estes informaram que o

desprendimento pessoal para o aprendizado de Anatomia foi à época: a. Adequado. n = 971 (p = 96,52%); b. Razoável. n = 24 (p = 2,38%) e c. Insuficiente. n = 11 (p = 1,09%).

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23. Inquiriu-se sobre o momento atual a respeito de como os universitários se consideram com o aprendizado em Anatomia Humana, obtendo-se as seguintes informações: a. Adequado. n = 938 (p = 93,24%); b. Razoável. n = 52 (p = 5,16%) e c. Insuficiente. n = 16 (p = 1,59%).

24. Procurando conhecer o que mais contribuiu para o aprendizado, o retorno de informações demonstrou que consiste em: a. Curiosidade para descobrir. n = 73 (p = 7,25%); b. Dedicação pessoal. n = 849 (p = 84,39%); c. Memória visual. n = 36 (p = 3,57%) e d. Visão orientada pelas mãos. n = 48 (p = 4,77%).

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25. Encerrando a atividade de pesquisas acrescentou-se a pergunta fundamental em que gira todo este projeto e procurou-se obter-se dos estudantes universitários o retorno pessoal sobre qual a importância da Anatomia Humana para os Estudantes das Ciências da Saúde e neste sentido obtemos como retorno a fração unânime: a. 9-10 (relevância máxima). n = 996 (p = 99,00%); b. 8-9 (muito importante). n = 8 (p = 0,79%); c. 7-8 (relevância mediana). n = 2 (p = 0,19%); d. 6-7 (importância relativamente baixa), n = 0; e. 5-6 (baixa importância) e f. Inferior a 5 (irrelevante), n = 0.

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Discussão

O levantamento dessas informações, através dos questionários e material distribuído via impressa e eletrônica por e-mail, obteve informações seguras e fidedignas a respeito da importância da disciplina de Anatomia Humana e da Neuroanatomia. As informações coletadas poderão ajudar na organização da disciplina, de forma a dinamizar o ensino e a aprendizagem na Universidade da Região de Joinville e outras Universidades que apresentam visão congênere à importância desta fundamental disciplina ao currículo dos cursos de graduação universitária que compõem as Ciências da Saúde.

Conclusão

A disciplina de Anatomia faz parte da fundamentação teórica dos cursos da Área de Saúde. Alguns estudantes naturalmente apresentam dificuldades em compreender os conteúdos. Isso decorre de algum bloqueio na fase de aprendizagem, falta de interesse e/ou

disposição para esse aprendizado. Como o estudo do corpo humano envolve muitos aspectos técnicos relacionados à nomenclatura anatômica, muitos acadêmicos apresentam dificuldade em absorver essas informações que envolvem características celulares, teciduais, organogênica e sistêmica. Para atender a estas necessidades, autores como MOORE (MOORE, Keith L. &. Dalley, Arthur F. Anatomia Orientada para Clínica. 5a ed. Rio de Janeiro: Guanabara. Koogan. Rio de. Janeiro: 2007), TORTORA (TORTORA, Gerard. Corpo Humano: Fundamentos de Anatomia e Fisiologia. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2006), NETTER (NETTER, Frank H.

Atlas de Anatomia Humana. 4ª ed. São Paulo: Elsevier, 2004) e SOBOTTA (SOBOTTA, Johannes. Atlas de Anatomia Humana. 22ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan: 2006) elaboraram livros contendo textos e ilustrações para facilitar o entendimento dos estudantes, constituindo-se como algumas das mais influentes bases de estudo para praticamente todos os estudantes da área de saúde.

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O estudo em Atlas Anatômicos possibilita o aprendizado porém exige desprendimento e atenção quanto ao reconhecimento das estruturas em observações práticas no laboratório de Anatomia. Pode-se considerar que o acervo bibliográfico em livros ou em recursos virtuais é adequado, necessitando ainda da orientação de monitores e docentes para que os acadêmicos tenham um aproveitamento satisfatório. Como consideração final e encerramento desta atividade constatamos ser de fundamental importância o estudo da Anatomia Humana para os Estudantes da Área de Saúde obtendo-se a quantificação de n = 996 (p = 99%), dentre 1006, quanto à plausibilidade desta assertiva dentre todos os estudantes universitários regularmente matriculados.

Referências Bibliográficas

MOORE, Keith L. &. Dalley, Arthur F. Anatomia Orientada para Clínica. 5a ed. Rio de Janeiro: Guanabara. Koogan. Rio de Janeiro: 2007;

NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. 4ª ed. São Paulo: Elsevier, 2004;

SOBOTTA, Johannes. Atlas de Anatomia Humana. 22ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan: 2006;

TORTORA, Gerard. Corpo Humano: Fundamentos de Anatomia e Fisiologia. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.

José William Vavruk Faculdade de Medicina, Centro de Ciências da Saúde Universidade Estadual de Maringá Rua Padre Léo Pientka, nº 610 - Cidade Jardim 83.035-050 – São José dos Pinhais - Paraná - Brasil Tel: 55 041 3081-5037 E-mail: ra81444@uem.br 35


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UTILIZAÇÃO DA TERMINOLOGIA ANATÔMICA POR PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO FÍSICA Daniel Vicentini de Oliveira1 & Sonia M. M. Bertolini2 1Discente; 2Docente

Curso de Pós-graduação em Anatomia Funcional do Cesumar

RESUMO

A Nomina Anatômica constitui o conjunto de termos empregados para indicar e descrever as partes do organismo; é a base da linguagem anatômica. O profissional de educação física está enquadrado dentro da área da saúde, atuando diretamente com o corpo humano e seu movimento. O objetivo deste estudo foi verificar a utilização da terminologia anatômica por profissionais da educação física bem como ratificar e informar a estes profissionais a ortografia dos termos científicos utilizada para designar as estruturas macroscópicas do corpo humano. A população do estudo constitui-se de profissionais da educação física.. A amostra foi selecionada de forma aleatória e constituída de 25 indivíduos, de ambos os gêneros e de diferentes faixas etárias. O único critério de exclusão a observar foi que os profissionais não atuem na área da docência do ensino superior da disciplina de anatomia humana. Como critério de inclusão, os profissionais

deveriam ser devidamente graduados e estar atuando dentro da área da educação física. Ao se questionar sobre qual a massa de tecido nervoso localizado no interior do canal vertebral”, ou seja, a Medula Espinal, a grande maioria 68% ainda acreditam que o termo correto seja Medula Espinhal. Ninguém respondeu Espinhal Dorsal ou não sabiam o nome da estrutura questionada. Este foi o termo com a maior porcentagem de erro. Concluiu-se que muitos termos ainda continuam sendo utilizados incorretamente, se formos considerar a Terminologia Anatômica. 36


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Os profissionais da educação física atuam diretamente com estas estruturas, principalmente as que correspondem ao sistema músculo esquelético, como ossos, músculos, articulações e tendões, pois são os responsáveis pelo movimento humano.

Palavras-chave: Políticas públicas, expansão universitária, ensino de anatomia, construção de laboratório.

INTRODUÇÃO

A Anatomia Humana é uma ciência antiga e estudada na maioria dos cursos superiores da área da saúde por sua extrema importância no entendimento do organismo humano. Segundo Chopard (2006), é uma ciência que estuda a constituição e o desenvolvimento do homem. A palavra é de origem grega, onde “ana” significa partes e “tome”, cortar, ou seja, cortar em partes.

Os relatos anatômicos iniciaram-se com o surgimento dos próprios hominídeos e ainda hoje se encontram desenhos representativos dos homens e animais dessa época. Esse período compreende uma época de aproximadamente vinte e oito mil anos (BUSETTI e BUSETTI, 2005). O estudo da anatomia foi iniciado pelos filósofos gregos, cientificamente os primeiros a sentirem a necessidade de se estudar o corpo humano para melhor entendê-lo (CHOPARD, 2006) Dentre os principais responsáveis pelo estudo da Anatomia Humana podemos citar: Empédocles (480 a.C) que realizou estudo da anatomia fetal; Demócrito (460 a.C), que passava horas e dias nos bosques dissecando animais; Hipócrates (460-377 a.C), considerado o fundador da anatomia; era médico e foi o primeiro a dar descrições sistemáticas do corpo humano, baseadas em observações pessoais no vivo ou por deduções em animais inferiores, e Aristóteles (384-323 a.C) que estudou a anatomia animal comparada (CHOPARD, 2006). 37


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Posteriormente, foram se desenvolvendo pesquisas e pesquisadores, procurandose separar as crendices e misticismos da verdadeira concepção científica das estruturas, órgãos e tecidos até o século III a.C, em Alexandria, com destaque para Herófilo e Erasistrato. O primeiro é considerado o verdadeiro fundador da anatomia humana, que fez estudos do encéfalo, das meninges, do olho e dos intestinos. O segundo realizou estudo acurado do coração e de suas válvulas (SENIT, 1963 e SINGER 1996 apud BUSETTI e BUSETTI 2005; CHOPARD 2006). Dangelo e Fattini (2007) citam que muitas das descrições existentes reportavamse a dissecações feitas em animais, como as que foram feitas pelo fisiologista grego Galeno, que dissecou porcos e macacos no século II d.C. Foi só em 1539 que André Vesalius (1514-1564) um anatomista belga, demonstrou que as descrições anatômicas de Galeno não se referiam a dissecações feitas na espécie humana. Foram contemporâneos de Vesalius: Bartolomeu Eustáquio, Falópio e Realdo Colombo. Após Vesalius, destacam-se: Aranzio (1530-1589), Varólio (1543-1578), Van der Spigel (1578-1625), Willian Harvey (1578-1657), Aseli (1581-1626), Malpighi (1628-1694),

Wirsung, Winslow (1667-1760), Morgagni (1682-1771), Bichat (177101832), Scarpa (17471832), Hyrtl (1810-1854) (DANGELO E FATTINI, 2007). Nesse processo de descobrimento das estruturas anatômicas, diferentes termos foram criados, inclusive para uma mesma estrutura. Um pesquisador não conhecia as descobertas de outro contemporâneo ou pregresso, pois as descobertas não eram divulgadas pela dificuldade de cada época. Como resultado dessa prática foram idealizados nomes diferentes para as mesmas estruturas, variando-

se de um país para outro e também de uma localidade para outra no mesmo país (BUSETTI e BUSETTI, 2005). Em fins do século XIX, aproximadamente cinquenta mil nomes estavam em uso pra designar cerca de cinco mil estruturas anatômicas constituintes do corpo humano. A multiplicidade de nomes atribuídos a um mesmo acidente anatômico gerava dificuldade para redação de trabalhos científicos e para a comunicação dos pesquisadores entre si. 38


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Tal dificuldade crescia, também em decorrência do uso indiscriminado de epônimos (FIELD e HARRINSON, 1961, GARDNER et al., 1978 e BEZERRA et al., 1993 apud BEZERRA e BEZERRA, 2000). A primeira tentativa de uniformizar e criar uma nomenclatura anatômica internacional ocorreu em 1895, na Basiléia, por esta razão denominada Basle Nomina Anatômica (BNA) e embora houvessem ocorrido tentativas de atualizá-la em 1910 e 1930, ela só se efetuou em 1933, pela Anatomical Society of Great Britain and Ireland (DANGELO e FATTINI, 2007). Chopard (2006) refere que a Nomina Anatômica constitui o conjunto de termos empregados para indicar e descrever as partes do organismo, sendo a base da linguagem anatômica. A nomenclatura anatômica oficial é escrita em latim, sendo adaptada ou traduzida para o vernáculo de cada país. Em 1936, em Milão, durante o IV Congresso Federativo Internacional de Anatomia, presidido por Livini, tentou-se em vão escolher uma única lista de termos

anatômicos. Uma nova Comissão Internacional da Nomenclatura Anatômica foi eleita, mas devido à II Guerra Mundial seu trabalho foi interrompido. No Congresso de 1950 também não houve avanços significativos numa revisão da Terminologia Anatômica, o que acabou acontecendo no Congresso de Paris, em 1955, quando uma nova Nomina Anatômica foi aprovada oficialmente sob a sigla PNA (Paris Nomina Anatomica) (DI DIO, 2000; DANGELO e FATTINI, 2007). Nos anos seguintes, diversos eventos foram organizados visando difundir a

terminologia, conseguindo-se a cada vez, maior participação e adesão. Em 1980, o Congresso Federativo Internacional de Anatomia (CFIA) decidiu criar o Federative Commitee on Anatomical Terminology (FICAT) visto que a nomenclatura anatômica tem caráter dinâmico, podendo ser sempre criticada e modificada, desde que haja razões suficientes e que estas sejam aprovadas em Congressos Internacionais de Anatomia, realizados de cinco em cinco anos (DANGELO e FATTINI, 2007; NOVAK et. al 2008). 39


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Coube a FICAT elaborar a versão final da terminologia, tendo sido anunciada oficialmente em agosto de 1997. Essa lista foi enviada a todas as sociedades anatômicas para ser traduzida para os diversos idiomas e no Brasil, a Comissão de Terminologia Anatômica da Sociedade Brasileira de Anatomia, filiada à FICAT, realizou a tradução e, sequencialmente, publicou a primeira edição brasileira, em 2001. Esta é a última versão da Nomina Anatômica, que tem validade até a próxima revisão (NOVAK et al. 2008). Seguindo as recomendações da FICAT, algumas normas foram adotadas para sua tradução, destacando-se: terminologia anatômica em latim e a tradução para o português ao seu lado; tradução para o idioma desejada o mais próximo possível do original em latim, mas adotando o termo na forma adjetiva, não se distanciando do original como, por exemplo: artéria cerebral posterior e não artéria posterior do cérebro, devendo-se manter coerência e harmonização dos termos nos vários segmentos (ABIB, 2005). De acordo com Bezerra e Bezerra (2000), epônimo é o termo anatômico gerado a partir do nome de uma pessoa. O epônimo visava homenagear o cientista que descobrisse ou que primeiro descrevesse, por exemplo, um tendão (tendão de Aquiles = tendão calcâneo), um

ligamento (ligamento de Poupart = ligamento inguinal) ou um órgão qualquer (trompa de Falópio = tuba uterina). O autor acima coloca ainda que, o uso de epônimos era muitas vezes empregado injustamente, haja vista que Poupart, por exemplo, não foi o primeiro a notar a existência do ligamento inguinal. Embora banidos da terminologia anatômica há dezenas de anos, continuam a ser usados pelos médicos em suas especialidades e por diversos profissionais da área da saúde. Os

epônimos, por exemplo, Ligamento de Fallopio, Torcular de Herophilo, Polígono de Willis, Trompa de Eustáquio, Ligamento de Poupart, de Thompson, de Henle, de Gimbernat, Canal de Hunter, Linha de Spiegel, Arco de Douglas, etc., ainda são muito utilizados na nomenclatura clinica e esta tem séculos de tradição de uso. A exclusão destes facilitará o uso do termo oficial evitando-se maiores dificuldades (FORTES et al., 1968; SPENCE, 1991 e KOPF-MEIER, 2000 apud BEZERRA e BEZERRA, 2000; ABIB, 2005; BUSETTI e BUSETTI, 2005.). 40


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Sabe-se que pode soar como prolixa, complexa e detalhista a observação das normas internacionais de escrita de termos médicos. Entretanto, o rigor e o respeito à norma são primordiais para a consecução da dita Padronização Terminológica Anatômica, muito embora essa “unificação” sofrerá, necessariamente, alterações ao longo dos anos (NOVAK et al., 2008). Em relação às dificuldades de concordância entre termos que designam a mesma estrutura, Novak et al. (2008) ressaltam que para ratificar a utilidade de uma terminologia única, pode-se ocorrer hesitações como, por exemplo, ao se escrever o nome da articulação entre o metacarpal (ou metacarpeano?) e a falange proximal (ou primeira falange?). Seria “metacarpofalângica” ou “metacarpofalangeana” ou “metacarpofalangiana”? Ou ainda, noutro modelo,

“semimembranoso”,

“semi-membranoso”,

“semimembranácio”

ou

“semimembranáceo”? Ou então, músculo “supra-espinhal”, “supraespinhal, “supra-espinhoso” ou “supra-espinal”?. Articulação “rádio-ulnar”, “radioulnar”, “radiulnar” ou “radioulnal”?. Se existe dúvida é porque cada um tem seu modo de escrita e fala, baseando-se no que vem passado das gerações anteriores e até mesmo, do próprio ensino na graduação.

Ninguém tem dúvida de que “rádio” é rádio, porque é dessa maneira que todo mundo escreve. Mas alguns ainda têm dúvida se ulna é cúbito. Ou se patela é rótula. A desculpa, que às vezes ouvimos, de que tanto faz escrever “infra-espinhoso” ou “infra-espinal”, sob a alegação de que de qualquer forma o leitor entenderá, não pode prosperar. Se pensarmos desse modo, o assalto à língua portuguesa estará institucionalizado e não mais será justo corrigir quem escreve exceção com “ss”. A terminologia atual traz termos incomuns à nossa prática, que embora existam em nosso léxico, não constam na Nomina Anatômica (BACELAR et al. 2004).

Vasquez e Cunha (2008) apontam os alunos das séries inicias da graduação nas áreas da saúde como os mais prejudicados pela utilização de termos inespecíficos, epônimos e sinônimos para as estruturas anatômicas. Esse trabalho se justifica pela escassez de pesquisas nessa área, e pela importância que a Terminologia Anatômica apresenta para os profissionais da educação física, por ser um profissional que atua diretamente com o corpo humano, uma vez que os termos são universais e devem ser utilizados corretamente, afim de globalizar o ensino e pesquisa.

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Tendo em vista a justificativa acima, o objetivo deste trabalho foi verificar a utilização da terminologia anatômica por profissionais da educação física bem como ratificar e informar a estes profissionais a ortografia dos termos científicos utilizada para designar as estruturas macroscópicas do corpo humano.

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa descritiva, observacional e transversal. Antes da coleta de dados, o projeto foi encaminhado para análise e parecer do Comitê de Ética em Pesquisa do Cesumar. Após a aprovação, os participantes foram informados sobre a pesquisa e os que aceitaram participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A população do estudo foi composta por profissionais da educação física. A

amostra foi selecionada de forma aleatória e constitui-se por 25 indivíduos, de ambos os gêneros e de diferentes faixas etárias. O único critério de exclusão foi que os profissionais não atuassem na docência do ensino superior ministrando a disciplina de anatomia humana. Como critério de inclusão, os profissionais deveriam ser graduados e atuantes dentro da área da educação física. A pesquisa foi realizada no próprio local de trabalho dos profissionais, sob a responsabilidade e presença do pesquisador. O contato com os participantes da pesquisa foi único e o instrumento foi auto-aplicativo, sendo composto por um questionário com questões fechadas, contendo o gênero do pesquisado, idade, ano de conclusão da graduação e maior titulação. Os profissionais foram questionados sobre o uso e a importância da terminologia anatômica, bem como a respeito do conhecimento e utilização de termos anatômicos selecionados pelo pesquisador. Após a devolução dos questionários, que aconteceu em envelopes selados, os profissionais receberam a relação correta dos termos anatômicos utilizados no questionário, conforme a última atualização da Terminologia Anatômica oficial. 42


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RESULTADOS E DISCUSSÃO Dentre os pesquisados, 14 eram do gênero masculino e 11 do gênero feminino, com idade variando entre 20 e 49 anos, sendo 12 indivíduos entre 20 e 29 anos; 10 entre 30 e 39 anos e três entre 40 e 49 anos. Quanto à titulação, a pesquisa contou com nove graduados, 15 especialistas, um mestre e nenhum doutor ou pós-doutor. Ao serem questionados se os mesmos possuíam publicações científicas, 10 responderam que sim e 15 responderam que não. Por se tratar de publicações científicas, levantou-se a hipótese de que pelo menos esses autores tenham assinalado as respostas corretas no que diz respeito às estruturas solicitadas, pois os seus respectivos textos circulam nas mãos de outros pesquisadores, acadêmicos e profissionais da área específica, e quanto mais erros de nomenclatura forem divulgados e circularem pelas universidades e revistas, mais difícil será a sua correção e normatização. Quanto ao conhecimento da Terminologia Anatômica Internacional, 11 pesquisados relataram conhecer e utilizá-la; nove conhecem, mas não utilizam e cinco

desconhecem totalmente a sua existência, o que é de se preocupar quando se trata de um profissional englobado na área da saúde, atuante diretamente com o corpo humano e suas estruturas macroscópicas. Nas aulas de anatomia no ensino superior, em qualquer segmento da área da saúde, o docente deve salientar e explicar a existência da Terminologia Anatômica, assim como abordar que deverá ser seguida uma nomenclatura única para cada estrutura macroscópica do corpo humano. Sabe-se que nem todos os docentes de anatomia humana partilham dessa “prática”, mas se fossem, com certeza teríamos melhores profissionais da saúde no mercado, onde todos falariam a mesma língua em se tratando de estruturas anatômicas. Sobre a sua relevância, 18 concordam que é relevante; seis relatam ser pouco relevante e somente uma pessoa diz não apresentar relevância alguma, o que nos leva a refletir, pois o número de pessoas que desconhecem a Terminologia Anatômica Internacional é maior do que aqueles que não concordam com a relevância do tema e sua devida utilização, e além do mais, se desconhecem, não teriam porque acharem relevante.

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Foram pesquisados 10 estruturas macroscópicas, conhecidas e utilizadas pelos profissionais da Educação Física, tendo quatro opções de resposta, sendo “não sei”, quando desconhecida, dois nomes incorretos, de terminologia antiga ou simplesmente errada e a terminologia correta. Ao se questionar o nome da “Estrutura da parte interna da laringe”, 64% (16) assinalou corretamente, colocando “Prega vocal” como resposta, porém 32% (8) relataram não saber o nome da estrutura; 4% (1) erraram, ao assinalar “Corda Vocal” e nenhum assinalou “Membrana Vocal”. Essa estrutura é bem utilizada por médicos especialistas na área, fonoaudiólogos e odontólogos. Mesmo médicos e dentistas tendo passado por no mínimo 5 árduos anos de graduação, especializações, mestrados e doutorados, em alguns casos, muitos ainda utilizam o termo popular “Corda Vocal”. Somos a favor de utilizar termos simples e não técnicos com os pacientes e leigos, porém não nas publicações científicas e nos diálogos entre profissionais. Quanto a “Massa de tecido nervoso localizado no interior do canal vertebral”, ou seja, a Medula

Espinal e não mais Medula Espinhal, somente 32% (8) conhecem o termo correto; a grande maioria 68% (17) ainda acreditam que o termo correto seja Medula Espinhal. Ninguém respondeu Espinhal Dorsal ou não sabiam o nome da estrutura questionada. Na prática, esta estrutura é comumente chamada de Medula Espinhal. A diferença é pequena, e é de somente uma letra “H” entre o “N” e o “A”, sendo uma das causas que muitos ainda utilizam o termo antigo “Medula Espinhal” e não “Medula Espinal”, sem o “H”. Nesses termos é aceitável o erro, pois sua pronúncia é muito semelhante.

Essa estrutura é a porção alongada do sistema nervoso central, é a continuação do encéfalo, que se aloja no interior da coluna vertebral, no canal vertebral, ao longo do eixo crânio-caudal. Ela se inicia na junção do crânio com a primeira vértebra cervical e termina entre a primeira e segunda vértebra lombar do adulto, atingindo entre 44 e 46 centimetros de comprimento. Tem a função de conduzir impulsos nervosos das regiões do corpo até o encéfalo, produzir impulsos e coordenar atividades musculares e reflexos (DANGELO, 2007). 44


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O “osso sesamóide que se articula com o fêmur” é a conhecida patela, um pequeno osso situado sobre o fêmur e tíbia, promovendo o movimento de flexão e extensão do joelho. Antigamente, esse osso era conhecido como Rótula e até os dias de hoje está nominação é utilizada. Na pesquisa, 68% (17) dos pesquisados utilizam e conhecem a estrutura como Patela, porém um número considerado de pessoas ainda insiste na utilização de Rótula e 20% (5) simplesmente não sabem. Nenhum respondeu Rodilha como sendo o termo correto. A patela é um pequeno osso com cinco centímetros de diâmetro, de formato triangular, que se articula com o fêmur, cobrindo e protegendo a parte anterior da articulação do joelho. Atua como um eixo para aumentar a alavanca do grupo de músculos que compõe o quadríceps femoral, cujo tendão está fixado ao bordo superior da patela. É um osso curto, do tipo sesamóide e apresenta uma camada de substância compacta revestindo a substância esponjosa (CHOPARD, 2006). Rótula é o termo antigo, anterior a patela, porém ainda é muito utilizado na prática e está na língua também dos leigos. Esta estrutura é comumente utilizada pelos profissionais da educação física, pois está diretamente relacionada com o movimento corporal,

também muito utilizada por médicos, principalmente ortopedistas e pelos fisioterapeutas. O chamado Osso do Quadril, antigo Ilíaco, é o “osso da raiz do membro inferior que se articula com o fêmur, superiormente”. Quando questionado, a maioria, 60% (15) achou que o termo correto é ainda Ilíaco, contra somente 20% (5) que sabiam o termo correto (Osso do quadril). Ninguém respondeu o termo Coxal e 20% (5) não sabiam o termo correto. Ele é um osso localizado na base da coluna vertebral dos mamíferos. No homem, o osso do quadril é formado a partir de três ossos, o ísquio, o púbis e o ílio, que se juntam com

a idade, mas no embrião são bem distinguíveis. O osso do quadril forma o esqueleto da pelve (pelve óssea), junto com os ossos do sacro e cóccix. Uma de suas principais funções além da sustentação é proteger o sistema reprodutor e o sistema digestivo inferiormente. O próximo termo já foi trocado algumas vezes, gerando confusão até hoje para os profissionais da saúde, e principalmente da educação física. Atualmente chamado de Latíssimo do Dorso, foi anteriormente nominado de Grande Dorsal, e mais anteriormente ainda de Latíssimo do Dorso novamente.

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Ele é um “músculo localizado na face posterior do tronco”, assim foi questionado na pesquisa. Dos pesquisados, 48% (12), creêm que o termo correto seje ainda Grande Dorsal, contra 44% (11) que assinalaram Latíssimo do Dorso, uma diferença insignificante, 8% (2) acham que o termo correto é Longuíssimo do Dorso, sendo difícil de se ouvir na prática diária e ninguém respondeu que não sabia. É um músculo que atua sobre os braços. A função deste músculo é de adução, rotação interna e extensão do ombro. O músculo localizado na face anterior do abdome é o Reto do Abdome, de acordo com a Terminologia Anatomia atual. É um músculo par que corre verticalmente em cada lado da parede anterior do abdome humano. Eles são dois músculos paralelos, separados por uma faixa de tecido conjuntivo chamada de linha alba. Ele se estende da sínfise púbica inferiormente ao processo xifóide e cartilagens costais inferiores, superiormente. Já foi chamado de Reto Abdominal, mas foi mudado no último encontro da Nomina Anatomica. Quatorzes profissionais (56%)

pesquisados colocaram que Reto

Abdominal seria o termo correto para essa estrutura; dez (40%) utilizam o termo correto (Reto

do Abdome) e uma minoria (4%) disseram não saber o termo correto e nenhum respondeu Abdominal como correto. Vale salientar que, em nosso vernáculo não existe a letra “n” do final de “Abdome”, ou seja, “Abdomen”, pois é assim que se ouve e se vê na prática diária. As pessoas continuam utilizando o termo em latim. Semimembranáceo, e não mais semimembranoso, é um músculo da face posterior da coxa, localiza-se na região medial póstero-inferior da coxa próximo à articulação do

joelho, e posterior ao Músculo Grácil. Dos pesquisados, 16% (4) dos profissionais pesquisados não souberam responder qual o termo correto (membranoso semimembranoso ou semimembranáceo); 40% (10) ainda acreditam no termo antigo; não obtivemos como resposta o termo “membranoso”. Observa-se que são termos muito parecidos, o que é normal gerar confusão nos profissionais ou ainda mesmo comodismo, ou seja, “qual a diferença em se pronunciar semimembranoso ou semimembranáceo? as pessoas entenderão do mesmo jeito”.

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Se todos pensarem assim, nunca conseguiremos falar a mesma língua anatômica e universalizar o ensino e a pesquisa. O corpo humano é dividido em sistemas, sendo um deles o Sistema Digestório, termo correto para designar o “sistema dividido em canal alimentar e órgãos anexos”. Cinquenta e dois porcento (13) conhecem e utilizam este termo, porém grande parte dos pesquisados, 36% (9) ainda utilizam “Sistema Digestivo”. 12% (3) não souberam a resposta correta e nenhum respondeu “Sistema Estomatognático” O órgão da audição, segundo a Terminologia Anatomica atual é chamado de Orelha. Não se utiliza mais o termo “ouvido”, pois confude-se com o verbo “ouvir”. Porém 40% (10) ainda insistem em utilizar o termo incorreto (ouvido) e somente metade, 20% (5) utilizam o termo correto (orelha). Uma quantia significante de pessoas, 32% (8) utilizam o termo “Pavilhão auditivo”, algo incomum de se ouvir na prática e 8% (2) não sabem o termo correto. O “tendão formado pela convergência das fibras dos músculos gastrocnêmio e sóleo” é chamado de Tendão do Calcâneo, segundo a atual Terminologia Anatômica. Ao se questionar aos pesquisados, 68% (17) assinalaram a opção correta; 20% (5) ainda acreditam que

o termo correto é Tendão de Aquiles; 4% (1) responderam Tendão do Gastrocnêmio e 8% (2) não sabem o nome desta estrutura. Segundo Bezerra (2000), o antigo Tendão de Aquiles é hoje denominado como Tendão do Calcâneo. É o tendão conjunto de inserção dos músculos gastrocnêmio e sóleo no osso calcâneo. O antigo nome deriva do fato de Aquiles haver sido seguro pelos tornozelos, ao ser mergulhado no lago batismal. Como a água benta não entrou em contato com o tendão calcâneo, essa parte do corpo ficou vulnerável. Na Guerra de Tróia, Aquiles foi posto fora de combate após ter tido seu tendão calcâneo transfixado por uma flecha, disparada pelo guerreiro Paris. Na prática do pesquisador, como profissional de educação física e acadêmico do curso de fisioterapia, esse termo é o mais utilizado incorretamente. É utilizado na prática tanto com profissional/profissional como profissional/cliente e terapeuta/paciente. Mesmo o tendão estando localizado na região do calcâneo e óbvio o termo dado a ele, as pessoas insistem no uso do epônimo, Aquiles.

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CONCLUSÃO Percebeu-se, portanto, que muitos termos ainda continuam sendo utilizados incorretamente quando se considera a Terminologia Anatômica. Os profissionais da educação física atuam diretamente com estas estruturas, principalmente as que correspondem ao sistema músculo esquelético, como ossos (patela, osso do quadril), músculos (semimembranáceo, latíssimo do dorso), articulações e tendões (tendão do calcâneo), pois são os responsáveis pelo movimento humano. Esta divergência de termos faz com que o ensino, a pesquisa e até o diálogo entre os profissionais e profissional/cliente fique confuso.

Apesar da Terminologia Anatômica Internacional não ser do agrado de todos e continuar apresentando algumas deficiências, seu uso é de enorme utilidade, já que permite facilitar e universalizar a comunicação entre os profissionais da educação física e profissionais da saúde em geral, além de pesquisadores, docentes e estudantes. Para obterem-se resultados ainda mais precisos, seria pertinente uma pesquisa composta por uma amostra maior, contando com a presença de mestres, doutores, pósdoutores e se possível, uma breve comparação entre profissionais de diversas áreas da saúde ou até mesmo entre graduados e estudantes.

Referências Bibliográficas ABIB, F.C.; ORÉFICE, F. Terminologia anatômica utilizada em oftalmologia. Arquivo Brasileiro de Oftalmologia. V. 2, n. 68, p, 273-276, 2005.

BACELAR, S; GALVÃO, C.C.A.T; TUBINO, P. Expressões Médicas errôneas: erros e acertos. Acta Cirúrgica Brasileira. V.19, n.5, p.582-584, 2004. BEZERRA, A.J.C; BEZERRA, R.F.A. Epônimos de uso corrente em Anatomia Humana: um glossário para Educadores Físicos. Revista Brasileira de Ciências e Movimento. V.8, n.3, p.4751, 2000a BEZERRA, A.J.C.; BEZERRA, R.F.A.; DI DIO, L.J.A. Brasil 500 anos: nomenclatura anatômica de um jesuíta no tempo do descobrimento. Revista da Associação Médica Brasileira. V. 2, n. 46, p.186-190, 2000b 48


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BUSETTI, J. H.; BUSETTI, M.P. A nomenclatura anatômica e a sua importância. Arquivos da Faculdade de Medicina do ABC, 2005. CHOPARD, R.P. Anatomia: conceito e introdução ao estudo. In: Neto, Marcílio Hubner de Miranda (orgs.). Anatomia Humana: aprendizagem dinâmica. Maringá: Ed. Clichetec, 2006, p. 7-16. DANGELO, J.G; FATTINI, C.A. Anatomia Humana: sistêmica e segmentar. São Paulo: Ed.Atheneu, 2007.

DI DIO, L.J.A. Lançamento Oficial da Terminologia Anatomica em São Paulo: uma marco histórico para a medicina brasileira. Revista da Associação Médica Brasileira, N.43, n.3, p.191193, 2000. NOVAK, E.M.; GIOSTRI, G.S.; NAGAI, A. Terminologia Anatômica em Ortopedia. Revista Brasileira de Ortopedia. V. 4, n.43, p. 103-107, 2008. VASQUEZ, C.U.; CUNHA, R.S. Fundamentos para la utilizacion da terminoloia anatomica. Kinesiologia, V.27, n.2, p.45-50, 2008.

Daniel Vicentini de Oliveira Discente do Curso de Pós-Graduação em Anatomia Funcional CESUMAR 49


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MÚSCULO PRONADOR REDONDO E NERVO MEDIANO: ESTUDO ANATÔMICO DAS CORRELAÇÕES E VARIAÇÕES ANATÔMICAS Mauricio Tabajara Almeida Borges1, Luiz Antonio Alves Filho2, Angelica Castilho Alonso3, Carlos Bandeira de Mello Monteiro4, Valdemir Rodrigues Pereira5 1

Técnico em Radiodiagnóstico e Fisioterapeuta Especialista em Anatomia Macroscópica e por Imagem e Especialista em

Fisioterapia Neurofuncional; mta.borges@gmail.com; 2Fisioterapeuta Especialista em Anatomia Macroscópica e por Imagens; luizfizio@uol.com.br ; 3Profissional da Educação Física e Fisioterapeuta, Doutora em Ciências pelo Departamento de Fisiopatologia Experimental – FMUSP e pesquisadora do laboratório do Estudo do Movimento- LEM-IOT-HC-FMUSP, São Paulo – SP.; angelicacastilho@msn.com ; 4 Profissional da Educação Física e Fisioterapeuta, Professor Doutor do curso de Ciências da Atividade Física da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP); carlosfisi@uol.com.br ; 5 Fisioterapeuta, Professor Mestre do curso de Pós Graduação em Anatomia Macroscópica e por Imagens do Centro Universitário São Camilo; val.morf@uol.com.br

RESUMO O nervo mediano (n.M) e o músculo pronador redondo (m.PR) são freqüentemente descritos na literatura por sua importância clínica e suas variações anatômicas estão correlacionadas a compressões e alterações sensório motoras no antebraço e na mão. Objetivo: verificar e correlacionar as variações anatômicas do n.M com o m.PR em nossa

população, através de dissecações, considerando o trajeto do nervo, os tipos de fibras desse músculo, lateralidade, grupo étnico e gênero.

Métodos: foram selecionados 15 cadáveres e após realizado a dissecação de 30 membros, através de materiais e protocolos pré estabelecidos pelo laboratório do Centro Universitário São Camilo e Escola Paulista de Medicina. 50


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As dissecações foram restritas à região do antebraço, no terço médio e mais detalhadamente na sua porção proximal, tomando-se as medições das peças e das relações entre elas, especificamente do m.PR e do n.M, bilateralmente. Com esse estudo concluímos que o nervo mediano atravessa as fibras da cabeça ulnar do m.PR na maioria dos membros com variações, (53,0%), assim como também é maioria (30,0%) do total de membros estudados. A cabeça umeral do m.PR não apresenta variações quanto ao tipo de fibras musculares, enquanto a cabeça ulnar apresenta variação em 33,3% dos casos, sendo observadas, com maior freqüência, as fibras mistas representando 26% dessas variações. Houve predomínio porcentual das variações do n.M transpassando o ventre da cabeça ulnar do m.PR no grupo étnico dos não brancos, sendo que essas variações ocorreram em maior número bilateralmente. O membro superior direito apresentou-se com maior número de variações anatômicas, 52,9% do total de membros superiores com variações. Com predomínio do n.M passando atrás da cabeça ulnar do m.PR.

Palavras chaves: Anatomia; nervo mediano; músculo pronador redondo, variações anatômicas.

Keywords: Anatomy; median nerve, the pronator teres muscle, anatomical variations.

INTRODUÇÃO O nervo mediano (n.M) tem um trajeto considerado normal quando assim passa

pelo músculo pronador redondo (m.PR) entre as suas duas cabeças. Tal músculo tem sua inserção proximal no processo coronóide da ulna e no epicôndilo medial do úmero, suas cabeças são denominadas Umeral e Ulnar e tem sua fixação distal no terço médio do rádio. Há relatos encontrados na literatura que tanto o n.M quanto o m.PR podem apresentar comportamento variados sendo o primeiro em seu trajeto e o segundo na sua composição morfológica1-7. 51


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Traumas na região cubital, hipertrofia muscular e faixas fibrosas podem levar a alterações motoras e sensoriais assim conhecida como a Síndrome do Pronador Redondo (SPR). Nessas condições podem levar indivíduos a apresentarem dor à palpação na face proximal da região anterior do antebraço se as atividades envolverem movimentos repetidos do cotovelo e pronação do antebraço com carga8-9. Outras causas também apontadas na SPR é a compressão do n.M entre as fibras musculares da cabeça ulnar do m.PR com o arco do m. flexor superficial dos dedos em sua inserção proximal (faixa de fibras anormais no arco citado, também chamado de “Ponte Sublimis”) e o ligamento de Struthes (ligamento entre o processo supra condilar e o epicondilo medial do úmero formando um túnel osteofibroso) 10-12 . A maioria dos trabalhos, até então publicados, são de origem internacional e trazem pouca informação quanto às variações anatômicas em nossa população, justificando assim a pesquisa. Também não fazem correlações quanto ao grupo étnico, prevalência quanto ao lado e ao gênero. Este trabalho tem como objetivo descrever e correlacionar as informações quanto às variações do n.M e do m.PR, confirmar as variações já pesquisadas em trabalhos publicados,

levantar dados das posições relativas entre essas estruturas e apurar as suas medidas em amostras de indivíduos da população brasileira, em função do sexo, grupo étnico e lateralidade.

MÉTODO Trata-se de uma pesquisa qualitativa e quantitativa, realizada nos laboratórios de Anatomia Humana do Centro Universitário São Camilo e na Escola Paulista de Medicina, após autorização, consentimento e supervisão dos professores responsáveis pelos respectivos

laboratórios e curso. A pesquisa foi dividida em duas etapas sendo a primeira com a seleção e dissecação de 15 cadáveres de nacionalidade brasileira, sendo 10 desses pertencentes ao laboratório de anatomia do Centro Universitário São Camilo, Campus Ipiranga e 05 pertencentes à Escola Paulista de Medicina. Em seguida realizamos levantamento de dados com relação ao gênero, grupo étnico e idade aproximada dos cadáveres. 52


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Na segunda etapa foram realizadas dissecações em 30 Membros Superiores e durante o procedimento foram quantificadas, qualificadas, mensuradas e fotografadas as estruturas e as variações encontradas. As medições das secções transversais dos nervos e de seus ramos foram tomadas em sua maior amplitude, obedecendo aos pontos previamente estabelecidos pelo Protocolo de Pesquisa. As medições do ventre muscular da cabeça Umeral do m.PR foram realizadas obtendo-se as dimensões, ântero-posterior e látero-lateral do ventre muscular na região em que tangencia o n.M, na sua porção mais proximal. A Linha Articular, linha imaginaria entre os dois epicôndilos do Úmero, foi identificada com uma linha de cordone branco para facilitar a visualização e dar melhor rigor para as medições das distancias entre esta linha imaginaria e as derivações do n.M para enervações das cabeças Umeral e Ulnar do m.PR, assim como a distancia da Linha Articular ao arco tendinoso do m. Flexor Superficial dos Dedos, “Ponte Sublimis”.

Foram excluídos da pesquisa os cadáveres que apresentavam qualquer impossibilidade de realizar a pesquisa de forma bilateral.

RESULTADOS

Os 15 cadáveres dissecados na pesquisa são todos de nacionalidade brasileira e adultos. Os grupos étnicos e respectivas participações na pesquisa foram de 08 cadáveres não

brancos, (53,3% do total), e de brancos, 07 cadáveres (46,7% do total). O gênero predominante foi o masculino com 13 cadáveres, (86,6%) e 2 do gênero feminino,(13,4%). Em relação aos 30 membros estudados e o traçado do n.M com as cabeças do m.PR e suas variações, (Tabela-1), apurou-se que em 13 membros não foi encontrada qualquer variação, conforme parâmetros topográficos citados na literatura, (43,3% do total). Em 17 membros foi encontrado algum tipo de variação, (56,7% do total). 53


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Desses 17 membros, 08 apresentaram o n.M posterior às duas cabeças do m.PR, (47,0% dos 17 membros com algum tipo de variação) e 26,7% do total dos 30 membros estudados e ainda, desses 17 casos que apresentaram algum tipo de variação, foram encontrados 09, nos quais o n.M transpassa o ventre da cabeça Ulnar. (Figura-1). Em relação às fibras musculares das cabeças Umeral e Ulnar do m.PR, apurou-se que a cabeça umeral do m.PR foi encontrada nos 15 cadáveres apresentando em todos eles fixações proximais e distais regulares, com os seus ventres constituídos de fibras musculares. A cabeça Ulnar foi encontrada nos 15 cadáveres onde 14 deles, (93,3%), as suas inserções, bilateralmente, foram encontradas com topografia regular, sendo que em 1 dos 15 cadáveres, (6,6%), a inserção distal foi encontrada, bilateralmente, ligeiramente mais proximal, destacandose parcialmente da inserção distal da cabeça Umeral. Em 3 cadáveres, (20,0%) dos 15 estudados, foram encontradas, bilateralmente, fibras mistas no ventre muscular e em 1 outro cadáver, (6,6%), foi encontrada, unilateralmente, fibras mistas. (Figura-2) Com relação ao grupo étnico e a ocorrência de variações do trajeto do n.M em relação ao m.PR, dos 08 cadáveres de indivíduos não brancos, (53,3%), foi constatado que em

03, (37,5%), não se observou qualquer variação. Em 02, (25,0%), o n.M transpassava o ventre da cabeça Ulnar bilateralmente. Em 01, (12,5%) apresentava o n.M passando posterior às duas cabeças do m.PR, bilateralmente. Em 01, (12,5%), apresentava o n.M posterior às duas cabeças do m. PR, em um dos membros, e no outro membro transpassando a cabeça Ulnar. Em 01, (12,5%), apresentava o n.M transpassando a cabeça Ulnar, em um dos membros, e no outro membro sem variação. Já no grupo étnico branco 07 cadáveres (46,7%), foram constatados que em 02

(28,5%) apresentaram qualquer variação, bilateralmente. Em 02, (28,5%), apresentavam o n.M transpassando a cabeça Ulnar, em um dos membros, e no outro membro, sem variação. Em 01 (14,3%), apresentava o n.M transpassando o ventre da cabeça Ulnar bilateralmente. Em 01 (14,3%) apresentava o n.M passando posterior às duas cabeças do m.PR, bilateralmente. Em 01 (14,3%) apresentava o n.M posterior às duas cabeças do m. PR, em um dos membros, e no outro membro, transpassando a cabeça Ulnar. 54


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Com relação ao gênero e a ocorrência de variações no trajeto do n.M em relação ao m.PR dos 13 cadáveres de indivíduos do gênero masculino foi constatado que em 05 cadáveres (38,4%) não se constatou qualquer variação. Em 02 (15,4%) constatou-se o n.M passando posterior às duas cabeças do m.PR, bilateralmente. Em 02 (15,4%) constatou-se o n.M transpassando o ventre da cabeça Ulnar, bilateralmente. Em 02 (15,4%) constatou-se o n.M posterior às duas cabeças do m. PR, em um dos membros e no outro membro transpassando a cabeça Ulnar. Em 02 (15,4%) constatou-se o n.M transpassando a cabeça Ulnar, em um dos membros e no outro membro sem variação. Entre os 02 cadáveres de indivíduos do gênero feminino foi constatado que em 01 cadáver (50,0%) o n.M transpassando o ventre da cabeça Ulnar bilateralmente. Em 01 cadáver (50,0%) constatou-se, em um dos membros, o n.M posterior às duas cabeças do m. PR e no outro membro, transpassando a cabeça Ulnar. Na variação quanto a lateralidade no trajeto do n.M em relação ao m.PR constatou-se que dos 15 cadáveres, 05 (33,4%) não apresentaram qualquer variação, 07 (46,6%)

apresentaram variação bilateral e 03 (20,0%) apresentaram variação em um dos membros, sendo 01 caso em que o n.M transpassa o ventre da cabeça Ulnar e 02 casos em que o n. M está posterior às cabeças do m.PR. Os 10 cadáveres com variações, apresentaram alterações em 09 dos seus membros superiores direitos e 08 dos seus membros superiores esquerdos. Tabela1. Variações do n.M – Relativa ao seu traçado e as cabeças do m.PR

PP

Cadáver

MS

Variação Anatômica: Traçado do n. M.

Variação Anat.: Ramos do n.M. p/ m.PR

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13

009 009 006 006 014 014 013 013 011 011 002 002 016

E D E D E D E D E D E D E

Posterior às cabeças do m.PR Posterior às cabeças do m.PR Sem Variações Sem Variações Sem Variações Sem Variações Posterior às cabeças do m.PR Transpassa ventre da cab. ulnar Sem Variações Posterior às cabeças do m.PR Sem Variações Sem Variações Transpassa ventre da cab. ulnar

14

016

D

Sem Variações

Visualização prejudicada Visualização prejudicada Sem Variações Sem Variações Sem Variações Visualização prejudicada Sem Variações Visualização prejudicada Sem Variações Sem Variações Sem Variações Sem Variações Origem acima da linha articular p/ as duas cabeças Visualização prejudicada

55


Posterior às cabeças do m.PR Sem Variações 07 013 E O ANATOMISTA Ano 3, Vol ume 2, Abril-Junho, 2012 Transpassa ventre da cab. ulnar Visualização prejudicada 08 013 D Sem Variações Sem Variações 09 011 E Posterior às cabeças do m.PR Sem Variações 10Original: 011 MÚSCULO D PRONADOR Artigo REDONDO E NERVO MEDIANO: ESTUDO ANATÔMICO DAS Sem Variações Sem Variações 11 002 E E VARIAÇÕES ANATÔMICAS Sem Variações Sem Variações 12 002 D CORRELAÇÕES Transpassa ventre da cab. ulnar Origem acima da linha 13 016 E Sem Variações Sem Variações Posterior ás cabeças do m.PR Transpassa ventre da cab. ulnar Transpassa ventre da cab. ulnar Transpassa ventre da cab. ulnar (fibras musculotendíneas) Posterior às cabeças do m.PR Transpassa ventre da cab. ulnar

14 15 16 17 18 19

016 004 004 017 017 005

D E D E D E

20 21

005 008/ 2003 008/ 2003 011/ 2002 011/ 2002 010/ 2002

D E

D

Posterior às cabeças do m.PR

27 28

010/ 2002 01/99 01/99

E D

Sem Variações Sem Variações

29 30

007/2004 E 007/2004 D

Sem Variações Sem Variações

22 23 24 25 26

D E D E

Transpassa ventre da cab. ulnar n.M mais medializado à f.C Transpassa ventre da cab. Ulnar Mediano à f.C. Transpassa ventre da cab. ulnar Mediano à f.C. Posterior às cabeças do m.PR Mediano à f.C.

articular p/ as duas cabeças Visualização prejudicada Sem Variações Visualização prejudicada Sem Variações Sem Variações Visualização prejudicada Visualização prejudicada Visualização prejudicada Ramo da cab. umeral origem acima da linha articular. Ramo da cab. umeral origem acima da linha articular. Ramos duplos para cada cabeça do m.PR Cabeça umeral visualização prejudicada. Cabeça Ulnar sem variações. Origem p/ cabeças derivam do mesmo ponto do n.M Sem Variações Ramo da cabeça umeral acima da linha articular. Visualização prejudicada Visualização prejudicada

Legenda: PP = Protocolo de Pesquisa; MS = Membro Superior; f.C. = fossa cubital Cabeça ulnar do m.PR

Cabeça umeral do m.PR

n.M

Figura 1 – n.M transpassando a cabeça Ulnar do m.PR

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Artigo Original: MÚSCULO PRONADOR REDONDO E NERVO MEDIANO: ESTUDO ANATÔMICO DAS CORRELAÇÕES E VARIAÇÕES ANATÔMICAS Fibras tendíneas

Fibras musculares

Figura 2 – cabeça Ulnar do m.PR apresentando fibras mistas

DISCUSSÃO

Nos trabalhos pesquisados os autores não relatam sobre as variações anatômicas

do n. M e a relação com m.PR em a nossa população, a exceção de 01 autor5-6 que desenvolve este estudo profundamente, porém, não estabelece uma correlação quanto ao grupo étnico, à lateralidade e ao gênero. Observou-se nos cadáveres pesquisados que em 17 de seus membros (56,7%) foram encontradas variações no trajeto do n.M com relação ao m.PR, confirmando algumas das variações descritas na literatura3-4. Porém constatamos valores porcentuais superiores aos já relatados1, 10, 13.

Dentre as variações pesquisadas, o trajeto mais freqüente do n.M descrito na literatura3-4 é aquele em que o n.M passa entre as fibras da cabeça Umeral do m.PR. Nesse estudo, foi observada uma predominância do n.M transpassando as fibras da cabeça Ulnar. Esses dados encontrados em nossa pesquisa corroboram com WIGGINS (1982), que descreve a possível ocorrência da SPR quando o n.M em seu trajeto apresenta variação com o m.PR quando esse nervo passa entre as fibras da cabeça ulnar. 57


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As variações apontadas por autores

5, 6, 7, 13

com relação à cabeça umeral do

m.PR, não foram encontradas nos 15 cadáveres estudados nesse trabalho, sendo encontradas as duas cabeças em 100% dos casos, tanto nas inserções proximais como distais e também quanto as suas características miotendíneas. Observou-se que a cabeça Ulnar do m.PR teve um maior índice de variações, onde em 04 cadáveres (26,6%) observou-se fibras mistas, bilateralmente. A cabeça ulnar mostrou-se também presente em 100% dos casos pesquisados, ocorrendo assim, dados diferentes, se comparados com a literatura pesquisada5-14, onde a cabeça umeral é apontada como predominante nas variações musculares. Segundo STABILLE (2002) essas variações do m.PR podem levar à SPR, porém a ocorrência de variação da cabeça ulnar leva a dados adicionais para a ocorrência dessa Síndrome. Observou-se no grupo étnico dos cadáveres pesquisados um predomínio de variação do grupo não brancos sendo 08 indivíduos (53,3%) com variação no trajeto do n.M, onde observamos o n.M transpassando o ventre da cabeça ulnar do m.PR de forma bilateral na

maioria dos casos. Em relação ao grupo étnico branco, 07 indivíduos (46,7%) apresentaram variação, sendo a mais freqüente o n.M transpassando o ventre da cabeça ulnar unilateral. Não encontramos em toda literatura pesquisada correlações quanto ao grupo étnico, assim podemos atribuir uma tendência maior para a ocorrência da SPR ao grupo não branco. Quanto ao gênero dos cadáveres, a variação anatômica do n.M com relação ao m.PR, foi encontrado em todos os casos do gênero feminino, 02 cadáveres, e de incidência bilateral. Dos 13 cadáveres do gênero masculino, em 08 cadáveres (61,5%) foram encontrados

diferentes tipos de variações anatômicas, e nos outros 05 cadáveres restantes (38,5%) não foi observado nenhum tipo de variação. Apesar das variações estarem presentes em 100% dos casos no gênero feminino, o número de cadáveres femininos foi reduzido, não sendo possível estabelecer correlações significativas quanto ao predomínio entre os gêneros dos cadáveres pesquisados, o que, possivelmente, justifica a ausência dessa informação na literatura pesquisada. 58


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Com relação à prevalência de variação anatômica quanto à lateralidade observouse que dos 15 cadáveres, 10 deles (66,6%) apresentaram variações, sendo que 07 apresentaram variações bilaterais (46,6%), e outros 03 cadáveres apresentaram variação em um dos membros (20%). Nesses 10 cadáveres que apresentaram variações, em 09 de seus membros superiores direitos e 08 de seus membros superiores esquerdos, o n.M apresentou variação quanto ao trajeto, representando, portanto, um discreto predomínio do lado direito. Esses 17 membros com variações representam 56,6% do total de 30 braços estudados. Quando a variação anatômica observada aconteceu de forma unilateral, 03 cadáveres, o membro superior direito foi o mais freqüente, ou seja, 02 membros superiores direito apresentaram variação anatômica com relação ao trajeto no n.M, contra 01 membro superior esquerdo.

CONCLUSÕES

Com esse estudo concluímos que o nervo mediano atravessa as fibras da cabeça ulnar do m.PR na maioria dos membros com variações, (53,0%), assim como também é maioria (30,0%) do total de membros estudados. A cabeça umeral do m.PR não apresenta variações quanto ao tipo de fibras musculares, enquanto a cabeça ulnar apresenta variação em 33,3% dos casos, sendo observadas, com maior freqüência, as fibras mistas representando 26% dessas variações. Houve predomínio porcentual das variações do n.M transpassando o ventre da

cabeça ulnar do m.PR no grupo étnico dos não brancos, sendo que essas variações ocorreram em maior número bilateralmente. O membro superior direito apresentou-se com maior número de variações anatômicas, 52,9% do total de membros superiores com variações. Com predomínio do n.M passando atrás da cabeça ulnar do m.PR.

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1982. 11. CORRIGAN, B. ; MAITLAND, G. D.

Prática clínica. Ortopedia e Reumatologia,

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Artigo Original

IDENTIFICAÇÃO DA OCORRÊNCIA DE NULIPARIDADE, DE MULTIPARIDADE, E AVALIAÇÃO DO COMPRIMENTO E DAS LARGURAS DE ÚTEROS HUMANOS ISOLADOS MOISÉS APARECIDO VALENTE1, NATHÁLIA FERNANDES1, RENATO RIBEIRO NOGUEIRA FERRAZ2 1Graduando

do curso Ciências Biológicas da Universidade Nove de Julho – UNINOVE; 2Biólogo, Mestre e Doutor em

Ciências Básicas pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP. Pedagogo pela UNINOVE. Docente do Departamento de Saúde da UNINOVE - renato@nefro.epm.br

RESUMO Introdução: A identificação de nuliparidade ou multiparidade em úteros humanos requer tanto habilidades práticas quanto conhecimentos teóricos em Anatomia Humana. A capacitação de indivíduos incumbidos desta avaliação deve passar por um minucioso treinamento com respeito à

Anatomia de úteros humanos, que deve se iniciar nos laboratórios de Anatomia, ainda no período de Graduação. Objetivo: Quantificar a ocorrência de nuliparidade e multiparidade em úteros humanos isolados ou in situ. Método: Trata-se de um estudo descritivo e de abordagem quantitativa, realizado nos laboratórios de Anatomia de uma Universidade particular da cidade de São Paulo - SP. Os espécimes foram avaliados baseando-se na presença ou não do istmo e no formato do óstio uterino. Resultados: Entre os 56 úteros avaliados, foram identificadas 34 peças

(61% da amostra) com óstio fendido, 18 peças (32%) com óstio circular e 4 peças (7%) com óstios inclassificáveis. Com relação ao istmo, este se mostrou presente em 44 úteros (78% da amostra), ausente em 10 úteros (18%) e inclassificável em 2 espécimes (4% do total). Dos úteros avaliados, 18 deles (32%) pertenciam à nulíparas e 34 deles (61% do total) pertenciam à multíparas. Quatro espécimes (7% do total) não puderam ser avaliados. Conclusão: A escassez de informações disponíveis na literatura sobre a predominância de úteros de nulíparas ou multíparas 62


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disponíveis para estudo prático nos laboratórios de Anatomia das Universidades brasileiras demonstra que o treinamento de alunos com relação à identificação de variações anatômicas permite conhecer melhor alguns aspectos morfológicos dos úteros humanos, colaborando com importantes informações que podem servir de base didático-pedagógica no ensino da Anatomia, além de contribuir para o ensino de condutas forenses e médico-cirúrgicas.

Descritores: Útero; Nulípara; Multípara; Óstio; Istmo.

INTRODUÇÃO O sistema genital feminino é composto por um conjunto de órgãos com funções bastante distintas. Estes órgãos são encarregados pelo armazenamento e amadurecimento dos gametas femininos (ovários), responsáveis pela recepção dos gametas masculinos durante a cópula (vagina), responsáveis também por fornecer o local para a ocorrência da fecundação e manutenção da gestação, além de encarregados de expulsar o feto quando este chega a termo

(útero). Do ponto de vista da reprodução, o organismo feminino possui órgãos um tanto complexos quanto à sua Fisiologia, em especial pelo fato de, como dito, abrigar e propiciar o desenvolvimento do novo ser vivo1. O termo “reprodução” refere-se tanto à formação de novas células para o crescimento dos tecidos, reparo ou substituição, quanto à produção de um novo indivíduo. O processo ocorre continuamente ao longo da vida. No organismo humano, a reprodução com o intuito de gerar um novo ser requer a presença de gametas masculinos e femininos. A fecundação corresponde ao momento em que um ovócito maduro é fecundado por um único espermatozóide, ocorrendo na ampola da tuba uterina 2,3. Em humanos, a reprodução sexuada é o processo pelo qual os organismos geram sua prole. No processo, ocorre a fusão do pró-núcleo masculino (presente no espermatozóide) ao pró-núcleo feminino (presente no ovócito maduro), caracterizando a ocorrência da fertilização (ou fecundação). 63


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Este processo resulta na formação de uma célula contendo o conjunto de cromossomos de cada progenitor, sendo que cada um contribui com metade da informação genética necessária para dirigir o desenvolvimento do novo ser humano2, 3. O aparelho genital feminino é formado por órgãos internos e externos. Ao conjunto dos órgãos genitais externos dá-se o nome de vulva. Esta é constituída pelo monte do púbis, pelos lábios maiores e menores do pudendo, pelo vestíbulo da vagina (cavidade menor que antecede a cavidade vaginal, delimitada pelos lábios menores do pudendo, e onde se abre o óstio da vagina), e pelo clitóris (encontrado logo na porção superior do vestíbulo). Embora a uretra se abra no vestíbulo da vagina, ela não pertence ao sistema genital, mas sim ao sistema urinário. Os órgãos genitais internos são a vagina, os ovários, as tubas uterinas e útero2-5. A função básica da vagina é permitir a entrada e saída do pênis durante o processo de cópula, e também a saída do feto na vigência de parto natural. Também permite a eliminação do endométrio, que “descola” do útero durante a menstruação. Os ovários têm a função de armazenamento, amadurecimento e eliminação dos ovócitos, além de funcionar

como uma verdadeira glândula endócrina, produzindo principalmente estrogênios e progestinas, responsáveis pela maturação sexual e manutenção do endométrio, em resposta à liberação de hormônios hipotalâmicos. As tubas uterinas atuam como vias condutoras tanto dos espermatozóides em direção à sua ampola, quanto do ovócito maduro em direção a esta mesma ampola, visando à fertilização. Ainda, transportam o zigoto desta ampola até o útero, onde este se implantará. Por sua vez, o útero terá a função de abrigar e propiciar a nutrição e desenvolvimento interno do embrião e, a seguir, do feto, até o nascimento. Durante os ciclos

reprodutivos, quando não ocorre a implantação, o útero é a fonte do fluxo menstrual, que corresponde ao deslocamento da camada funcional de sua parede mais interna, denominada endométrio 2-7. Situado na parte anterior da cavidade pélvica, e envolvido pelo ligamento largo, o útero tem em geral a forma de uma pêra invertida, achatada no sentido ântero-posterior, e que apresenta em sua estrutura três camadas distintas: o endométrio, que sofre modificações 64


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estruturais de acordo com a fase do ciclo reprodutivo ou da gravidez; o miométrio, constituído basicamente por fibras musculares lisas, que forma a maior parte da parede uterina; e o perimétrio, que corresponde à camada mais externa do útero, formado pelo peritônio visceral que recobre o órgão. O perimétrio, pelo crescimento da região ístmica, desprende-se do miométrio, favorecendo seu deslocamento durante a prática da histerotomia segmentar na cesárea1–9. O útero varia de forma, tamanho, posição e estrutura. Estas variações dependem da idade, do estado de plenitude ou vacuidade da bexiga, da anatomia do reto e, sobretudo, do estágio da gestação. O útero não grávido pode variar de 7 a 8 cm de comprimento no eixo longitudinal, 5 a 7 cm de largura em sua porção superior, e 2 a 3 cm de espessura, com capacidade aproximadamente menor do que 10 ml. Na gravidez, a capacidade uterina pode chegar a 5.000 ml, ou mesmo a 10.000 ml em situações especiais, como gestação múltipla ou hidrâmnio1-8,10. Anatomicamente, o útero pode ser dividido em quatro partes principais: fundo do útero, corpo do útero, ístmo do útero e cervix ou colo do útero1-8,

10, 11.

Quando visto

lateralmente, mostra-se curvado anteriormente sobre si mesmo, de modo que o corpo angula com relação ao colo do útero: diz-se que o útero está em anteflexão. O longo eixo do colo forma um ângulo de cerca de 90º com o longo eixo da vagina, caracterizando-se anteversão. Com o enchimento da bexiga, o útero pode se retroverter, isto é, voltar-se superior e posteriormente, o que pode ocorrer em certa porcentagem de mulheres, mesmo com a bexiga vazia1. O corpo do útero se comunica bilateralmente com as tubas uterinas. A porção

uterina que fica acima da desembocadura das tubas uterinas é o fundo do útero, ladeado pelos cornos do útero, direito e esquerdo, que são os ângulos superolaterais do corpo uterino, correspondentes às entradas das tubas uterinas. O corpo do útero estende-se até o istmo que, quando presente, possui algo em torno de 1 cm ou menos. A ele segue-se o colo do útero, que faz projeção na vagina, comunicando-se com essa pelo óstio do útero. Esse óstio, algumas vezes em forma de fenda e outras em formato circular, apresenta dois lábios, o anterior e o posterior1. 65


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A forma do óstio do útero, e mesmo a forma de seus lábios, além da ausência, presença e extensão do istmo, sofre variações com a idade, com a fase gestacional, e com a nuliparidade ou multiparidade1. O colo uterino é a porção fibromuscular inferior do útero e varia de tamanho e formato de acordo com a idade da mulher, da paridade e do estado hormonal, sendo na nulípara cônico com orifício externo puntiforme e fechado, e nas multíparas cilíndrico com orifício externo entreaberto e, com frequência, bilabiado9,11. Em relação à paridade, denominam-se mulheres nulíparas as que nunca pariram e multíparas as que já pariram, evidenciando uma alteração morfológica no óstio uterino. Ainda, na literatura Anatômica, refere-se como primípara a mulher que esteja em sua primeira gestação12. Utilizando o termo nulípara para nenhuma paridade e multípara para uma ou mais paridades, é fato que nas multíparas o colo uterino é volumoso, e o óstio uterino apresentase como uma fenda larga, entreaberta e transversa13. Em mulheres nulíparas, o óstio uterino assemelha-se a uma pequena abertura circular no centro do colo9,12. As diferenças das partes uterinas em nulíparas e multíparas ficam evidenciadas

quando analisadas separadamente. O útero em mulheres nulíparas mede aproximadamente 7,5 de comprimento total, 5 a 7 cm de comprimento em sua parte superior, 3 a 5 de largura em sua parte inferior, e 2,5 cm de espessura, sendo maior nas mulheres que engravidaram recentemente, e menor (atrofiado) quando os níveis hormonais são baixos, como ocorre após a menopausa2,3,10. Na nulípara, a cavidade uterina tem cerca de 4,5 a 5,5 de profundidade, a partir do óstio uterino. Após uma gestação, o útero leva de seis a oito semanas para retornar à sua

condição de repouso, apresentando 1 cm a mais em todas as suas dimensões 8. O istmo do útero apresenta-se com cerca de 1 cm ou menos de comprimento, sendo uma zona de transição entre o corpo e o colo do útero, esta leve constrição é mais evidente em mulheres multíparas 11,13,14. A identificação de nuliparidade ou multiparidade em úteros humanos requer tanto habilidades práticas quanto conhecimentos teóricos em Anatomia Humana. 66


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A capacitação de indivíduos incumbidos desta avaliação deve passar por um minucioso treinamento com respeito à Anatomia de úteros humanos, que deve se iniciar nos laboratórios de Anatomia, ainda no período de Graduação. Por outro lado, não se encontram disponíveis na literatura informações quantitativas concretas sobre a predominância de úteros de nulíparas ou multíparas disponíveis para estudo prático nos laboratórios de Anatomia das Universidades brasileiras. A condução de trabalhos que quantifiquem com clareza estas variações permitiria melhor conhecer alguns aspectos morfológicos dos úteros humanos. Frente ao exposto, julga-se importante realizar a quantificação dessas variações, fornecendo informações que poderão servir de base didático-pedagógica no ensino da Anatomia Humana, além de contribuir para o ensino de condutas ginecológicas, forenses e cirúrgicas.

OBJETIVO Quantificar a ocorrência de nuliparidade e multiparidade em úteros humanos isolados ou in situ.

MÉTODO Trata-se de um estudo descritivo e de abordagem quantitativa, realizado nos laboratórios de Anatomia de uma Universidade particular da cidade de São Paulo - SP. O período de coleta de dados para a realização deste trabalho estendeu-se de outubro de 2011 a março de 2012. Os objetos de interesse desta pesquisa foram todos os úteros humanos isolados ou in situ disponíveis nos laboratórios citados. Estes úteros foram avaliados individualmente e classificados como pertencentes à mulheres nulíparas ou multíparas, baseando-se nas

peculiaridades descritas na Introdução deste artigo. Ainda, o comprimento médio (do fundo ao colo) e as larguras superior (na região do fundo) e inferior (na região do colo) também foram verificados. As larguras e o comprimento dos espécimes foram apresentados pelos seus valores médios ± desvio-padrão. A presença ou não do istmo, bem como a presença de óstio circular ou fendido, foram apresentados pelos seus valores absolutos e percentuais relativos ao tamanho total da amostra, não havendo a necessidade de aplicação de testes estatísticos específicos. 67


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Nenhum registro fotográfico ou em vídeo das peças analisadas foi realizado. Ainda, não foi divulgada nenhuma informação que pudesse identificar os úteros avaliados ou mesmo a Universidade na qual o trabalho foi realizado. Esta pesquisa foi registrada no Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) sob o no. 450986 – 2011, autorizado pela instituição onde foi realizado, e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da própria Instituição por obedecer às diretrizes previstas na resolução 196/96 do CONEP.

RESULTADOS A amostra deste estudo constitui-se de 56 úteros. Destes, 34 peças (61% da amostra) apresentaram óstio fendido, sugerindo multiparidade, 18 peças (32% do total) possuíam óstio circular, sugerindo nuliparidade, e 4 espécimes (7% do total) não puderam ser avaliados com respeito ao formato do óstio. Com relação à presença ou não de istmo, este se mostrou presente em 44 úteros (totalizando 78% da amostra), sugerindo multiparidade, ausente em 10 peças (correspondendo a

18% do total), sugerindo nuliparidade, e 2 úteros (4% das avaliações) não puderam ser categorizados quanto à presença ou ausência do istmo. Quanto ao comprimento, os úteros se mostraram bastante diversos, apresentando uma média de aproximadamente 6,5 ± 1,4 cm, da base do colo até o fundo do útero, conforme demonstrado na Figura 1.

Figura 1: Distribuição dos úteros avaliados com relação ao comprimento

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Na análise da largura superior, correspondente ao eixo látero-lateral no fundo do útero, foi verificada uma largura média de 5,0 ± 1,2 cm. Com relação à largura inferior, medida no colo do útero, a média encontrada foi de 4,2 ± 1,0 cm (Figura 2).

Largura Inferior

10 5

N/A

7

6

Centímetros

6,5

5,5

5

4,5

4

3,5

0

20 10 0

2 2,5 3 3,5 4 4,5 5 5,5 6 N/A

Frequência

15

3

Frequência

Largura Superior

Centímetros

Figura 2: Distribuição dos úteros avaliados com relação às larguras

Na avaliação conjunta que levou em consideração o formato do óstio e a presença ou ausência de istmo, dos 56 espécimes estudados, 32 deles (equivalendo a 57% do total), possuíam óstio fendido e apresentavam istmo sendo, portanto, pertencentes a multíparas, e 18 deles (32% da amostra) possuíam óstio circular e não apresentavam istmo, sendo pertencentes, portanto, às mulheres nulíparas. Apenas 6 úteros (11% dos espécimes avaliados) não apresentavam concomitantemente as duas características estudadas.

DISCUSSÃO O treinamento anatômico de estudantes, ainda no período de graduação, mostrase de extrema importância quando se leva em consideração a capacitação de profissionais para, futuramente, atuarem nas mais distintas áreas ligadas não só à Ciência Forense como, por

exemplo, a perícia criminal, mas também prepará-los para a atuação em profissões que necessitem do conhecimento em Anatomia Humana para que sejam exercidas de maneira o mais próximo possível da perfeição, em especial a enfermagem, medicina e fisioterapia. Utilizando-se do termo nulípara para classificar peças sem qualquer indício de paridade, e multípara para peças com características sugestivas de multiparidade, já está bem estabelecido que em multíparas o colo uterino é volumoso, e o óstio uterino apresenta-se como uma fenda 69


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larga, entreaberta e transversa13. Em úteros de nulíparas, o óstio uterino assemelha-se a uma pequena abertura circular no centro do colo9,12. Com relação ao istmo do útero, que quando presente na maioria das vezes apresenta cerca de 1 cm ou menos de comprimento, este se mostra como uma zona de transição entre o corpo e o colo do útero, sendo facilmente evidenciado em mulheres multíparas e, na maioria dos casos, ausente nas nulíparas11,13,14. Os resultados observados neste trabalho com relação tanto ao comprimento quanto às larguras dos espécimes avaliados encontra-se em pleno acordo com dados amplamente disponíveis na Literatura Anatômica2,3,10. Todavia, até o presente momento, não estão disponíveis trabalhos que tenham, de alguma maneira, classificado os úteros disponíveis para estudos anatômicos como sendo pertencentes à nulíparas ou multíparas. Tal fato faz com que nosso breve levantamento seja, pelo menos até o presente momento, pioneiro. Uma possível explicação para tal resultado talvez se resuma no fato de que a maioria dos cadáveres femininos disponíveis nas Universidades brasileiras sejam pertencentes à mulheres adultas, em idade reprodutiva. São raros os espécimes cadavéricos de jovens, em especial, do sexo feminino15-17.

Assumimos que a presente pesquisa demonstra apenas a incidência pontual de uma peculiaridade anatômica específica. Todavia, chama a atenção para o fato de que, em termos didáticos, a Anatomia como ciência e componente das grades curriculares dos cursos de saúde não deve mais ser apresentada apenas como uma lista de localizações e nomenclaturas. Seu ensino de maneira aplicável, ainda na graduação, pode influenciar o estudante na busca de novos horizontes práticos para uma área tão fascinante como a Anatomia Humana.

CONCLUSÃO Evidenciou-se a predominância de úteros de mulheres multíparas nos laboratórios de Anatomia da universidade avaliada. A condução de trabalhos que quantifiquem com clareza as variações anatômicas permite conhecer melhor alguns aspectos morfológicos da Anatomia Humana, colaborando com importantes informações que podem servir de base didático-pedagógica no ensino da própria Anatomia, além de contribuir para o ensino de condutas forenses, ginecológicas e médico-cirúrgicas.

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15. Brasil. Lei nº 8.501, de 1992. Dispõe sobre a utilização de cadáver não reclamado, para fins de estudos ou pesquisas científicas e da outras providências. Brasília, DF, 30 de novembro 1992. 16. Guimarães MA. The challenge of identifying deceased individuals in Brazil: from dictatorship to DNA analysis. Sci Justice. 2003; 43(4):215-17. 17. Espirito Santo AM, Theophilo FV, Fonseca H, Prates JC, Andrade OP; Freire PS. Uso de cadáveres no estudo de Anatomia Humana nas escolas da área da saúde. Rev Goiana Med 1981; 27(1/2):107-116.

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NOTAS HISTÓRICAS SOBRE A CAPTAÇÃO DE CORPOS PARA ESTUDO CIENTÍFICO E A CONTROVÉRSIA CONTEMPORÂNEA ENTRE CÉTICOS TRADICIONALISTAS E REFORMISTAS ACERCA DO USO DE CADÁVERES NO ENSINO DE ANATOMIA HUMANA Luiz Henrique de Lacerda Abrahão Professor de História, Filosofia e Historiografia das Ciências do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG campus Ouro Preto) - luizpaideia@hotmail.com

I – Breve narrativa sobre a captação de cadáveres para estudo médico-anatômico Por muitos séculos, a principal provisão – seja oficial ou clandestina – de

cadáveres para estudo anatômico consistiu na destinação compulsória de corpos de criminosos executados em penas capitais (BAY, BAY 2010). Achados arqueológicos apontam práticas anatômicas no Império Persa e no antigo Egito (SHOJA, TUBBS 2007); e pesquisas baseadas em análise de obras de arte da antiguidade grega – especialmente as epopéias homéricas e esculturas arcaicas (HILOOWALA 2000; ANASTASSIOS et al. 2008) – indicam rudimentos saberes sobre partes e estrutura do corpo humano em torno do século IX a.C. (TROMPOUKIS,

KOURKOUTAS 2007). No entanto, note-se, as primeiras vivisseções e dissecações regulares e sistemáticas documentadas no Ocidente, empregando material cadavérico de condenados à morte, datam somente do século III de nossa era com as pioneiras atividades dos anatomistas gregos Herófilo e Erasistrato junto à Escola Médica de Alexandria (ŠTRKALJ, CHORN 2008). Com efeito, antes do período alexandrino – incluindo mesmo a celebrada medicina hipocrática e as investigações botânicas e zoológicas aristotélicas (BLITS 1999) –, as rudimentares noções 73


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anatômicas resultavam da observação de gladiadores feridos, sacrifícios humanos em rituais

religiosos, soldados lesionados em guerra e dissecação de cães, porcos, símios e outros animais não-humanos (EDELSTEIN 1987; MISSIOS 2007). Com a conversão do Império Romano ao Cristianismo em 313 d.C a dissecação do corpo humano, teologicamente idealizado como uma dádiva divina – conforme instrui a epístola de 1o Coríntios (6: 19-20) –, tornou-se um sacrilégio (SIDDIQUEY, HUSAIN, LAILA 2008). Hospitais monásticos medievais inspirados na parábola bíblica do Bom Samaritano (Lucas 10: 25-37) não executavam cirurgias, necropsias ou operações internas; em vez disso, dirigiam suas atividades em ministrar medicamentos e servir como domicílios reservados ao repouso de peregrinos e missionários, além da penitência de enfermos e absolvição de moribundos (RETIEF, CILLIERS 2005; BUKLIJAS 2008). Em 1131 e 1163 dois éditos católicos criaram uma incompatibilidade radical entre cargos religiosos e o contato com o sangue e outros fluidos corporais. Pouco depois, em 1215, o Papa Inocêncio III ratificou essa cisão no Concílio de Latrão e a bula papal de 1299, intitulada De Sepolturis e decretada por Bonifácio VIII, coibiu qualquer tipo de mutilação humana desprovida de finalidade jurídica (WALSH 1904; FRATI et. al. 2006; BAGWELL 2005). Assim, ao longo de toda a Idade Média ocidental não se edificou saberes médico-anatômicos partindo de estudos metódicos com cadáveres humanos (GARRISON 1927; DOOLEY 1973, pp. 13-26), conclusão também legítima para o Islã e os árabes medievais (SHANKS, AL-KALAI 1984; PRIORESCHI 2006). A tradição anatômica renascentista italiana, a qual tem Mondino de Luzzi e Jacopo Carpi como alguns de seus expoentes, rejeitou gradativamente a ortodoxa metodologia

de ensino anatômico. Tradicionalmente, o professor expunha o teor de obras anatômicas clássicas (possivelmente Galeno ou livros inspirados nos conhecimentos desse médico romano) do alto de uma tribuna, enquanto o ostensor pautava a linha de incisão ao demonstrator (que podia ser tanto um castrador de animais quanto um carrasco) (MANJILA 2009). É notório que, quanto ao surgimento dos estudos anatômicos modernos, a escola salertiana de Medicina – além das universidades de Bolonha e Pádua – exerceu uma função incomparável (REBOLLO 2010).

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A partir do século XIV, locais como Veneza, Florença e Montepellier

oficializaram dissecações públicas, também em corpos de executados, e os teatros anatômicos (nos quais era aceitável um leigo acompanhar dissecações) alastraram-se por toda a Europa (SCHUMACHER 2007; MARTINEZ-VIDAL, PARDO-TOMAS 2005). O próprio Andreas Vesalius, consagrado estudioso que no século XVI comandou o departamento de cirurgia e anatomia da Universidade de Pádua, parece ter adotado condutas inusitadas para contornar obstáculos materiais de suas pesquisas, tais como: disputa de ossadas com animais necrófagos em cemitérios, incitação de estudantes a apanharem restos mortais de pacientes falecidos, cultivo em domicílio de corpos de criminosos ilicitamente exumados ou solicitação aos magistrados que atrasassem a data de execução dos condenados para estações climáticas com menor efeito na deterioração do material cadavérico (FRIEDMAN, FRIEDLAND 2006, pp. 18-20; KICKHÖFEL 2003). Outro fator saliente nesse processo de institucionalização da área vincula-se ao fato de que em 1540 o Rei Henrique VIII proibiu que as cirurgias continuassem sendo feitas por tratadores de animais, curandeiros, tira-dentes ou charlatães (BUCKLANDWRIGHT 1985). Profissionais de barbearia foram designados para a função de anatomistas, o que forçou a unificação da sociedade de barbeiros de Londres (que possuía cerca de 185 membros) com os poucos cirurgiões londrinos – que portavam temíveis lancetas, serras de amputação e ferros para cauterização de feridas (PORTER 2004). A intitulada Companhia dos Barbeiros-Cirurgiões passou a qualificar aprendizes em técnicas cirúrgicas, mas também ministrava palestras e realizava dissecações públicas em suas instalações (uma média de quatro cadáveres de executados que lhes seriam doados por ano) mediante pagamento de ingressos. O

grêmio se desfez em 1744, cerca de meio século de atraso com relação a Paris, mas ainda assim influenciou o mesmo costume em outros países (AUDEN 1928; JÜTTE 1989). Verifica-se, pois, que historicamente a captação de material cadavérico para estudo anatômico dependeu da destinação compulsória prisioneiros condenados à morte. A propósito, ainda em 1752 o parlamento britânico estipulou o Ato do Assassinato segundo o qual a destinação do cadáver de condenados para mesas anatômicas consistia em uma etapa da 75


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própria punição jurídica: a entrega dos restos mortais do condenado às mesas anatômicas era

parte integrante da pena capital (HIDELBRANDT 2008). Apesar dessa normatização inicial, alguns fatores ainda contribuíram para a escassez de cadáveres disponíveis entre os séculos XVIII e XIX. Destacamos três: (i) redução do número de óbitos resultante da melhoria na terapêutica das lesões (tais como as dilacerações, queimaduras, infecções, perfurações etc. acarretadas por armas de fogo) (FORREST 1982); (ii) diminuição da aplicação de pena-demorte na Europa (AJITA, SINGH 2007); e (iii) formação de novas escolas médicas, hospitais e enfermarias (SHORTT 1983; McKEOWN 1970). A saída para o problema da demanda por corpos adveio da violação de túmulos, pilhagem de restos mortais e assassinatos de indivíduos sem representatividade social. “Médicos da noite” (“ensacadores” ou “ressuscitadores”, como também ficaram conhecidos) invadiam cemitérios, exumavam os corpos e os encaminhavam para escolas anatômicas (MAGEE 2001). Nos Estados Unidos, por exemplo, os principais alvos desses assaltos foram sepulturas de imigrantes, indigentes e outros grupos vulneráveis (HALPERIN 2007). Todavia, o tráfico de cadáveres atingiu o extremo em Edimburgo quando Willian Burke e Willian Hare descobriram nesse mercado uma lucrativa fonte de renda (HULKOWER 2011). A dupla confessou ter matado mais de quinze vítimas (sobretudo andarilhos e miseráveis, incluindo mulheres e crianças) entre 1827 e 1829, época em que foram capturados (EVANS 2010). Entretanto, tais condutas não constituem episódios isolados no desenvolvimento histórico dos estudos empregando cadáveres humanos – J. Duverney, A. von Haller, J. Hunter, A. Cooper, dentre muitos outros, foram renomados anatomistas os quais erigiram o conhecimento científico através do financiamento da pilhagem criminosa de corpos

humanos (ORLY 1999). Após acaloradas reações populares, a promulgação do Ato Anatômico em 1832 (com reformulações posteriores) pretendeu oferecer uma saída governamental para regulamentar o fornecimento de material para dissecação humana no Reino Unido (MITCHEL et at. 2011). Doravante, asilos, instituições psiquiátricas, abrigos de pobres e falecidos nãoreclamados por parentes em hospitais públicos proveriam as escolas médicas (HUGHES 2007). 76


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Em síntese, os cadáveres para estudo anatômico não seriam mais criminosos executados, mas

idosos, indigentes, lunáticos, andarilhos, alijados e outros membros de grupos social, mental ou economicamente desprotegidos. Tal solução (cuja complexa burocracia provocou a própria corrupção do sistema de captação de corpos) foi incorporada e seguida por muitos outros países (SLAKE 1966). Porém, note-se, ela nem resolveu completamente a dificuldade da demanda legal de cadáveres nem extinguiu práticas de obtenção ilícita ou moralmente protestável de corpos humanos para estudos científicos (STURROCK 1977; MacDONALD 2009; HENDERSON, COLLARD, JOHNSON 1996; DEWAR, BODDINGTON 2004). No século XX, em paralelo ao surgimento de novas metodologias e tecnologias de estudo anatômico, a principal resposta às diversas críticas que envolvem a utilização de cadáveres e restos mortais no estudo anatômico veio, destacadamente, com campanhas de programas de doação voluntária de corpos e tecidos humanos para pesquisas (CHAMPNEY 2011). Em 1968 os Estados Unidos promulgaram o UAGA (sigla inglês para Ato de Doação Anatômica Uniforme, que passou por drásticas transformações em 1987, 2006 e 2010) e reconheceu a plenitude da autonomia do consentimento do doador, em contraste com a polêmica utilização compulsória e forçosa dos restos mortais de indivíduos incapazes, obliterados ou enjeitados (VERHEIJDE, RADY, MCGREGOR 2007; MCKEE 2007). Seria razoável ponderar que esta concepção reflete, em algum nível, os esforços internacionais que almejam estruturar uma regulamentação ética de normas de pesquisas envolvendo seres humanos, como o seminal Código de Nuremberg (1947), as várias versões da Declaração de Helsinque (1964) ou o Relatório de Belmont (1978). Inicialmente, esses

documentos, ao lado de outros similares, visaram reagir às atrocidades cumpridas no contexto da 2a Guerra Mundial com prisioneiros em campos de concentração (HILDEBRANDT 2009a, 2009b, 2009c) e ao vertiginoso desenvolvimento das biotecnologias (como a bomba oxigenadora cardiopulmonar) na segunda metade do século passado (ANDREWS, NELKIN 1998). Dentre muitos outros episódios, três eventos também motivaram reflexões éticas análogas: o polêmico caso Tuskegee (envolvendo estudo de sífilis na população negra norte-americana entre 1932 e 77


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1972), o uso, nos anos 1950 a 1970, da população carcerária da prisão de Holmesburg, na

Filadélfia, em testes de produtos dermatológicos, alucinógenos e farmacológicos; e, nos anos 1960, os experimentos clínicos com mulheres ligados à epidemia da Síndrome da Talidomida (BRANDT 1978; TEIXEIRA 2006; GERRERO 2012; DINIZ, CORRÊA 2001). Porém, aquela hipótese sobre a gênese das campanhas de programas de doação voluntária de cadáveres a partir de normatização de normas de pesquisas carece de suporte textual, pois nenhum daqueles documentos internacionais considera restos mortais como portadores de estatuto moral, logo dignos de proteção (exceto em razão de efeitos emocionais nos reclamantes). De todo modo, o emprego de cadáveres no ensino de Anatomia Humana não é alvo de objeções só no que concerne à truculenta história da captação do material cadavérico (JONES 1994). Como veremos a seguir, essa escarpada controvérsia científica também é alimentada por considerações técnicas, administrativas, clínicas, pedagógicas, psico-sociais, dentre outras.

II –A posição dos céticos tradicionalistas quanto à dissecação de cadáveres

O século XX assistiu um acelerado progresso na fabricação de sensores óticos capazes de eliminar ruídos em imagens digitais e este avanço somou, às possibilidades diagnósticas anteriormente exclusivas ao Raio-X, equipamentos de ressonância magnética (MRI),

ultra-sonografia,

computadorizada

(CT),

tomografia dentre

por

muitas

emissão outras

de

pósitrons

inovações

(PET),

(TRELEASE

tomografia 2002).

Tais

desenvolvimentos estimularam novas formas de aprendizado e análise clínica, impulsionando

também o nascimento da área denominada anatomia computacional (GRENANDER, MILLE 1996). Outra importante novidade para o campo – em paralelo à criação de softwares, bonecos em resina acrílica, atlas multimídia, protótipos artificiais e simuladores para treinamento – foi o surgimento da inovadora (e controversa) técnica de plastinação de cadáveres (WOMBLE 1999; MOORE, BROWN 2004a, 2004b; BATES 2010). Com efeito, tantas modificações tecnológicas e culturais impeliram considerações quanto à possibilidade substituição de restos 78


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mortais no ensino de Anatomia Humana por metodologias mais modernas e eticamente menos

dúbias (PAALMAN 2000). A redução de anatomistas profissionais e as dificuldades de obtenção e manutenção legal de corpos também exercem uma pressão considerável neste processo (BAY, LING 2007). Assim, algumas faculdades de medicina dos Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Espanha e Canadá dispensaram totalmente os meios comuns de ensino anatômico (ELIZONDO-OMAÑA, GUSMÁN-LÓPES, GARCÍA-RODRÍGUEZ 2005). Outras renomadas instituições norte-americanas – como UNY, UCSF, UC-Davis e as universidades de Harvard, Washington e Hawaii –, após reavaliarem seus currículos e excluírem por algum tempo a dissecação, retomaram o modelo tradicional (conjugando-o, todavia, com novas formas de ensino), sob alegação de que o contato direto com cadáveres comporta qualidades consideradas “essenciais” e “insubstituíveis” (RIZZOLO, STEWART 2006). Os céticos tradicionalistas são autores do campo anatômico que ressaltam limitações de tecnologias (programas computacionais, bonecos sintéticos ou simuladores) no desenvolvimento de competências psicossociais próprias às biociências (DYER, THORNDIKE 2000). Asseveram que aquelas opções pedagógico-cognitivas também não estruturam habilidades imprescindíveis ao manuseio competente de instrumentos e aparelhos (GUNDERMAN, WILSON 2005). Sublinham, ademais, que o conhecimento anatômico advindo da dissecação constitui o fundamento da comunicação e da prática médica, sendo base irrevogável da formação de cirurgiões e clínicos (TURNEY 2007). O que observamos, então, é uma recusa da possibilidade de formação médica plena centrada em cyber anatomia e uma ênfase na artificialidade das tecnologias quanto à representação fidedigna das reais estruturas fisiológicas.

Alguns teóricos dessa linha salientam, ainda, que o contato com restos mortais humanos em laboratório instrui o estudante para o trabalho em equipe e para o enfrentamento do fenômeno natural da morte (HASAN 2011). Portanto, o grupo tradicionalista argumenta que manusear o material cadavérico aprimora habilidades cirúrgicas, instrui acerca de patologias e ensina questões morais, seja no contato com o “primeiro paciente” (o cadáver) seja na reflexão sobre a condição humana (PARKER 2002). Por tudo isso, afirma-se, a prática de dissecação de cadáveres transpõe os séculos e supera o rigoroso “teste do tempo” (PRAKASH et al. 2007). 79


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Argumentos em favor da dissecação de cadáveres humanos na formação médica básica 1. Aquisição da linguagem médica 2. Destreza manual e habilidades cognitivas 3. Variação biológico-anatômica 4. Habilita a comunicação com outros profissionais/estimula trabalho em equipe 5. Estabelece uma afinidade do estudante com a morte e/ou modela a subjetividade 6. Envolve diferentes sentidos (além do tato) 7. Ensina o método hipotéticodedutivo da investigação científica 8. Aprendizado tridimensional e organização da estrutura do corpo humano 9. Introduz a relação médico-pacinte (otimização do aprendizado) 10. Bonecos ou modelos plastinados são excessivamente artificiais (não apresentam estruturas mais delicadas e a falsificam a aparência do material original). 11. Treina para especialidades médicas 12. Ensina a história da medicina

ASHRAF AZIZ et al. (2002) SIM SIM

ELLIS (2001)

GRANGER (2004)

SIM SIM

X SIM

KORF et al (2008) SIM SIM

LEMPP (2005)

SIM

SIM

X

SIM

SIM

SIM

SIM

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X X

X X

X X

SIM SIM

_ SIM

Tabela 1 – Cruzamento dos argumentos de ASHRAF AZIZ et al. (2002), ELLIS (2001), GRANGER (2004), KORF et al. (2008) e LEMMP (2005) sobre as vantagens do método tradicional (dissecação de cadáveres) de estudo anatômico.

Não existem revisões de literatura que unifiquem os argumentos dos céticos para advogar a conservação do uso de cadáveres humanos no ensino anatômico. Para tanto, na Tab. 1 elencamos o cerne da posição tradicionalista a partir dos fundamentais textos de Ellis (2001), Asharaf Aziz et al. (2002), Granger (2004), Lemmp (2005) e Korf et al. (2008). O cruzamento das perspectivas indica o seguinte: (1) todos eles concordam que dissecação desenvolve destreza manual e habilidades cognitivas; (2) quatro que ela ensina a variação biológico-anatômica; (3) três consideram que ela auxilia (3a) na aquisição da linguagem médica, (3b) no reconhecimento 80


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da variação biológico-anatômica (patologias), (3c) na comunicação com outros profissionais, (3d)

cria uma afinidade do estudante com a morte e/ou modela a subjetividade dele, (3e) envolve diferentes sentidos na construção do conhecimento e (3f) que o estudo com cadáver humano é a principal ferramenta para o aprendizado tridimensional da estrutura do corpo humano; (4) dois sustentam que instrui para especialidades medicas; e (5) apenas um deles pensa que essa prática (5a) ensina o método hipotético-dedutivo da investigação científica, (5b) não pode ser substituído por bonecos ou modelos plastinados porque eles são excessivamente artificiais (não oferecem as estruturas mais delicadas e a falsificam a aparência do material original) e (5c) instrui sobre a construção histórica da área médica.

III – Argumentos reformistas para o estudo anatômico

Não menos persuasivos são os argumentos elencados pelos opositores da posição tradicionalista. As réplicas mais contundentes dos reformistas decorrem especialmente, embora não exclusivamente, de profissionais inspirados experiência em curso, pelo menos desde 2002, na Peninsula Medical School (Reino Unido). Neste instituto de ciências médicas a dissecação de cadáveres foi totalmente substituída por uma estratégia de ensino na qual, desde o princípio de sua formação, grupos reduzidos de alunos, devidamente supervisionados por radiologistas qualificados e outros profissionais, empenham-se na solução de problemas hipotéticos e efetivos (em média 80 sessões por ano) utilizando tecnologias de imagens computacionais (raios-X, MRI, CT etc.) e contato com a superfície corporal de pacientes, modelos contratados ou

discentes voluntários (cerca de 40 sessões, envolvendo auscultação, apalpação e projeções de imagens) (MCLACHLAN 2004). Primeiro, os responsáveis pelo curso reforçam a inferioridade que, em termos epistemológicos, o aprendizado proposicional (manuais anatômicos acompanhados de observação de dissecação em situações pré-clínicas) apresenta em relação à cognição personalizada e aplicada a casos concretos. Em segundo plano, insistem que as alegadas competências essenciais para a formação médica básica – habilidade manual, espírito 81


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grupal, compreensão das etapas do método hipotético-dedutivo, apreensão 3D das estruturas,

promoção de valores humanistas, conhecimento das variações patológicas e morfológicas, introdução à relação médico-paciente e assim por diante – não decorrem exclusivamente da utilização de cadáveres (MCLACHLAN et. al. 2004). Em lugar da dissecação de restos mortais, os reformistas adotam tecnologias de imagens (mais afinadas com a tendência atual da realidade médico-hospitalar), usam “anatomia viva” (com observação, apalpação e auscultação de pacientes, modelos ou estudantes voluntários) e também outros ferramentais de ensino. Especificamente, são três os procedimentos metodológicos basilares defendidos por esse grupo: (a) “anatomia viva” e anatomia de superfície – exame de partes, projeção corporal, modelos contratados, pintura corporal, atlas digital de anatomia de superfície; (b) imagiamento médico – ultra-som, Raio-X, TC, MRI etc.; e (c) anatomia artificial e virtual – modelos plásticos, simuladores, representações eletrônicas, imagens computacionais (bi- ou tridimensionais) (MCLACHLAN, DE BERE 2004; MCLACHLAN 2003). Em adição, os proponentes reformadores ressaltam que apenas a “anatomia viva” realmente instrui o acadêmico sobre o valor de uma abordagem cuidadosa com os pacientes (MCLACHLAN, PATTEN 2006) e que somente a adoção de tecnologias de projeção de imagens 3D em voluntários vivos permite aos estudantes uma visualização móvel das relações espaciais dos órgãos, estruturas e tecidos humanos (PATTEN 2007). A argumentação acima pode ser complementada com uma catalogação geral, na Tab. 2, de seis graves desvantagens derivadas de implicações negativas próprias à metodologia tradicionalista. (1) Os produtos químicos usados na preservação e fixação dos corpos acarretam

graves reações alérgicas nos usuários e deterioram a estrutura e a forma do material cadavérico. O formaldeído (principal fixador aplicado para inibir a ação de micro-organismos que atuam na decomposição do cadáver) interfere no peso, textura, coloração da pele, músculos e composição genética do cadáver etc., além de apresentar um grande índice de irritação oftalmológica, na mucosa nasal e de ser classificado como cancerígeno pela OMS (BENDINO 2004). Formas de preservação menos danosas (glicerinização, preservação “à seco” ou o uso de argila) não foram 82


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universalmente adotadas pela comunidade anatômica (OH, KIM, CHOE 2009; MEHRA,

CHOUDHARY, TULI 2003; GUIMARÃES DA SILVA, MATERA, RIBEIRO 2004). (2) Preservar, remover, transladar, armazenar e descartar cadáveres (cuja vida útil em laboratório é estimada em cerca de 4 anos) é administrativamente dispendioso e burocraticamente lento (MELO, PINHEIRO 2010). Autoridades sanitárias exigem prédio próprio com estrutura física padronizada (rede elétrica, sistema de esgoto, revestimento, iluminação, ventilação etc.), instalação de câmaras frigoríficas, aquisição de microbicidas e saneantes, contratação de técnicos para laboratório etc. (3) Diversas pesquisas científicas apontam riscos de contaminação – dos técnicos em patologia e demais usuários – por doenças infecciosas cujos agentes não são eliminados

pela

preparação

dos

cadáveres

(BURTON

2003;

DEMIRUÜREK,

BAYRAMOGLU, USTAÇELEBI 2002). Casos documentados incluem, dentre outras enfermidades, doenças como hepatite B e C, HIV-Aids, tuberculose, meningite, síndrome GSS (doença de Gerstmann-Straussler-Scheiker) e CJD (doença de Creutzfeldt-Jakob) (DE CRAEMER 1994; HEALING, HOFFMAN, YOUNG 1995; BELL, IRONSIDE 1993; HILLIER, SALMON 2000). (4) Os processos de socialização de estudantes com a prática de dissecação anatômica propiciam condutas inadequadas de violação de privacidade do cadáver. Essas atitudes vão desde inocentes narrativas de estórias envolvendo a identidade ou proveniência dos restos mortais, pilhagem de partes dos corpos, utilização das peças (especialmente genitálias) em “trotes”, além de gravações, registros fotográficos e exposições públicas não-consentidas dos corpos na internet ou outros meios (HAFFERTY 1988). (5) Estudiosos apontam uma correlação entre o alto índice de esquecimento do conteúdo

anatômico (nomes, funções, estruturas etc.) por parte dos estudantes e o fato de que, na maioria das vezes, a matéria é ensinada como conteúdo pré-clínico, além do que cadáveres não são responsivos e maleáveis (MCLACHLAN, DE BERE 2004; MCLACHLAN 2003; QUINTANA et at. 2008, p. 9). (6) Finalmente, inúmeras análises assinalam que uma porcentagem considerável de estudantes de biociências apresenta reações psico-emocionais decorrentes do contato direto com restos mortais humanos, incluindo transtornos alimentares, 83


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de sono, de ansiedade, de comportamento e estresse (JAVADNIA et al. 2006; BOECKERS et

al. 2010). Cerca de 10% dos estudantes de Anatomia Humana apresenta um ou mais desses sintomas nos primeiros meses de curso, razão pela qual vários especialistas recomendam a criação de programas de suporte psicológico aos discentes (WILLIAMS, TAYLOR, DAWSON 2004; DEMPSTER et al. 2006; DUBHASHI et al. 2011). (1) Efeitos físico-químicos (reações alérgicas e BENDINO (2004); OH, KIM, CHOE (2009); MEHRA, deterioração do material); CHOUDHARY, TULI (2003); GUIMARÃES DA SILVA, MATERA, RIBEIRO, (2004); (2) Inviabilidade administrativa (custo/benefício; MELO, PINHEIRO (2010); exigências das autoridades sanitárias); (3) Riscos à saúde (contaminação com doenças BURTON (2003); DEMIRUÜREK, BAYRAMOGLU, infecciosas); USTAÇELEBI (2002); DE CRAEMER (1994); HEALING, HOFFMAN, YOUNG (1995); BELL, IRONSIDE (1993); HILLIER, SALMON (2000);

(4) Condutas morais inadequadas (exposição HAFFERTY (1988); indevida e utilização não-responsável do material anatômico nos processos de socialização); (5) Cognitivo-pedagógicas (aprendizado descontextualizado e limitações dos cadáveres);

MCLACHLAN, DE BERE (2004); MCLACHLAN (2003);

(6) Psico-emocionais (transtornos alimentares, de JAVADNIA et al. (2006); BOECKERS et al. (2010); sono, de ansiedade, de comportamento e WILLIAMS, TAYLOR, DAWSON (2004); DEMPSTER et estresse); al. (2006); DUBHASHI et al. (2011); Tabela 2 – Principais desvantagens gerais da dissecação de cadáveres no ensino de Anatomia Humana

IV – Observações finais Poucas investigações empíricas abrangentes abordam o impacto das novas tecnologias de ensino na formação anatômica (WINKELMANN 2007). Alguns estudos apontam que grupos instruídos utilizando material cadavérico apresentam resultados mais satisfatórios do que amostras de alunos formados, por exemplo, em alternativas pedagógicas computadorizadas (BIASUTTO, CAUSSA, CRIADO DEL RÍO 2006). Outros sublinham que estudantes que dissecaram cadáveres mostram melhor desempenho nas avaliações do que colegas sem essa vivência (ANYANWU, UGOCHUKWU 2010). 84


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Em resumo, conhecimentos anatômicos adquiridos apenas em situações clínicas concretas

sugerem menor eficiência do que quando são conjugados à dissecação cadavérica (NAYAY et al. 2008). Os próprios estudantes corroboram essa perspectiva (REVERÓN 2010; JOHNSON 2002). Então, os defensores da abordagem tradicional demandam uma uniformização do ensino de anatomia usando dissecação de restos humanos (SUGAND, ABRAHAMS, KHURANA 2010). Porém, apesar das críticas, outros estudos-piloto com acadêmicos do terceiro ano de Medicina em outras instituições apontaram que, de fato, a perspectiva do Aprendizado Baseado em Problemas (PBL, em inglês) gera melhores resultados do que o TDL (Aprendizado Didático Tradicional) (PRINCE et. al 2003; SAALU, ABRAHAM, AINA 2010). Se, pois, em nível pedagógico o debate se mostra inconclusivo ou questionável, a posição cético-tradicionalista, em particular, enfrenta problemas fundamentais. Além dos vários efeitos negativos que somente a prática da dissecação acarreta, alguns dos alegados benefícios da dissecação são ou falaciosos ou compartilhados com abordagens alternativas. Assim, se confrontarmos a Tab.1 (10) com a Tab.2 (5) notamos que tanto bonecos simuladores quanto cadáveres apresentam alterações na coloração, forma, texturas etc. Portanto, a “fidedignidade” do cadáver não é integral ou categórica. Em outro caso, em desacordo com o argumento Tab.1 (5), não há fundamento teórico no raciocínio de que a reflexão tanatológica seja privilegio da formação biomédica ou, mais importante, que a dissecação de corpos seja o método adequado de realizá-la (COHEN, GOBBETTI 2003). Ademais, os argumentos (1), (2), (4) e (6) da Tab.1 parecem ser plenamente consistentes com o referido tripé metodológico do ensino anatômico defendido pelos reformistas, que lançam mão de um pluralismo metodológico que inclui

anatomia viva e de superfície, técnicas de imagiamento e modelos artificiais e virtuais. Uma pesquisa realizada na Nigéria revelou que 21,6% dos cadáveres disponíveis para estudo anatômico provinham de acidentes em rodovias ou corpos não-reclamados (OSUAGWU, IMOSEMI, OLADEJO 2004). Este número indica que, mesmo em menor proporção, restos mortais de pessoas não retirados pelos familiares representam uma porcentagem importante do fornecimento de material para ensino anatômico naquele país (STIMEC, DRASKIC, FASEL 2010; AJITA, SING 2007; HULKWER 2011).

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A legalização do uso de cadáveres não-reclamados se reporta ao combate das práticas

criminosas de obtenção de corpos decorrentes da crescente diminuição de cadáveres disponíveis para estudo a partir do século XVIII. No entanto, embora tenha reduzido a obtenção ilícita de corpos humanos destinados a pesquisas científicas, a permissibilidade jurídica do uso de corpos não-reclamados não torna, por si, essa conduta eticamente legítima (STURROCK 1977; MacDONALD

2009;

HENDERSON,

COLLARD,

JOHNSON

1996;

DEWAR,

BODDINGTON 2004). Os programas de doação voluntária tendem a reconhecer essa diferença conceitual central (mas nem sempre levada em consideração) entre eticidade e legalidade (CHAMPNEY T, 2011; STIMEC, DRAKTIC, FASEL 2010). Assim, estimulam doações fomentando valores morais como voluntarismo, altruísmo ou reciprocidade de benefícios porque priorizam o respeito à vontade autônoma e consentida dos sujeitos ou seus representantes legais relativamente ao destino do corpo (VERHEIJDE, RADY, MCGREGOR 2007). No meio dessas indefinições, a normatização internacional da destinação de cadáveres não-reclamados não engloba diretrizes de uso do material cadavérico nem deriva de uma reflexão sobre o estatuto ético-filosófico de restos mortais humanos (CHAMPNEY 2011). Neste horizonte, os céticos-tradicionalistas ignoram ou simplificam as elaboradas objeções reformistas. Não obstante, tudo leva a considerar que a saída eticamente justificada para superar tal controvérsia científica consiste no fomento de campanhas de doação voluntária e consentida de corpos, cujos resultados já se mostram extremamente positivos (PAWLINA et. al. 2011). Concepções que ambicionem apoiar o avanço do conhecimento usando corpos humanos, preterindo, para tanto, princípios humanistas – principalmente o consentimento voluntário e

esclarecido e o direito à privacidade (abarcando corpos não-reclamados) –, antepõem negócios e valores científicos ao respeito das vontades individuais autônomas quanto à destinação do material cadavérico (incluindo, note-se, os caracteres cromossômicos que comportam dados genéticos de terceiros) (BRAZIER 2008). Tais concepções, tudo leva a crer, afiguram-se como uma espécie de retrocesso face aos avanços morais e tecnológicos logrados, não sem muito empenho, ao longo do século XX (e, de resto, definidores da escarpada agenda bioética do século XXI).

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Luiz Henrique de Lacerda Abrahão Professor de História, Filosofia e Historiografia das Ciências do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG campus Ouro Preto) E-mail: luizpaideia@hotmail.com Pesquisa financiada pelo CNPq e vinculada às atividades acadêmicas do NEFHIS-CT (Núcleo de Ensino, Filosofia e História da Ciência e da Técnica do IFMG-OP). 97


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